Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Terapia breve focada nas soluções · Artigo
Em 1982, no Brief Family Therapy Center de Milwaukee, uma família enumerou vinte e sete queixas em uma única sessão, saiu com uma tarefa que não tinha nada a ver com nenhuma delas e voltou duas semanas depois dizendo que estava tudo resolvido. Desse acidente nasceu a terapia breve focada nas soluções. Larry Hopwood e Steve de Shazer contam essa virada, expõem as três premissas que dela saíram e as percorrem de ponta a ponta em um caso: uma mulher que ficou cega, recém-diagnosticada com lúpus, que diz não querer viver assim.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de From Here to There to Who Knows Where: The Continuing Evolution of Solution-Focused Brief Therapy, de Larry Hopwood e Steve de Shazer, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021), doi: 10.59874/001c.74983, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026 a partir apenas do texto em inglês: o texto original foi traduzido para o português e rediagramado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Existe além disso, desde 1994, uma versão francesa deste texto, em Thérapies familiales: les principales approches, organizado por Mony Elkaïm (Seuil); ela não foi consultada, e a tradução aqui apresentada lhe é inteiramente estranha. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Nota de publicação
Obteve-se autorização para publicar o texto em inglês. O manuscrito foi traduzido e publicado apenas em francês, mas fora originalmente escrito em inglês, em Thérapies familiales: les principales approches, M. Elkaïm (org.), Éditions du Seuil, Paris, 1994.
Agradecimentos
Larry Hopwood e Steve de Shazer agradecem a seus colegas Insoo Kim Berg, Scott D. Miller e Ron Wilgosh por suas contribuições a este ensaio.
Desde 1982, Insoo Kim Berg, Steve de Shazer e seus colegas do Brief Family Therapy Center (BFTC), em Milwaukee — junto com as pessoas atendidas —, vêm desenvolvendo um modo de fazer terapia focado nas soluções, significativamente diferente de outras abordagens (Berg e Miller, 1992; de Shazer, 1985, 1988, 1991). Em comparação com as outras abordagens, há diferenças de teoria, de pressupostos, de prática e, por consequência, diferenças no modo de conduzir as sessões; as sessões são menos numerosas1 e os intervalos entre elas, mais longos (de Shazer, 1991). A abordagem supõe outra visão da terapia, outra visão da clientela e, portanto, outra visão do trabalho terapêutico e de suas tarefas.
Antes de 1982, usávamos um modelo de terapia baseado na resolução de problemas, apoiado na ideia de que a intervenção terapêutica precisava se ajustar aos padrões do problema da pessoa atendida de uma maneira muito particular e específica (de Shazer, 1982). Como a maioria dos modelos de terapia, concentrávamo-nos em descrever o problema, ou a queixa da pessoa, supondo que a natureza do problema — ou pelo menos a descrição dos padrões do problema — determinava a aparência que a intervenção deveria ter e, portanto, a aparência que a resolução final deveria ter. Como muitos outros modelos, víamos as queixas da pessoa, e os padrões que as cercam, continuarem a ocorrer porque pareciam seguir regras semelhantes às que se pode ver governar e modelar todas as interações humanas.
“O problema não é tentar adaptar a terapia a uma determinada classificação [diagnóstica], mas: que potencialidades o paciente lhe revela de sua capacidade de fazer isto ou aquilo?”
Milton H. Erickson (Haley, 1985, p. 126)
Enquanto muitos terapeutas agrupam os problemas em categorias — 1) problemas psicológicos de origem obscura, 2) problemas psicológicos de origem evidente, 3) transtornos orgânicos, ou 4) categorias diagnósticas padronizadas —, nós tendíamos a agrupar os casos conforme sua resposta à nossa intervenção inicial, em particular conforme sua resposta às tarefas de casa que dávamos ao final da sessão. A forma que a intervenção assumia dependia das sequências comportamentais em torno da queixa e dos significados que as pessoas davam à sua situação.
Em meados de 1982, tivemos um caso que nos obrigou a mudar radicalmente de ideia sobre a terapia, a clientela, os terapeutas, os problemas, as queixas e as soluções — um processo que levou vários anos e que ainda continua. Depois que o terapeuta perguntou “O que traz vocês aqui hoje?”, a mãe começou a descrever suas preocupações mas, antes que o terapeuta pudesse obter uma descrição dos padrões em torno daquela queixa, o pai a interrompeu. Ele tinha suas próprias preocupações mas, antes que o terapeuta pudesse voltar às preocupações da mãe ou fazer descrever as do pai, a filha mais velha interrompeu com as suas. Ao longo da sessão, os membros da família mantiveram esse padrão e, ao final, a família havia enumerado, em cinco, vinte e sete preocupações diferentes. Nenhuma delas, porém, estava descrita com precisão suficiente para que o terapeuta e sua equipe pudessem usá-la como base de uma tarefa de intervenção. (Todo terapeuta que já atendeu mais de duas ou três famílias teve uma experiência semelhante.)
