International Journal of Systemic Therapy · Casal
O que fazer quando as duas pessoas do casal chegam à terapia sem o mesmo futuro em mente, ou até com futuros que se excluem? O terapeuta e pesquisador tcheco Leoš Zatloukal desdobra a negociação do futuro preferido em três configurações: direção comum, direções diferentes, desacordo sobre a direção. Cinco exemplos clínicos mostram a pergunta milagre transformada em “jantar mágico”, a interseção dos futuros preferidos, o tetralema e o prazo para decidir.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Negociar futuros preferidos na terapia de casal focada em soluções, de Leoš Zatloukal, publicado na International Journal of Systemic Therapy (Taylor & Francis) (2026), doi: 10.1080/2692398x.2025.2492816, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; as remissões às tabelas, ausentes da versão HTML do editor, foram restabelecidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Não se trata apenas de “perguntas inteligentes” preparadas de antemão, mas da arte de desenvolver as conversas com as pessoas atendidas.
Leoš Zatloukal
Resumo
A psicoterapia de casal é um campo distinto e em desenvolvimento da psicoterapia. O autor do texto pretende apresentar as formas de negociar futuros preferidos (isto é, ideias sobre a mudança desejada) com os membros do casal na terapia de casal focada em soluções. Ele descreve como construir com o casal uma visão compartilhada da mudança desejada, bem como a maneira de trabalhar em situações em que cada membro do casal tem uma visão diferente, ou até conflitante, do seu futuro preferido. O texto é complementado com exemplos da prática.
Palavras-chave: terapia de casal, terapia focada em soluções, futuros preferidos
O tema deste artigo é a abordagem focada em soluções, uma abordagem consolidada do trabalho psicoterapêutico com casais. O objetivo é apresentar as possibilidades dessa abordagem, em particular na negociação de futuros preferidos no trabalho com casais. A primeira parte, portanto, trata dos princípios básicos da abordagem focada em soluções e das possibilidades de aplicá-la na psicoterapia de casal. O autor apresenta em seguida diferentes maneiras de negociar futuros preferidos com as duas pessoas do casal. Ele descreve formas de construir com elas uma visão comum do futuro preferido e de trabalhar em conjunto quando as ideias de cada membro do casal sobre a mudança desejável são diferentes ou até contraditórias. O foco nos futuros preferidos tem papel central na abordagem focada em soluções (Berg, 1994; de Shazer et al., 2007; Ratner et al., 2012; Reiter, 2017) e, ao mesmo tempo, é justamente no contexto da terapia de casal que surgem muitas das dificuldades de negociação (Hoyt & Berg, 1998). Embora o artigo se concentre na aplicação de uma abordagem focada em soluções, podemos também nos inspirar nele para um trabalho baseado em outras abordagens psicoterapêuticas.
A terapia breve focada em soluções (TBFS) foi desenvolvida nos anos 1980 por Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e colegas no Brief Family Therapy Center de Milwaukee, Wisconsin (Estados Unidos). Ela se apoia na tradição da terapia familiar (especialmente as terapias comunicacional e estratégica associadas ao Mental Research Institute de Palo Alto, Califórnia) e no trabalho inovador de Milton H. Erickson (de Shazer, 1985; Lipchik et al., 2012). A teoria da TBFS se inspira sobretudo em ideias pós-modernas (construcionismo social, pós-estruturalismo) e nas teorias dos sistemas complexos; por isso, a TBFS pode ser classificada como uma abordagem pós-moderna ou sistêmica em psicoterapia (Becvar & Becvar, 2012; Lipchik et al., 2012; Tarragona, 2008).
A TBFS foi se tornando uma abordagem psicoterapêutica amplamente respeitada (Becvar & Becvar, 2012; Sharf, 2020; Sommers-Flanagan & Sommers-Flanagan, 2018), que conta com associações internacionais (por exemplo, SFBTA e EBTA) e tem sido aplicada a uma grande variedade de problemas e contextos clínicos (Dolan, 1991; Froerer et al., 2018; Pichot et al., 2009; Simon & Nelson, 2007). Há também numerosas pesquisas em andamento sobre a eficácia e o processo da TBFS (Franklin et al., 2011, 2017; Kim et al., 2019; Zhang et al., 2018). A abordagem focada em soluções também foi aplicada ao trabalho com casais (Berg, 1994; Connie, 2012; Hoyt & Berg, 1998; Iveson, 2003; Reiter, 2017; Weiner-Davis, 1992, 2002; Ziegler & Hiller, 2001, 2007), e alguns estudos também apontam sua eficácia nesse contexto (Abusaidi et al., 2018; Davarniya et al., 2018; Franklin et al., 2011; Milner & Singleton, 2008).
