Journal of Solution Focused Practices · Ética
Que mapas os profissionais têm para guiar as suas decisões morais, e como esses mapas se relacionam com a ajuda focada nas soluções? Às duas perguntas de Trish Walsh, Brian Jennings responde com Alasdair MacIntyre: a abordagem focada nas soluções é uma “prática”, com as suas narrativas, os seus bens internos, as suas instituições e as suas virtudes. Relendo o nascimento da abordagem no Brief Family Therapy Center através dos axiomas de Korman, De Jong e Jordan, das pesquisas de Gale Miller e de David Kiser, e depois dos códigos de ética da UKASFP, da ASFIO e da EBTA, ele desenha o relevo de um mapa: a expertise do cliente, a postura de ajuda do praticante, a coconstrução, a centralidade dos objetivos – e as três virtudes de justiça, coragem e honestidade que os fundadores encarnaram. Tudo começa, no selim, com uma lição de ciclismo.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de ‘Mapping’ Moral Engagement in the Solution-Focused Approach Through MacIntyre’s Model of Practice, de Brian K. Jennings, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2022), doi: 10.59874/001c.75002, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelo autor nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O que talvez seja único na abordagem focada nas soluções é que o seu bem da prática implica que os clientes sejam considerados co-praticantes, ao lado dos terapeutas.
Brian K. Jennings
Resumo
Tento responder às duas perguntas de Trish Walsh sobre os “mapas” que poderiam existir para o engajamento moral nas profissões de “ajuda”, e sobre como eles poderiam se relacionar com a abordagem focada nas soluções (Walsh, 2010). Procuro fazê-lo explorando a narrativa da emergência da abordagem focada nas soluções a partir da perspectiva do conceito de “prática” de Alasdair MacIntyre (MacIntyre, 1985), com o objetivo de fornecer a base de um “mapa” para o engajamento moral dos praticantes focados nas soluções. Para isso, tento interpretar a abordagem focada nas soluções como uma “prática” no sentido de MacIntyre, na qual virtudes (como “qualidades humanas”) emergem de uma atividade coletiva por meio de narrativas e habilidades distintivas, orientadas para os bens internos da abordagem focada nas soluções como prática. Em seguida, avalio as instituições que acolhem e nutrem a abordagem focada nas soluções à luz da teoria de MacIntyre, para aferir se têm um efeito positivo ou negativo na promoção dos bens internos da prática. Por fim, considero como a prática demonstra as virtudes “essenciais” de MacIntyre – justiça, coragem e honestidade – no seu desenvolvimento inicial e nos códigos de ética elaborados depois pelas associações que promovem a abordagem focada nas soluções. A minha análise e a minha discussão devem fornecer o esboço de um “mapa” para os praticantes, que os apoie no seu engajamento moral, tanto nas situações de “ajuda” com os clientes quanto na construção de relações, alianças e instituições com os colegas. Concluo com sugestões de estudos e pesquisas complementares sobre este tema, incluindo um segundo artigo no qual pretendo identificar algumas virtudes específicas da abordagem focada nas soluções.
Palavras-chave: abordagem focada nas soluções, mapas morais, ética das virtudes, prática moral, virtudes, bens internos, bens externos, papel moral das instituições, tradições morais, virtudes essenciais de uma prática, códigos morais, MacIntyre.
Trish Walsh, em The Solution-focused helper: ethics and practice in health and social care (2010), faz as seguintes perguntas: “Que mapas os profissionais têm para guiar a ação na tomada de decisão moral? Como esses mapas se relacionam com o processo de ajuda focada nas soluções?” (p. 27). Ao explorar esses mapas de princípios e regras, ela os acha abstratos demais e distantes demais das complexidades morais envolvidas nas situações de prática profissional, que exigem que o engajamento moral se situe nos níveis pessoal, individual e relacional. Eu acrescentaria que esses mapas muito provavelmente também são centrados no problema, e portanto incongruentes com a abordagem focada nas soluções (De Jong & Berg, 2013). Ela se pergunta se a ética das virtudes poderia fornecer um meio de negociar essas complexidades a partir de uma perspectiva mais centrada na pessoa. Mas Walsh se afasta dessa opção, citando as preocupações de Houston sobre as questões de definição e enquadramento das virtudes (Houston, 2003).
É uma preocupação legítima (embora Houston (2003) não a explore adequadamente), pois o que é exatamente uma “virtude”? Uma abordagem (popular) consiste em definir uma virtude como um traço de personalidade persistente, formado pela experiência de vida de uma pessoa, especialmente nos seus primeiros anos (Sanderse, 2020). Ora, essa definição é contestável em duas frentes. Primeiro, ela se enreda na complexa discussão psicológica sobre o que constitui a personalidade, sobre o que pode ser inato e o que pode ser formado (Wright et al., 2021). Segundo, ela é vulnerável ao situacionismo, que sustenta, com base em dados experimentais (disputados), que não existem traços de personalidade persistentes que se transfiram de uma situação para outra (Besser-Jones, 2015; Snow, 2010).
Sugiro que uma abordagem mais frutífera (e mais congruente com a abordagem focada nas soluções) é fornecida pelo construtivismo social, no qual podemos definir as virtudes como aspectos do caráter formados pela interação humana nas relações (Darr, 2020), o que se liga à ênfase “dialógica” de Houston (Houston, 2003). A implicação, aqui, é que desenvolvemos virtudes diferentes no contexto de relações específicas, por meio de interações específicas. Contextos sociais como a família, o trabalho, a religião, o esporte e os passatempos fornecem, todos, lugares para tais relações e interações. Isso nos leva à concepção da ética das virtudes de Alasdair MacIntyre. MacIntyre entende as virtudes como qualidades humanas particulares, necessárias para se engajar nas práticas que realizam bens internos particulares da prática, os quais contribuem para o florescimento humano qualitativo (MacIntyre, 1985). Acredito que essa abordagem nos fornecerá, a nós praticantes focados nas soluções, o começo de um mapa mais útil para o engajamento moral. Neste artigo, vou me concentrar em traçar a formação da abordagem focada nas soluções como prática, os seus bens internos e externos e a sua conduta, como cenário do desenvolvimento e do exercício da ação virtuosa (Donozo, 2014). Isso servirá de prelúdio a uma exploração mais aprofundada, num artigo posterior, das virtudes distintivas que nascem da prática e a guiam.
O que, então, MacIntyre entende por prática? Uma prática é um empreendimento cooperativo, com a sua própria narrativa e as suas próprias tradições, que realiza bens internos particulares (Bielskis & Mardosas, 2014; Knight, 2008; MacIntyre, 1985). Os “bens internos”, aqui, são “excelências” internas à própria prática; dizem respeito ao “produto” ou resultado da prática (o que chamo de bem da prática) e ao desenvolvimento do praticante nas habilidades, nos conhecimentos e nas qualidades necessárias para se destacar na prática (o que designo como bem do praticante) (Higgins, 2010; Ward, 2017)1. Como as práticas são esforços cooperativos que implicam uma comunidade com tradições, propósitos e disciplinas compartilhados, elas precisam de instituições sociais para a sua sustentabilidade. MacIntyre dá grande ênfase ao papel das instituições, que fornecem o quadro para a formação dos praticantes e o desenvolvimento da prática (MacIntyre). Ele também observa os efeitos limitadores, e até “corruptores”, das instituições (MacIntyre). Para sustentar a prática à qual estão ligadas, as instituições precisam promovê-la e garantir que seja viável. Isso implica buscar o que ele chama de “bens externos”, como reputação, dinheiro e influência2. O perigo é que esses bens se tornem fins em si mesmos, capazes de eclipsar os bens internos que estão no coração da prática. Um segundo perigo colocado pelas instituições, identificado por MacIntyre, é a imposição da conformidade, sob o pretexto de garantir padrões, que pode limitar a diversidade e o desenvolvimento da prática.
