Red Sistémica · Entrevista
Nestes dois últimos anos, a terapia cognitiva conheceu um desenvolvimento notável. Entre seus representantes está Guillem Feixas, diretor do Centro de Terapia Cognitiva de Barcelona que, apoiando-se na teoria dos construtos de Kelly, desenvolve um modelo de terapia que une a semântica e a pragmática aos recursos teóricos que lhe fornecem as epistemologias cognitiva e sistêmica.
“A partir do momento em que levamos em conta o significado, tudo muda de significado.”
Guillem Feixas
Depois de sua formação em psicoterapia existencial, você entrou no mundo da psicoterapia cognitiva, a ponto de hoje ser considerado um dos maiores conhecedores da teoria dos construtos de Kelly. Como você chegou a se interessar por esse modelo? Como se deu essa passagem do existencialismo ao cognitivismo?
Isso se deu no momento em que escolhi meu tema de pesquisa para uma bolsa de doutorado. Pareceu-me que a teoria dos construtos pessoais refletia no plano psicológico o que a abordagem existencial mostrava no plano filosófico. O existencial me agradou pela maneira como coloca questões como a liberdade, o que é o ser humano etc.; mas, no terreno da psicoterapia, falava muito pouco de técnicas. Eu me encontrava em um momento em que, como terapeuta em formação, estava ávido por procedimentos. A abordagem dos construtos, de certo modo, me trouxe esse ingrediente conceitual, acadêmico e metodológico de que eu precisava e, ao mesmo tempo, me deu os elementos próprios da terapia em si.
Mas, ao mesmo tempo, você fazia sua formação em terapia familiar sistêmica na Escola de Sant Pau…
Exatamente: comecei simultaneamente minha formação em terapia sistêmica na Escola de Terapia Familiar de Sant Pau, com Juan Luis Linares. Era uma formação paralela: de um lado a universidade e a teoria dos construtos, de outro o hospital e a sistêmica. Talvez para não me tornar esquizofrênico, comecei a integrar…
Uma complementaridade que hoje se pode julgar preciosa…
Na época, dei-me conta de que, em certas questões aparentemente pouco visíveis, existiam conexões importantes entre uma corrente e outra; sobretudo nos anos 1980, quando o movimento sistêmico começou a compreender que a comunicação não tinha apenas uma vertente pragmática, mas que ela coexistia com uma cibernética que leva em conta os significados e a semântica, as atribuições e as expectativas. Felizmente, em um congresso em Cambridge, encontrei Harry Procter. Ele havia feito o mesmo percurso que eu, mas quinze anos antes. Havia aprendido a teoria dos construtos trabalhando na Inglaterra, onde essa teoria era mais amplamente difundida, e além disso havia se formado na sistêmica. Defendeu uma tese de doutorado sobre os construtos familiares: uma integração teórica saída de uma pesquisa realizada com vários casos de famílias, nos quais se observavam os significados compartilhados e as interações. Essa descoberta foi muito importante para mim. Ao vê-lo trabalhar, ao compartilhar sua tarefa e ao me formar com ele, tive a confirmação de que essa abordagem era muito útil.
Em que se apoia essa abordagem?
No plano cognitivo, observa-se que traçar uma diferença é um dado de base para construir um significado. Bateson e Kelly disseram isso ao mesmo tempo, sem terem tido o menor contato um com o outro. A única conexão que se poderia apontar é que os dois pesquisadores se inspiraram em Korzybski. Kelly havia chegado a essa mesma posição muitos anos antes, na época em que Bateson escrevia “a teoria do duplo vínculo”. Mas não se trata de dizer que um copiou o outro. Bateson utilizou a teoria de uma maneira, e Kelly de outra. Além disso, se os compararmos, Kelly, que era psicólogo clínico, era mais limitado em suas capacidades intelectuais do que Bateson, o qual tinha uma visão global do conhecimento, como um Leonardo da Vinci da ciência.
Quem não pareceria intelectualmente pobre ao lado de Bateson! Naquela época, pesquisas paralelas se desenvolviam com os mesmos objetivos, e seus autores não se conheciam entre si. Vivemos hoje tempos muito diferentes, com uma rede como a Internet que nos conecta e nos informa das pesquisas e da produção dos trabalhos. Dito isso, como você pensa a terapia cognitiva hoje? Pois os profissionais que ignoram esses modelos tão inovadores em geral assimilam a terapia comportamental à terapia cognitiva. Que diferenças você poderia traçar?
