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Clinical Social Work Journal · Serviço social
Na Suécia, três profissionais à frente de um programa de proteção à criança mantiveram durante dois anos um diário sobre quinze famílias cujas mães tinham diagnóstico psiquiátrico. Lido à luz do poder pastoral de Foucault, esse material raro mostra uma ajuda que se converte em disciplina: amamentação, sono, entrada na pré-escola, tudo é normatizado. Os pais, mesmo quando são um recurso, ficam fora do quadro.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Concepções, normas e valores no trabalho de proteção à criança com famílias em risco: uma análise de diários de profissionais do serviço social, de Annelie Björkhagen Turesson, publicado na Clinical Social Work Journal (Springer) (2020), doi: 10.1007/s10615-019-00720-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Mesmo a boa vontade e as melhores intenções podem se transformar em um exercício abusivo de poder.
Annelie Björkhagen Turesson
Resumo
Como as concepções, normas e valores que regem o trabalho de proteção à criança são difíceis de apreender, raramente são discutidos na pesquisa. Este estudo se baseia em diários mantidos por três profissionais do serviço social a respeito de 15 famílias que eram objeto de intervenções dos serviços de proteção à criança na Suécia. Nas 15 famílias, todas as mães tinham recebido um diagnóstico de transtorno mental. Os diários registram tanto acontecimentos significativos na vida das famílias quanto os sentimentos e percepções de quem os escreveu sobre o próprio trabalho. Este artigo discute quatro temas: a face de Jano dos serviços de proteção à criança, a condição de cliente e suas condições, os serviços de proteção à criança e a boa ou má parentalidade e os pais. Os resultados mostram que as famílias foram submetidas a uma disciplina extensa. Os diários também expressam fortes juízos de valor sobre como as crianças devem ser criadas. Os desejos e anseios das famílias foram redefinidos pelo serviço social, o que deixou mães e pais sem poder. Os pais foram marginalizados, o que fez com que um recurso importante dentro das famílias se perdesse. As famílias reagiram a esse exercício de poder em parte tentando escapar dele, em parte adaptando-se a ele. Em suma, o desejo de ajudar se transformou, em alguns casos, em um exercício abusivo de poder.
Palavras-chave: família em risco, serviços de proteção à criança, normas e valores, condição de cliente, parentalidade
Os serviços suecos de proteção à criança reúnem os esforços organizados da sociedade em favor das crianças em risco. Constituem uma das maiores áreas dos serviços sociais na Suécia, e seu trabalho toca aspectos centrais da vida familiar. Historicamente, há nesses serviços uma longa tradição de exercício de poder e de controle tanto sobre os indivíduos quanto sobre a família (Höjer 2012). O encontro entre o serviço social e as famílias é parte central desse trabalho. Como a área é cercada por rígidas regras de sigilo, há poucas oportunidades de conhecer o trabalho concreto. Embora vários estudos tenham se dedicado a descrever a voz de quem atua no serviço social (Pincus e Minahan 1973; Shulman 2012), foi só no fim da década de 1970 que cresceu o interesse em apresentar a voz das pessoas atendidas. Na esteira da obra pioneira de Mayer e Timms (1970), The Client Speaks, vários estudos entrevistaram pessoas usuárias sobre suas experiências de contato com os serviços sociais (Cree e Davis 2007; Smith 2004; Spratt e Callan 2004).
O objetivo deste artigo é ir um passo além, buscando identificar as concepções, normas e valores que estão por trás das palavras faladas e escritas que regem o trabalho dos serviços de proteção à criança. Os dados foram coletados em diários nos quais integrantes de uma equipe de serviço social escreveram sobre seu trabalho com famílias em risco. Iluminar e discutir a cultura do tratamento, isto é, o que acontece por efeito das leis e regulamentos, é extremamente importante tanto do ponto de vista das pessoas atendidas quanto da própria profissão. Até hoje, poucos estudos, se é que algum, revelaram as ideias e valores que regem a prática cotidiana do serviço social na proteção à criança a partir dos relatos escritos que o próprio serviço social faz de seu trabalho. Esses relatos não serão considerados expressão das ideias e valores de cada profissional individualmente. Representam, antes, uma cultura, que não pode ser compreendida independentemente do contexto organizacional e institucional em que essa instituição do Estado de bem-estar funciona.
As famílias em risco constituem um grupo particularmente vulnerável no campo do serviço social. Estudos mostraram que muitas mães e pais sentem medo e humilhação intensos em seus contatos com os serviços de proteção à criança, e que esses sentimentos costumam ser mais fortes na fase inicial (Buckley et al. 2011; Dale 2004; Diorio 1992; Dumbrill 2006). Parte das famílias sente que esses serviços têm poderes ilimitados, que podem levar ao acolhimento das crianças fora de casa (Ayon et al. 2010; Dumbrill 2006) e à rejeição das definições que as próprias famílias dão de suas necessidades de ajuda (Lipsky 2010; Lundström e Sunesson 2006). Vários estudos também identificaram outras dificuldades que as famílias podem enfrentar em relação aos serviços de proteção à criança. Um estudo norueguês constatou que a avaliação das famílias é mais negativa quando o serviço social ignora ou redefine seus problemas (Ylvisåker 2013).
Equipes de serviço social também descreveram quanto o medo das famílias de que as crianças lhes sejam tiradas pesa sobre o trabalho com elas (Križ et al. 2012). Em outros estudos, profissionais do serviço social descreveram a complexidade do trabalho e o conflito que podem sentir entre o papel de proteger as crianças e o de ajudar as famílias. Para lidar com essa ambiguidade difícil, o serviço social pode optar por se concentrar nos aspectos burocráticos do trabalho em vez de construir uma relação capaz de criar as condições necessárias para a mudança (Lipsky 2010; Trotter 2015).
