Esta versão foi traduzida do espanhol pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Red Sistémica · Terapia de casal
Expõe-se aqui o caso de um casal simétrico tratado com técnicas de hipnose ericksoniana. São apresentados os princípios e os fundamentos teóricos desse tipo de hipnose, assim como a descrição das técnicas utilizadas: o trabalho com as metáforas e o ensaio (rehearsal), antes de se passar à exposição do caso. O artigo termina com um breve comentário do processo.
“Durante séculos, tivemos à mão pedaços de vidro multicoloridos, espelhos e tubos. Para algumas pessoas, não passavam de pedaços de vidro e de espelho. Para outras, eram os ingredientes que permitiam transformar um mundo de cores e de formas em fantasias e visões novas… o caleidoscópio.”
Joyce C. Mills e Richard J. Crowley
Quando se fala de hipnose, pensa-se geralmente em uma perda de consciência, em uma pessoa que controla outra e lhe dá ordens às quais esta obedece irremediavelmente. Pensa-se também em algo que operaria magicamente e que poderia fazer desaparecer sintomas e condutas que não cedem à vontade.
Se é verdade que, em um estado de transe profundo, a consciência se perde (a pessoa adormece), não é verdade que quem hipnotiza tenha um controle absoluto sobre a pessoa hipnotizada. Freud deixou de utilizar a hipnose como método terapêutico porque as pessoas que ele tratava às vezes se recusavam a lembrar aquilo que ele lhes ordenava recordar.
Podemos definir a hipnose como um método que permite induzir um estado, o transe, no qual as faculdades mentais críticas ficam temporária e parcialmente suspensas e no qual a pessoa utiliza principalmente sua imaginação e o processo primário. Trata-se de induzir um devaneio dirigido, de facilitar ao outro o contato com o seu próprio interior.
O transe é um estado natural a que temos acesso espontaneamente. Um transe leve é um devaneio dirigido; o sono é um transe profundo.
Antigamente, na hipnose clássica, a ênfase recaía sobre a sugestão direta. Hoje, na “nova hipnose”, como a chama Daniel Aráoz, ou na hipnose ericksoniana, a ênfase recai sobre o manejo da fantasia.
Essa nova hipnose tem seus antecedentes nos anos 1930, na França, com os desenvolvimentos da Escola de Nancy, que se separa das linhas de trabalho da Salpêtrière e propõe que:
A mudança não se produz nem pelo desejo nem pela vontade, mas pela imaginação.
As heterossugestões só operam quando encontram um eco interno na pessoa que as recebe; podem assim tornar-se autossugestões.
A autossugestão opera em um nível não consciente.
Milton Erickson, psiquiatra norte-americano, instrumentalizou e desenvolveu, a partir dessas mesmas ideias, técnicas hipnóticas de uma maneira quase milagrosa. Ainda hoje seus discípulos continuam decifrando e pondo em palavras o que ele fazia.
Como assinalei acima, a base das técnicas hipnóticas são a imaginação e a sugestão. Para a sugestão, utilizam-se as próprias palavras da pessoa e termos ambíguos, a fim de que assumam em cada pessoa o seu sentido próprio, em função de sua problemática individual, de seus desejos, de suas necessidades; ou então utilizam-se metáforas às quais cada pessoa pode dar o seu próprio conteúdo.
O trabalho com esse tipo de hipnose consiste em favorecer um devaneio dirigido que permite explorar material recalcado sem analisar as defesas, entrar em contato com fantasias inconscientes (vínculos e objetos internos) para modificá-las e desencadear processos. Constrói-se assim uma nova “realidade” interna, que produz mudanças “reais” na pessoa.
As técnicas hipnóticas conheceram uma difusão crescente, sobretudo nos Estados Unidos, infelizmente por vezes como técnicas isoladas de um corpo teórico sólido. Considero, no entanto, que seu fundamento teórico pode ser encontrado no conceito de Inconsciente desenvolvido pela teoria psicanalítica, nos estudos realizados sobre as diferenças de funcionamento dos hemisférios cerebrais e no construtivismo, epistemologia desenvolvida, entre outros, pelos doutores Von Foerster, Von Glasersfeld, Watzlawick e Varela.