O ciclismo, pela minha experiência, é um bom exemplo de prática. Comecei a pedalar a sério durante um período de desemprego: precisava de um meio de transporte barato para me deslocar – e então comecei a adorar! Comecei a compreender e a abraçar os bens internos do ciclismo. Desenvolvi-me como praticante ao adquirir as habilidades de pilotagem, de negociação de terrenos e contextos diferentes (urbano, rural, fora de estrada), de exercício físico e de manutenção da bicicleta (bens do praticante), necessárias aos resultados de saúde, vitalidade, engajamento existencial, consciência e aventura (bens da prática) (Ballantine, 1984).
O ciclismo, é claro, tem as suas histórias e as suas tradições (McGurn, 1987). Tem uma história técnica complexa, dos esboços visionários de Da Vinci às draisianas, às bicicletas de roda alta, às bicicletas de segurança, aos triciclos e às reclinadas. Máquinas de materiais esotéricos e design sofisticado, como a Moulton “advanced engineering bicycle” (Hadland, 1994) que eu monto. O ciclismo também tem uma história social complexa, que inclui grupos altamente regimentados e voltados para o status, associações de trabalhadores que passaram de usar as suas máquinas para ir ao trabalho a (re)conquistar o campo, grupos de mulheres para quem o ciclismo se tornou uma forma de afirmar a sua liberdade e, mais recentemente, grupos ambientalistas que promovem o ciclismo como transporte verde. Há também heróis que servem de exemplo, como os vencedores do Tour de France Eddy Merckx, Bernard Hinault e Chris Froome, viajantes de longa distância como Bettina Selby, Richard e Nicholas Crane, e inventores como Alex Moulton. Essas tradições e essas figuras exemplares deram ao ciclismo a sua forma única. Todas as práticas têm tais tradições e histórias, que fornecem a narrativa e o contexto social ao exercício dos seus conhecimentos e habilidades únicos e dos seus bens internos da prática e do praticante (Bielskis & Mardosas, 2014; Knight, 2008).
No ciclismo, as instituições tendem a funcionar em dois níveis. Uma associação mais ampla (como o Cyclists’ Touring Club (https://www.cyclinguk.org/) e a British Cycling Federation (https://www.britishcycling.org.uk/)) que promove o bem interno da prática do ciclismo compartilhando as suas tradições positivas, as histórias dos seus heróis e os seus bens internos, edita as regras oficiais do ciclismo de competição e organiza competições, campeonatos, passeios e encontros. No nível local, há o clube, onde os novatos aprendem a pedalar e são iniciados nas disciplinas da boa pilotagem, nas estratégias de competição e na manutenção da bicicleta por membros mais experientes.
Como observa MacIntyre (1985), as instituições também podem ter um efeito negativo no mundo do ciclismo, ao organizar competições apenas pelo dinheiro e não pela experiência do esporte, de modo que alguns corredores e espectadores ficam de fora. No nível local, isso pode significar que o clube é dominado por um ou dois indivíduos e todos os outros são deixados de lado. Há também o perigo da conformidade, quando as grandes associações elaboram novas regras que autorizam certas estratégias e certas máquinas e proíbem outras, como a indesculpável exclusão da competição das bicicletas de rodas pequenas, como as Moulton (http://www.moultonbuzz.com/)! No clube local, isso pode significar que os membros antigos exigem dos novos que adotem os seus estilos de roupa, equipamento e prática, opondo-se a toda inovação.
As virtudes são as qualidades humanas necessárias para se destacar nas disciplinas de uma prática e realizar os seus bens internos (Darr, 2020; MacIntyre, 1985). MacIntyre sustenta que há três virtudes-chave necessárias para sustentar qualquer prática:
MacIntyre, 1985, p. 191
Temos de aprender a reconhecer o que é devido a quem; temos de estar preparados para correr todos os riscos, mesmo perigosos para nós mesmos, exigidos ao longo do caminho; e temos de ouvir com atenção o que nos dizem sobre as nossas próprias insuficiências e responder com o mesmo cuidado com os fatos. Em outras palavras, temos de aceitar como componentes necessários de qualquer prática dotada de bens internos e de padrões de excelência as virtudes da justiça, da coragem e da honestidade.
Sem justiça, somos incapazes de abraçar as tradições e as habilidades de uma prática reconhecendo as suas fontes e autoridades, e portanto de estar em posição de aprender e participar de modo equitativo com os que estão dentro e fora da prática. Sem coragem, não conseguiremos correr os riscos que o engajamento numa verdadeira prática exige, tanto para nos engajar na prática tal como a recebemos quanto para desenvolvê-la mais. Por fim, sem honestidade, não estaremos em posição de desenvolver qualquer excelência na prática, pois precisamos de abertura e reflexividade para construir a nossa compreensão e as nossas habilidades. Sem essas virtudes, uma prática fracassará. Os praticantes procurarão rebaixar uns aos outros em vez de aprender uns com os outros (como o Mestre e o Aprendiz do Lado Sombrio em Star Wars!). Nenhum praticante terá coragem de dar o primeiro passo nas habilidades existentes, muito menos de tentar novos experimentos. Nenhum praticante reconhecerá qualquer fraqueza, e a prática estagnará. A prática não será um lugar de aprendizagem da virtude, nem contribuirá para o florescimento humano mais amplo. Em vez disso, se tornará algo como um sindicato do crime, destrutivo para a sociedade e, no fim, para si mesmo (Sellman, 2011; Ward, 2017).
Qual é o lugar dessas três virtudes no ciclismo? No ciclismo de competição, os membros da equipe precisam agir com justiça reconhecendo o seu lugar na equipe e aprendendo com os líderes da equipe a desempenhar o seu papel pelo bem de todos, especialmente dos seus corredores principais. Os membros da equipe precisarão mostrar coragem para escapar no momento certo e conter os movimentos dos rivais no pelotão, e, por fim, honestidade na competição, sem trapacear por sabotagem ou doping, apoiando-se antes na sua própria capacidade. Mas essas virtudes também são necessárias ao ciclista que vai ao trabalho ou que viaja. Justiça, ao se relacionar de modo apropriado com os outros usuários da estrada e ao aprender com os membros do clube e apoiá-los quando pedalam juntos. Coragem, para subir numa bicicleta, para começar! Mas também para enfrentar o trânsito e partir para novos lugares. E depois honestidade, ao falar das próprias viagens e encontros.
A essas, eu acrescentaria algumas virtudes adicionais: persistência, para pedalar com mau tempo, generosidade, para parar e ajudar outros ciclistas, cortesia e amizade, para pedalar e conviver com outros ciclistas, especialmente os membros do clube. Mas, como ciclista novato, não comecei com essas virtudes. Elas se formaram à medida que eu aprendia a pedalar, com o apoio de ciclistas mais experientes e de membros antigos do grupo ou do clube, que eles mesmos encarnavam essas virtudes. Ao me tornar um ciclista mais experiente, comecei a manifestar essas virtudes eu mesmo, pelo menos no contexto do ciclismo. Algumas dessas virtudes podem até ser codificadas nas regras adotadas pelas associações nacionais e pelos clubes locais.
No modelo de ética das virtudes de MacIntyre (1985), as virtudes particulares são específicas da prática na qual foram aprendidas e exercidas. Elas podem não ser exercidas fora do contexto da prática. Assim, como ciclista, posso ser generoso e cortês no contexto do passeio ou do clube, mas mesquinho e grosseiro na hora de pegar o trem para voltar para casa depois do passeio do clube. Isso, é claro, é exatamente o que o situacionista esperaria! No entanto, se sou um ciclista experiente, realmente entusiasmado com a minha prática, é provável que eu faça das virtudes que ela implica uma parte da minha narrativa de vida e que incorpore a prática ao meu senso de identidade, de modo que as virtudes que aprendi no selim se manifestarão no meu comportamento na estação de trem e nas minhas outras relações e práticas, digamos como parceiro do meu cônjuge ou como professor em sala de aula. Desse modo, o ciclismo como prática teria um impacto mais amplo nas outras comunidades e práticas às quais pertenço como ciclista.