Estava claro, para a equipe atrás do espelho unidirecional, que aquela família tinha um “problema”: ela tinha evidentemente do que se queixar, e sua vinda à terapia parecia apropriada. Nenhuma de suas preocupações, contudo, havia ainda assumido uma forma utilizável como guia para uma intervenção. Felizmente, parte da equipe havia sido influenciada pelos trabalhos de Milton H. Erickson (Haley, 1967), que sugere que, se os esforços terapêuticos para dissipar a vagueza da pessoa só levaram a mais vagueza, então é preciso fazer algo diferente e responder com ao menos tanta vagueza quanto ela: isso acabará por levar a pelo menos alguma clareza. Foi assim que a equipe desenvolveu a tarefa que veio a ser conhecida como a tarefa-fórmula da primeira sessão (formula first session task, FFST):
“De agora até nosso próximo encontro, queremos que vocês observem, de um modo que lhes permita nos contar da próxima vez, o que acontece em suas vidas que vocês querem que continue acontecendo” (de Shazer, 1985).
Duas semanas depois, quando a família voltou, foi grande a surpresa, para meus colegas e para mim, ao ouvi-la descrever vinte e sete coisas diferentes que haviam acontecido e que ela queria que continuassem acontecendo. Vinte e cinco dessas vinte e sete coisas relacionavam-se diretamente com as vinte e sete preocupações enumeradas na primeira sessão. Quando perguntada, a família disse que considerava resolvido o problema que a levara à terapia e que, portanto, nenhuma outra sessão era necessária. Seis meses mais tarde, vinte das vinte e sete coisas enumeradas na segunda sessão eram vistas como continuando a acontecer.
Segundo nosso modelo de resolução de problemas, essa intervenção não deveria ter funcionado, já que não se relacionava aos padrões de nenhuma das queixas enumeradas pelos membros da família. E, no entanto, funcionou! Estávamos, portanto, diante de uma escolha: a) fingir que nada aconteceu, ignorar o episódio e descrevê-lo como uma espécie de golpe de sorte; ou b) investigá-lo e, assim, correr o risco de mudar, ou mesmo rejeitar, o modelo e a teoria que vínhamos construindo havia quinze anos. Escolhemos o segundo caminho.
Ao longo dos dois anos seguintes, demos essa mesma tarefa em centenas de atendimentos — indivíduos, casais, famílias — e constatamos que, em cerca de 90% das vezes, as pessoas relatam que aconteceu, entre a primeira e a segunda sessão, algo que querem que continue acontecendo. (Era, de fato, nossa regra dar essa tarefa ao final da primeira sessão, salvo se tivéssemos boas razões para não fazê-lo: nós a demos a dois terços das pessoas atendidas durante essa pesquisa. Na maior parte das vezes, elas enumeravam de sete a onze coisas na segunda sessão.) Esses acontecimentos frequentemente não tinham relação com os problemas e as queixas da pessoa e, ainda assim, eram vistos por ela como tornando as coisas significativamente melhores: aprendemos que aquilo em que a clientela se baseia para julgar que as coisas estão significativamente melhores é muitas vezes muito diferente daquilo em que se baseariam terapeutas ou pesquisadores com formação profissional, ou daquilo que estes achariam que os clientes deveriam usar.
Nesse ponto, perdemos a conexão que tanto prezávamos entre a queixa e a solução. Se essa tarefa genérica pode claramente levar a descrições de melhora significativa, quaisquer que sejam as queixas em jogo, então a queixa não determina o processo de solução. O processo de desenvolvimento de uma solução pode começar sem que a terapia saiba qual era o problema, e sem que as pessoas concordem sobre do que têm a se queixar.
Essa pesquisa nos confirmou a ideia de que o que cada uma das partes faz enquanto se faz terapia — o que se passa na terapia — importa mais para o êxito da terapia do que o problema, o diagnóstico, a situação ou a personalidade da pessoa atendida.
A filosofia central da terapia breve focada nas soluções (de Shazer, 1985, 1988, 1991) pode ser resumida assim:
1
2
3
Essas três premissas podem parecer simples demais, ou até simplórias, quando se trata de fazer terapia, isto é, de fazer a pessoa terapeuta e a pessoa atendida trabalharem juntas (duvidamos da utilidade de chamar nosso trabalho de “terapia”, mas nenhuma alternativa viável se apresenta com clareza). É evidente que uma tradição fundada em premissas tão simples será frequentemente vista como profundamente falha. Certamente a resolução de problemas humanos esmagadores e crônicos não pode ser tão simples. Curiosamente, aplicá-las no “mundo real” de fazer terapia certamente não é fácil.
Essa premissa é tão central na vida que parece evidente por si mesma. Na verdade, não deveria haver nenhuma necessidade de enunciá-la, ela que significa, entre outras coisas, o seguinte: se algo não é um problema para a pessoa atendida e, portanto, ela não se queixa disso, então — por mais evidentemente problemático que esse algo possa parecer aos olhos da equipe terapêutica ou da “sociedade” — não é da conta da equipe terapêutica. Diferentemente da maioria, ou pelo menos de muitos outros tipos de terapia, a terapia breve focada nas soluções não é normativa: daí a necessidade de enunciar explicitamente essa premissa.
Na superfície, essa premissa deveria ser tão evidente que enunciá-la parece estúpido. No BFTC, descobrimos por acaso que, quando se pergunta do jeito certo e/ou no momento certo, muitas pessoas, talvez a maioria, relatam que há momentos em que a queixa ou o problema não acontece, ainda que elas tivessem todas as razões para esperar que acontecesse! E que há momentos em que as coisas, no geral, vão muito bem, dadas as suas circunstâncias de vida. Aquilo que as pessoas estão fazendo nesses momentos excepcionais é exatamente aquilo que precisam fazer mais: continuar fazendo o que funciona.
