Family Process · Terapia familiar

Apoiar a coparentalidade nos serviços à criança e à família: discursos de envolvimento, fortalecimento de capacidades e reconciliação

Convidar o pai para cada consulta, falar com ele de outro jeito, ajudá-lo a “estar com” o bebê, mediar entre genitores que já não conseguem se encontrar: 21 profissionais de centros familiares finlandeses contam como apoiam a coparentalidade. Marjatta Kekkonen (Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar), Angela Abela (Universidade de Malta) e colegas de Jyväskylä e Helsinque identificam três discursos profissionais, e um ponto cego: a criança.

Autores Marjatta Kekkonen (Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar, Helsinque); Angela Abela (Departamento de Estudos da Criança e da Família, Universidade de Malta); Marja-Leena Böök e Anna K. Rönkä (Departamento de Educação, Universidade de Jyväskylä); Kaisa Malinen (Universidade de Ciências Aplicadas Jamk, Jyväskylä); Johanna Moilanen (Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsinque)Primeira publicação Family Process, 22 de maio de 2026Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Apoiar a coparentalidade nos serviços à criança e à família: discursos de envolvimento, fortalecimento de capacidades e reconciliação, de Marjatta Kekkonen, Angela Abela, Marja-Leena Böök, Kaisa Malinen, Johanna Moilanen e Anna K. Rönkä, publicado na Family Process (Wiley) (2026), doi: 10.1111/famp.70159, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Incorporar o ponto de vista da criança em todos os discursos coparentais permite construir um sistema familiar coparental verdadeiramente triangular.

Marjatta Kekkonen, Angela Abela, Marja-Leena Böök, Kaisa Malinen, Johanna Moilanen e Anna K. Rönkä

Resumo

Na pesquisa sobre parentalidade e relações familiares, houve um deslocamento visível do foco nas relações familiares diádicas, como a relação pais-filho, para as triádicas, como a coparentalidade. Do mesmo modo, a pesquisa sobre apoio às famílias tem pedido conhecimento sobre como apoiar a coparentalidade de todos os pais. Neste estudo, interessamo-nos pelos discursos que os profissionais constroem para apoiar os pais a exercer a coparentalidade, sobretudo nas primeiras fases da parentalidade. O contexto do estudo foram os centros familiares finlandeses, multiprofissionais e preventivos. Os dados foram coletados em cinco entrevistas de grupo focal com profissionais (n = 21) dos serviços de saúde, dos serviços sociais, da proteção à infância e da educação e cuidado na primeira infância. As entrevistas foram gravadas, transcritas na íntegra e pseudonimizadas. Ao identificar as posições profissionais e a dupla agência dos pais, encontramos três maneiras profissionais distintas de apoiar a coparentalidade: o discurso do envolvimento coparental, o discurso do fortalecimento das capacidades coparentais e o discurso em torno da reconciliação coparental. Em cada discurso, os profissionais usavam estratégias discursivas variadas para avaliar e promover a coparentalidade no sistema familiar. A agência do pai era enfatizada em todos os discursos, mas os direitos da criança eram discutidos sobretudo em torno da reconciliação coparental. Os resultados são discutidos à luz da pesquisa existente sobre o apoio à coparentalidade. Como implicação prática para os serviços à criança e à família, sugerimos que os profissionais tragam ativamente as questões de coparentalidade para a conversa, oferecendo às famílias apoio tanto universal quanto direcionado. O estudo faz parte do projeto de pesquisa Learning to coparent: A longitudinal, cross-national study on construction of coparenting in transition to parenthood (CopaGloba).

1. Introdução

A coparentalidade se refere à relação entre os pais e outros adultos que compartilham a responsabilidade pelo cuidado e pela criação de uma criança em comum. É, portanto, um subsistema familiar triádico, distinto dos subsistemas diádicos da relação pais-filho e da relação de casal. A coparentalidade tem vários componentes interligados: a divisão do trabalho, o acordo sobre a criação, o apoio mútuo dos pais ou, ao contrário, a desqualificação recíproca, e a gestão conjunta da família (Feinberg 2003). Hock e Mooradian (2013) refinaram esses componentes: harmonia parental, preservação de fronteiras, vínculo parental e reciprocidade nos cuidados. Uma relação coparental que funciona bem está positivamente ligada ao ajustamento dos pais e ao desenvolvimento da criança (Kotila e Schoppe-Sullivan 2015) e protege os pais do estresse ligado à parentalidade (Durtschi et al. 2017). Os serviços preventivos oferecem um espaço natural e familiar para obter apoio à coparentalidade. Eles podem, por exemplo, intervir numa situação em que o pai mostra retraimento emocional em relação ao bebê, o que se mostrou preditor da regulação emocional adaptativa posterior da criança pequena (Gallegos et al. 2017). Os novos pais veem as dimensões da coparentalidade como oportunidade de crescimento e aprendizagem (Ranta et al. 2022), o que implica a necessidade de apoio no espaço preventivo dos serviços.

Pesquisadores (por exemplo, Durtschi et al. 2017; Feinberg 2003; Kuersten-Hogan 2017; McHale et al. 2004) veem a coparentalidade como uma forma muito importante de relação familiar, mas também como algo que não funciona automaticamente bem entre novos pais, como mostram, por exemplo, os conflitos parentais, os comportamentos de desqualificação e a falta de envolvimento (Darwiche et al. 2022; Favez et al. 2023; Ranta, Böök, et al. 2024). Por isso, a coparentalidade é considerada um alvo relevante da educação parental e da prevenção (Feinberg 2003). Uma coparentalidade apoiadora é benéfica não só para o bebê, mas também para a parentalidade e o bem-estar de cada um dos pais (Durtschi et al. 2017). A pesquisa sobre coparentalidade ampliou seu foco para além dos pais divorciados, incluindo pais não divorciados e pais em diversas formas e fases familiares.

A maneira como os pais dividem as responsabilidades parentais está fortemente ligada ao contexto mais amplo: políticas familiares, serviços e valores culturais (Grunow e Evertsson 2019, 2021; Kekkonen, Böök, et al. 2023). Em muitos países ocidentais, sobretudo nos nórdicos, a coparentalidade é valorizada da perspectiva da igualdade de gênero; nas culturas familistas e coletivistas, em que os parentes costumam ser incluídos, ela é fonte de solidariedade familiar e de apoio social (Kekkonen, Böök, et al. 2023; Rönkä et al. 2026). Do mesmo modo, o apoio preventivo precoce é moldado pela política familiar existente, pelo contexto sociocultural e pelas necessidades das famílias. A perspectiva preventiva se refere às práticas e intervenções que apoiam relações coparentais positivas e cooperativas antes que os problemas familiares se transformem em padrões comportamentais disruptivos. A prevenção visa a um melhor ajustamento parental, à qualidade da relação de casal, ao envolvimento do pai e ao desenvolvimento da criança (Feinberg e Sakuma 2011). As pesquisas sobre coparentalidade precoce (Lindroos et al. 2025; Ranta, Paloniemi, et al. 2024) pedem um trabalho preventivo que promova a colaboração parental já antes do nascimento do bebê e durante os primeiros anos. Nos últimos anos, um número crescente de programas de intervenção familiar tem se voltado à coparentalidade ao lado da parentalidade (Eira Nunes et al. 2021). O apoio precoce à coparentalidade nos serviços preventivos, porém, não foi estudado.

Nos países nórdicos, como a Finlândia, o apoio precoce à coparentalidade está integrado aos centros familiares, que alcançam praticamente todos os pais. O centro familiar finlandês designa o conjunto de serviços integrados que buscam apoiar e promover a saúde e o bem-estar das crianças, dos pais e das famílias. Os centros familiares oferecem apoio universal, mas também apoio ajustado às necessidades de cada criança e de sua família. Serviços como as clínicas de saúde materna e infantil, os serviços sociais para famílias e os serviços de aconselhamento familiar, mas também a proteção à infância preventiva e os espaços abertos de encontro para famílias, fazem parte do centro familiar. Assim, os serviços de saúde e sociais integrados nos centros familiares oferecem apoio preventivo abrangente no período perinatal e nos primeiros anos da infância, ao contrário dos sistemas fragmentados e especializados de muitos outros países (Rautaparta-Pennanen et al. 2025; Serapioni 2023).

