Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar
A inteligência emocional conquistou a cultura; o pensamento sistêmico, não. William J. Doherty e sua equipe (universidades de Minnesota, Brigham Young e do Havaí) propõem nomear uma capacidade que a terapia pode desenvolver: compreender os triângulos, as lealdades e os terceiros que pesam sobre um casal, e saber agir neles. Famílias recompostas, doença, conflitos ideológicos: o artigo mostra onde os modelos diádicos param e esboça uma medida e um programa de formação.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A inteligência dos sistemas familiares na terapia de casal e de família, e além, de William J. Doherty, Adam R. Fisher e Nathan R. Hardy, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2026), doi: 10.1111/jmft.70136, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
No que diz respeito ao funcionamento familiar, a inteligência emocional é um tijolo importante, mas está longe de ser o edifício inteiro.
William J. Doherty, Adam R. Fisher e Nathan R. Hardy
Resumo
Este artigo apresenta a inteligência dos sistemas familiares como uma capacidade que vai além da inteligência emocional e diz respeito à maneira como as pessoas compreendem os desafios familiares e respondem a eles com eficácia, de modo a favorecer a saúde pessoal e relacional. Depois de definir o conceito geral de inteligência sistêmica, definimos a inteligência dos sistemas familiares e distinguimos entre os níveis diádico e multilateral. Argumentamos que os modelos de terapia de casal às vezes são insuficientes quando os casais enfrentam questões que envolvem sistemas familiares mais amplos. Ilustramos essas ideias em três áreas em que as dinâmicas envolvendo terceiros são centrais: famílias recompostas, famílias diante da doença e diferenças ideológicas. Descrevemos um trabalho inicial sobre uma medida de desempenho da inteligência dos sistemas familiares, com o objetivo de chegar a uma avaliação aplicável em larga escala para apoiar a pesquisa e a formação. Concluímos com implicações para fortalecer a formação em competência sistêmica entre terapeutas e para influenciar a cultura mais ampla.
Palavras-chave: terapia de casal, inteligência emocional, sistemas familiares, terapia familiar médica, dinâmicas multilaterais, avaliação baseada em desempenho, famílias recompostas, pensamento sistêmico, inteligência sistêmica, formação
Este artigo apresenta ao campo da terapia de casal e de família o conceito de inteligência dos sistemas familiares, ampliando ideias desenvolvidas anteriormente para as ciências da família (Doherty 2024). A ideia básica é que a inteligência dos sistemas familiares vai além da inteligência emocional: descreve a capacidade de uma pessoa de compreender as interações de casal e de família tal como se desenrolam na vida cotidiana e de responder a elas com eficácia, de modo a favorecer a saúde pessoal e relacional. Embora se apoie nas teorias fundadoras da terapia familiar, a inteligência dos sistemas familiares é uma capacidade pessoal que pode ser desenvolvida nas pessoas atendidas, e não uma abordagem de intervenção.
Depois de definir o conceito geral de inteligência sistêmica e a ideia específica de inteligência dos sistemas familiares, distinguimos os níveis diádico e multilateral dos sistemas familiares e argumentamos que o segundo pode às vezes ser necessário para compreender e tratar relações diádicas. Aplicamos essas ideias às dinâmicas das famílias recompostas e às famílias que lidam com a doença e com diferenças ideológicas. Por fim, descrevemos um trabalho inicial sobre uma medida de inteligência sistêmica para fins de pesquisa e de formação e discutimos as implicações de ampliar os objetivos das terapias de orientação sistêmica para fortalecer a inteligência sistêmica na terapia e na cultura mais ampla.
Contestando a concepção estritamente cognitiva e unitária da inteligência, Gardner (1983) propôs que a inteligência envolve diferentes tipos, um dos quais ele chamou de inteligência intrapessoal, ou a capacidade de compreender a si e às próprias emoções. Em seguida, Salovey e Mayer (1990) propuseram um modelo abrangente de inteligência emocional, definida como a “capacidade de monitorar os próprios sentimentos e emoções e os dos outros, de discriminá-los e de usar essa informação para orientar o próprio pensamento e as próprias ações” (p. 189). Nas décadas seguintes, a inteligência emocional se tornou um conceito fecundo e amplamente usado na pesquisa e na aplicação em diversos campos (por exemplo, Chen et al. 2025; Joseph e Newman 2010).
O termo inteligência emocional chegou à cultura mais ampla por meio do best-seller de Goleman (1995), Emotional Intelligence: Why It Can Matter More Than IQ. Goleman propôs que a inteligência emocional é um fator decisivo nas relações pessoais e no desempenho profissional (ver também Srivastava 2013). Seus escritos para o público leigo foram seguidos pelos de muitas outras pessoas (por exemplo, Bradbury 2023). A inteligência emocional foi aplicada às famílias por meio de livros que orientam pais e mães sobre como desenvolver a inteligência emocional dos filhos (por exemplo, Tobias e Elias 2000). Em toda essa literatura, o foco principal tem sido compreender e regular as próprias emoções e saber ler as emoções dos outros e responder a elas com eficácia. Por mais útil que esse conceito tenha sido para a academia e para o público, acreditamos que ele é limitado por seu foco na emoção, em relativo detrimento das interações sociais e comportamentais e do contexto social (Doherty 2024). No que diz respeito ao funcionamento familiar, a inteligência emocional é um tijolo importante, mas está longe de ser o edifício inteiro.
O pensamento sistêmico foi introduzido no mundo da terapia por figuras pioneiras da terapia familiar como Gregory Bateson (1972), Murray Bowen (1976) e Salvador Minuchin (1974). Uma percepção fundamental era que as interações entre as pessoas ganham vida própria e influenciam as ações e seus desfechos para além das características dos indivíduos. As interações triangulares, em particular, tornam-se os blocos de construção das dinâmicas familiares, e mudar essas dinâmicas pode ser necessário para libertar as pessoas das questões problemáticas de sua vida. Com exceção de Bowen, porém, cujo modelo de intervenção enfatizava ajudar as pessoas atendidas a compreender como as dinâmicas de sua família de origem se atualizam no presente, os modelos fundadores da terapia familiar se concentravam mais no conhecimento dos sistemas familiares por parte de quem conduz a terapia do que na maneira como as pessoas atendidas compreendiam seus próprios sistemas. Os resultados buscados eram a melhora do funcionamento familiar e individual, e não a compreensão, pela família, das dinâmicas de seus sistemas. Neste artigo, partimos da base das teorias dos sistemas familiares para articular suas implicações para o desenvolvimento pessoal, na forma da inteligência dos sistemas familiares.