A psicanálise nos fala do Inconsciente como dessa entidade constituída de energia psíquica, que contém os traços mnêmicos de tudo o que foi vivido (lembranças que são imagens e afetos); que é feita de objetos internos, de fantasias inconscientes, produtos da interação com o fora, e na qual se desenrolam continuamente processos de reestruturação, muitos deles orientados para a “proteção” da pessoa contra a revivescência de experiências dolorosas. Nesse tipo de hipnose, como na teoria psicanalítica, considera-se que o sintoma tem “um propósito valioso”, que é o compromisso entre a pulsão e a defesa: ele é, portanto, respeitado. Dito de outro modo, para essa nova hipnose o Inconsciente não é apenas a lata de lixo onde está recalcado o que é feio, mau, doloroso; ele é fundamentalmente energia, recursos, capacidades, proteção, e contém belas lembranças que são úteis.
Durante o processo hipnótico, recorremos à força da mente inconsciente, utilizamos os traços das lembranças agradáveis — dando por certo que sempre existe alguma; os objetos internos e as fantasias inconscientes se modificam; processos se desencadeiam e se reorientam.
Tudo isso seguindo o caminho do inconsciente, que é o princípio de prazer. Assim, o tratamento terapêutico com esse tipo de hipnose não é fundamentalmente um caminho árido e doloroso: ele tende a ser fluido e agradável.
E, segundo as pesquisas realizadas sobre a diferença de funcionamento dos hemisférios cerebrais, o caminho do Inconsciente é o do hemisfério direito.
Paul Watzlawick sublinha o quanto as funções desse hemisfério — simbolização, condensação, linguagem analógica, visão de totalidade, de síntese, representação do todo pelas partes, registro e percepção das sensações e dos afetos — coincidem com aquelas que a psicanálise atribui ao Inconsciente, ao passo que o hemisfério esquerdo tem a seu cargo o raciocínio lógico, a linguagem verbal e a linguagem matemática, assim como a função de análise, que corresponderiam ao pensamento consciente.
Nossa cultura tende a supervalorizar as funções do hemisfério esquerdo, o hemisfério da lógica e da razão, e a desvalorizar as do direito, o hemisfério da sensibilidade, da imaginação e da sensação. Na hipnose, fazemos o inverso. Trabalhamos com o direito, buscando desenvolver suas potencialidades e bloquear parcialmente o esquerdo.
Por fim, a epistemologia construtivista propõe que, qualquer que seja a REALIDADE, jamais possamos conhecê-la tal como ela é. Por meio de nossos sentidos e de nossa interação com ela, construímos o nosso mundo, quase sempre sem nos darmos conta disso. O construtivismo radical afirma inclusive que a REALIDADE não existe, mas que nós a construímos. Construímos a nossa realidade interna. E é essa realidade interna que determina nossas condutas, nossos afetos, nossa atitude diante do mundo. Por conseguinte, se mudarmos nossa realidade interna, nossas condutas e nossos afetos mudarão: é justamente isso que fazemos por meio da hipnose.
A hipnose é uma ferramenta muito poderosa, uma vez que opera com os recursos do hemisfério direito, geralmente subutilizados em nossa cultura. Ela constitui uma alternativa técnica interessante quando outras se mostraram ineficazes, e é particularmente preciosa quando os padrões recursivos pelos quais opera a tendência à não mudança são fundamentalmente verbais e lógicos, isto é, quando correspondem ao funcionamento do hemisfério esquerdo.
As técnicas hipnóticas, como qualquer tipo de técnica, devem situar-se no interior de um contexto terapêutico — aqui, o da terapia familiar sistêmica — que as enquadre e lhes dê sentido.
Para lembrar
O transe não é uma tomada de controle: é um devaneio dirigido, um acesso privilegiado ao hemisfério direito — o da imagem, da analogia e do afeto — ali onde se alojam também os sintomas. Ele vale sobretudo quando a tendência à não mudança se instalou em circuitos verbais e lógicos, e desde que enquadrado por um contexto terapêutico que lhe dê sentido.
Ilustro a seguir, por meio de um estudo de caso, um estilo de trabalho com as técnicas hipnóticas. Apresento primeiro seus antecedentes, depois uma breve descrição das técnicas utilizadas, antes de descrever o processo terapêutico e, finalmente, de comentá-lo.
