Family Process · Terapia familiar
O que acontece com os casais parentais um ano depois de uma terapia de casal breve? A equipe de Lausanne de Joëlle Darwiche acompanhou 85 casais da Suíça francófona, atendidos por um modelo que trabalha ao mesmo tempo a relação amorosa e a coparentalidade ou pela terapia sistêmica breve habitual. Em média, os ganhos se mantêm. Mas surgem cinco trajetórias, e filhos pequenos, famílias numerosas e relações longas pesam sobre as mais frágeis.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Trajetórias após uma terapia de casal sistêmica breve para pais, de Joëlle Darwiche, Cindy Eira Nunes, Laura Vowels, Esther Liekmeier e Jean-Philippe Antonietti, publicado na Family Process (Wiley) (2026), doi: 10.1111/famp.70114, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas, com os valores principais; os anexos on-line (tabelas S1 a S9, figuras S1 a S6) não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Um resultado-chave é o casal desenvolver a capacidade de buscar apoio profissional em períodos de vulnerabilidade.
Joëlle Darwiche, Cindy Eira Nunes, Laura Vowels, Esther Liekmeier e Jean-Philippe Antonietti
Resumo
Este estudo examinou as trajetórias pós-terapia de casais parentais que receberam a Intervenção Sistêmica Breve Integrativa (IBSI), voltada tanto para a relação amorosa quanto para a coparental, ou a Terapia Sistêmica Breve habitual (TSB habitual). Como resultados anteriores mostraram melhoras comparáveis ao fim do tratamento nas duas condições, os casais foram analisados em conjunto para identificar os padrões típicos de mudança que seguem após a terapia. Avaliamos se grupos distintos de trajetórias se formavam ao longo do ano de seguimento e se variáveis ligadas ao tratamento (condição de terapia, número de sessões) e características familiares (duração da relação, família recomposta ou não, número de filhos, idade do filho mais novo) prediziam o pertencimento a esses grupos. Dos 101 casais parentais suíços randomizados, 85 (44 IBSI, 41 TSB habitual) forneceram dados no pós-terapia, aos 6 meses e a 1 ano sobre sintomatologia individual, qualidade da relação amorosa e coparental e ajustamento da criança. Modelos de efeitos mistos indicaram primeiro que os ganhos da terapia eram em grande parte estáveis no tempo, com alguns pais relatando melhora no ajustamento da criança, sobretudo os homens na TSB habitual e as mulheres na IBSI. Por meio de análise fatorial múltipla e classificação hierárquica (n = 72 casais), identificamos cinco trajetórias, que refletem diferentes configurações de sofrimento individual e de funcionamento relacional. A regressão logística multinomial mostrou que tanto as características do tratamento quanto o contexto familiar contribuíam para diferenciar esses percursos: a IBSI estava associada a trajetórias mais favoráveis, enquanto ter filhos mais novos ou mais filhos estava ligado a padrões menos favoráveis. Clinicamente, identificar trajetórias distintas após a terapia ressalta a importância de acompanhar os casais além do fim do tratamento e de ajustar o apoio aos casais cuja situação individual ou familiar os expõe a maior risco de deterioração.
Palavras-chave: relação coparental, terapia de casal, trajetórias pós-terapia, relação amorosa
O sofrimento conjugal é uma questão de saúde pública: aumenta o risco de problemas de saúde psíquica e física nos membros do casal (Gollan e Jacobson 2002). A terapia de casal mostrou-se eficaz para ajudar casais em dificuldade a melhorar a qualidade da relação e reduzir a sintomatologia individual (Johnson e Lebow 2000; Shadish e Baldwin 2003). Meta-análises relatam, para a satisfação conjugal, tamanhos de efeito entre grupos, do pré ao pós, de médios (por exemplo, d = 0,585; Shadish e Baldwin 2005) a grandes (g de Hedges = 0,91; Roddy et al. 2020). Seu impacto em dimensões familiares como a coparentalidade ou o ajustamento da criança, porém, foi muito menos estudado, embora o sofrimento conjugal transborde para as práticas parentais e afete o ajustamento da criança (por exemplo, Zemp et al. 2018). A teoria sistêmica destaca a interdependência dentro das famílias: melhorar a relação do casal pela terapia pode influenciar positivamente outros subsistemas, como o subsistema pais-filhos (Cox e Paley 1997). Apesar da recomendação de Gollan e Jacobson (2002), há mais de 20 anos, de incluí-los na pesquisa, desfechos como a coparentalidade e o ajustamento da criança continuam pouco explorados nos estudos sobre terapia de casal.
A terapia de casal para pais pode abordar tanto a relação amorosa quanto a coparental. A coparentalidade, isto é, o funcionamento colaborativo do casal em seu papel de pais (McHale e Irace 2011), exerce uma influência mais imediata sobre o desenvolvimento socioemocional da criança do que a qualidade conjugal (por exemplo, Bonds e Gondoli 2007). Em trabalhos anteriores, examinamos a eficácia da Intervenção Sistêmica Breve Integrativa (IBSI; Darwiche et al. 2022), uma terapia de seis sessões voltada para a relação amorosa e a coparental, comparada com a Terapia Sistêmica Breve habitual (TSB habitual). As duas intervenções mostraram melhoras significativas nos planos individual, amoroso, coparental e familiar ao fim do tratamento e no seguimento de 6 meses, sem grandes diferenças entre elas, exceto que os casais da TSB habitual procuraram mais sessões adicionais. A semelhança dos resultados pode refletir mecanismos sistêmicos de mudança comuns às duas intervenções (Darwiche et al. 2023).
