Red Sistémica · Psicopatologia
Os mitos de um sistema relacional são os espaços de consenso das narrativas individuais de seus membros; e a cultura não é outra coisa senão a mitologia do mais vasto sistema relacional que existe, a sociedade. A partir da mitologia do casal fundador, Adão e Eva, Juan Luis Linares cruza as duas grandes dimensões relacionais da família de origem – a conjugalidade e a parentalidade – para descrever as atmosferas nas quais se molda a personalidade dos filhos: triangulações, privações, caotizações. Seis combinações, seis leituras possíveis da morte de Abel, cada uma ilustrada por uma vinheta clínica.
“Na encruzilhada da parentalidade e da conjugalidade, ali onde se gera a atmosfera relacional da família de origem, encontram-se os elementos que definirão a futura personalidade dos filhos.”
Juan Luis Linares
Os mitos de um sistema relacional são os espaços de consenso das narrativas individuais de seus membros. Neles distinguem-se elementos cognitivos, emocionais e pragmáticos, que remetem respectivamente aos processos que produzem consenso nos níveis ideativo, afetivo e comportamental. Os consensos ideativos são representados principalmente pelos valores e pelas crenças, ao passo que os consensos pragmáticos consistem nos rituais a eles associados. Quanto às ressonâncias afetivas evocadas – e também consentidas –, elas constituem o clima emocional.
Os terapeutas sistêmicos estão habituados a trabalhar com as mitologias familiares: apoiam-se nelas quando lhes são úteis e empenham-se em modificá-las quando se revelam disfuncionais. É nisso que consiste boa parte do trabalho terapêutico a ser feito com famílias que têm membros sintomáticos. Quanto mais graves os sintomas e mais disfuncional se mostra a família, mais problemáticos serão os processos de consenso e mais as mitologias se apresentarão dissociadas ou enrijecidas. Além disso, o ciclo de vida tem grande importância na definição da validade dos mitos. O mito “somos uma grande família unida” pode ser útil na etapa da educação dos filhos pequenos e tornar-se um obstáculo quando estes chegam à adolescência.
A cultura, por sua vez, pode ser definida como a mitologia do mais vasto sistema relacional existente: a sociedade. E, desse ponto de vista, os mitos culturais constituem a expressão máxima da capacidade de uma sociedade de produzir consenso. Todas as culturas são ricas em mitos mas, como nas famílias, as sociedades mais maduras e mais integradas possuem mitologias mais flexíveis e melhor consentidas. As religiões, enquanto produções culturais, constituem mitologias extraordinariamente complexas, que podem ser funcionais em certos momentos históricos e disfuncionais em outros. Assim, por exemplo, os dogmas de uma religião do livro “revelado” podem ser integradores para uma sociedade colonizada ou ameaçada de fora e, ao contrário, revelar-se desintegradores para uma sociedade multiétnica que se esforça por incorporar harmoniosamente suas minorias.
É por isso que pode ser interessante fazer uma escala do lado da versão ocidental do casal humano, por meio de algumas abordagens mitológicas que lhe dizem respeito, como, por exemplo, aquelas que tocam no casal fundador, Adão e Eva.
É verdade que a ciência moderna estabeleceu que os primatas pré-hominídeos foram os inventores das relações de casal. Graças ao bipedismo, abriu-se o caminho para que os humanos se aproximassem do amor conjugal a partir de relações sexuais morfologicamente aptas a adotar a revolucionária posição ventro-ventral. Uma postura, diga-se de passagem, injustamente desacreditada sob o nome de posição do papai e mamãe, mas que permite uma comunicação bem mais rica e, sobretudo, o reconhecimento individualizado e inequívoco do parceiro sexual.
São, no entanto, nossos primeiros pais, Adão e Eva, que melhor encarnam o papel de casal mitológico. A história é conhecida: Jeová, depois de ter criado Adão, pressentiu que não era bom que o homem estivesse só, de modo que inmisit Dominus soporem in Adam et tulit una de costis eius… Ou seja, o Senhor fez Adão dormir e retirou-lhe uma costela, com a qual criou em seguida Eva.
Ei-los no Paraíso terrestre; mas, como todos sabem, tampouco estão sozinhos ali: estão antes em má companhia. A relação privilegiada de Eva com a serpente vai criar sérios problemas aos dois membros do jovem casal, a ponto de arruinar a relação não menos privilegiada de Adão com Jeová. As consequências nefastas serão plenamente compartilhadas: expulsão sumária, obrigação de trabalhar e instauração da mortalidade.
Podemos imaginar a primeira conversa de Adão e Eva fora do Paraíso. Havia certamente uma quantidade de problemas práticos de que cuidar, uma quantidade de questões de sobrevivência a resolver; mas, conhecendo a condição humana, essa primeira conversa deve ter versado sobre a natureza de sua relação de casal, isto é, sobre a conjugalidade.