Começamos pelo conceito geral de inteligência sistêmica, introduzido na literatura acadêmica por Saarinen e Hämäläinen (2007), estudiosos finlandeses das organizações, para descrever a capacidade de um indivíduo de compreender organizações complexas e agir de forma construtiva dentro delas. (A pessoa que assina este artigo em primeiro lugar já usava o termo inteligência sistêmica na formação de terapeutas antes de descobrir o trabalho publicado de Hämäläinen e Saarinen.) A necessidade do conceito de inteligência sistêmica surgiu de uma crítica ao foco da psicologia na inteligência emocional, considerada individualista e intrapsíquica demais para dar conta do que as pessoas precisam para ser eficazes em organizações complexas. Hämäläinen e Saarinen se apoiaram na vasta literatura da teoria dos sistemas, que remonta a von Bertalanffy (1968), embora não demonstrassem familiaridade com a teoria dos sistemas familiares. Sua inovação consistiu em formular a inteligência sistêmica não como uma teoria sobre sistemas ou um conjunto de práticas profissionais, mas como uma capacidade humana que pode ser cultivada para ajudar as pessoas a ser mais eficazes nos sistemas em que estão inseridas.
Em uma crítica semelhante aos limites da inteligência emocional, Doherty (2024) argumentou que as pessoas podem ter um alto nível de inteligência emocional e, ao mesmo tempo, carecer de uma lucidez equivalente sobre os sistemas relacionais de que fazem parte. Isso explica um fenômeno bem conhecido na terapia de casal: pessoas em terapia individual de longa duração, que têm uma compreensão sofisticada de sua vida emocional interior, muitas vezes carecem de uma compreensão básica de sua própria contribuição para os padrões relacionais que as fazem sofrer. Por exemplo, pessoas que desenvolveram uma compreensão intrapsíquica às vezes assumem, diante da pessoa com quem vivem a relação, um papel de terapeuta que ninguém pediu; a reação costuma ser de oposição, o que demonstra que não são tão esclarecidas quanto sua longa terapia faria supor. A inteligência emocional que não é equilibrada por uma inteligência dos sistemas interpessoais pode distorcer as relações.
Neste artigo, tratamos a inteligência sistêmica como uma capacidade humana abrangente, e a inteligência dos sistemas familiares como sua aplicação aos sistemas íntimos e familiares. Saarinen e Hämäläinen (2007) ofereceram a seguinte definição de inteligência sistêmica e descreveram como ela se manifesta:
Por inteligência sistêmica, entendemos o comportamento inteligente no contexto de sistemas complexos que envolvem interação e retroalimentação. Uma pessoa que age com inteligência sistêmica se engaja com sucesso e de forma produtiva nos mecanismos holísticos de retroalimentação de seu ambiente. Ela se percebe como parte de um todo, percebe a influência do todo sobre si mesma e também sua própria influência sobre o todo. Ao observar sua própria interdependência nesse ambiente intenso em retroalimentação, ela é capaz de agir com inteligência.
(p. 1)
Note-se que o conceito envolve um componente cognitivo (compreender as dinâmicas sistêmicas) e um componente comportamental (agir com eficácia dentro de um sistema).
Acreditamos que esse conceito geral de inteligência sistêmica é mais útil quando aplicado a sistemas específicos, como a pesquisa tem feito para os sistemas empresariais e ecológicos (Törmänen et al. 2022; Sweeney e Sterman 2007). Quanto a essa inteligência própria de cada domínio, a capacidade de pensar e agir com inteligência em uma empresa ou em um sistema político não se transferiria necessariamente para o próprio sistema familiar, e vice-versa (embora se possa argumentar que apreender princípios sistêmicos em um contexto facilitaria aprender a aplicá-los em outros). Toda pessoa terapeuta já atendeu gente que circula no mundo do trabalho com lucidez, nuance e habilidade, mas continua completamente perdida diante das dinâmicas do próprio casamento e da própria família. E, com justiça, muitas pessoas terapeutas com boa inteligência dos sistemas familiares rapidamente perderiam o pé se tivessem de liderar uma grande organização empresarial.
No domínio da família, definimos a inteligência dos sistemas familiares como a capacidade de compreender as dinâmicas das interações familiares e de agir com eficácia nessas relações. (O termo família pode ser aplicado de modo amplo a relações próximas que envolvem história, interdependência e compromisso.) Os pressupostos centrais aqui são que as pessoas diferem não apenas em seus papéis dentro de um sistema familiar, mas também em sua capacidade de compreender esse sistema e de agir nele, e que uma terapia sistemicamente sofisticada pode ajudar as pessoas não só a resolver seus problemas relacionais imediatos, mas também a desenvolver maior inteligência dos sistemas familiares e a lidar melhor com desafios futuros. Em outras palavras, o papel de terapeutas, idealmente, não é apenas resolver problemas, mas construir capacidades de inteligência dos sistemas familiares. Como essa capacidade pode se desenvolver ao longo do tempo, a terapia pode ser um agente importante de desenvolvimento pessoal em momentos de sofrimento.
Note-se que a inteligência dos sistemas familiares tem dimensões cognitivas e comportamentais: compreender os padrões da própria família e ser capaz de agir com eficácia à luz desses padrões. Isso levanta a questão de saber se as pessoas precisam ser capazes de conceituar e articular termos sistêmicos complexos. Acreditamos que se pode ter um conhecimento implícito, e não só explícito, dos sistemas familiares. É possível ter intuições baseadas na experiência sem sempre conseguir explicá-las em termos conceituais. Esse ponto é coerente com a pesquisa sobre o construto de intuição social, isto é, a maneira como as pessoas aprendem as regularidades comportamentais de seu mundo social sem necessariamente conseguir articular a base de seus julgamentos (ver Lieberman 2000). A inteligência dos sistemas familiares, portanto, não exige o uso de conceitos sistêmicos explícitos. Como ilustrou Doherty (2024),
o aforismo “o sangue fala com o sangue”, quando se trata de negociações difíceis com a família do cônjuge, reflete uma compreensão do apego diferencial e das dinâmicas de lealdade. Casais que concordam que quem tem o vínculo familiar de origem deve tomar a frente das conversas potencialmente tensas com a família de origem podem estar demonstrando inteligência sistêmica sem formular uma explicação conceitual explícita.
(p. 736)
A inteligência dos sistemas familiares envolve, portanto, uma competência informada para agir com eficácia no próprio sistema familiar, sendo a parte “informada” explícita ou intuitiva. Nessa perspectiva, a compreensão cognitiva sozinha não basta, assim como a autoconsciência emocional sem autorregulação não basta para a inteligência emocional. Por outro lado, apenas seguir a orientação da pessoa terapeuta, por exemplo para estabelecer uma fronteira melhor entre os subsistemas parental e filial, não fortalece necessariamente a inteligência dos sistemas familiares se o pai ou a mãe não entende por que essa fronteira é importante e de que modo ela faltava antes. Esse exemplo remete à questão discutida anteriormente: os modelos de terapia familiar ajudam as pessoas a compreender o que está acontecendo com sua família no próprio processo de mudança dessas dinâmicas?
