Families, Relationships and Societies · Família

“Ficou um enorme vazio no meio da família”: situar as práticas familiares no contexto do luto (fraterno)

O que acontece com uma família quando um irmão ou uma irmã morre? Com base em 36 entrevistas realizadas na Inglaterra com pessoas enlutadas havia pelo menos cinco anos, Laura Towers mostra que a morte continua, décadas depois, a organizar as ligações diárias para os pais, as mudanças de casa e até o desejo de ter filhos. O artigo amplia assim o conceito de práticas familiares do sociólogo David Morgan.

Autores Laura Towers (Universidade de Sheffield, Reino Unido)Primeira publicação Families, Relationships and Societies, 26 de fevereiro de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Ficou um enorme vazio no meio da família”: situar as práticas familiares no contexto do luto (fraterno), de Laura Towers, publicado na Families, Relationships and Societies (Bristol University Press) (2025), doi: 10.1332/204674324x17068706068793, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela do apêndice é apresentada em forma de lista. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O luto pode ser uma presença dominante, embora sutil, na maneira como as práticas familiares são moldadas e administradas.

Laura Towers

Resumo

A vida familiar é mudada de forma permanente e irrevogável pela morte, o que obriga as pessoas enlutadas a adotar novas maneiras de “fazer” família. Com base nos dados de um estudo qualitativo sobre experiências de luto pela perda de um irmão ou de uma irmã, este artigo mostra que a morte pode manter uma presença poderosa para quem fica e moldar a maneira como os membros de uma família se relacionam. Argumenta-se que o luto pode influenciar o estabelecimento e a encenação das práticas familiares, o que evidencia que as práticas familiares podem se inscrever sutilmente no contexto do luto. Este artigo amplia o conceito de práticas familiares de Morgan numa direção ainda não explorada. Conclui que a sociologia pode aprender mais sobre as dinâmicas sutis da vida familiar ao reconhecer a influência possível da morte e do luto sobre a maneira como as relações são conduzidas e negociadas ao longo do tempo.

Introdução

A morte é uma das poucas certezas da vida. No entanto, ela continua amplamente negligenciada pela sociologia das famílias e das relações. Ao ser o primeiro trabalho a examinar a obra de Morgan (1996; 2011a) sobre as práticas familiares em relação ao luto por um irmão ou uma irmã, este artigo amplia nossa compreensão da obra de Morgan numa nova direção e oferece à sociologia outro olhar para explorar a vida familiar. Ele reconhece o papel influente que a morte desempenha nas maneiras como a família é “feita” ao longo do tempo e procura mostrar que as práticas familiares são mais bem compreendidas quando situadas no contexto do luto. Com isso, reconecta a morte à banalidade da vida cotidiana, destaca a natureza relacional e temporal das experiências de luto e enriquece nossa compreensão geral de como os membros de uma família se relacionam. Assim, contribui para um corpo pequeno, mas crescente, de trabalhos que mostram como aproximar os estudos sobre a morte das sociologias das famílias, das relações e da vida pessoal pode melhorar muito nossa compreensão das relações entre os vivos (Woodthorpe e Rumble, 2016; Borgstrom et al., 2019; Almack, 2022; Towers, 2022; Ribbens McCarthy et al., 2023).

Em razão do argumento geral deste artigo, seu foco não é o luto fraterno em si, mas a maneira como o luto influencia as formas como os membros de uma família se relacionam no contexto da perda de um irmão ou de uma irmã. Ainda assim, ao explorar essa questão pelo prisma do luto fraterno, este artigo inevitavelmente melhora nossa compreensão dessas experiências, sobretudo diante da pouca atenção dada, de modo geral, a irmãos e irmãs em luto (Marshall e Winokeur, 2017). A literatura disponível, limitada, provém sobretudo das disciplinas “psi” (por exemplo, a psiquiatria e a psicologia) e, por isso, enfatiza a patologia individual, deixando de reconhecer a relacionalidade do luto e a longa duração das experiências de pesar. Os exemplos apresentados neste artigo mostram algumas das maneiras como o luto fraterno está inserido ao mesmo tempo no tempo e nas relações. Com isso, o artigo traz uma contribuição secundária: amplia a compreensão do que significa ter perdido um irmão ou uma irmã e oferece um relato alternativo, baseado na experiência, dessa perda.

Na cultura popular, assim como nas abordagens acadêmicas e clínicas, a morte é pensada em termos de crise, como um “acontecimento extraordinário que provoca experiências emocionais intensas e extremas” (Ellis, 2013: 252). Predomina assim um “pensamento da ruptura” (Ellis, 2013: 251), que vê a morte como algo que desestabiliza nosso senso de si e rompe a segurança presumida de nossa biografia (Jakoby, 2015). Consequentemente, o “processo de luto” é entendido como algo que exige “reparar essa ruptura e desenvolver uma nova maneira de adotar um novo senso de si” (Souza, 2017: 61). Esse pensamento, porém, reflete a concepção medicalizada dominante do luto como uma condição a ser tratada (Valentine, 2008) e transforma a morte em algo desconectado da banalidade da vida cotidiana (Ellis, 2013). Também concebe o luto em termos individualistas, como algo a ser administrado isoladamente das relações sociais, e assim deixa de reconhecer a natureza relacional das experiências de luto (Ribbens McCarthy et al., 2023). O luto (bereavement) designa um estado de perda, enquanto o pesar (grief) é uma reação emocional a essa perda (Doka e Martin, 2010). Como não é possível restaurar o que foi perdido, a condição de pessoa enlutada é permanente: uma mãe enlutada será sempre uma mãe enlutada, não importa quando seu filho ou sua filha morreu nem se ela tem outros filhos vivos. Parte do luto consiste, portanto, em aprender a se ajustar e se adaptar a um novo modo de vida sem a pessoa que morreu (Doka e Martin, 2010). Assim, embora as experiências de luto possam sem dúvida ser profundas e abalar a própria essência de quem somos, elas também podem estar ancoradas nas rotinas e nas relações da vida cotidiana.

