Red Sistémica · Terapia familiar
Estamos acostumados a trabalhar com famílias tradicionais, ao passo que outras formas familiares se tornam a cada dia mais numerosas. Rodolfo de Bernart dedica-se aqui ao “recurso irmãos”: por que crianças que compartilham metade de seu patrimônio genético e crescem sob o mesmo teto se tornam tão diferentes? Como as funções se distribuem na fratria, como se ata e se desata sua acessibilidade emocional, e como mobilizar na terapia esse subsistema, que o autor constitui em grupo de trabalho sob o nome de “Mente dos irmãos”? O texto prossegue com um exame detalhado das fratrias recompostas, de suas competições de papéis e dos deveres relacionais que cabem ao casal que se separa.
“Os irmãos são nossas raízes horizontais, assim como os pais e os ascendentes são as verticais.”
Rodolfo de Bernart
Nota da redação
Os números entre parênteses espalhados pelo texto remetem à bibliografia numerada reproduzida no fim do artigo, tal como o autor a estabeleceu.
Costumamos habitualmente trabalhar com famílias tradicionais (pais com seus filhos), mas existem muitos outros tipos de família, a cada dia mais numerosos, como:
Neste artigo trataremos concretamente das famílias recompostas, centrando-nos sobretudo nos irmãos nesse tipo de família.
O “recurso irmãos” nos parece particularmente significativo em razão do tipo de relação própria que existe entre os membros de uma mesma família e de um mesmo nível geracional. Cada um deles, de fato, compartilha a história familiar no que diz respeito aos fatos, às emoções, aos sentimentos, por meio de uma leitura e de uma reconstrução individuais que, às vezes, são até dissemelhantes das dos outros membros. Adivinha-se como todo esse patrimônio pode ser utilizado em um setting terapêutico familiar em que as diferenças constituem uma riqueza para a construção de leituras alternativas às que as famílias trazem ao atendimento. É precisamente por meio dessa construção que é possível reativar o ciclo de vida da própria família, condição indispensável a uma mudança terapêutica que a família poderá utilizar em termos evolutivos.
Dunn e Plomin sustentam (13 e 14) que os fatores ambientais influenciam intensamente as leituras diferentes que se põem em marcha dentro das famílias entre os membros da fratria. Em particular, são exatamente as chaves de leitura da realidade e do ambiente que um irmão não compartilha com os outros que ele utiliza para o seu desenvolvimento. Nessa ótica, uma interpretação diferencial do crescimento pode tornar-se um aliado útil no interior da intervenção terapêutica. Nesse sentido, cada irmão pode fornecer uma imagem personalizada e uma chave de leitura que lhe é própria da imagem familiar, a qual pode produzir uma versão inovadora da imagem coletiva e compartilhada pela família em tratamento.
Na família, os irmãos funcionam como um subsistema: trata-se, segundo Minuchin (16), do “primeiro laboratório social no qual as crianças podem consolidar suas relações entre pares. Nesse contexto, as crianças se apoiam, se isolam, se acusam reciprocamente e aprendem umas com as outras. Dessa maneira, pares e crianças aprendem a negociar, a cooperar e a rivalizar”. As funções que cada um dos irmãos desenvolve no âmbito da família dependem, em grande parte, do que foi adquirido com o tempo como papel e como identidade no âmbito da vida familiar.
Na terapia com o subsistema dos irmãos, os objetivos que buscamos alcançar dizem respeito, precisamente, à possibilidade de pôr em marcha e de redefinir esse subsistema particular, utilizando os recursos e as competências que lhe são próprios.
O vínculo que se desenvolve entre irmãos abarca todo o arco do ciclo de vida: o irmão é o parente mais próximo e aquele que dura mais tempo; é um par que tem a mesma duração de existência e que, ao mesmo tempo, compartilha grande parte das competências sociais e das experiências relacionais e afetivas necessárias ao desenvolvimento. Nossos pais estão conosco desde o nascimento, mas a natureza exige que nos deixem em certo ponto de suas vidas; nossos parceiros ou nossos filhos chegam mais tarde, habitualmente quando já estamos na idade adulta, e não compartilharam diretamente nossa infância e nossa adolescência; os irmãos (e algum primo) sempre estiveram ali e continuarão a existir durante a maior parte de nossa vida. São, por essa razão, nossas “raízes horizontais”, assim como os pais ou os ascendentes são as “verticais”.
