Human Systems · Terapia familiar

A experiência de díades expostas em conjunto à violência doméstica: narrativas de crescimento, conexão e resistência

O que acontece, anos depois, com uma mãe e uma filha que sofreram juntas a violência doméstica? Leighton King e colegas da Universidade de Hertfordshire entrevistaram duas díades mãe-filha, em conjunto e depois separadamente. Seus relatos falam de um impacto que ressurge sem aviso, de serviços às vezes mais danosos do que úteis e de uma resistência que passa antes de tudo pela relação entre elas.

Autores Leighton King (Universidade de Hertfordshire; Psicologia Pediátrica, Hospital Luton and Dunstable); Barbara Rishworth (Universidade de Hertfordshire); Jo Hadfield (West Berkshire Family Safeguarding Service)Primeira publicação Human Systems, 9 de junho de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A experiência de díades expostas em conjunto à violência doméstica: narrativas de crescimento, conexão e resistência, de Leighton King, Barbara Rishworth e Jo Hadfield, publicado na Human Systems (SAGE) (2026), doi: 10.1177/26344041251337007, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; o endereço de correspondência não foi reproduzido. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Dada a amplitude de sua resistência, proponho uma mudança de vocabulário: de sobrevivente-vítima para sobrevivente-vítima-resistente.

Leighton King, Barbara Rishworth e Jo Hadfield

Resumo

Contexto: O impacto psicológico da violência e/ou do abuso doméstico (doravante, violência doméstica) pode continuar muito depois do fim do abuso. A pesquisa sobre intervenções psicológicas para pessoas que sofreram violência doméstica no passado é limitada. Esta pesquisa realizada no Reino Unido explora como díades intergeracionais dão sentido à violência doméstica e como lidaram com seu impacto. Método: Esta pesquisa utilizou a investigação narrativa (Riessman, 2008) para explorar as histórias de duas díades mãe-filha, quatro participantes no total que sofreram violência doméstica, com foco em como as narrativas mudaram ao longo do tempo e no impacto da relação dentro da díade. Foi usado um desenho inédito, com entrevistas das díades em conjunto e depois separadamente, para ajudar a compreender o impacto da relação. Ao todo, foram realizadas duas entrevistas diádicas conjuntas e quatro entrevistas individuais. Resultados: Foram identificadas três histórias coletivas: (1) “A relação com a violência doméstica”, (2) “Compreensão e conexão” e (3) “O apoio certo na hora certa”. Dentro dessas histórias coletivas havia quatro sub-histórias: (1) “Atos de resistência”, (2) “Mãe e filha”, (3) “A falha dos serviços” e (4) “Vidas encarnadas”. Essas histórias estavam fortemente entrelaçadas e falavam da resistência de cada uma, sobretudo por meio de suas relações mútuas. Conclusão: A pesquisa mostra que as díades que vivem a violência doméstica sabem como o abuso pode afetá-las e como podem lidar com esses efeitos. As recomendações clínicas que se podem tirar dessa expertise incluem: sugestões sobre o vocabulário; a necessidade de um apoio variado em abordagem e objetivo; a possibilidade de acessar diferentes apoios ao longo da vida; a importância de considerar as experiências encarnadas de sofrimento; a importância da construção de sentido; os benefícios de uma abordagem mais relacional e colaborativa na gestão de risco pelos serviços; e o valor dos paradigmas terapêuticos que privilegiam as relações, a comunidade e o trabalho com o trauma intergeracional. Esta pesquisa aponta uma direção para pesquisas futuras ao sugerir a exploração de grupos mais heterogêneos.

Palavras-chave: abuso doméstico, violência doméstica, investigação narrativa, díade, resistência, construção de sentido, terapia

Introdução

As estatísticas mais recentes publicadas pelo Office for National Statistics indicam que 2,1 milhões de pessoas sofreram violência e/ou abuso doméstico entre 2022 e 2023 (Office of National Statistics, 2023). Estima-se que, no Reino Unido, homens matem uma mulher a cada três dias (Femicide Census, 2021). É difícil obter dados confiáveis sobre as tendências mundiais da violência doméstica. Num relatório de 2018, a Organização das Nações Unidas (ONU) estimava que cerca de uma em cada três mulheres no mundo havia sofrido violência doméstica (United Nations, 2018). Num relatório posterior, a ONU estimou que 47.000 mulheres e meninas foram mortas em 2020 por um parceiro íntimo ou outro membro da família, o que equivale a uma mulher ou menina assassinada a cada 11 minutos por um familiar. Esses números indicam a imensa escala da violência doméstica no mundo e seu impacto potencialmente letal.

Os possíveis impactos da violência doméstica são variados e muito específicos de cada situação. Há, no entanto, uma literatura ampla que descreve esses possíveis impactos. Existem diversos impactos possíveis sobre a saúde física, com risco aumentado de: lesão cerebral traumática por golpes na cabeça (Cimino et al., 2019; Costello e Greenwald, 2022); problemas de saúde reprodutiva decorrentes de agressão física ou sexual (Amel Barez et al., 2022; Sarkar, 2008); morte por homicídio e doenças de alta mortalidade associadas ao estresse crônico, como as doenças cardíacas (Chandan et al., 2019, 2020; Koenraadt, 2018). Os impactos psicológicos podem incluir maior risco de problemas de saúde mental em geral, mas sobretudo uma probabilidade particularmente alta de TEPT, ansiedade, depressão, baixa autoestima, apego perturbado e maior risco de suicídio (Herman, 2015; Humphreys e Thiara, 2003; Munro e Aitken, 2020). Os impactos sociais podem incluir dificuldades financeiras persistentes, problemas de moradia e estigma social (Conner, 2013; Galántai et al., 2019; Murvartian et al., 2023). Em resumo, a violência doméstica tem muitos impactos possíveis, com consequências que transformam ou encerram vidas. A seção “Epistemologia e linguagem” deste artigo vai definir e contextualizar melhor o uso do termo violência doméstica e da linguagem comumente associada a ele. Isso inclui dar transparência às reflexões de quem conduziu a pesquisa sobre a violência de gênero e sobre como o poder opera no contexto sociopolítico do Reino Unido.

Modos de compreender

Com a violência doméstica tão comum e seu impacto potencial tão danoso, surge o convite a pensar em como dar sentido a esse impacto. Há muitas formas de conceituá-lo, mas talvez algumas das mais usadas, sobretudo na saúde e na assistência social, sejam a teoria do apego, a teoria do trauma intergeracional e a literatura sobre as experiências adversas na infância (Adverse Childhood Experiences, ACE).

A teoria do apego oferece uma estrutura para entender como as primeiras relações podem influenciar as relações posteriores. A teoria do apego inicial se concentrou nas interações parentais, especialmente maternas, com as crianças, e em como elas influenciavam seu funcionamento ao longo da vida (Ainsworth, 1978; Ainsworth e Bowlby, 1991; Bowlby, 1979). Supunha-se que a perturbação precoce dessa relação levaria a “prejuízos” na cognição, no desenvolvimento da identidade, na regulação emocional e nas habilidades sociais. Surgiram críticas quanto à sua pertinência para culturas coletivistas e à fixidez que atribui ao estilo de apego (Fraley e Shaver, 2008; Lee, 2003). Outros modelos de apego foram propostos; talvez o mais destacado hoje seja o Modelo Dinâmico-Maturativo do Apego (Dynamic-Maturation Model of Attachment, DMM), que integra várias ideias (Crittenden, 2006). O DMM responde a muitas das lacunas da teoria do apego inicial e só foi introduzido na prática relativamente há pouco tempo, mas tem uma base de evidências crescente (Crittenden, 2011; Crittenden et al., 2021; Spieker e Crittenden, 2018).