Pablo e Elena formam um desses jovens casais mexicanos de classe média em que tanto o homem quanto a mulher querem construir uma relação diferente da de seus pais. Eles recusam os papéis tradicionais. Ele quer assumir e compartilhar as responsabilidades domésticas, e ela, as responsabilidades econômicas. Recusam a relação complementar rígida na qual se davam a submissão de suas mães e a dominação de seus pais. Defendem uma igualdade entre homem e mulher e estabelecem uma relação simétrica. No entanto, não aprenderam a funcionar assim, não têm modelo a seguir. Daí resultam frequentemente fracassos dolorosos, pois, em sua busca de igualdade, estabelecem escaladas simétricas que os conduzem à ruptura — e depois a prosseguir a escalada assim que voltam a se encontrar.
Ele, economista, tem 29 anos e um passado carregado de doenças: problemas cardíacos, infecções renais frequentes, várias cirurgias e fraturas ósseas, e agora um câncer, que começa a tratar com quimioterapia.
Ela, psicóloga, tem 27 anos e uma epilepsia controlada por medicamentos. Estão casados há um ano.
Vêm à terapia buscar apoio diante da angústia que lhes causa o aparecimento do câncer. Querem, além disso, aprender a lidar melhor com a família de Pablo, que “os invade” querendo ajudar. O pai, médico, paga a quimioterapia, está presente em todas as consultas, discute e briga com os membros da equipe que trata Pablo e interfere no tratamento. Instala-se na casa deles para cuidar dele e vigiá-lo.
Desde a primeira sessão, a grande simetria que existia entre eles era patente, racionalizada e sustentada pelo discurso da igualdade. Até esse momento, contudo, essa simetria havia sido desviada para o enfrentamento com elementos exteriores: as famílias de origem de um e de outro, as doenças e, dali em diante, o pai de Pablo.
Como casal que estava começando, seus conflitos mais aparentes eram: a) construir fronteiras em torno do seu casal, o que era tanto mais difícil naquele momento em que precisavam de uma ajuda econômica para o tratamento de Pablo; e b) estabelecer entre eles padrões de interação, integrando dois estilos e duas visões de mundo diferentes.
Elena qualificava-se de desorganizada e rebelde à autoridade; dizia viver como uma agressão o pedido de mais ordem formulado por Pablo. Via Pablo como excessivamente dependente, autoritário e violento.
Pablo considerava-se organizado e vivia a desorganização de Elena como uma agressão, como uma falta de respeito para com ele. Via Elena como desorganizada e rebelde, com mudanças bruscas e frequentes de estado de ânimo.
Num primeiro momento, a terapia se orientou para apoiá-los enquanto Pablo recebia seu tratamento, e para ajudá-los a pôr limites ao pai de Pablo. Quando a quimioterapia terminou e eles começaram a viver uma situação de normalidade, a frequência das escaladas aumentou, por qualquer motivo: ela o chamava de machista e de dependente quando ele lhe pedia que lhe servisse uma xícara de café; ele a chamava de desorganizada sob qualquer pretexto; e passavam cada vez mais dias sem se dirigir a palavra. As escaladas só diminuíam na véspera dos exames periódicos de Pablo, ou quando Elena “esquecia” de tomar seus medicamentos e sofria uma crise de epilepsia. Nesses momentos, diziam amar-se, querer aproveitar a vida juntos e construir um casal diferente.
Utilizei sem sucesso diferentes técnicas estruturais e paradoxais, depois do que lhes propus trabalhar “em outro nível”, sem palavras, para evitar que continuassem a se agredir verbalmente. Foi assim que iniciamos o processo terapêutico que apresento a seguir.
Trabalhamos essencialmente com dois tipos de técnica: a representação de sua relação em metáforas e o ensaio (rehearsal).
A metáfora é uma representação simbólica de uma situação; como tal, é sintética, totalizante, condensa elementos diferentes e situa-se no hemisfério direito do cérebro, que, sendo o hemisfério do inconsciente, é também aquele onde se situam os sintomas.
Uma comunicação metafórica é uma comunicação direta com o hemisfério direito, na sua língua: daí vem a sua força.
A metáfora tem dois níveis e dois significados: um, superficial, aparente, formado pela verbalização da metáfora, que ativa o segundo, mais profundo, quase sempre inconsciente, e que é pertinente e significativo para cada pessoa que a escuta ou a vive. Quando uma pessoa gera uma metáfora, esta exprime a dinâmica desse nível, sua realidade interna; e as mudanças que se produzirão na metáfora se produzirão simultaneamente nesse nível inconsciente profundo, nessa realidade interna, e determinarão, por conseguinte, mudanças nos afetos e nas condutas dessa pessoa.