Para o bem ou para o mal, a vida familiar muda irreparavelmente depois de uma morte (Funk et al., 2017), com implicações importantes para as relações familiares que continuam (Almack, 2022). No entanto, os estudos sobre a morte costumam se ocupar de entender como as pessoas mantêm relações com os mortos, e por isso muito pouca atenção foi dada às maneiras como elas administram, depois de uma morte, as relações que seguem com os vivos (Woodthorpe e Rumble, 2016; Ribbens McCarthy et al., 2023). Um pequeno número de estudos começou a explorar como a morte afeta as famílias e sua maneira de “fazer” relações no luto, especificamente em relação à herança (ver Finch e Mason, 2000) e à organização de funerais (ver Woodthorpe e Rumble, 2016; Woodthorpe, 2017). Um número ainda menor aplicou a ideia de práticas familiares de Morgan (1996; 2011a), em geral a momentos em que um membro da família está morrendo (Ellis, 2013; 2018; Borgstrom et al., 2019; Almack, 2022). Embora Pearce e Komaromy (2021) ofereçam alguma compreensão das maneiras de “fazer” a vida familiar depois de uma morte, no contexto da perda de um pai ou de uma mãe, um exame direto das práticas familiares no luto está em grande parte ausente da discussão; é essa lacuna que este artigo procura preencher.

O artigo começa com uma revisão da literatura e do quadro conceitual pertinentes e, em seguida, apresenta o estudo original. Depois passa à discussão principal, dividida em três partes. Com o exemplo da comunicação, a primeira parte mostra que o luto pode continuar a moldar sutilmente as práticas familiares cotidianas muito tempo depois da morte. Em seguida, a segunda parte examina como as decisões sobre acontecimentos de vida também considerados práticas familiares, como uma mudança de casa, podem igualmente ser influenciadas pelo luto. Isso leva à terceira parte, que reconhece que as práticas familiares podem se sobrepor, quando as pessoas negociam o pertencimento a uma família “de origem” ao mesmo tempo que à sua família “escolhida”. Essa última parte mostra, assim, como o luto pode influenciar a maneira como cada pessoa aborda e negocia essas práticas sobrepostas. Esses argumentos mostram que as sociologias das famílias, das relações e da vida pessoal podem compreender melhor as práticas familiares ao reconhecer a presença persistente da morte nas relações entre os vivos, ao passo que os estudos multidisciplinares sobre a morte ganhariam ao reconhecer mais a relacionalidade das experiências de luto. O artigo conclui, portanto, que há muito a aprender sobre a vida familiar, as relações e as práticas ao continuar fortalecendo as conexões entre os estudos sobre a morte e a sociologia geral.

A morte na “família”

Toda discussão sobre a “família” deve começar pelo reconhecimento de que “família” é um termo muito contestado (Ribbens McCarthy, 2012), pois sugere falsamente uma série de estruturas rígidas e fixas (Morgan, 1996). O próprio Morgan (2011a), porém, reconhece que a ideia de “família” conserva valor e relevância, pois continua sendo uma esfera distinta de práticas e experiências cotidianas, e as pessoas ainda empregam a linguagem da família na vida diária (Edwards et al., 2012; Ribbens McCarthy, 2012), nas políticas sociais (Woodthorpe e Rumble, 2016) e nos discursos políticos (Edwards et al., 2012). Assim, “no rescaldo contínuo da morte, ‘família’ precisa ser entendida como um termo poderoso, mas problemático, muito fluido e coconstruído” (Ribbens McCarthy et al., 2023: 6).

Embora a morte seja um “acontecimento ‘familiar’ importante” (Almack, 2022: 237), falar de um “pesar familiar” como um todo coletivo ignora a individualidade da experiência de cada membro e simplifica em excesso uma interação complexa de emoções (Breen et al., 2018). Há, antes, uma “interação entre membros da família que vivem cada qual seu pesar no contexto social e relacional da família, cada membro afetando os outros e sendo afetado por eles” (Gilbert, 1996: 271). Embora haja uma literatura crescente que reconhece a influência da vida familiar e das relações sobre as experiências de luto (Rosenblatt, 2000; Valentine, 2008; Walter, 2020), é a questão inversa, a de como o luto molda a vida familiar e as relações, que tem prioridade aqui. Em diferentes projetos, Tony Walter destaca as maneiras simbólicas pelas quais a “família” é construída no contexto do luto. Por exemplo, os funerais ajudam a reforçar normas culturais tradicionais de “família” em detrimento de interpretações mais fluidas (Walter e Bailey, 2020), enquanto hierarquias tácitas do pesar reforçam, e são reforçadas por, percepções sobre quem é considerado mais ou menos “legitimado” a viver o luto; essas percepções ajudam então a reificar ideias sobre quem é, ou não é, visto como membro da “família” (enlutada) (Robson e Walter, 2012).