Ao mesmo tempo, estudos também identificaram fatores que podem levar a avanços nesse trabalho. A pesquisa sustenta que a qualidade da relação entre a família e a pessoa responsável pelo acompanhamento é de importância central (De Boer e Coady 2007; Maiter et al. 2006). Pode levar muito tempo até que as famílias confiem nessa pessoa, o que faz com que o trabalho exija, muitas vezes, grande perseverança do serviço social. A pesquisa também destacou a importância da clareza das informações dadas às famílias, pois ela cria uma sensação de segurança em uma situação em que suas vidas foram reviradas (Gallagher et al. 2011). Outros estudos descreveram a importância da confiabilidade do serviço social: comparecer às reuniões marcadas, fazer os telefonemas prometidos, conhecer bem sua área e saber afastar-se do processo burocrático quando necessário (Buckley et al. 2011; Dale 2004; Spratt e Callan 2004). Um estudo nos Estados Unidos identificou três fatores centrais que geram engajamento das famílias e disposição para mudar: a competência da equipe, boas habilidades de comunicação e a oferta de ajuda tanto emocional quanto concreta (Schreiber et al. 2013). O mesmo estudo destacou ainda a importância de uma postura empática por parte de quem acompanha a família, que pode compensar em parte os aspectos do trabalho de proteção à criança percebidos como difíceis. Um estudo canadense constatou que o uso que o serviço social fazia do poder nos contatos com as famílias determinava como elas escolhiam responder a uma intervenção. Se as famílias se sentiam coagidas, ou sentiam que a pessoa responsável tinha agido sem sensibilidade, reagiam contestando essa pessoa ou entrando no jogo e fingindo cooperar (Dumbrill 2006). Um estudo norueguês constatou que as famílias viam o serviço social de forma positiva quando tinham a oportunidade de formular suas próprias histórias de vida. Famílias e equipes de serviço social concordam que um bom serviço social exige sensibilidade e empatia, e que quem busca ajuda possa definir seus próprios problemas (Ylvisåker 2013).
As famílias deste estudo estão inseridas no contexto do Estado de bem-estar sueco. A Suécia tem um regime de proteção social universal, que dá à população o direito a benefícios não condicionados à renda, como o abono de família (Esping-Andersen 2016). O Estado de bem-estar sueco busca tanto a igualdade social quanto a igualdade de gênero, e a Suécia tem a maior proporção de mulheres na força de trabalho da União Europeia (Galte Schermer 2017). A maioria das crianças em idade pré-escolar frequenta a educação infantil, fortemente subsidiada. Assim, o cuidado das crianças acontece não só na família, mas também em outros contextos (Andersson et al. 1996).
Embora o Estado de bem-estar sueco busque a igualdade de gênero, a pesquisa identificou no campo do serviço social dois discursos distintos, baseados em uma visão biopsicológica das figuras parentais: a mãe ruim e o pai ausente. A pesquisa também identificou uma cegueira de gênero na prática do serviço social: o gênero nem sempre é relacionado à situação de vida das pessoas atendidas nem analisado em função dela (Dominelli 2002; Herz 2012). Quanto à etnia, ela é muitas vezes equiparada à origem, o que vincula o conceito à posição do outro. Isso faz, por sua vez, com que os aspectos ligados à etnia sueca se tornem invisíveis e sejam reproduzidos como norma (Herz 2012).
O Estado de bem-estar foi construído por meio de amplas reformas, implementadas sobretudo ao longo do século XX, que deram ao Estado uma posição forte em relação à família. As crianças tornaram-se um interesse coletivo; ao investir em boas condições de infância, o Estado investia também em um futuro melhor para o país como um todo (Börjesson 2008; Ohrlander 1992).
Para garantir boas condições de infância, as famílias precisavam de orientação e educação, especialmente as mães, e sobretudo as mães pobres. Os serviços de proteção à criança tinham um papel importante nesse trabalho. A legislação que regeu esses serviços durante a maior parte do século XX tinha origem em ideias sobre a influência negativa que a classe baixa exercia sobre seus filhos (Höjer 2012).
Embora o setor sueco de proteção à criança se concentre no apoio às famílias, ele também inclui elementos de controle e coerção. Os órgãos públicos que têm contato com crianças são obrigados a fazer uma notificação se suspeitarem que uma criança vive em um ambiente prejudicial. Os serviços de proteção à criança, subordinados aos conselhos municipais de assistência social, são então obrigados a investigar a situação da família. Esse exercício da autoridade pública se apoia na Lei dos Serviços Sociais (SFS 2001:453). Nos casos em que a situação familiar é grave o bastante para representar um risco à saúde e ao desenvolvimento da criança, o conselho de assistência social pode pedir o acolhimento da criança com base na Lei de Cuidados aos Jovens (Disposições Especiais). O uso dessa forma de acolhimento compulsório é decidido por um tribunal, e uma condição importante para sua aplicação é que a família não consinta voluntariamente com as intervenções (SFS 1990:52).
O objetivo principal dos serviços de proteção à criança é ajudar. Além disso, eles são concebidos para formar e socializar as famílias de modo que se encaixem na sociedade. Essa forma de serviço social consiste em distinguir o que é normal e bom do que é anormal e ruim (Hasenfeld 2009; Payne 2006). Para isso, são necessários grupos profissionais dotados de conhecimento e de sensibilidade moral, capazes de definir tanto a natureza dos fenômenos e dos indivíduos quanto por que eles são como são: um grupo de guardiões da moral, como o serviço social ou o clero (Becker 1963).
No início, a linguagem usada nesse campo tinha um tom abertamente moralista, mas foi sendo cada vez mais substituída por um vocabulário psicologizado, que pode, ainda assim, envolver um exercício de poder igualmente amplo (King e Piper 1995; Ottosen 2006). O governo da família tornou-se um campo próprio, que tira sua legitimidade sobretudo de teorias psicológicas e psiquiátricas. Rose (1999), da sociologia britânica, sustentou que as crianças e a infância moderna constituem a área mais regulada da sociedade, porque as sociedades têm a tarefa de proteger as crianças tanto contra os maus-tratos quanto contra as famílias disfuncionais. Foucault (1993) emprega nesse campo o conceito de poder pastoral, argumentando que o poder exercido no serviço social pode ser comparado ao poder que padres e Igreja exerciam antes sobre os indivíduos. Esse poder consistia ao mesmo tempo em exercer controle e em prestar ajuda. Embora a Igreja tenha perdido importância, o poder pastoral sobrevive nas organizações do Estado de bem-estar (Järvinen 2002). A disciplina é imposta de diferentes maneiras, conforme a classe social a que a família pertence. As classes mais altas são disciplinadas por sistemas de regulação; as classes baixas, por vigilância e punição (Donzelot 1979).