Ainda que existam metáforas que se podem propor em terapia, como é o caso dos contos didáticos narrados por Milton Erickson, prefiro as metáforas criadas pela própria pessoa, e sugerir de fora a deflagração de processos que se geram desde o interior de cada pessoa.
A ideia de trabalhar com a representação simbólica de um vínculo me ocorreu ao descobrir o trabalho que Peggy Papp realiza com grupos de casais, que ela denomina “coreografia de casais” e descreve da seguinte maneira:
A coreografia de casais de Peggy Papp
“… pede-se aos casais que fechem os olhos e tenham um sonho ou uma fantasia em que visualizem seu parceiro representado simbolicamente. Pede-se-lhes em seguida que representem a forma que eles próprios deveriam assumir em relação a seu parceiro, a fim de assegurar que a fantasia seja sistêmica. Depois, pede-se-lhes que imaginem que movimento ou que dança essas duas formas deveriam ter, em função do problema que descreveram.”
Procede-se em seguida à dramatização dessas fantasias diante do grupo.
Minha maneira de trabalhar consiste em convidar cada membro do casal a representar a problemática da relação em uma metáfora, situada em um cenário. Trabalhamos depois com as metáforas criadas por ambos. Em cada uma, proponho-lhes que permaneçam em posição de observação e sugiro que A SOLUÇÃO DO CONFLITO ESTÁ SENDO GERADA.
Sessão após sessão, retomamos as metáforas, sugerindo assim que elas seguem um processo. Abro a sessão e a indução do transe com uma sugestão indireta (por exemplo: “vocês sabem como os tigres se curam?”), o que implica que viverão essa cura no transe, e deixo correr a fantasia. Antes de encerrar o transe, formulo sugestões pós-hipnóticas que são instruções de processo, do tipo da Bênção elaborada por Bandler e Grinder, em que se sugere que o processo iniciado prosseguirá naquela noite e em todas as noites necessárias, durante o sono, utilizando os mecanismos pelos quais se constituem os sonhos, de tal maneira que a pessoa se surpreenderá ao se descobrir agindo e sentindo de um modo novo e diferente.
Peço-lhes em seguida que contem sua fantasia. Isso é importante para conhecer o desenvolvimento do processo e para que compartilhem suas vivências. Não interpreto e não faço observações, a menos que estas sejam formuladas na linguagem e no contexto da metáfora, a fim de continuar trabalhando com o hemisfério direito e de evitar a intrusão do esquerdo. Neste caso, nunca se disse que Pablo e Elena eram os tigres ou as flores, embora eles o soubessem. Tiveram insights importantes, mesmo sem exprimi-los verbalmente.
O foco das sessões é o material da metáfora. Se outros temas são abordados, é apenas “enquanto isso”, à espera de que se produzam as mudanças que devem produzir-se no nível metafórico: enquanto os tigres dormem, por exemplo, e as plantas cicatrizam.
A utilização de metáforas pode ser complementada por outro tipo de técnica hipnótica, como o ensaio que apresento agora.
É uma técnica muito simples pela qual se obtém que a pessoa se autossugira analogicamente aquilo que ela aceita sugerir a si mesma. Consiste em pedir a cada membro do casal que construa uma cena em que esteja “sentindo-se como quer se sentir, vivendo como quer viver, agindo como quer agir”, e que a viva em todos os seus detalhes. Ao criar essa fantasia, já se cria uma nova realidade interna. Além disso, a descrição da fantasia pode ser utilizada como diagnóstico.
Foram realizadas oito sessões, com uma semana de intervalo.
Na primeira sessão, propus-lhes que cada um construísse uma metáfora. Elena visualizou uma planta, como uma íris, com um caule e duas flores, voltadas cada uma para um lado… A raiz e o caule não lhes permitiam ser diferentes.
Quando lhes pedi que visualizassem uma solução para essa situação, tanto Pablo quanto Elena se viram dividindo em duas o caule e a raiz, e plantando as duas plantas separadamente, mas uma perto da outra. Propus-lhes que dessem às plantas tempo para se adaptarem à sua nova terra, e passamos ao trabalho sobre a metáfora de Pablo.