O objetivo deste estudo foi examinar as trajetórias, no ano seguinte à terapia, de pais que participaram da IBSI ou da TSB habitual. O seguimento foi estendido para 12 meses para acompanhar a evolução dos desfechos individuais, conjugais e familiares. Examinamos não apenas as tendências gerais da amostra, mas também os padrões de mudança próprios de cada casal: manutenção, melhora ou declínio. Investigamos ainda se variáveis ligadas ao tratamento (condição de terapia, número de sessões) e características familiares (duração da relação, família recomposta ou não, número de filhos no domicílio e idade da criança-alvo) estavam associadas a determinadas trajetórias, ajudando a explicar por que os casais seguem caminhos diferentes após a terapia.
Compreender como os casais evoluem após a terapia é crucial por vários motivos. Primeiro, permite estabelecer se os ganhos do tratamento se mantêm, em média, ao longo do tempo, o que indica a eficácia da intervenção. Segundo, ilumina a diversidade dos percursos relacionais após a terapia, já que as trajetórias costumam ser muito variáveis. Acontecimentos de vida, por exemplo, podem tensionar a relação a longo prazo, mesmo quando ela foi fortalecida durante a terapia. Examinar as trajetórias pós-terapia permite, portanto, documentar esses processos e esclarecer como os casais se adaptam depois.
A pesquisa sobre a manutenção dos ganhos indica que a terapia de casal é eficaz (Lebow et al. 2012). Manter essas melhoras, porém, continua difícil: 35% a 50% dos casais passam por declínio ou divórcio após a terapia (Snyder e Balderrama-Durbin 2020). Em sua meta-análise da literatura sobre intervenções conjugais e familiares, Shadish e Baldwin (2003) relataram tamanhos de efeito menores no seguimento (d = 0,52) do que no pós-tratamento (d = 0,65), o que evidencia a variabilidade na manutenção dos resultados. Já Roddy et al. (2020) constataram em sua meta-análise que a melhora da satisfação conjugal se mantinha nos seguimentos de longo prazo (g de Hedges = 0,91).
Estudos específicos iluminam essas dinâmicas. Christensen et al. (2006, 2010), num ensaio randomizado que comparava a terapia comportamental de casal tradicional e a integrativa, constataram que dois terços dos casais estavam melhor dois anos após o tratamento, apesar de um declínio inicial da satisfação conjugal. Aos cinco anos, metade dos casais mantinha as melhoras, e os demais não mostravam mudança ou pioravam. Estudos não randomizados também relataram benefícios duradouros, como a Terapia de Casal Focada nas Emoções (EFCT; Wiebe et al. 2017) e abordagens integrativas (Lundblad e Hansson 2006). Em terapia residencial, Tilden et al. (2010, 2020) observaram ganhos iniciais, um declínio em 1 ano e recuperação aos 3 anos.
Em suma, a terapia de casal melhora eficazmente a satisfação conjugal e as dificuldades interpessoais, mas os estudos longitudinais revelam trajetórias flutuantes, com períodos de declínio e de recuperação, o que evidencia o caráter dinâmico dos resultados. Documentar essas trajetórias pós-terapia é, portanto, importante para compreender os processos de mudança de longo prazo e orientar a prática clínica (Lebow e Snyder 2022).
Um desafio central da pesquisa em psicoterapia de casal é ir além dos resultados imediatos e identificar o que afeta a eficácia de longo prazo. Entender por que alguns casais mantêm os ganhos enquanto outros recaem é relevante para esclarecer as trajetórias pós-terapia e orientar intervenções sob medida (Doss et al. 2019). No entanto, os indicadores prognósticos comuns, como fatores demográficos e intrapessoais (idade, escolaridade, duração do casamento ou qualidade inicial da relação), em geral tiveram pouco poder explicativo para prever resultados de longo prazo (Atkins et al. 2005; Doss et al. 2019). Enquanto alguns estudos identificaram a dinâmica de comunicação e a ativação emocional como preditores dos resultados (Baucom et al. 2009), outros destacaram fatores ligados ao compromisso, como maior duração do casamento e menos passos rumo ao divórcio, como indicadores mais fortes da estabilidade conjugal aos 5 anos (Baucom et al. 2011). Trabalhos mais recentes apontam mudanças nos processos de apego (Wiebe et al. 2017) e níveis iniciais de sofrimento (Roddy et al. 2020) como preditores relevantes, mas o conjunto dos achados continua misto, o que ressalta a heterogeneidade das trajetórias dos casais após a terapia.
Entre as variáveis ligadas ao tratamento potencialmente associadas às trajetórias pós-terapia, espera-se em geral que a condição de terapia favoreça resultados mais positivos do que as condições de controle ou alternativas, embora os achados sejam matizados. Por exemplo, a Terapia Comportamental de Casal Integrativa (IBCT) produziu melhoras significativamente maiores que a Terapia Comportamental de Casal Tradicional até o seguimento de 2 anos (Baucom et al. 2009), mas nenhuma diferença foi observada aos 5 anos (Baucom et al. 2011). O número de sessões também foi destacado, com indícios de uma associação dose-resposta curvilínea, o que evidencia a necessidade de dados de seguimento para avaliar os efeitos de longo prazo (Robinson et al. 2019).