Não se deve culpar esses profissionais, pois a terapia comportamentalista teve a capacidade de incorporar muitas coisas novas, mas a mudança epistemológica é uma mudança menos visível. Historicamente, o behaviorismo teve de evoluir rumo ao cognitivo quando admitiu uma aprendizagem que não decorria apenas do condicionamento clássico e operante. Se eu vejo você e aprendo alguma coisa, isso quer dizer que se passa em minha mente algo que simboliza o que vi e me permite retê-lo para aplicá-lo em seguida. Isso supõe a existência de processos simbólicos não observáveis, e é isso que lhes criou um problema enorme: eles queriam se ater ao observável ou ao mensurável, ora, isso só é quantificável por meio da autoavaliação que, como todos sabem, é uma medida pouco confiável.
Mas, atualmente, existem na linha comportamentalista diferentes concepções da aprendizagem…
Há quatro grandes formas de aprendizagem: o condicionamento clássico, o condicionamento operante, a aprendizagem por observação e, enfim, Beck e Ellis — que pegaram o trem andando, desertando da psicanálise — assinalaram que existia também uma aprendizagem cognitiva. Mas sempre, ainda hoje, com a dúvida e a resistência quanto a saber se o cognitivo acrescenta algo ao comportamental.
A primeira forma de aprendizagem reconhecida pelo behaviorismo.
A segunda, fundada nas consequências do comportamento.
Ela supõe processos simbólicos não observáveis: o problema epistemológico começa aí.
Assinalada por Beck e Ellis, com a dúvida persistente de saber se o cognitivo acrescenta algo ao comportamental.
Em contrapartida, alguns dos pesquisadores que foram os protagonistas mais marcantes da passagem do comportamental ao cognitivo-comportamental — como, por exemplo, Michael Mahoney e Donald Meichenbaum — deram-se conta de que essa abordagem era muito limitada: a partir do momento em que levamos em conta o significado, tudo muda de significado, se me for permitida a redundância. Em outras palavras, se consideramos que o comportamento tem um significado, então as emoções e tudo o que acontece têm um significado. O foco do trabalho deve estar centrado nesses processos de produção de sentido e, se o comportamento é uma interação com os outros — coisa que eles habitualmente não reconhecem tanto assim —, ele afeta as próprias estruturas de significado.
Nessa perspectiva, abandona-se a concepção que associa pensamento e cognição…
Mahoney fez a revolução dentro da revolução. Avançou a ideia de que cognição não é sinônimo de pensamento, mas que a cognição tem a ver com um processo mais complexo, o de atribuir um significado à experiência: um processo que não se efetua pensando, já que significar é um processo bem mais abrangente. Reencontrou-se a raiz etimológica da palavra cognição, o conhecimento como atividade de base, mais holística, na qual há um conhecimento explícito e um conhecimento tácito. Por essa formulação, Mahoney foi acusado de se aproximar da psicanálise. Começou-se a reconhecer na pessoa toda uma série de elementos inconscientes, não com os conteúdos que Freud lhes atribuía, mas simplesmente como um saber não explicitável.
Como uma estrutura conceitual, onde se alojam esquemas socioculturais e familiares, códigos, um sistema de crenças e de valores etc.
Sim. A meu ver, eles sempre tiveram um certo reconhecimento do interacional e do supraindividual, mas não à maneira do modelo sistêmico, do qual esse é o próprio foco do trabalho. Os cognitivistas construtivistas — foi assim que Mahoney sugeriu chamar essa nova abordagem — apoiaram-se nos trabalhos de construtivismo de Maturana, Varela, von Foerster, e mesmo os construtivistas puros levam em conta tudo o que se passa na interação, mas esse não é seu foco de análise.
Então, como o cognitivismo considera a aprendizagem?
Não se considera a aprendizagem cognitiva como mais uma aprendizagem que se acrescentaria às outras: de certo modo, tudo tem a ver com o processo que consiste em conceder significados. A maneira como eu o reformulo consiste em distinguir os fenômenos psicológicos — por exemplo pensar, sonhar, sentir, fazer coisas etc., isto é, o comportamento, a emoção, a ação, a atividade onírica: são fenômenos que ocorrem no viver. Mas a cognição é outra coisa: ela tem a ver com o processo que dá significado à experiência. E nada do que ocorre no viver é independente desse processo. Em outras palavras, os comportamentalistas dizem: cognição igual a pensamento; a partir daí, um pensamento causa a ação, ou a ação causa o pensamento? Esse raciocínio é fechado desde o início, porque pensamento e emoção são fenômenos psicológicos que ocorrem no processo do viver; um pode se produzir primeiro e o outro em seguida, ou o inverso, mas o fato de um ocorrer antes do outro não indica que um cause o outro.