Embora a premissa em si devesse dispensar comentários, ela é na verdade mais ampla em suas implicações e se aplica também ao modo de fazer terapia. Na terapia breve, isso significa que a) se você conhece uma solução que funciona, não procure desnecessariamente outro caminho: nunca esqueça o que funciona; e b) se o que você fez na sessão anterior foi eficaz no julgamento da pessoa, então você deve fazê-lo de novo. Além disso, é preciso resistir a acrescentar qualquer coisa.
Uma vez que a situação problemática foi descrita de forma simples e clara como “a mesma droga de coisa repetidas vezes”, essa terceira premissa também parece dever ser evidente por si mesma. No entanto, dada a ideia do senso comum segundo a qual “se você não consegue na primeira vez, tente, tente de novo”, nunca é demais insistir nessa premissa, sobretudo porque ela parece contrariar o bom senso.
É claro que os problemas têm propriedades de automanutenção, entre as quais a repetição — dita — das mesmas velhas tentativas fracassadas de solução. Evidentemente, as coisas não estão funcionando, e a premissa 3 da filosofia central sugere que, numa situação problemática dessas, alguém precisa fazer algo diferente se quisermos que algo diferente aconteça. De fato, assim que alguém, na situação problemática, faz algo diferente — qualquer coisa que não possa ser vista como “a mesma droga de coisa mais uma vez” —, o problema está a caminho da resolução: o que era problemático torna-se apenas mais um exemplo daquela sucessão de “uma droga de coisa atrás da outra” que constitui, na verdade, a vida normal e cotidiana.
Se nenhum progresso foi obtido em algumas sessões, nossa visão é que a terapia também se tornou parte da situação problemática e também precisa fazer algo diferente, já que estudos de todas as formas de terapia mostraram que, se nenhum progresso é feito entre a quinta e a oitava sessão, é pouco provável que algum dia venha a ser feito. Como não usamos várias sessões para fazer uma avaliação, consideramos que, se a pessoa não reconhece nenhum progresso na terceira sessão, então é preciso prestar atenção à premissa 3. Exemplos de fazer algo diferente, do lado da terapia, incluem: mudar de equipe, mudar de sala, mudar quem senta onde, mudar qual membro da equipe está na sala, variar radicalmente as datas e os horários dos encontros, mudar as pessoas convidadas à sessão, etc. Muitas vezes, a diferença mais eficaz é admitir às pessoas que não parecemos estar conseguindo ajudar, e que elas precisam, portanto, nos ajudar.
Os pressupostos influenciam o que se faz ou não se faz na terapia. O caso a seguir ajuda a mostrar como os pressupostos sustentados pelo terapeuta orientam seu pensamento e as perguntas que ele faz. A cliente é uma mulher casada, com dois filhos adultos. Ela ficou cega dez anos antes em decorrência de um diabetes e acaba de saber que tem lúpus.
Primeira sessão, abertura
Te. — O que a trouxe aqui hoje?
Cl. — Eu me sinto muito deprimida. Não consigo usar a mão e minhas pernas estão todas dormentes. Estou dormente no corpo inteiro. Consigo comandar a mão esquerda, mas não tenho nenhuma sensação nela.
Te. — Certo.
Cl. — Não consigo telefonar. Preciso pedir à telefonista que faça as ligações por mim. Tudo isso é ruim, porque eu estava acostumada a fazer todas essas coisas sozinha.
Te. — Sim, você está tendo que fazer muitos ajustes, e isso é duro.
Cl. — Eu não quero viver assim. Realmente não quero. Não tenho pensamentos de me matar, mas também não quero viver assim.
Te. — Sim. Está acontecendo muita coisa com você neste momento, tudo isso é novo para você e é duro. Como você está lidando com isso?
Cl. — Não estou. Eu simplesmente não… Não consigo preparar minhas refeições…
Te. — O que teria que acontecer hoje para você sentir que fomos úteis para você?
Cl. — Vocês não podem, porque não podem fazer a sensação voltar.
As pessoas que procuram terapia geralmente precisam de alguma razão para vir: um problema ou uma queixa que tenham a respeito de si ou de outra pessoa, ou um problema ou uma queixa que outra pessoa tenha a respeito delas. Sem alguma razão ou justificativa para estar ali, a vinda não passaria de uma olhada de vitrine. Essa queixa ou esse problema, porém, é apenas o ingresso que lhes permite entrar pela porta. Do mesmo modo, quando um carro faz um barulho, tem-se uma boa razão para ir à oficina. Talvez não se saiba exatamente o que se quer consertar. Já que se está lá, talvez se queira que o mecânico dê uma olhada também na direção. Talvez não se tenha certeza de que os dois problemas estejam relacionados, então tenta-se descrever em detalhe os sintomas para ajudar o mecânico. As pessoas que vêm para a psicoterapia fazem quase a mesma coisa: descrevem em grande detalhe os problemas que os incomodam o bastante para sentirem que precisam de ajuda. Muitas vezes, na terapia, supõe-se que a pessoa está ali para ser aliviada de seus sintomas, e a frustração aparece quando isso não é possível.