A literatura é bem mais ampla quando se consideram vínculos relacionais específicos. Quanto a irmãos e irmãs, Winokuer (2017) constatou que a morte de um pai ou de uma mãe pode levar os membros de uma fratria a perder o contato, por já não haver um vínculo comum que aproxime a fratria, enquanto Connidis (2001) sugere que a morte dos pais pode (re)aproximar irmãos e irmãs. Mais uma vez, porém, a maneira como as pessoas vivem esses momentos é insuficientemente explorada, e o impacto da morte sobre suas relações familiares cotidianas acaba negligenciado. De fato, a literatura como um todo se ocupa sobretudo do período de pesar imediatamente posterior à morte e, por isso, não reconhece o luto como uma experiência contínua que as famílias atravessam e negociam ao longo do tempo (Ribbens McCarthy et al., 2023). Sabe-se, portanto, muito pouco sobre o impacto das experiências contínuas de luto na vida familiar. Este artigo contribui para preencher essa lacuna ao explorar como as práticas familiares podem continuar a ser diretamente moldadas pelo luto, tomando a perda de um irmão ou de uma irmã como prisma para avançar nessa discussão.

(Re)situar as práticas familiares

Como se costuma lembrar, a premissa central da “abordagem pelas práticas” é a ideia de que a família é algo que as pessoas “fazem”, e não algo que elas “têm” ou “são” (Morgan, 2011a). Essa ideia traz consigo um sentido de ação e a afirmação de que a vida familiar é um conjunto de atividades, e não uma estrutura estática com posições fixas, como a de “mãe” ou de “pai”. As práticas são “muitas vezes pequenos fragmentos da vida cotidiana que fazem parte da existência normal e evidente de quem as pratica” (Morgan, 1996: 190-191). Embora frequentemente associadas ao cotidiano, a essência das práticas está em fazerem parte da rotina da vida familiar e em se repetirem com certa regularidade, seja diária, semanal, mensal ou anual (Morgan, 1996; 2011a). Morgan (1996) observa que as práticas familiares têm uma dimensão emocional, além de um significado pessoal ou moral, criando sentido para quem as pratica e para suas ações. Isso não significa, porém, que sejam sempre vistas de forma positiva: muitas práticas são consideradas opressivas ou restritivas.

Um dos objetivos iniciais da noção de “práticas familiares” era responder à ideia de uniformidade e rigidez implícita no termo “família”, procurando, em vez disso, reconhecer que as famílias são muito variáveis e estão em constante mudança (Morgan, 2011a). Um aspecto dessa fluidez está no fato de que a vida familiar está implicada em diversas instituições sociais e em outras práticas sociais, de modo que práticas descritas como familiares podem ser pensadas em outros termos. Por exemplo, as práticas parentais também podem ser descritas como práticas de gênero. As práticas, assim, “se mesclam e se sobrepõem” umas às outras. Outro aspecto dessa fluidez está no fato de que as práticas familiares não se restringem ao lar, mas se realizam em situações e lugares variados, inclusive em lugares não associados à vida familiar (Morgan, 2011b). Por exemplo, May (2023) mostra como a “família” pode ser encenada em ambientes e espaços públicos, longe do lar “familiar”.

Mesmo que “a morte chegue para todo mundo” (Almack, 2022: 227), há surpreendentemente pouquíssimo reconhecimento da morte na pesquisa sociológica sobre práticas familiares, assim como na literatura sociológica sobre a família de modo geral. Essa omissão pode se dever à incongruência percebida entre a banalidade da vida familiar cotidiana e a experiência de ruptura que é a morte (Borgstrom et al., 2019), ou a uma “planura do olhar” na sociologia da família (May, 2023: 62). Uma das poucas referências de Morgan (2011a: 6) ao luto sugere que as práticas familiares buscam “transmitir um sentido da vida cotidiana, tanto no sentido dos acontecimentos de vida vividos por uma parcela significativa de qualquer população (formar um casal, a parentalidade, a doença, o luto) quanto, igualmente, no sentido das atividades que parecem banais, que mal valem a pena ser comentadas”.

Ao identificar o luto como um “acontecimento de vida”, perpetua-se a ideia de que a morte está desconectada do cotidiano. No entanto, um corpo crescente de trabalhos vem mostrando que é possível, e mesmo proveitoso, reconhecer como as práticas familiares são encenadas no fim da vida (Ellis, 2013; 2018; Borgstrom et al., 2019; Almack, 2022). Por exemplo, Ellis (2018) explora a materialidade da comida e das refeições para mostrar seu significado social e simbólico para quem vive com uma doença terminal, enquanto Borgstrom et al. (2019) destacam a fluidez das práticas familiares ao examinar sua presença fora de casa, em contextos institucionais como os cuidados paliativos. Embora Almack (2022: 237) procure estender a aplicação das práticas familiares de Morgan (1996) à “área da morte e do morrer”, isso (como costuma acontecer) exclui as experiências de luto. Este artigo procura, portanto, ampliar o conceito sociológico central de “práticas familiares”, mostrando que é possível compreender melhor a maneira como algumas famílias “fazem” família, e o sentido que dão às suas ações, ao reconhecer que certas práticas devem ser entendidas no contexto do luto. Ao reconceituar o luto como uma experiência contínua, e não como um acontecimento pontual, podemos ver o caráter cotidiano das experiências de luto e reconhecer o papel que ele desempenha na orientação das ações das pessoas. Trata-se, portanto, de um ponto importante a ser lembrado pela sociologia da família quando se busca entender como e por que os membros de uma família se relacionam de determinadas maneiras.