Se partimos de uma epistemologia circular, seria linear pensar buscando uma origem. Se o outro tenta me comunicar alguma coisa, se construo algo a respeito do que ele diz e se sinto algo a partir do que construo, faço do processo uma sequência linear. Por que não ouvir essa sequência como um processo recursivo, em que emoção e pensamento se reativam circularmente, e integrar aí a ação? Além disso, em última instância, quando se trabalha em sessão com perguntas circulares, abarca-se o pensamento, a emoção e a ação, e esses três elementos circulam circularmente. O que você acha?
Concordo. Dizer que alguém me disse alguma coisa, que pensei tal coisa e depois senti tal outra é uma pontuação de um processo bem mais complexo. O problema, portanto, é confundir pensamento e cognição. No interior da cognição, eu distinguiria entre processos cognitivos, estruturas cognitivas e conteúdos.
A cognição é um metanível…
Exatamente. As emoções que sentimos têm um significado e estão, portanto, conectadas à cognição, mas não necessariamente ao pensamento. Que estejam ou não conectadas ao pensamento depende da sequência concreta. O importante é compreender que tudo o que sentimos ou tudo o que pensamos tem a ver com nossas estruturas de significado. A estrutura de significado nos dá um certo sentimento de identidade, isto é, de sermos os mesmos agora e cinco minutos, cinco meses ou cinco anos atrás. Conforme a flexibilidade ou a rigidez da estrutura de significado, incorporaremos ou não a novidade. As estruturas cognitivas limitam o tipo de processo, mas, para compreendê-lo, precisamos de uma teoria que nos explique como essa estrutura é feita, e não o que é o pensamento. O pensamento é um produto pontual que emerge, como a emoção: o que sinto também me faz modificar coisas. Como processo recursivo, é imparável: enquanto estamos vivos, não paramos de processar.
Cognição igual a pensamento
A leitura comportamentalista: busca-se então saber se o pensamento causa a ação ou o inverso — uma pergunta fechada desde o início.
Cognição como metanível
A cognição é o processo que dá significado à experiência. Pensamento, emoção e comportamento são fenômenos do viver; nenhum escapa a esse processo.
Guillem, diante do que você desenvolve, poderíamos definir seu modelo de trabalho como um cognitivismo sistêmico.
Bem, meu modelo de trabalho se inspira nas ideias que lhe transmito: no princípio, a teoria dos construtos. O que me satisfaz nessa teoria é esse aspecto tão pessoal do construto. Harry Procter sublinha que os sistemas de construção pessoal supõem, no interior do sistema de construção, um posicionamento mais elevado que o sistema familiar, o qual supõe por sua vez uma interpretação de um sistema cultural mais amplo.
Creio que precisamos hoje falar das cognições da cibernética da relação, pois se ficarmos no quadro da polaridade cibernética ou no da polaridade cognitiva, ficamos maneta de certa maneira. No interior desse modelo de trabalho terapêutico, quais são as estratégias que mais convêm ao seu estilo de terapeuta? Pois todos nós, terapeutas, temos técnicas ou estratégias que se ajustam melhor à nossa roupagem conceitual, ao nosso mapa…
Bem, Kelly não produziu um conjunto de técnicas nem um método, ao contrário de outras correntes cognitivistas construtivistas, por exemplo a de Vittorio Guidano, que produziu seu próprio método: 1) reconstrução da experiência imediata; 2) reconstrução do aspecto afetivo; 3) análise evolutiva. A abordagem de Kelly, por sua vez, está centrada na maneira como funciona a cognição. Por exemplo, diziam a Kelly: você é cognitivista, e ele respondia que não concordava — pois, nos anos 1950, cognitivo significava não ser emocional. É uma teoria sobre o modo como os significados mudam, sobre o modo como operam, sobre as razões que fazem alguém preferir não mudar em vez de mudar, de maneira a manter seu sentimento de coerência. Para mim, essa teoria preenche um vazio muito importante na sistêmica: quando a sistêmica percebeu que, na interação dos sistemas, a comunicação não é apenas pragmática, faltaram-lhe os instrumentos para descrever a semântica. Ela importou as atribuições da psicologia e da psicologia social; mas como funciona a cognição, por que as pessoas estão dispostas a mudar certas atribuições e não outras, como um sentimento de identidade pessoal se integra na identidade sistêmica: tudo isso é um tema ainda não tratado em profundidade.