Gostaria de sugerir que, como o ciclismo, a abordagem focada nas soluções é uma prática (embora muito diferente, é preciso admitir, como prática terapêutica – ainda que muitos aficionados do ciclismo certamente defenderiam o valor terapêutico do seu passatempo), com tradições e histórias que enquadram os seus bens internos, disciplinas particulares que promovem o bem, e virtudes essenciais ao exercício dessas disciplinas. A abordagem focada nas soluções também tem as suas instituições, como equipes e consultórios locais, e organizações nacionais e internacionais que procuram promover e desenvolver a prática e os seus bens internos. Veremos que os consultórios locais tiveram uma importância particular no seu desenvolvimento. O que significa, então, descrever a abordagem focada nas soluções como uma prática virtuosa, dotada de bens internos particulares? Para isso, precisaremos considerar a história e as tradições da abordagem focada nas soluções.
Para definir uma prática no sentido de MacIntyre, é crucial identificar os seus bens internos (Bielskis & Mardosas, 2014; MacIntyre, 1985), pois isso nos fornecerá o foco e o propósito da prática – a razão pela qual os praticantes valorizam a prática por ela mesma. Mas tentar fazê-lo com uma definição abstrata não terá sentido a menos que a situemos no contexto da formação da tradição ou da narrativa da disciplina (Darr, 2020). Essa narrativa fornecerá tanto o contexto da emergência dos bens internos da prática quanto a explicação do seu significado, que é a base da teoria da prática. À medida que a narrativa se desenvolve, o contexto da prática pode mudar, e com ele o significado dos seus bens internos, em termos tanto de bens da prática quanto de bens do praticante. Tais mudanças exigirão explicação e justificação teóricas adicionais, resultando numa relação dialética entre os bens internos e a sua explicação. As compreensões teóricas do bem podem fornecer insights sobre como aprimorar ainda mais a prática. Uma prática aprimorada pelo engajamento dos praticantes pode levar a um desenvolvimento dos bens de uma prática que exige explicação teórica adicional. Isso leva a uma consideração adicional, sobre o desenvolvimento das perspectivas e das habilidades da prática. São as habilidades e os exercícios que são adotados, que emergem ou que são concebidos para promover o bem interno da prática (como o design das bicicletas e as técnicas de pilotagem que promovem o “engajamento do passeio”). As habilidades, sugiro, se desenvolvem no momento, pelo engajamento, ou são concebidas com base na teoria, uma vez compreendido como funcionam para promover os bens internos. Assim como há uma dialética entre os bens internos e a teoria, há também uma dialética entre as habilidades de uma prática e a teoria. Acredito que isso será demonstrado na narrativa do desenvolvimento da prática focada nas soluções que apresento abaixo. Dada a relação dialética entre o desenvolvimento das habilidades, a teoria e os bens internos da prática e dos praticantes, é necessário considerar com algum detalhe o desenvolvimento das habilidades e dos bens internos como um sistema em evolução.
Os antecedentes da ascensão da abordagem focada nas soluções encontram-se na revolta de vários terapeutas, especialmente terapeutas de família, contra a interioridade das abordagens psicanalíticas e psicodinâmicas (Visser, 2013), que procuravam diagnosticar os problemas dos clientes em termos de alguma condição interior que precisava ser tratada primeiro, antes que as condições exteriores pudessem ser melhoradas. Os terapeutas que se identificavam com esse movimento procuravam se tornar especialistas, não em patologia interior, mas na dinâmica exterior dos sistemas familiares e sociais dos clientes. Isso permitiria descobrir as causas exteriores dos problemas dos clientes, e resolvê-los, por meio de padrões e estratégias comportamentais que perturbariam esses “sistemas-problema” (Cade, 2007; Miller, 1997; Visser). Na ponta radical desse movimento estavam Milton Erickson e os seus colaboradores próximos da equipe do Mental Research Institute (MRI), liderada por John Weakland em Palo Alto, na Califórnia (Cade, 2001; Visser).
Steve de Shazer e Insoo Kim Berg tinham ambos frequentado intensamente o MRI e adotado muitas das teorias e práticas que Weakland e os seus colegas haviam desenvolvido. Quando ambos se mudaram para Milwaukee em 1977 para começar a sua nova vida juntos, procuraram aplicar essas abordagens sistêmicas e estratégicas com os seus clientes do Milwaukee Family Services, onde estavam empregados. No Family Services, logo se viram enredados em disputas e controvérsias entre os partidários de uma abordagem sistêmica e os que preferiam uma abordagem psicodinâmica mais tradicional. Essas disputas chegaram finalmente a um ponto em que de Shazer, Berg e outros decidiram estabelecer o seu próprio consultório independente, onde pudessem desenvolver abordagens terapêuticas mais construtivas. Assim nasceu, em 1978, o Brief Family Therapy Center (BFTC) (Visser, 2013; Miller, 2004).
Visão geral. Uma vez plenamente estabelecido o novo centro, emergiu um modus operandi no qual a equipe central trabalhava em colaboração, tentando novas iniciativas com os clientes que todos observavam, seja “ao vivo” através de um espelho unidirecional, seja por gravações em vídeo. A prática era analisada, e novas abordagens e métodos eram propostos (Miller, 2004). No curso dessa atividade, de Shazer se impôs como o principal teórico e autor, enquanto outros, como Berg, Eve Lipchik e Elam Nunnally, foram experimentadores-chave. De Shazer sintetizava os resultados e as intuições da equipe e se tornou o principal porta-voz do centro (Kiser, 1995). Esse padrão continuou até meados ou o fim dos anos 1980, quando a equipe original do BFTC começou a se dispersar.
O processo de evolução. Para descrever a evolução da prática focada nas soluções que segue, apoiei-me em três fontes substanciais principais. Becoming miracle workers: language and meaning in brief therapy (2004), de Gale Miller, que relata a sua pesquisa qualitativa no BFTC (designado no seu texto pelo pseudônimo de “Northland Clinic”), um estudo de teoria fundamentada sobre a interação dos terapeutas com os seus clientes e entre si, conduzido a partir de 1984 e finalmente publicado em 1997. A metodologia de Miller consistiu em grande parte em observação participante, complementada por entrevistas com os membros da equipe. Segundo, a tese de doutorado de David Kiser: The process and politics of solution-focused therapy theory development: a qualitative study (1995). Kiser conduziu a sua pesquisa no início dos anos 1990, também com uma abordagem de teoria fundamentada, mas centrando-se em entrevistas com os fundadores do BFTC. Por fim, o estudo da elaboração teórica de Steve de Shazer conduzido por Harry Korman et al. (2020, “Steve de Shazer’s Theory Development”). Essa última fonte é um artigo baseado num amplo estudo da obra publicada de de Shazer.
Esses três textos adotam abordagens diferentes para traçar a evolução da abordagem focada nas soluções durante a sua era “heroica”. Miller adota uma abordagem holística e identifica duas etapas na terapia praticada no BFTC, a “ecossistêmica” e a “focada nas soluções” (Miller, 1997; 2004), e se concentra no resultado da prática em cada etapa. Kiser identifica “pontos nodais” – deslocamentos nas disciplinas terapêuticas que indicam uma mudança de foco para uma abordagem sistêmica participativa e depois para uma abordagem focada nas soluções (Kiser, 1995) – e se concentra no desenvolvimento da prática e dos praticantes. Korman e os seus colegas acompanham a evolução da abordagem focada nas soluções discernindo quatro etapas na elaboração teórica de de Shazer, o que, sugerirei, traça o desenvolvimento dos bens da prática e dos bens do praticante da prática. Dado que de Shazer se tornou o porta-voz principal da equipe do BFTC, seria razoável supor que as mudanças na sua teoria também refletiam os desenvolvimentos terapêuticos no BFTC. À luz disso, usarei este último trabalho como quadro principal para compreender a narrativa do crescimento da abordagem focada nas soluções, e nele situarei as contribuições de Miller e de Kiser. Antecipo que essa narrativa revelará os bens internos da abordagem focada nas soluções nesse período-chave.