Características familiares e contextuais também podem estar ligadas às trajetórias pós-tratamento: maior duração do casamento foi associada a resultados mais favoráveis (Baucom et al. 2009), enquanto ser uma família recomposta (Teachman 2008), ter mais filhos ou filhos mais novos pode aumentar a tensão relacional e o risco de instabilidade (Fang et al. 2024). A complexidade da coparentalidade e o estresse associados a certas etapas do desenvolvimento (por exemplo, primeira infância ou adolescência) podem plausivelmente fragilizar a sustentabilidade dos ganhos terapêuticos.
Em conclusão, são necessárias mais pesquisas sobre como as variáveis ligadas ao tratamento e as características familiares se associam às diversas trajetórias que os casais podem seguir após a terapia. Identificar essas associações é importante para esclarecer em que contextos os casais têm mais chance de manter os ganhos, de passar por flutuações ou de declinar com o tempo. Uma compreensão melhor desses fatores pode, em última instância, subsidiar intervenções mais ajustadas e estratégias de apoio pós-terapia voltadas para a estabilidade relacional e o bem-estar de longo prazo.
Este estudo examinou as trajetórias pós-terapia de casais que participaram da IBSI ou da TSB habitual (Darwiche et al. 2023). Essas trajetórias foram construídas com dados de três avaliações pós-tratamento (logo após a terapia, aos 6 meses e a 1 ano), abrangendo a sintomatologia individual dos pais, a qualidade de suas relações amorosa e coparental e o ajustamento da criança relatado pelos pais.
Nossa hipótese era que as melhoras ligadas à terapia se manteriam, em geral, no seguimento de um ano (questão de pesquisa 1). Esperávamos, contudo, que surgissem trajetórias pós-terapia distintas (questão de pesquisa 2), com alguns casais melhorando ainda mais ou permanecendo estáveis e outros se deteriorando, conforme os recursos individuais e relacionais para manter a mudança. Esperávamos ainda que fatores ligados ao tratamento (condição de terapia, número de sessões) e à família (duração da relação, tipo de família, recomposta ou não, número de filhos e idade do mais novo) estivessem associados ao pertencimento aos grupos de trajetória (questão de pesquisa 3). Mais especificamente, prevíamos que os pais da condição IBSI seguiriam com mais frequência trajetórias positivas, já que essa intervenção visava tanto a relação amorosa quanto a aliança coparental, fortalecendo assim dois domínios relacionais-chave para o funcionamento do casal a longo prazo. Em contrapartida, esperávamos que mais sessões se relacionassem a trajetórias menos favoráveis, dado o formato breve do modelo. Por fim, uma relação mais longa deveria predizer resultados mais favoráveis, enquanto características familiares como ser uma família recomposta, ter mais filhos ou filhos mais novos deveriam estar associadas a trajetórias menos favoráveis.
Este estudo traz dados valiosos sobre as trajetórias após a terapia sistêmica de casal para pais, em desfechos individuais, conjugais e familiares. Diferentemente de muitos ensaios que se concentram em modelos norte-americanos como a IBCT e a EFCT, esta pesquisa examina um modelo sistêmico de tratamento em contexto europeu e suíço, em condições clinicamente representativas. Embora a terapia sistêmica seja amplamente praticada em muitos contextos europeus e apoiada em longas tradições clínicas, as evidências de pesquisa em condições reais continuam escassas, e particularmente limitadas quanto às trajetórias que os casais seguem após a terapia.
Apresentamos a seguir um resumo da metodologia do estudo, descrita em detalhe em Darwiche et al. (2023).
Os casais foram recrutados em centros de atendimento da Suíça francófona. No recrutamento, foram informados de que o estudo examinava os efeitos de uma terapia de casal para pais que aborda as relações amorosa e coparental, concentrando-se nas queixas que os traziam. Foram informados também de que seriam alocados aleatoriamente à IBSI, com foco mais forte nas duas relações, ou à TSB habitual. Os critérios de inclusão exigiam ter ao menos um filho de 0 a 16 anos e estar numa relação de casal (casados ou não). Os critérios de exclusão eram situações de violência, maus-tratos ou abuso que impedissem o tratamento psicoterapêutico, bem como transtorno psiquiátrico grave atual em um dos membros do casal ou em ambos. Dos 447 casais abordados, 308 recusaram (69%), e outros 38, que haviam aceitado inicialmente, acabaram não sendo incluídos por motivos alheios à recusa (por exemplo, casos-piloto ou casais que não iniciaram a terapia).
Os casais elegíveis foram alocados aleatoriamente, por randomização em blocos, à IBSI (n = 51) ou à TSB habitual (n = 50). Os casais recebiam uma compensação a cada avaliação (US$ 100 no pós-terapia, US$ 100 no primeiro seguimento, US$ 200 no segundo). O estudo contou com 33 profissionais de psicoterapia sistêmica; 19 receberam formação na IBSI por meio de oficinas, terapias supervisionadas e prática clínica, com supervisão mensal durante o estudo. As equipes terapêuticas das duas condições tinham níveis de experiência e taxas de conclusão de programas sistêmicos comparáveis, sem diferenças significativas entre os grupos. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Lausanne, Suíça.
As análises foram feitas com os casais que completaram as avaliações pós-tratamento (N = 85; IBSI = 44, TSB habitual = 41), cujas características demográficas constam da tabela 1. A participação caiu ligeiramente nos seguimentos, com 76 casais fornecendo dados aos 6 meses (IBSI = 41, TSB habitual = 35) e 72 a 1 ano (IBSI = 38, TSB habitual = 34). Não houve diferenças demográficas significativas entre os dois grupos de tratamento, exceto que os homens do grupo IBSI eram mais velhos que os do grupo TSB habitual, t(94) = −2,73, p = 0,008.