A conjugalidade pode ser definida de diversas maneiras. Uma delas remeteria ao amor complexo ou nutrição relacional, aplicado à relação entre os dois membros do casal parental. Comportaria componentes cognitivos (por exemplo o reconhecimento e a valorização), componentes emocionais (o afeto, a ternura…) e componentes pragmáticos (o desejo, a sexualidade e a gestão da vida cotidiana, entre outros). De maneira mais simples e mais operativa, a conjugalidade equivaleria à capacidade de resolver os conflitos que surgem no campo do casal.
Se aceitamos, portanto, os fundamentos básicos do mito, Adão e Eva tiveram de redefinir sua conjugalidade nas novas circunstâncias nascidas de sua expulsão do paraíso. E podem-se formular duas hipóteses sobre a maneira como o fizeram: negociando harmoniosamente a resolução dos conflitos, ou então sucumbindo ao rancor e à desarmonia.
Eva. – Adão, meu amor, fiz uma besteira…
(Silêncio)
Eva. – Perdoe-me, meu amor, eu sei que estraguei tudo. Aquela maldita serpente me enrolou, mas eu nunca deveria ter… (Ela chora.)
Adão (comovido). – Bom, está bem, não se atormente, o velho também exagerou… Afinal, uma maçã…
Eva. – Bom, e agora?
Adão. – Agora? É o que eu me pergunto. Agora, suponho que seu amigo, a serpente, vá nos alimentar, não é?
Eva. – Não, mas talvez o seu camarada, o velho, nos explique o que quer dizer ganhar o pão com o suor do rosto, já que ele sabe tudo…
Adão. – Quer saber? Vá embora com a serpente!
Eva. – E você com o velho!
(Mas, evidentemente, eles não vão embora.)
Como praticamente não dispomos de nenhuma informação confiável sobre o que se passou em seguida, as duas hipóteses são defensáveis, pois uma e outra podem conduzir à terrível tragédia de Caim e Abel. Da qual sabemos algumas coisas, não muitas.
Sabemos que Caim, o filho mais velho de Adão e Eva, tornou-se agricultor, e Abel, o caçula, criador de rebanhos. E que os sacrifícios de Abel eram agradáveis a Deus, ao passo que os de Caim não o eram. A intervenção de Jeová, que triangula os dois irmãos, é portanto decisiva em sua desgraça, como o fora na de seus pais. Mas esses são acontecimentos que influem no desencadeamento da desgraça, não em sua origem nem em sua gestação, as quais remontam seguramente a muitos anos antes e mergulham suas raízes na família de origem, nos tempos que se seguiram à expulsão de Adão e Eva do paraíso.
Como eram as personalidades de Caim e de Abel? Sabemos que ambos encarnam os personagens míticos do mau e do bom, mas que maneiras de ser se escondiam por trás desses estereótipos? O Gênesis nos diz que a morte de Abel foi um crime deliberado, o assassinato de um inocente por um culpado; mas temos boas razões para duvidar da imparcialidade de uma Bíblia escrita para a maior glória de Jeová. É portanto legítimo especular sobre o perfil psicológico de nossos primeiros irmãos, para tentar compreender um ato tão terrível e que, inevitavelmente, nos diz respeito como inquietante precedente.
Para tanto, vale a pena refletir sobre o que pode ter sido a relação dos meninos com seus pais, pois o senso comum quer que ela tenha desempenhado um papel no desenvolvimento de suas personalidades. Poder-se-ia, é claro, objetar que o verdadeiro genitor foi Jeová, mas a hipótese não parece muito consistente. Jeová certamente não renunciava a exercer uma influência determinante sobre suas criaturas, mas apenas nos momentos decisivos, quando fazia uma de suas aparições espetaculares… sem bater à porta, como um avô todo-poderoso que sabe que a casa lhe pertence. No resto do tempo, preferia manter-se distante, exercendo uma autoridade pouco implicada nas decisões cotidianas. Não se poderia, portanto, imaginar que fosse Ele quem estabelecia os critérios educativos de Caim e de Abel, nem que recomendasse a que creche confiá-los.
A parentalidade define a maneira como se exercem as funções parentais, isto é, o amor complexo ou nutrição relacional em sua vertente pais-filhos. Como a conjugalidade, a parentalidade possui componentes cognitivos, emocionais e pragmáticos; e, se os primeiros e os segundos não diferem muito dos da conjugalidade (reconhecimento e valorização de um lado, afeto e ternura de outro), os terceiros são radicalmente distintos. Com efeito, os componentes pragmáticos da parentalidade consistem principalmente na socialização, com sua dupla vertente, protetora e normativa: proteger a criança dos perigos presentes em seu ambiente e ensiná-la a respeitá-lo para ser, por sua vez, respeitada.