Outro ponto interessante é o das emoções. É um tema que a terapia sistêmica começou a trabalhar há menos de dez anos. O plano emocional havia sido relegado. Os primeiros trabalhos a levá-lo em conta foram os de Virginia Satir; a eles se somaram em seguida os de Juan Luis Linares, que desenvolveu o conceito de nutrição emocional. Como a terapia cognitiva analisa o plano emocional?
As emoções são fenômenos psicológicos, assim como os pensamentos e os comportamentos. Elas têm a particularidade de ser, como todos os fenômenos psicológicos, plenas de significado, e é preciso compreendê-las como um fenômeno que tem a ver com o significado. Se devo falar em público, começo a sentir certas emoções; isso não é independente do significado que dou a essa situação. Isso pode ou não passar por um pensamento; o significado que lhe dou é outra coisa, não é o que estou pensando. A ideia essencial é, em primeiro lugar, que as emoções têm a ver com o significado; em segundo lugar, que quando as emoções são muito intensas, elas têm a ver com significados de alto valor na estrutura, isto é, com significados que tocam a identidade: nós os chamamos de construtos nucleares, aqueles que me servem para continuar a me sentir aquele que sou. Quando isso é afetado para mal, porque está ameaçado, ou para bem, porque acontece de eu me sentir dilatado em meu sentimento de identidade — por exemplo quando amo ou quando experimento emoções positivas —, o tipo de fenômeno psicológico que vivo é de tipo emocional. As emoções são muito importantes, porque estão diretamente conectadas ao que é nuclear na estrutura cognitiva e porque, ademais, essas estruturas são normalmente tácitas, isto é, escapam facilmente a uma verbalização adequada. É por isso que, muitas vezes, a única maneira de aceder às estruturas cognitivas mais nucleares passa pelo afeto e pelas emoções.
Quando um ser humano atravessa afetos profundos, é aí que se desencadeiam os elementos mais nucleares da personalidade. A pessoa pode gerir suas atitudes de modo mais dissociado — se assim se pode dizer — quando não há conexão emocional muito profunda.
Claro, porque a parte mais emocional se implica tanto mais quanto se está engajado em uma relação.
Para lembrar
Para Feixas, a intensidade de uma emoção sinaliza o lugar que ocupa, na estrutura de significado, aquilo que está em jogo: as emoções fortes tocam os construtos nucleares, aqueles que sustentam o sentimento de identidade. Como esses construtos são na maioria das vezes tácitos, o afeto se torna a via de acesso privilegiada àquilo que a palavra não alcança.
No seu estilo terapêutico, você pode trabalhar com um casal ou com uma família?
Sim. Penso que é importante — e avançamos muito nesse ponto — distinguir a maneira de pensar e o formato da terapia. A vantagem de uma abordagem cognitivo-construtivista sistêmica é que ela não depende de um contexto: permite-me conceituar o que acontece ao indivíduo ou à família sem ter de mudar de modelo. O mesmo modelo me permite observar o que se passa no nível dos construtos pessoais e dos construtos familiares. Nesse ponto, a peça central é a interação. A pragmática não deve ser banida, ela continua útil. Esse é o problema que Bateson encontrou quando falou de uma mente que vai além do crânio, além da pele. Se tenho com minha família algo em comum em nossa mente, como isso se comunica? Por vasos comunicantes, ou por um eletrodo que nos colocariam na cabeça? Não: é através de uma interação, na pragmática, na conduta entre as pessoas, que nossas construções entram em jogo, que as comunicamos, as mudamos e as expressamos…
Ali onde compartilhamos e traçamos diferenças…
Exatamente: é aí que tudo acontece, na interação. O que ocorre é que a interação não pode ser analisada independentemente dos significados pessoais e familiares que implica. O que a teoria dos construtos familiares me traz é um esquema para compreender tudo isso em congruência com os diferentes níveis de análise; e é aí, para mim, o aporte fundamental dessa teoria.
Assim, a teoria dos construtos oferece uma garantia epistemológica, mas não possui uma metodologia.