Tabela 1 — Características demográficas das pessoas participantes
Dados sociodemográficos ausentes para um casal. M: média; DP: desvio padrão.
A comparação dos escores do pós-teste mostrou que mulheres e homens que saíram do estudo antes do seguimento de 1 ano relatavam satisfação amorosa significativamente menor logo após a terapia, t(18,14) = 2,91, p = 0,009. Além disso, as mulheres que saíram relatavam menor apoio coparental percebido, t(18,32) = 2,46, p = 0,024.
Em cada avaliação pós-tratamento, os casais responderam a medidas de sofrimento individual (sintomatologia individual e depressão), qualidade da relação amorosa, qualidade da relação coparental (apoio e conflito) e ajustamento da criança. Dada a proporção de dados ausentes (33%, calculada sobre todas as variáveis e os três tempos de medida), verificamos primeiro, pelo teste de Little, que os dados estavam ausentes de forma completamente aleatória, χ2(229) = 249, p = 0,176. Mantivemos, portanto, todos os dados disponíveis (N = 85), sem excluir nenhum casal ou pessoa, exceto nas análises dos padrões distintos de trajetória entre casais (ver a seção “Análise dos dados”), feitas com uma subamostra de 72 casais.
A IBSI é uma intervenção sistêmica breve e manualizada para casais, concebida para pais que procuram terapia de casal (ver Darwiche et al. 2022 para mais detalhes). Ela trata o problema que traz o casal considerando seu impacto específico nos domínios amoroso e coparental. A intervenção tem cerca de seis sessões em 6 meses (M = 5,83, DP = 0,59), divididas em três fases. A primeira sessão estabelece um espaço terapêutico e define objetivos compartilhados. As sessões 2 a 5 buscam alcançar esses objetivos com contribuições da pesquisa sobre coparentalidade e técnicas de terapia sistêmica. A última sessão revisa os progressos e trata da prevenção de recaídas.
A TSB habitual é uma intervenção sistêmica não manualizada, amplamente usada como terapia de casal na Suíça francófona. Como a IBSI, envolve cerca de seis sessões em 6 meses (M = 5,98, DP = 0,84). Ela busca melhorar a relação amorosa por meio de técnicas que favorecem comportamentos positivos, aprimoram a comunicação e desenvolvem habilidades de resolução de problemas. Incorpora conceitos e técnicas de várias escolas de terapia sistêmica (por exemplo, de Shazer 1985; Haley 1973; Minuchin 1974).
A sintomatologia individual foi avaliada pelo Outcome Questionnaire (OQ-10.2; Lambert et al. 2000), escala de 10 itens (escores de 0 a 40; escores mais altos indicam maior sintomatologia). Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade variou de α = 0,84 a 0,92 (mulheres) e de α = 0,76 a 0,88 (homens).
A depressão foi medida pelo Patient Health Questionnaire (PHQ-9; Spitzer et al. 1999), escala de 9 itens (escores de 0 a 27; escores mais altos indicam depressão mais grave). Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade foi de α = 0,84 a 0,85 (mulheres) e de α = 0,82 a 0,90 (homens).
A qualidade da relação amorosa foi avaliada pela Escala de Ajustamento Diádico (DAS; Spanier 1976), de 32 itens (escores de 0 a 151; escores mais altos refletem melhor qualidade da relação). Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade variou de α = 0,92 a 0,94 (mulheres) e de α = 0,89 a 0,95 (homens).
A qualidade da relação coparental foi avaliada em duas dimensões. O apoio coparental foi medido pelo Parenting Alliance Measure (PAM; Konold e Abidin 2001), escala de 20 itens (escores de 20 a 100; escores mais altos indicam apoio mais forte). Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade variou de α = 0,94 a 0,96 (mulheres) e de α = 0,95 a 0,96 (homens). O conflito coparental foi medido pelo Coparenting Inventory for Parents and Adolescents (CI-PA; Teubert e Pinquart 2011; Zimmermann et al. 2020), escala de 16 itens (escores de 0 a 5; escores mais altos indicam mais conflito e triangulação). Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade variou de α = 0,85 a 0,90 (mulheres) e de α = 0,87 a 0,89 (homens).
O ajustamento da criança foi medido pelo relato dos pais no Questionário de Capacidades e Dificuldades (SDQ; Goodman 1997), de 20 itens (escores de 0 a 40; escores mais altos refletem mais dificuldades), respondido separadamente por cada um dos pais. Nos diferentes tempos de avaliação, a fidedignidade variou de α = 0,76 a 0,87 (mulheres) e de α = 0,76 a 0,83 (homens).
Para determinar se a sintomatologia individual e a depressão, a qualidade da relação amorosa, a qualidade da relação coparental e o ajustamento da criança podiam ser considerados estáveis do pós-teste ao primeiro e ao segundo seguimento, usamos modelos de efeitos mistos, com as pessoas aninhadas nas díades (Raudenbush e Bryk 2010). A análise seguiu três etapas. Primeiro, especificou-se um modelo apenas com intercepto, supondo que o nível da variável permanecia constante do pós-teste ao segundo seguimento, para mulheres e homens dos dois grupos. Em segundo lugar, um modelo mais complexo, que permitia à variável seguir uma trajetória linear no tempo, com inclinações diferentes para mulheres e homens de cada grupo. Em terceiro, o modelo apenas com intercepto (simplificado) foi comparado ao modelo de trajetória linear (complexo) por um teste de razão de verossimilhança. A hipótese nula indicava estabilidade; a alternativa, mudança linear significativa para ao menos parte das pessoas participantes. Essas análises, feitas separadamente para cada uma das seis variáveis de desfecho, foram realizadas no R (R Core Team 2024) com o pacote nlme (Pinheiro et al. 2022).