A noção de trauma intergeracional ressalta que o trauma pode ser transmitido entre gerações de uma família, seja pela epigenética, seja pelas interações relacionais (Isobel et al., 2021; Lev–Wiesel, 2007; Menzies, 2008). A literatura indica que o impacto da violência doméstica pode ser duradouro e se transmitir entre gerações. Isso pode incluir ciclos intergeracionais de abuso, em que, a cada geração que se torna mãe ou pai, a experiência de abuso contribui para que o abuso seja, por sua vez, praticado (Hoffart e Jones, 2018; Lünnemann et al., 2019; Rees e Evans, 2021).

A noção de experiências adversas na infância (ACE) vem de um estudo de grande escala realizado na Califórnia (Felitti et al., 1998). Equipes de atenção primária observaram uma tendência que ligava a saúde física precária na vida adulta a experiências psicologicamente danosas na infância e na adolescência. Observaram também um aumento de desfechos sociais e psicológicos desfavoráveis. As ACE estudadas eram o abuso físico, emocional e sexual na infância, além de testemunhar violência doméstica, uso abusivo de substâncias, problemas de saúde mental, separação conflituosa dos pais e encarceramento de um dos pais (Anda et al., 2006; Boullier e Blair, 2018). A ideia de ACE reuniu uma rica base de evidências, com várias revisões sistemáticas (Hardt e Rutter, 2004; Hughes et al., 2017; Kalmakis e Chandler, 2015). Mais recentemente, porém, também recebeu críticas quanto ao seu uso (Kelly-Irving e Delpierre, 2019; Macvarish e Lee, 2019). Observou-se, em especial, que as ACE são usadas de forma preditiva, com uma certeza excessiva que diminui a agência das pessoas e dos pais para negociar e resistir ao impacto dessas experiências. O uso das ACE também pode não ter considerado as diferentes experiências em diferentes culturas e comunidades. Por fim, as ACE foram, em alguns casos, usadas para inferir a culpa individual dos pais, quando deveriam servir para evidenciar as falhas da sociedade e garantir equidade para quem está em maior desvantagem.

A teoria do apego, as ACE e o trauma intergeracional foram contribuições valiosas para a saúde e a assistência social. No contexto dos serviços sociais para a infância (Children’s Social Care, CSC), em particular, são ideias-chave, usadas com frequência na prática e muitas vezes citadas em relatórios judiciais (S. Webb e Gray, 2012). Embora seja fundamentalmente uma instituição que busca garantir o bem-estar de crianças e famílias e que cumpre uma função de proteção pública, o CSC recebeu algumas críticas (Ainsworth e Hansen, 2012). A decisão de retirar ou não crianças de um ambiente potencialmente danoso, por exemplo quando estão expostas à violência doméstica, é difícil, porque, segundo a teoria do apego, retirar uma criança de um ambiente familiar, com suas “figuras de cuidado”, tem um impacto negativo profundo. Isso costuma ser ponderado com as ACE, o trauma intergeracional e a busca de exemplos de apego “disfuncional”, usados como justificativa para retirar uma criança (Crittenden, 2011; Kwako et al., 2010; Spieker e Crittenden, 2018). Há exemplos claros em que a retirada de uma criança foi um passo necessário para proteger as crianças (Forrester, 2017). A ética disso, porém, é complexa: quem decide, por exemplo, o que é uma “boa parentalidade” e o que é “danoso” (Bornstein, 1991; Chen et al., 2019)? A teoria pode ser mal utilizada e apresentada como fato, com pretensões de validade e previsibilidade muito maiores do que ela realmente tem (Krieg, 2023; Thyer, 2008). Aspectos de discriminação sistêmica e pessoal podem influenciar as decisões de retirar crianças, havendo racismo nos sistemas de assistência social (Bartholet, 2011; Berkman et al., 2022; Rodenborg, 2004). Além disso, ocorreram abusos graves e sistêmicos contra crianças em acolhimento institucional (Biehal, 2014; Euser et al., 2013; Hobbs et al., 1999). Quem conduziu a pesquisa reflete sobre a tensão entre proteger as crianças e respeitar a vida familiar e os modos de exercer a parentalidade. Pergunta-se também que oportunidades de cura relacional, de experiências emocionalmente corretivas e de catarse podem estar sendo limitadas.

Uma lacuna na literatura

Dada a frequência da violência doméstica e a gravidade de seu impacto, a maior parte das pesquisas, dos recursos e das intervenções se concentra em reconhecer o abuso e ajudar as pessoas a sair de situações abusivas. Essa abordagem preventiva busca reduzir ao mínimo as oportunidades de dano. Ela foi afetada pela austeridade contínua, que provocou grandes perdas no setor público em tamanho dos serviços, em pessoal e em especialização (Bach, 2016; Peters, 2012; Stuckler et al., 2017), sobretudo nos serviços especializados em violência doméstica (Donovan e Durey, 2018; Sanders-McDonagh et al., 2016). Embora a prevenção seja sempre preferível, o contexto atual não a facilita e faz com que muitas pessoas sejam expostas à violência doméstica.

A ênfase na prevenção faz com que haja relativamente pouca pesquisa sobre a adaptação de intervenções para apoiar as pessoas depois do abuso, sobretudo muito tempo depois. Várias abordagens são usadas com pessoas que sofreram abuso, apoiadas numa pequena base de evidências. Além disso, grande parte dessa base se concentra em intervenções psicológicas individuais. Embora as pessoas possam encontrar grande valor nas intervenções individuais, a violência doméstica é uma forma de dano fundamentalmente relacional, praticada num ambiente e numa relação em que as pessoas deveriam se sentir seguras. Seu impacto é muitas vezes observado entre gerações, da figura de cuidado para a criança. As experiências traumáticas podem desconectar as pessoas de suas relações e de seus valores, de um modo que nem sempre as intervenções tradicionais conseguem reparar (Afuape, 2011, 2016). Observa-se que as relações têm grande influência como mediadoras do impacto e da avaliação do abuso a curto prazo (Bowyer et al., 2015; Jones e Vetere, 2017). No entanto, não existe literatura que explore as relações de forma longitudinal, possivelmente muitos anos depois da violência doméstica. Quem conduziu a pesquisa vê a violência doméstica como um abuso singularmente relacional, em que o ambiente e as pessoas com quem se deveria ter a maior segurança são justamente aqueles em que se sofre um dano grave, o que tem um impacto enorme nas relações futuras.

Assim, para compreender melhor o impacto relacional da violência doméstica, esta pesquisa explorou, por meio da investigação narrativa (IN), as histórias de díades que foram expostas em conjunto à violência doméstica, como crianças e figuras de cuidado.

Perguntas de pesquisa

  • Que narrativas são construídas e como elas mudaram ao longo do tempo?
  • Como essas narrativas construíram o abuso e as relações afetadas pela violência doméstica?
  • Que narrativas são compartilhadas entre figura de cuidado e criança, e que narrativas ficam restritas a cada pessoa?