Não há aporte particular no nível técnico. A teoria de Kelly é uma abordagem que serve para compreender as coisas de modo amplo, para conceber objetivos e estratégias. Estratégias que respondem à pergunta de saber o que quero obter: que eu deseje flexibilizar um sistema para que ele leve em conta mais de duas alternativas, ou que eu queira tornar mais flexível uma entidade que permita à pessoa se compreender como alguém que está nesta situação e também naquela outra. Mas como fazer isso? É preciso, no entanto, precisar que Kelly propôs algumas técnicas, que em geral utilizou pouco. Não é sua riqueza técnica que faz o valor do modelo. Tecnicamente, pode-se considerá-lo um eclético.
Mas o termo eclético às vezes deixa entender muitas coisas. Você quer dizer que utiliza diferentes recursos aprendidos de outros modelos ao longo de sua formação?
Posso utilizar, por exemplo, a hipnose, técnicas de terapia familiar clássicas e modernas, perguntas circulares etc., contanto que tudo isso seja coerente com a hipótese que fiz sobre os processos de construção implicados no problema e na demanda. Nesse sentido, sinto-me muito livre; normalmente prefiro perguntar ao cliente quais ele gostaria de empregar, mas como o cliente só em alguns casos tem uma ideia de como resolver essas coisas, só raramente se chega, no plano técnico, a uma verdadeira coconstrução.
A seu ver, qual seria a técnica ou a estratégia mais característica?
Creio que a mais característica é a ressignificação. Quando a ressignificação é exposta no livro Mudança de Watzlawick, em 1974, e depois em outros textos, explica-se claramente como se deve praticá-lo; mas resta-me uma pergunta sem resposta: o que se busca obter ao ressignificar, qual é seu objetivo? Quando nos colocamos a pergunta, vamos logo à teoria e vemos que não há teoria. É ressignificar por ressignificar, isto é, conceder um significado diferente; mas que tipo de significado? Busca-se mudar de polo, substituir outro construto, ou fazer variar o âmbito de conveniência?
É importante também contextualizar o momento em que o texto foi escrito. Eram os inícios da construção de um modelo. A intervenção se mostrava eficaz na pragmática, mas faltava uma explicação do lado da semântica, à qual os cognitivistas sem dúvida conseguiram dar um corpo teórico.
Claro, porque naquele momento era uma ressignificação destinada a vender melhor a intervenção. Em seguida, deu-se conta de que mudar o significado já era em si importante, mais até que a própria prescrição paradoxal ou que qualquer outra. A ressignificação supunha uma mudança de significado, ao que a revolução cognitiva do início dos anos 1980 não foi estranha: admitir que a comunicação era também semântica.
Quanto às atribuições de significado: como podemos falar de um problema para a família se existem em cada membro construções diferentes a respeito desse problema? A propósito, você pensa que a construção de um problema seria uma atribuição de significado por cima de uma dificuldade?
O problema é algo que foi distinguido como problemático por alguém e que engendra uma dor. Como ideia, incorporar a noção de sistemas determinados pelo problema, de Harry Goolishian, me parece perfeitamente pertinente, porque, de certa maneira, definir algo como um problema supõe traçar uma distinção, e isso implica tanto as pessoas que participam dessa distinção e a compartilham de ordinário quanto o paciente identificado. É por isso que me parece uma elaboração muito precisa e muito útil.
Nessa perspectiva, você acha que é preciso sempre convocar toda a família?
A questão de saber com quem se trabalha — o casal, o indivíduo ou a família — é um problema de ordem prática, não de ordem teórica: o modelo conceitual com que trabalho e o formato são duas coisas diferentes. O formato terapêutico dependerá de muitas coisas e, nesse sentido, busco sempre dispor do contexto mais amplo possível: o das pessoas que participam da definição dessa dificuldade como problema. É um processo muito negociado com os clientes; o fato de trabalhar ora com uma família, ora com um único indivíduo é uma decisão que tem em si mesma um significado importante. Por exemplo, quando uma esposa não quer trazer o marido à terapia, ao mesmo tempo que lhe diz que o problema tem a ver com a relação, isso já supõe um significado e uma decisão. A questão de saber com quem trabalhar é um problema de ordem prática. Por conseguinte, quando um caso começa, nunca sei se vou trabalhar com o indivíduo, com a família ou com quem quer que seja; não tenho formato rígido, devo ajustá-lo à situação particular.