Em 1978, de Shazer, Berg e a equipe do BFTC começaram o seu novo empreendimento a partir de uma base sistêmico-estratégica, fortemente influenciada pelo MRI e por Erickson (Visser, 2013; De Jong, 2019). Nessa fase inicial, eles veem os problemas dos clientes como enraizados em sistemas sociais, especialmente familiares, que funcionam mal. Nessa época, a equipe via o terapeuta como o especialista que concebe uma estratégia comportamental, muitas vezes complexa e contraintuitiva, para perturbar o sistema e levá-lo a um padrão mais construtivo (Kiser, 1995; Miller, 2004).
Korman e os seus colegas apresentam dois axiomas que, segundo eles, caracterizam o pensamento de de Shazer nesse estágio:
Korman, De Jong e Jordan, 2020, p. 21
O axioma 1 capta o compromisso de de Shazer com a perspectiva sistêmica de que a terapia diz respeito às relações exteriores, e não à patologia psíquica interior, e se relaciona com o bem da prática. O axioma 2 expressa a sua concepção (avançada) de que o terapeuta e o cliente constituem um único sistema, e contribui para o bem interno ou a excelência dos praticantes. Nesse aspecto, de Shazer parece estar à frente dos seus colegas, que só passam a compartilhar a sua compreensão na fase seguinte da evolução da prática (Kiser, 1995; Korman et al., 2020).
Durante o período da “fase 2”, a equipe do BFTC leva ao limite a abordagem estratégica que adotou. Miller, que começa a sua pesquisa enquanto a transição da fase 2 para a fase 3 está em curso, em 1984, designa como “ecossistêmica” a abordagem da prática adotada nesse período. Nessa fase, os terapeutas do BFTC começam a trabalhar de modo mais cooperativo com os clientes para desenvolver a mudança nos seus sistemas. Isso tem dois resultados. Primeiro, a percepção geral de que o terapeuta, e até a equipe atrás do espelho, faz parte do sistema terapêutico (Miller, 2004), e portanto deveria ser considerado praticante. Segundo, a expertise do cliente vem para o primeiro plano, a ponto de o cliente ser considerado o especialista na mudança que deseja. Miller observa que, durante esse período, a equipe se preocupa em que o cliente defina a sua “dificuldade” como um problema claro, para que estratégias de resolução de problemas possam então ser formuladas pela equipe, em cooperação com o cliente, para perturbar o sistema-problema (Miller).
Kiser observa os “pontos nodais” disciplinares que parecem ligados a essa fase: os elogios, a morte da resistência, o foco no futuro e a pressuposição da mudança, e a pesquisa sobre o discurso da mudança (de Shazer, 1984; Kiser, 1995). Todos esses “pontos” se relacionam com a relação e a interação entre o terapeuta, a equipe terapêutica e o cliente. Relacionam-se com a excelência ou o bem dos praticantes que se desenvolve à medida que se engajam na sua prática e são formados por ela.
Primeiro, Kiser observa como os elogios, como forma de construir a relação entre a equipe e os clientes, serviram para obter a adesão às intervenções formuladas pela equipe. Isso aconteceu depois que um cliente perguntou quem estava atrás do espelho da sala de terapia, e a equipe lhe foi apresentada. Depois da apresentação, a equipe se sentiu obrigada a dizer “coisas boas” sobre o cliente (Kiser, 1995, p. 126). A partir daí, os elogios parecem ter assumido um papel importante na construção de uma relação positiva, construtiva, boa, entre a equipe terapêutica e o cliente. Isso era importante para construir a interação cooperativa entre o terapeuta, a equipe e o cliente a fim de criar a mudança (Kiser).
A morte da resistência foi também um passo-chave no estabelecimento dessa interação cooperativa. A “resistência” foi reenquadrada como um problema do terapeuta, e não do cliente. Se o cliente não cumpria as tarefas recomendadas pelo terapeuta e pela equipe, era porque o terapeuta ainda não havia encontrado a maneira certa de cooperar com o cliente para construir a mudança (Kiser, 1995, p. 128).
A ênfase na mudança levou naturalmente à pesquisa sobre o discurso da mudança, na qual a equipe do BFTC procurou compreender, pela observação e pela revisão (em vídeo), como perguntas, respostas e sugestões particulares poderiam encorajar o cliente a iniciar a mudança no seu sistema relacional. Por meio dessa pesquisa, a equipe procurou melhores maneiras de colaborar com os clientes, por perguntas apropriadas e pela linguagem das suas respostas e sugestões, para trabalhar com o cliente na produção da mudança desejada (Kiser, 1995, p. 130).
Essa fase da evolução da prática é captada por dois axiomas:
Korman, De Jong e Jordan, 2020, p. 21
O axioma 3 enuncia claramente o bem da prática do BFTC nessa época: criar mudança na vida do cliente. Miller o amplia em termos de estratégias de mudança destinadas a perturbar o “comportamento problemático” (Miller, 2004, p. 45). O axioma 4 indica os meios ou as habilidades da prática pelos quais esse bem será alcançado – a interação cooperativa entre o terapeuta (e a equipe) e o cliente – e capta o desenvolvimento contínuo do bem do praticante.
Na terceira fase da evolução do pensamento e da prática de de Shazer, vemos a abordagem focada nas soluções emergir da terapia sistêmica. Os sistemas ainda figuram no pensamento e na prática da equipe do BFTC, mas a ênfase está agora, como observa Miller, na abordagem focada nas soluções (Miller, 2004). Kiser também começa a sua pesquisa de doutorado no fim desse período, mas havia sido estudante no centro mais cedo, nos anos 1980 (Kiser, 1995).
A evolução da prática nesse ponto do BFTC é decisiva para a abordagem focada nas soluções. Miller (2004) indica que, nesse período, vemos o terapeuta e o cliente cooperar não apenas para a mudança do sistema, mas para a solução do cliente. Ela é também caracterizada pela descoberta de que os clientes já têm a base das suas próprias soluções nas exceções e nas mudanças que operam em razão do seu compromisso e do seu engajamento na terapia (Korman et al., 2020). O foco da terapia se desloca agora decisivamente da expertise do terapeuta para a do cliente na formulação da sua solução. Nessa fase, o terapeuta é mais um facilitador, ou um “especialista” no processo da conversa terapêutica. Não há mais discussão sobre a “definição do problema”, pois a solução é agora considerada inteiramente independente das dificuldades ou do problema (Miller).
As mudanças dessa fase são caracterizadas, na pesquisa de Kiser, pelos seguintes “pontos nodais”: a tarefa-fórmula da primeira sessão, a mudança pré-tratamento, a pergunta do milagre, um deslocamento para a entrevista antes da pausa, e Briefer I e II (Kiser, 1995, p. 71). Esses pontos marcam a emergência da abordagem focada nas soluções como prática distintiva, na qual o terapeuta trabalha para apoiar o cliente no desenvolvimento da sua própria solução, e não da “mudança” em si.
A tarefa-fórmula da primeira sessão foi usada pela primeira vez em 1982; ela pede ao cliente que note, e depois descreva ao terapeuta, qualquer mudança que ele gostaria que “continuasse a acontecer” (de Shazer, 1985, p. 137). Nessa tarefa, vemos o deslocamento do problema que pode afligir o cliente para as mudanças, na sua vida e no seu comportamento, que ele opera e que gostaria que continuassem. Elas constituiriam exceções ao problema, e talvez forças que poderiam ser a base de uma solução.