Ao verem-se obrigados a abandonar o paraíso, Adão e Eva também se viram com filhos, o que muito certamente exigiu deles que definissem sua parentalidade. Deram prioridade ao casal? Responderam de forma adequada às necessidades relacionais de seus filhos? A respeito da parentalidade de nossos “primeiros pais”, três hipóteses podem ser formuladas.
Eva. – Ah, era isso então que o velho queria dizer com o seu “crescei e multiplicai-vos”! Olhe, Adão, olhe como é bonitinho, parece aqueles macaquinhos tão brincalhões que vivem lá embaixo, na ravina.
Adão. – Puxa, é verdade! Olhe como ele se agarra ao seu seio. Diga, vamos ter outros, não vamos?
Eva. – Bom, dói um pouco, mas vale a pena.
Eva. – Meu Deus, só faltava essa! Quando chegou o primeiro fedelho, eu já tinha lhe dito que esse circo não era para mim. E agora que tenho de novo esse babão pendurado nos meus seios, pois é… lá vamos nós de novo.
Adão. – Psiu, cale-se! Se dermos um jeito de o velho não perceber, poderemos jogá-lo na ravina das cabras assim que nascer…
(Mas o velho, evidentemente, percebeu.)
Eva. – Ah, olhe, Adão, este pelo menos sorri, não como aquele brutamontes que só fez resmungar desde que nasceu! Nem quero pensar nisso de novo. Nós, recém-expulsos, com nada além do que tínhamos no corpo, e ele só pensando em se empanturrar e chorar…
Adão. – Como ele é bonito! Poderíamos chamá-lo de Adão.
Eva. – Ah, não, com dois Adãos eu vou me atrapalhar! No máximo, um nome que comece com A.
Conjugalidade e parentalidade são as duas dimensões relacionais mais importantes presentes em qualquer família de origem. Embora independentes uma da outra, elas também se influenciam mutuamente, produzindo, por suas diversas combinações, as atmosferas relacionais que os filhos podem encontrar. O resultado será de importância decisiva para a construção de sua personalidade.
O quadro n° 1 mostra as quatro grandes modalidades combinatórias, três das quais representam situações disfuncionais: as triangulações, as privações e as caotizações.
Entre as múltiplas acepções do termo triangulação na literatura sistêmica, propomos aqui aquela que a define como a inclusão dos filhos, por diversas modalidades de coalizão, nos jogos relacionais disfuncionais dos pais. A parentalidade, primariamente conservada, deteriora-se secundariamente sob o impacto de uma conjugalidade desarmoniosa, que leva os pais a buscar aliados para resolver seus conflitos. Diferentes tipos de triangulação sustentam patologias como os transtornos neuróticos ou as psicoses.
As privações foram descritas pelo autor a propósito dos transtornos de depressão maior, mas também sustentam as patologias borderline. Pais razoavelmente bem afinados no plano conjugal, que fracassam no exercício das funções parentais e acabam envolvidos em um círculo vicioso de desqualificação e rejeição de seus filhos. O esquema depressógeno compõe-se de hiperexigência e ausência de valorização, ao passo que o esquema que facilita desenvolvimentos borderline consiste essencialmente em uma mistura de rejeição e hiperproteção.
As caotizações são o resultado do fracasso simultâneo da conjugalidade e da parentalidade na família de origem, que gera condições de base de grande pobreza em matéria de nutrição relacional, mas que também estimula o ecossistema a intervir trazendo recursos compensatórios. O caos relacional é característico das famílias multiproblemáticas, assim como de patologias como o transtorno de conduta ou o transtorno da personalidade antissocial.
Boa atmosfera relacional. As responsabilidades de uma eventual tragédia devem ser procuradas fora da família nuclear.
Privações. Conforme predominem a hiperexigência e a ausência de valorização ou o par rejeição-hiperproteção: depressão maior ou transtorno borderline.
Triangulações. Os filhos são recrutados para os jogos relacionais dos pais. Substrato dos transtornos neuróticos e das psicoses.
Caotizações. Famílias multiproblemáticas, transtornos de conduta e transtornos da personalidade antissocial.
O quadro n° 2 mostra algumas correlações entre as hipóteses de conjugalidade e as de parentalidade, com a intenção de compreender a atmosfera relacional que reinou no lar de Adão e Eva. Examinaremos cada combinação especulando sobre as repercussões que ela pode ter exercido na personalidade de Caim e de Abel. E acrescentaremos vinhetas tiradas da prática terapêutica, para dar ao conjunto uma consistência clínica.
Boa atmosfera relacional. As responsabilidades da tragédia devem ser procuradas fora da família nuclear.
Filhos privados: Caim, borderline, mata Abel, depressivo.