Constituem por isso um grande recurso, porque é com eles que se compartilham a infância e a adolescência, das quais eles têm frequentemente uma leitura que não coincide totalmente com a nossa: o que se revela uma grande riqueza para o contexto terapêutico, em que as “outras leituras” dos mesmos acontecimentos são exatamente aquilo de que precisamos.
Frequentemente, outros sentimentos prevalecem entre irmãos: agressividade e hostilidade, ciúme e separação. E é sobre essas emoções negativas que é mais útil agir, porque a construção desse tipo de relação é produto dos pais e de suas ideias.
Quando se fala em psicologia dos componentes constitutivos da personalidade, as escolas de pensamento são duas: a da hereditariedade biológica (Nature) e a que se funda na influência do ambiente (Nurture). A primeira pergunta que se fizeram todos os que estudaram os irmãos foi, por conseguinte: “por que são tão diferentes um do outro?” O que acontece, então, para que irmãos se tornem tão diferentes, sendo que existe um patrimônio genético idêntico em 50% e que crescem em um ambiente familiar idêntico?
A literatura nos lembra que sobre o feto se concentram expectativas individuais e familiares, sentimentos e sensações ligados a acontecimentos que podem ocorrer durante a gravidez, no nascimento ou no primeiro período pós-natal, ou ainda em decorrência de semelhanças e de identificações entre pais e filhos. Do mesmo modo, a ordem de nascimento é importante (20), não apenas em razão do significado específico que pode assumir o nascimento do primeiro filho, mas também porque, como assinalam Bank e Kahn (2), na maioria das famílias um único sujeito pode ocupar determinado espaço psicológico em um dado período de tempo (Pecchioli, 17).
Isso quer dizer que o primeiro filho adquire uma espécie de direito de preferência sobre uma posição funcional determinada, que habitualmente não poderá ser ocupada por um irmão que venha depois dele se o primeiro não a tiver deixado livre. Os outros filhos deverão tornar-se outra coisa.
Os pais também têm a possibilidade de condicionar as posições funcionais dos filhos.
Uma atribuição funcional positiva pode ser reforçada pelos pais durante anos, até tornar-se uma identidade positiva satisfatória (o bom, o inteligente etc.). Ao contrário, uma atribuição funcional negativa pode pesar sobre o desenvolvimento da criança e condicioná-la fortemente. Nas famílias saudáveis, esses papéis são atribuídos e modificados de maneira flexível, e isso garante a possibilidade de desenvolvimento para todos. Mas se, ao contrário, uma posição funcional se estabiliza a pedido de um dos pais ou de ambos, e existe uma cumplicidade dos irmãos, está-se preparando um espaço para o sintoma.
No que se refere ao papel dos filhos e à ordem de sua chegada ao casal, dispomos de regras gerais estatisticamente válidas.
Exerce frequentemente profissões de ajuda, que já exerceu na família. É o “terapeuta” do núcleo e se responsabiliza assumindo situações e pessoas. É habitualmente respeitoso das regras, obediente; o primeiro filho é “da mãe”, em razão da relação biológica que se estabelece e porque ninguém tentaria “tirá-lo” dela.
Encontra essa função ocupada e cria para si outros espaços com os pais, muitas vezes lúdicos; é o brincalhão, sobre quem recaem expectativas muito diferentes. É, em contrapartida, o filho “do pai”, em parte porque a mãe já está ocupada com o primeiro e porque, de todo modo, um filho deve caber ao pai. Esse aspecto varia em função do sexo do feto e do grau de machismo cultural do grupo. Por exemplo, uma mãe pode deixar uma primeira filha ao pai para dedicar-se a um segundo filho, um menino, em uma família em que, por tradição, os homens contam mais.
É mais livre: precisa inventar para si um espaço que ainda não tenha sido ocupado pelos outros dois, e tem dificuldade em escolher um dos pais a quem se unir. Isso pode ser uma grande vantagem e, ao mesmo tempo, fonte de um menor sentimento de pertencimento à família.
Nasce a distância de tempo e, como resultado, o ciclo muitas vezes se repete.
Dunn e Plomin afirmam que cada irmão cresce em uma família diferente; uma afirmação provocativa que sublinha as grandes mudanças na família, as variações no casal, no sistema, nos fatores pessoais. Os vínculos e as relações mudam se uma pessoa a mais intervém, e isso se deve também ao fato de que o espaço se reduz.
Cada um dos pais e cada irmão estabelece com um recém-chegado relações diferentes, que são influenciadas pelas expectativas, pelas semelhanças, pelo sentimento de pertencimento; assumem-se posições diversas, em razão sobretudo da necessidade de se distinguir, de se desenvolver, não apenas nas semelhanças mas também por meio das diferenças.