Para que o serviço social seja possível, é essencial que as famílias se vejam como clientes que precisam de apoio. Além disso, é crucial que se adaptem ao modelo de tratamento adotado pela organização de assistência. O serviço social consiste em transformar pessoas que buscam ajuda em clientes. Essa prática se baseia na experiência, nos conhecimentos e nas concepções do serviço social, denominados “doxa”. O termo designa uma forma de tradição silenciosa, transmitida dentro da organização de uma geração profissional à seguinte (Bourdieu 1977). A “doxa” é composta pelas concepções vistas como óbvias dentro da organização e que, por isso, nunca são postas em discussão (Järvinen e Mik-Meyer 2003).
Começar a se ver como cliente afeta a autoimagem e a identidade. As pessoas se veem pelos olhos dos outros, de modo que a imagem que temos de nós mesmos reflete em grande parte a imagem que os outros têm de nós (Mead et al. 2015). A identidade de cliente não é moralmente neutra e, nisso, difere da identidade de uma pessoa que recebe apoio geral do Estado de bem-estar (Goffman 2014). A clientela é vista como não respeitável, isto é, como de baixo valor social e pouca legitimidade. A avaliação de se uma pessoa é ou não respeitável se baseia, por exemplo, no comportamento, na roupa, na casa e no modo como ela cuida da família e cria os filhos (Finch 1993; Skeggs 1997). No contexto do serviço social, distingue-se também uma clientela merecedora (respeitável) de uma clientela não merecedora (não respeitável). A clientela merecedora é a que coopera e pode ser ajudada (Järvinen 2002).
O estudo em que se baseia este artigo foi financiado pela Agência de Saúde Pública da Suécia para testar e avaliar cientificamente um novo modelo de tratamento ao longo de dois anos. O estudo é qualitativo e se baseia em diários mantidos por três profissionais do serviço social durante todo o período da pesquisa. Um diário foi mantido para cada família, e as 15 famílias com bebês que participaram do tratamento consentiram que isso fosse feito. A participação no tratamento não estava de modo algum condicionada à concordância em participar da pesquisa.
A equipe recebeu a tarefa de anotar tanto acontecimentos específicos, como o início ou o fim do tratamento de uma família, quanto outros elementos importantes do ponto de vista do tratamento. Os diários deviam também registrar os sentimentos e opiniões pessoais de cada integrante da equipe sobre o trabalho com as famílias. As 15 famílias tinham sido avaliadas como muito necessitadas de ajuda para dar conta da tarefa parental. O grupo de mães e pais é muito variado em idade, etnia e escolaridade. Parte das famílias vivia na Suécia havia relativamente pouco tempo. Cerca de metade das mães vivia sozinha com os filhos. A presença dos pais nas famílias variava: em alguns casos, eles estavam completamente ausentes; em outros, tinham um papel muito proeminente na família. Todas as mães tinham diagnóstico de transtorno mental, muitas vezes depressão surgida durante a gestação. Em uma família, a mãe tinha transtorno mental associado a problemas de uso de substâncias e, em quatro famílias, associado a problemas de saúde física. Dois dos pais tinham transtornos mentais graves. Sabia-se de violência em sete das famílias; em uma delas, essa violência tinha sido dirigida tanto à mãe quanto à criança. Cerca de metade das famílias tinha começado o tratamento na fase final da gestação ou logo após o nascimento da criança. As mães eram a figura central do tratamento, o que fez com que os diários se concentrassem sobretudo na interação entre as mães e a equipe de tratamento. A decisão de que a família precisava de apoio tinha sido tomada em oito casos pelos serviços sociais, em quatro casos pela psiquiatria de adultos e em três casos pelos serviços de saúde pediátrica.
O tratamento era voluntário no sentido jurídico; mas, na maioria dos casos, a autoridade de proteção à criança exigia explicitamente que a família consentisse com a intervenção se quisesse continuar cuidando dos filhos. A autoridade de proteção à criança usou seus poderes legais para levar as famílias a participar, por exemplo por meio de motivação, negociação, controle e ameaças veladas. O tratamento era em grande parte domiciliar. Um elemento importante do modelo de tratamento era a flexibilidade, isto é, ele devia partir das necessidades das famílias.
Do ponto de vista organizacional, a equipe que aplicou o tratamento faz parte dos serviços de proteção à criança, mas o tratamento era realizado em um apartamento cedido pelo órgão. Três profissionais do serviço social trabalharam no tratamento; a coordenação do trabalho também cabia a uma dessas pessoas. As três pessoas tinham formação em ciências do comportamento e muitos anos de experiência no trabalho socioterapêutico.
O material foi analisado por meio de análise temática. Uma das vantagens da análise temática é sua flexibilidade (Braun e Clarke 2006). A análise foi feita em várias etapas, sendo a primeira a codificação de detalhes importantes. A etapa seguinte consistiu em verificar se esses detalhes podiam ser agrupados em temas. Em seguida, outras possibilidades foram testadas. Com base nesses temas, foram selecionadas teorias que permitissem compreender o material empírico.
O método empregado no estudo tem vantagens e desvantagens. De modo geral, os diários se mostraram uma boa fonte de informação à luz dos objetivos do estudo, isto é, deram uma imagem muito boa das concepções e ideias que regem o trabalho realizado com as famílias. Embora a voz das famílias não tenha sido ouvida diretamente, os diários contêm muitas descrições de seus pensamentos, percepções e reações. Isso deu ao estudo uma dimensão adicional.
A apresentação e a publicação dos resultados exigiram muita reflexão, em parte porque o estudo se baseia em material escrito por apenas três profissionais, em parte porque as famílias estão em situação de grande vulnerabilidade. Por isso, dedicou-se muito esforço a garantir que nenhuma pessoa pudesse ser identificada e prejudicada. Como o foco recai sobre a equipe de tratamento e seu trabalho, optei por apresentar o material no nível do grupo. Também é importante observar que optei por não identificar nem expor individualmente as pessoas da equipe, mas por revelar alguns dos valores e ideias que se encontram no campo da proteção à criança. Naturalmente, os resultados não são representativos de todo o trabalho realizado nos serviços suecos de proteção à criança; nada indica, porém, que sejam atípicos ou apresentem uma imagem enviesada. As três pessoas da equipe vêm de três áreas de atuação diferentes dentro dos serviços sociais e da psiquiatria infantil e nunca tinham trabalhado em conjunto. Nada nos diários parece ter gerado desacordo na equipe de tratamento, exceto a questão de quanto os pais deveriam ser incluídos no tratamento. O material é extenso, e sua natureza é tal que não foi difícil identificar valores e ideias centrais. É importante lembrar, porém, que o material foi analisado a partir de um quadro teórico centrado nas questões de poder. Por isso, outras partes do trabalho não são apresentadas, e a imagem que emerge dos resultados não é exaustiva.