Neste caso em particular, a cliente se queixa dos sintomas do lúpus recém-diagnosticado. Ela não pode continuar certas atividades de sua vida, como tricotar e nadar. Não tem sensações nos membros. E não quer continuar vivendo assim. Como ela evidentemente sofre muito com a combinação de cegueira e lúpus, qualquer terapeuta com um mínimo de compaixão gostaria de ajudar essa mulher. Muitos terapeutas sentiriam o dever de demonstrar essa compaixão e a fazer sugestões para ajudar a aliviar seus sintomas. Mas será que sabemos realmente que tipo de ajuda ela quer de nós? Muitas vezes os terapeutas sentem a necessidade de se lançar imediatamente para ajudar a pessoa. Poderíamos fazer perguntas para saber mais sobre suas queixas físicas. Poderíamos fazer uma avaliação de risco de suicídio, etc. Neste caso preciso, o terapeuta (Ron Wilgosh)4 não explorou esses caminhos. Em vez disso, escutou com muita atenção qualquer indicação do que a cliente queria, em lugar do que ela não queria e, o que é importante, não fez o pressuposto de que sabia o que ela queria. Ela vinha se concentrando naquilo que já sabia não ser capaz de fazer. Isso obviamente aumentava sua frustração e limitava sua esperança de mudança. Continuar prestando atenção a isso só aumentaria essa frustração; se o terapeuta o tivesse feito, estaria se juntando a ela para fazer mais do mesmo de algo que não está funcionando. De fato, a cliente não acha que o terapeuta possa ajudar a aliviar os sintomas. Assim, seu terapeuta simplesmente reconheceu que entendia o que ela dizia.
A maioria dos terapeutas, pelo menos nos Estados Unidos, precisa ter objetivos para cada caso, nem que seja apenas para fins de seguro-saúde. Por uma questão de prestação de contas, esses objetivos devem ser mensuráveis, o que geralmente significa que precisam ser descritos em termos comportamentais. Poucas formas de terapia, no entanto, especificam o procedimento para a obtenção de objetivos, ou as qualidades de objetivos bem formulados (Berg e Miller, 1992; de Shazer, 1991). Os formulários de seguro têm um espaço para os objetivos, que devem ser objeto de acordo entre a pessoa atendida e a terapia. Então, por que não perguntar simplesmente às pessoas quais são seus objetivos? Nossa experiência é que isso não é muito produtivo, por várias razões. As pessoas estão frequentemente tão centradas no problema que os objetivos se expressam como a ausência desse problema ou como a interrupção de alguma coisa. A primeira formulação é difícil de medir, e a segunda só pode ser verdadeiramente alcançada com a morte. Na verdade, definir os objetivos assim muitas vezes piora as coisas, porque leva a pessoa a se centrar ainda mais nos comportamentos indesejáveis e/ou no problema. Muitas vezes esses objetivos supõem saltos muito grandes em relação à realidade presente e costumam implicar que outra pessoa mude para que o objetivo seja alcançado. Além disso, acreditamos que, se a pessoa pudesse expressar de outra maneira o que quer, seria muito mais fácil não só alcançar esse objetivo, mas também saber quando a terapia está terminada. Isso se liga à nossa terceira premissa: o “isso” que não funciona pode ser o modo como a pessoa pensa as coisas.
Como ajudar melhor a pessoa a pensar de outro modo, de forma que ela consiga? Constatamos que o uso do que chamamos de pergunta do milagre (de Shazer, 1985, 1988, 1991) libera a pessoa para pensar soluções no futuro sem estar sobrecarregado pelos problemas do passado e do presente. Ela é usada de modo mais apropriado quando a pessoa teve tempo suficiente para descrever as razões de estar na sessão, isto é, a queixa ou o problema. Constatamos que, se a terapia tenta resolver o problema rápido demais — muitas vezes juntando-se à pessoa para fazer mais daquilo que não funciona —, a pessoa continuará tentando convencer de que tem boas razões para estar ali, continuando a descrever o problema. Da mesma forma, se a terapia insiste em fazer muitas perguntas sobre as queixas, a pessoa continuará sendo prestativo respondendo mais sobre os problemas. Se, porém, a terapia apenas escuta e reconhece que ouviu o que a pessoa diz, geralmente chega um ponto em que ela começa a se repetir ou olha para quem atende em busca de alguma indicação sobre o que vem em seguida: fazer mais do mesmo ou fazer algo diferente? É nesse ponto que fazer a pergunta do milagre nos parece mais apropriado.
A pergunta do milagre
Te. — Deixe-me lhe perguntar uma coisa. Imagine que hoje à noite você vá dormir e que, enquanto estiver dormindo, esse milagre aconteça, e que as consequências do milagre sejam que os problemas com os quais você veio aqui hoje estão resolvidos. O que estaria diferente de manhã? Como você saberia?
Cl. — Eu conseguiria sentir minhas pernas e minhas mãos. Eu conseguiria sentir de novo. Conseguiria escovar os dentes. Conseguiria escrever. Conseguiria ler braile. Conseguiria fazer as coisas por mim mesma.
Te. — Ahã. O que mais estaria acontecendo que lhe faria saber que esse milagre está acontecendo?
Cl. — Eu simplesmente acordaria e sentiria…
Te. — O que seu marido notaria você fazendo de diferente que lhe faria saber que algo aconteceu durante a noite?
Cl. — Eu estaria fazendo o café da manhã, discando aquele telefone eu mesma, apertando os botões do videocassete eu mesma, escovando meus dentes, penteando meu cabelo, fazendo todas as coisas que eu fazia antes.
Te. — Em que isso seria diferente para ele, se você fosse capaz de fazer tudo isso?
Cl. — Ele não teria que separar meus remédios, preparar meu café da manhã, servir o café, passar manteiga no pão.
Te. — Hum, hum. E em que isso seria diferente para você, se ele não tivesse que fazer tudo isso?