A seguir, introduzimos uma distinção entre a inteligência relativa aos sistemas diádicos e aos sistemas multilaterais nas famílias, uma diferença com implicações conceituais e clínicas importantes.
A inteligência dos sistemas diádicos (doravante, inteligência diádica) refere-se à capacidade de compreender casais e outras relações próximas de pessoa a pessoa e de agir com eficácia nelas. A inteligência dos sistemas familiares multilaterais (doravante, inteligência de nível familiar) abrange tanto as relações diádicas quanto dinâmicas mais amplas que envolvem três ou mais membros da família. Embora os dois níveis sejam sistêmicos, eles diferem em alcance.
O campo da terapia de casal se concentra nas propriedades emergentes das relações diádicas, que transcendem as dinâmicas psicológicas de cada pessoa da relação. Terapeutas de casal ajudam as duas pessoas a compreender como o casal cocria padrões como demanda-retraimento ou evitação do conflito e mostram como podem, juntos, deslocar esses padrões em direções mais saudáveis. Quaisquer que sejam as orientações teóricas por trás dos modelos de terapia de casal, todos enfatizam a importância do sistema interacional do casal, que transcende as dinâmicas psicológicas individuais (Lebow e Snyder 2023; Snyder e Lebow 2024). Em outras palavras, apesar das diferenças no peso que dão às questões psicológicas individuais como fonte dos problemas do casal, todos os modelos de terapia de casal preparam terapeutas para avaliar os padrões atuais de interação e intervir sobre eles como caminho central de cura. Isso contrasta com a prática de terapeutas de orientação individual, que tratam os casais sobretudo em termos de suas questões psicológicas individuais, com pouca atenção às dinâmicas sistêmicas interpessoais.
Assim como a inteligência diádica é um salto importante além da inteligência emocional, o mesmo vale para a inteligência de nível familiar. Argumentamos que as relações multilaterais exigem um grau de compreensão e de competência interpessoal maior do que o exigido pelas relações de pessoa a pessoa. Essa distinção reflete uma percepção central da terapia familiar sistêmica (Bowen 1976; Minuchin 1974), a saber, que o verdadeiro pensamento sistêmico começa com as tríades, que envolvem as complexidades dos triângulos, das coalizões, das fronteiras multigeracionais e das lealdades concorrentes. Matematicamente, uma díade consiste em uma única relação bilateral, ao passo que uma tríade envolve seis relações: três relações bilaterais mais três relações triangulares, em que cada indivíduo se relaciona com a relação entre os outros dois. Por exemplo, uma criança está em relação não apenas com cada um dos pais, mas com a relação entre os pais. Os membros da família estão ligados não apenas aos outros por uma série de relações diádicas, mas também aos padrões relacionais em curso entre os membros da família (em relações triádicas e além).
Para transmitir o salto de complexidade das díades para as tríades, considere uma analogia bem conhecida da astrofísica. Como explica Montgomery (2019), em sistemas com dois corpos celestes em interação, como um planeta e uma estrela, seus movimentos podem ser previstos com grande precisão pela física clássica. Mas quando um terceiro corpo entra no sistema, as interações se tornam exponencialmente mais complexas. O chamado “problema dos três corpos” se refere ao desafio de prever o movimento de três corpos em interação gravitacional, o que gera propriedades não lineares e emergentes que tornam a previsão extremamente difícil. O cenário de três corpos costuma produzir apenas uma gama de desfechos prováveis, e não uma única trajetória exata. Isso ilustra as dinâmicas especiais que surgem quando um terceiro interage de modo significativo com um sistema diádico. São necessárias novas ferramentas para entender o que está acontecendo.
Por razões compreensíveis, a maioria dos modelos de terapia de casal se concentra nos padrões de comunicação diádica, nas dinâmicas de apego e na resolução de problemas entre as duas pessoas que se apresentam para a terapia (ver Lebow e Snyder 2023). A terapia de casal tem dado menos atenção às relações com terceiros que podem estar influenciando o funcionamento de um casal: relações com filhos, pais, irmãos, ex-cônjuges, amizades próximas, empregadores ou outras profissões clínicas. Propomos que lidar com as tensões do casal ligadas a esses terceiros pode se beneficiar de uma forma de inteligência qualitativamente diferente da das relações a dois.
Dito de outro modo, assim como a inteligência emocional não basta para navegar em interações diádicas complexas, a inteligência diádica, isto é, a capacidade de corregular, sintonizar e colaborar com alguém próximo, muitas vezes não basta quando o problema relacional envolve dinâmicas sistêmicas multilaterais mais amplas. O conflito persistente de uma das pessoas do casal com um filho ou uma filha já adulta, por exemplo, pode abrir fissuras na relação conjugal, que talvez exijam que essa pessoa lide de outro modo não só com quem é seu par, mas também nessa relação com a geração seguinte. O mesmo vale para a pessoa ex-cônjuge enciumada que tenta minar o novo casamento de quem foi seu par: o foco diádico da terapia de casal tradicional pode não bastar para orientar a maneira como a pessoa terapeuta lida com uma situação que pede o estabelecimento de limites com um terceiro. Embora alguém competente em terapia de casal possa oferecer esse tipo de ajuda, a intervenção teria de ser guiada por um referencial mais amplo do que um modelo de terapia de casal.
Para ilustrar como é, na prática, a inteligência sistêmica de nível familiar, e o que pode passar despercebido quando a terapia permanece focada no nível diádico, começamos pelo exemplo das famílias recompostas.
As famílias recompostas são cadinhos de complexidade sistêmica (Bray e Easling 2005; Hetherington, Ganong e Coleman 2017; Papernow 2023). Ambiguidade de papéis, conflitos de lealdade e o peso dos legados são comuns e profundamente entrelaçados. A figura do padrasto ou da madrasta pode ser vista ao mesmo tempo como ameaça e como cuidado; a fratria pode se situar entre irmandade plena, meia-irmandade e irmandade por afinidade. Os padrões de comunicação costumam ser tensionados por histórias complexas e intensificados por uma ambiguidade persistente sobre quais papéis são aceitáveis para os diferentes membros da família ao longo das gerações. Essas dinâmicas vão muito além dos padrões diádicos, mesmo quando o caso clínico se apresenta, como costuma acontecer, como um problema de casal. E nem é preciso dizer que as dinâmicas são muito mais complexas do que a inteligência emocional consegue explicar.