Abel é um bom menino, mas Caim, privado e borderline, o mata num acesso de ciúme.
Filhos triangulados: Caim, aliado de Eva, mata Abel, aliado de Adão, num episódio de perda de controle.
Filhos caotizados: os dois são antissociais, brigam e Caim mata Abel porque é o mais forte.
Abel, triangulado, aliado de Eva, é o irmão prestigioso, um pouco neurótico. Caim, caotizado e antissocial, o mata.
Os pobres Adão e Eva conseguem enfrentar a tempestade de sua expulsão do Paraíso conservando uma boa relação de casal e um bom exercício das funções parentais. Nessas circunstâncias relacionalmente privilegiadas, os irmãos deveriam crescer em boa harmonia, sem contenciosos graves ameaçando seu entendimento mútuo. No entanto, o ecossistema, em sua infinita complexidade, pode exercer influências negativas por meio de outros fatores extrafamiliares. Por exemplo, Jeová poderia curto-circuitar os pais e servir-se de seus próprios recursos para triangular os meninos, fazendo de um o mau e do outro o bom, e favorecendo o sacrifício deste último pelas mãos do primeiro.
Vinheta clínica: Luisa e Eduardo
Luisa tem 21 anos e mora com os pais, Enrique e Margarita, e com o irmão Eduardo, de 23 anos. Os pais procuram atendimento, angustiados, porque a relação entre os dois filhos é muito ruim; chegam a confessar que às vezes temeram que Eduardo pudesse realmente machucar Luisa.
Enrique e Margarita são profissionais muito ocupados que, sobretudo agora que os filhos estão crescidos, passam pouco tempo em casa e viajam constantemente. Mas têm a sorte de Eloísa, a irmã solteira de Margarita, morar no apartamento de cima, dispor de muito tempo livre e sempre ter demonstrado grande disposição para ajudar.
“Minha irmã é uma pessoa extraordinária”, diz Margarita, “de enorme generosidade. Não sei o que teria sido de nós sem ela… e no entanto… enfim… coitada…” Margarita hesita e enrubesce. “É o seguinte: ela também foi apaixonada por Enrique quando éramos moças, e desde então nunca mais lhe conheceram uma relação séria. Por isso tem mérito em dobro por não guardar mágoa de nós e por nos ajudar tanto.”
Quando se convocam todos os membros da família, tia Eloísa incluída, começa-se a saber mais. Ela tem uma predileção especial pela sobrinha.
“Gosto dos dois igualmente, mas é que Luisa é tão carinhosa…”
“Com você, talvez”, interrompe Eduardo, “porque comigo ela é uma megera, e sempre foi… E que você goste dos dois igualmente, ninguém acredita.”
Eloísa está sempre atenta ao menor desejo de Luisa. (Que coincidência, essa semelhança dos nomes! Não é mesmo?) A distribuição do prédio faz com que, pelo pátio interno, se ouça tudo o que é dito no outro apartamento.
“Sobretudo quando se levanta a voz. E aquela ali (diz Eduardo, apontando para a irmã) grita como uma fúria.”
Se a tia detecta que a sobrinha não gostou do jantar, desce imediatamente com um prato de espaguete, seu prato preferido. Se Margarita a repreende porque o quarto está bagunçado, Eloísa o arruma sem chamar a atenção.
“Mas ela também leva espaguete para o Eduardo!” exclama Luisa. E Eduardo, com o olhar perdido no vazio e um ar infinitamente triste, acrescenta:
“Sim, para mim também…”
Enrique e Margarita fizeram o que puderam para cuidar dos filhos, sem deixar de se entender razoavelmente bem. Seu absenteísmo forçado, porém, colocou nas mãos de Eloísa boa parte dos recursos relacionais da família. Não que esta seja a bruxa pérfida do conto; mas sua frustração histórica de mulher e de mãe que não pôde ser a levou a apropriar-se de Luisa, criando entre o irmão e a irmã uma dinâmica de consequências imprevisíveis.
Embora resistam à crise enquanto casal, a parentalidade desmorona para eles, ao menos durante os anos em que vêm ao mundo seus dois primeiros filhos. O vínculo com estes fica irremediavelmente afetado, ainda que de maneiras diferentes. Caim, que eles percebem como agitado e penoso, cresce sob um esquema definido pela rejeição e pela hiperproteção. A criança os esgota, causando-lhes intenso desprazer, e eles lhe dão tudo o que está em seu poder sobretudo para que não os importune. Nesse contexto relacional, Caim desenvolve uma personalidade socialmente instável, impulsiva, com episódios depressivos e outros de agressividade descontrolada. Abel, ao contrário, é percebido pelos pais como responsável e calmo; por isso lhe delegam muito cedo funções de ajuda nas tarefas domésticas. A mensagem é que esse é o seu destino, e que ele não deve, portanto, esperar nem valorização nem gratidão. Submetida a tais tensões, a personalidade de Abel tinge-se de depressão, o que faz dele o receptor natural dos acessos de violência de Caim, o borderline.