Cl. — Eu ficaria contente, porque estaria fazendo por mim mesma.
Te. — Certo. Como ele poderia perceber que você está contente?
Cl. — Eu provavelmente teria um grande sorriso no rosto, e nós estaríamos conversando sobre isso.
A pergunta do milagre não é necessariamente um substituto para a pergunta sobre objetivos; é um modo de ajudar as pessoas a pensar de outra maneira, de forma que cheguem a soluções que talvez não fosse possível imaginar concentrando-se nos problemas. O objetivo da terapia não é forçar a pessoa a realizar o milagre que ela descreve, mas abrir muitas possibilidades novas que possam levar a soluções. Nesse ponto, ninguém, de nenhum dos lados, sabe qual possibilidade poderá levar a uma solução. Não se sabe o que funciona, portanto não se sabe do que fazer mais; isso virá depois. Assim, a terapia não se agarra a nenhuma ideia em particular nem tenta estabelecer prioridades. Quanto mais numerosos os exemplos, mais detalhada a descrição e menores as respostas à pergunta do milagre, maior a probabilidade de que esses comportamentos ou percepções já tenham acontecido em alguma medida, possam acontecer no futuro ou possam ser notados como tendo acontecido. Para maximizar as possibilidades, é necessário fazer perguntas adicionais para ajudar a pessoa a encontrar mais possibilidades, e menores. Quando as pessoas apresentam respostas grandes ou impossíveis — por exemplo, “vou recuperar as sensações nas minhas pernas e mãos” —, em vez de contestar essa possibilidade, o que só pode trazer a pessoa de volta ao problema insolúvel, é possível simplesmente aceitá-la como um desejo perfeitamente legítimo e prosseguir perguntando: “O que mais?”. À medida que essa conversa continua, a pessoa consegue pensar cada vez mais coisas porque, afinal, ela está apenas fingindo.
Como estamos buscando apenas uma pequena mudança em qualquer ponto da vida da pessoa, não limitamos nossa conversa apenas a quem está na sala conosco; afinal, a vida dela não é limitada dessa forma. Fazemos, portanto, o que chamamos de perguntas relacionais: o que a pessoa notaria outras pessoas importantes de sua vida fazendo, ou o que essas outras pessoas a notariam fazendo. Em alguns casos, a pessoa identificada pode não querer nem esperar nenhuma diferença de sua parte, mas querer que outra pessoa mude. Novamente, quanto mais numerosas e miúdas as respostas, mais provável sua realidade. Neste caso, o terapeuta continuou a explorar as diferenças que, depois do milagre, ela notaria em seu marido e em sua filha.
Falamos de buscar soluções porque o objetivo da terapia não é ser capaz de definir a solução para a pessoa. É antes a pessoa quem saberá quando a solução foi encontrada, porque será ela a decidir que não há mais necessidade de terapia. Mas, como as pessoas geralmente não acham que encontraram a solução antes de virem até nós, a questão é: “Como podemos ajudá-los?”
Acreditamos que é importante ajudar as pessoas a desenvolver uma imagem rica da vida sem os problemas, porque, qualquer que seja o meio que escolham para chegar lá, elas precisam saber quando tiveram êxito. De modo análogo, se uma pessoa quer chegar a Chicago, precisa ter uma ideia de como saberá que aquilo é Chicago. Se for reconhecendo certos edifícios, talvez tenha que viajar de carro e não de avião. As várias respostas à pergunta do milagre fornecem uma direção, ou uma visão, para a qual a pessoa pode se voltar. Com esse novo foco, ela é mais capaz de ver exemplos passados, presentes e futuros de mudança. Em outras palavras, não é preciso decidir fazer nada de novo nesse ponto.
Então, em que isso ajuda? Porque a pessoa tem agora uma imagem melhor do que ela e os outros estarão fazendo depois que os problemas estiverem resolvidos, supomos que haja alguma probabilidade de que partes dessa imagem do milagre estejam ocorrendo ou já tenham ocorrido. Sem perguntar, nunca se descobrirá.
Em um estudo, fizemos a pergunta: o que você notou de diferente em sua situação desde que ligou para marcar a consulta? Dois terços das pessoas responderam que algo havia mudado numa direção positiva, e todas disseram que as mudanças estavam relacionadas às razões pelas quais vieram à terapia e eram mudanças que queriam ver continuar acontecendo (Weiner-Davis, de Shazer e Gingerich, 1987). De certa forma, esse achado não é surpreendente, já que outros estudos mostraram que pessoas em listas de espera resolvem seus problemas sem a ajuda de terapeutas — em até 50% das vezes. Saber que a mudança pré-sessão ocorre com tanta frequência nos ajuda a escutá-la e a perguntar sobre ela de outra maneira e em outro momento: depois da pergunta do milagre, perguntamos “Há momentos, hoje, em que pequenos pedaços desse milagre acontecem?”. Ao fazer essa pergunta nesse momento, encontramos não apenas exemplos de exceções aos problemas, mas também ocorrências de soluções parciais, isto é, exceções relacionadas ao objetivo. Neste caso, a cliente mencionou seu ajustamento anterior à cegueira.
As exceções
Cl. — Aquela foi a coisa difícil que eu tive que atravessar, quando perdi a visão. Foi um ajuste muito grande para mim.
Te. — Nossa!
Cl. — Quero dizer, se não tivesse acontecido comigo, eu não teria acreditado que fosse possível alguém realmente se ajustar a isso, porque foi muito, muito duro.