Ao analisar o filme de Ettore Scola A Família, notamos que a relação entre os dois irmãos protagonistas é invalidada pela ideia que o pai faz dos dois, e que fixa para todo o arco da vida seus papéis e suas funções, e sobretudo sua maneira de considerar a si mesmos.
No cinema: A Família, de Ettore Scola
O primogênito, Carlo, é conotado positivamente pelo pai como “honesto e sincero”, enquanto Giulio é definido como “mau e mentiroso”. Essa atribuição, rígida ao longo do tempo, acabará por condicionar os dois irmãos em sua relação entre si e com o mundo familiar, para o melhor e para o pior, durante anos.
Carlo se tornará professor universitário, se casará com uma mulher inteligente, permanecerá na casa da família assumindo o encargo da própria família.
Giulio, depois de uma desastrosa experiência de guerra, inadaptado, se casará com a empregada doméstica e tentará exercer muitos ofícios, conseguindo em todos os casos fracassar. Só aos setenta anos Carlo reconhecerá ter subestimado o irmão; trinta anos antes, julgara o livro de memórias de Giulio desagradável e superficial sem sequer o ter lido, “fundando seu juízo no autor”.
No filme, a situação permanece fisiológica: não existem sintomas particulares que surjam dessas definições, nem existe possibilidade de desenvolvimento pessoal para cada um dos dois irmãos em relação ao outro. Fora, em outras relações, cada um poderá encontrar outras definições de si mesmo, mas dentro da família e entre eles, Carlo será sempre o honesto, o confiável, a quem o pai havia pedido em seu leito de morte que “tomasse cuidado” com Giulio, pouco confiável, mentiroso e ovelha negra.
Nas expectativas dos pais, que de modo algum são fortuitas, existem transmissões culturais das próprias famílias de origem, frequentemente identificáveis e diferentes; e é provável que os irmãos selecionem caminhos que podem afastá-los por toda a vida. Se existe uma forte definição trigeracional, os filhos se sentem “paternos” ou “maternos” em um sentido muito forte, isto é, como se pertencessem a duas famílias diferentes e distantes.
Para lembrar
O primeiro filho adquire uma espécie de direito de preferência sobre uma posição funcional; os seguintes “deverão tornar-se outra coisa”. Enquanto essas atribuições permanecem flexíveis, cada um pode desenvolver-se. É sua rigidificação – sustentada pelo pedido de um dos pais e pela cumplicidade da fratria – que prepara um espaço para o sintoma.
O aspecto fortemente protetor que os irmãos desenvolvem entre si é um recurso de ajuda característico desse subgrupo; constatou-se que na idade adulta a relação funciona fisiologicamente “em corrente alternada”, isto é, que o vínculo, em razão do forte conhecimento recíproco, se reativa no momento da necessidade e dura tanto quanto o período durante o qual existe a necessidade de ajuda.
Poderíamos acrescentar que esses vínculos adquirem frequentemente características fortemente ambivalentes: ao lado do afeto e do sentimento de necessidade estão frequentemente presentes o ódio, a rivalidade, o ciúme.
Um vínculo que, por exemplo, devesse obrigatoriamente prosseguir eternamente pode assumir nuances patológicas, possivelmente decorrentes da relação entre irmãos que sacrificam o novo casal ou a nova família.
Segundo Eugenia Scabini (19), os vínculos familiares são solidamente unidos e possuem um grau de liberdade limitado; são hierarquicamente estruturados e se definem do apego à lealdade. O significado desses termos é naturalmente o que lhes atribuem Bowlby (5) e Boszormenyi-Nagy e Spark (3).
O vínculo emocional entre irmãos depende além disso do nível de “acessibilidade”. Bank e Kahn repartem os irmãos em duas categorias: a alta e a baixa acessibilidade espacial e temporal.
Baixa acessibilidade
Muitas vezes separados por uma diferença de idade de mais de oito a dez anos, e comportando-se por conseguinte quase como membros de gerações diferentes; compartilharam pouco tempo, espaço e história pessoal, frequentaram escolas distintas e tiveram pais e amigos “diferentes” (os pais são diferentes em idades diferentes); falta-lhes, ao menos em parte, a consciência de uma história compartilhada; frequentemente, não precisaram um do outro.