Nas famílias recompostas, o pai ou a mãe biológica tem, em relação aos filhos, uma lealdade e um senso de responsabilidade anteriores, que não são compartilhados da mesma forma pela pessoa com quem agora divide a vida. Isso pode fazer com que os pedidos de prioridade relacional vindos dessa pessoa sejam vividos como criadores de um conflito de lealdade. Em um exemplo clínico com um casal, um conflito incômodo surgiu depois que se casaram e se mudaram para a casa do marido com os dois filhos adolescentes dele. A esposa, cujo trabalho exigia acordar cedo, tinha dificuldade para dormir por causa do volume da música dos adolescentes. Quando ela pedia que abaixassem o volume porque precisava dormir, vinham resmungos, o som baixava por um tempo e depois voltava a subir. Quando ela se queixava ao marido, ele dizia entender a necessidade de sono dela, mas que os filhos precisavam da música para relaxar e que o volume não parecia excessivo. (Ele evitava o conflito com os filhos em parte porque se sentia culpado por tê-los feito passar por um divórcio difícil.) A intervenção clínica aqui não derivou apenas de um modelo diádico de terapia de casal, embora claramente houvesse muito a trabalhar na dinâmica do casal, mas também de uma perspectiva multilateral dos sistemas familiares. A saber, o marido precisava assumir o papel de pai com autoridade, redefinindo sua relação com os filhos, e, nessa situação, exigir dos filhos respeito à necessidade de sono da esposa. Essa foi a intervenção clínica inicial, um movimento triangular que abriu caminho para o trabalho posterior com o casal.
Como apontou Doherty (2024), sem inteligência de nível familiar, os problemas das famílias recompostas podem ser reduzidos a uma ou mais “ovelhas negras” que causam os problemas, sobretudo as “madrastas malvadas”, ou a deficiências da relação de casal. Trabalhamos com casais em segunda união cujo único problema sério estava na coparentalidade dos enteados, e não no restante da relação de casal. Em um caso, um casal que funcionava bem em outros aspectos incluía um psicólogo infantil com fortes habilidades diádicas para se relacionar com adolescentes, mas que não conseguia entender por que as crianças da nova família não o aceitavam. Descobriu-se que essas crianças guardavam ressentimento da mãe por ter se divorciado do pai e trazido alguém novo para dentro de casa. Estava tudo armado para que mantivessem distância de um padrasto, qualquer que fosse o nível de funcionamento do casal e o conhecimento e a habilidade do padrasto no trato com adolescentes. Compreender essas dinâmicas sistêmicas, que não tinham feito parte da formação do marido como psicólogo infantil, ajudou-o a não levar para o lado pessoal as reações das crianças e ajudou os dois a entender quanto tempo seria necessário para criar uma nova família. O casal tinha ampliado sua inteligência sistêmica de nível familiar.
Nenhum casal é uma ilha quando uma doença grave entra em sua vida. Aqui nos apoiamos na literatura da terapia familiar médica para argumentar que o enfrentamento eficaz de doenças graves e crônicas acontece melhor quando a inteligência sistêmica de nível familiar é mobilizada (McDaniel et al. 2014; Rolland 2019; Mendenhall et al. 2018). A doença traz novos papéis e novas relações, alguns internos, como quem cuida e quem recebe cuidado, e outros externos, como a pessoa doente e as equipes de tratamento médico, tudo em interação. Os estressores e as adaptações resultantes não podem ser reduzidos à vida emocional das pessoas envolvidas, nem às relações de casal ou a outras relações diádicas na família. Por exemplo, o bom enfrentamento de um casal pode depender do apoio de terceiros, de outros membros da família, o que traz não apenas ajuda, mas também novos triângulos relacionais a serem negociados.
Quando um casal ou uma família precisa de serviços médicos contínuos para um de seus membros, suas fronteiras têm de se abrir a equipes externas que interagem de diferentes maneiras com a pessoa doente e com os familiares. Isso cria oportunidades para interações de apoio e de falta de apoio, que repercutem nas relações de casal e de família. Em um caso, a mãe se sentia dividida entre a cautela recomendada na consulta pediátrica em relação a uma criança asmática e muito alérgica exposta a pelos de gato em festas de aniversário na casa de amigos e o desejo do pai de que a criança levasse uma vida normal. (O casal vivia em desacordo sobre esse ponto.) A intervenção sistêmica foi fazer com que o pai acompanhasse a mãe na consulta médica, na qual as três partes chegaram a um meio-termo. Isso mudou o trabalho em equipe do casal e sua colaboração com a equipe médica.
Alguns familiares desenvolvem competências sistêmicas ao lidar com os serviços de ajuda e as organizações de saúde, enquanto em outros predominam a confusão e a frustração. Enfatizar a inteligência de nível familiar como uma capacidade aplicável às dinâmicas internas e também às interações com o sistema médico e outros sistemas abre caminho para intervenções terapêuticas bem desenvolvidas na terapia familiar médica (McDaniel et al. 2014). Assim como nas famílias recompostas, focar apenas a inteligência emocional ou a inteligência diádica não bastaria para um tratamento ideal.
Os compromissos ideológicos estão enraizados nas famílias, nas comunidades e nas instituições. Da filiação religiosa (por exemplo, casamentos inter-religiosos) às opiniões políticas (por exemplo, casais ou irmãos adultos divididos entre democratas e republicanos nos Estados Unidos), essas diferenças muitas vezes envolvem terceiros e suas preocupações. Por exemplo, pode-se esperar que filhos adolescentes e adultos tomem partido nas divergências dos pais sobre religião ou política. O clero ou membros de uma congregação muito unida podem expressar suas posições sobre a pessoa do casal que não participa. Acrescentando uma camada de complexidade emocional, algumas pessoas sentem-se traídas quando essas diferenças surgem depois do casamento, por exemplo quando uma das duas muda de crença e de filiação religiosa. Toda a estrutura moral e relacional da família passa então por uma reorganização. Essas mudanças podem introduzir nova complexidade sistêmica em diversas áreas, como a parentalidade: que ideologia será ensinada às crianças? Como a família vai lidar com as coalizões em torno dessas ideologias? Como os triângulos serão abordados quando envolverem os avós?
Os grandes modelos de terapia de casal poderiam enquadrar esse tipo de conflito ideológico em termos normativos, por exemplo como “problemas perpétuos” no método Gottman (Gottman e Gottman 2024), ou simplesmente como “diferenças” na análise DEEP da terapia comportamental integrativa de casal (Christensen et al. 2020). Em ambos os casos, o problema é enquadrado de forma diádica. Argumentamos que essa questão está muitas vezes estreitamente ligada a dinâmicas familiares e comunitárias mais amplas, com sentimentos de lealdade e de traição que envolvem esses terceiros.