Em seguida, formamos grupos de casais (juntando as duas condições) com os escores de homens e mulheres nas seis variáveis de desfecho medidas no pós-teste e nos dois seguimentos (18 variáveis para cada gênero). Para esse conjunto de análises, dada a proporção de dados ausentes de forma completamente aleatória, decidimos excluir os casais com mais da metade dos dados ausentes no conjunto de variáveis e tempos (n = 13), usando assim uma subamostra de 72 casais. Os dados ausentes restantes foram tratados por imputação simples com o pacote mice (van Buuren e Groothuis-Oudshoorn 2011) no R.
A análise fatorial múltipla (AFM; Abdi et al. 2013; Husson et al. 2017) foi aplicada inicialmente para reduzir a dimensionalidade dos dados. A AFM, uma análise de componentes principais ponderada, é adequada quando pessoas ou díades são descritas por vários grupos de variáveis, pois equilibra a influência de cada grupo na análise (Husson et al. 2010). A AFM pode não ser a escolha convencional para modelar a evolução temporal de pessoas ou grupos; foi adotada porque permite representar simultaneamente observações repetidas no tempo e identificar tendências gerais, sem precisar modelar explicitamente as trajetórias individuais. Essa abordagem traduz dados contínuos, de nível intervalar, em perfis que podem informar a compreensão terapêutica e a pesquisa futura. Para testar a robustez, realizamos também análises de crescimento de classes latentes e as comparamos com a AFM; os resultados (ver tabela S1) mostraram grande sobreposição entre as classes latentes e a solução de agrupamento, o que sustenta a validade das trajetórias identificadas (ver também Dazy et al. 1996; Millsap e Meredith 1988).
Com base nos resultados da AFM, reduzimos o espaço a três dimensões, que foram então submetidas à Classificação Hierárquica sobre Componentes Principais (HCPC; Husson et al. 2010) para formar grupos. O critério de Krzanowski-Lai (KL; Krzanowski e Lai 1988) foi usado para determinar o número ótimo de grupos, identificando o ponto em que acrescentar grupos deixava de melhorar significativamente a qualidade da classificação. Ele avalia tanto a coesão interna dos grupos quanto a separação entre eles. Escolhemos reter cinco grupos na HCPC, segundo o critério KL. Esses grupos foram analisados para explorar as diferenças nas variáveis de desfecho a partir das quais foram construídos, com os pacotes FactoMineR (Lê et al. 2008) e NbClust (Charrad et al. 2014) no R.
Por fim, testamos se diversas variáveis sociodemográficas prediziam a alocação aos grupos. Realizamos uma regressão logística multinomial com vários preditores: condição de terapia, número de sessões, duração da relação do casal, tipo de família (recomposta ou não), número de filhos que moram com o casal e idade do filho mais novo (criança-alvo). As análises foram feitas com o pacote nnet (Venables e Ripley 2002) no R.
Avaliamos as trajetórias pós-terapia em três etapas. Primeiro, examinamos se as melhoras obtidas durante a terapia se mantinham ao longo do seguimento. Segundo, investigamos se os casais diferiam em suas trajetórias ao longo do ano. Por fim, exploramos se, e quais, variáveis ligadas ao tratamento e características familiares prediziam o pertencimento a determinados grupos de trajetória.
Os modelos de efeitos mistos mostraram que o modelo apenas com intercepto (estabilidade, incluindo só os interceptos de cada grupo, separadamente para homens e mulheres) não era significativamente pior que o modelo completo (que incluía também uma interação entre grupo e tempo) em cinco das seis variáveis de desfecho (ver a tabela S2 para número de observações, médias e desvios padrão, a tabela 2 para a comparação dos modelos e as tabelas S3 a S7 para os resultados completos). Retivemos, portanto, o modelo mais simples para esses cinco desfechos, o que sugere que os ganhos da terapia permaneceram estáveis no tempo para sintomatologia individual, depressão, qualidade da relação amorosa, apoio coparental e conflito coparental. O único desfecho que mudou no tempo foi o ajustamento da criança relatado pelos pais (ver a tabela 3). Mais especificamente, os homens do grupo TSB e as mulheres do grupo IBSI percebiam que os filhos estavam cada vez melhor, o que sugere que as dificuldades das crianças continuaram a diminuir até um ano após a terapia. Por solicitação da revisão por pares, realizamos análises complementares das diferenças de médias entre o pós-teste, de um lado, e os dois seguimentos, de outro. Os resultados indicaram melhor percepção do ajustamento da criança por ambos os pais e redução do conflito coparental entre os homens, com modelos lineares mistos confirmando esses padrões nos seguimentos de 6 meses e 1 ano (ver as tabelas S8 e S9).
Tabela 2 — Teste de razão de verossimilhança comparando os modelos de estabilidade e de mudança
Para cada medida: modelo nulo e modelo com o tempo (AIC, BIC, log-verossimilhança), razão de verossimilhança e p.
Em negrito: valor estatisticamente significativo. OQ: Outcome Questionnaire; PHQ: Patient Health Questionnaire; DAS: Escala de Ajustamento Diádico; PAM: Parenting Alliance Measure; CI-PA: Coparenting Inventory for Parents and Adolescents; SDQ: Questionário de Capacidades e Dificuldades. Os sinais das log-verossimilhanças foram reproduzidos como no original.