Epistemologia e linguagem

Quem conduziu a pesquisa entende que o discurso é socialmente criado e que, por sua vez, o discurso determina a realidade em que as pessoas vivem. Consequentemente, quem detém o poder influencia o discurso e, por extensão, dita a realidade (Foucault, 1977). Como escreveu Martin Haberman, “A linguagem não é um reflexo inocente de como pensamos. Os termos que usamos controlam nossas percepções, moldam nossa compreensão” (Haberman, 2000, p. 203). Por isso, as escolhas de linguagem serão explicitadas. Nesta pesquisa, a violência doméstica é definida como uma ação ou omissão que prejudica, real ou potencialmente, outra pessoa da mesma família, do mesmo lar ou da comunidade próxima. Pode ser um evento único ou muitos eventos. Quem pratica a violência e/ou o abuso pode também já não estar no mesmo ambiente doméstico no momento em que causa o dano. A violência e o abuso costumam se situar nos domínios físico, emocional, psicológico, sexual, financeiro, digital, cultural ou espiritual, mas podem ir além deles. A experiência de sofrer abuso doméstico não se restringe a nenhum gênero, sexualidade, idade ou qualquer outra forma pela qual as pessoas possam se assemelhar ou se diferenciar em sua identidade. Mais comumente, porém, ela é praticada por homens.

Os termos vítima e sobrevivente posicionam as pessoas de modo diferente: “vítima” pode sugerir falta de agência, e “sobrevivente” não abrange as muitas pessoas que não sobrevivem ao abuso doméstico (Hoff, 2016; Jacques, 2021; Little, 2023). Será usado o termo sobrevivente-vítima, para sustentar maior complexidade e nuance dessas experiências. Isso também reconhece a fluidez da identidade e o fato de que a relação de uma pessoa com a condição de sobrevivente ou de vítima pode mudar em função de muitos fatores.

Vou construir a prática do abuso como um dano causado por alguém que ocupa, naquele momento, uma posição de maior privilégio e poder, contra alguém com menos privilégio e poder naquele momento. A relação de uma pessoa com o poder e o privilégio é ditada pela forma como ela é percebida segundo sua localização geográfica, seu momento histórico e as pessoas com quem se relaciona, já que todos esses domínios afetam o contexto do poder e do privilégio (Fanon, 2016; Foucault, 2019; Harvey, 2019). Fundamentalmente, é necessária uma disparidade de poder para praticar o abuso, o que significa que nenhum gênero, nem qualquer outra característica, indica por si só quem pratica ou quem sofre o abuso, ao mesmo tempo que se reconhece por que a violência doméstica é praticada predominantemente por homens.

Método

As abordagens terapêuticas específicas para a violência doméstica são uma área pouco pesquisada, sobretudo em comparação com a prevalência dessa violência. Por isso, é difícil oferecer teorias robustas e bem fundamentadas. Assim, usar métodos indutivos para gerar dados ricos sobre as experiências das pessoas com a violência doméstica seria o mais sólido do ponto de vista metodológico (Azungah, 2018). Várias metodologias foram consideradas. A análise fenomenológica interpretativa, embora adequada para explorar experiências complexas, talvez seja menos adequada para lidar com experiências situadas em paisagens socioculturais cheias de nuances. A teoria fundamentada teria produzido uma compreensão rica de um processo social complexo, mas teria dificuldade em responder às perguntas de pesquisa com os dados disponíveis. A análise temática foi seriamente considerada, mas poderia ter dificuldade com a complexidade de um conjunto de dados tão multidimensional, com várias narradoras, sobretudo se essas narrações fossem muito dissonantes numa amostra pequena. A análise do discurso teria respondido bem às perguntas de pesquisa do ponto de vista epistemológico e ontológico. Acabou não sendo usada por seu potencial de ser excessivamente hermenêutica e analítica, o que destoava da preocupação ética de não reproduzir involuntariamente experiências de abuso e de manipulação psicológica (gaslighting) ao minimizar, apropriar-se ou alterar as narrativas. Por fim, escolheu-se a investigação narrativa, que, embora não isenta de limitações, pareceu a mais adequada.

A investigação narrativa designa um grupo de métodos qualitativos que buscam explorar histórias (Nollaig, 2011). Ao explorar narrativas, a IN considera o que está sendo contado, como está sendo contado, para quem e por quê (Riessman, 2008). A IN considera também o contexto sociopolítico, bem como a relação entre quem conta a história e quem conduz a entrevista (Greenhalgh, 2016). Todos esses domínios se reúnem na IN para produzir uma compreensão de uma história que é complexa e totalmente própria daquela narração.

Nesta pesquisa, entrevistar díades trouxe um domínio adicional e sutil. Acrescentou, a cada narração, outra narradora e outro membro da plateia, além de oferecer oportunidades para que as narrativas convergissem e divergissem. Além disso, considerou-se como a narração era coconstruída na díade, tanto na estruturação e na narração ativas quanto no que ficava ausente, mas implícito, em diversas comunicações não verbais e em escolhas de não contribuir.

A IN preserva as narrativas completas das pessoas participantes, o que lhes permite influenciar mais os resultados. Isso é especialmente valioso em contextos em que as experiências e histórias são silenciadas, apropriadas ou ficam por contar (Daiute, 2013). É o que acontece na violência doméstica, em especial no controle coercitivo. Por isso, usar um método com a menor chance de reproduzir esse dano foi uma parte essencial e ética desta pesquisa. Dito isso, a IN, num enquadre construcionista social, reconhece a subjetividade da pesquisa e o fato de que, ao escrever esta pesquisa, produz-se essencialmente uma narrativa (a compreensão do que ocorreu na vida das participantes) dentro de uma narrativa (a narração feita a quem conduziu a pesquisa) dentro de uma narrativa (a escrita desta pesquisa) (Dubnewick et al., 2018; Trahar, 2006). A IN acolhe a multiplicidade de interpretações subjetivas e permite conclusões plurais (Bhattacharya, 2016).

Ética

A aprovação ética deste estudo foi concedida pelo comitê de ética da Universidade de Hertfordshire. As participantes deram consentimento informado e podiam se retirar da pesquisa até duas semanas depois da última entrevista.

Embora a pesquisa em si não explorasse fundamentalmente as experiências de abuso, mas o que veio depois, quem conduziu a pesquisa reconhece que o conteúdo ainda assim podia ser angustiante. Por isso, foi elaborado um protocolo de manejo do sofrimento para lidar de forma proativa com o sofrimento das participantes. Um encontro de 45 minutos para redigir de forma colaborativa um plano de segurança com as participantes serviu para pensar em como lidar com um possível sofrimento. As próprias entrevistas incluíam momentos de “acolhida” e de “encerramento” no início e no fim de cada entrevista, além de pausas combinadas previamente para que as participantes pudessem interromper. O anonimato foi garantido do começo ao fim com o uso de pseudônimos.