A mudança pré-tratamento. Apresentada pela primeira vez em 1987, constitui mais do mesmo, pois pede-se ao cliente que se concentre nas mudanças positivas ocorridas depois de marcar a consulta, mas antes de ver o terapeuta. A ação do cliente, ao marcar a consulta, foi um ato decisivo rumo a uma solução e, como tal, provavelmente desencadeou outras mudanças positivas que poderiam contribuir para a solução desejada pelo cliente. Mais uma vez, essa pergunta é concebida para atrair a atenção do cliente para as exceções e as mudanças que poderiam formar a base da solução.
A pergunta do milagre. “Se você acordasse uma manhã e um milagre tivesse acontecido, o que lhe diria que o seu problema está resolvido?” (Kiser, 1995, p. 135). Nascida em meados dos anos 1980, ela é frequentemente considerada o traço definidor da abordagem focada nas soluções. Nessa pergunta, uma ênfase radical é colocada na solução, pois pede-se ao cliente que imagine um futuro no qual a solução ocorreu. Isso implica um deslocamento completo, para longe de qualquer consideração do problema, e exige do cliente que dedique inteiramente a sua atenção à descrição da sua solução.
Um deslocamento para a entrevista antes da pausa. Na fase ecossistêmica anterior da terapia no BFTC, a tarefa de intervenção apresentada aos clientes depois da pausa tradicional era considerada o assunto principal da entrevista terapêutica. Mas com o deslocamento para longe da expertise do terapeuta na elaboração de uma estratégia para perturbar o sistema, Kiser (1995) observa que as próprias respostas do cliente, especialista na sua própria solução, assumem uma importância muito maior como centro da interação terapêutica. Uma atenção maior é agora dada à linguagem usada pelo cliente que indica forças e exceções capazes de fornecer uma base à formação de uma solução. Na abordagem ecossistêmica, a formulação da intervenção a ser entregue ao cliente depois da pausa envolvia uma grande engenhosidade da parte do terapeuta e da equipe (Miller, 2004). Mas nessa fase é a engenhosidade do cliente que é central, pois as “pistas” extraídas das respostas do cliente na entrevista servem agora para formular a intervenção, em vez das recomendações do terapeuta.
Como de Shazer via a prática terapêutica, na nova abordagem, tornar-se um processo interativo de desenvolvimento de soluções com o cliente, ele tentou mapear o processo, e até desenvolver programas de computador que pudessem (ajudar a) facilitar o processo. Isso levou ao desenvolvimento de Briefer I e II com uma equipe da Universidade Marquette (Kiser, 1995). Embora o processo de construção das soluções pareça ter alguns traços comuns, simples e repetíveis, a maneira como eles se repetiam em cada interação individual era tão específica daquela conversa que, sugere Kiser, se revelou impossível desenvolver um programa capaz de lidar com a extensão da sua diversidade imprevisível e idiossincrática! Mas o que isso indica é que a ênfase estava agora colocada no processo interativo de cocriação das soluções, e que tanto os problemas quanto a expertise do terapeuta em resolução de problemas haviam ficado muito para trás. O resultado é que o bem do praticante abrange agora tanto o terapeuta quanto o cliente. O bem ou a excelência do cliente consiste em formular as suas próprias soluções a partir dos seus recursos e no seu contexto. A excelência do terapeuta consiste em capacitar o cliente ao longo desse processo. Isso constitui uma excelência tão complexa que não surpreende que tenha se revelado difícil demais para um programa de computador!
Apenas um axioma é apresentado para esse estágio:
Korman, De Jong e Jordan, 2020, p. 21
O axioma 5 indica o refinamento do bem da prática da abordagem focada nas soluções à medida que ela emergia. O propósito da prática focada nas soluções é desenvolver boas soluções com os clientes. Esse axioma também sugere um refinamento da excelência do praticante, pois a interação cooperativa entre o terapeuta e o cliente é reforçada pelo uso de habilidades mais refinadas.
A última fase identificada por Korman e os seus coautores é a quarta, intitulada período do “último de Shazer”, de 1989 a 2005, ano da morte de de Shazer. Miller e Kiser concluem ambos os seus projetos de pesquisa no início desse período. A filosofia da linguagem de Wittgenstein domina então o pensamento de de Shazer. Kiser (1995) sugere que essa virada vem do fracasso de Briefer I e II, que leva de Shazer a usar a filosofia da linguagem de Wittgenstein para compreender melhor a interação de formulação da solução entre o terapeuta e o cliente. Isso contribuiu para que de Shazer visse a terapia breve focada nas soluções, através de uma lente wittgensteiniana, como um “construcionismo interativo” (de Shazer, 1991, p. 48). Ele concebe a terapia como um jogo de linguagem no qual terapeutas e clientes se engajam em mal-entendidos criativos para formular a mudança e as soluções. Embora de Shazer fosse entusiasta de Wittgenstein, não está claro quantos dos seus colegas do BFTC compreendiam o filósofo ou compartilhavam a paixão de de Shazer (Kiser).
Korman e os seus coautores apresentam um último, sexto axioma para esse estágio:
Korman, De Jong e Jordan, 2020, p. 21
O axioma 6 não sugere nenhuma mudança do bem da prática da abordagem focada nas soluções, que continua sendo o desenvolvimento de soluções. Sugere, em contrapartida, um refinamento do bem do praticante. A terapia é agora concebida como um jogo de linguagem no qual a mudança é negociada pela coconstrução de soluções.
Fiz uma exploração bastante técnica da narrativa da evolução da terapia breve e da terapia breve focada nas soluções no BFTC, com o objetivo de descobrir os bens internos da abordagem focada nas soluções como prática. Relacionando os axiomas de Korman e colegas (2020) com a narrativa da emergência da abordagem focada nas soluções, vemos que os axiomas 1, 2, 4 e 6 se referem ao desenvolvimento das disciplinas da prática no BFTC e aos bens ou excelências do praticante, enquanto os axiomas 3 e 5 se referem aos bens da prática, desenvolvidos pelas habilidades da prática. O terceiro axioma se refere ao propósito do que Miller (2004) chama de terapia ecossistêmica: instigar a mudança no sistema do cliente. O sexto axioma não o substitui, mas antes se apoia nele, no estágio focado nas soluções da evolução do BFTC, ao (re)definir a mudança em termos de desenvolvimento de soluções colaborativas com o cliente. Gosto particularmente da maneira como Miller formula o bem da prática, de um modo que capta o ethos do último de Shazer. O bem da prática da abordagem focada nas soluções é “construir histórias progressivas” (Miller, p. 74). O que talvez seja único na abordagem focada nas soluções é que esse bem da prática implica que os clientes sejam considerados co-praticantes ao lado dos terapeutas, e portanto que também compartilhem o bem do praticante.
Como já indiquei, MacIntyre sustenta que as instituições são cruciais para desenvolver e sustentar a prática por meio de bens externos, ou “excelências de eficácia” (Knight, 1998; MacIntyre, 1985). Isso significa que elas começam a assumir as seguintes funções: definir o coração da prática em termos dos seus bens internos e das disciplinas que os sustentam, iniciar outras pessoas na prática pela educação nas suas tradições e disciplinas, preservar a integridade da prática e promover a prática (Bielskis & Mardosas, 2014; Darr, 2020; Knight, 2008).
Kiser (1995) observa o papel crucial desempenhado pelo Brief Family Therapy Center no desenvolvimento da abordagem focada nas soluções. Os “fundadores” (Kiser, p. 22) se viram constrangidos no ambiente do Family Services em Milwaukee, e por isso estabeleceram um consultório independente no qual seriam livres para experimentar e descobrir que abordagens terapêuticas serviriam melhor aos seus clientes. A independência e o isolamento (e até o ostracismo) do BFTC, fora das estruturas recebidas de regulação e de responsabilização, permitiram à equipe do BFTC e aos seus colaboradores trabalhar de modo cooperativo e criativo para desenvolver uma nova abordagem terapêutica. Kiser sustenta que muitas ideias semelhantes às que encontraram expressão, primeiro na terapia ecossistêmica e depois na terapia focada nas soluções, já circulavam no mundo terapêutico, mas que foi apenas no cenário dinâmico do BFTC que puderam ser “redescobertas” e incorporadas a uma prática coerente. Nesse aspecto, o BFTC como instituição foi crucial para o desenvolvimento da terapia focada nas soluções (Kiser & Piercy, 2001).