Tabela 3 — Modelo de mudança para o ajustamento da criança relatado pelos pais (SDQ)
Estimativa, intervalo de confiança e p. G0: TSB habitual; G1: IBSI; H: homens; M: mulheres.
Em negrito: valor estatisticamente significativo.
A HCPC revelou cinco grupos distintos de casais, segundo seus níveis médios nas variáveis de desfecho nas três avaliações pós-tratamento (pós-teste, primeiro e segundo seguimento; ver a tabela 4). Os dois primeiros grupos mostraram resultados estáveis após a terapia, com homens e mulheres relatando escores semelhantes, estáveis e relativamente altos ao longo do tempo. O grupo 2 (n = 27) teve escores um pouco mais baixos que o grupo 1 (n = 18) em toda a trajetória. No grupo 3 (n = 7), os homens tinham escores de sintomatologia individual e depressão mais altos que o outro membro do casal, enquanto no grupo 4 (n = 10) eram as mulheres que tinham escores mais altos. As mulheres do grupo 4 seguiram também uma trajetória de menor qualidade da relação amorosa e coparental que o outro membro do casal. Por fim, homens e mulheres do grupo 5 (n = 10) mostraram uma trajetória constante de baixa qualidade da relação amorosa e coparental, mas não de sintomatologia individual nem de ajustamento da criança. As trajetórias dos casais após a terapia se agrupam, portanto, em conjuntos distintos: os grupos 3 e 4 se definem por um sofrimento individual mais alto (sintomatologia individual e depressão) em um dos membros do casal, e o grupo 5, pela baixa qualidade relacional em ambos.
Tabela 4 — As cinco trajetórias pós-terapia
Para ilustrar esses resultados, as figuras S1 a S6 mostram as trajetórias dos cinco grupos em cada variável de desfecho. Para situá-las em relação aos escores anteriores à terapia, as figuras incluem em linhas tracejadas a evolução dos escores do pré ao pós-terapia; esses escores iniciais, porém, não foram usados para formar os cinco grupos.
A regressão logística multinomial permitiu predizer as chances de pertencer aos grupos 2 e 4 em comparação com o grupo 1. Os casais da condição IBSI tinham mais chance de pertencer ao grupo 1 (trajetória estável, alta qualidade das relações amorosa e coparental e baixa sintomatologia individual e depressão) do que ao grupo 2, também estável mas com escores relativamente mais baixos, RC = 0,12, IC 95% [0,02; 0,68], p = 0,017. Casais com filhos mais novos tinham mais chance de estar no grupo 2 do que no grupo 1, RC = 0,70, IC 95% [0,52; 0,95], p = 0,020. Casais com relação mais longa tinham mais chance de pertencer ao grupo 4 (mulheres relatando mais sintomatologia individual e depressão que o outro membro do casal, com menor qualidade das relações amorosa e coparental) do que ao grupo 1, RC = 1,54, IC 95% [1,07; 2,22], p = 0,019. Algumas predições foram marginalmente significativas: casais com mais filhos morando em casa, RC = 3,17, IC 95% [1,00; 10,10], p = 0,051, tendiam a pertencer mais ao grupo 4 do que ao grupo 1. Nenhum outro preditor foi significativo (número de sessões, família recomposta ou não), e não houve predições significativas para as chances de pertencer ao grupo 3 (sofrimento individual mais alto nos homens) ou ao grupo 5 (baixa satisfação amorosa e baixa qualidade coparental, mas sofrimento individual e ajustamento da criança relativamente preservados), em comparação com o grupo 1.
Este estudo buscou examinar, ao longo do ano seguinte ao fim do tratamento, as trajetórias de casais que participaram da IBSI ou da TSB habitual. As trajetórias foram derivadas de desfechos que avaliam várias dimensões da dinâmica conjugal e familiar, indo além do foco tradicional na satisfação amorosa e no sofrimento individual para incluir a percepção dos pais sobre a qualidade coparental (apoio e conflito) e o ajustamento da criança.
Primeiro, os resultados confirmaram que as melhoras no sofrimento individual, na qualidade da relação amorosa e no apoio e conflito coparentais observadas 6 meses após a terapia (Darwiche et al. 2023) se mantinham no seguimento de 1 ano nos dois grupos. A percepção dos pais sobre o ajustamento dos filhos chegou a melhorar nesse período, sobretudo entre os homens do grupo TSB habitual e as mulheres do grupo IBSI, o que sugere um efeito positivo tardio da terapia sobre as crianças, por meio do maior bem-estar parental. Como esses resultados não foram significativos para todos os pais, porém, são necessárias mais pesquisas para compreender melhor o vínculo entre terapia de casal e desfechos das crianças.
Manter os ganhos a longo prazo continua um desafio crítico na terapia de casal. Embora a terapia melhore de modo confiável a satisfação conjugal, apenas cerca de 40% dos casais atingem níveis de satisfação comparáveis aos da população não clínica (Lebow et al. 2012), e os resultados variam: alguns casais continuam melhorando, outros permanecem em sofrimento, se deterioram ou se separam. Novas vulnerabilidades e estressores, como a perda de entes queridos ou a passagem de uma vida centrada na família para uma vida centrada no casal depois que os filhos crescem, podem dificultar a aplicação das estratégias de enfrentamento aprendidas. Este estudo contribui para a literatura sobre tratamentos sistêmicos ao indicar que essas intervenções podem favorecer a capacidade dos casais parentais de antecipar e enfrentar desafios futuros. Alcançar mudanças duradouras nas relações a longo prazo (5 anos ou mais) apenas pela terapia de casal pode ser difícil, e um resultado-chave é o casal desenvolver a capacidade de buscar apoio profissional em períodos de vulnerabilidade.