Vinheta clínica: Gemma e María
Antonio e Rosario formavam um casal feliz, com um filho que adoravam, quando o mundo desabou à sua volta de maneira inesperada. Em poucas semanas, ambos perderam o emprego e a mãe de Rosario morreu, ela que era de grande ajuda na gestão dos assuntos domésticos. Acossados por dificuldades econômicas insuperáveis, tiveram de se mudar, com a perda de parte importante de sua rede social. Ainda por cima, Rosario ficou grávida… e nada menos que de gêmeas.
O nascimento das meninas os encontrou nas piores condições psicológicas imagináveis; em contraste, e por razões misteriosas, sua relação de casal não sofreu com isso e, ao contrário, revelou-se mais sólida do que nunca. Mas, num verdadeiro desmoronamento da parentalidade, a presença das meninas tornava-se-lhes intolerável, a ponto de lhes atribuírem a responsabilidade pelo fracasso da família.
Um único e tênue clarão lhes permitiu orientar-se para a saída do túnel: sendo gêmeas, Gemma e María se autorregulariam como subsistema. Essa solução foi facilitada pelo fato de que as duas meninas, embora permanecendo dentro da normalidade, revelaram-se muito diferentes.
Gemma era forte e robusta, comia e dormia bem e quase nunca adoecia. María, ao contrário, também saudável no essencial, era mais frágil diante dos problemas típicos das crianças pequenas: pegava todas as doenças, tinha noites ruins, chorava com frequência e recusava a comida por capricho. A solução que os pais encontraram consistiu em fazer com que a forte Gemma cuidasse da mais fraca, María.
Os esquemas relacionais chamados a reger a vida das meninas formularam-se, portanto, em coerência com esse princípio. Gemma devia consagrar a vida a cuidar da irmã, tarefa árdua pela qual, já que se tratava de seu destino, não devia esperar gratidão nem valorização proporcionais a seus esforços, eles próprios, aliás, condenados ao fracasso. Quanto a María, esse girino penoso e desagradável, não havia outra solução senão suportá-la, satisfazendo-lhe todos os caprichos ao alcance dos pais com o objetivo evidente de que não os importunasse demais.
Desnecessário dizer que a personalidade das gêmeas forjou-se em consonância com esquemas relacionais tão divergentes. María conheceu muito cedo o fracasso escolar, o consumo de todo tipo de drogas e a promiscuidade sexual. E, naturalmente, seus pais, já refeitos da crise que acompanhara o nascimento das meninas, acompanharam com estupor, horror e total incompreensão o processo autodestrutivo da filha. Processo que culminou tragicamente quando, aos quinze anos, María morreu atropelada por um carro em frente à casa da família.
Gemma, por sua vez, carregou a vida inteira o peso de sua missão impossível. Foi séria, estudiosa e trabalhadora, resistente e responsável. E, aos trinta e cinco anos, após uma grave tentativa de suicídio, recebeu o diagnóstico de uma depressão maior que se revelou resistente aos antidepressivos.
A privação pode seguir as duas trilhas percorridas pelas vidas de Gemma e de María. Gemma foi submetida a um esquema relacional de hiperexigência e ausência de valorização, que modelou sua personalidade predispondo-a à depressão (Linares e Campo, 2000). As normas sociais transmitem-se então com pleno êxito, dando lugar ao desenvolvimento de dinâmicas hipernormativas e, em definitivo, hipersociais. A pressão para dar o máximo de si, para além de suas possibilidades reais, gerou em Gemma um enorme sentimento de responsabilidade, misturado a uma grande culpa por não estar à altura das circunstâncias. Mas, por baixo, fervia uma intensa hostilidade, produto da consciência de ser injustamente tratada. O suicídio, expressão suprema da depressão, teria aliviado as duas tensões: autopunição contra a culpa, e legado hostil e culpabilizante para os sobreviventes.
O esquema ao qual María foi submetida combinou rejeição e hiperproteção, um coquetel nada propício à transmissão das normas sociais, e propício, ao contrário, ao seu desafio (Linares, 2006). O transtorno da personalidade borderline que se gera em tais circunstâncias reúne dinâmicas hiponormativas transgressoras e tendências hipossociais, expressivas de uma profunda desconfiança em relação às relações interpessoais. Não percamos de vista que às consequências desestabilizadoras evidentes da rejeição somam-se as de uma hiperproteção que mal dissimula sua condição de engodo: o excesso de proteção é uma falsa proteção, pois se exerce mais em função das necessidades dos supostos protetores do que das dos supostos protegidos.