Pablo viu, ao mesmo tempo em que sentia uma profunda tristeza, dois tigres feridos que se respeitavam e se temiam. Ele disse: “eles estão muito mal, com as feridas abertas e sangrando… precisam descontar em alguém… poderiam se unir, porque a selva é muito dura e nela é difícil encontrar um companheiro… foram filhotes doentios, fracos e maltratados…”
Elena entrou na cena e observou como os filhotes brigavam e se arranhavam, sem saber estar juntos; descobriu que os arranhões os faziam esquecer momentaneamente suas feridas. Ao vê-los crescer tão machucados, Elena chorou.
Pedi-lhes que se aproximassem deles e observassem suas feridas para se darem conta de como elas poderiam sarar. Elena aproximou-se e um dos tigres lhe permitiu passar álcool nele. Pablo não conseguiu aproximar-se dos tigres; à distância, observou que as feridas eram profundas. Ao sair do transe, ambos reconheceram suas feridas e as choraram.
Na segunda sessão, pedi-lhes primeiro que voltassem ao cenário das flores para observar como elas estavam. Ambos as acharam enfraquecidas, mas a ferida do caule começava a cicatrizar. Perguntei-lhes então: vocês sabem como os tigres se curam quando estão feridos? E, a partir daí, retomamos o trabalho em estado de transe.
Pablo viu o tigre estendido, sem fazer nada, à beira de um rio. Um pouco mais tarde, o tigre entrou na água, que Pablo sentiu deliciosa; depois saiu para a margem, pôs-se ao sol, descansou um momento e secou; caminhou até o bosque e ali adormeceu profundamente, um pouco triste e com muita sede.
Elena contou que no início o tigre lhe dava medo e que ela se escondia no matagal. “Ele caminhava, majestoso, ainda que ninguém o visse, e não mancava; eu sabia que ele estava ferido. Vi-o hesitar em entrar na água fria, a ferida profunda debaixo da pata dianteira lhe doía. No começo doía horrivelmente na água, depois ele gostou. Quando terminou de se banhar, foi deitar-se numa relva, comeu e dormiu.” Uma vez o tigre adormecido, Elena ousou aproximar-se para vê-lo dormir, feliz — tão indefeso! — tão diferente do que parecia ser… e a ferida se fechava…
Sugeri que essas histórias prosseguissem através de seus sonhos e que, da próxima vez, poderíamos ver o quanto as feridas dos tigres e das plantas haviam cicatrizado.
Durante a semana que se passou entre essa sessão e a seguinte, Elena aceitou fazer uma tomografia que o neurologista lhe pedia havia vários meses.
Chegaram à terceira sessão contando que estavam mais tranquilos, um pouco mais afastados um do outro, e que talvez fosse por isso que as brigas haviam diminuído. Fomos ver como estavam as flores e, como elas haviam se recuperado um pouco, passamos aos tigres, que continuavam dormindo. Sugeri que os deixássemos dormir o tempo necessário para que a cicatrização seguisse seu processo natural. Por iniciativa deles, dedicamos o resto da sessão a estabelecer acordos sobre a divisão das tarefas domésticas. Era a primeira vez que podiam fazê-lo.
Da vez seguinte, quarta sessão, chegaram preocupados com aquilo que chamavam de sua exigência e seu perfeccionismo. Encontrar um defeito em si mesmos ou no outro os afetava muito; não conseguiam aceitar os maus momentos. Sentiam-se tristes, mas tranquilos. Entramos na selva e, enquanto os tigres continuavam dormindo, pedi-lhes que caminhassem e descobrissem as coisas belas e as feias que ali se encontravam, as que alimentavam e as que faziam mal; isto é, que integrassem metaforicamente a totalidade selva-mundo, com seus aspectos positivos e negativos. Também dessa vez formulei uma sugestão pós-hipnótica de prosseguimento desse processo de exploração e de descoberta através dos sonhos.
Durante a quinta sessão, cada um reencontrou coisas belas que o outro lhe havia dado. Elena contou que Pablo a havia ajudado a melhorar a relação caótica que antes tinha com seus pais. Pablo lembrou-se de como Elena o havia impulsionado a prosseguir seus estudos.
Nessa ocasião, utilizei a técnica do ensaio. Pedi-lhes que construíssem uma cena em que se sentissem como queriam estar. Ambos construíram cenas em que estavam sozinhos. Repetimos o exercício com cenas diferentes e, nas últimas, um e outro chegaram a situar-se no mesmo espaço físico que o outro, mas separados, realizando atividades diferentes: lendo cada um o seu livro na sala, viajando os dois de carro pela estrada, “cada um mergulhado em seus próprios afazeres”.