Participantes

As pessoas participantes eram díades que sofreram em conjunto a violência doméstica praticada contra elas. Exemplos dessa relação podem ser mãe ou pai e filho ou filha, membros de uma fratria com idades diferentes ou pessoas que moram juntas sem parentesco. Foram incluídas díades familiares para permitir investigar melhor o impacto relacional longitudinal da violência doméstica, bem como o enfrentamento desse impacto ao longo do tempo. Os papéis de figura de cuidado e criança foram incluídos para permitir considerar os impactos intergeracionais da violência doméstica e o enfrentamento desses impactos. Optou-se por “figura de cuidado e criança” em vez de “pai ou mãe e criança” para não privilegiar indevidamente a experiência das famílias heteronormativas, das famílias ocidentais e das famílias sem experiência de acolhimento. O tempo decorrido desde o abuso não foi usado como critério, porque, pelo que a teoria do trauma nos ensina, ele não prediz de forma definitiva a elaboração da experiência nem a redução do sofrimento emocional. A equipe também considerou que o próprio tema do estudo provavelmente afastaria pessoas não preparadas para falar dele. O protocolo de manejo do sofrimento também funcionaria como salvaguarda nesse sentido.

Duas díades, ou seja, quatro pessoas, foram recrutadas para este estudo: duas duplas mãe e filha, sobreviventes-vítimas (Tabela 1).

Tabela 1 — Critérios de inclusão e exclusão

  • Critérios de inclusão. Díade com 18 anos ou mais, com relação anterior de criança e figura de cuidado; exposição conjunta à violência doméstica; falar inglês; poder participar das entrevistas e do encontro prévio.
  • Critérios de exclusão. Pessoas que estejam numa relação abusiva; díades que incluam alguém que tenha praticado violência doméstica; pessoas que pareçam abaladas demais com o tema para participar da pesquisa com segurança; pessoas incapazes de consentir de forma significativa com o estudo, por exemplo por falta de capacidade, conforme o Mental Capacity Act 2005.

Coleta de dados

A coleta de dados foi feita por entrevistas semiestruturadas: duas para cada pessoa, três por díade. Depois do plano de segurança, quem conduziu a pesquisa entrevistou a díade em conjunto. Na semana seguinte, entrevistou separadamente cada pessoa da díade. Essa abordagem inédita, que combina entrevistas com a díade e individuais, foi escolhida por várias razões. Dado o foco nas relações e nos padrões intergeracionais, entrevistar as participantes em conjunto parecia facilitar essa discussão de forma mais eficaz. Entrevistá-las tanto em conjunto quanto individualmente buscava oferecer oportunidades para explorar a convergência e a divergência das narrativas que a díade poderia compartilhar. Por fim, dado o período relativamente longo explorado, eram necessárias várias entrevistas para oferecer espaço suficiente a essa exploração.

O formato de entrevista diádica seguida de entrevista individual foi uma escolha longamente pensada com minha equipe de pesquisa. Colocar a entrevista individual em segundo lugar permitia explorar narrativas específicas sem a repetição que haveria na ordem inversa. Além disso, colocar a entrevista individual em segundo lugar permitia a quem conduzia a pesquisa lidar de forma mais eficaz com qualquer sofrimento.

Foi oferecida a opção de entrevistas on-line ou presenciais, conforme a distância, mas todas as participantes optaram por entrevistas por vídeo na plataforma de videoconferência Zoom. As entrevistas foram semiestruturadas e gravadas em vídeo e áudio.

As perguntas feitas nas entrevistas buscavam guiar levemente as participantes na narração de suas histórias. Procuravam explorar tanto o impacto do abuso quanto a forma como ele foi negociado. As perguntas eram semelhantes entre os tipos de entrevista, para suscitar narrativas individuais e diádicas. As entrevistas foram depois transcritas literalmente por quem conduziu a pesquisa. A análise dos dados foi feita tanto em documentos Word quanto com papel e caneta.

Abordagem de investigação

Depois de transcrever as entrevistas, quem conduziu a pesquisa ouviu as gravações e leu as transcrições repetidas vezes, tanto para confirmar a exatidão quanto para mergulhar nos dados. Alcançada essa imersão, percorreu várias vezes as transcrições junto com as gravações de áudio e começou a identificar narrativas. Algumas estavam próximas umas das outras; outras se espalhavam ao longo das entrevistas. As falas de entrada e de saída (Riessman, 2008) foram um guia útil para identificar onde as histórias se abriam, se fechavam ou se reabriam ao longo da transcrição. Cada narrativa foi mapeada e analisada para explorar como se cruzavam e divergiam no texto. Uma vez contextualizada cada narrativa nas transcrições em relação às diferentes narradoras, às entrevistas e às outras narrativas, elas foram classificadas em histórias e sub-histórias.

Depois da identificação das narrativas, quem conduziu a pesquisa percorreu cada narrativa e as transcrições como um todo, atentando para categorias analíticas adaptadas para esta pesquisa a partir dos escritos de Andrews (2021), Mik-Meyer e Järvinen (2020) e Nollaig (2011). Essas categorias eram temática, estrutural e dialógica/performativa. A temática se concentrava no que está sendo dito e na linguagem usada para dizê-lo. Para isso, foram consideradas perguntas como “O que está sendo dito?”, “O que não está sendo dito?” e “Onde as histórias e a linguagem das díades convergem e divergem?”. A estrutural se concentrava em como uma narrativa se organiza quanto à sequência das informações e aos domínios explorados. Aqui, foram consideradas perguntas como “Esta história é coerente quando contada separadamente e em conjunto?”, “Ela é coerente para mim? Poderia ser coerente para outras pessoas?” e “Que partes da história recebem mais ou menos foco com essa sequência?”. Por fim, a dialógica/performativa se concentrava na coconstrução das narrativas entre as pessoas: como as narrativas podem mudar ou não conforme a plateia presente e como se contextualizam no mundo sociopolítico em que as pessoas vivem. Entre as perguntas consideradas estavam: “Para quem esta história está sendo contada?”, “Quem não está contando esta história, e por quê?”, “Como minha identidade afeta minha escuta, o que eu privilegio?”, “Como esta narração é informada pelo contexto das narradoras e das plateias?” e “O que a pessoa que narra privilegia?”. Por sua natureza, esse processo exigiu reflexão e reflexividade contínuas para considerar as interpretações e contribuições de quem conduzia a pesquisa.

É preciso reconhecer que, embora a análise tenha sido conduzida de forma rigorosa e reflexiva, outras leituras dos dados poderiam levar a percepções diferentes e igualmente válidas. Interpretações subjetivas alternativas não se opõem necessariamente: são apenas outra interpretação de uma experiência multifacetada (Riessman, 2008).

Investigação narrativa

As entrevistas diádicas teceram narrativas ricas e multifacetadas. Algumas narrativas pareceram inicialmente tangenciais por causa da conarração diádica. Uma grande riqueza de sentido surgiu da atenção a quem falava e quando, a quem não contribuía, à comunicação não verbal e ao efeito de tudo isso sobre a narradora original. Quem conduziu a pesquisa incentiva você, que lê, a cuidar profundamente de si durante a leitura. Ao ler as histórias abaixo, considere as palavras de Frank Arthur (2013): “as histórias não são material a ser analisado; são relações nas quais se entra”.