A obrigação de fazer pesquisa que beneficie a sociedade foi ponderada em relação à obrigação de proteger o indivíduo. Há um interesse social considerável em estudar e iluminar o modo como os serviços de proteção à criança trabalham com famílias em risco, em parte porque esse trabalho se dirige a um grupo em situação de grande vulnerabilidade, em parte porque está sujeito a regras de sigilo rigorosas. Isso significa que, de outro modo, o trabalho se dá em um ambiente que não permite olhar externo nem escrutínio. O desenho e a execução do estudo foram aprovados pela Autoridade Sueca de Revisão Ética da Pesquisa, de acordo com a Lei Sueca de Revisão Ética (SFS 2003:460).
As famílias que estão no centro deste artigo situam-se em um campo entre o Estado, as profissões e a família, isto é, em um chamado território social, no qual o Estado exerce controles legítimos para adaptar o modo de vida das famílias às normas da sociedade (Donzelot 1979). Todas as citações apresentadas a seguir foram tiradas dos diários escritos pela equipe de serviço social.
Eva é uma mulher de trinta e poucos anos que tem um filho chamado Eric. O pai, Ed, mora na mesma cidade, e os dois se falam todos os dias. O programa para bebês do qual Eva tinha participado antes fizera uma notificação oficial de suas preocupações aos serviços de proteção à criança, por avaliar que Eva precisava de um apoio e de uma ajuda na parentalidade maiores do que o programa podia oferecer. Depois do encontro da equipe de tratamento com Eva e Eric, a assistente social escreveu em seu diário que “a mãe não sabe bem o que os serviços sociais realmente querem alcançar com o tratamento”. Durante o encontro, Eva também tinha deixado claro que se sentia desconfortável com as visitas domiciliares, que são parte importante do modelo de tratamento. Ao expressar esses pensamentos, Eva mostrava que o tratamento não era algo que ela mesma tivesse querido ou pedido, e que se sentia um objeto diante do que estava acontecendo. Depois de alguns meses de tratamento, chegou a hora de a equipe tirar férias de verão. Durante esse período, a equipe queria que a família tivesse contato com outro programa:
A mãe e Eric devem frequentar o programa de verão de apoio às famílias. Eva é muito contra; ela me disse que não precisa de um monte de coisas para fazer nas férias de verão. Eu disse que é porque Eric precisa sair para conhecer outras crianças. A mãe concordou em ir uma vez por semana.
Esse trecho exemplifica o sentido do conceito de poder pastoral: ele contém elementos tanto de ajuda quanto de controle (Järvinen 2002). Os serviços de proteção à criança querem manter algum controle sobre a família durante o verão, mas isso não é dito explicitamente. Em vez disso, a assistente social diz que a participação da família no programa de verão é necessária para que Eric possa conhecer outras crianças. O trecho revela também o jogo de poder entre a equipe de tratamento e as pessoas atendidas: a assistente social concede a Eva alguma margem de negociação para não perder a relação de tratamento. E, nessa situação específica, ela não pode se apoiar no modelo de tratamento habitual, o que torna mais difícil ser tão insistente em suas exigências.
Anne luta contra transtornos mentais e problemas de uso de substâncias desde a adolescência. Asta é sua primeira filha, muito desejada. Asta tinha pouco mais de um mês quando a família começou o tratamento. A assistente social escreve em seu diário que Anne gostaria que o tratamento fosse mais flexível e adaptado às suas necessidades:
A mãe se pergunta o que vai acontecer se sentir que não precisa da nossa ajuda durante um ano inteiro. Ela faz uma comparação com sua terapia, em que o foco está na saúde e em dar conta sozinha. Dizemos que, pela nossa experiência, o tratamento não é tão longo quando o começo da parentalidade foi complicado.
As abordagens diferentes dos serviços de proteção à criança e da terapia de Anne provavelmente se devem ao fato de que esses serviços precisam levar em conta a perspectiva da proteção da criança. Quando essa função de controle não é descrita nem esclarecida, fica difícil para as famílias compreendê-la. O trecho mostra que Anne se preocupa com as possíveis consequências caso deixe o tratamento. Ela expressa uma ambivalência difícil durante todo o período de tratamento, que se manifesta em sua vontade de sair e em suas mudanças de ideia.
Cada família precisava encontrar um equilíbrio entre permanecer no tratamento e correr o risco de as crianças serem acolhidas fora de casa. Isso naturalmente afeta a docilidade e a capacidade de adaptação das famílias. A adesão das famílias ao modelo de tratamento é também uma condição importante para sua aplicação. Assim, a equipe de tratamento tem interesse em manter laços estreitos com a autoridade dos serviços sociais, para que o poder do órgão possa ser usado como meio de pressão para que as famílias continuem o tratamento quando a motivação vacila:
Achamos difícil ficar sem respaldo [sem a autoridade de proteção à criança, nota da autoria] diante de famílias difíceis se elas não quiserem vir /…/ aí também não há possibilidade de fazer pressão; tivemos muitas famílias ambivalentes no começo, até criarem uma relação com a equipe. Depois as coisas andam. É preciso ajuda no começo.
A condição de cliente é mais bem compreendida como um processo no qual as pessoas são conduzidas passo a passo. Isso pode implicar que a pessoa seja vista como necessitada de ajuda, que aceite a situação-problema tal como é construída, que receba ajuda e seja tratada (Payne 1992). Os diários da equipe oferecem muitas perspectivas diferentes sobre as condições da condição de cliente. Mas neles surgem também várias descrições das famílias que rebaixam seu valor e sua legitimidade. As famílias são vistas como não respeitáveis (Skeggs 1997). As pessoas e suas casas são descritas em termos negativos. Por exemplo, embora duas das mães tenham formação universitária, a equipe faz generalizações sobre elas baseadas exclusivamente em sua condição de clientes. O processo acentua a assimetria das relações de poder entre as famílias e o serviço social e serve para reforçar a legitimidade deste último. É difícil para o serviço social perceber que as relações sociais das quais faz parte são produzidas e desenvolvidas no contexto de um processo institucional:
Não têm o hábito de ficar com gente que não conhecem. Nem de fazer parte de um contexto desse jeito. Não têm o hábito de ter de estar em algum lugar a uma hora determinada.