No conjunto, os achados sugerem que os ganhos terapêuticos se mantiveram no seguimento de 1 ano nos dois grupos. Resultados globais como esses, porém, podem ocultar uma heterogeneidade importante, o que levou este estudo a examinar as trajetórias dos casais e identificar padrões distintos de mudança no ano seguinte ao tratamento. Cinco grupos emergiram a partir dos desfechos individuais e relacionais, revelando cinco trajetórias distintas, caracterizadas por níveis variáveis de sintomatologia individual (sintomas individuais e depressão) e de qualidade relacional (relações amorosa e coparental). Os grupos 1 e 2 mostraram trajetórias estáveis, com alta qualidade relacional e baixa sintomatologia, embora o grupo 2 tivesse escores um pouco mais baixos. Já os grupos 3 e 4 revelaram padrões de sofrimento individual específicos de gênero: os homens do grupo 3 relataram maior sofrimento individual, enquanto as mulheres do grupo 4 relataram maior sofrimento individual e menor qualidade das relações amorosa e coparental. O grupo 5, por sua vez, caracterizou-se pela baixa qualidade das relações amorosa e coparental, com sofrimento individual e ajustamento da criança menos afetados. Essas observações apontam o sofrimento individual (grupos 3 e 4) e a qualidade relacional (grupo 5) como dimensões subjacentes que estruturam as diversas trajetórias dos casais após a terapia.
Os grupos 1 e 2, que representam a maioria (45 de 72 casais), mantiveram níveis altos e estáveis de qualidade relacional e baixa sintomatologia individual após a terapia, o que demonstra a eficácia geral da intervenção. Já os grupos 3 e 4 mostraram desequilíbrios ligados ao gênero, com um membro do casal relatando menor satisfação em vários domínios da vida conjugal e familiar. Segundo a hipótese do elo fraco (Park et al. 2023), o membro mais vulnerável do casal pode minar a qualidade geral da relação, aumentando o risco de deterioração a longo prazo. Inversamente, a hipótese do elo forte (Schoebi et al. 2012) sugere que o membro do casal com melhor saúde pode proteger a relação assumindo maior responsabilidade por sua estabilidade, mas esse papel protetor também pode ter custos emocionais ao longo do tempo. Quando a vulnerabilidade de um membro do casal reflete uma psicopatologia individual, as intervenções de casal para psicopatologia (Baucom et al. 2014) podem oferecer um caminho promissor para usar a relação como recurso terapêutico, sem sobrecarregar ainda mais o membro do casal com melhor saúde. Os casais do grupo 5 (10 de 72) mostraram declínio na qualidade das relações amorosa e coparental, e a degradação da relação amorosa pode sinalizar maior vulnerabilidade à separação ou ao divórcio. O declínio da qualidade coparental é especialmente preocupante, pois uma relação coparental sólida é essencial para tomar decisões conjuntas no melhor interesse dos filhos, mesmo após uma separação (Ahrons 2007). A pesquisa mostra que uma coparentalidade de qualidade facilita arranjos de guarda compartilhada, associados a melhores desfechos para as crianças em comparação com a guarda unilateral (Vowels et al. 2023). Uma terapia de casal que inclua o trabalho sobre a coparentalidade pode ajudar os casais a atravessar a separação preservando o vínculo parental, em benefício dos filhos (Darwiche et al. 2022).
Por fim, quanto às variáveis ligadas ao tratamento, os casais da condição IBSI estavam com mais frequência no grupo mais favorável (grupo 1: satisfação e bem-estar altos e estáveis) do que no grupo 2, também estável, mas com satisfação e bem-estar menores. Isso sugere que as intervenções que visam explicitamente as dimensões amorosa e coparental podem oferecer uma base mais sólida para manter os ganhos terapêuticos. Ao mesmo tempo, as melhoras se mantiveram até 1 ano tanto na IBSI quanto na TSB habitual, sem diferenças gerais significativas entre as condições, o que matiza essa interpretação.
O contexto familiar também pareceu associado às trajetórias dos casais após a terapia. Casais com filhos mais novos estavam com mais frequência no grupo 2 do que no grupo 1, o que sugere que o período inicial da parentalidade pode trazer desafios que atenuam os benefícios da terapia. Da mesma forma, a associação marginal com um número maior de filhos em casa (mais ligada ao grupo 4, em que as mulheres relataram mais dificuldades) ecoa as evidências sobre a tensão que a carga familiar impõe ao casal, especialmente às mães (Ren et al. 2024), e sugere que esses encargos podem dificultar a consolidação dos ganhos da terapia.
Uma relação mais longa também estava ligada ao grupo 4, caracterizado por sintomatologia mais alta nas mulheres e menor satisfação amorosa e coparental. Isso pode indicar que as mulheres, que muitas vezes são quem toma a iniciativa da terapia, ficam presas em padrões relacionais enraizados, mais difíceis de mudar em relações antigas, ou que os encargos de gênero nas parcerias de longa duração são difíceis de abordar no âmbito de uma terapia de casal breve (Sutherland et al. 2017).
Em conjunto, esses achados sugerem que, além da condição de tratamento, a etapa do ciclo de vida familiar e as características da relação são importantes para entender como os casais mantêm os ganhos da terapia ou têm dificuldade em mantê-los. A ausência de associações significativas para algumas trajetórias (grupos 3 e 5) indica ainda que outros processos interpessoais ou contextuais, não avaliados neste estudo, podem ser decisivos para explicar por que certos casais continuam vulneráveis após a terapia.