Alta acessibilidade
Estão unidos por experiências comunicativas fortemente compartilhadas, de forte emotividade. O vínculo que daí resulta é intenso; pode também estar presente por outros motivos, por exemplo uma influência insuficiente dos pais.
Encontramos, em contrapartida, com frequência, no trabalho clínico, situações que se definem como de alta acessibilidade quando se revelam, ao contrário, de baixa acessibilidade emocional, provavelmente em razão de ciúmes e de raivas provocados por funções “pobres”. Nesses casos, a atenção do terapeuta se desloca para a elaboração do rancor e da dor a ele ligada; isso se realiza durante certo número de sessões, a fim de conduzir os irmãos a uma acessibilidade emocional alta e, por conseguinte, de poder trabalhar com seus recursos.
Em Al lupo al lupo, de Carlo Verdone, apresenta-se uma situação em que os três irmãos se consideram de alta acessibilidade, mas quando se reencontram e contam uns aos outros suas experiências pessoais no campo da sexualidade, descobrem ao contrário suas diferenças: coisas nunca suspeitadas e nunca ditas, que os tornam distantes.
Os irmãos de alta acessibilidade emocional são, por conseguinte, caracterizados por um vínculo intenso. Este pode estar presente também por outros motivos, por exemplo por causa de uma influência insuficiente dos pais. Nesses casos desenvolve-se entre eles uma lealdade profunda, que cresce ao longo dos anos, que toca emoções poderosas, que precisa de anos para aumentar e que influencia a identidade de maneira estável.
A lealdade entre irmãos pode ir em uma só direção ou, ao contrário, ser recíproca. Esta última é caracterizada pela presença de um código especial, privado, principalmente compreensível por eles em razão de sua relação: os irmãos ficam pesarosos quando estão distantes um do outro.
A proximidade de idade e de sexo favorece, em consequência, a acessibilidade aos acontecimentos da vida comum, ao passo que as diferenças de idade e de sexo a diminuem.
Os irmãos de altíssima acessibilidade são os gêmeos: mais ainda, os gêmeos monozigóticos têm um patrimônio genético idêntico e, no caso dos dizigóticos, compartilham de todo modo a data de nascimento, crescem realmente juntos e têm entre si modalidades relacionais absolutamente diferentes das dos outros irmãos.
Desenvolvem linguagens pessoais, tanto entre si quanto em relação ao mundo exterior, e com os outros têm papéis complementares, com funções e papéis “encaixados”.
Essa linguagem privada os distingue dos demais parentes e amigos; protegem-se reciprocamente dos ataques físicos e psicológicos por parte de estranhos, cooperam entre si, resolvem os conflitos e contêm a agressividade dentro de limites aceitáveis, e desenvolvem rituais de perdão e de compreensão. A harmonia do grupo prevalece em importância sobre qualquer busca individual de benefício pessoal; são compatíveis e complementares no que diz respeito às funções e à identidade.
Esses códigos linguísticos, de significados muito concretos e incompreensíveis para os outros, são definidos com grande clareza nas páginas de Léxico Familiar (Lessico famigliare) de Natalia Ginzburg. Mas pode existir igualmente um modo de falar, um hábito de organizar as coisas de certa maneira (ver o filme The Accidental Tourist, no qual os irmãos combinam manter a despensa arrumada em ordem alfabética, ou jogam cartas com uma linguagem sanitária conhecida apenas por eles).
Como já foi dito em um congresso recente (9), utilizamos o trabalho com o subsistema dos irmãos sempre que isso é necessário, isto é, sempre que os recursos de mudança oferecidos pelo subsistema parental se revelam insuficientes ou, pior ainda, inexistentes.
Assim que a “Mente dos irmãos” – o espírito da fratria, o grupo que eles formam juntos – parece constituída e estabilizada, o terapeuta começa a propor exercícios mais complexos que têm por objetivo a releitura das situações familiares e, em particular, de sua relação com os pais. A discussão sobre esses temas, experimentada no atendimento, prossegue em seguida em casa, nas reuniões da “Mente”, e os resultados são relatados ao terapeuta, que se torna cada vez mais um conselheiro da reelaboração e da definição feitas em casa. Isso é facilitado pelo fato de que, como já dissemos, os irmãos podem compartilhar as leituras diferentes que cada um fez da vida familiar comum e chegar a conclusões totalmente diferentes daquelas que conduziram à criação e ao reforço do sintoma.
Mas a mudança pode manifestar-se não apenas no plano cognitivo. As funções de cada irmão, que não eram intercambiáveis, podem doravante girar ou ser subdivididas de maneira menos diferenciada entre os membros do subsistema.