Quando conversamos, acho a linguagem bastante pobre. Lena não tem muitas palavras nem nuances para se expressar.
Forte cheiro de cigarro, bagunça e coisas espalhadas por todo lado. O único lugar para sentar é a cama desarrumada.
Antes de eu sair, o irmão chega em casa. Ele é alto e tem a cabeça raspada coberta por uma tatuagem.
Que tipo de avó compra uma caixa de cerveja para o batizado do neto ou da neta?
Esses trechos mostram claramente o que a equipe de tratamento considera respeitável e não respeitável (Finch 1993; Skeggs 1997). Quanto aos atributos pessoais, ter a cabeça raspada e tatuagens provocativas, sentir-se desconfortável em situações sociais e ter um vocabulário pobre são vistos como não respeitáveis. Uma casa não respeitável é bagunçada, suja e cheira a cigarro. Trata-se de uma descrição estereotipada das classes populares vista de uma perspectiva de classe média.
As famílias que são clientes há bastante tempo compreendem as condições dessa condição. Fazem parte da clientela “merecedora” (Järvinen 2002). O trecho a seguir descreve como Kim quer mostrar que sua família é respeitável:
Kim faz questão de ressaltar que aceitaram me encontrar porque querem mostrar que funcionam bem como pais e querem que eu verifique isso.
O trecho seguinte mostra que Cecilia ocupa claramente um papel de cliente, isto é, falta-lhe legitimidade, e portanto falta-lhe o mandato para definir seus próprios problemas:
Quando se trata de mudar um comportamento, não é a primeira coisa que se faz; é preciso se conhecer. E, quando isso está feito, dá para perceber relativamente rápido em que a família precisa de ajuda: como uma das mães [Cecilia, nota da autoria] que acompanho agora, que diz que quer ajuda com a alimentação e o sono da criança. Tenho outra ideia daquilo em que ela precisa de ajuda, e acho que eles precisam mudar bastante coisa.
Pesquisas anteriores mostraram que é difícil para as famílias quando os problemas que percebem não são levados a sério, mas ignorados ou redefinidos (Ylvisåker 2013).
Lena tem 19 anos e é a mãe mais jovem que participou do tratamento. Lena e sua própria família de origem são objeto de diversas intervenções dos serviços sociais há muitos anos. Ela demonstra grande resistência quando a assistente social faz visitas domiciliares:
Acho que digo isso quatro vezes: “Ele [seu filho] está numa posição meio estranha, pendurado aí na sua barriga.” Ela não escuta; ou melhor, escuta, sem dúvida, mas não me pergunta o que quero dizer. Não muda a posição dele. Parece uma adolescentezinha muito teimosa. E ela aceitou o tratamento, mas cancelou os primeiros encontros.
Lena é vista como o que se chamou de cliente não merecedora (Järvinen 2002): ela opõe forte resistência ao tipo de ajuste que a condição de cliente exige, cancelando encontros e não ouvindo os conselhos que recebe. Pouco depois, Lena se mudou com a família para outra cidade e abandonou o tratamento.
Um elemento importante do modelo de tratamento é que as crianças entrem na pré-escola por volta de um ano de idade. Isso se deve, em parte, ao fato de ser a norma na Suécia e, em parte, a que, em condições adequadas, a pré-escola é vista como capaz de compensar deficiências parentais (Broberg et al. 2012). Na maioria dos casos, as famílias veem a pré-escola com bons olhos, mas Eva e Ed tinham outros planos. Eva queria retomar os estudos universitários, e Ed queria assumir mais responsabilidade pelo filho, Eric, tirando licença parental.
A assistente social tinha marcado um encontro na pré-escola para convencer o casal de que a proposta não atendia ao melhor interesse de Eric:
Em menos de uma hora eu tinha marcado um novo encontro na pré-escola; mas, quando chegamos lá, Ed pergunta: “A gente pode dizer não?” Foi assim que a conversa começou. Meu primeiro sentimento é de vergonha: o que é que eu comecei, aonde isso vai levar e o que a equipe da pré-escola vai pensar? Mas trocamos um olhar rápido e tentamos nos ajudar na conversa para ver do que se trata a resistência dos pais. Acho que se trata de falta de comunicação entre eles e de que o pai está começando a perceber que há pessoas que podem tomar decisões sobre ele e sobre a vida do filho.
O trabalho de proteção à criança é uma prática muito complexa, e a equipe de tratamento tem a responsabilidade última de proteger as crianças e garantir seu direito à vida e a um desenvolvimento positivo. Neste caso, porém, é difícil entender a posição adotada pela equipe, já que, segundo as informações do serviço de saúde infantil, a saúde, o crescimento e o desenvolvimento de Eric são bons. A assistente social talvez tome posição nessa questão em parte porque a pré-escola faz parte do modelo de tratamento e em parte porque está presa à sua percepção de que o casal tem baixa capacidade parental. Além disso, ela talvez tenha dificuldade em reconhecer informações que sugerem o contrário.
O trecho acima mostra também que Ed ainda não desenvolveu uma identidade de cliente bem definida. Ele continua, antes, em algum lugar da periferia: sente-se inseguro quanto ao próprio mandato. O trecho mostra ainda que o desejo expresso por Ed de tirar licença parental é redefinido como um problema de comunicação entre os pais. Essa transformação dos desejos expressos pela família em problema psicológico deixa a família sem poder diante dos serviços de proteção à criança. Ed se vê no papel de cliente, embora não tenha nenhum problema conhecido: uma espécie de efeito de contágio. Por isso, a capacidade parental de Ed precisa ser avaliada:
E quando vou à casa deles no mês seguinte, ele fica em casa e está bem ativo. E não acho que esteja fingindo; é claro, antes, que ele quer se mostrar, e então diz: “Isso não basta?” Respondo: “Não, o que queremos é um dia inteiro com a gente.” E então pretendemos montar um programa em que possamos ver a capacidade parental dele. Temos de fazer isso de algum jeito. Parece que ele está preocupado, e é isso que queremos. Então, na verdade, é bom. Depois ele vai embora e diz: “Agora está bom para vocês?” Eu digo: “Está.”