Contexto

Esta seção traz um breve resumo de informações sobre as participantes, para ajudar a contextualizar as narrativas. As pessoas que participaram desta pesquisa são pessoas incríveis e multifacetadas, cujo contexto não se limita à violência doméstica. A breve descrição e as citações deste artigo não devem ser consideradas a totalidade de seu contexto rico e singular. Foi necessário fazer algumas pequenas alterações ou omitir certas informações para garantir o anonimato das participantes. Isso foi feito com cuidado, para não alterar o sentido do que foi dito.

A díade A era formada por Charlene (mãe) e Brooke (filha). Charlene tinha passado por acolhimento institucional e ela mesma havia sofrido violência doméstica na infância. Brooke ainda tinha contato com a pessoa que a havia abusado. Brooke estava grávida do primeiro filho na época da entrevista. Brooke tinha sido retirada dos cuidados de Charlene por um período pela autoridade local (local authority, LA). Brooke havia sofrido outros abusos durante o acolhimento. Charlene e Brooke sentiam que a autoridade local as tinha abandonado e também discriminado Charlene com base em sua idade, gênero, cor da pele e classe social. Charlene e Brooke tinham feito terapia pessoal extensa e haviam trabalhado em serviços de saúde.

A díade B era formada por Angelica (mãe) e Alice (filha). Angelica e Alice ainda tinham algum contato com a pessoa que praticou o abuso. Elas tinham se mudado muitas vezes desde que o abuso ocorreu. Alice tinha feito terapia pessoal em diferentes momentos e era ela mesma profissional de saúde. Angelica tinha tido acesso breve a aconselhamento, mas se sentira apoiada principalmente pela família, pelas amizades e pela comunidade espiritual. Angelica e Alice demonstraram grande cuidado em sua narração e muitas vezes pareciam bem-humoradas uma com a outra (Tabela 2).

Tabela 2 — Tabela de resultados

  • A relação com a violência doméstica. Sub-história: atos de resistência.
  • Compreensão e conexão. Sub-história: mãe e filha.
  • O apoio certo na hora certa. Sub-histórias: a falha dos serviços; vidas encarnadas.

A relação com a violência doméstica

Todas as participantes falaram das inúmeras formas pelas quais a violência doméstica afetou sua vida e continua a se manifestar. Brooke refletiu que não sentiu ter percebido o impacto de imediato: “não era algo em que eu, eu realmente pensasse até estar, sei lá, *pausa* no começo dos meus vinte anos”. Ela acrescentou: “Só quando entrei num relacionamento estável é que comecei a conseguir notar alguns dos impactos”. Isso indica uma compreensão do impacto da violência doméstica que não segue uma cronologia linear, mas também como um relacionamento foi parte fundamental desse processo. Mais tarde, Brooke diria esperar que o impacto continuasse a aparecer em sua vida: “Acho que nunca vai haver um ponto final. É algo que aconteceu”.

Angelica refletiu sobre o impacto da violência doméstica: “é como se tivesse algo pendurado no seu pescoço, sabe, meio que te segura, e, e isso pode te deixar doente”. Explicou também como o luto às vezes se infiltrava em sua vida em certos marcos, algo semelhante a um luto recorrente (Rosenblatt, 1996), mas que ela tinha aprendido a lidar com isso: “tentar mudar coisas na minha vida para, para não ficar remoendo. É a expressão certa, no que aconteceu, porque aconteceu. Aconteceu mesmo, mas já saímos disso”.

Alice compartilhou uma narrativa semelhante à de Brooke, em que um relacionamento seguro antecedeu o aparecimento do impacto da violência doméstica em sua vida: “aquela pessoa era, tipo, maravilhosa, muito segura, muito continente, muito conectada… Então comecei a notar minha saúde mental piorando, e eu estava me afastando do esporte, nesse sentido comunitário, e acho que havia algo em estar num lugar muito seguro com uma pessoa segura que fez essas coisas se desfazerem”. Alice comentou ainda como elas se mudaram várias vezes nos anos seguintes à violência doméstica e como isso contribuiu, para ela, para elaborar essa violência: “Acho que havia algo em deixar o ambiente onde coisas difíceis tinham acontecido… que minha mente e meu corpo começaram a pensar: ah, agora você está fora daquela zona, eeeee a gente vai começar a pensar em algumas dessas coisas.”

As participantes falaram do impacto difuso e invasivo da violência doméstica em sua vida. Ele havia se estendido por longos períodos e afetado muitos domínios da vida, mesmo depois do fim do abuso. A literatura confirma que o impacto da violência doméstica é difuso e contínuo, muitas vezes pelo efeito sobre o apego e pelo trauma psicológico (Fox et al., 2014; Hulley et al., 2023; Tarquinio et al., 2012), mas também pelos impactos materiais da violência doméstica sobre as finanças, a moradia e a saúde física (McCaw et al., 2007; Sharp-Jeffs, 2015). Todas as participantes compartilhavam a experiência de que aquilo nunca iria “embora”. Falaram de como o impacto da violência doméstica se infiltrava em sua vida, às vezes em momentos óbvios, mas também em momentos aparentemente desconectados, o que muitas vezes era angustiante ou frustrante quando o impacto parecia distante. Uma das maiores preocupações quanto à exposição à violência doméstica na adolescência é o potencial de perturbação do apego e o modo como a violência doméstica pode afetar as relações futuras (Hou, 2020; Little, 2023). Talvez a narrativa mais constante sobre quando o impacto da violência doméstica aparecia para as participantes fosse a dos relacionamentos amorosos, que ora despertavam preocupações semelhantes em torno da confiança, ora criavam um ambiente tão seguro que permitia uma elaboração inesperada da violência doméstica. As participantes lidaram com isso encontrando vínculos valiosos em relações não amorosas e/ou continuando sua própria terapia para ajudar na elaboração e atravessar o trauma relacional: “perceber o que é o sopro de ar fresco de ter um relacionamento, ter amor sem a violência” (Charlene).

Sub-história: atos de resistência

Atos de resistência são ações que resistem diretamente às estruturas de poder (Bourdieu e Bourdieu, 2004). Dado o impacto variado e contínuo da violência doméstica, nada mais proporcional que as formas de enfrentar e resistir sejam igualmente variadas e contínuas. As participantes encontraram muitíssimas formas de negociar o impacto. A díade A falava com frequência da necessidade de limites como resistência, por causa do envolvimento contínuo da pessoa que praticou a violência doméstica, Brooke: “para mim, resistir é colocar esses limites, priorizar minha saúde mental, tentar me alinhar com meus valores”. Sabe-se que ações coerentes com os valores tornam as pessoas mais felizes, e elas estão integradas a muitas terapias (Berman et al., 2009; Harris, 2006). O abuso pode distorcer os limites; por isso, retomá-los e defini-los corrige essa distorção e ajuda a prevenir novas invasões (Johnson e Hooper, 2004). Para Charlene, a resistência veio na forma de resistir à discriminação da autoridade local, Charlene: “sabe, isso mais me inflamou, me empurrou mais para a justiça, para querer fazer alguma coisa em relação ao sistema, para garantir que meus filhos, sabe, tivessem apoio e se saíssem bem e não fossem o que eu fui”. A resistência de Charlene a poderosos sistemas de opressão em nome de um futuro melhor parece profundamente alinhada com as abordagens sistêmicas radicais da 4a e da 5a onda, que buscam promover mudanças em todos os níveis de contexto, e não apenas nos níveis pessoal ou familiar.