A TBFS também tem limites no trabalho com casais. Às vezes, ela é praticada de forma muito “guiada pelas técnicas”, que ignora as emoções, a relação terapêutica ou a cocriação das conversas terapêuticas com quem busca atendimento (Lipchik, 2002, 2018; Reiter & Chenail, 2016). Da mesma forma, a pressa em chegar às soluções, às vezes chamada ironicamente de “terapia forçada para soluções” (solution-forced therapy), é uma forma contraproducente de trabalhar com as pessoas atendidas e prejudica a aliança de trabalho (Berg, 2016; De Jong & Berg, 2012; Nylund & Corsiglia, 1994). A TBFS também levanta com frequência dilemas sobre o não saber (ver adiante) e sobre a psicoeducação, que às vezes podem levar a posições conversacionais extremas por parte de quem conduz a terapia (Lipchik, 2018; Zatloukal, 2023). Há ainda observações críticas sobre o fato de a TBFS não interpretar as causas dos problemas nem analisar os aspectos de poder nas relações (Kogan, 1998). Embora essas perspectivas possam ser valiosas em alguns casos, há muitas razões pragmáticas e teóricas para que terapeutas que trabalham de forma focada em soluções normalmente não as utilizem e trabalhem de outro modo, com resultados terapêuticos semelhantes (de Shazer et al., 2007; McKergow & Korman, 2009).
A TBFS não pode ser definida com base em teorias gerais ou em técnicas isoladas. As pessoas que desenvolveram a abordagem propõem defini-la a partir de princípios diretamente ligados à prática (de Shazer et al., 2007). Elas resumem assim os princípios da TBFS (de Shazer et al., 2007):
Em termos de intervenções terapêuticas, a terapia de casal focada em soluções usa métodos e técnicas semelhantes aos da terapia individual. Técnicas amplamente conhecidas da TBFS, como a pergunta milagre, as escalas, as exceções, o reconhecimento e o feedback de fim de sessão, abrem um espaço dialógico para conversas construtivas com casais quando as duas pessoas estão envolvidas (De Jong & Berg, 2012; Hoyt & Berg, 1998). No entanto, a terapia de casal focada em soluções difere em alguns aspectos do trabalho com uma única pessoa. O fato de haver mais de uma pessoa atendida na sala de terapia exige que a pessoa terapeuta dê atenção especial a:
Neste texto, a atenção se volta para a negociação de futuros preferidos na terapia de casal. Na TBFS, a expressão “futuro preferido” designa aquilo que a pessoa atendida gostaria que acontecesse com a ajuda da terapia (Ratner et al., 2012). Em outras palavras, “todas as perguntas voltadas a descrever o que a pessoa quer (ou o que vai substituir aquilo que ela não quer) são perguntas de futuro preferido” (Iveson et al., 2012, p. 43). Essas conversas sobre os desejos da pessoa atendida, ou sobre o “futuro preferido”, constituem uma parte crucial da TBFS.
Da mesma forma, diversas manifestações de conversas sobre o futuro preferido são importantes em muitas outras abordagens psicoterapêuticas. Alfred Adler, por exemplo, já incorporava em seu trabalho uma pergunta de “futuro preferido” (chamada simplesmente de “a Pergunta”, que diz: “O que você faria se estivesse completamente bem?”) (Wood, 2003). A literatura psicoterapêutica atual discute de forma semelhante o foco em objetivos ou a definição colaborativa de objetivos (Cooper & Law, 2018). O foco no futuro preferido também é significativo para os resultados da psicoterapia. Um futuro preferido negociado e acordado entre a pessoa atendida e a pessoa terapeuta (muitas vezes chamado de “acordo sobre os objetivos”) é uma parte importante da aliança de trabalho (junto com o acordo sobre métodos ou tarefas e o vínculo emocional), que tem papel significativo na eficácia da psicoterapia (Dimmick et al., 2022; Duncan et al., 2010; Flückiger et al., 2020).