O estudo

Este artigo se baseia numa pesquisa que explorou como a morte de um irmão e/ou de uma irmã molda e influencia a vida de irmãos e irmãs sobreviventes ao longo de sua trajetória de vida. O estudo adotou um olhar relacional para reconhecer a multiplicidade de relações em que se inserem irmãos e irmãs e examinar o papel desses vínculos na experiência do luto. Com essa abordagem conceitual, era inevitável que a análise levasse a aprender sobre a vida familiar e as relações. Como constataram Funk et al. (2017), todas as pessoas participantes comentaram longamente sua relação com os pais (ou padrastos e madrastas), muito mais do que qualquer outro vínculo de parentesco, e ficou claro que, de diferentes maneiras, as experiências de luto fraterno são fortemente influenciadas por essa relação (Marshall e Winokuer, 2017). Este artigo se concentra, portanto, na relação entre irmãos e irmãs em luto e seus pais (ou padrastos e madrastas), para refletir a experiência de quem participou e demonstrar melhor os argumentos apresentados.

Ao todo, 36 pessoas (em sua maioria brancas e britânicas; 9 homens, 27 mulheres) que vivem na Inglaterra participaram de uma entrevista semiestruturada com duração média de duas a três horas cada (ver o Apêndice A para uma visão geral das pessoas participantes). Todas as mortes de irmãos ou irmãs ocorreram quando as pessoas participantes tinham entre 8 e 34 anos, e elas tinham entre 19 e 66 anos no momento da participação. Embora todas residam atualmente na Inglaterra, uma cresceu no México, outra nos Estados Unidos, duas cresceram na Irlanda do Norte e uma nasceu no Kuwait, mas viveu em vários países do Oriente Médio durante a infância. Todas, exceto esta última, viviam no país de nascimento na época da morte do irmão ou da irmã. Adotou-se uma abordagem de recrutamento por “autodefinição”, com amostragem oportunista e em bola de neve, para minimizar qualquer sensação de pressão ou obrigação de participar da pesquisa. A abordagem por autodefinição também permitiu que cada pessoa interpretasse ela mesma sua relação fraterna, possibilitando a inclusão de uma grande diversidade de vínculos, como meios-irmãos e meias-irmãs, irmãos e irmãs por afinidade ou adotivos. Como “as pessoas enlutadas” formam um “grupo” não visível, não havia métodos de recrutamento simples ou predefinidos, e as pessoas participantes foram recrutadas por diversos meios, entre eles as redes sociais e uma lista de e-mails de voluntariado da universidade, além das organizações Child Bereavement UK, The Compassionate Friends e The Rotary Foundation. Em razão dos canais de recrutamento utilizados, a grande maioria das pessoas participantes tinha formação universitária e exercia profissões qualificadas. Não houve restrição quanto à causa da morte, mas era preciso que tivessem se passado no mínimo cinco anos desde a morte do irmão ou da irmã. As entrevistas ocorreram em local escolhido pela pessoa participante, em diversos lugares da Inglaterra, entre eles cafés, sua casa, um campus universitário e, em um pequeno número de casos, por telefone ou Skype.

Embora não fossem propriamente entrevistas narrativas, manteve-se uma atenção à narrativa durante toda a coleta de dados, aprofundada no processo de análise. Isso porque as narrativas permitem às pessoas refletir sobre o valor e o sentido de suas experiências e são, portanto, um recurso útil quando se tenta dar sentido à própria vida (Birch e Miller, 2000). Utilizou-se a análise temática para identificar temas comuns às transcrições (Braun e Clark, 2006), embora as narrativas dentro de cada transcrição também fossem reconhecidas. Assim, as transcrições das entrevistas foram codificadas e analisadas segundo uma abordagem narrativa da análise temática (Riessman, 2008). Aplicou-se uma abordagem “híbrida” de codificação, que exigia equilibrar codificação indutiva e dedutiva (Fereday e Muir-Cochrane, 2006). Esses códigos foram organizados em temas, que depois foram reanalisados para que se pudessem extrair narrativas dentro de tópicos específicos, além daquelas encontradas em cada entrevista.

Todos os aspectos da pesquisa seguiram as diretrizes éticas da universidade, e o trabalho de campo foi realizado após aprovação ética. Várias medidas foram tomadas para garantir o bem-estar das pessoas participantes, entre elas assegurar que não precisavam responder a perguntas que considerassem angustiantes, lembrá-las do direito de se retirar caso a experiência se revelasse emocionalmente desgastante e encaminhá-las a serviços de apoio ao luto caso buscassem mais ajuda. Reconhece-se também que realizar pesquisas sobre o luto pode ser emocionalmente difícil tanto para quem pesquisa quanto para quem participa da pesquisa (ver Reed e Towers, 2021, para uma discussão mais completa da experiência de quem assina este artigo a esse respeito).

Resultados e discussão

Práticas cotidianas

Várias práticas familiares cotidianas foram identificadas nas entrevistas, mas a discussão aqui se concentra na comunicação entre os pais e os filhos adultos sobreviventes. Essa foi, de longe, a relação mais discutida e a concepção de “família” mais comumente e prontamente adotada pelas pessoas participantes. Esse exemplo mostra como o fato de estar de luto continua a moldar e influenciar a maneira como os membros de uma família interagem, muito tempo depois de uma morte.

Para muitas das pessoas entrevistadas, a perda do(s) irmão(s) e/ou da irmã despertou um novo senso de cuidado e responsabilidade em relação aos pais, vivido de maneiras tanto positivas quanto negativas, e que precisava ser negociado ao longo da trajetória de vida. Esse aumento da preocupação está bem documentado na literatura sobre luto fraterno (Marshall e Winokuer, 2017) e é apontado como uma possível fonte de sobrecarga e frustração (Funk et al., 2017). Esse senso agudo de responsabilidade era muitas vezes, embora nem sempre, sentido com mais intensidade por quem não tinha mais irmãos ou irmãs em vida. Como argumenta Kate (30 anos): “Com certeza faz diferença quando você sente que é tudo o que eles têm em termos de filhos.”