Quando trabalhamos com casais em que uma das pessoas mudou de filiação religiosa, procuramos passar de uma lente individual, centrada principalmente nos sentimentos, para um “conflito conjugal inter-religioso” diádico e, daí, para uma “reorganização” mais sistêmica da família. Encorajamos o casal parental a evitar alianças com os filhos e a chegar a um acordo, como casal, sobre como lidar com as divergências que ocorrem na frente das crianças. Os casais podem reconhecer que os filhos talvez se alinhem ora com um lado, ora com o outro, em diferentes fases e evitar a tentação de radicalizar suas crenças diante da ansiedade relacional na família. A questão aqui é que o nível de compreensão dos sistemas familiares, por acrescentar dinâmicas como fronteiras multigeracionais, diferenciação do self e triangulação, pode aprimorar o tratamento de casais ideologicamente divididos.
O desenvolvimento futuro do conceito de inteligência dos sistemas familiares passa pela avaliação para fins de pesquisa e de formação. Descrevemos aqui nossa abordagem inicial dessa tarefa (planejamos novos relatos depois de testar uma medida). Felizmente, há uma extensa literatura sobre a mensuração da inteligência emocional na qual se pode buscar apoio (ver a revisão de O’Connor et al. 2019). Uma distinção fundamental nessa literatura é entre a competência emocional avaliada por autorrelato (quão bem alguém acredita lidar com as emoções) e os testes de desempenho (em geral avaliados pelo nível de complexidade emocional que alguém mostra ao analisar vinhetas de pessoas em situações emocionalmente desafiadoras). Para nossos propósitos, a medida de desempenho é preferível, por causa das dúvidas sobre a exatidão dos autorrelatos de compreensão sistêmica.
Além disso, queremos desenvolver uma medida que possa ser pontuada de forma confiável com ajuda de IA, para que possa ser usada na clínica e não apenas por equipes de pesquisa que passam por um longo treinamento de codificação. (Ver Elyoseph et al. 2023, para um exemplo bem-sucedido de codificação confiável, pelo ChatGPT, de uma medida de desempenho da consciência emocional.) Por fim, imaginamos uma medida que possa ser usada para avaliar a inteligência dos sistemas familiares tanto de terapeutas quanto do público leigo, para que possa servir a fins de formação.
Nossa equipe construiu inicialmente 16 vinhetas que descrevem conflitos envolvendo três ou mais pessoas em um sistema familiar. Esses cenários incluem conflitos pós-divórcio, a família do cônjuge, famílias recompostas, interações com o sistema médico, rompimentos familiares e tradições de festas de fim de ano. Cada vinheta apresenta o cenário e depois pergunta a quem responde: “1. O que você vê como os principais fatores que contribuem para os problemas nesta situação?” e “2. Na sua opinião, o que precisaria acontecer para enfrentar a situação?” As instruções pedem que não se sugira apenas ajuda externa (como aconselhamento), pois buscamos as ideias próprias das pessoas participantes.
As respostas às duas perguntas de cada vinheta são então codificadas com base no nível de complexidade sistêmica (desde nenhuma análise, passando pelo nível individual e pelo nível diádico, até o nível multilateral). Vale notar que a pontuação não se baseia em um modelo específico de teoria dos sistemas familiares, mas no nível de complexidade das respostas. Estamos desenvolvendo um manual de codificação e analisando dados-piloto do público leigo e de terapeutas. Em algum momento, vamos treinar o ChatGPT com o manual de codificação e com casos de exemplo, em um processo iterativo que, segundo pesquisas anteriores, pode produzir uma pontuação confiável e ampliar muito a utilidade da medida (Elyoseph et al. 2023).
Revisões recentes do trabalho de intervenção com casais e famílias apontam a necessidade de o campo enfrentar questões multissistêmicas complexas e de ampliar o desenvolvimento e a formação à altura dessa complexidade (Snyder e Balderrama-Durbin 2020; Stanton e Welsh 2012). Do nosso ponto de vista, isso significa ajudar as pessoas em formação a transitar com fluidez entre a inteligência individual, a diádica e a de nível familiar, sendo a maior lacuna atual a do nível dos sistemas familiares descrito neste artigo. A maior lacuna atual não é a capacidade de quem está em formação de nomear conceitos sistêmicos, mas sua capacidade de operacionalizar o pensamento multilateral quando terceiros reais (filhos, relações conjugais anteriores, família extensa, escolas, equipes médicas, congregações, locais de trabalho) exercem pressão sobre o sistema relacional em foco. Kaslow et al. (2019) resumem assim esse tipo de postura formativa:
Em consonância com as afirmações de outras pessoas dedicadas ao ensino e à formação, concordamos que é crucial que quem está em formação e quem já atua profissionalmente pense e aja com o olhar da psicologia de casal e de família… Independentemente da orientação teórica, isso exige desenvolver a capacidade de pensar sistemicamente, de acordo com a teoria geral dos sistemas. O pensamento sistêmico oferece tanto um referencial quanto um léxico para descrever e compreender os fatores e as inter-relações que informam o comportamento adaptativo e disfuncional dos sistemas, e nos dá um mapa para permanecer em sintonia com os fatores biopsicossociais que influenciam os contextos e sistemas sociais e relacionais… Aprender a pensar sistemicamente costuma exigir uma mudança epistemológica na maneira de ver o mundo e de compreender o comportamento humano, afastando-se de uma perspectiva psicológica individualista rumo a uma conceituação contextual do comportamento e das interações humanas.
(p. 4)
Note-se que esse apelo à melhoria da formação não faz distinção entre sistemas diádicos e sistemas multilaterais. Em termos práticos, sugerimos que a formação vise pelo menos quatro competências ensináveis que fariam o campo avançar além de seu foco atual nos sistemas diádicos: (1) avaliação dos sistemas, isto é, identificar os sistemas relevantes, seus membros-chave e os triângulos, coalizões e processos de fronteira ativos; (2) formulação sistêmica do caso, isto é, ligar o ciclo apresentado pelo casal a padrões multilaterais em diferentes contextos; (3) intervenção multilateral, isto é, coordenar negociações de fronteira e contatos estruturados com terceiros quando apropriado (por exemplo, quem divide a coparentalidade, família extensa, escolas ou equipes médicas), mantendo um enquadre claro de terapia de casal; e (4) a pessoa terapeuta como agente sistêmico, isto é, monitorar o próprio posicionamento, a própria reatividade e os próprios padrões de aliança diante das pressões multilaterais. Essas habilidades podem ser desenvolvidas por meio de exercícios estruturados que peçam às pessoas em formação que construam um mapa dos sistemas junto com uma formulação diádica, identifiquem pontos de alavancagem para deslocar padrões multilaterais e pratiquem breves dramatizações que incluam dilemas com terceiros (por exemplo, um conflito de coparentalidade com a pessoa ex-cônjuge, um conflito de lealdade em família recomposta ou uma ligação de consultoria com a equipe médica).