Para lembrar
A privação segue duas trilhas. Hiperexigência e ausência de valorização produzem uma hipersocialidade normativa que predispõe à depressão maior. Rejeição e hiperproteção produzem, ao contrário, uma hiponormatividade transgressora que predispõe ao transtorno borderline. Nos dois casos, a conjugalidade dos pais permanece harmoniosa: é a parentalidade, e somente ela, que fracassou.
Caim chegou num mau momento, quando o trauma da expulsão encurralava seus pais. Estando o casal milagrosamente ileso, a parentalidade ficou-lhes grande demais e o vínculo se ressentiu disso. A criança cresceu sentindo-se rejeitada e mal-educada, sem a menor receptividade às normas sociais e, por consequência, candidata a um diagnóstico de personalidade borderline. Ao inverso, Abel, nascido quando o restabelecimento de seus pais, já adaptados à adversidade, estava em marcha, encontrou circunstâncias bem mais favoráveis e cresceu são e maduro. Infelizmente, suas tentativas de melhorar a relação com o irmão só aumentavam a raiva deste, progressivamente encurralado no papel do mau. Até que, depois de um desses inúmeros gestos de apaziguamento (por exemplo, Abel pode ter proposto a Caim que apresentasse ele mesmo seus sacrifícios), sobreveio a tragédia.
Vinheta clínica: Jorge e Vicente
Jorge nasceu num momento pouco oportuno. Seus pais, Andrés e Asunción, vindos de famílias camponesas, tinham se casado havia apenas nove meses e adaptavam-se à convivência na casa dos avós paternos. Não que estes fossem má gente; mas sabe-se bem que os velhos são cheios de manias, e mais ainda quando acabam de lhes trazer para casa uma nora que não conhece os costumes da família.
Asunción sentia-se como uma galinha em terreiro alheio, e mais ainda desde o nascimento de Jorge que, por sua simples presença, perturbava o equilíbrio da vida tranquila de seus sogros. Por isso ela tentava reprimir a criança e se desesperava com ele, o que a impedia de aproveitar sua maternidade. Andrés, quase sempre ausente de casa, mantinha uma boa relação com a esposa mas via-se incapaz de modificar a relação com o pequeno, que também o irritava porque representava a seus olhos o princípio da desarmonia familiar. Jorge, por sua vez, confirmou os preconceitos de todos ao desenvolver uma personalidade turbulenta e uma inadaptação profunda, tanto à família quanto aos outros meios sociais.
Dois anos depois nascia Vicente, o segundo filho do jovem casal. Asunción havia então definido seu papel de mulher indispensável na família do marido, ganhando em segurança e em autoestima tudo o que lhe faltara antes. Sua relação com Vicente foi serena e feliz, e a criança cresceu madura e sadia.
Mas isso não diminuiu as dificuldades de Jorge: aumentou-as. E tampouco fez muito bem à relação entre os dois irmãos, que sempre foi tensa e fria.
Uma má relação entre irmãos nem sempre termina em tragédia bíblica, mas com muita frequência se gera a partir de situações relativamente banais como a que este exemplo reflete. O vínculo deteriorado com um filho, em razão de circunstâncias biográficas de seus pais que fazem parte do cotidiano deles, ressente-se ainda mais da injustiça comparativa que representa a boa relação com outro filho, beneficiário de uma conjuntura histórica mais favorável.
A má relação de casal, somada ao interesse sincero de Adão e Eva por seus filhos, fez com que os pais quisessem tê-los como aliados. Dado o isolamento e a inexistência de uma família extensa, os meninos tiveram dificuldade em resistir às propostas trianguladoras. A mãe, dispondo de mais recursos relacionais e inicialmente mais motivada, captou o primeiro, enquanto o pai teve sua chance com o segundo. Ambos cresceram inquietos e ansiosos em meio a batalhas familiares contínuas e a conflitos de lealdade, ainda que a aliança com Eva tenha dado mais força a Caim. Diante das frequentes ausências de Adão, Abel buscou em Jeová um reforço para sua coalizão, mas mesmo assim não conseguiu contrabalançar a potência da coalizão da mãe com o irmão. Este, tendo perdido o controle numa enésima discussão, golpeou Abel com o primeiro objeto que lhe caiu nas mãos… algo tão absurdo quanto uma mandíbula de burro.
Vinheta clínica: Alfredo e Roberto
Alfredo e Roberto, de 21 e 18 anos respectivamente, sempre tinham sido irmãos muito brigões mas, na opinião de Berta, a mãe deles, havia dois anos a situação era alarmante e não parava de piorar. Roberto, em particular, era capaz de desenvolver uma violência desenfreada, puxando facas contra o irmão e ameaçando matá-lo. Também era verdade que Alfredo, com seu sangue-frio, o provocava de maneira refinada até fazê-lo perder as estribeiras.