Pude assim dar-me conta de que ainda não havia chegado o momento de eles aprenderem outra maneira de interagir. As flores já eram duas plantas independentes e começavam a se restabelecer. Os tigres continuavam dormindo.
Na sexta sessão, pusemos primeiro adubo nas plantas, para lhes dar ainda mais força, e depois passamos à selva. Os tigres já estavam acordados, passeando cada um de um lado do rio, observando-se em silêncio, com medo de interagir.
Elena contou como observava Pablo, seus gestos, tentando adivinhar se ele estava zangado com ela por uma razão ou outra, e como temia que ele começasse a gritar com ela de um momento para outro. Confessou ficar com muito medo quando Pablo se enfurecia: sentia-o como louco e receava que ele chegasse a bater nela. Por esse receio, Elena havia algum tempo calava tudo o que a incomodava. Pablo também observava Elena, temendo que, se comunicasse suas contrariedades, ela se afastasse ou tivesse um acesso de fúria. Além disso, Elena esqueceu de tomar seus medicamentos várias vezes e sofreu uma crise de epilepsia.
Terminei a sessão perguntando-lhes se sabiam como os tigres aprendem a brigar e a ficar bem, e sugeri que talvez o aprendessem sonhando.
Na semana seguinte, sétima sessão, sugeri-lhes que observassem o que acontecia quando um dos tigres atravessava o rio e se aproximava do outro, e que aprendessem com eles.
Elena observou várias tentativas de um dos tigres de atravessar, e como ele voltava quando o outro rosnava, não querendo que entrasse em seu território. Ele acabou ousando passar. O outro o observou e rosnou ainda mais. Quando o tigre recém-chegado tentou comer um pedaço de carne que estava ali, o outro o agrediu com uma patada, e o agredido reagiu jogando-se ao chão como se estivesse indefeso, numa atitude de submissão; então o outro não o agrediu mais, comeu sua carne e deixou um pouco para o recém-chegado. Depois disso, caminharam pela selva e caçaram juntos.
Para Pablo, o desfecho foi semelhante: caminharam juntos ao longo do rio buscando um novo território, os perigos encontrados no caminho os uniram… era como se, na selva, fosse melhor estar unidos do que separados. Houve alguns atritos quando cada um procurou um espaço para dormir e na hora de dividir a comida. Deram-se algumas patadas, e ora um cedia, ora o outro. Não se feriam de verdade, reconheciam-se como companheiros, começavam a se acostumar a estar juntos. Por momentos, um deles se afastava um pouco, tranquilo por saber que, se precisasse de ajuda, o outro estava por perto. Fiz em seguida com Elena um ensaio em que ela gritava com Pablo, sem temer sua reação.
Chegaram à oitava sessão contando que Elena havia gritado com Pablo várias vezes; este, em vez de se zangar, ria ao ver como Elena se assustava sozinha ao ouvir a si mesma gritar. Pablo grita muito menos agora. Elena diz que gostaria de uma relação de casal com menos gritos; eles, contudo, não se feriram. Digo-lhes que, quando se tem a certeza do amor do outro, pode-se brigar com a tranquilidade de saber que depois da briga ambos continuarão a se amar.
Antes de terminar a sessão, olharam as flores: estavam bem; observaram os tigres: continuavam tranquilos, bem, como companheiros.
Decidimos que era o momento de encerrar a terapia, porque as íris eram agora duas plantas fortes e independentes e os tigres haviam aprendido a viver juntos e a brigar. Sugeri que os processos iniciados prosseguiriam por toda a vida, de dia como de noite, especialmente enquanto dormissem e sonhassem.
Partindo da impossibilidade de analisar racionalmente e de descrever com palavras tudo o que se passou nesse processo, comentarei apenas os pontos que me parecem pertinentes. Cada pessoa que lê encontrará aí significados e riquezas diferentes.
A função do sintoma apareceu desde a primeira sessão: “os arranhões os faziam esquecer momentaneamente suas feridas”. Para que pudessem parar de se arranhar, era preciso, portanto, que essas feridas primeiro sarassem.