Te. — Certo. Então, se não tivesse acontecido com você, você não teria acreditado que poderia se ajustar a uma coisa dessas.
Cl. — Isso.
Te. — Como você se ajustou a uma coisa dessas; como você fez isso?
Cl. — Durante um ano inteiro eu não fiz nada… Eu não comia muito… Só o que eu fazia era dormir. A única vez em que eu fazia alguma coisa era se eu tivesse que ir ao banheiro. Se eu tinha consulta médica, eu levantava, ia até lá e voltava. Basicamente, tudo o que eu fazia era ficar na cama.
Te. — Depois daquele primeiro ano, o que você começou a fazer que lhe mostrou que estava começando a se ajustar?
Cl. — Eu fui a um programa para deficientes visuais e tentei sair e ir a lugares sozinha, e caminhei até a loja para fazer compras.
Te. — Você teve que aprender tudo isso?
Cl. — Tive.
Te. — Uau!
Cl. — E cada vez que eu conseguia realizar alguma coisa, eu ficava muito satisfeita comigo mesma. Eu fazia aquilo até saber que podia fazer sozinha. Não precisava continuar fazendo. Então passava para outra coisa.
Te. — O que mais você teve que aprender a fazer por si mesma, que não estava acostumada a fazer antes?
Cl. — Eu tive que mudar meu jeito de viver.
Outra maneira de a terapia ajudar a pessoa a buscar soluções é fazer perguntas de escala já na primeira sessão: numa escala de um a dez, em que 10 é quando esses problemas estão resolvidos e 0 é quando eles estão no seu pior, onde você diria que as coisas estão hoje? Parte dos terapeutas pode relutar em fazer essa pergunta na primeira sessão, com medo de ouvir a pessoa responder com um número baixo. Mas o foco não está no número em si; o número efetivo não é importante. A ênfase está na direção positiva; qualquer que seja a resposta da pessoa, indaga-se como ela foi de zero até aquele número. (Mesmo que a resposta seja “0”, perguntaríamos como é que não é “-1” ou “-2”? Como é que as coisas não pioraram? — o que implica que ela fez algo para impedir que piorassem.) Claramente, a indicação é que ela já começou a resolver seu problema. Além disso, é útil descobrir como será o próximo pequeno passo. Não é necessário perguntar nem dizer à pessoa como chegar a esse passo. Mesmo com pessoas que dizem que sua vida está no pior absoluto, imaginar o próximo pequeno passo lhes traz alguma esperança, porque esse pequeno passo talvez esteja mais a seu alcance do que tentar eliminar o problema apresentado.
A pergunta de escala
Te. — Deixe-me lhe perguntar: numa escala de zero a 10, em que zero é a situação no seu pior e 10 é o modo como sua vida pode realisticamente ser para que você se sinta bem com ela e não precise mais vir aqui, onde você diria que está hoje?
Cl. — Provavelmente em um.
Te. — Em um… Como você fez isso, como você foi de zero a um?
Cl. — Bem, talvez eu devesse dizer que estou em zero.
Te. — Certo, certo, tudo bem. Você tem certeza; você pensou nisso e está em zero.
Cl. — Tenho.
Te. — Se seu marido estivesse aqui e eu lhe fizesse a mesma pergunta, onde ele acharia que você está nessa escala? O que ele diria?
Cl. — Ele diria zero também.
Te. — Parece um lugar difícil de se estar. Como seria um meio: o que estaria acontecendo em meio ponto que não está acontecendo agora?
Cl. — Talvez eu fosse capaz de fazer um pouquinho por mim mesma.
Te. — O que você acha que poderia ser?
Cl. — Discar o telefone.
Te. — Discar o telefone. Haveria mais alguma coisa que lhe diria que você subiu um pouco?
Cl. — Escovar meus dentes com a mão direita, porque sou destra e não consigo fazer as coisas com a mão direita. Tentei fazer as coisas com a mão esquerda, mas é muito difícil.
Novamente, a tendência habitual dos terapeutas seria tentar ajudar essa mulher dizendo-lhe o que fazer ou conseguindo que outra pessoa a ajudasse. Mas é isso que ela realmente quer do terapeuta? Se escutarmos com atenção, a indicação é que ela quer fazer por si mesma e não tem muita certeza do que quer da terapia, além de conversar.
O que ela quer
Te. — Como podemos ajudá-la com as coisas que você está enfrentando?
Cl. — Não sei. Acho que talvez estar aqui para eu conversar.
Te. — Certo, e em que isso vai ajudá-la, conversar conosco? Que diferença isso vai fazer para você?
Cl. — Não sei. Vocês são alguém com quem eu não tenho que pensar “vocês talvez estejam com pena de mim”.
Te. — Hum, isso parece importante.
Cl. — Sim, é muito importante.
Assim, na mensagem do final da sessão, depois de uma breve pausa, pedimos sua ajuda para pensar como o conversar pode ser útil para produzir as mudanças que ela quer. Também oferecemos elogios pelo modo como ela tentou se ajustar a esse e a outros acontecimentos de sua vida. Essa mensagem não é mais chamada de mensagem de intervenção, porque a palavra “intervenção” sugere que nosso propósito seria intervir ou nos intrometer na vida das pessoas que atendemos, em vez de ajudá-las a encontrar suas próprias soluções.