Ed luta para se livrar dessa condição de cliente que lhe foi imposta. Ele precisa demonstrar uma boa parentalidade quando a assistente social vai à casa fazer sua avaliação. Dumbrill (2006) argumenta que as pessoas atendidas podem lidar com o papel de cliente entrando no jogo e fingindo cooperar. O trecho mostra que a assistente social vê Ed como um cliente “merecedor” (Järvinen 2002), porque ele diz compartilhar a visão que a organização tem dele e de sua família, o que, segundo Bourdieu (1977), também é uma condição fundamental para que um tratamento seja viável.
O trecho a seguir mostra que os serviços de proteção à criança veem de forma negativa que Cecilia continue amamentando por tanto tempo. A criança tem mais de um ano:
Penso, por exemplo, que Cecilia deveria parar de amamentar, mas não dá para dizer isso; mesmo assim, é o tipo de coisa em que penso. Encontrei-a três ou quatro vezes antes de conseguir dizer.
Quando se comparam trechos dos diários com as informações que o setor de saúde dá às famílias que não são consideradas em risco, a diferença é clara:
É você quem decide quando é hora de parar de amamentar. Não existe um momento que seja o melhor para todo mundo. Algumas param cedo, outras continuam por vários anos. Algumas param de repente, outras vão diminuindo mais devagar. Muitas vezes é mais fácil parar de amamentar se você e a criança sentirem ao mesmo tempo que é hora de parar. (Vårdguiden [Guia de saúde] 2017)
Na arena cultural do campo do tratamento, a amamentação e sua “ocorrência ou não ocorrência” parecem ser uma questão cercada por fortes concepções morais e por um foco em ideias de normalidade. A quantidade certa de amamentação é importante, tanto em duração quanto em intensidade. Vários dos diários semanais contêm registros que mostram que a amamentação está associada a fortes elementos de controle e disciplina. Em várias famílias, a amamentação é discutida a partir desses diferentes pontos de vista. Várias das mães em tratamento também foram aconselhadas a não dormir com os filhos, pois isso facilitaria o desmame. No trecho a seguir, a assistente social reflete sobre uma conversa que teve com uma das mães:
Li diz que Johannes não está pronto; ela acha que ele é pequeno demais para não dormir com ela. Hum, talvez seja mais difícil para a Li? Digo que Johannes daria conta, que poderia ser bom para os dois, mas ela não quer. Tento mais uma vez apoiá-la para que seja coerente.
Um dos objetivos mais importantes do tratamento é aumentar a escuta das famílias em relação às crianças e fortalecer o vínculo e a relação entre elas. O trecho mostra que, embora Li esteja escutando a criança e suas necessidades, a assistente social se opõe a ela. Além disso, ao influenciar as famílias a fazer com os filhos coisas com as quais não se sentem confortáveis, aumenta-se ainda mais o peso que recai sobre elas. Parece pouco provável que isso possa ajudar as famílias, já que todas vivem uma grande tensão. Diante disso, o conselho dado a Li é contraproducente, sobretudo porque estudos mostraram que tanto a amamentação quanto dormir com a criança beneficiam o vínculo entre pais e filhos, e podem também favorecer o desenvolvimento físico e psicológico e o bem-estar do bebê (Morgan et al. 2011). Esses elementos disciplinares aparecem nos diários de cada integrante da equipe de tratamento e são um exemplo da doxa presente nesse campo, transmitida de uma geração de equipes de tratamento à seguinte (Bourdieu 1977).
O tema da amamentação aparece também em relação a Eva:
Eric dormiu quatro vezes sem mamar. Fico me perguntando se a mãe pretende continuar assim no fim de semana. Ela não sabe, não consegue responder. Pergunto-me se ela está pensando no que é melhor para Eric. Digo o que penso, e que ela tem uma oportunidade de ajudá-lo. Ela parece chateada e não quer parar ela mesma.
Nesse trecho, Eva mostra resistência a mudar seus hábitos de amamentação. Nos fins de semana, a influência direta da assistente social sobre a família diminui, o que é motivo de preocupação. A assistente social tenta motivar Eva a ser coerente e diz que parar de amamentar atende ao melhor interesse do filho. Este trecho e o seguinte mostram que o controle exercido pela equipe de tratamento sobre as famílias é ao mesmo tempo grande e de longo alcance. Além disso, representa mais um exemplo de poder pastoral e mostra que o serviço social assumiu o papel da Igreja, como fonte de ajuda e guardião da moral (Foucault 1990; Järvinen 2002):
Perguntei algumas vezes que tipo de relação eles têm: se formam um casal. Mas não obtive resposta. Eles me preocupam. Não sei quanto tempo passam juntos; mas, claro, ter mais filhos não parece uma boa ideia.
O trecho abaixo também trata da amamentação, mas a situação se inverte: Lena não quer amamentar a criança, e a assistente social quer que ela amamente. Ele mostra que, segundo a equipe de serviço social, as mães não deveriam amamentar nem com frequência demais nem de menos, nem por tempo curto demais nem longo demais. Os hábitos de amamentação das mães deveriam, portanto, ficar dentro de um quadro de normalidade estreito. Payne (2006) também considera que o serviço social é uma prática que busca distinguir o que é normal e bom do que é anormal e ruim, o que muitas das citações sobre amamentação ilustram:
Ela foi aconselhada a não usar mamadeira, mas me diz que está dando certo; nem sempre é preciso fazer o que os outros dizem.
Anne está preocupada porque acha que Asta não come o suficiente: a menina se cansa rápido de ficar sentada no cadeirão e, por isso, não come o bastante. Anne tenta compensar dando-lhe uma banana enquanto ela brinca no chão. Várias pessoas da equipe de tratamento descrevem essa situação como exemplo de comportamento parental problemático. Isso mostra que a capacidade de impor limites à criança e de discipliná-la é parte importante do que é visto como boa parentalidade.