Este estudo trata das práticas clínicas dos profissionais que atuam nos serviços preventivos e de apoio precoce à criança e à família reunidos nos centros familiares. Interessamo-nos pelos discursos que os profissionais usam para apoiar os pais a cooperar como coparentes na fase inicial da parentalidade. Mais precisamente, buscamos saber como os profissionais falam com os pais para promover a coparentalidade, como essa fala profissional varia conforme os contextos familiares e os serviços, e que efeitos essas variações podem ter sobre as possibilidades de os pais receberem ajuda adequada como coparentes.

1.1 Práticas de apoio à coparentalidade

O apoio à coparentalidade tem sido incluído em intervenções para diversos públicos: futuros pais (Feinberg e Sakuma 2011), sistemas familiares multigeracionais (Gleeson et al. 2011), famílias frágeis (Carlson e Högnäs 2011), pais jovens (Eira Nunes et al. 2021; Florsheim e Burrow-Sánchez 2023) ou famílias após o divórcio (Pruett e Donsky 2011). Há também intervenções universais, como Family Foundation (FF) e Building Strong Families (BSF; Feinberg e Sakuma 2011), além de outras mais focadas, como o jogo trílogo de Lausanne (LTP) e o Coparenting and Family Rating System (CFRS; McHale e Jenkins 2023). Apoiar e avaliar a coparentalidade é tarefa dos clínicos dos serviços, mas exige acordo sobre o que se entende por coparentalidade, quais instrumentos de avaliação usar, quais elementos são essenciais na avaliação e quais são os públicos-alvo (McHale 2011).

Na prática clínica, o alvo das intervenções tem sido tradicionalmente um único cuidador ou a díade pais-filho (McHale e Negrini 2018). Se não se dá atenção à colaboração parental, porém, as consequências para a criança podem ser imprevisíveis e até contraditórias, levando a resultados menos bem-sucedidos. McHale, Tissot, et al. (2023) observam que, na prática corrente em saúde mental do bebê, a avaliação da coparentalidade ainda não está no centro, e falta competência para conversar com os pais sobre a importância da coparentalidade para o desenvolvimento saudável da criança. Segundo esses autores, adotar uma abordagem familiar sistêmica e triangular, que inclui ambos os adultos, ou todos, e a própria criança, exige que os serviços considerem quatro funções: o engajamento, o trabalho em equipe, a presença ou ausência de conflito e o foco na criança. No engajamento, a tarefa fundamental é estabelecer se todos os membros da família estão engajados e, se não estão, de que modo não estão. Em situação de desengajamento, retraimento ou exclusão, o ponto de partida é perguntar a cada pessoa individualmente, sem priorizar as mães, se ela tem a possibilidade de interesse, engajamento e acesso iguais à coparentalidade. A avaliação do trabalho em equipe se concentra na cooperação (ou na falta dela) entre os adultos que exercem a coparentalidade, não tanto na simetria ou no equilíbrio, mas na maneira como cada adulto considera o outro e o reconhece como membro plenamente participante e necessário da equipe. Avaliar a presença ou ausência de conflito significa identificar as diversas formas de desrespeito entre coparentes: competição, embates verbais, interrupções e comentários depreciativos sobre o coparente ausente na presença da criança. Por fim, o foco na criança consiste em verificar se os coparentes mostram sintonia suficiente com a criança e suas necessidades: os adultos conseguem reconhecer e afirmar as contribuições, as emoções e as interações da criança, vê-la com precisão, concordar sobre aquilo de que ela precisa e agir em aliança para atender a essas necessidades (McHale, Tissot, et al. 2023).

Nos países nórdicos, como a Finlândia, o apoio à coparentalidade está integrado à oferta universal de serviços reunida nos centros familiares, onde os profissionais conversam, por exemplo, sobre a confiança mútua dos pais, a divisão de responsabilidades, as concepções compartilhadas de criação e a participação igual nos cuidados com a criança. Embora o conceito de coparentalidade não seja usado na prática clínica, os profissionais reconhecem os elementos centrais da cooperação parental (Kekkonen, Malinen, et al. 2023). Falta, no entanto, uma abordagem mais ativa do apoio à coparentalidade de todos os pais nos serviços familiares finlandeses. É preciso também clareza conceitual para que os pais saibam quando as questões discutidas dizem respeito à coparentalidade, distinta da relação pais-filho ou da relação amorosa. Um conhecimento e uma consciência mais amplos do modelo multidimensional da coparentalidade levariam a uma abordagem mais ativa do apoio à cooperação parental em todas as famílias que usam os serviços.

1.2 Da abordagem diádica à triádica

Uma abordagem da coparentalidade centrada nas relações triádicas, que inclua o pai, a mãe e a criança, é uma prática essencial nos serviços. Centrar-se nas relações diádicas significa apoiar a parentalidade ou a relação pais-filho, o que muitas vezes equivale, na prática, a trabalhar com as mães. McHale e Negrini (2018) afirmam que uma inclusão maior dos pais no trabalho clínico, frequentemente reivindicada, dificilmente acontecerá sem a compreensão da importância das relações coparentais triádicas. Segundo eles, trabalhar apenas com o pai ou com a mãe é insuficiente: é necessária uma abordagem coparental triangular. Para isso, as práticas existentes precisam ser questionadas em todos os serviços. É essencial que, nas intervenções preventivas e nos programas de apoio, os profissionais possam favorecer dinâmicas coparentais mais saudáveis, melhorar o bem-estar parental e promover o desenvolvimento positivo da coparentalidade (Lu et al. 2024). É igualmente importante promover arranjos coparentais positivos na família, inclusive nas relações entre pais e avós (Xu et al. 2024), e dar atenção à coesão e à aliança coparental do casal, ao lado da satisfação conjugal e das competências parentais (Morrill et al. 2010). Isso ilustra a mudança de paradigma em favor da promoção da coparentalidade, em que todos os pais recebem uma mensagem coerente, repetida e clara sobre a importância de envolver os pais homens.

A maneira como os profissionais acolhem o pai ou o genitor que não deu à luz é decisiva para o desenvolvimento precoce da coparentalidade. Envolver o outro genitor na coparentalidade é mais eficaz no início da transição para a parentalidade. No Reino Unido, a revisão sistemática de Evans et al. (2023) mostrou o papel central das parteiras, sobretudo em relação às famílias LGBTQ+. O genitor que não deu à luz podia ter um impacto positivo na experiência de parto das mulheres quando as parteiras confiavam nele e o incentivavam como coparente. O grupo de trabalho internacional sobre pais em neonatologia da Family Initiative propõe que, nos cuidados neonatais, se dê atenção ao vínculo pai-bebê, às diferenças entre mãe e pai e ao fortalecimento da relação coparental (Fisher et al. 2018). Um estudo de Russell e colegas (Russell 2019) mostrou que a maneira como as enfermeiras respondiam a ambos os pais, em famílias separadas com um filho com diabetes, dependia da formação delas, o que indica a necessidade de mais formação em coparentalidade. Na Suécia, os pais e/ou os genitores que não deram à luz são convidados a participar, sozinhos ou com a parceira ou o parceiro, das visitas pós-natais de rotina de uma enfermeira de saúde infantil, o que se mostrou associado positivamente a uma melhor coparentalidade entre os pais que participam das consultas regulares (Wells et al. 2023).