A mensagem do final da sessão
Te. — Antes de terminarmos, eu gostaria de compartilhar algumas reflexões da equipe. Todos nós queríamos lhe dizer que a situação que você vive neste momento é muito difícil e muito dura. Ficamos tão impressionados quanto você ficou surpresa com o modo como você se ajustou às mudanças que lhe aconteceram; você disse que foi, na família, quem mais se surpreendeu com o modo como se ajustou a ser cega. Ficamos impressionados com o modo como você conseguiu lidar com o que lhe aconteceu e elaborar o que está acontecendo. Isso é muito, muito duro. Achamos que foi uma boa ideia você ter vindo aqui hoje. É um bom começo para nós, e temos que descobrir mais sobre o que está acontecendo com você. Gostaríamos de vê-la de novo em breve. Você gostaria de voltar?
Cl. — Sim.
Como sabemos que essa abordagem, aparentemente minimalista, funciona? Já que mantemos o pressuposto de que as pessoas têm todas as ferramentas necessárias para construir seus próprios objetivos e suas próprias soluções, temos que deixar que elas julguem de seu progresso. Se houve progresso em direção aos seus objetivos, esperamos que suas vidas estejam melhores. Começamos, portanto, a segunda sessão e as seguintes perguntando-lhes:
Segunda sessão
Te. — Desde a semana passada, o que está melhor? O que você notou que esteja acontecendo e esteja melhor?
Cl. — Nada está melhor. Bem, estou escovando meus dentes.
Te. — Você está escovando os dentes?
Cl. — Estou, com uma escova de dentes.
Te. — Uau!
Cl. — E agora venho trabalhando cada vez mais com esta mão esquerda.
Te. — Ahã, e em que isso lhe foi útil?
Cl. — Acho que me saí melhor com a escova do que com o pano… E tento comer mais com a mão esquerda, e parece que estou conseguindo colocar um pouco mais de comida no garfo ou na colher.
Te. — Puxa, você está comendo tão bem com essa mão. Parece que você trabalhou duro desde a semana passada.
Cl. — Trabalhei.
Te. — Quando seu marido notar que você vem fazendo mudanças, como isso vai mudar as coisas entre vocês dois?
Cl. — Vai ser só menos coisas que ele tem que fazer por mim.
Te. — Hum, hum. E como isso vai mudar as coisas entre vocês dois, quando houver menos coisas para ele fazer?
Cl. — Não sei. Vamos poder dedicar mais tempo a outras coisas.
Te. — O que mais vem acontecendo que esteja diferente?
Cl. — Acho que não estou tão deprimida.
Te. — Estou curioso para saber como você não está tão deprimida quanto estava. O que você vem fazendo de diferente que tenha ajudado?
Cl. — Acho que tentar fazer mais coisas por mim mesma.
Te. — E isso lhe foi útil?
Cl. — Foi.
Não é incomum que uma pessoa responda inicialmente “nada”. Dada sua visão inicial, centrada no problema, essa resposta não é inesperada nem surpreendente. Afinal, pensar e notar mudanças positivas representa para as pessoas um deslocamento bastante grande. Leva algum tempo até que as pessoas consigam pensar dessa outra maneira. Os terapeutas podem ajudar tendo paciência — palavra interessante, já que “paciente” costuma designar, em contextos médicos, a pessoa em tratamento, o que talvez sugira uma inversão de papéis — e dando à pessoa tempo para pensar de outro modo. Nossa experiência é que aproximadamente metade das pessoas que atendemos responde afirmativamente a essa pergunta, e outro quarto responderá afirmativamente depois de um tempo de escuta para que uma descrição afirmativa se desenvolva, ou depois de uma pergunta adicional do tipo “Qual foi o melhor dia da semana?”. Em particular, a resposta inicial desta cliente também não é inesperada, já que ela estava em zero na escala de progresso ao final da primeira sessão. Isso significa que, naquele momento, ela via 100% de sua vida tomada pelos problemas. Assim, não podemos esperar que ela veja a pequena mudança relativa se vinha se concentrando nos problemas: uma mudança de 100% para 99% é apenas uma mudança relativa de 1%. Em contrapartida, uma mudança de 0% para 1% na direção positiva tende matematicamente ao infinito. Novamente, as perguntas do terapeuta podem incentivar a cliente a pensar de outra maneira, de modo que ela veja as mudanças: suscitando mais conversa de mudança positiva, amplificando essas mudanças e reforçando-as.
Geralmente fazemos perguntas de escala depois dessa conversa de abertura, para determinar se as mudanças estão ou não relacionadas ao objetivo: a vida pode estar melhor, mas isso está relacionado a resolver os problemas que os trouxeram aqui? Neste caso, houve uma melhora pequena, mas perceptível, tanto no progresso em direção ao objetivo — a cliente disse ter passado de 0 para 1,5 — quanto em sua confiança de vir a alcançar o objetivo. As perguntas de escala muitas vezes ajudam a pessoa a se lembrar de ainda mais mudanças positivas. Neste caso, a cliente contou como havia marcado uma manicure e chegado até lá completamente sozinha.
E a pessoa geralmente sabe como será o próximo passo. Não é preciso sobrecarregá-la com muitas sugestões, mas apenas apoiá-la na direção que ela escolhe. Claro, essa direção pode mudar ao longo da terapia. Esperar que as pessoas saibam, no início da terapia, exatamente aonde querem ir é irrealista; se soubessem, provavelmente não precisariam de terapia. Por essa razão, não consideramos necessário contratar com as pessoas a) um número determinado de sessões, nem b) objetivos determinados, nem c) a medida do progresso em objetivos determinados. Fazê-lo seria, novamente, restringir e limitar as possibilidades de mudança.