A supervisão é um lugar natural para esse trabalho, porque a própria supervisão é um sistema multilateral (pessoas atendidas, pessoa em formação, supervisão). A revisão de vídeos pode se voltar não apenas para o processo diádico, mas para a maneira como a pessoa terapeuta acompanha os triângulos, os movimentos de fronteira e as mudanças de aliança à medida que surgem, e responde a eles. A competência pode ser avaliada por rubricas baseadas em casos, por apresentações de caso estruturadas que exijam uma hipótese multilateral explícita ou por atendimentos simulados em que as pessoas em formação precisem demonstrar acompanhamento sistêmico e escolher intervenções ao mesmo tempo eficazes e responsáveis do ponto de vista ético e relacional.
Em conjunto, uma ênfase formativa na inteligência sistêmica pode ajudar o campo a manter seus pontos fortes no processo diádico, tornando-se ao mesmo tempo mais ágil diante das realidades multilaterais que os casais levam para a terapia.
A seguir, apresentamos três possíveis implicações das ideias expostas neste artigo, que vão do sistema clínico aos sistemas sociais e culturais mais amplos.
Assim como algumas formas importantes de psicoterapia individual (incluindo a psicodinâmica e a humanista) podem ser vistas como fortalecendo implicitamente a inteligência emocional, enquanto capacidade que ultrapassa os objetivos específicos do tratamento, sugerimos que um dos resultados da terapia de casal e de família poderia ser o fortalecimento da inteligência dos sistemas familiares, além da resolução de problemas relacionais imediatos. Acreditamos que essa capacidade ampliada das pessoas atendidas de compreender e agir com eficácia diante de desafios futuros, para além dos tratados na terapia, já é um resultado implícito de muitas formas de terapia de casal e de família. Na terapia de casal, a terapia focada nas emoções, o método Gottman e a terapia comportamental integrativa de casal, apesar de suas muitas diferenças, ajudam todos os casais a identificar e acompanhar seus padrões problemáticos de interação, uma capacidade que presumivelmente traz retorno para o enfrentamento do casal no futuro. Em outras palavras, uma maior inteligência dos sistemas diádicos pode ser vista como um resultado, em termos de resiliência, de uma terapia de casal bem-sucedida. Para deixar claro: não propomos que todos os modelos de terapia de casal tenham como objetivo declarado fortalecer a inteligência dos sistemas diádicos, mas sugerimos que esse é um resultado indireto de uma terapia de casal bem-sucedida para muitos casais.
Os modelos de terapia familiar apresentam mais ambiguidade quanto à promoção da inteligência dos sistemas familiares. Muitos dos modelos clássicos (estrutural, estratégico, Palo Alto) focavam a intervenção direta de quem conduzia a terapia sobre os problemas atuais, com menos ênfase na compreensão, pelos membros da família, de suas dinâmicas. O modelo de Bowen oferece o argumento mais forte para o fortalecimento da inteligência dos sistemas familiares, por seu foco na investigação dos padrões familiares intergeracionais e no aprendizado da diferenciação em relação a relações fusionais e triângulos pouco saudáveis. Para além dos modelos clássicos, adaptações contemporâneas, como os modelos de terapia familiar médica e de terapia de famílias recompostas discutidos neste artigo, são mais explícitas em ajudar as pessoas atendidas a compreender sua dinâmica interna (e, no caso da terapia familiar médica, suas interações com os sistemas de prestação de cuidados médicos) e, assim, aumentam sua capacidade de enfrentar desafios com mais eficácia quando a terapia termina e surgem novos estresses da vida. Por exemplo, as pessoas atendidas podem ser capazes de identificar um padrão de interação, como papéis de superfuncionamento e subfuncionamento nos quais tendem a cair sob estressores externos, e articular como resistiriam a esse padrão na prática.
Qual poderia ser o benefício prático de ver uma maior inteligência dos sistemas familiares como um resultado desejável da terapia de casal e de família e, diríamos, da terapia individual focada em problemas de casal e de família? Isso poderia chamar mais atenção para o que consideramos o principal benefício da inteligência dos sistemas familiares, a saber, o fortalecimento da resiliência, ou da capacidade de se adaptar e resolver problemas que surjam no futuro. Seria uma hipótese testável se os estudos de resultados examinassem não apenas os desfechos funcionais tradicionais, mas também a compreensão que as pessoas atendidas têm de suas dinâmicas sistêmicas, e depois se essa compreensão prediz um bom enfrentamento a longo prazo. Por exemplo, poderia ser avaliada a compreensão das pessoas atendidas sobre as dinâmicas sistêmicas que mudaram graças à terapia e sua visão de como gostariam de lidar, como casal, com estresses e desafios futuros. Outra possibilidade de mensuração seria o instrumento que estamos desenvolvendo (descrito acima), que mede a inteligência geral dos sistemas familiares aplicada a vinhetas sobre as experiências de outras famílias. O essencial seria saber se esses indicadores de inteligência dos sistemas familiares estão associados a melhores desfechos de funcionamento a curto e a longo prazo.
Outra implicação possível do conceito de inteligência dos sistemas familiares é difundir ideias e práticas sistêmicas por toda a sociedade. Há amplo consenso na historiografia e na sociologia sobre a influência cultural dos modelos de terapia individual, talvez porque se ajustem bem à cultura ocidental individualista (Aubrey e Travis 2015; Bellah et al. 1985; Rieff 1987). Mas as terapias de inspiração sistêmica parecem ter tido muito menos impacto no plano cultural. Como sociedade, ensinamos às crianças a linguagem da emoção, mas não a linguagem dos sistemas. Livros, podcasts e vídeos curtos das redes sociais oferecem uma profusão de análises psicológicas e termos relacionais básicos como “problemas de comunicação”, mas pouco em matéria de ideias sistêmicas para compreender os problemas relacionais. Por exemplo, recorre-se relativamente pouco a noções como padrões de interação diádicos e familiares, estratégias de tomada de perspectiva e de desescalada durante o conflito e o papel dos triângulos e das coalizões nos problemas relacionais crônicos. Um exemplo é a compreensão da adaptação ao recasamento e à vida em família recomposta, em que as explicações dos problemas pelos enteados ingratos e pela madrasta malvada estão culturalmente arraigadas. Infelizmente, acreditamos que a mesma lacuna de compreensão costuma existir na terapia individual, como documentou um estudo sobre a frequência com que, segundo as pessoas atendidas, quem as atendia em terapia individual se concentrava na psicopatologia da pessoa parceira, que nunca tinha sido vista em sessão (Doherty e Harris 2022). Acreditamos que terapeutas de orientação individual com formação sistêmica podem ajudar as pessoas atendidas a compreender melhor como estão presas em padrões problemáticos de interação de casal ou diante de uma triangulação confusa com a família, e a agir com mais eficácia para mudar sua participação nesses padrões.