A exclusão dos pais nas práticas dos serviços pode estar ligada às ideias dos profissionais sobre o melhor interesse da criança, às suas crenças sobre a parentalidade ideal ou a pressupostos sobre a parentalidade compartilhada. Autonen-Vaaraniemi (2022) estudou as atitudes de profissionais finlandeses em relação à paternidade depois do divórcio. Os profissionais enfatizavam a importância de tratar os pais com igualdade, independentemente do gênero. O que pesava mais que a igualdade de gênero entre os pais, para esses profissionais, era o melhor interesse da criança, visto como mais bem assegurado pela parentalidade contínua de dois pais cooperativos que se apoiam. Eles quase não consideravam a possibilidade de que esse tipo de coparentalidade funcionasse mal, por exemplo em situações de alienação parental. Os serviços de saúde mental e os serviços sociais para famílias também podem manter uma cultura e práticas clínicas que excluem os pais (Lim et al. 2023). Com base em gravações em vídeo de consultas em clínicas de saúde infantil na Finlândia, Tiitinen e Ruusuvuori (2015) afirmam que as enfermeiras (assim como os pais) fazem pressupostos de gênero ao discutir questões de parentalidade compartilhada. Isso aparece, por exemplo, em interações em que as responsabilidades parentais das mães são tratadas como óbvias e o papel dos pais como não evidente. Há também desvios desses pressupostos, por exemplo quando as enfermeiras fazem perguntas que pressupõem uma parentalidade compartilhada, e não marcada pelo gênero. Para Tiitinen e Ruusuvuori (2015), as consultas nas clínicas de saúde infantil são uma arena não só de reprodução de ideias de gênero sobre a parentalidade, mas também de tratamento desses pressupostos como problemáticos, de negociação e de discussão de ideais de parentalidade potencialmente conflitantes. Do mesmo modo, segundo os pesquisadores australianos Lim et al. (2023), os paradigmas de avaliação e tratamento em saúde mental do bebê costumam privilegiar a relação mãe-bebê. Eles recomendam que os profissionais trabalhem com todo o sistema familiar, que reflete mais plenamente o ambiente interpessoal em que se formam as primeiras experiências do bebê. Identificam várias objeções que encerram a conversa sobre o envolvimento dos pais no trabalho em saúde mental do bebê, desde o receio de periculosidade até o receio de criar trabalho adicional. Lim et al. (2023) incentivam as equipes e os clínicos de saúde mental do bebê a refletir, em seu pensamento e em suas conversas, sobre a cultura de serviço e sobre como ela inclui ou exclui os pais e outros adultos cuidadores, por exemplo nos processos de acolhimento, nas intervenções terapêuticas predominantes ou na maneira de falar dos pais.

1.3 O presente estudo

Apesar de uma pesquisa relativamente ampla sobre o apoio à coparentalidade, há uma lacuna na literatura sobre como os profissionais dos serviços preventivos e de apoio precoce podem apoiar deliberadamente todas as famílias em seu objetivo de cooperar como coparentes. Daí nossa pergunta de pesquisa: como os profissionais podem apoiar a coparentalidade nos serviços preventivos e de apoio precoce à criança e à família?

O contexto da pesquisa é um centro familiar finlandês, polo ou rede de serviços integrado e multidisciplinar (Serapioni 2023). Ele inclui serviços preventivos e de apoio precoce, como clínicas de saúde materna e infantil, serviços sociais para famílias, trabalho familiar, aconselhamento familiar e espaços de encontro abertos e de baixo limiar para famílias. Os profissionais fazem os exames de saúde das crianças, oferecem apoio, orientação e aconselhamento sobre parentalidade e favorecem relações pais-filho saudáveis. Baseados no princípio do atendimento em um só lugar, os serviços são oferecidos a todas as famílias, inclusive a pais divorciados ou em disputa.

O estudo fez parte do projeto de pesquisa Learning to coparent: A longitudinal, cross-national study on construction of coparenting in transition to parenthood (CopaGloba), dedicado ao desenvolvimento da coparentalidade ao longo da transição para a parentalidade e aos fatores que, na família, na comunidade, na sociedade e na cultura, a favorecem ou a dificultam.

2. Método

Neste estudo, partimos do pressuposto de que a construção da coparentalidade se dá por meio de discursos, em que a própria linguagem funciona como ferramenta de prática social e maneira de fazer coisas (Wood e Kroger 2000, 4). Ao adotar uma abordagem discursiva, vemos a coparentalidade não apenas como questão prática da vida familiar (Ranta, Paloniemi, et al. 2024), mas como questão de fala e de produção discursiva de sentido, em que os enunciados das pessoas são vistos como ações com funções específicas (Wood e Kroger 2000). Interessamo-nos pelos discursos que os profissionais constroem para promover a cooperação coparental e apoiar os pais nela. O estudo adota uma postura epistemológica construcionista social. As opiniões dos profissionais entrevistados, assim como nossas interpretações delas, refletem as múltiplas realidades construídas que emanam de nossas interações sociais e de nossos contextos culturais (Berger e Luckmann 1991; Gergen 2014).

Todas as pessoas que assinam o artigo têm longa experiência em coparentalidade, parentalidade, serviços familiares e pesquisa qualitativa. A pessoa que assina em primeiro lugar tem amplo conhecimento dos serviços dos centros familiares, a segunda pessoa signatária tem expertise em apoio à parentalidade e em sistemas de serviços familiares no plano internacional, enquanto as demais pesquisaram a coparentalidade entre novos pais, pais divorciados e famílias acolhedoras. A última pessoa signatária tem ampla experiência de pesquisa intercultural sobre a coparentalidade na transição para a parentalidade.

2.1 Recrutamento dos participantes

Os dados foram coletados com profissionais que atuam nos centros familiares de quatro municípios1 participantes do projeto CopaGloba. A pessoa que assina em primeiro lugar contatou centros selecionados, nos quais uma pessoa de contato local informou os profissionais sobre o objetivo, a duração e o conteúdo da entrevista, bem como sobre o consentimento. Os participantes (n = 21) trabalhavam em saúde materna e infantil, trabalho familiar, aconselhamento familiar, serviço social familiar, proteção à infância, serviços de direito de família e educação infantil. Atuavam em enfermagem de saúde pública, trabalho familiar, serviço social, terapia, proteção à infância e educação infantil. Dois participantes eram homens. A idade média era de 47 anos (de 33 a 62), e a experiência profissional variava de três a 40 anos.

2.2 Coleta de dados

Cinco entrevistas de grupo focal foram realizadas entre novembro e dezembro de 2020, por videochamada no Microsoft Teams, já que a pandemia de covid-19 restringia os contatos presenciais na época. O formato do Teams oferecia um espaço social neutro e compartilhado para a discussão livre, mas impedia a equipe de pesquisa de ter contato visual direto com os participantes ou de observar a interação não verbal entre eles. Os grupos tinham de três a sete pessoas, o que permitia a cada participante compartilhar suas experiências, conhecimentos e reflexões sobre a coparentalidade, já que um grupo menor é ideal para dar a todos tempo suficiente para contar suas histórias (Tausch e Menold 2016). Ainda assim, os dados coletados on-line nos anos de covid podem ser menos ricos do que os de grupos focais presenciais, pois os participantes tendem a conter comentários e iniciativas espontâneos. Cada entrevista foi conduzida por duas pessoas da equipe de pesquisa, gravada, transcrita na íntegra e pseudonimizada, num texto de 139 páginas (Times New Roman 12, espaçamento 1,5). As entrevistas tinham em média 28 páginas (de 25 a 31). O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Ciências Humanas da Universidade de Jyväskylä.

2.3 Dados

O roteiro de entrevista tinha cinco temas: (1) as concepções e reflexões dos profissionais sobre coparentalidade, (2) como os profissionais falam de coparentalidade nos serviços, (3) o apoio aos pais e às famílias em sua coparentalidade, (4) a coparentalidade em famílias diversas e (5) os efeitos da pandemia de covid-19 sobre as famílias e a parentalidade. Usamos principalmente os dados dos temas dois e três, mas todo o material foi percorrido para incluir todas as conversas sobre apoio à coparentalidade. O tema 2 incluía, por exemplo, perguntas como: Em que serviços e de que maneiras os temas da coparentalidade estão hoje presentes? Qual é o papel da sua organização no apoio à coparentalidade? Em que serviços esses temas deveriam ser mais visíveis? O tema 3 abrangia perguntas como: Que questões precisam ser conversadas com as famílias ou os pais em relação à coparentalidade? Em que situações seria bom apoiar a coparentalidade da família? Que práticas você usa para apoiar a coparentalidade? O contexto da fala em grupo focal é ele próprio moldado pelo contexto e o renova (Heritage e Atkinson 1984; Wood e Kroger 2000).

2.4 Análise

As maneiras específicas como os profissionais falam, usam a linguagem e conversam com os pais têm papel central nos atendimentos. Por “discurso”, entendemos um uso estabelecido da linguagem, baseado numa tradição particular e aplicado na interação e na conversa num determinado ambiente, comunidade ou campo profissional. O uso estabelecido da linguagem nos serviços sociais e de saúde é um discurso profissional geral próprio desse campo (ver Alasuutari 2010; Alasuutari e Markström 2011). Neste estudo, focalizamos as práticas discursivas profissionais e suas variações em torno do apoio à coparentalidade. Buscamos essas variações identificando as posições dos profissionais, que indicam maneiras específicas de construir a relação entre quem fala e quem ouve (Wood e Kroger 2000).