Os pais das diferentes famílias foram incluídos no tratamento de forma muito limitada, o que pode parecer ilógico, já que todas as mães precisam de muito apoio e ajuda por causa da própria saúde frágil. Isso é particularmente notável nos casos em que os pais são pessoas que funcionam bem e participaram ativamente da vida dos filhos. A assistente social que coordena a equipe de tratamento refletiu assim sobre o motivo pelo qual Peo [o pai] tinha sido excluído do tratamento:
O pai é um verdadeiro trunfo, mas não lhe permitiram participar. Eu mesma venho de um mundo em que se fala de mãe e filho. Decidi pessoalmente que os pais agora devem ser incluídos, mas tive mesmo de trabalhar a mim mesma. Não há pleno acordo dentro do grupo de tratamento.
A equipe trabalha com famílias há décadas. O trecho mostra que ela é guiada pela concepção de que só as mães deveriam ser as figuras de apego das crianças, ao menos nos primeiros anos de vida. A assistente social descreve ter percebido que é importante incluir os pais no tratamento. Ela sabe, porém, que essa decisão entra em conflito com a cultura de tratamento predominante.
Em seu diário, ela escreve sobre uma lição que a equipe de tratamento aprendeu ao longo do trabalho e que representou para ela uma espécie de ponto de virada. O pai tem uma ferida de guerra, sofre de TEPT e não é visto como recurso pelos serviços de proteção à criança:
No início, o foco estava muito na mãe, e tudo ia muito mal na família. Mas depois ela [a assistente social] ligou para ele e fez uma avaliação. Identificou que o estresse dele estava ligado ao dinheiro, ao apartamento e ao médico. O resultado foi que ele ligou para ela totalmente do nada e perguntou se ela queria acompanhá-lo ao posto de saúde. Acho que é uma espécie de confiança que ele desenvolveu por ela, porque ela o viu como alguém que não é só complicado e não tem só dor de cabeça /…/ As feridas dele são graves. Mas ele também está muito feliz com o menino, e o menino está muito feliz com ele.
A pesquisa mostrou que, quando o serviço social atende às necessidades de uma família, isso pode fortalecer a relação, o que pode constituir o primeiro passo para uma mudança na família (Schreiber et al. 2013).
Os serviços de proteção à criança realizam uma das tarefas mais importantes da sociedade: proteger as crianças da negligência, dos maus-tratos e de outros fatores de risco que possam comprometer sua saúde e seu desenvolvimento. Quando esse trabalho funciona bem, pode abrir às famílias novas possibilidades de proteger os filhos dos efeitos de condições de vida difíceis. Quando funciona mal, porém, pode gerar experiências negativas tanto para as famílias quanto para as crianças.
Este artigo se baseia em um estudo qualitativo realizado ao longo de dois anos. Os dados foram coletados por meio de diários nos quais três profissionais do serviço social escreveram sobre 15 famílias durante o período de tratamento. Os diários se mostraram uma fonte de conhecimento valiosa, pois captam as concepções, normas e valores que regem o trabalho com as famílias. Na maioria dos casos, o trabalho com cada família foi conduzido individualmente por uma pessoa da equipe de tratamento. Ainda assim, a equipe descreve uma imagem surpreendentemente coerente das ideias que regem seu trabalho. Ela descreve esse trabalho, e as concepções, normas e valores que o regem, como se fossem em grande parte óbvios, o que sugere que essas ideias fazem parte de uma doxa aceita (Bourdieu 1977; Järvinen e Mik-Meyer 2003). É importante, porém, não ver os resultados como expressão do trabalho de três profissionais, mas como expressão de uma cultura que não pode ser compreendida independentemente do contexto organizacional e institucional em que essa instituição do Estado de bem-estar funciona.
Um dos elementos mais importantes do presente tratamento é que ele deveria ser flexível e partir das necessidades da família. Este estudo mostrou que foi muito difícil cumprir esse objetivo, pois o serviço social trabalha a partir de construções de problemas produzidas institucionalmente e de um modelo de tratamento que regeu o trabalho com as pessoas atendidas (Järvinen e Mik-Meyer 2003).
Se a sociedade via as famílias deste estudo como famílias em risco, era principalmente porque todas as mães tinham transtornos mentais, muitas vezes depressão surgida durante a gestação. Há consenso na pesquisa de que filhos de pais com transtornos mentais correm maior risco de desenvolver, por sua vez, problemas tanto no desenvolvimento quanto nas capacidades funcionais (Lagerberg e Sundelin 2000; Welner e Rice 1988). Mas a pesquisa também mostrou que filhos de pais com transtornos mentais não necessariamente desenvolvem problemas. Em um grande estudo, um terço das crianças se saiu sem nenhuma dificuldade, e seu desenvolvimento não foi pior que o das demais quando controlados outros problemas na família (Rutter e Quinton 1984). O decisivo é a interação entre fatores de risco e de proteção dentro da família. Os resultados deste estudo mostram, porém, que os serviços de proteção à criança veem o transtorno mental como fator de risco sem levar em conta os fatores de proteção de cada família. Isso também revela uma mentalidade prognóstica: a ideia de que é possível prever quais famílias terão baixa capacidade parental (Höjer 2012).
Os resultados mostraram também que as famílias reagiram de diferentes maneiras ao governo a que foram submetidas. Isso se expressou, por exemplo, em uma ambivalência perturbadora, com mães e pais ora tentando evitar o tratamento, ora tentando se adaptar às exigências que lhes eram feitas. Uma mãe jovem manifestou resistência ignorando os bons conselhos da assistente social, cancelando encontros e, depois, mudando-se da cidade para poder interromper o tratamento. Não se pode ignorar que a maioria das famílias está por um fio, já que o acolhimento das crianças fora de casa é um risco real, e isso naturalmente influencia seu comportamento de diversas maneiras.
O foco unilateral nos problemas das mães deixou a equipe de tratamento cega a outros fatores positivos nas famílias, como o fato de as crianças estarem se desenvolvendo bem. Eva e sua família, por exemplo, foram vistas com grande desconfiança durante o tratamento e depois de seu término, embora o filho, Eric, tivesse se desenvolvido muito bem física e psicologicamente, segundo as avaliações da pré-escola e dos serviços de saúde pediátrica. Os serviços de proteção à criança permaneceram presos às próprias concepções sobre a família, o que fez com que perspectivas alternativas e concorrentes fossem descartadas. Os resultados mostram ainda que esses serviços têm concepções muito firmes sobre como as crianças devem ser criadas. Os valores a ser ensinados às famílias eram comunicados sem senso crítico e muitas vezes eram contraproducentes, ou irrelevantes para os problemas com os quais as famílias precisavam de ajuda. Em várias famílias, os pais foram ignorados ou obstruídos, mesmo nos casos em que eram um trunfo para as crianças. Se os serviços sociais à infância marginalizam e excluem os pais, a organização contribui para criar neles uma autoimagem segundo a qual não são importantes para os filhos. Isso, por sua vez, pode afetar negativamente as noções do que é ser e tornar-se pai (Bangura Andersson 2003; Hagström 1999).