Os métodos mais conhecidos da TBFS para ajudar a desenvolver uma conversa sobre futuros preferidos incluem: a) o projeto comum, b) a visão do futuro preferido, c) o(s) objetivo(s), d) a(s) habilidade(s), e) o(s) valor(es) e f) os pequenos sinais de progresso (De Jong & Berg, 2012; Ratner et al., 2012). A Tabela 1 resume as características básicas de cada método.
Tabela 1 — Alguns métodos para desenvolver um futuro preferido na TBFS
Na TBFS, o futuro preferido não indica algo que a pessoa terapeuta deseja para as pessoas atendidas, nem aquilo que ela considera certo e tenta convencer as pessoas a aceitar. O foco está nos desejos das pessoas atendidas. As perguntas sobre futuros preferidos não são simples perguntas de levantamento que permitem a terapeutas obter informações sobre esses desejos. Devem, antes, ser entendidas como um processo colaborativo e criativo, uma criação conjunta de uma direção significativa para a terapia de casal (Strong, 2009; Weatherall & Gibson, 2015).
No trabalho com casais, além da própria condução da conversa sobre o futuro preferido, entra em jogo a medida em que as duas pessoas concordam ou discordam sobre um futuro preferido. Em princípio, podem-se distinguir as seguintes variações:
O exemplo a seguir mostra uma adaptação, para o trabalho com casais, de uma técnica clássica da TBFS, a chamada “pergunta milagre”. Nesse exemplo, uma direção comum surgiu na conversa.
Trabalhei com um casal de meia-idade que tinha um restaurante em uma grande cidade. Embora eu tenha me concentrado inicialmente nas expectativas deles em relação à terapia de casal, os dois estavam muito absorvidos pelos problemas que enfrentavam na relação. Deixei, então, um espaço no qual contaram que o marido tinha voltado da prisão alguns meses antes, onde passara cerca de dois anos por crimes fiscais. Durante esse tempo, dizia a esposa, ela tinha se tornado mais independente e começado a se dedicar ao desenvolvimento pessoal, à ioga, à meditação e a coisas parecidas, que o marido tendia a desdenhar e a chamar de “bobagem”. Surgiram muitos conflitos e brigas entre os dois, e eles chegaram a considerar seriamente o divórcio.
A terapia de casal era uma “última chance”, e o marido, em especial, tinha bastante dúvida de que a terapia pudesse ajudá-los. Procurei manter uma postura de neutralidade/multiparcialidade e escutar com atenção, sobretudo quaisquer desejos ou exceções (ver os princípios 2 e 7 da TBFS). O único momento da primeira parte da sessão que pareceu pelo menos um pouco “vivo” foi quando descreveram o restaurante e o que gostavam no trabalho. Depois de reconhecer a dificuldade da situação, eu disse: “Fiquei intrigado com a descrição que vocês fizeram do restaurante como um ‘lugar mágico’, onde as pessoas geralmente se sentem bem e de que vocês dois também gostam. Vamos supor que, talvez hoje ou mais tarde, vocês estejam sentados juntos no restaurante jantando alguns dos seus pratos favoritos. Como o lugar é mágico, coisas um tanto mágicas podem acontecer ali. Vamos supor que a comida também seja mágica e, de alguma forma, tenha um efeito positivo em vocês dois e na relação de vocês, de modo que comecem a notar que algo entre vocês começou a mudar para melhor. Qual será a primeira coisa que vai mostrar a vocês que algo mudou entre vocês e dentro de vocês?” Depois de um momento de silêncio, a esposa disse: “Eu poderia ver meu marido sorrindo.” Partimos dessa frase e exploramos juntos que mudanças ocorreriam na relação. O marido, cético no início, entrou muito pouco na conversa, mas aos poucos os dois foram se envolvendo e descreveram juntos situações em que ririam mais, se comunicariam melhor, respeitariam as opiniões diferentes um do outro, fariam amor com mais frequência, e assim por diante. Ao longo da consulta, o clima geral da sessão mudou, e chegamos a rir juntos algumas vezes. No fim da sessão, a esposa comentou que talvez fosse a primeira vez que via o marido rir desde que ele voltara da prisão (ver o princípio 8 da TBFS). Comentei que o simples fato de falar do jantar mágico parecia trazer à tona pequenos lampejos daquela magia. No encontro seguinte, o casal relatou alguns progressos depois de ter saído para jantar junto (embora tenham decidido, afinal, jantar em outro restaurante que não o deles). Os dois expressaram a esperança de conseguir lidar com a situação e também a determinação de trabalhar na relação. Tivemos em seguida mais seis encontros, durante os quais conseguimos fazer progressos bastante significativos (ver os princípios 4 e 5 da TBFS).