Buscamos, portanto, nos dados, os traços que representam as diversas maneiras de construir, pela conversa, o apoio profissional à coparentalidade. Os profissionais falavam de modos diferentes sobre o objeto discursivo, como o apoio à coparentalidade, o que indica que esse objeto pode ser construído de diversas maneiras. As posições dos profissionais se construíam “na rede de significados disponíveis, que os profissionais podem assumir ou nos quais podem situar os outros” (Willing 2024, 160). Além disso, os profissionais usavam “estratégias discursivas para gerir um interesse na interação social” (Willing 2024, 147), por exemplo, estratégias sobre como veem os pais, sua relação mútua e suas necessidades de apoio. A agência dos pais, construída pelos profissionais, tinha também um duplo caráter: “o que é feito por uma pessoa e o que é feito a uma pessoa” (Wood e Kroger 2000, 101), o primeiro designando um agente e o segundo um paciente. As agências se formavam ainda na orientação para a ação, concretizada nos verbos usados pelos profissionais ao falar do apoio à coparentalidade. Exploramos os diversos significados discursivos da coparentalidade construídos pelos profissionais, em vez de abordar os dados como “fala-em-interação”, à maneira da análise da conversa em contextos institucionais (Wood e Kroger 2000, 21, citado em Schegloff 1989).

2.4.1 Fases da análise

Para aumentar a confiabilidade dos resultados, usamos a triangulação entre pesquisadores (Ravitch e Carl 2019): duas pessoas da equipe conduziram a análise em fases, e os resultados foram discutidos várias vezes por toda a equipe para chegar a uma interpretação comum. De maneira indutiva, a partir dos dados (Ravitch e Carl 2019), a pessoa que assina em primeiro lugar separou todos os trechos relacionados à promoção da coparentalidade e estabeleceu 71 códigos. Códigos como “apoiar ambos os pais”, “o pai é convidado”, “necessidades da criança” ou “desacordos sobre a criação da criança” ilustram essa fase. Em seguida, a primeira e a terceira pessoas signatárias agruparam os códigos em subtemas (como pais, parentalidade, ambos os pais), tornando visível que a fala dos profissionais mostrava como eles próprios compreendiam e interpretavam as questões trazidas para a conversa. Para analisar essa “ação realizada na fala”, deu-se atenção especial tanto ao conteúdo quanto aos recursos e às práticas discursivas mobilizados pelos profissionais (Potter e Wetherell 1995; Wood e Kroger 2000). Depois, a construção de relações profissionais de apoio com os pais foi identificada por meio da variação das posições de sujeito dos profissionais. Na fase final, a agência dos pais foi identificada ou como agente ativo ou como paciente mais passivo. A seguir, examinamos em mais detalhe as posições dos profissionais e as agências dos pais.

2.4.2 Posições dos profissionais

Buscamos que posições discursivas os profissionais adotavam ao falar de pais que precisavam de apoio à coparentalidade. Por posicionamento, entendemos uma variedade de escolhas discursivas que representam as diversas maneiras como os profissionais constroem a interação e a comunicação com os pais. Segundo Wood e Kroger (2000), “o posicionamento se refere à constituição de falantes e ouvintes de maneiras particulares por meio de práticas discursivas, que são ao mesmo tempo recursos pelos quais os falantes podem negociar novas posições” (100). Identificamos três posições de sujeito profissionais em relação aos pais, prestando atenção aos verbos específicos que os profissionais usavam em seus relatos de encontros com os pais. Uma categoria se formou em torno de verbos de comunicação profissional ativa: perguntar, ouvir, convidar, conversar, ajustar, filtrar o conhecimento especializado, persuadir. O segundo posicionamento se baseava em verbos de intervenção: guiar, aconselhar, dar conselhos, servir de modelo, convencer, corrigir, melhorar. O terceiro construía os profissionais como aqueles que zelam pelos direitos da criança, cuidam de suas necessidades, definem os direitos dos pais e estabelecem responsabilidades ou limites para os pais.

2.4.3 Agências dos pais

Exploramos também que agências os profissionais construíam para pais, mães, genitores e crianças para expressar a necessidade de apoio e de promoção. Buscamos os atos de fala que expressam e indicam com quem os profissionais se preocupavam em matéria de coparentalidade. Notamos que os profissionais podiam construir um genitor como aquele que precisa de envolvimento, ajuda, incentivo e conselhos em sua coparentalidade, ou como aquele que age como coparente igualmente responsável, competente ou envolvido. Isso segue a distinção agente-paciente de Wood e Kroger (2000). Identificamos trechos em que ambos os genitores, ou só o pai, eram vistos como quem se beneficiaria da capacidade do profissional de ajustar sua maneira de falar da gravidez, dos cuidados com o bebê ou da (co)parentalidade. Numa construção alternativa, pais e genitores eram vistos como agentes coparentais iguais e competentes. Com essas ferramentas, passamos à análise.

3. Resultados

Combinando as posições profissionais de comunicador, interventor e supervisor com a dicotomia agente-paciente da agência parental, formamos três discursos distintos de apoio à coparentalidade: o discurso do envolvimento coparental, o discurso das capacidades coparentais e o discurso em torno da reconciliação coparental (tabela 1). A seguir, examinamos cada um em detalhe.

Tabela 1 — A construção dos discursos de apoio à coparentalidade

Discurso do envolvimento coparental. Posição do profissional: comunicador. Convidar ativamente, incentivar, encontrar pessoalmente, conversar, ajustar a comunicação, filtrar o conhecimento especializado, persuadir criando um espaço seguro.

  • Genitor como agente. Ambos os genitores vão aos serviços; ambos são vistos como começando juntos desde o início; os pontos de vista de ambos são considerados importantes.
  • Genitor como paciente. Ausente, passivo, retraído, sem participar (pai); em risco de se sentir incompetente ou inábil (pai); confusos em seu novo papel parental (ambos os genitores).

Discurso do fortalecimento das capacidades coparentais. Posição do profissional: interventor. Aconselhar, argumentar com os genitores, guiar, dar conselhos concretos, servir de modelo, convencer, corrigir.

  • Genitor como agente. Especialista em suas próprias questões de coparentalidade (ambos os genitores); participa dos exames de saúde da criança (ambos); capaz de aprender a cuidar de uma criança e a estar com ela (pai).
  • Genitor como paciente. Ideias e pressupostos equivocados sobre a relação (co)parental (pai); pouco ativo na vida da criança (pai); desamparados diante do bebê (ambos); controle do acesso ao bebê (mãe).

Discurso em torno da reconciliação coparental. Posição do profissional: supervisor. Agir com imparcialidade, mediar, promover o acordo mútuo, estabelecer limites, supervisionar as visitas.

  • Genitor como agente. Direito igual de ver a criança; igualmente responsáveis pelos cuidados com a criança; capazes de chegar a acordos.
  • Genitor como paciente. Pais divorciados em conflito; coparentalidade em disputa; incapazes de assegurar o bem-estar da criança; preocupação com a segurança da criança.

3.1 O discurso do envolvimento coparental

O discurso do envolvimento coparental descreve como os profissionais se engajam ativamente com os genitores, sobretudo com os pais, convidando, incentivando e ajustando a comunicação. Os profissionais agem como especialistas que buscam familiarizar os genitores com os papéis parentais e as tarefas coparentais. Os pais são muitas vezes apresentados como ausentes ou passivos, precisando de atenção especial e de ser ativados para reconhecer seu papel de coparentes. Esse discurso surge quando os pais começam a se situar tanto em seu novo papel parental quanto em sua posição de usuários dos serviços à criança e à família. Os profissionais frequentemente percebem os pais como retraídos ou inativos em diversos contextos e se posicionam como facilitadores que acolhem e incluem os pais, sobretudo durante a gravidez, vendo-os como parceiros-chave ao lado das mães.