Ao longo de toda a terapia, construíram-se duas realidades diferentes, que determinam agora seus afetos e sua interação de outra maneira. Antes, estavam fundidos em uma única planta; agora, são duas plantas separadas, diferentes e próximas. Antes, eram dois tigres feridos que se atacavam para esquecer sua dor e que não sabiam viver juntos; agora, são dois tigres saudáveis, que podem ser companheiros, apoiar-se, cuidar um do outro e colaborar.
Importantes processos também se desenvolveram neles:
Por meio das flores: o caule e a raiz divididos, duas plantas replantadas separadamente, mas uma perto da outra.
Por meio dos tigres: o repouso, o rio, o sono prolongado por todo o tempo que fosse preciso.
O passeio pela selva os levou a aceitar as limitações, as suas e as dos outros, a integrar os elementos positivos e negativos de toda realidade: o que corresponderia, do ponto de vista da psicanálise kleiniana, ao processo de integração dos objetos totais.
Por meio dos tigres, aprenderam a manejar a simetria: a pôr fim à briga, a assumir um momento de complementaridade para poder continuar sendo iguais.
Para algumas pessoas, o final do processo pode parecer um tanto abrupto e precipitado. As metáforas indicavam, no entanto, que as mudanças já haviam ocorrido; e, na própria metáfora dos tigres, a possibilidade de recaída estava incluída e manejada de forma adequada: de repente davam-se algumas patadas, e em seguida um dos dois cedia. Por fim, havia a sugestão final de que os processos iniciados prosseguiriam — e assim foi.
Depois da última sessão, foram realizadas duas entrevistas de acompanhamento: uma aos seis meses, outra ao cabo de um ano. Em uma delas, Elena comentou: “é horrível, mas gritamos um com o outro cada vez com mais tranquilidade de consciência”. Houve mudanças na relação: ela agora prepara o café da manhã de Pablo e sente-se bem em fazê-lo, e Pablo tornou-se mais desorganizado. De modo geral, estão contentes e, de vez em quando, sonham com os tigres e as íris, reconhecem a selva e passeiam por ela.
Para lembrar
A simetria não se elabora nomeando-a. Dois tigres feridos que se arranham para esquecer suas feridas só podem aprender a brigar depois de tratados: a metáfora permite fazer cicatrizar antes de fazer negociar. E aprender a manejar a simetria é aprender a terminar a briga — aceitar um momento de complementaridade para poder continuar sendo iguais.
Quem é Teresa Robles de Fabre
(1) Teresa Robles de Fabre é mestre em antropologia e doutora em psicologia clínica. Membro titular e da diretoria da Asociación Mexicana de Terapia Familiar, A. C. Membro fundadora do Centro Mexicano de Investigación y Clínica, S. C.
Nota do original
Este trabalho foi publicado em Psicoterapia y Familia, volume I, n.º 1, revista da Asociación Mexicana de Terapia Familiar.
Referências
Eustace, R. y Robles de Fabre, T., “La nueva mujer y el cambio”. Trabajo presentado en el 50 aniversario de la Sociedad Mexicana de Neurología y Psiquiatría, A. C., Morelia, México, 1987.
Grinder, J., y Bandler, R., Trance-formations. Neuro-Linguistic Programming and the Structure of Hypnosis, New York: Bruner/Mazel, 1981.
Robles de Fabre, T., “La utilización de las técnicas hipnóticas como una herramienta en el proceso terapéutico”. Presentación en el XX Congreso de la Sociedad Interamericana de Psicología, Cuba, 1987.
Rosen, S., Mi voz irá contigo. Los cuentos didácticos de Milton H. Erickson, México: Paidós, 1986.
Este artigo é a tradução para o português de “Dos tigres aprenden a pelear. Elaboración de la simetría en una pareja a través del trance”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Psicoterapia y Familia, vol. I, n° 1, revue de l’Asociación Mexicana de Terapia Familiar). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Robles de Fabre, T. (2022). Dois tigres aprendem a brigar. A elaboração da simetria em um casal por meio do transe (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/dois-tigres-aprendem-a-brigar-a-elaboracao-da-simetria-em-um-casal-por-meio-do-transe (Obra original publicada em 2022 em Psicoterapia y Familia, vol. I, n° 1, revue de l’Asociación Mexicana de Terapia Familiar; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/21/dos-tigres-aprenden-a-pelear-elaboracion-de-la-simetria-en-una-pareja-a-traves-del-trance/)
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