Limitar o trauma intergeracional foi uma parte decisiva dos atos de resistência e das narrativas das duas díades, Charlene: “agora eu realmente tenho que juntar os cacos e ajudar a mim e aos meus filhos a nos curar, para que, para que eu possa quebrar esse ciclo”, e Brooke também comentou: “o trauma acontece, e é importante que cada geração tente simplesmente reduzi-lo um pouquinho de cada vez… Eu queria que a mamãe se desse um pouco mais de graça… Acho que a mamãe adoraria, tipo, enxugar até a última gota de trauma… do meu ponto de vista, pensar no futuro que meu filho vai ter, vindo de onde a gente veio, é algo que me dá muito orgulho… de todo o trabalho. Acho que isso vem de antes de mim, voltando até, tipo, a minha avó”. A reflexão sobre esse processo intergeracional e sobre ser um bom ancestral (Krznaric, 2020; Saad, 2020; Shukla, 2015) foi forte na entrevista. Reconhecer padrões intergeracionais e, possivelmente, resistir a eles pode ser trabalhado em muitos modelos psicológicos, mas sobretudo em modelos focados na família e no apego (Byng-Hall, 1985, 1998; Dallos e Vetere, 2018). Há uma literatura crescente sobre isso, que se inspira sobretudo em práticas decoloniais, em torno de como atravessar e interromper o ciclo do trauma intergeracional (Hoosain, 2018; Leifer e Smith, 1990; Rees e Evans, 2021).

Quebrar esse ciclo envolveu terapia contínua, mas também compaixão, Brooke: “Acho que a graça (no sentido de compaixão, paciência e perdão) que conseguimos dar uma à outra ao longo de tudo é provavelmente a, a coisa mais bonita que aconteceu”. Isso parece se ligar a várias ideias terapêuticas em torno da compaixão e da mentalização (Allen et al., 2008; Gilbert, 2009). A díade B falou longamente da busca compartilhada de alegria e riso, Alice: “às vezes eu vejo ser muito boba e me envolver com humor e brincadeira como um ato de resistência… Acho que isso é algo que é incrivelmente compartilhado pela mamãe e por mim”. Essa conversa parece espelhar ideias centrais do crescimento pós-traumático (Bakaitytė et al., 2022; Henson et al., 2021). Para Alice, houve crescimento ao passar da simples busca de alegria para um estilo de vida mais equilibrado e integral, o que lhe permitiu se sentir “menos como uma vítima”. Isso ressoa com ideias sobre agência e responsabilização no trabalho com violência doméstica (Vetere e Cooper, 2001). Para Angelica, não se deixar definir pelo luto e preencher a vida com vínculos e atividades permitiu que ela resistisse, Angelica: “tentar mudar coisas na minha vida para, para não ficar remoendo. É a expressão certa, no que aconteceu”. Isso lembra as ideias da terapia narrativa sobre o acesso a discursos subjugados para espessar as narrativas, o que ajuda a abrir mais possibilidades de ação e de esperança quanto ao futuro (White e Epston, 1989).

Compreensão e conexão

Todas as participantes falaram longamente da importância de compreender e dar sentido ao que aconteceu, fosse para compreender melhor a si mesmas, Charlene: “para mim mesma, realmente me conhecer, entender como aquele abuso funciona, o que ele faz com você, simplesmente faz você se tornar, ter que se tornar muito consciente de si”, para compreender a pessoa que praticou o abuso, Alice: “me apoiar nesse ponto de vista empático e tentar entender por que… alguém agiria daquela forma, e tentar partir de um lugar em que, na verdade, ter essa compreensão traz mais paz”, ou para compreender uma à outra, Angelica: “a gente aprende uma com a outra, e quais são as necessidades de cada uma… Andrew e Alice, eles são as coisas mais importantes para mim”. Uma compreensão maior abria oportunidades de conexão com os outros, que por sua vez favoreciam melhores oportunidades de compreender. Isso continua de maneira recíproca: a compreensão de si e do outro permite mais empatia e mais oportunidades de vínculos próximos. Isso pode explicar o desenvolvimento menos cronológico e mais relacional que as participantes descrevem. Isso se alinha com várias ideias em torno da mentalização, da continência, da corregulação e da teoria do desenvolvimento (Ainsworth e Hansen, 2012; Allen, 2018; Szykierski, 2010). Uma relação segura é indispensável para elaborar experiências traumáticas (Huppertz, 2018; Lawson-McConnell, 2020). Além disso, parte da literatura considera que pessoas que sofreram violência doméstica têm mais probabilidade de ter a capacidade de mentalização e de corregulação perturbada, o que torna ainda mais notável a presença dessa capacidade nessas pessoas (Gumley, 2010; Moreno et al., 2016).

Sub-história: mãe e filha

As duas díades eram formadas por mães e filhas; ambas disseram o quanto essa relação foi primordial para resistir ao impacto da violência doméstica. Brooke atribuiu à mãe a maior parte de sua capacidade de enfrentamento: “Eu diria que é pelo menos 50% (de tudo o que ajudou)”, e Angelica afirmou: “eles (os filhos) são as coisas mais importantes para mim, independentemente de qualquer outra coisa, e sempre virão em primeiro lugar”. A complexidade e as nuances das relações mãe-filha foram apontadas várias vezes pelas participantes. Em particular, as mães queriam compensar o dano ocorrido, fosse “equilibrando a balança da alegria”, fosse sendo uma “mãe leoa”. A literatura reconhece a singularidade dessa relação e como a transmissão, entre gerações, de normas sociais que querem as mulheres “quietas” e “submissas” pode gerar dinâmicas complexas entre mãe e filha e, ao mesmo tempo, ser uma relação profundamente sustentadora (Hasseldine, 2017; Schreurs et al., 2003).

O apoio certo na hora certa

Todas as participantes buscaram diferentes formas de apoio profissional, para o bem-estar físico, mental, material e espiritual. Houve relatos repetidos do valor do apoio psicológico profissional, Charlene: “uma pessoa terapeuta adequada para apoiar minha parentalidade e para entender a melhor forma de ajudá-los (os filhos) a elaborar suas experiências e a encontrar apoio também”, mas também da importância da fé, Angelica: “eu fazia parte de um grupo de cura espiritual, e isso me apoiou muito”, e do apoio comunitário, Alice: “acho que aqueles anos numa comunidade com contato regular mudaram tudo para mim”. Todas as participantes falaram de necessidades que mudavam, dada a natureza não linear da cura, e da necessidade de acompanhamentos diferentes.