Entre as pessoas que relataram sentir necessidade de apoiar os pais, um dos traços principais era manter uma presença maior, por meio de contatos mais frequentes (tanto presenciais quanto por conversa). Isso valia para o período imediatamente posterior à morte do irmão ou da irmã: “Eu sentia que precisava ligar para eles todo dia. Eles diziam que eu não precisava, mas, sim, eu precisava, eu tinha que ligar para eles todo dia” (Poppy, 35 anos, de luto havia cinco anos), assim como anos depois: “Eu presto muita, muita atenção em manter uma comunicação regular com a minha mãe e em simplesmente ter uma relação muito boa com ela” (Kate, 30 anos, de luto havia 18 anos).

As pessoas participantes não identificavam nenhum propósito específico nessas conversas de mão dupla além de “saber como estão as coisas” e continuar compartilhando o cotidiano. Morgan (2011b: 3) observa que “muitas práticas familiares consistem em conversa ou são acompanhadas por ela”, por diversos meios, como telefone, chamada de vídeo ou e-mail. Ao encenar essas práticas e orientá-las deliberadamente para outro membro da família, define-se e reafirma-se a posição de cada pessoa como “família”, o que mostra o trabalho que as pessoas fazem para construir e manter a unidade familiar como uma entidade social significativa (Ribbens McCarthy, 2012). De fato, ao “buscar outros membros da família para ter essas conversas, os vínculos familiares são reafirmados e ganham algum tipo de importância” (Morgan, 2011b: 3). Assim, embora a intenção principal dessa comunicação mais frequente fosse que irmãos e irmãs mantivessem contato com os pais e um vínculo com eles, a integração dessa prática familiar à rotina diária também ajudava a reafirmar sua relação de pais e filhos.

Eu ligo para a minha mãe e para o meu pai todo dia. Eu quero mesmo falar com eles, e em parte é por mim também, mas acho que também estou sempre garantindo que eu ligue e que eles não fiquem sozinhos… esse tipo de decisão que eu tomo talvez seja bem pequena, mas eu simplesmente incorporei isso à minha rotina… acho que eu não sentiria esse senso de responsabilidade tão fortemente como sinto agora.

(Brooke, 33 anos, em luto aos 11 e aos 17 anos)

Se não fosse a morte do meu irmão, a vida seria completamente diferente. Eu ainda manteria contato, mas não estaria me esforçando tanto. Eu faço o esforço que faço porque sei que eles não têm mais ninguém. Com ele nunca estando por perto, eu meio que tive que ficar perto deles.

(Adam, 32 anos, de luto havia 18 anos)

Tanto Brooke quanto Adam tinham perdido o irmão 18 anos ou mais antes da entrevista para a pesquisa. Com um intervalo tão grande desde essas mortes, é improvável que alguém que não pesquisasse o luto visse de imediato essa experiência como um motor essencial de suas ações. Isso reflete uma norma social mais ampla segundo a qual o reconhecimento dado a quem viveu uma morte na família se apaga com o tempo (Baddeley e Singer, 2009). As ações que evocam mais o luto são revisitar lembranças, cuidar do túmulo e homenagear os mortos (Klass et al., 1996). Por isso, é improvável que a morte do irmão e o luto subsequente fossem prontamente identificados como a influência por trás da necessidade de Brooke de se comunicar todos os dias e da insistência de Adam em se comunicar apesar das relações tensas. Embora a fluidez das práticas familiares permita que esses comportamentos sejam ao mesmo tempo práticas de luto e práticas de comunicação (Morgan, 1996; 2011a), sugere-se aqui que eles são mais bem compreendidos como práticas familiares inseridas no contexto do luto. Talvez quem melhor expresse essa ideia seja Dan (46 anos, de luto havia 21 anos): “Isso não está mais no primeiro plano da minha cabeça, mas é um daqueles filtros pelos quais eu vejo o mundo. Tenho várias coisas que condicionam minhas reações, e a morte da minha irmã é uma das principais.”

Nas palavras de Dan, o luto se tornou a lente pela qual seus pensamentos, sentimentos e comportamentos podem muitas vezes ser compreendidos. É esse sentimento que explica como as práticas familiares cotidianas são mais bem compreendidas quando reconhecidas num contexto mais amplo que inclui a morte. Ao reconhecer a presença contínua de um luto familiar de longo prazo e situar as práticas familiares nessas experiências passadas, torna-se possível compreender muito melhor os objetivos e as motivações dos membros da família. Isso, por sua vez, dá à sociologia uma visão mais clara da vida familiar, inclusive de como os membros de uma família se relacionam.

Acontecimentos de vida

Além das práticas familiares cotidianas, as pessoas participantes reconheciam o peso da morte do irmão ou da irmã em decisões importantes, por exemplo, mudar de casa ou ter filhos. Samantha (41 anos, de luto havia sete anos) falou de seu desejo de ter filhos, em parte pelos pais: “Quero garantir que exista uma família ali e que meus pais tenham de novo algo que os faça felizes, algo pelo que esperar.” Isso ecoa os resultados de Funk et al. (2017: 10), cujo estudo também constatou que pessoas participantes “relatavam sentir uma espécie de pressão para ter filhos […] por sentirem que os pais precisavam de um neto”. Embora decisões tão importantes não sejam práticas familiares no sentido cotidiano mais discutido, elas se enquadram no que Morgan (2011a: 6) chama de acontecimento de vida “vivido por uma parcela significativa de qualquer população”. Reconhece-se, porém, que o resultado dessas decisões inevitavelmente moldaria também suas futuras práticas familiares cotidianas.