O exemplo acima representa uma situação em que as duas pessoas começaram a concordar sobre uma direção comum. Ambas queriam uma comunicação melhor, risadas compartilhadas, uma vida sexual melhor e respeito mútuo. O casal compartilhava, de modo geral, uma visão semelhante do futuro preferido, isto é, uma ideia de como queria viver e funcionar em conjunto. Os procedimentos da TBFS conhecidos da terapia individual podem ser aplicados com facilidade quando a direção comum está estabelecida. É possível, por exemplo, acompanhar o progresso em direção ao futuro preferido com escalas, focar os momentos em que o futuro preferido já está presente, formular pequenos sinais de progresso etc. (Berg, 1994; de Shazer et al., 2007).
Às vezes, dentro de uma mesma visão do futuro preferido, são combinados objetivos ou habilidades diferentes para cada integrante do casal. Por exemplo, retomando o exemplo prático acima com algumas modificações, o marido poderia se concentrar em desenvolver respeito por aquilo que agora é importante para a esposa, enquanto a esposa poderia se concentrar sobretudo em algumas mudanças na intimidade do casal. Nesse caso, a direção geral é compartilhada, mas cada integrante do casal escolhe o próprio modo de contribuir para essa direção comum, aprendendo algo novo (habilidade) ou alcançando algo (objetivo). Na terapia de casal, muitas vezes é útil que cada pessoa conheça o “projeto” da outra e possa apoiá-la nele. (É útil combinar com antecedência, durante a sessão, uma forma específica de apoio mútuo.) Também é benéfico que cada pessoa possa observar as mudanças que a outra está fazendo no seu “projeto”. Embora se trate de dois projetos relativamente separados, eles estão voltados para uma visão compartilhada do futuro preferido do casal e estão interligados. Além disso, o apoio mútuo do casal para alcançar um objetivo ou aprender uma habilidade é, por si só, um fator que fortalece a relação.
Para trabalhar em direção a um futuro preferido na TBFS, o acordo do casal é bem-vindo, mas não necessário. A seguir, descrevem-se algumas opções de trabalho com casais em que esse acordo sobre um futuro preferido não ocorreu.
Às vezes, ao negociar um futuro preferido, surge uma situação em que cada pessoa do casal tem sua própria visão do futuro preferido (ou de parte dele) que, embora não seja diretamente compartilhada, é aceitável para a outra e compatível com a ideia que ela tem de um futuro preferido. A opção de duas visões relativamente separadas, com apoio mútuo, embora relativamente rara, também pode ser trabalhada de forma significativa. Nesse caso, pode-se dizer que o desenvolvimento da relação é trabalhado indiretamente, ligando cada pessoa à direção proposta pela outra e apoiando cada uma delas.