Em última análise, as pessoas darão passos suficientes na construção de uma solução que as satisfaça — resolver seus problemas e alcançar seus objetivos — para não sentirem mais necessidade de continuar a terapia. Neste caso em particular, isso aconteceu na terceira sessão. Nesse ponto, ela se deu 3,5 na escala de progresso. A cliente disse que estava “suficientemente melhor” e que não sentia necessidade de continuar a terapia. Esse “suficientemente melhor” incluía sair e fazer mais coisas por si mesma. Embora seu “suficientemente melhor” estivesse apenas em 3,5 na escala, o terapeuta precisa aceitar seu julgamento, mesmo que pudesse querer mais para ela: já que só a pessoa pode julgar que as coisas estão “suficientemente melhores”, qualquer tentativa de ajudá-la mais seria intrusiva e provavelmente fracassaria (premissa 2). É importante lembrar que, enquanto seu ajustamento anterior à cegueira levou um ano só para que ela saísse de casa, este ajustamento levou apenas algumas semanas. Experimentar as várias mudanças que fez lhe deu a confiança de que podia ser independente. Claro, “independência” significava para ela não precisar estar em terapia e voltar a fazer algumas das coisas que haviam funcionado antes. Ela havia, por exemplo, começado a ir regularmente a um grupo de apoio e a trabalhar como voluntária no telefone de uma linha de escuta local.
A terapia breve focada nas soluções pode ser descrita como um modo de desenvolver soluções para problemas humanos, com o pressuposto — frequentemente implícito demais — de que qualquer indivíduo na mesma situação que a pessoa descreve teria o mesmo problema. Ou seja, os problemas são vistos como primordialmente situacionais e como embutidos na linguagem: eles resultam mais da situação em que as pessoas se encontram e da definição que dela dão — isto é, do modo como se fala deles — do que de quaisquer desajustes subjacentes causadores, de psicopatologia ou de disfunções sistêmicas (de Shazer, 1991). Além disso, o que se qualifica como “solução” depende do julgamento das pessoas, isto é, de elas dizerem que as coisas estão “suficientemente melhores” para que a terapia pare. Esse modo de pensar sugere que precisamos olhar como ordenamos o mundo em nossa linguagem e como nossa linguagem — que vem antes de nós — ordenou nosso mundo. Ou seja: em vez de olhar atrás e por baixo da linguagem que clientela e terapeutas usam, essa linguagem é tudo de que dispomos.
Assim como o “problema” tem significados diferentes de pessoa para pessoa conforme as diferenças de suas situações, o “problema” tem significados diferentes para a mesma pessoa porque a situação nunca é a mesma; até os contextos variam com o tempo. Embora nossa abordagem seja às vezes criticada por não chegar ao “problema” nem tratá-lo, e por não poder, assim, ter efeito duradouro, nossa visão é que é improvável que qualquer abordagem possa curar “o problema”, porque “o problema” nunca é o mesmo. Logo, a solução não pode ser sempre a mesma. Frequentemente as pessoas que atendemos nos dizem exatamente isso quando perguntamos o que funcionou quando tiveram esse problema antes; elas nos dão razões pelas quais aquilo que “funcionou antes” não pode funcionar agora. Nossos estudos de seguimento nos disseram que as pessoas adquiriram a capacidade de pensar de outro modo, de forma que podem continuar a resolver problemas — sejam eles reconhecidos por elas como os mesmos ou como novos. Essa diferença é, para nós, a medida de um efeito duradouro.
Notas do original
1. Embora muitos modelos de terapia breve se definam em parte por limites de tempo ou de número de sessões, não usamos nenhum limite de tempo. Quando nos perguntam, dizemos: o menor número de sessões possível, e nem uma a mais do que o necessário. Nos últimos cinco anos, tivemos uma média de 4,5 sessões por caso, e 97% dos casos vêm menos de 10 sessões. Não temos nenhum critério de seleção e atendemos qualquer pessoa que venha nos procurar.
2. O símbolo <> é usado em química para descrever uma reação que ocorre nos dois sentidos. Às vezes a velocidade é maior num sentido do que no outro; em outros momentos, atinge-se um equilíbrio em que ambos (todos) contribuem igualmente. A interação entre pesquisa, prática e teoria parece variar de modo semelhante em nosso centro.
3. Em inglês mais correto e menos coloquial: If it is not broken, do not fix it. Ou: se funciona, não conserte.
4. Ron atendeu esta cliente durante uma residência de um mês no BFTC e pode ser contatado no Social Work Department, St. George’s Hospital, Sutton’s Lane Hornchurch, Essex, England, RM12 6RS.
Referências
Referências citadas e não retomadas na bibliografia do original
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Haley, J. (Ed.) (1985). Conversations with Milton H. Erickson, M.D. Vol 1. New York: Triangle/Norton.
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Bibliografia do original
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Tradução não oficial para o português de “From Here to There to Who Knows Where: The Continuing Evolution of Solution-Focused Brief Therapy”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Hopwood, L., & de Shazer, S. (2021). Daqui para lá e sabe-se lá para onde: a evolução contínua da terapia breve focada nas soluções (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/daqui-para-la-e-sabe-se-la-para-onde-a-evolucao-continua-da-terapia-breve-focada-nas-solucoes (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 1, article 9; republicada em 2026 por Complexe Systémique, https://journalsfp.org/article/74983)
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