Uma vez que a abordagem focada nas soluções alcançou alguma coerência e alguma identidade como prática, o centro de Milwaukee se tornou então o eixo da sua promoção (Kiser, 1995). Isso aconteceu pela educação oferecida em Milwaukee mesmo, pelas apresentações dos membros-chave da equipe em congressos, especialmente de Shazer e Berg, e pelos escritos de de Shazer (1985, 1988, 1991, 1994). Curiosamente, embora de Shazer fizesse questão de promover a prática, relutava em defini-la (Miller & de Shazer, 1998). Ao mesmo tempo, a equipe do BFTC acreditava ser possível especificar os elementos que definiriam uma sessão de terapia focada nas soluções (de Shazer et al., 1986). Essa ambiguidade permitiu tanto a formação de uma compreensão geral da abordagem focada nas soluções quanto o seu desenvolvimento posterior como prática. De um ponto de vista wittgensteiniano, de Shazer teria ficado bastante satisfeito com isso, pois significa que a abordagem focada nas soluções será sempre compreendida em termos de “semelhança de família”, e não por uma definição da sua “essência” (Wittgenstein, 1967, p. 33).
Uma vez que o BFTC completou o seu trabalho pioneiro de desenvolvimento da abordagem focada nas soluções como prática distinta, outras instituições, tanto centros (locais) de prática quanto associações mais amplas, começaram a emergir, facilitando o desenvolvimento e a difusão da prática pelo mundo. Duas delas merecem menção especial: a BRIEF, em Londres, centro de terapia e de formação, e a European Brief Therapy Association, a primeira associação internacional de promoção da abordagem.
A BRIEF (https://www.brief.org.uk/) começou como um consultório privado, The Brief Therapy Practice, que adotou e desenvolveu a sua própria prática focada nas soluções “minimalista” com base no trabalho de de Shazer, e depois realizou conferências anuais a partir de 1989, muitas vezes com de Shazer e Berg como palestrantes principais. As atividades da BRIEF ajudaram a difundir a abordagem no Reino Unido e em outras partes da Europa. É interessante que a BRIEF e centros semelhantes (http://www.iasti.org/) sigam o modelo estabelecido pelo BFTC, continuando a desenvolver a prática focada nas soluções, a oferecer formação na prática e a promovê-la por apresentações e publicações.
A European Brief Therapy Association (https://www.ebta.eu/) foi formada em 1993 por um grupo de praticantes europeus, incluindo Evan George, da BRIEF, em parceria com de Shazer e Berg, presentes no seu congresso inaugural em 1994 (Isebaert, 2011). A EBTA continua na vanguarda do desenvolvimento e do aprimoramento da teoria, ou “definição” (Sunderman et al., 2020), e do engajamento ético (EBTA, 2021) da abordagem focada nas soluções. Algumas das aplicações mais amplas da prática focada nas soluções foram aventadas primeiro em congressos da EBTA (Sunderman et al.).
Nove anos depois, em 2002, de Shazer e Berg tomaram a iniciativa de formar a Solution Focused Brief Therapy Association (SFBTA) nos Estados Unidos. Nos seus primeiros anos, a SFBTA organizou sobretudo congressos, mas depois da morte de Insoo Kim Berg, em 2007, a SFBTA assumiu os arquivos do BFTC e procura agora promover uma pesquisa rigorosa sobre a eficácia e o desenvolvimento posterior da abordagem focada nas soluções (https://www.sfbta.org/).
Essas e outras instituições tiveram um sucesso considerável no estabelecimento da abordagem focada nas soluções pelo mundo, com centros e organizações em todos os continentes (exceto a Antártida!). A abordagem também foi ampliada para além da psicoterapia, com aplicações na educação (Franklin & Streeter, 2004), no coaching (Jackson & McKergow, 2007), na gestão (Lueger & Korn, 2006), no desenvolvimento organizacional (Polgar & Hankovszky, 2014), na liderança (Brooker et al., 2019), na resolução de conflitos (Bannick, 2010), no desenvolvimento comunitário (Walsh, 2010), e até no engajamento político radical (Shennan & Gardener, 2018; Shennan, 2020).
No conjunto, parece mesmo que a abordagem focada nas soluções foi muito bem servida pelas suas instituições. Elas continuaram a aprimorar e a ampliar a abordagem em muitos domínios, com um benefício humano considerável, tanto individual quanto social. Graças a esses esforços institucionais, o perfil da prática focada nas soluções se elevou, e muitos praticantes foram iniciados nela. Significativamente, as instituições ligadas à abordagem focada nas soluções parecem ter evitado em grande parte as armadilhas que MacIntyre associa às instituições, a saber, uma regulação inflexível que estrangula a prática, e uma ênfase nos bens externos ou extrínsecos de status, lucro e dominação, que efetivamente sacrifica os bens internos da prática (MacIntyre, 1985).
Descrevi os bens internos da abordagem focada nas soluções por meio de um estudo detalhado da sua narrativa formadora no BFTC, e revisei o desenvolvimento dos bens externos observando o papel de algumas instituições-chave ligadas à abordagem focada nas soluções. Mas a identificação das virtudes específicas que se relacionam com as habilidades necessárias para facilitar o processo de construção de soluções, que é o coração da prática, exigirá pesquisas empíricas adicionais. Contudo, como disse acima, MacIntyre (1985) identificou as virtudes gerais da justiça, da coragem e da honestidade, que ele considera necessárias se quisermos nos engajar em qualquer prática. São as virtudes de que precisamos para formar relações apropriadas e produtivas com as outras pessoas envolvidas na prática, e com a comunidade mais ampla na qual a prática se situa. Como essas virtudes se desenvolveram ao longo do tempo e se manifestaram na equipe do BFTC?
Primeiro, de Shazer e os seus colegas foram certamente justos ao reconhecer a herança que haviam recebido do MRI e de Erickson. De Shazer reconhece essa dívida nos seus livros (de Shazer, 1985, 1988, 1991, 1994), e John Weakland, diretor do MRI, assina os prefácios de várias das suas obras (Weakland, 1985, 1988, 1991). Nas suas entrevistas com os fundadores do BFTC, Kiser encontrou um espírito semelhante na equipe, com os participantes reconhecendo os papéis diferentes que cada um havia desempenhado (Kiser, 1995). Por fim, havia um compromisso muito claro de ser justo com os clientes, buscando os resultados que eles preferiam (Miller, 2004).
Segundo, a equipe do BFTC foi certamente corajosa ao iniciar um empreendimento muito arriscado, a um custo e a um risco elevados para si mesma (De Jong, 2019; Kiser, 1995; Lipchik, 2014). As suas iniciativas iam contra a ortodoxia recebida e lhe atraíram oposição e rejeição nos círculos terapêuticos e acadêmicos locais (Kiser, 1995; Visser, 2013). Os experimentos terapêuticos conduzidos pela equipe também foram muito audaciosos. A equipe se arriscou de todas as maneiras possíveis!
Terceiro, a equipe teve uma grande honestidade entre os seus membros, sobretudo nos estágios iniciais do seu trabalho conjunto, quando mantinha discussões rigorosas sobre a maneira como cada um fazia terapia e sobre as forças e as fraquezas da sua prática e da sua teoria (Kiser, 1995; Miller, 2004). À medida que a abordagem focada nas soluções se desenvolvia, houve também um compromisso crescente de ser honesto com os clientes, como coconstrutores das soluções, e de renunciar a qualquer técnica ambígua destinada a obter um resultado terapêutico, que talvez caracterizasse a prática nos estágios anteriores da abordagem (especialmente na formulação das mensagens de fim de sessão). Numa ocasião, de Shazer insistiu que nunca era apropriado nem necessário mentir para os clientes (Cade, 1985).