Bom, talvez a gente convide ativamente o pai para a consulta de pré-natal todas as vezes, para que ele sinta que é bem-vindo para participar e que não está lá só para ouvir, mas que também perguntam o que ele pensa e também levam em conta como ele está dando conta; são coisas que podem ser desenvolvidas no pré-natal, mas é compreensível que os pais trabalhem e que a consulta seja no horário comercial, então nem sempre dá para ir todas as vezes. (Katja)

No discurso do envolvimento, o casal não é interpretado como unidade indivisa, mas como formado por duas pessoas, em geral identificadas como mãe e pai, em alguns casos também como pais do mesmo sexo. Os profissionais querem se comunicar pessoalmente com cada um. Não pressupõem que um genitor possa representar ou substituir o outro: apoiando-se no conhecimento especializado de que a coparentalidade é, por natureza, uma relação entre dois adultos que têm juntos um filho (um bebê), eles encontram os dois. Isso vale também para pais do mesmo sexo. “Se penso em pais do mesmo sexo, eles parecem ter os mesmos problemas que as outras famílias, então o sexo dos pais não importa, a gente conversa sobre as mesmas questões.” (Asta) Embora falem dos genitores no plural, os profissionais apontam os pais como os que raramente vão às clínicas de saúde infantil; por isso sua participação é esperada e eles são bem-vindos nos serviços.

Bom, eu, no meu trabalho, insisto desde a gravidez que quero encontrar os dois genitores, independentemente de quem ou de que questões estamos falando, porque as questões sempre afetam os dois, se os dois gen…, ou, nesse caso, se o pai está presente e disposto [a participar]. (Jutta)

Ao envolver os pais na mesma medida que as mães, os profissionais buscam fortalecer e ativar a agência coparental do pai. Ao enfatizar que ambos os genitores podem frequentar os serviços com igualdade, abrem para o pai um espaço próprio para agir como coparente pleno, e também como pai do bebê. A presença igual do pai, porém, parece entrar em tensão com a expertise dos profissionais em orientação sobre amamentação. A gagueira da profissional no trecho seguinte pode indicar que a enfermeira de saúde pública se viu um tanto desconcertada em sua nova posição de orientadora da amamentação para um genitor que não amamenta. Ela duvida que o pai saiba realmente como a amamentação funciona para a mãe, mas não traz para a conversa a importância do papel do genitor que não amamenta como apoio para a mãe. Assim, uma tensão parece surgir já no período da amamentação entre a prática clínica padrão, centrada na mãe, e a escolha dos genitores de dividir as idas à clínica de saúde infantil.

É um pouco difícil pensar se tem alguma diferença, claro, tem umas questões práticas na amamentação (gaguejando), bom, dá para conversar com o pai também, e o pai está… pode… (gaguejando)… pode ter uma ideia de como funciona, e, e, mas eu acho mesmo que não tem grande diferença entre um pai e uma mãe. (Katja)

O discurso do envolvimento coparental igualitário se constrói em situações em que os profissionais ajustam sua comunicação, em particular em relação aos pais. A fala ajustada é necessária quando os profissionais percebem que os pais parecem ter dificuldade para entender o jargão especializado usado nos atendimentos. A posição de ajuste também é adotada em situações em que todos os participantes (a mãe e as profissionais), exceto o pai, são mulheres. O vocabulário ajustado indica que o pai é visto como alguém com dificuldade para acompanhar a prática e a conversa clínicas padrão. Os profissionais argumentam que a fala ajustada evita que os pais se sintam incompetentes ou inábeis. Ela ocorre quando os profissionais filtram sua expertise usando uma linguagem mais simples ou expressões mais diretas. Como diz Kaarina, que atua em enfermagem de saúde pública:

Com um pai, é preciso um toque um pouco diferente, já que tenho longa experiência de trabalho com relações humanas sobre como abordá-los [os pais], o que é importante e significativo para eles; então você apresenta sua mensagem de modo que o outro [o pai] realmente entenda e não precise dizer: ‘desculpe, não sei do que você está falando’.

Ajustar a comunicação pode significar também adotar a posição de quem preside o atendimento, decidindo o cronograma da consulta ou a vez de cada genitor falar (enquanto resolve desacordos). Além disso, os profissionais podem questionar a prática estabelecida de contatar primeiro a mãe nos assuntos da criança e optar por ligar primeiro para o pai. Ao contatar cada genitor individualmente, o profissional entende que ambos têm direito igual de participar e de ter acesso à expertise e ao conhecimento sobre coparentalidade disponíveis nos serviços. Ao criar espaços seguros para que os genitores participem dos serviços à criança e à família, os profissionais preparam o caminho para que ambos se envolvam na coparentalidade.

3.2 O discurso do fortalecimento das capacidades coparentais

Outra maneira de os profissionais apoiarem a coparentalidade é ajudar os genitores a compreender seu sentido e seus desafios. No discurso do fortalecimento das capacidades coparentais, os profissionais agem como interventores, aconselhando e guiando os genitores para que compartilhem seus pensamentos e expectativas. Os genitores são vistos como motivados e capazes, mas os pais são muitas vezes vistos como tendo ideias equivocadas sobre suas tarefas de coparentes. Os profissionais consideram que os pais precisam fortalecer a relação com o filho e com a parceira ou o parceiro. Incentivam ambos os genitores a expressar suas emoções, a reconhecer as forças do outro e a conversar sobre seus objetivos parentais. Os genitores são vistos como competentes para falar de cooperação, divisão das tarefas domésticas, interação e divisão do tempo. São apresentados como especialistas em sua própria vida familiar, enquanto os profissionais atuam como guias que apontam caminhos possíveis para as famílias.

Do que o bebê precisa em cada etapa do desenvolvimento, e como é possível uma boa conversa e uma boa interação entre os genitores, e todo mundo tem a mesma quantidade de tempo, mas o tempo se divide de um jeito um pouco diferente. Você não tem como saber [como] antes de se tornar pai ou mãe. Em geral, é importante conversar e perguntar, e não existe jeito errado de perguntar, mas a sua própria experiência é importante, e eu incentivo os genitores a trazê-la para poderem conversar sobre ela com alguém, seja com algum especialista, seja, antes de tudo, com o cônjuge. (Jutta)

A posição profissional de aconselhamento é adotada quando há alguma preocupação com a família. Os pais são muitas vezes identificados como os que estão confusos ou perdidos em seu papel parental e em suas tarefas coparentais. Os profissionais iniciam, portanto, uma conversa sobretudo com o pai, para mudar suas ideias equivocadas e seus pressupostos sobre as relações (co)parentais. O pai pode achar, equivocadamente, que a relação amorosa do casal termina com o nascimento do bebê, que o bebê não gosta de ficar no colo dele ou que não é preciso redividir as tarefas domésticas. Os pais também podem supor que não têm papel a desempenhar para aliviar o esgotamento da mãe após o parto, sobretudo porque a ajuda domiciliar costuma ser dirigida só à mãe. No discurso do fortalecimento das capacidades, os pais são vistos como marginais no sistema coparental, e, ao adotar a posição de aconselhamento, os profissionais buscam ajudar o pai a construir relações funcionais na família. Esse discurso inclui também interpretações sobre a relação pai-bebê. O pai é visto como quem tem dificuldade de estabelecer uma relação próxima com o bebê. Os pais são descritos como abordando o bebê mais como um projeto, que exige medições, acompanhamento e relatórios de desenvolvimento. Os profissionais tentam incentivar os pais a aproveitar o bebê, ou seja, a “escutar o bebê”, “ler para o bebê” ou “estar com o bebê”. De certo modo, as anotações detalhadas dos pais podem ser interpretadas como uma tentativa de ficar bem perto dos bebês, registrando com muito cuidado seus ritmos de sono, alimentação e movimento. Em vez de reforçar essas tentativas de monitorar o bebê, os profissionais estimulam um vínculo próximo com ele. Assim, os pais são reconhecidos como cuidadores importantes do bebê. Durante as visitas domiciliares, a pessoa responsável pelo trabalho familiar sugere a interação pai-bebê:

Bom, eu sempre falei de presença com os pais, infelizmente é um assunto muito discutido, e quando se fala de uma criança bem pequena e um pai diz: ‘não consigo ficar com o bebê, o que eu posso fazer [com o bebê]?’, eu digo: ‘vai sentar no chão, o bebê engatinha até você e você olha para ele, mas não fica olhando o celular toda hora’, hehe, é assim que eu falo com os pais sobre estar presente na vida do bebê. (Heikki)

A fala sobre capacidades ligadas ao bebê também se refere a situações em que o pai tenta, quer ou simplesmente precisa cuidar sozinho do bebê. Podem ser pais solos ou, por outras razões, os únicos responsáveis pelo bebê. Os pais não são vistos como desamparados, mas como precisando de orientação e conselhos muito concretos em seu esforço para atender às necessidades do bebê. Uma profissional conta que não precisa dar atenção especial à capacidade da mãe de cuidar do bebê, o que pode indicar que as habilidades de cuidado são presumidas como naturalmente associadas às mulheres. Afinal, o pai também é visto como capaz de cuidar do bebê quando os profissionais assumem a posição de guia e de conselho. A orientação aos pais pode dizer respeito aos cuidados com o bebê: por exemplo, trocar a fralda, alimentar, dar banho ou trocar a roupa do bebê.