Isso permite um nível diferente de liberdade para todos, torna possível a remissão do sintoma e impede eventuais recaídas, ou migrações do sintoma, ou de sintomas diferentes, para outros irmãos assim que o paciente identificado melhora.
Esse tipo de situação “experiencial” permite a todos os irmãos experimentar uma relação diferente com os pais. No fim, é também possível que se volte ao ponto de partida. Mas nada será como antes, porque cada um disporá de uma bagagem de experiências mais variada da qual extrair, sem contar que a mudança teve, por conseguinte, efeitos sobre os pais.
Pede-se aos irmãos que cumpram uma tarefa que visa a fazer o paciente identificado compreender que ele não é o único a ter dificuldades, como habitualmente se depreende dos conteúdos expressos no atendimento. Na prática, a tarefa dos irmãos consiste em reconhecer e repartir entre si as partes frágeis, agressivas, deprimidas, e isso com um duplo objetivo: por um lado apoiar o paciente identificado, por outro prevenir a possível passagem do sintoma a um dos outros irmãos.
Esse trabalho com o subsistema dos irmãos não constitui em si uma novidade. Na terapia familiar estrutural, dividiram-se frequentemente as famílias em subsistemas, atribuindo em seguida aos diferentes grupos tarefas diferentes, no atendimento e fora dele. É sobretudo a ótica com que se olha o subsistema dos irmãos que torna essa modalidade terapêutica diferente. A “Mente dos irmãos” é, de fato, construída com a tarefa concreta de reler a história das relações familiares, ainda que no início as tarefas sejam antes de tipo prático. Fazemos a hipótese de que é exatamente essa capacidade de “reler” a realidade familiar que torna a mudança possível.
Naturalmente, tudo isso só é possível se se consegue estabelecer entre os irmãos um vínculo intenso fundado na confiança e no desejo de colaborar.
No curso de nosso trabalho, deparamo-nos às vezes com dificuldades na construção da “Mente dos irmãos”. Rapidamente nos demos conta de que tomávamos como certa a existência do subsistema fratria, inclusive em casos em que, ao contrário, as distâncias emocionais eram enormes. Percebemos assim que existia outra categoria de irmãos de “baixa acessibilidade”. Nesse caso, contudo, não era a distância de idade nem o fato de terem vivido longe um do outro que determinava a baixa acessibilidade, mas sobretudo a acentuação da rivalidade, dos ciúmes, dos rancores que existem normalmente entre irmãos e que, nesses casos, se revelavam muito mais fortes (9).
Nesse caso, a formação da “Mente dos irmãos” deve ser precedida de uma reelaboração dos ciúmes e dos rancores, efetuada primeiro no atendimento com o terapeuta, depois em casa. O sinal de que isso é necessário é justamente a resistência que os irmãos manifestam a enfrentar as tarefas ordinárias de releitura do sistema familiar e de suas próprias funções.
A grande riqueza dos irmãos em terapia é também a possibilidade de reler o subsistema parental: o que se percebeu entre eles, como repartiram tarefas e funções, distribuíram competências, construíram e mantiveram relações.
Pode-se chegar a compreender como se sai dessa família, como se torna “adulto”.
Mais ainda, na idade adulta, os irmãos representam um recurso familiar único: a raiz horizontal, aquela que sobrevive ao desaparecimento das raízes verticais (pais, avós). É com eles que se compartilha a história, é aos irmãos que se recorre para a própria cultura, para o próprio pertencimento.
Para lembrar
A “Mente dos irmãos” não é um simples recorte em subsistemas: é um grupo constituído com a tarefa explícita de reler junto a história familiar, na sessão e depois em casa, tornando-se o terapeuta progressivamente o conselheiro de um trabalho que se faz sem ele. Quando a rivalidade e o rancor são vivos demais, essa releitura deve ser precedida de sua elaboração: a resistência às tarefas é o sinal disso.
Uma consideração à parte deve ser dedicada às famílias recompostas, fenômeno bastante recente; trata-se frequentemente de famílias com um único genitor, que na maioria dos casos é a mãe, a qual continua a cuidar dos filhos.
Mas existe um tipo dessas famílias no qual os dois novos cônjuges trazem consigo os filhos de suas relações anteriores, os quais, além de aprenderem a ser irmãos entre si, devem aprender a sê-lo, talvez por sua vez, de um recém-chegado.