Sub-história: a falha dos serviços

A maioria das participantes também falou de serviços que não estavam presentes nos momentos de necessidade, que não as ajudaram ou que as atrapalharam ativamente. A atuação da autoridade local aparecia como um grande antagonista na narração de Charlene. Charlene falou com paixão da autoridade local e do impacto sobre seus filhos: “eles (a autoridade local) meio que pegaram aquilo (o abuso sofrido por Charlene na infância) e usaram a seu favor quando quiseram, e largaram quando, sabe, ignoraram quando não quiseram… Eu tornei minha casa segura. Tirei o, sabe, o parceiro abusivo de casa. Depois, a batalha com a autoridade local para… ficar com meus filhos… eles, plenamente cientes da violência que, sabe, aconteceu na minha casa, mas apoiando ele (o pai de Brooke)… e concedendo a ele o direito de visita”. Charlene e Brooke se perguntaram, em retrospecto, como as escolhas da autoridade local tinham sido influenciadas pela identidade interseccional de Charlene, que incluía ser uma mulher negra da classe trabalhadora. Elas sentiam que Charlene tinha sofrido uma discriminação considerável. Isso se reflete na pesquisa e em manchetes de jornal (Frost e Parton, 2009; Parton, 2014). Além disso, a presença do racismo e do classismo nos serviços sociais para a infância está estabelecida na literatura empírica (Drew et al., 2023; Hood et al., 2020; Webb et al., 2020), assim como nos sistemas que os sustentam e fiscalizam (Flemmen e Savage, 2017; Miller, 2021). Essa tripla privação (Emanuel, 2002) pode agravar ainda mais os desafios já enfrentados por famílias vulneráveis que vivem violência doméstica. Charlene também refletiu sobre sua visão da autoridade local de modo mais geral: “a autoridade local tende a lidar com essas coisas tirando recursos da família, levando as crianças embora, colocando-as em outros lares. Quando for apropriado, (ela deveria) dar a esses pais esses recursos e apoiá-los, dar a eles os mentores especializados certos para ajudar a apoiar e construir a vida social dessas crianças, e um pai ou uma mãe também, que passou por essas coisas?” A narração de Alice também destacou as falhas dos serviços de saúde mental, que ora não perguntavam sobre a violência doméstica quando ela era evidente, ora não atendiam às suas necessidades quando elas surgiam: “Houve momentos em que eu estive mal e não recebi a ajuda de que precisava”.

Sub-história: vidas encarnadas

As duas pessoas que eram crianças na época do abuso relataram ter tido, na infância, sintomas físicos difíceis de explicar medicamente, que ambas achavam que podiam ter sido uma resposta à violência doméstica (Caldwell e Leighton, 2018; Kozlowska, 2013). Ambas contaram também como o movimento, por meio do esporte e da dança, lhes permitiu aliviar tensões ou se expressar. Há uma literatura crescente sobre as respostas encarnadas ao sofrimento e sobre como acalmar e regular o corpo em estados de sofrimento (Babbel, 2018; Porges, 2022; van der Kolk, 2014).

Implicações

Várias implicações podem ser tiradas desta pesquisa:

As participantes tinham muita expertise a oferecer sobre o trabalho com sobreviventes-vítimas e sobre modos de resistir. Dada a amplitude de sua resistência, proponho uma mudança de vocabulário: de sobrevivente-vítima para sobrevivente-vítima-resistente. Isso destaca a capacidade de transcender um rótulo baseado sobretudo na agência de outra pessoa. Esse vocabulário deve ser entendido não como uma progressão hierárquica fixa, mas como um contínuo fluido e transitório.

O sofrimento e o crescimento das participantes tinham pouca linearidade temporal e pareciam de natureza relacional. Do ponto de vista clínico, isso ressalta a necessidade de acesso repetido ao apoio para as pessoas sobreviventes-vítimas-resistentes, e não de uma oferta única de apoio depois de sair da situação de abuso. As necessidades também podem variar a cada acesso, exigindo paradigmas terapêuticos, durações e formatos diferentes. Isso inclui não só o apoio psicológico, mas também a saúde física, dadas as experiências encarnadas, bem como alguma expertise ou capacidade de encaminhamento para apoio em finanças, moradia e educação. Provavelmente não são pessoas para quem seis sessões de TCC de baixa intensidade resolvam as coisas, embora possam muito bem recorrer a isso como parte de seu percurso.

Dado o valor que as participantes encontraram na construção de sentido, o uso da formulação pode ajudar nessa construção (Johnstone et al., 2013). Diversos paradigmas terapêuticos podem ser úteis conforme as necessidades de cada pessoa. Pelo valor das experiências encarnadas e da expressão para as participantes, abordagens baseadas em arte, teatro e movimento poderiam ser úteis (Feniger-Schaal e Orkibi, 2020; Ritter e Low, 1996). As participantes comentaram o valor das terapias tradicionais do trauma em certos momentos, e elas também devem ser usadas quando apropriado. A natureza relacional do dano, da construção de sentido e da resistência identificada pelas participantes poderia ser considerada nas intervenções. Uma experiência relacional consistente com um número pequeno de pessoas da equipe clínica, permitindo pontos de apego constantes, poderia ser útil (Dozier e Bates, 2003). As abordagens familiares e diádicas, independentemente da idade de quem é atendido, também podem ser valiosas, sobretudo as que privilegiam o apego e a família, como a Terapia Narrativa do Apego (Attachment Narrative Therapy, ANT; Dallos e Vetere, 2021). A ANT e abordagens semelhantes também poderiam oferecer às pessoas oportunidades de negociar o trauma intergeracional e, ao mesmo tempo, abrir mais possibilidades de enfrentamento e resistência entre gerações. A abordagem se concentra em considerar o apego e as narrativas familiares de forma intergeracional, o que parece se alinhar com as narrativas trazidas pelas díades desta pesquisa, em especial pela atenção da ANT aos roteiros familiares replicativos e corretivos (Byng-Hall, 1998). Embora a ANT pareça promissora, outras abordagens também parecem se alinhar bem com a ideia do trauma intergeracional e de sua cura pela relação, sobretudo as abordagens de psicologia comunitária em comunidades indígenas que foram colonizadas ou perseguidas de outras formas (Hoyt, 2019; Hübl e Avritt, 2020; Radu et al., 2014). Dado o trauma intergeracional considerável nessas comunidades, manter a identidade, os valores e os vínculos comunitários entre as gerações tem sido reconhecido como importante para apoiar processos de cura e de resistência (Afuape, 2016). As práticas narrativas coletivas também podem permitir explorar o trauma intergeracional e a resistência a esse trauma (Lock, 2016; Ncube, 2006).

Como esta pesquisa destaca, a conexão relacional é importante para ajudar as pessoas a atravessar experiências traumáticas. Taiwo Afuape (2011, 2016, 2020) evidencia como o trauma separa as pessoas umas das outras e dos valores que as ligam. Ela também mostra como intervenções conectivas e coletivas, que permitem às pessoas reconectar-se entre si e com seus valores, ajudam a atravessar as experiências traumáticas e a resistir em todos os níveis de contexto. Esta pesquisa se alinha com essas ideias. Os sistemas usados no Reino Unido para a proteção da infância não atenderam às necessidades destas participantes, nem de outras pessoas, como indica a literatura. As participantes tinham medo demais da autoridade local para se envolver com ela ou sentiam-se prejudicadas por ela, porque retirava recursos e discriminava as pessoas. Afinal, o foco na gestão de risco pode limitar as oportunidades de cura, de conexão e de fortalecimento de recursos (Cottam, 2015; Featherstone et al., 2018). Percy Aggett e Philip Messent (2019) apresentam uma abordagem relacional e colaborativa para os serviços sociais e de saúde mental. Ela se baseia na conexão e na colaboração mútua com as pessoas que os serviços apoiam, para aumentar sua agência e ajudar a fortalecer seus recursos. Os resultados desta pesquisa podem apoiar essa abordagem.