3.3 O discurso em torno da reconciliação coparental

O discurso em torno da reconciliação coparental trata de divórcios conflituosos, com disputas sobre a coparentalidade, medos de exclusão e preocupações com o bem-estar da criança. Ele inclui a reconciliação da relação coparental, os arranjos de cuidado e as visitas supervisionadas. Os profissionais agem como especialistas neutros, ouvindo ambos os genitores sem tomar partido, e buscam restabelecer um sistema coparental que funcione. Sua imparcialidade se centra na proteção dos direitos da criança e na manutenção de suas relações com ambos os genitores. Os genitores são vistos como tendo direito igual de ver o filho e responsabilidade igual por garantir o bom andamento dos cuidados diários.

Acho que essas questões estavam muito presentes nos atendimentos, e na maioria dos casos a conversa girava em torno de como fazer a parentalidade funcionar bem depois do divórcio, e de como conseguir uma parentalidade igualitária, porque os dois genitores precisam ter direitos semelhantes de estar com os filhos. (Emilia)

A coparentalidade, no contexto de um divórcio conflituoso, é construída socialmente perguntando, ouvindo e guiando os genitores de forma aberta, sem julgamentos nem ideias preconcebidas. A pessoa profissional se posiciona como observadora independente, compreensiva e tolerante, que facilita o diálogo entre genitores em conflito. O limiar de participação no processo de mediação familiar é reduzido ao máximo para ambos os genitores, e os profissionais adotam uma posição que permite impedir qualquer controle do acesso à criança por um dos genitores. Os genitores não podem negar ao outro o direito de ver a criança e passar tempo com ela. Nessas posições de reconciliação, os profissionais consultam ambos os genitores, mas, em alguns casos, os pais são vistos como precisando de atenção especial e de limites. A reconciliação centrada no pai ocorre quando os profissionais ouvem os pais num divórcio muito disputado ou tornam visível a agência do pai na vida da criança. Os profissionais ajudam a garantir ao pai a oportunidade de passar tempo com a criança, por exemplo, férias ou uma viagem sem a presença ou o controle do outro genitor (a mãe). O trabalho de mediação busca fortalecer o papel do pai na vida da criança depois do divórcio.

Outra abordagem da reconciliação é construir uma relação coparental marcada pelo compartilhamento do cuidado e da criação da criança. No contexto de um divórcio muito duro, os profissionais facilitam o diálogo entre genitores que tendem a não concordar em nada, cada um vivendo em “sua própria realidade”. Enfatizam-se os direitos iguais de ambos os genitores e o direito da criança de ser ouvida. Nas posições de promoção e supervisão, os profissionais repassam questões simples e concretas do cotidiano da relação coparental: como os genitores se comunicam, interagem e se encontram para chegar a acordos sobre as questões da criança. A reconciliação consiste em buscar acordo sobre a organização do cuidado, da moradia e dos encontros com a criança. Os genitores são incentivados a cooperar para permitir a relação da criança com ambos e a concordar sobre os cuidados diários, por exemplo, o preparo das refeições e as compras, bem como sobre outras tarefas e responsabilidades coparentais. Em relação a algumas famílias imigrantes, os profissionais se posicionam como quem impõe limites e restrições aos pais. Alguns pais são descritos como tendo poder ilimitado para decidir como organizar o cuidado da criança. Nesses casos, os profissionais assumem uma posição firme e deixam claro ao pai quais são os direitos da criança. Enfatizam, porém, que é necessária uma atitude particularmente respeitosa ao estabelecer limites em famílias de origens culturais diversas, em que podem pesar diferenças culturais no cuidado e na criação da criança.

Quando a relação entre genitores divorciados ou separados se tornou conflituosa, uma pessoa profissional assume, por força da lei, a posição de supervisão. Visitas supervisionadas podem ser organizadas pela proteção à infância. Os profissionais são obrigados a organizá-las de acordo com a decisão do tribunal local. Não podem iniciar sozinhos, por decisão própria, um processo de visitas supervisionadas, nem obrigar os genitores a aceitar esse arranjo. Ambos os genitores são, porém, vistos como se beneficiando das visitas supervisionadas quando se sentem preocupados, desamparados ou inábeis diante das necessidades da criança. A pessoa profissional garante então uma interação tranquila entre a criança e o genitor.

E, claro, se há esses genitores divorciados que nem conseguem se encontrar aqui, pode acontecer de um deles trazer a criança mais cedo para o encontro, e assim funciona […], mas então um dia chega o ponto em que chega um dia em que eles [os genitores] conseguem se encontrar, e esses encontros com a criança são organizados pelos próprios genitores, juntos; foi esse tipo de reflexão que me veio. (Teija)

No discurso dos encontros supervisionados, os profissionais se posicionam como apoio e modelo para o genitor. Podem servir de modelo e mostrar como os genitores deveriam interagir com uma criança, ou mediar entre os genitores se estes não conseguem se comunicar. Seu papel é garantir o direito da criança a uma relação segura com ambos os genitores. Ainda assim, os genitores são vistos como capazes de se desenvolver e amadurecer em sua parentalidade e coparentalidade. De vez em quando, os profissionais testemunham momentos de alegria e de sucesso, quando adultos cuja coparentalidade era, no início, muito disputada começam a cooperar e a cuidar eles mesmos das visitas da criança.

Há alguns momentos ocasionais de alegria e de sucesso, quando há genitores que trouxeram a criança [à visita supervisionada] em horários diferentes, porque não conseguem se encontrar, e então chega um dia em que conseguem se ver de novo, e passamos dos encontros supervisionados às trocas supervisionadas da criança, e […] depois de um tempo começam a cuidar eles mesmos das visitas da criança; é assim que essas questões [de coparentalidade] aparecem no meu trabalho. (Teija)

4. Discussão

O apoio às famílias abrange políticas, serviços e práticas que buscam fortalecer os papéis familiares, as relações e o bem-estar geral por meio de diversas formas de ajuda (Churchill et al. 2024; Devaney et al. 2022). Integrar práticas baseadas em evidências, como uma coparentalidade informada pela pesquisa, exige que as organizações deem mais espaço à voz das famílias, o que é essencial para a qualidade, a responsabilização e a transparência dos serviços públicos (Acquah e Thévenon 2020; Jiménez et al. 2024).

Há evidências crescentes sobre os benefícios de envolver ambos os genitores, ou todos, na parentalidade (Evans et al. 2023; Pruett e Donsky 2011). Mas as práticas marcadas pelo gênero nos serviços às famílias costumam se concentrar nas mães, podendo excluir os outros genitores (Lim et al. 2023; Tiitinen e Ruusuvuori 2015). Para enfrentar isso, foram propostas melhorias específicas para cada serviço (Lim et al. 2023; Wells et al. 2023), e foi feita uma revisão das práticas terapêuticas de coparentalidade em saúde mental do bebê e da família (McHale, Tissot, et al. 2023).

Desenvolver iniciativas que reflitam as necessidades reais das famílias é fundamental para construir uma cultura de serviço baseada em evidências (Mullins et al. 2012). Esse processo exige reflexão colaborativa com os profissionais da linha de frente para revelar os obstáculos culturais e organizacionais ao apoio parental. Promover modelos inovadores, como a coparentalidade nos centros familiares multiprofissionais, exige diálogo ativo com os profissionais e os atores locais, entre setores e disciplinas (Jiménez et al. 2024).

Falta, porém, uma visão abrangente das práticas de apoio à coparentalidade nos serviços de atenção primária para crianças e famílias.