Nesses novos núcleos existem expectativas muito elevadas, frequentemente não satisfeitas; manifesta-se em todos os casos o desejo de que tudo funcione imediatamente e bem (quando se trata de um percurso longo e complexo) e a esperança de que não exista agressividade manifesta.
No cinema: Come due coccodrilli
Encontramos nesse filme uma família recomposta sobre um luto: a amante do homem morre no parto e ele decide trazer os filhos dessa relação para a família oficial, junto a uma mulher que só aceitará essa situação formalmente, e depois adoecerá; os dois outros filhos nunca aprenderão a ser irmãos dos primeiros.
O mito do pai a respeito desses quatro rapazes é o da igualdade, a qual não pode nem deve existir: é um “fazer de conta” que nenhum dos irmãos aceita e que o pai exibe, e que nada poderá produzir senão uma explosão final.
A respeito das famílias recompostas, devemos observar algumas características que se referem ao subgrupo filhos-irmãos:
É muito difícil aceitar a irreversibilidade dessa realidade, assim como é complexo conseguir cultivar expectativas exequíveis, possíveis e não fantasmáticas, transformando-se estas frequentemente em refúgio. Para as novas famílias recompostas existem, contudo, parâmetros favoráveis capazes de tornar o prognóstico otimista: é essencial definir com clareza quais são os espaços, o “território”, e definir em consequência as fronteiras das duas famílias. Nos subsistemas genitor-filhos, a tarefa difícil é entrelaçar as relações adequadas e ampliar o vínculo com os filhos.
Importa em seguida que compartilhem as histórias e as lembranças da família anterior, que não se ampute um pedaço que é o do genitor com quem não se vive e de sua família de origem; os filhos devem ter livre acesso a essa parte de si mesmos e de sua história. No filme O Grande Voo, vê-se a enorme violência que pode ser exercida sobre os filhos, em um contexto recomposto, em razão da perda de sua própria história, às vezes de seu sobrenome, amputando os afetos e a cultura de pertencimento.
Permite-se assim que os filhos sejam imediatamente (entendendo-se que não está dito que algum dia o serão) irmãos, porque devem confrontar-se com realidades de tipo diferente, segundo modalidades totalmente novas; considerando além disso que se pede frequentemente aos filhos algo que vai igualmente contra o seu ciclo de vida. Pensemos em adolescentes a quem se pede que pertençam a um novo núcleo, quando um adolescente, nesse momento de sua vida, não deseja nada além do afastamento e da “fuga” para fora de todo sistema familiar.
As funções que existiam nas duas famílias anteriores precisam mudar na nova situação familiar, e isso cria uma competição muito forte entre os novos irmãos. Por exemplo, há apenas um primogênito em vez de dois, e o mesmo vale para as outras posições e funções.
Encontra-se muitas vezes um mito da igualdade que é falso e que pode criar uma agressividade negada.
Quase sempre, os irmãos de sangue são mais próximos (a voz do sangue) e, para criar relações, são necessários mais tempo e mais esforço. A família deve fixar para si objetivos realistas e esperar que com o tempo as relações se construam.
Um dos deveres do casal que se separa é elaborar o luto do fim da relação e criar a gestão colaborativa necessária à função parental, bem como redefinir os novos limites.
Criar uma boa colaboração e preocupar-se em garantir o acesso trigeracional, isto é, a possibilidade de conservar a relação com os avós, os tios e todos os membros da família de ambos os genitores.
Trocar com a família de origem sem voltar ao ninho vazio, pois acontece de os pais retornarem à casa de seus próprios pais pedindo ajuda. Os avós asseguram então a função parental enquanto os pais trabalham; mas dessa maneira os pais se tornam os “filhos” de seus pais e os “irmãos” de seus filhos.
Manter a rede social dos amigos e dos colegas e, quando necessário, obter o apoio dos serviços sociais.
Normalmente, grupos consanguíneos e grupos por aliança se criam de imediato.
Outro problema é que os irmãos não têm os mesmos sobrenomes nem a mesma filiação, o que pode criar situações constrangedoras na escola ou com os amigos, sobretudo entre as crianças menores. De fato, nos Estados Unidos esse problema é considerado tão importante que os juízes pedem muitas vezes aos casais que mudem de sobrenome para que todos os filhos usem o mesmo.
Outra hipótese: criam-se às vezes confusões na fratria, de modo que alguns irmãos de sangue se distanciam e que, ao contrário, outros que não o são mas vivem na mesma família criam uma relação de verdadeiros irmãos. Uma situação ainda mais particular pode surgir: um rapaz e uma moça que não são irmãos mas que têm um irmãozinho em comum se apaixonam e provocam uma confusão no menor, que não compreende a nova situação.