Outras pessoas terapeutas de orientação sistêmica já pediram, antes de nós, mais compreensão sistêmica na cultura mais ampla (Bateson 1972; Bowen 1976; Minuchin et al. 1967). No entanto, uma vantagem estratégica do uso do termo “inteligência” é que ele enquadra o pensamento e a ação sistêmicos como uma capacidade pessoal (compreensão e eficácia comportamental) que pode ser desenvolvida, e não apenas como uma lente teórica útil na terapia. Assim como adquirir inteligência emocional se tornou um objetivo valorizado na cultura mais ampla (como atesta a proliferação de livros e podcasts de autoajuda), ganhar inteligência em matéria de sistemas familiares poderia se tornar igualmente popular e valorizado? Isso dialoga com o tradicional foco norte-americano no desenvolvimento pessoal e sugere que a inteligência dos sistemas familiares é uma capacidade que vale a pena buscar, porque contribui para uma vida plena. No plano do enquadramento cultural, assim como a inteligência emocional foi chamada de QE em textos populares (por exemplo, Stein e Book 2011) e na literatura acadêmica quando aplicada à mensuração (Dawda e Hart 2000), talvez chamar a inteligência dos sistemas familiares de SQ e a inteligência diádica de RQ (de inteligência relacional) pudesse aumentar seu apelo. Sejam ou não adotados esses rótulos, e revelem-se ou não úteis, o ponto central é que compreender os sistemas e funcionar com eficácia neles pode ser enquadrado como uma forma de inteligência prática que qualquer pessoa pode aspirar a desenvolver ao longo da vida.
Como mencionado, as figuras pioneiras da terapia familiar aspiravam a que suas ideias fizessem diferença no plano social. O conceito de inteligência dos sistemas familiares oferece uma nova possibilidade para esse tipo de impacto mais amplo, ao dar às pessoas conhecimentos e habilidades para compreender e enfrentar problemas que afetam a sociedade. Oferecemos o exemplo da aplicação de princípios e práticas da terapia de casal no trabalho da organização nacional sem fins lucrativos Braver Angels sobre a polarização política entre “vermelhos” e “azuis” nos Estados Unidos (Doherty e Mendenhall 2024; ver também Laszloffy e Platt 2024). O modelo de oficina da Braver Angels, e em particular o desenho e as atividades de sua oficina Vermelho/Azul, usa os seguintes elementos centrais da terapia de casal, formulados por Benson et al. (2012) em seu capítulo sobre os mecanismos comuns de mudança entre os modelos de terapia de casal.
Durante essa oficina vivencial baseada nesses princípios, as pessoas participantes passam a ver como os dois lados contribuem para o problema da polarização, aprendem a escutar em vez de reagir imediatamente diante de opiniões que as incomodam, praticam a autocrítica do próprio lado, aprendem a formular seus pontos de vista e suas perguntas de um modo que o outro lado possa acolher e articulam os pontos fortes do próprio lado enquanto escutam como o outro lado vê os pontos fortes de sua posição política. Uma descrição das atividades específicas que suscitam essas reações está em Baron et al. (2025). Um ensaio clínico randomizado conduzido por uma equipe de pesquisa externa constatou que essa oficina reduziu atitudes polarizadas e estereotipadas entre as pessoas participantes e influenciou, pelo menos a curto prazo, o comportamento em uma direção positiva (Baron et al. 2025). Embora o referencial da Braver Angels use principalmente conceitos de sistemas diádicos oriundos da terapia de casal, uma das oficinas centrais aborda como as pessoas que melhoram suas relações com o “outro” político podem aprender a lidar com a pressão de seus pares, que as veem como desleais: uma perspectiva triangular, portanto, sobre o trabalho de despolarização.
É claro que é importante manter a modéstia quanto à capacidade das ideias da terapia de casal e de família e da inteligência dos sistemas familiares de mudar o mundo. Mais importante é como uma lente sistêmica mais ampla pode ajudar terapeutas a acompanhar as pessoas atendidas quando suas interações familiares são influenciadas por grandes forças sistêmicas como a polarização. Terapeutas podem se voltar para questões sociais mais amplas quando elas incidem diretamente sobre a vida pessoal e relacional das pessoas atendidas, como vem acontecendo cada vez mais com a polarização política (McCown e Chamberlain 2025). E, às vezes, terapeutas podem se aventurar com humildade a aplicar o que sabemos aos próprios problemas mais amplos.
Ao introduzir um novo conceito, é importante deixar claro o que ele não é (as fronteiras e os limites do conceito) e esboçar os próximos passos de seu desenvolvimento.
Primeiro, a inteligência dos sistemas familiares não diz respeito ao conhecimento teórico, no sentido em que a teoria dos sistemas familiares tem funcionado em nosso campo; diz respeito ao conhecimento prático sobre como as pessoas compreendem suas relações de casal e de família e como podem funcionar com eficácia nesses sistemas relacionais. Da mesma forma, a inteligência emocional não é apenas autoconsciência emocional, mas também a capacidade de se autorregular emocionalmente e de responder às emoções dos outros. A inteligência dos sistemas familiares se aproxima mais de uma sabedoria para lidar com a complexidade relacional do que de um conhecimento conceitual. Ninguém precisa recitar o bê-á-bá da teoria dos sistemas familiares para demonstrar inteligência dos sistemas familiares.
Segundo, a inteligência dos sistemas familiares não é um traço fixo, alto ou baixo ao longo de toda a vida adulta, mas uma capacidade de desenvolvimento que pode crescer da infância até a vida adulta e se ampliar para incluir as novas formas familiares e as novas etapas de vida que uma pessoa encontra. Uma armadilha a evitar é a criação de uma nova hierarquia fixa de competência. As pessoas podem ter diferentes níveis de inteligência sistêmica em diferentes momentos da vida e nas diferentes formas familiares que encontram. Como mencionado, a terapia pode fortalecer sua inteligência dos sistemas familiares à medida que aprendem a lidar com uma crise familiar.
Terceiro, a inteligência dos sistemas familiares não é livre de cultura; a complexidade familiar se manifesta em diferentes ambientes sociais, com suas próprias normas culturais para as relações familiares. Sugerimos que a inteligência dos sistemas familiares tem algumas dimensões universais, como a capacidade de lidar com relações familiares multigeracionais, e algumas dimensões específicas de cada cultura, como funcionar dentro de normas conjugais tradicionais ou igualitárias e com laços familiares com diferentes tipos de sistemas externos. O que pode ser um manejo eficaz de uma crise familiar em uma cultura pode funcionar mal em outra. No entanto, em cada cultura as pessoas presumivelmente variam em sua capacidade de compreender com complexidade o que está acontecendo e como lidar com isso, ou seja, em sua inteligência dos sistemas familiares tal como se manifesta em seu próprio contexto. Por exemplo, em culturas não ocidentais que dão grande peso às relações com a família do cônjuge, a compreensão específica e as práticas eficazes para funcionar bem como membro da família podem diferir de maneira importante das de culturas mais centradas na família nuclear. O essencial é quão bem as pessoas avaliam as complexidades das normas culturais em que vivem, quaisquer que sejam, e agem a partir delas. Quão bem elas lidam com autoridades, lealdades e obrigações diferenciadas que vão mais fundo do que as personalidades individuais ou os vínculos diádicos? É aí que reside a inteligência dos sistemas familiares.