Este estudo preenche essa lacuna e mostra o potencial dos serviços de atenção primária para oferecer apoio à coparentalidade, identificando três discursos profissionais principais. O discurso do envolvimento coparental se refere à posição comunicativa dos profissionais, que convidam ativamente, incentivam, engajam e conversam com os genitores, com foco especial nos pais, para familiarizá-los com a coparentalidade como ação conjunta de criar um filho. O discurso do fortalecimento das capacidades coparentais trata da ideia, do conteúdo, das preocupações e das possíveis tensões da relação coparental. Os profissionais intervêm aconselhando e guiando os genitores, sobretudo os pais, para que compartilhem seus pensamentos, experiências e expectativas sobre a coparentalidade. No discurso em torno da reconciliação coparental, os profissionais assumem a posição de especialistas imparciais e neutros ao se comunicar e se encontrar com os genitores, para promover antes de tudo um acordo sobre a criança e seus direitos. O contexto desse discurso é muitas vezes a mediação familiar, quando o sistema coparental não funciona, sobretudo depois de um divórcio conflituoso. Esses três discursos profissionais contribuem para uma nova compreensão das maneiras de apoiar a coparentalidade nos serviços sociais e de saúde de atenção primária e de apoio precoce, incluindo as clínicas de saúde materna e infantil, o trabalho familiar, as visitas domiciliares, a proteção à infância e o aconselhamento familiar. Apoiar e avaliar a coparentalidade é tarefa dos profissionais, mas exige acordo sobre o que se entende por coparentalidade, quais instrumentos de avaliação usar, quais elementos são essenciais na avaliação e quais são os públicos-alvo (McHale 2011).

No discurso do envolvimento coparental, o foco está no direito de ambos os genitores de participar do cuidado conjunto da criança. O discurso está de acordo com a tarefa de avaliação de engajar ambos os genitores, ou todos, no sistema coparental, proposta por McHale, Tissot, et al. (2023). Engajar ambos os genitores, porém, pode ser difícil para os profissionais, como nos serviços neonatais, em que a orientação sobre amamentação e parentalidade tem sido tradicionalmente vista como assunto só das mães (Abbas-Dick et al. 2015; Kim et al. 2018; Maycock et al. 2013). Nosso estudo mostra como os profissionais conversam, ajustam e filtram seu conhecimento especializado, sobretudo em relação aos pais, para engajá-los, já que eles muitas vezes ficam em segundo plano. Segundo McHale, Tissot, et al. (2023), um ou mais membros da família parecem retraídos ou excluídos nas interações triangulares com a criança. Wells et al. (2023) argumentam que os pais se beneficiam do apoio das parteiras nos serviços pré-natais e pós-natais. No serviço social, o envolvimento dos pais é comunicado de forma coerente, repetida e firme a ambos os genitores (McHale e Negrini 2018). Embora os profissionais do nosso estudo defendam a participação dos pais, a noção de um serviço mais amigável aos pais não foi discutida por eles. As estruturas e práticas dos serviços, porém, também precisam ser orientadas para esforços mais amigáveis aos pais para engajar cada genitor individualmente (Fisher et al. 2018) e independentemente do sexo do genitor (Evans et al. 2023). Aliás, o discurso do envolvimento, neste estudo, não avalia quem mais, além do pai, participa da coparentalidade, como sugere McHale (2011).

No discurso do fortalecimento das capacidades, os genitores são guiados e aconselhados para compreender a ideia, o conteúdo e as preocupações das relações coparentais e encontrar acordos para possíveis tensões. Os casais são vistos sobretudo como capazes de conversar e de chegar a acordos sobre a cooperação mútua, a divisão do tempo, o trabalho doméstico e a responsabilidade compartilhada pelo cuidado da criança. Avaliar o trabalho em equipe coparental é crucial, pois ele é essencial para cada família, e é importante compreender a cooperação (ou a falta dela) entre os adultos (Favez et al. 2023; McHale, Tissot, et al. 2023).

O discurso do fortalecimento das capacidades coparentais inclui a reflexão e a argumentação como ferramentas para incentivar os cônjuges a compartilhar, como equipe, experiências, pensamentos e emoções. Embora ambos os genitores sejam considerados especialistas, as conversas com os pais os constroem como desamparados ou confusos em seu novo papel de (co)genitor. McHale, Burton, et al. (2023) afirmam que focar o trabalho em equipe não é tanto avaliar a simetria, mas ver como cada coparente enxerga e reconhece o outro como membro plenamente participante e necessário da equipe. Em nosso estudo, o discurso do fortalecimento das capacidades inclui uma fala de apoio sobre a divisão das responsabilidades coparentais no contexto da vida familiar. A apreciação e o reconhecimento mútuos entre coparentes, porém, não estavam sistematicamente presentes no discurso. Focar a aliança coparental, e não a paternidade ou a maternidade, é crucial num trabalho em equipe coparental de apoio, pois o estresse parental de ambos os parceiros está significativamente associado à qualidade da relação (Darwiche et al. 2022; Favez et al. 2023; McHale, Tissot, et al. 2023; McHale e Jenkins 2023). No discurso do fortalecimento das capacidades coparentais deste estudo, a expertise da (co)parentalidade ainda está ligada às mães, enquanto os pais são vistos como precisando de apoio especial em sua relação nascente com o bebê. Um desafio profissional na promoção da coparentalidade diz respeito aos pais que passam rápido demais da alegria e do orgulho da nova paternidade ao estresse, ao retraimento e à resistência diante de serviços familiares e terapêuticos de predominância feminina, temendo “não apenas ser ouvidos, mas perder sua autonomia e sua voz” (McHale e Jenkins 2023, 505). Para engajar os pais, a autodefinição masculina, feita de separação, autonomia, independência e individualidade, precisa ser mais bem compreendida pelas profissionais (McHale e Jenkins 2023).

Neste estudo, os profissionais atuavam como mediadores no discurso em torno da reconciliação coparental, construído em torno do conflito real de coparentes divorciados ou separados em sofrimento. Eles se posicionam como especialistas imparciais e neutros enquanto apoiam os genitores na construção de uma relação coparental. O discurso da reconciliação coincide com a terceira tarefa de avaliação proposta por McHale, Tissot, et al. (2023): observar a presença ou ausência de conflito entre os adultos que exercem a coparentalidade e identificar as diversas formas de desrespeito. Uma maior atenção plena permite que os genitores distingam melhor esses comportamentos e os limitem ou eliminem (McHale, Burton, et al. 2023). Em nosso estudo, o discurso da reconciliação se situa predominantemente na proteção à infância preventiva, e a neutralidade dos profissionais é enfatizada. A fala profissional se concentra em mediar e promover o acordo mútuo. Reconhece-se que os serviços preventivos ajudam os genitores a chegar a acordos sobre a colaboração após o divórcio (Heller 2013), e técnicas de resolução de problemas foram desenvolvidas para ajudar genitores divorciados a chegar a acordos (Sommers-Flanagan e Barr 2005) sobre o cuidado da criança. O risco de fracasso da mediação aumenta, porém, se os genitores estão em conflito intenso, têm problemas de saúde mental, lidam mal com a separação, têm expectativas irrealistas sobre a coparentalidade ou se o conflito se prolonga (Morris e Halford 2014; Stokkebekk et al. 2021). A prioridade no discurso da reconciliação coparental é como os profissionais garantem o bem-estar e a segurança da criança. Em nosso estudo, esse discurso servia para ajudar genitores divorciados a estabelecer uma relação segura e cuidadosa com a criança e para ampliar a possibilidade de o genitor não residente passar tempo com ela. A perspectiva dos direitos da criança predomina, mas também a do direito do pai à participação e à responsabilidade iguais pelo sustento da criança.

O foco na criança é também o quarto pilar da avaliação da coparentalidade segundo McHale, Tissot, et al. (2023), e Feinberg e Sakuma (2011) insistem fortemente nele. Para esses pesquisadores, a essência de uma coparentalidade promotora de crescimento não é apenas que os adultos concordem e se deem bem, mas que mostrem sintonia suficiente com a criança e suas necessidades. Ao reconciliar coparentes, é preciso dar atenção ao trabalho em equipe coparental, que funciona bem quando genitores divorciados muito conflituosos formulam objetivos comuns para o filho que compartilham (McHale e Jenkins 2023). Ao afirmar as contribuições, as emoções e as interações da criança, os adultos podem vê-la com precisão, concordar sobre suas necessidades e agir em aliança para atendê-las (McHale, Burton, et al. 2023). Em nosso estudo, os direitos das crianças estavam fortemente presentes no discurso da reconciliação. Os profissionais assumiam posições de supervisores, guardiões e observadores da criança quando havia suspeita de negligência ou maus-tratos. Além disso, atuavam como intérpretes do ponto de vista da criança, conforme afirmam McHale et al. (2012) e McHale e Negrini (2018): no caso de famílias divorciadas ou de ausência prolongada do outro coparente, a aliança coparental precisa ser vista com os olhos da criança.