Berta tinha se separado de Antonio, o pai dos meninos, havia pouco mais de um ano e aquilo que ela acreditara que devia melhorar as coisas só as havia agravado. Alfredo sempre tinha sido “o pequeno dela”, enquanto Roberto se mantivera equidistante entre pai e mãe; mas, nos últimos tempos, a força dos conflitos o havia aproximado de Antonio. Este, desde a separação, não erguia a cabeça: seu alcoolismo havia se agravado e ele estava agora internado numa clínica para se desintoxicar; parecia, no entanto, que seu fígado estava muito comprometido…
A relação de casal tempestuosa de Berta e Antonio, praticamente desde que se conheceram, favoreceu a triangulação dos filhos. Alfredo, como o mais velho, teve a ocasião de estabelecer uma relação privilegiada com a mãe, a quem consolava das penas que lhe causava sua vida conjugal conflituosa. Roberto ocupou uma posição menos definida, tentado ao mesmo tempo a aliar-se ao pai e a aproximar-se do valor mais positivo que a mãe representava. Acabou pendendo para o pai, impulsionado sobretudo pela raiva que lhe inspirava a atitude arrogante de Alfredo. Mas seu pai era o cavalo perdedor, e ele se sentia cada vez mais frustrado e furioso.
Nossa primeira família não foi um modelo de nutrição relacional. As discussões contínuas entre os pais, os abandonos do lar por um e por outro (e, no entanto, eles não tinham muitas alternativas!) e a intensa negligência em que estavam mergulhados os filhos criaram uma atmosfera caótica. As crianças assistiam aos jogos sexuais dos pais, e às vezes deles participavam; estes, sem transição, degeneravam em geral em confrontos violentos. Sistematicamente abandonados e imprevisivelmente abusados e maltratados, Caim e Abel cresceram sem respeito nem sequer muito conhecimento de qualquer norma, considerando os outros, como bons predadores, um simples alívio ocasional de suas necessidades e de suas carências infinitas. A morte de Abel foi quase aleatória, porque Caim foi mais rápido. E Abel foi santificado a posteriori, por um processo de idealização do morto.
Vinheta clínica: Rosario e Carlos
Rosario e Carlos viviam juntos praticamente desde a adolescência de ambos, primeiro na casa da mãe dele, depois numa moradia precária própria. Eram duas criaturas desamparadas: ela vinha de abrigos onde havia sido abandonada pela família, e ele era obeso mórbido, jogador compulsivo e pouco sociável.
Tinham quatro filhos, que cresciam espontaneamente, expostos a todo tipo de risco proveniente tanto de fora quanto de dentro da família. Episódios de violência conjugal não tardaram a aparecer, que Rosario denunciou sem, no entanto, interromper a vida em comum com Carlos. De sua parte, a mãe de Carlos o levou a prestar queixa por sua vez contra Rosario, permanecendo a convivência familiar sempre tão tempestuosa. Os filhos, cuja escolarização era muito irregular, chamaram a atenção dos serviços sociais.
Mas o que finalmente motivou o afastamento dos menores pelo órgão de proteção à infância foi um incidente dramático: o mais velho dos filhos, de 10 anos, destruiu um olho do irmão de 9 anos ao agredi-lo com uma garrafa de vidro quebrada enquanto brincavam num parque.
No caos gerado pela combinação de uma conjugalidade desarmoniosa e de uma parentalidade deteriorada, sem que intervenham mecanismos compensatórios trazendo recursos nutritivos provenientes do ecossistema (já que, neste caso, os serviços sociais e as instituições de proteção à infância apenas controlam), as crianças crescem em queda livre. Não têm nem uma vivência sólida do que é o amor nem, evidentemente, interiorização das normas sociais. O resultado é aquilo que mais se aproxima da ideia do mal: o transtorno da personalidade antissocial.
Adão e Eva sempre se entenderam mal, mas sua relação com os filhos, ao contrário, modificou-se com o tempo. Se, quando Caim chegou, o transbordamento e o abatimento causados pela expulsão os fizeram perder o pé com a criança, algum tempo depois Abel encontrou circunstâncias mais favoráveis. Em consequência, Caim não foi de ninguém, e a ausência de vínculos marcou sua existência com um viés antissocial. Abel, por sua vez, foi objeto de uma disputa entre Adão e Eva e acabou pendendo para esta última. O perfil ansioso de sua personalidade tingiu-se de toques distímicos, o que não maculou sua condição de irmão prestigioso mas o tornou mais vulnerável diante de Caim. Conhecemos a continuação.