Os presentes achados mostram o valor de examinar as trajetórias pós-terapia em vez de se basear apenas nos efeitos médios do tratamento. A identificação de percursos distintos, que vão de melhoras estáveis a vulnerabilidades persistentes ou desequilíbrios ligados ao gênero, mostra que os resultados da terapia não são uniformes. Reconhecer essa heterogeneidade é essencial para ajustar o apoio às necessidades dos casais, por exemplo por meio de sessões de reforço, acompanhamento sob demanda ou intervenções direcionadas quando um membro do casal continua especialmente vulnerável (por exemplo, mães diante de uma carga mental parental pesada). Além da modalidade de tratamento, características familiares como criar filhos pequenos ou lidar com responsabilidades familiares mais pesadas também podem exigir recursos adicionais para consolidar os ganhos terapêuticos. Considerar o período pós-terapia como uma fase crítica em si mesma pode ajudar as equipes clínicas a antecipar transições de vida e estressores capazes de minar os progressos, e a oferecer apoio no momento certo para sustentar a estabilidade relacional e o bem-estar familiar a longo prazo.
Embora este estudo traga contribuições valiosas, os resultados devem ser interpretados com cautela, dado o tamanho reduzido da amostra e a taxa de aceitação modesta (um terço dos casais elegíveis). Pesquisas futuras devem replicar os achados com populações maiores e mais diversas, para confirmar e comparar as tendências entre grupos, garantindo também maior viabilidade para melhorar as taxas de recrutamento. Além disso, como várias trajetórias pareceram não lineares, pesquisas futuras devem considerar modelagens alternativas (por exemplo, quadráticas ou por splines) para captar melhor possíveis padrões curvilíneos ao longo do tempo. Por fim, avaliações de seguimento mais frequentes poderiam esclarecer os padrões de mudança de longo prazo, para determinar se as mudanças observadas após 1 ano refletem uma tendência negativa sustentada ou uma trajetória marcada por flutuações ligadas a acontecimentos de vida e a períodos de vulnerabilidade.
Este estudo faz avançar a literatura sistêmica sobre terapia de casal para pais ao mostrar seu potencial para favorecer melhoras duradouras em domínios familiares, incluindo a satisfação coparental e o ajustamento da criança. Ao identificar cinco trajetórias distintas, nossos achados ressaltam que os resultados terapêuticos não são uniformes: enquanto alguns casais mantêm mudanças positivas, outros enfrentam vulnerabilidades persistentes ou dificuldades ligadas ao gênero. Pesquisas futuras devem esclarecer as condições em que os ganhos terapêuticos se mantêm, considerando fatores relacionais e contextuais como dinâmicas de poder, carga mental parental ou estressores socioeconômicos. Ampliar a base de evidências para incluir constelações familiares diversas, como casais inter-raciais, pais e mães do mesmo gênero (Kousteni e Anagnostopoulos 2020) e famílias de diferentes origens socioeconômicas, será fundamental para que a terapia sistêmica de casal continue sendo uma intervenção flexível e inclusiva, atenta às realidades da vida conjugal e familiar contemporânea.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do estudo está em olhar o que acontece depois da última sessão, onde a maioria dos ensaios para. O resultado médio tranquiliza: um ano depois, os ganhos de uma terapia de casal breve, de seis sessões, se mantêm, e os pais chegam a ver os filhos melhorarem, como se o bem-estar do casal se espalhasse com atraso pela família. Mas a média esconde cinco percursos. Dois grupos permanecem estáveis; em outros dois, um único membro do casal carrega o sofrimento; no último, é a própria relação, amorosa e coparental, que se desgasta. O modelo que trabalha explicitamente a coparentalidade leva com mais frequência ao grupo mais favorável, e a etapa do ciclo de vida conta: filhos pequenos, famílias numerosas, relações longas. Para a clínica sistêmica, a lição é pensar o pós-terapia como uma fase em si, com sessões de reforço ou acompanhamento sob demanda. Os limites são os de uma amostra pequena, da Suíça francófona, na qual só um terço dos casais convidados aceitou participar. Para ler junto com o artigo sobre o que é preciso saber da terapia de casal e com o artigo sobre o apoio à coparentalidade.
Notas do original
Financiamento. Este trabalho foi apoiado pelo Fundo Nacional Suíço de Pesquisa Científica, subsídio SNF 159437.
Conflitos de interesse. Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Agradecimentos. Uso de IA: o ChatGPT-5 (OpenAI) foi usado na revisão linguística, para fluidez e verificação do inglês. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Universidade de Lausanne, no âmbito do acordo entre a Wiley e a Universidade de Lausanne, via Consórcio de Bibliotecas Acadêmicas Suíças.
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Tradução não oficial em português de Trajetórias após uma terapia de casal sistêmica breve para pais, de Joëlle Darwiche, Cindy Eira Nunes, Laura Vowels, Esther Liekmeier e Jean-Philippe Antonietti, Family Process, vol. 65 (2026), doi: 10.1111/famp.70114, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Post-Therapy Trajectories Following Brief Systemic Couple Therapy for Parents”, publicado em Family Process (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Darwiche, J., Eira Nunes, C., Vowels, L., Liekmeier, E., et Antonietti, J.-P. (2026). Trajetórias após uma terapia de casal sistêmica breve para pais (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/trajetorias-apos-uma-terapia-de-casal-sistemica-breve-para-pais (Obra original publicada em 2026 em Family Process, 65(1), e70114 (2026); republicada em 2026 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.70114)
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