Quarto, o conceito não sugere que as ideias de algum modelo sobre os sistemas relacionais sejam o padrão-ouro da inteligência dos sistemas familiares. Em outras palavras, ela não se marca pelo uso de uma terminologia específica, mas pela complexidade com que uma pessoa enquadra as questões de casal e de família, em particular se ela enquadra a compreensão e a ação em termos estritamente individuais ou também em termos diádicos, triádicos e além. Conceitos sistêmicos específicos, como padrões de interação comportamental versus dinâmicas de apego, ou questões de fronteira versus padrões multigeracionais, não são essenciais à inteligência dos sistemas familiares; o que conta é o uso de ideias e práticas de nível diádico e de nível familiar, qualquer que seja sua filiação nos modelos terapêuticos. O mesmo vale para a prática terapêutica: uma prática pode ser informada pela perspectiva sistêmica mesmo que seus modelos teóricos e práticos sejam bem diferentes.
Quinto, a inteligência dos sistemas familiares não se sustenta sozinha, à parte, como forma de conhecimento e de comportamento eficaz. Ela se apoia na inteligência emocional e seria impossível sem ela (para uma discussão aprofundada desse ponto, ver Doherty 2024). E ambas as formas de inteligência são influenciadas por forças biológicas, sociais e culturais que vão além de seu alcance imediato. A inteligência dos sistemas familiares não é a resposta para problemas humanos complexos; é uma espécie de capacidade humana de resolução de problemas que não recebeu atenção suficiente.
Por fim, embora tenhamos defendido, no plano conceitual e clínico, a distinção entre a inteligência dos sistemas diádicos e a dos sistemas de nível familiar, não queremos sugerir que terapeutas de casal que usam modelos diádicos não possam ser eficazes em casos que envolvem influências de terceiros. Alguns casais podem descobrir por conta própria como lidar com seus problemas sistêmicos mais amplos depois de trabalhar suas questões diádicas. Ou a pessoa terapeuta de casal pode usar com eficácia conceitos e ferramentas que vão além dos de seu modelo diádico. (Da mesma forma, acreditamos que é possível promover a inteligência dos sistemas familiares na terapia individual.) No entanto, acreditamos que terapeutas se beneficiariam de conceituações de caso e intervenções explícitas de nível familiar no trabalho com pessoas e casais que sofrem influências significativas de seu sistema familiar mais amplo.
Seria de particular interesse, no futuro, explorar como a inteligência dos sistemas familiares se desenvolve da infância à vida adulta. Talvez a inteligência emocional venha primeiro, nas primeiras etapas da vida, e a inteligência dos sistemas familiares se desenvolva depois, à medida que as pessoas tomam mais consciência das complexidades relacionais. Uma questão relacionada é como ela poderia ser ensinada diretamente, e não apenas por meio de orientação durante as transições e os acontecimentos da vida.
Esperamos saber até que ponto terapeutas enxergam os padrões de interação diádicos e de nível familiar na vida das pessoas que atendem, e com que frequência os reduzem às características dos indivíduos. Isso se liga ao instrumento de medida que estamos desenvolvendo, que pretendemos usar tanto com terapeutas quanto com o público leigo. Liga-se também à formação, em que queremos saber até que ponto as pessoas em formação conseguem integrar ideias e práticas sistêmicas a seus modelos atuais de terapia. E há ainda as perguntas cruciais do tipo “e daí?” para a terapia: faz diferença nos resultados que a pessoa terapeuta use conceitos e ferramentas sistêmicos de nível familiar, e para que tipo de caso? Aumentar a inteligência dos sistemas familiares para fortalecer a resiliência faz diferença nos resultados a longo prazo? São questões que a pesquisa pode investigar.
Para além do campo clínico, queremos explorar se a ideia de uma capacidade humana distinta de compreender o próprio mundo íntimo e agir nele com eficácia poderia ter ressonância cultural em uma cultura individualista, focada no desenvolvimento pessoal mas carente de sutilezas sistêmicas. E poderia ela inspirar intervenções sociais úteis, como se viu com a Braver Angels? Esse objetivo mais amplo reflete as aspirações das figuras pioneiras das terapias sistêmicas: influenciar a sociedade com a percepção de que cocriamos nossos mundos sociais e podemos mudá-los se agirmos juntos.
Complexe Systémique: a reter
O artigo dá nome ao que muitas pessoas terapeutas sistêmicas fazem sem dizer: ajudar as famílias a enxergar seus próprios triângulos, para que possam usar essa compreensão quando a terapia terminar. A contribuição clínica é clara para a terapia de casal: quando o conflito envolve um filho adolescente, uma relação anterior, a equipe médica ou uma congregação, trabalhar apenas a díade não basta, e o primeiro gesto útil pode ser triangular. Duas ressalvas, que a equipe em parte faz ela mesma. Falar em “inteligência” corre o risco de recolocar no indivíduo uma competência que é antes de tudo relacional, e de criar uma nova hierarquia entre famílias “dotadas” e as demais. E a medida anunciada, a ser pontuada no futuro por uma IA, ainda precisa ser construída e validada: por ora, é um programa, não um resultado. A ideia mais fecunda está em outro lugar: fazer da lucidez sistêmica um resultado esperado da terapia, tanto quanto o alívio do sintoma. Para ler junto com o artigo sobre a inteligência emocional na terapia e com o artigo sobre o lugar de madrastas e padrastos.
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Tradução não oficial em português de A inteligência dos sistemas familiares na terapia de casal e de família, e além, de William J. Doherty, Adam R. Fisher e Nathan R. Hardy, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 52, no 2 (2026), doi: 10.1111/jmft.70136, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family Systems Intelligence in Couple and Family Therapy—And Beyond”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Doherty, W. J., Fisher, A. R., et Hardy, N. R. (2026). A inteligência dos sistemas familiares na terapia de casal e de família, e além (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-inteligencia-dos-sistemas-familiares-na-terapia-de-casal-e-de-familia-e-alem (Obra original publicada em 2026 em Journal of Marital and Family Therapy, 52(2) (2026); republicada em 2026 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.70136)
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