Vinheta clínica: Lucas e Ahmed
Quando Verónica chegou à Espanha vinda de seu Equador natal, trazia consigo Lucas, uma criança de 10 anos, fruto de uma relação rompida na qual o pai nunca conheceu o menino nem, provavelmente, soube que ele existia. Verónica estava tão deprimida e sua parentalidade tão comprometida que, durante vários anos, não se sentiu capaz de tocar no filho. Algum tempo depois, sua situação melhorou; mas, a essa altura, Lucas já era um pequeno delinquente, capaz de qualquer coisa. Por exemplo, de transportar drogas entre o Equador e a Espanha com documentos falsos, a serviço de uma quadrilha de traficantes. Foi preso várias vezes e passou alguns anos em centros fechados para menores.
Verónica, nesse meio-tempo, vivia com Alí, um jovem marroquino com quem teve um segundo filho, Ahmed. A relação entre a latino-americana de costumes sem preconceitos e o muçulmano rigoroso não podia ser um modelo de estabilidade. As discussões eram constantes, e alcançavam extremos de violência verbal e, por vezes, até física.
Alí não queria saber de Lucas, que dava por perdido, mas lutava com afinco por Ahmed, de quem queria fazer um bom muçulmano. É claro que isso não entrava nos planos de Verónica, que, no fim das contas, era quem cuidava da criança durante as longas ausências de Alí, e que acabou ganhando a batalha, tendo ele a abandonado e lhe deixado seu aliado.
Lucas sempre havia olhado o irmão como um bicho curioso mas, quando Alí desapareceu, passou a torturá-lo impunemente e, diante da impotência de Verónica, o pequeno teve de ser hospitalizado várias vezes até que os serviços sociais interviessem.
Também neste caso o caos relacional desempenha um papel importante, ainda que afete diretamente Lucas. Ahmed, triangulado por seus pais, encontra-se vítima indireta do caos ao ser selvagemente agredido pelo irmão mais velho.
Essas são as combinações mais verossímeis, mas poder-se-ia também especular sobre outras, como por exemplo:
Não se trata evidentemente de esgotar todas as possibilidades combinatórias. As que passamos em revista bastam amplamente para ilustrar aquilo que é o objetivo fundamental destas reflexões: na encruzilhada da parentalidade e da conjugalidade, ali onde se gera a atmosfera relacional da família de origem, encontram-se elementos que permitem definir a futura personalidade dos filhos. E, eventualmente, compreender alguns dos acontecimentos suscetíveis de exercer uma influência decisiva em suas vidas.
Ao mesmo tempo, essas ideias permitem revisitar o velho conceito sistêmico de equifinalidade sob o ângulo da complexidade. Pode-se, é certo, chegar a uma mesma situação a partir de pontos de partida muito diversos, mas nem o significado relacional do desfecho será o mesmo, nem o processo que a ele conduz. Não é a mesma coisa que a morte de Abel pelas mãos de Caim tenha sido o resultado de um confronto entre psicopatas, a agressão impulsiva de um sujeito borderline fora de controle, ou um ato de legítima defesa… ainda que, em todos os casos, ela tenha sido apresentada pela história oficial como o assassinato de um inocente perpetrado por um mau. E vimos que, por trás de cada uma dessas opções, e por trás de muitas outras ainda possíveis, existe um substrato relacional coerente e distinto.
Seja como for, e já que os mitos são uma fonte inesgotável de material relacionalmente sensível, voltemos por um instante ao Gênesis para verificar que Adão e Eva tiveram um terceiro filho, a quem chamaram de Sete. E que a missão dele era substituir Abel, já que a linhagem de Caim estava de certo modo maldita. Substituir um irmão morto e outro condenado! Que pesado fardo o pobre Sete deve ter carregado! E que herança lhe coube transmitir a seus descendentes!
Mas isso, evidentemente, é outra história.
Para lembrar
Conjugalidade e parentalidade são duas variáveis relacionais independentes, mas que se influenciam. De suas combinações nascem as atmosferas da família de origem: boa atmosfera quando as duas se sustentam, triangulações quando somente a conjugalidade fracassa, privações quando somente a parentalidade fracassa, caotizações quando ambas desmoronam. É ali, e não apenas na cena final, que se joga a personalidade dos filhos. Para aprofundar: uma visão relacional dos transtornos da personalidade.
Quem é Juan Luis Linares
O Dr Linares é psiquiatra e terapeuta familiar, professor titular de psiquiatria na Universitat Autònoma de Barcelona. Dirige a Unidade de psicoterapia e a Escola de terapia familiar do Hospital de la Santa Creu i Sant Pau.
Este artigo é a tradução para o português de “La pareja, en la encrucijada de la conyugalidad y la parentalidad”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Linares, J. L. (2023). O casal, na encruzilhada da conjugalidade e da parentalidade (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-casal-na-encruzilhada-da-conjugalidade-e-da-parentalidade (Obra original publicada em 2023 em Red Sistémica; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/30/la-pareja-en-la-encrucijada-de-la-conyugalidad-y-la-parentalidad/)
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