A gente teve a chance de ir morar nos Estados Unidos anos atrás e não foi. A gente não podia deixar minha mãe e meu pai, sabe, porque eles teriam ficado sozinhos e dependiam demais da gente… Ela [a mãe] ficava abalada com muita facilidade, e a gente fazia de tudo para ter paz. Ela dizia para todo mundo que, se não fosse por mim e pelas crianças, ela acha que ela e meu pai teriam tirado a própria vida, e sempre disse que éramos nós que a mantínhamos de pé.

(Claire, 64 anos, de luto havia 41 anos)

Eu diria com certeza que isso contribuiu para eu voltar, porque eu não conseguia me estabelecer, sentia muita saudade de casa, e aí tinha toda aquela história com os meus pais, será que eles estão bem, ter que ligar para eles todo dia, seria muito mais fácil se eu estivesse em casa, e todo o resto.

(Poppy, 35 anos, de luto havia cinco anos)

A escolha de Poppy foi em parte guiada pelo desejo de ficar mais perto da família para buscar apoio e se reconfortar no que era familiar, mas ela também sabia que isso diminuiria o peso do cuidado que sentia. Com a redução gradual da assistência social, cuidar de pais que envelhecem é cada vez mais visto como responsabilidade dos membros da família, geralmente dos filhos adultos (Silverstein et al., 2006). Por isso, é comum que os pais sejam levados em conta (em diferentes graus) nas decisões de mudança, sobretudo quando o cuidado deles recai sobre um único filho ou filha (Shelton e Grundy, 2000). Embora essa atenção costume ser motivada pela doença ou pelo envelhecimento dos pais, Claire e Poppy eram jovens adultas na época de (não) se mudar, e nenhuma das duas mencionou a saúde ou a idade dos pais como motivo de preocupação. Embora Claire e Poppy fossem movidas pela necessidade de apoiar os pais, a causa profunda dessa ansiedade era, em última análise, a morte do irmão.

Foi isso que motivou nossa volta para o vilarejo, para ficar perto da minha mãe e da minha irmã, porque a gente sabia que elas iam precisar de apoio… durante tudo aquilo e depois, levar minha mãe de férias com a gente e coisas assim, não sei se “compensar” é a palavra certa, mas sabe, tentar tirar o melhor de uma situação ruim em vez de deixá-la sozinha e ter que enfrentar aquilo sozinha.

(Ray, 56 anos, de luto havia 22 anos)

As palavras de Ray mostram uma consciência da longa duração do luto, já que ele procurou estar presente para a mãe ao longo do tempo, e não apenas no período imediatamente posterior à morte da irmã. Sua disposição de se mudar e de incluir a mãe nas atividades planejadas mostra que ele aceitava suas novas obrigações, com a expectativa de que elas continuassem por muito tempo. Em cada um desses exemplos, as pessoas participantes identificavam a morte do irmão ou da irmã como a causa de sua preocupação e um fator importante em suas decisões. De modo geral, portanto, o luto pode moldar continuamente as práticas familiares, tanto no sentido da banalidade cotidiana quanto no dos acontecimentos de vida menos frequentes.

Manter práticas entre famílias

A discussão até aqui mostrou como as práticas familiares cotidianas, assim como os acontecimentos de vida importantes, podem estar inseridos em experiências de luto. Para sustentar esse argumento, o foco esteve na relação entre os pais e irmãos e irmãs sobreviventes já adultos. No entanto, as relações entre pais e filhos “não excluem outras relações” (Chambers et al., 2009: 36). De fato, muitas das falas de participantes apresentadas neste artigo aludiram a parceiros, parceiras e filhos, mas até agora o efeito disso sobre essas relações e as práticas compartilhadas foi deixado de lado. A discussão se volta agora para essa omissão, mostrando como as práticas familiares se cruzam e são negociadas entre “famílias”.

Pensei nisso depois, e ele [o marido] sempre foi ótimo com a minha mãe e o meu pai, porque isso os deixava ainda mais superprotetores comigo… Meu marido foi simplesmente incrível, até o fim [da vida dos pais], porque sabia o quanto eles dependiam de mim.

(Claire, 64 anos, de luto havia 41 anos)

O que ele [o marido] acha disso? Pois é, não sei, acho que, como a gente está junto há tanto tempo, meio que virou o normal, não é? … Ele sabe e me apoia nessas coisas, mas meio que tenta, me ajuda também a sair um pouco de tudo isso.

(Brooke, 33 anos, em luto aos 11 e aos 17 anos)

Eu sou o único que se esforça, e não me importo de me esforçar, mas se chegar ao ponto em que a gente esteja limitando nossa vida, tipo se a gente tiver uma família e tal, se um dia chegar a esse ponto, acho que isso vai passar na frente do que eu venho fazendo até agora.