Os fundadores da abordagem focada nas soluções demonstraram, sim, as virtudes da justiça, da coragem e da honestidade no seu contexto. Isso parece ter preparado o terreno para os desenvolvimentos posteriores, à medida que a abordagem se difundia.
À medida que os praticantes da abordagem focada nas soluções começavam a ampliar a abordagem, estabeleceram organizações como veículos para garantir os bens externos da sua prática. Essas organizações elaboraram códigos de ética que procuram articular, preservar e comunicar os valores e os padrões fundamentais da abordagem, com base no legado das narrativas que considerei. Três associações focadas nas soluções produziram tais códigos: a United Kingdom Association for Solution Focus Practice (UKASFP, 2012), a Association for Solution Focus in Organizations (ASFIO, 2016) e a European Brief Therapy Association (EBTA, 2021). Às vezes somos tentados a pensar nos códigos de ética como regras formuladas para combater más condutas à medida que surgem, e depois impostas de cima para evitar novos desvios. Mas eles também podem ser expressões das melhores práticas, e captar os padrões e os valores que os praticantes mais prezam (Joyce & Rankin, 2010; Sellman, 2011). Esses códigos representam o comportamento virtuoso que esperamos de nós mesmos e uns dos outros.
De fato, as virtudes da justiça, da honestidade e da coragem são todas expressas, em maior ou menor grau, nos códigos de ética das três organizações acima. A justiça se expressa de três maneiras: o que é devido aos fundadores, aos colegas e, acima de tudo, ao cliente. Os códigos da ASFIO e da EBTA fazem ambos referência explícita ao reconhecimento da contribuição dos fundadores da abordagem:
ASFIO, 2016
Todos os membros da ASFIO reconhecem o ethos open source da abordagem focada nas soluções, oriundo do trabalho pioneiro de Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e seus colegas do Brief Family Therapy Center.
EBTA, 2021, p. 3
IV. O praticante de TBFS respeita o trabalho dos seus mestres e aprecia a herança dos fundadores da TBFS. Além disso, respeita os seus colegas que trabalham com a TBFS tanto quanto os que trabalham com outras abordagens ou em outras profissões. O praticante de TBFS reconhece que a sua expertise e as suas habilidades são apenas a continuação das realizações dos seus mestres e predecessores. Por isso, faz saber que adquiriu os seus conhecimentos e as suas habilidades por meio da formação.
O reconhecimento do que é devido aos colegas é captado nestas declarações:
UKASFP, 2012, p. 7; ASFIO, 2016
…deixar claro o seu respeito pelos colegas com os quais têm uma relação de trabalho, e ouvirão e tomarão conhecimento das abordagens adotadas pelos colegas.
Reconhecer o trabalho dos outros e dar-lhes o devido crédito.
O que é devido ao cliente vem em primeiro lugar. Os praticantes devem dar o maior respeito à expertise do cliente:
ASFIO, 2016; EBTA, 2021, p. 3
Respeitar a expertise dos seus clientes: os clientes sabem o que querem.
III. O praticante de TBFS reconhece o cliente como especialista na sua vida, nas suas capacidades e nas suas necessidades.
A confidencialidade que os praticantes devem ao cliente:
UKASFP, 2012, p. 2
Toda relação de ajuda se desenvolverá num ambiente de confiança, de modo que o cliente possa confiar ao praticante informações pessoais sensíveis. Tal relação reconhece que o cliente pode esperar confidencialidade, com uma restrição ao compartilhamento das informações que o cliente identificou como privadas e pessoais, salvo em caso de questões de proteção. A autonomia pessoal do cliente é respeitada quando o praticante se compromete a ser explícito sobre os parâmetros dessa confidencialidade.
O respeito pela confidencialidade dos clientes:
EBTA, 2021, p. 4
O praticante de TBFS respeita o direito do cliente à privacidade e não divulga nenhuma informação que lhe tenha sido transmitida.
Os praticantes aceitam e respeitam a diversidade dos clientes:
UKASFP, 2012, p. 3; ASFIO, 2016; EBTA, 2021, p. 3
Entende-se que o praticante trabalhará em todos os momentos para promover e sustentar ações que reconheçam a diversidade e demonstrem um compromisso total com a igualdade de oportunidades. Isso se aplica tanto a uma abordagem proativa de acolhimento da diversidade quanto a uma vigilância contínua, incluindo uma abordagem reflexiva, para garantir uma prática eficaz que evite a discriminação.
Estabelecer, comunicar e observar limites claros, apropriados e culturalmente sensíveis, que governem o seu próprio comportamento.
O praticante de TBFS baseia a sua relação com o cliente na premissa do respeito pelas convicções, pela autonomia, pela segurança e pelas necessidades do cliente.
A coragem se expressa de duas maneiras: o desejo de ampliar as fronteiras da prática pelo bem do cliente, e a disposição de enfrentar as más condutas dentro da prática. Os praticantes focados nas soluções precisam estar dispostos a se engajar na inovação da nossa prática pelo bem dos seus clientes:
UKASFP, 2012, p. 7; EBTA, 2021, p. 3
Um praticante eficaz procurará, pela aplicação dos princípios da abordagem focada nas soluções, aprimorar o trabalho no seu próprio campo de prática. Reconhece-se que, às vezes, a aplicação pode ser restringida pelas exigências de uma situação particular. Adaptar-se aos ambientes de trabalho reais faz parte de uma aplicação eficaz da abordagem focada nas soluções.
O praticante de TBFS é capaz de encontrar um equilíbrio entre a lealdade à filosofia central da TBFS e a busca de métodos de trabalho novos e úteis.
Espera-se também que os praticantes estejam dispostos a intervir junto a colegas que caíram em má prática:
UKASFP, 2012, p. 8; EBTA, 2021, p. 5
O presidente agirá em nome do comitê para implementar uma resposta apropriada a qualquer queixa formal. Pode tratar-se de: … queixa de um membro da associação contra outro membro da associação.
Sempre que encontrar um comportamento antiético da parte dos seus colegas ou de outros profissionais, o praticante de TBFS se esforça para compreender as suas motivações e as suas razões, e tenta ajudá-los a encontrar uma solução melhor para a situação presente. Se essas tentativas fracassarem ou parecerem infrutíferas, o praticante recorre ao grupo consultivo (Advisory Task Group).
Por fim, a honestidade se expressa na veracidade para com o cliente e na consciência que o praticante tem dos seus próprios limites. Para isso, é essencial que a nossa comunicação com o cliente e com os outros seja verdadeira:
UKASFP, 2012, p. 3; ASFIO, 2016; EBTA, 2021, p. 3
…o praticante terá uma consciência baseada no desenvolvimento de uma comunicação aberta, honesta e eficaz com o cliente.
Fazer acordos claros com os seus clientes e honrar esses acordos.
O praticante de TBFS expressa as suas opiniões e as suas preocupações sobre o cliente e a sua relação mútua de acordo com a sua compreensão subjetiva da verdade e levando em conta as expectativas e as reservas do cliente. O praticante visa conciliar esse princípio com as regulamentações legais e as exigências da instituição que o emprega. Em todos os documentos formais, apresenta uma descrição exata e positiva do cliente, centrada nas suas realizações e nas suas capacidades.
Os praticantes procurarão também ser honestos consigo mesmos quanto às suas limitações:
UKASFP, 2012, p. 3; ASFIO, 2016; EBTA, 2021, p. 4
…os praticantes estarão conscientes da extensão e dos limites da sua formação e da sua experiência, e preparados para explicitá-los se for necessário (por exemplo, se forem designados para uma situação ou tarefa fora do seu nível de competência)…
Agir dentro dos limites das suas habilidades e dos seus conhecimentos, e encaminhar os clientes a outro profissional se for apropriado.