Em suma, os discursos identificados mostram como os profissionais podem assumir diversas posições para avaliar e promover a coparentalidade no sistema familiar. É notável que todos os discursos enfatizem o papel do pai. A agência da criança só se torna visível no contexto do divórcio conflituoso. Incorporar o ponto de vista da criança em todos os discursos coparentais permite aos profissionais construir um sistema familiar coparental verdadeiramente triangular, desde antes do nascimento até a adolescência.

4.1 Limitações do estudo

Ao avaliar os resultados, é essencial considerar a natureza dos dados e a análise de discurso como abordagem. Não é possível concluir de forma definitiva, a partir dos três discursos apresentados, como os profissionais apoiam a coparentalidade em seu trabalho. Como argumenta Hjelm (2021), mesmo um discurso hegemônico não consegue elucidar as consequências práticas das ações, dada a natureza finita do discurso. Não é possível, portanto, dizer com certeza por que alguém fez o que fez olhando apenas o discurso. É possível, em vez disso, compreender linhas de ação, aqui as dos profissionais da família em matéria de apoio à coparentalidade no contexto dos serviços finlandeses. Seu comportamento é ao mesmo tempo possibilitado e limitado pelo quadro social e cultural em que estão inseridos (Hjelm 2021). Os três discursos, com seus encontros diferenciados segundo o gênero, também refletem pressupostos de gênero e outras práticas culturais dos paradigmas de saúde, que tendem a mudar lentamente (Lim et al. 2023; Tiitinen e Ruusuvuori 2015).

É preciso lembrar também que os resultados vêm de um estudo qualitativo com um número relativamente pequeno de participantes, como é típico de uma análise de discurso baseada em entrevistas. O estudo é, portanto, muito contextual, e é preciso cautela ao generalizar seus resultados para outros contextos. Também é possível que os profissionais escolhidos para o estudo pelas pessoas de contato tenham sido de algum modo selecionados, por exemplo, por seu interesse ou motivação. Há uma limitação notável nos dados quanto às famílias diversas. Embora as perguntas dos grupos focais não se limitassem ao apoio à coparentalidade em famílias finlandesas heterossexuais com dois genitores, a fala dos profissionais tratou sobretudo dessas famílias. Os discursos podem, portanto, não ser transferíveis para o apoio a famílias mais diversas, incluindo famílias de origens culturais diversas e famílias LGBTQ+. Além disso, os discursos estão inseridos em contextos socioculturais, valores e normas mais amplos, incluindo a igualdade de gênero, a oferta de serviços do Estado de bem-estar social e a regulação dos direitos da criança (Grunow e Evertsson 2021; Kekkonen, Böök, et al. 2023; Rönkä et al. 2026). Este estudo foi realizado na Finlândia, país em que a aspiração à igualdade de gênero e ao envolvimento dos pais na parentalidade é praticamente a norma. Em estudos futuros, os grupos focais com profissionais deveriam ser replicados em outros contextos socioculturais.

4.2 Implicações para a prática

Com base em nossos resultados, fazemos cinco recomendações para a prática. Primeiro, a promoção da coparentalidade por meio dos discursos profissionais do envolvimento, do fortalecimento das capacidades e da reconciliação pode ocorrer também nas práticas clínicas de rotina, e não só como parte de intervenções. Isso é especialmente importante durante a transição para a parentalidade, quando a coparentalidade está em construção. Defendemos uma abordagem discursiva, mais aplicável, da promoção da coparentalidade nos serviços universais e de apoio precoce à criança e à família. Segundo, é crucial envolver os pais e outras figuras coparentais relevantes no apoio à coparentalidade. Isso implica mudanças nos serviços em favor de uma frequência mais igualitária: envolver os pais por meio de práticas voltadas a eles e ampliar o conhecimento das equipes sobre um ambiente clínico amigável aos pais. Ambos os genitores precisam receber uma mensagem coerente e firme sobre o envolvimento dos pais. Terceiro, para envolver toda a equipe parental, é importante perguntar a cada pessoa individualmente, sem priorizar as mães, se ela tem a oportunidade de interesse, engajamento e acesso iguais à coparentalidade (McHale, Tissot, et al. 2023). Os coparentes de famílias extensas e multigeracionais (Gleeson et al. 2011) e de famílias LGBTQ+ (Evans et al. 2023) também devem ser considerados na equipe coparental. Quarto, o discurso do fortalecimento das capacidades se refere a uma maneira profissional de abordar genitores com dificuldades de coparentalidade. Ao trazer ativamente essas questões para a conversa, os profissionais podem avaliar e promover a relação coparental. Combinando o conhecimento das dimensões da coparentalidade com uma abordagem discursiva, podem apoiar as famílias sempre que elas procurarem os serviços à criança e à família. Quinto, como os divórcios afetam um número crescente de famílias, cresce a necessidade de apoio direcionado à coparentalidade. Do mesmo modo, genitores que agem de forma competitiva, usam uma comunicação nociva ou fazem comentários negativos sobre o outro genitor podem se beneficiar de apoio direcionado no centro familiar multiprofissional.

Complexe Systémique: a reter

O interesse do estudo, para um leitor sistêmico, está em levar a sério a tríade, e não a díade: a coparentalidade aparece como subsistema próprio, distinto do casal conjugal e da relação pais-filho, e os autores examinam como a fala dos profissionais o faz existir ou não. Os três discursos identificados são posições relacionais, e não técnicas: comunicar para envolver, intervir para fortalecer capacidades, supervisionar para reconciliar. O resultado mais revelador é paradoxal. Todos os discursos põem o pai no centro, mas muitas vezes como aquele que falta, que é preciso ativar ou com quem é preciso falar de modo mais simples, enquanto a expertise parental continua do lado das mães; e a criança, vértice do triângulo, só aparece como sujeito quando o divórcio se tornou conflituoso. Os limites são claros: 21 profissionais (19 mulheres) entrevistados por videochamada, e uma fala centrada em famílias heterossexuais com dois genitores, num país em que a igualdade parental é quase uma norma. Ler com o artigo sobre o casal na encruzilhada da conjugalidade e da parentalidade e com o artigo sobre os contextos da nova paternidade.

Notas do original

1 No início de 2023, uma reforma histórica transferiu a responsabilidade pelos serviços de mais de 300 municípios para 21 condados autônomos de serviços de bem-estar. Os condados organizam todos os serviços sociais e de saúde da população finlandesa, incluindo os serviços à criança e à família. Os profissionais deste estudo vieram de quatro desses condados.

Financiamento. Este trabalho foi apoiado pelo Conselho de Pesquisa da Finlândia (323492, 323493).

Conflitos de interesse. Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Disponibilidade dos dados. Os dados estão disponíveis mediante solicitação razoável à pessoa responsável pela correspondência.

Agradecimentos. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade de Jyväskylä, no âmbito do acordo Wiley-FinELib.

Referências

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Tradução não oficial em português de Apoiar a coparentalidade nos serviços à criança e à família: discursos de envolvimento, fortalecimento de capacidades e reconciliação, de Marjatta Kekkonen, Angela Abela, Marja-Leena Böök, Kaisa Malinen, Johanna Moilanen e Anna K. Rönkä, Family Process, vol. 65 (2026), doi: 10.1111/famp.70159, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Ways of Supporting Coparenting in Child and Family Services: Discourses of Involvement, Capacity Building and Reconciliation”, publicado em Family Process (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Kekkonen, M., Abela, A., Böök, M.-L., Malinen, K., Moilanen, J., et Rönkä, A. K. (2026). Apoiar a coparentalidade nos serviços à criança e à família: discursos de envolvimento, fortalecimento de capacidades e reconciliação (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/apoiar-a-coparentalidade-nos-servicos-a-crianca-e-a-familia (Obra original publicada em 2026 em Family Process, 65(2) (2026); republicada em 2026 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.70159)

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