Para lembrar
O formato do atendimento — indivíduo, casal ou família — é para Feixas de ordem prática, não de ordem teórica: um mesmo modelo conceitual dá conta tanto dos construtos pessoais quanto dos construtos familiares. Mas a escolha das pessoas presentes nunca é neutra; ela própria carrega um significado, que se negocia com os consulentes.
Se fizermos um percurso histórico, creio que você concordará que a terapia se transformou e se adaptou aos diferentes contextos e às diferentes épocas. Como você pensa a psicoterapia do século XXI?
Eu a imagino se estendendo no terreno desse biologismo crescente que existe como tendência mundial. Impulsionada por vários grandes motores: de um lado o biologismo como reducionismo teórico; de outro, o poder econômico dos laboratórios; enfim, o poder econômico de um Estado de bem-estar — que é cada vez menos um Estado de bem-estar — e que exige intervenções mais breves e mais pontuais. Vejo a psicoterapia perder terreno, porque nós, terapeutas, temos em geral pouca visão de futuro em uma perspectiva global, e porque fizemos pouca pesquisa para demonstrar que, se organizássemos a saúde mental prestando atenção aos significados e aos significados compartilhados, poderíamos construir um sistema igualmente rentável, sem que fosse necessário medicar tanto e com muito menos efeitos colaterais. Mas como não demonstramos sua eficácia, como não tivemos perseverança suficiente, e como há cada vez menos serviços orientados de maneira psicológica, perdemos sistematicamente campos de intervenção.
Parece que, em vez de desestruturar essa velha dicotomia corpo-mente, ela é reforçada ainda mais…
Regularmente, alguém anuncia ter encontrado um gene do alcoolismo ou da timidez social; a partir daí, justifica-se erradamente a intervenção biológica pelo correlato biológico. Somos seres vivos: tudo tem um correlato biológico. Esta conversa tem um correlato biológico; a leitura que um leitor poderá fazer deste texto tem um correlato biológico. Se, um dia, ele se lembrar do que acontece, isso quer dizer que uma estrutura de seu RNA ou de sua rede neuronal subjetiva mudou para poder se lembrar. Uma conversa muda neurônios ou estruturas subjetivas; tudo tem um correlato biológico, mas isso não justifica que a melhor descrição de nossa conversa se faça em termos de parâmetros biológicos. Incutem-nos a ideia de que, já que isso tem uma base biológica, é melhor não intervir psicoterapeuticamente e que é preciso intervir biologicamente; e nisso, às vezes até nós, psicólogos, acreditamos. Eis o que me parece um erro que vai nos custar muito caro.
Não há dúvida de que entrar nesse tema abarca um raio social, político, econômico, questões de ética e de responsabilidade profissional etc., e que haveria aí matéria para uma nova entrevista. Para concluir, em ligação com essa perspectiva de futuro, o que você poderia aconselhar a um psicólogo em formação?
Não há nada mais prático do que uma boa teoria, disse-se há muito tempo. Em outras palavras: que ele escolha uma teoria que não o encerre nas técnicas, que não limite sua criatividade, que não seja reducionista. Que ele tente em seguida favorecer a pesquisa e que não se exclua do jogo mundial da eficácia. É preciso conseguir demonstrar a eficácia: a mulher de César não deve apenas ser honesta, deve também parecê-lo. Não podemos nos furtar a essa responsabilidade, pois nossa prática privada ou nossos livros talvez continuem a se vender, mas devemos pensar nas gerações seguintes. E não é um conselho para um terapeuta iniciante: é um conselho para mim e para todos os da minha geração, e para as gerações que nos precederam, que viveram bem proclamando seus modelos a partir da demonstração de que eram bons terapeutas e bons clínicos. Mas isso não basta: se temos uma perspectiva mais global, portanto mais sistêmica, e se nos consideramos verdadeiramente sistêmicos, devemos fazer pesquisa para crescer e nos desenvolver.
Esta entrevista é a tradução para o português de “Entre la semántica y la pragmática. Un diálogo con Guilem Feixas”, publicada pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 58). Traduzida e republicada com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Rodríguez Ceberio, M. (2022). Entre a semântica e a pragmática. Entrevista com Guillem Feixas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/entre-a-semantica-e-a-pragmatica-entrevista-com-guillem-feixas (Obra original publicada em 2022 em Perspectivas Sistémicas, n° 58; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/28/entre-la-semantica-y-la-pragmatica-un-dialogo-con-guilem-feixas/)
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