O praticante reconhece que as suas capacidades são limitadas, e considera também as outras possíveis limitações e impedimentos pessoais ao processo de ajuda. Discute-os com o cliente e oferece a sua ajuda para encontrar outra ajuda profissional se ela prometer ser mais benéfica ao cliente. Sempre que problemas de saúde, convicções pessoais ou outras circunstâncias pessoais possam interromper ou impedir o processo de ajuda, o praticante está disposto a deixar de trabalhar com o cliente.
Esta revisão dos códigos de ética indica que os praticantes que procuraram continuar e desenvolver o legado dos fundadores, adotando e desenvolvendo a sua prática terapêutica, também dão continuidade ao seu legado moral, expresso nos códigos de ética para os quais contribuíram e que agora subscrevem. Esses códigos estabelecem os sinais e os marcos do tipo de comportamento virtuoso ao qual todos nós, como praticantes, aspiramos, apoiando-nos no legado dos fundadores.
Comecei este artigo com as duas perguntas de Trish Walsh: “Que mapas os profissionais têm para guiar a ação na tomada de decisão moral? Como esses mapas se relacionam com o processo de ajuda focada nas soluções?” (Walsh, 2010, p. 27). Acredito ter mostrado que o conceito de prática de Alasdair MacIntyre, com bens internos e externos, que fornece o contexto do desenvolvimento e do exercício das virtudes e da ação virtuosa, fornece a “cartografia” para tal mapa – uma cartografia adotada por várias profissões, incluindo profissões terapêuticas (Fitzmaurice, 2010; Higgins, 2010; Sagut, 2015; Sellman, 2011; Sinnicks, 2019). Ao explorar a evolução da abordagem focada nas soluções no BFTC, acredito ter identificado as principais tradições, intuições e habilidades, e os bens internos e externos da prática.
Apresentei a narrativa ou as tradições dessa prática desde o seu período formador, durante o qual os seus bens internos-chave – a expertise do cliente, a postura de ajuda do praticante, o seu processo interativo de coconstrução e a centralidade dos objetivos ou resultados do cliente – se formaram no Brief Family Therapy Center. Em seguida, explorei o papel dinâmico desempenhado pelo BFTC e por outras instituições-chave (como a BRIEF e a EBTA) no desenvolvimento dos bens externos da prática, para sustentar e desenvolver ainda mais a abordagem focada nas soluções, de modo que ela tem uma ampla gama de aplicações, para além do contexto terapêutico no qual surgiu. Por fim, mostrei como as virtudes-chave de MacIntyre – justiça, coragem e honestidade – se manifestaram na prática em evolução no BFTC e continuam a ser afirmadas nos códigos de ética elaborados pelas organizações que apoiam a abordagem focada nas soluções, como parte da prática atual. Ao fazê-lo, acredito ter demonstrado também a viabilidade e a aplicabilidade da abordagem da ética das virtudes baseada na prática, de MacIntyre, à prática focada nas soluções. Temos um esboço do terreno. Precisamos agora preencher os detalhes, em termos de virtudes específicas desenvolvidas no contexto da prática da abordagem focada nas soluções. Esse será o tema de um artigo posterior.
Este artigo, portanto, é apenas um começo, pois as minhas explorações e os meus argumentos aqui sugerem uma agenda de pesquisa muito mais ampla. O primeiro ponto de partida é a minha própria prática. Eu poderia conduzir um autoestudo do meu trabalho. Eu poderia conduzir um autoestudo do meu trabalho de uso de uma abordagem focada nas soluções no desenvolvimento profissional de administradores universitários de nível intermediário (Willis & Jennings, 2015, 2020), para explorar que virtudes podem ter motivado a minha prática e nela se manifestado, e se isso facilitou o desenvolvimento de virtudes nos participantes do programa de desenvolvimento. Essa pesquisa por autoestudo alimentará a segunda e a terceira áreas.
A segunda consistirá em alguns estudos empíricos, para dar uma visão mais geral das virtudes que capacitam os praticantes no seu trabalho. Isso poderia ser obtido de três maneiras: (a) uma revisão extensa de estudos de caso, para ver que virtudes ou qualidades de praticante eles manifestam; (b) uma revisão de entrevistas nas redes sociais, para ver que qualidades e virtudes os próprios praticantes indicam ou manifestam como importantes para a prática focada nas soluções; e (c) um estudo Delphi entre praticantes focados nas soluções, para estabelecer as qualidades humanas ou virtudes que consideram cruciais para o seu trabalho.
Terceiro, o papel das conversas focadas nas soluções na formação do caráter dos clientes poderia ser explorado (Waring, 2016). Que qualidades pessoais ou virtudes são reforçadas ou emergem nos clientes em razão da interação focada nas soluções? A conversa focada nas soluções é uma forma de “phronesis”?
Uma quarta área de estudo é o papel desempenhado pelas instituições e organizações do mundo focado nas soluções na manutenção e no aprimoramento do bem interno e das virtudes da prática, através de uma gama tão ampla de aplicações, assim como o papel que os congressos, como lugares de aprendizagem (Zuber-Skerritt, 2017), poderiam ter nisso, e o impacto dos documentos de política-chave, como as explicações da prática focada nas soluções e os códigos de ética, como expressões e não prescrições das virtudes na conduta da abordagem focada nas soluções.
Quinto, e por último, quais são o contexto e o impacto mais amplos das virtudes desenvolvidas na prática focada nas soluções? MacIntyre sustenta que as virtudes orientadas para a prática se tornam parte do caráter de uma pessoa quando se manifestam em outras áreas da vida e da comunidade do praticante. Miller (2004) sugere que a abordagem focada nas soluções poderia ter o seu lugar em movimentos mais afirmativos do pós-modernismo, que veem no fim das “metanarrativas” a base de uma maior agência humana “de baixo para cima”. Fico me perguntando se o Solution Focused Collective (https://solfocollective.net/) (do qual participo) e o recente artigo sobre o “desacordo” do qual sou coautor (Stark et al., 2021) não poderiam ser expressões desse impacto mais amplo.
Todos esses estudos repousam sobre a viabilidade do “mapa” que introduzi. A tarefa imediata é estabelecer a sua validade identificando algumas virtudes específicas que promovem os bens internos da prática. Pretendo fazê-lo num artigo posterior, no qual exploro a afirmação de que a abordagem focada nas soluções é uma abordagem “sem valores” (Ratner et al., 2012, p. 84), e portanto não tem nenhum mapa do engajamento moral, e talvez não precise de um.
Complexe Systémique: para lembrar
O artigo estabelece a “cartografia” da qual o segundo artigo de Jennings, A abordagem focada nas soluções: uma prática rica em virtudes, extrai as virtudes concretas. Três ideias para guardar: uma prática se define pelos seus bens internos (aqui “construir histórias progressivas”, Miller) e não por uma definição abstrata; esses bens se leem na narrativa do BFTC, fase por fase, através dos seis axiomas de Korman, De Jong e Jordan; e os códigos de ética não são regras impostas de cima, mas a expressão das virtudes que os praticantes reconhecem em si mesmos. A originalidade da abordagem, segundo Jennings, está em que o cliente é co-praticante.
Notas
1. MacIntyre chamará mais tarde esses bens internos de “bens de excelência” (Knight, 1998; Ward, 2017).
2. MacIntyre chamará mais tarde estes de “bens de eficácia” (Knight, 1998; Ward, 2017).
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Tradução não oficial para o português de ‘Mapping’ Moral Engagement in the Solution-Focused Approach Through MacIntyre’s Model of Practice, de Brian K. Jennings, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 6, n.º 1 (2022), doi: 10.59874/001c.75002, sob licença CC BY 4.0. Tradução e formatação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “‘Mapping’ Moral Engagement in the Solution-Focused Approach Through MacIntyre’s Model of Practice”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Jennings, B. K. (2022). “Mapear” o engajamento moral na abordagem focada nas soluções com o modelo de prática de MacIntyre (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/mapear-o-engajamento-moral-na-abordagem-focada-nas-solucoes (Obra original publicada em 2022 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 6, n° 1 (2022); republicada em 2022 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75002)
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