(Adam, 32 anos, de luto havia 18 anos)

Embora isso não seja um problema importante no presente, Adam previa dificuldades no futuro e sugere que ter filhos será o momento em que reconsiderará seus compromissos. Isso ilustra a ideia de que a vida familiar está “em constante mudança” (Morgan, 2011a: 3) e de que “as maneiras de fazer família que permitiam seguir em frente em fases anteriores da trajetória de vida podem não estar mais presentes” (Chambers et al., 2009: 35). Assim, as pessoas precisam encontrar novas maneiras de administrar suas práticas familiares, adequadas à sua situação em mudança. O essencial para este artigo, porém, é reconhecer que o luto molda e influencia a margem de que as pessoas dispõem para lidar com essas pressões sobrepostas. Por exemplo, o sentimento de obrigação familiar torna difícil simplesmente “ir embora” em tempos difíceis (Finch e Mason, 1993); irmãos e irmãs muitas vezes sentem a pressão de narrativas públicas que dão prioridade aos pais em luto (Goldman, 2017); e os pais podem adotar uma atitude protetora em relação aos filhos que continuam vivos depois da morte de um filho ou filha (Rosenblatt, 2000). De modo geral, portanto, é preciso reconhecer que o luto pode ser uma presença dominante, embora sutil, na maneira como as práticas familiares são moldadas e administradas. Essa influência precisa ser reconhecida se as sociologias das famílias, das relações e da vida pessoal quiserem compreender plenamente como e por que alguns membros de uma família se relacionam da maneira como se relacionam.

Conclusão

A morte altera para sempre as maneiras como os membros de uma família se relacionam. À medida que os papéis se deslocam e as responsabilidades mudam, o luto pode influenciar a maneira como a família é “feita” ao longo do tempo. Reconhece-se cada vez mais que as relações familiares são o contexto em que a perda individual é vivida. Este artigo, no entanto, deslocou essa discussão para sugerir que o luto pode ser o contexto em que a vida familiar e as relações se situam rotineiramente. Isso porque as práticas cotidianas banais, assim como os acontecimentos de vida importantes, podem continuar a ser informados e influenciados pela morte de um membro da família muito tempo depois dela. Os exemplos da manutenção da comunicação e da mudança de casa serviram para ilustrar esse ponto, mas há uma série de outras atividades que também poderiam ser mobilizadas. A passagem do tempo e o deslocamento das famílias de origem para as famílias escolhidas também fazem com que as pessoas possam ter de administrar práticas familiares múltiplas e sobrepostas. A maneira como essas decisões são negociadas pode, mais uma vez, ser fortemente influenciada por aspectos da experiência do luto. Com esses argumentos, este artigo traz às discussões mais amplas sobre a obra de Morgan (1996; 2011a) o primeiro exame das práticas familiares no contexto do luto fraterno e destaca a importância de reconhecer o papel da morte quando se busca compreender a vida familiar.

Embora a contribuição principal deste artigo esteja no valor de situar as famílias no contexto do seu luto, uma contribuição secundária é fazer avançar o conhecimento e a compreensão das experiências de luto fraterno. Depois da morte do irmão e/ou da irmã, irmãos e irmãs em luto muitas vezes sentem um dever de cuidado e responsabilidade em relação aos pais, vivido de maneiras complexas e contraditórias (Towers, 2022). Os exemplos de comunicação e de tomada de decisão discutidos neste artigo dependem em grande parte desses sentimentos contínuos de cuidado, e os argumentos apresentados aqui continuam, assim, a compor o retrato desse aspecto fundamental do luto fraterno. Eles também destacam a natureza relacional e temporal do luto, mostrando assim a necessidade de os estudos sobre a morte reconhecerem mais a importância desses conceitos nas experiências de luto.

Embora as famílias sejam fluidas e possam ser compostas por uma multiplicidade de relações (Morgan, 1996; Smart, 2007), a relação entre pais (ou padrastos e madrastas) e filhos (adultos) é usada aqui como estudo de caso demonstrativo. Os exemplos apresentados envolvem irmãos e irmãs em luto e tratam de questões próprias da perda de um irmão ou de uma irmã, mas seu exame serve a um argumento mais amplo sobre as práticas familiares. Os pais podem viver sentimentos semelhantes de responsabilidade acrescida em relação aos filhos que continuam vivos (Rosenblatt, 2000); é provável, portanto, que ideias semelhantes possam ser exploradas pelo prisma do luto parental. No entanto, a perda de um membro da família significa coisas diferentes para pessoas diferentes, e as experiências e os impactos da perda variam, assim, conforme a natureza dessas relações (Walter, 2020).

De modo geral, o objetivo central deste artigo é destacar que as decisões sobre práticas familiares podem ser fortemente informadas pelo luto, durante muitos anos após a morte. Levando isso em conta e reconhecendo a possível presença da morte nas relações entre os vivos, as sociologias das famílias, das relações e da vida pessoal têm a possibilidade de compreender muito melhor as maneiras como as pessoas se relacionam e lidam com o “fazer” família. A aplicação ampla deste artigo é limitada por seu foco em normas e valores britânicos, sobretudo porque as expectativas normativas em relação à relação fraterna variam entre países e culturas (ver Edward, 2010). De fato, reconhece-se que as pessoas participantes do estudo são sobretudo brancas, britânicas e com alta escolaridade, fatores que têm implicações importantes para a maneira como a “família” e as relações fraternas são compreendidas. Apesar dessas limitações, a ideia de que o luto continua a influenciar a vida familiar se mantém, e continua claro que há mais a aprender sobre as relações familiares ao seguir fortalecendo as conexões entre os estudos sobre a morte e a sociologia geral.

Apêndice A

Tabela — Visão geral das pessoas participantes

Para cada pessoa: pseudônimo; idade na época da morte / idade no momento da entrevista; vínculo com a pessoa falecida* e idade dela ao morrer; outros irmãos e irmãs em vida.