As famílias também foram submetidas a uma disciplina extensa. Por exemplo, a equipe de tratamento tentou influenciar ativamente por quanto tempo e com que frequência as mães amamentavam os filhos e se pais e crianças dormiam juntos ou não. Isso reflete a posição forte do Estado de bem-estar em relação à família e o fato de que as crianças e sua educação são um interesse social (Börjesson 2008; Ohrlander 1992). Além disso, exemplifica a missão dos serviços sociais à infância, que consiste em parte em ajudar as famílias e em parte em socializá-las para que se ajustem às normas e valores da sociedade (Hasenfeld 2009; Payne 2006).
Os resultados mostraram também que as mães foram problematizadas e tiveram de assumir a principal responsabilidade pelo tratamento, enquanto os pais foram marginalizados pelo sistema de serviços sociais à infância. Pesquisas anteriores também puderam constatar que esses dois discursos são comuns no serviço social, o que pode ser explicado pela abordagem biopsicológica das figuras parentais nos serviços sociais à infância (Herz 2012).
As definições que as famílias davam da ajuda de que precisavam também foram redefinidas em favor da expertise representada pelos serviços de proteção à criança, o que fez com que as famílias perdessem em grande parte o controle sobre a própria vida. Pesquisas anteriores revelam que não é raro que as necessidades de ajuda formuladas pelas famílias sejam redefinidas quando a perspectiva da organização é priorizada (Lipsky 2010; Lundström e Sunesson 2006).
Donzelot (1979) argumentou que o Estado usa a família como meio de implantar normas e valores desejáveis na esfera social privada. Segundo ele, essa disciplina é imposta de maneiras diferentes nas diferentes classes sociais. Este estudo revela que as normas e valores que a sociedade tenta transmitir às famílias vistas com desconfiança, isto é, consideradas não respeitáveis, diferem daquelas transmitidas às famílias consideradas respeitáveis.
O trabalho de proteção à criança é difícil e complicado. Além disso, não há dúvida de que as pessoas envolvidas têm as melhores intenções de ajudar as famílias em questão. Os resultados deste estudo mostram, porém, que mesmo a boa vontade e as melhores intenções podem se transformar em um exercício abusivo de poder. O estudo revela ainda que uma discussão crítica contínua é indispensável dentro dos serviços de proteção à criança.
Os resultados não representam todo o trabalho realizado pelos serviços de proteção à criança. Nada indica, porém, que sejam atípicos, em parte porque a equipe compartilha em grande medida as mesmas visões e perspectivas, apesar de profissões e trajetórias diferentes no campo do tratamento, isto é, nos serviços sociais e nos serviços de saúde. Por fim, é importante observar que o material foi analisado a partir de teorias do poder, o que significa que outras perspectivas presentes no material não foram discutidas nem tornadas visíveis.
Os diários escritos por três profissionais do serviço social a respeito de famílias submetidas a intervenções dos serviços suecos de proteção à criança permitem compreender e conhecer melhor as condições da condição de cliente. Esses textos mostram que a ajuda dada às famílias pelos serviços de proteção à criança continha fortes elementos de controle e disciplina, o chamado poder pastoral (Foucault 1990; Järvinen 2002). Por meio dos próprios pensamentos e reflexões da equipe, são traçados limites para o que ela considera boa ou má parentalidade. Além disso, os textos deixam claro que os pais foram marginalizados no tratamento porque as mães eram consideradas as pessoas mais importantes no primeiro ano de desenvolvimento das crianças.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste estudo está em sua fonte: não entrevistas, mas o que uma equipe de proteção à criança escreve, dia após dia, sobre as famílias que acompanha. Ele mostra sem disfarce como um modelo de tratamento que deveria partir das necessidades das famílias acaba por redefini-las: o pedido de uma mãe sobre sono ou alimentação vira sintoma, o plano de um pai de tirar licença parental vira “problema de comunicação”. Para uma leitura sistêmica, a lembrança é valiosa: a equipe que intervém faz parte do sistema que observa, e o contexto de ajuda compulsória molda o que se vê da família. O diagnóstico psiquiátrico das mães funciona como grade única, em detrimento dos fatores de proteção e dos pais, que às vezes são o principal recurso. O estudo tem limites: três pessoas que escrevem, uma única equipe, uma leitura centrada no poder que deixa na sombra o que o trabalho pode ter trazido. Ele convida a levar também à supervisão as evidências da equipe, essa “doxa” que nunca se discute. Para ler junto com o artigo sobre os pais fantasmas no serviço social e com o artigo sobre os maus-tratos institucionais na proteção à infância.
Notas do original
Agradecimentos. O financiamento da publicação em acesso aberto foi garantido pela Universidade de Malmö.
Financiamento. Financiamento da Agência de Saúde Pública da Suécia (subsídio nº 00647-2014).
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Tradução não oficial em português de Concepções, normas e valores no trabalho de proteção à criança com famílias em risco: uma análise de diários de profissionais do serviço social, de Annelie Björkhagen Turesson, Clinical Social Work Journal, vol. 48, no 4, p. 369-379 (2020), doi: 10.1007/s10615-019-00720-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Conceptions, Norms, and Values in the Work of Child Protective Services with Families at Risk: An Analysis of Social Workers’ Diaries”, publicado em Clinical Social Work Journal (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Björkhagen Turesson, A. (2020). Concepções, normas e valores no trabalho de proteção à criança com famílias em risco: uma análise de diários de profissionais do serviço social (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/concepcoes-normas-e-valores-no-trabalho-de-protecao-a-crianca-com-familias-em-risco (Obra original publicada em 2019 em Clinical Social Work Journal, 48(4), 369-379 (2020); republicada em 2020 por Clinical Social Work Journal, https://link.springer.com/article/10.1007/s10615-019-00720-4)
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