Em geral, a situação mais fácil é a das crianças pequenas, que se adaptam melhor, ou a dos adolescentes, que podem sair de casa. É pior para os pré-adolescentes, que já compreendem tudo mas não podem fazer nem uma coisa nem outra. Outra situação, mais perigosa, é a da jovem que corre o risco de sofrer abusos sexuais por parte do padrasto quando se comporta de maneira sedutora rivalizando com a própria mãe (comportamento muito frequente em uma adolescência normal).
Muitas vezes, os filhos sentem culpa porque acreditam ser a causa da separação. Os pais não imaginam isso e não conversam com eles sobre esse sentimento. Convém, ao contrário, abordar o assunto, mesmo quando não se tem certeza de que os filhos tenham esse problema, a fim de lhes dar confiança.
Outras vezes, os filhos se sentem bem com os genitores residentes e os novos cônjuges, mas sentem lealdade para com os genitores não residentes, o que os leva a desenvolver sentimentos de ambivalência.
Nas famílias que se unem, a posição fraterna muda: se antes havia dois primogênitos, passa a haver apenas um, e o mesmo vale para o menor; e isso pode mudar mais uma vez se chegar um novo irmão ou uma nova irmã.
A pesquisa nesse setor é muito interessante, mas é, em contrapartida, dificultada pelo fato de que as famílias com filho único são cada vez mais numerosas. Esse fator é seguramente um recurso a menos para o sistema familiar, e cria as condições de um prognóstico menos favorável para o paciente identificado.
Talvez valha a pena sublinhar que o aumento do número de filhos únicos não acarreta apenas o desaparecimento do subsistema fratria, mas também, em perspectiva, a extinção da figura dos tios, isto é, de recursos frequentemente significativos da família ampliada. Nesse sentido, é particularmente interessante para nós que, ultimamente, além de uma retomada da natalidade, dois outros fatores venham em auxílio de quem utiliza os irmãos como recurso: o fato de que nas famílias imigrantes existe um número de filhos superior ao das famílias italianas (fixado em uma média de 1,3 filho por casal), e o fato de que nas famílias recompostas após a separação se formam novos tipos de fratrias.
Para lembrar
Na família recomposta, há apenas um lugar de primogênito onde havia dois: a competição sobre as funções é ali estrutural, e o “mito da igualdade” que os adultos instalam produz sobretudo agressividade negada. O prognóstico melhora quando os territórios e as fronteiras das duas famílias são claramente definidos, quando a história anterior dos filhos não é amputada, e quando a família se dá objetivos realistas e tempo.
Quem é Rodolfo de Bernart
(*) Dr. Rodolfo de Bernart, psiquiatra, psicoterapeuta familiar, diretor do Instituto de Terapia Familiar de Florença (Via Masaccio, 175 – 50132 Florença).
Referências
1) ASCOLI M., “Fratelli: Funzione, relazione e crescita normale”, monografia de licenciatura em psicologia, Universidade de Roma, 1988.
2) BANK S. P. e KAHN M. D., The Sibling Bond, Basic Books, Nova York, 1982.
3) BOSZORMENYI-NAGY I., SPARK G. M., Invisible Loyalties, Harper and Row Publishers Inc., Nova York, 1973 (trad. it. Lealtà Invisibili, Astrolabio, Roma, 1988).
4) BOWEN M., Dalla famiglia all’individuo, Astrolabio, Roma, 1979.
5) BOWLBY J., Attaccamento e perdita (1, Attaccamento), Hogarth Press, Londres, 1969; Boringhieri, Turim, 1972.
6) de BERNART R., “Anoressia Mentale: La Prospettiva Relazionale”, Bibliografia Famiglia, ano 1, n.º 2, abril-junho de 1984, p. 1-4.
7) de BERNART R., “L’Anoressia come aspetto comunicativo fra fratelli”, anais do colóquio “Disturbi del comportamento alimentare”, Módena, 21-25 de junho de 1989.
7 bis) de BERNART R., FERRARA M., PECCHIOLI S., “L’importanza di essere fratelli”, Terapia Familiare, 38, março de 1992, p. 21-30.
8) de BERNART R., DOBROWOLSKI C., GAGNARLI L., seminário “L’Importanza di essere fratelli” no congresso internacional “Children and their systems”, Roma, 28 de setembro - 1o de outubro de 1988, não publicado.