  • Jane. 20/29; irmão, 22 anos; 2 irmãos mais novos.
  • Andy. 8/40; irmã, 13 anos; não.
  • Peter. 30/60; irmã, 32 anos; 3 irmãs mais velhas, 1 irmão mais velho.
  • Jackie. 29/35; irmão, 25 anos; não.
  • Adam. 14/32; irmão, 16 anos; não.
  • Kate. 12/30; irmão, 21 anos; 1 irmão mais velho.
  • Amber. 15/20; irmão, 18 anos; não.
  • Becky. 19/30; irmão, 17 anos; não.
  • Martin. 20/37; irmão, 27 anos; não.
  • Claire. 23/64; irmão, 16 anos; não.
  • Ray. 34/56; irmã, 28 anos; não.
  • Holly. 17/50; irmão, 15 anos; não.
  • Theresa. 24/56; irmão, 21 anos; não.
  • Pat. 11/48; irmão, 4 anos; 1 irmã mais velha, 1 irmã mais nova, 1 irmão mais novo.
  • Melissa. 12/19; irmão, 18 anos; 2 irmãs mais velhas, 1 irmã mais nova.
  • Ruth. 22/35; irmão, 24 anos; não.
  • Frances. 34/48; irmã, 39 anos; 1 irmão mais novo.
  • Gayle. 27/66: irmão, 22 anos; 51/66: irmã, 49 anos; não.
  • Samantha. 34/41; irmão, 38 anos; não.
  • Phoebe. 14/44: irmã, 19 anos; 30/44: irmão, 32 anos; não.
  • Charlotte. 30/60; irmã, 33 anos; 1 irmão mais velho, 1 irmão mais novo, 3 irmãs mais novas.
  • Asim. 16/32; irmã, 28 anos; 5 irmãs mais velhas.
  • Britney. 17/25; irmão, 19 anos; não.
  • Tony. 30/41; irmã, 33 anos; não.
  • Poppy. 30/35; irmão, 27 anos; não.
  • Bella. 16/55; irmão, 21 anos; 1 irmão mais velho.
  • Beth. 16/22; irmão, 18 anos; não.
  • Brooke. 11/33: irmão, 18 anos; 17/33: irmão, 18 anos; não.
  • Philippa. 14/19; irmã, 0 ano; 1 irmã mais velha, 2 irmãs mais novas.
  • Viv. 18/30; irmão, 17 anos; 1 irmão mais novo, 2 irmãs mais novas.
  • Abi. 12/61: irmão, 23 anos; 20/61: irmão, 16 anos; não.
  • Dan. 25/46; irmã, 23 anos; 1 irmã mais nova.
  • Mary. 12/33; irmã, 23 anos; 1 irmão mais velho.
  • Rosa. 17/30; irmã, 5 anos; 1 irmão mais velho, 1 irmã mais nova.
  • Adele. 25/34; irmã, 27 anos; 4 irmãs mais velhas.
  • Ashley. 31/61; irmã gêmea idêntica, 31 anos; não.

* Meios-irmãos e meias-irmãs, irmãos e irmãs por afinidade e adotivos não são especificados como tais, por respeito às pessoas participantes que se identificaram como “irmãos e irmãs”.

Complexe Systémique: a reter

O artigo desloca o olhar de forma útil: em vez de perguntar como a família ajuda a atravessar o luto, mostra como o luto organiza a família, às vezes vinte ou quarenta anos depois. Uma ligação diária para os pais, uma mudança para o exterior abandonada, a volta para o vilarejo, um filho desejado “por eles”: gestos comuns que, vistos de fora, não trazem nenhum sinal da morte, mas que as pessoas entrevistadas ligam diretamente à perda de um irmão ou de uma irmã. Para a clínica sistêmica, é um convite a explorar essas lealdades discretas, a perguntar o que mudou no lugar de cada pessoa depois de uma morte e a reconhecer o peso que recai sobre o filho ou a filha que fica, sobretudo quando não há mais ninguém, sem reduzi-lo a uma patologia. Parceiros e parceiras também entram em jogo, até a tensão entre família de origem e família escolhida. Os limites são os de uma amostra britânica, branca, com alta escolaridade e recrutada por autosseleção, e de uma análise centrada nos relatos de irmãos e irmãs, sem a voz dos pais. Para ler junto com o artigo sobre uma abordagem narrativa do trabalho em grupo com famílias enlutadas e com o artigo sobre a experiência emocional da parentificação.

Notas do original

Financiamento. A pesquisa foi financiada por uma bolsa de doutorado do Economic and Social Research Council (n.º ES/J500215/1).

Agradecimentos. Um enorme obrigado aos 36 irmãos e irmãs que participaram da pesquisa. Agradecimentos também a Lauren White pelos comentários sobre uma primeira versão, e às avaliações anônimas pelos comentários e sugestões úteis.

Conflito de interesses. Quem assina o artigo declara não haver conflito de interesses.

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Tradução não oficial em português de “Ficou um enorme vazio no meio da família”: situar as práticas familiares no contexto do luto (fraterno), de Laura Towers, Families, Relationships and Societies, vol. 14, no 2 (2025), doi: 10.1332/204674324x17068706068793, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “‘There’s a huge hole left in the middle of the family’: locating family practices within the context of (sibling) bereavement”, publicado em Families, Relationships and Societies (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Towers, L. (2025). “Ficou um enorme vazio no meio da família”: situar as práticas familiares no contexto do luto (fraterno) (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/ficou-um-enorme-vazio-no-meio-da-familia-praticas-familiares-e-luto-fraterno (Obra original publicada em 2024 em Families, Relationships and Societies, 14(2), 177-193 (2025); republicada em 2025 por Families, Relationships and Societies, https://bristoluniversitypressdigital.com/view/journals/frs/14/2/article-p177.xml)

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