A experiência de discriminação vivida pelas participantes desta pesquisa é profundamente preocupante e talvez espelhe a literatura que destaca a discriminação sistêmica em muitos serviços públicos (Bartholet, 2011; Hoosain, 2018; Miller, 2021). As participantes foram prejudicadas por essa experiência e se esforçaram muito para compensar seu impacto. Esta pesquisa não oferece caminhos para enfrentar isso, mas reconhece o dano e a necessidade de mudança.

Limitações

Esta pesquisa tem várias limitações:

O recrutamento enfrentou vários obstáculos já mencionados. Isso levou ao recrutamento de quatro participantes, o que, em comparação com a maioria dos métodos de pesquisa, é uma amostra pequena. No entanto, o volume e a riqueza dos dados fornecidos por essas participantes mostram que a amostra era grande o bastante para esta pesquisa com IN (Daiute, 2013; Morse, 2000). O número de participantes gera, porém, outros desafios. As participantes eram homogêneas quanto ao gênero e às relações dentro das díades. Embora a pesquisa qualitativa valorize a homogeneidade das amostras, isso convida a perguntar de quem é a história que não foi representada. Homens chegaram a se candidatar, mas não preenchiam os critérios. Os resultados desta pesquisa poderiam ser diferentes se considerassem as narrativas de pais e filhos homens, de fratrias ou de figuras de cuidado que estivessem numa relação homoafetiva. Por que isso aconteceu? As histórias de mulheres que sofreram violência doméstica são talvez discursos menos subjugados do que as experiências masculinas de abuso, ou as mulheres estão mais dispostas a participar juntas de uma pesquisa sobre essa experiência? Talvez as formas generificadas de responder ao sofrimento, e à violência doméstica em particular (Moulding, 2015; Wild, 2022), também tenham feito com que as mulheres tivessem mais facilmente à disposição a linguagem para narrar sua história.

Vale também refletir que as pessoas dispostas a se apresentar como díade deviam ter uma relação sólida, ter encontrado alguma forma de refletir sobre a experiência e talvez já tivessem narrativas coconstruídas de suas experiências. Isso pode ter excluído certas pessoas desta pesquisa.

Embora a pesquisa tenha sido avaliada pelos critérios “Big-Tent” (Tracy, 2010), a codificação por mais de uma pessoa e procedimentos semelhantes para garantir credibilidade e rigor estiveram ausentes, por limitações de tempo e de pessoal. Isso deve ser considerado na aplicabilidade dos resultados.

Pontos fortes

Esta pesquisa tem vários pontos fortes:

Ela é oportuna, dado o aumento considerável da violência doméstica durante a covid-19, e oferece uma contribuição valiosa a uma literatura em que há uma lacuna clara, tanto do ponto de vista da pesquisa quanto da clínica.

A pesquisa sobre o contexto relacional das pessoas afetadas pela violência doméstica é limitada; por isso, esta pesquisa permitiu que narrativas raramente ouvidas na literatura ou no contexto terapêutico ganhassem voz.

Esta pesquisa foi conduzida de forma eticamente rigorosa, para não reproduzir o abuso. Ofereceu também um conteúdo reflexivo significativo e transparente, para ajudar a compreender as escolhas de quem conduziu a pesquisa.

Pesquisas futuras

Pesquisas futuras nessa área se beneficiariam de uma amostra mais heterogênea, que trouxesse narrativas mais ricas e possivelmente dissonantes em relação a esta pesquisa. Dados os obstáculos ao recrutamento, a heterogeneidade pode ser difícil de alcançar. O apoio de organizações beneficentes ou do terceiro setor poderia ajudar a acessar grupos mais específicos de possíveis participantes e tornar a pesquisa, talvez, mais atraente para certos grupos. Pesquisas futuras poderiam explorar diferentes formatos de entrevista, alterando a sequência ou usando um formato de grupo baseado no papel de figura de cuidado ou de criança. Além disso, a inclusão de outras fontes de dados, como imagens, é comum na IN. As participantes manifestaram preferência pelo movimento e por diferentes formas de expressão. Por isso, oferecer outras opções de expressão, como imagens, poderia ser valioso e condiz com a IN (Riessman, 2008).

Conclusão

Esta pesquisa ofereceu uma investigação narrativa, com uma abordagem inédita, para explorar as experiências de díades que atravessaram a violência doméstica. Ela traz uma perspectiva singular ao captar as narrativas de díades que viveram essa violência. As participantes falaram da amplitude da violência doméstica e de como ela afetou sua vida, mas também das muitas formas que encontraram para resistir a esse impacto. Falaram do valor dos serviços certos e do apoio na hora certa, mas também do dano causado pelos serviços. Falaram de como o trauma da violência doméstica aparecia de maneiras inesperadas. Por fim, falaram da relação recíproca entre conexão e compreensão, sobretudo entre mãe e filha. Isso abre caminho para considerar as experiências das díades e suas implicações para as intervenções e os serviços terapêuticos: “a esperança é algo que fazemos com os outros” (Weingarten, 2001).

Complexe Systémique: a reter

Esta pesquisa desloca o olhar habitual sobre a violência doméstica: em vez de se concentrar na saída da situação de violência, escuta o que acontece, anos depois, com uma mãe e uma filha que a atravessaram juntas. O desenho interessa à clínica sistêmica: uma entrevista conjunta seguida de entrevistas separadas permite ouvir o que a díade constrói a duas e o que cada uma guarda para si. Surgem três fios. O impacto volta em ondas, muitas vezes quando uma relação enfim segura permite pensar de novo no que aconteceu. A relação mãe-filha é ao mesmo tempo recurso e lugar de reparação intergeracional. Os serviços, sobretudo a proteção da infância, muitas vezes perderam o momento ou feriram ainda mais, com uma discriminação de raça e de classe claramente nomeada. A proposta de falar em pessoas “sobreviventes-vítimas-resistentes” dialoga com o trabalho de Allan Wade sobre as respostas à violência. Os limites estão no próprio estudo: quatro mulheres, duas díades já sólidas, uma análise sem dupla codificação. A lição clínica continua clara: oferecer um apoio repetido, relacional, às vezes familiar, em vez de uma oferta única e individual. Para ler junto com a entrevista com Allan Wade sobre a dignidade e a violência e com o estudo sobre o lugar da criança após a violência familiar.

Notas do original

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse em relação à pesquisa, à autoria ou à publicação deste artigo.

Financiamento. A equipe de pesquisa não recebeu nenhum apoio financeiro para a pesquisa, a autoria ou a publicação deste artigo.

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Tradução não oficial em português de A experiência de díades expostas em conjunto à violência doméstica: narrativas de crescimento, conexão e resistência, de Leighton King, Barbara Rishworth e Jo Hadfield, Human Systems, vol. 6, no 1 (2026), doi: 10.1177/26344041251337007, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The experiences of dyads who have jointly been exposed to domestic violence and abuse: Narratives of growth, connection and resistance”, publicado em Human Systems (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

King, L., Rishworth, B., et Hadfield, J. (2026). A experiência de díades expostas em conjunto à violência doméstica: narrativas de crescimento, conexão e resistência (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-experiencia-de-diades-expostas-em-conjunto-a-violencia-domestica (Obra original publicada em 2025 em Human Systems, 6(1), 3-27 (2026); republicada em 2026 por Human Systems, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/26344041251337007)

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