9) de BERNART R., “Le Risorse della Gelosia: Appartenenza e Separazione nel Sottosistema Fratelli”, anais do 5o Encontro dos trabalhadores dos serviços públicos sobre a aplicação das técnicas relacionais “Appartenenza e Separazione: Teoria, Psicoterapia”, Florença, 2 de fevereiro de 1992. Etruria Medica, 1, 1991, p. 99-105.
10) de BERNART R., introdução e apresentação: DUNN J., PLOMIN R., “Il Significato delle differenze nell’esperienza dei fratelli all’interno della famiglia”, Terapia Familiare, 37, novembro de 1991, p. 5-7.
10 bis) de BERNART R., BURALLI B., “Las Raíces Horizontales: Los Hermanos como Recurso Terapéutico”, Redes, setembro de 2006, p. 63-82.
11) DUNN J., Sorelle e Fratelli, Armando, Roma, 1986 (1984).
12) DUNN J. e KENDRICK C., Fratelli, Il Mulino, Bolonha, 1987 (1982).
13) DUNN J., PLOMIN R., Separate Lives. Why Siblings are so different, Basic Books, Nova York, 1990.
14) DUNN J., PLOMIN R., “Why are Siblings so different? The Significance of Differences in Sibling Experiences within the Family”, Family Process, vol. 30, n.º 3, setembro de 1991, p. 271-283. Tradução italiana: “Il Significato delle differenze nell’esperienza dei fratelli all’interno della famiglia”, Terapia Familiare, 37, novembro de 1991, p. 5-7.
15) KAHN M., LEWIS K. G. (orgs.), Siblings in Therapy, Norton and Co., Nova York, Londres, 1988; tradução italiana Fratelli in Terapia, Ed. Cortina, Milão.
16) MINUCHIN S., Famiglia e Terapia della Famiglia, Astrolabio, Roma, 1976.
17) PECCHIOLI S., “L’importanza di essere fratelli”, monografia de especialização em psiquiatria, Universidade de Florença, 1987 (sobre materiais clínicos de R. de Bernart).
18) SAVIER L., “Des sœurs, des frères”, Autrement, n.º 112, 1990.
19) SCABINI E., L’organizzazione Famiglia tra crisi e sviluppo, Angeli, Milão, 1987.
20) TOMAN W., Family Constellations, Springer, Nova York, 1976; Constellations fraternelles et structures familiales, ESF, Paris, 1987.
21) VALENTE TORRE L. (org.), I Gemelli, Nuova Italia Edit., Florença, 1989.
Videografia
R. de Bernart, C. Dobrowolski, L. Gagnarli, “L’importanza di essere fratelli”, Florença, 1988. Montagem de filmes e de sequências de vídeo de terapias. Apresentado no colóquio “Il Bambino e i suoi sistemi”, Roma, 1988, e em muitas outras ocasiões.
R. de Bernart, “Fratelli”, Florença, ITFF, 1988. Montagem de filmes e de sequências de vídeo de terapias. Exibido no seminário “L’Importanza di essere fratelli”, Florença, ITFF, 1988, e em muitas outras ocasiões.
R. de Bernart, “Fratelli – Le radici orizzontali”, Florença, ITFF, 1996. Montagem de filmes e de sequências de vídeo de terapias. Exibido no seminário “L’Importanza di essere fratelli”, Florença, ITFF, 1996, e em muitas outras ocasiões.
R. de Bernart, “Cari Fratelli vicini e lontani”, Florença, ITFF, 2001. Montagem de terapias. Exibido no seminário “L’Importanza di essere fratelli”, Florença, ITFF, 2001, e em muitas outras ocasiões.
R. de Bernart, Simona Giorgi, “Fratelli Cartoni”, Florença, ITFF, 2001. Montagem de desenhos animados. Exibido no seminário “L’Importanza di essere fratelli”, Florença, ITFF, 2001.
Este artigo é a tradução para o português de “Hermanos y nuevas jerarquías (Cambios familiares. Nuevas relaciones, nuevas jerarquías)”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
de Bernart, R. (2023). Irmãos e novas hierarquias. Mudanças familiares, novas relações (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/irmaos-e-novas-hierarquias-mudancas-familiares-novas-relacoes (Obra original publicada em 2023 em Red Sistémica; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/30/hermanos-y-nuevas-jerarquiascambios-familiares-nuevas-relaciones-nuevas-jerarquias/)
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