Na terapia de casal, trabalhei com um casal de meia-idade com o qual duas sessões não tinham conseguido negociar um futuro preferido. Apesar dos meus esforços para focar a conversa nos desejos das duas pessoas, ela se desviava sobretudo para as dificuldades que tinham vivido juntas (infidelidade do marido vários anos antes, perda de confiança, desacordos sobre os filhos etc.). Procurei validar continuamente as emoções fortes e conduzir a conversa de modo que as duas pessoas se escutassem sem se interromper. De vez em quando, eu propunha um foco nos futuros preferidos. Vendo que ainda não era a direção a tomar, voltei a passar algum tempo escutando as duas pessoas e destacando os menores indícios de exceções e recursos (como tinham lidado com a situação depois da descoberta da infidelidade, áreas da educação dos filhos em que conseguiam concordar etc.). Essas estratégias terapêuticas podem ser ligadas especialmente aos princípios 3 e 7 da TBFS. O terceiro encontro finalmente permitiu formular duas áreas de futuro preferido. Como o marido viajava com frequência a trabalho e passava vários dias fora de casa, uma das áreas eram seus retornos para casa: os dois concordavam que seria bom viver, nesses reencontros, uma sintonia mútua e expressões de alegria, em vez dos comentários ácidos ou desconfiados e do ressentimento da esposa. Outra área era a comunicação entre os dois durante as ausências do marido. Para a esposa, era muito importante, e ao mesmo tempo difícil para o marido, telefonar, porque, como ator, ele geralmente estava em ensaios ou apresentações. Por isso, os dois decidiram aprender uma habilidade cada um: a esposa, aprender a receber o marido com mais calor na volta; o marido, aprender a procurar oportunidades para ter telefonemas pelo menos breves, mas significativos, quando estivesse longe de casa. Eles se apoiaram mutuamente no aprendizado dessas habilidades e as praticaram juntos, e planejamos o “treino” de modo que fosse divertido para ambos e trouxesse um toque de humor e de brincadeira às interações.
O maior desafio na terapia de casal costuma ser a variante em que a direção das duas pessoas é diferente e, além disso, inaceitável para a outra. A direção de uma vai contra a direção da outra, de modo que parece impossível trabalhar com as duas ao mesmo tempo. Essa situação pode ser descrita como um desacordo sobre a direção. Essas situações não são raras na terapia de casal (Hoyt & Berg, 1998; Iveson, 2003). Exemplos típicos são situações em que uma pessoa do casal quer ter um filho e a outra não, ou em que uma quer terminar enquanto a outra quer continuar (ou salvar) a relação. Discrepâncias de direção semelhantes surgem, por exemplo, quando uma pessoa quer se mudar por causa de uma oferta de emprego vantajosa e a outra não, ou quando há um desacordo fundamental sobre a criação dos filhos, a vida religiosa, a vida sexual etc.
Essas situações são provavelmente as que mais desafiam a neutralidade/multiparcialidade da pessoa terapeuta. Às vezes, não é fácil manter a abertura, a curiosidade e a atitude de “tanto um quanto outro” quando as pessoas atendidas trazem questões em que surge um desacordo e, ao mesmo tempo, essas questões ressoam em quem conduz a terapia e em seus valores de vida. Durante a sessão, é importante perceber os momentos em que se tende a tomar partido, refletir sobre eles e trabalhar intencionalmente para validar a outra posição (Ziegler & Hiller, 2001). Há ocasionalmente situações (por exemplo, coerção ou violência doméstica) em que a pessoa terapeuta precisa sair da neutralidade e lidar com uma questão de modo mais “intervencionista” ou diretivo, de acordo com as normas éticas e profissionais (Milner & Singleton, 2008; Stith et al., 2011). Nesse caso, a supervisão tem papel importante para ajudar terapeutas a refletir sobre a situação e a tomar boas decisões.
Uma das maneiras de negociar futuros preferidos quando há desacordo sobre a direção passa por um processo de foco na interseção dos futuros preferidos. Na teoria dos conjuntos, a interseção dos conjuntos A e B inclui todos os elementos comuns aos dois conjuntos. Na terapia de casal, a ideia é encontrar o máximo possível de terreno comum (interseção) dentro dos futuros preferidos das duas pessoas, mesmo que suas ideias sejam fundamentalmente diferentes. Mesmo que a interseção dos futuros preferidos forme, na prática, uma área muito pequena, ela pode servir de base para um trabalho significativo com o casal.
Trabalhei com um casal em que o marido desejava manter e reparar a relação, enquanto a esposa queria se divorciar. À medida que dedicávamos algum tempo a explorar seus desejos e ideias, ficou claro que compartilhavam um fio comum: melhorar a comunicação. O marido percebia que, se quisessem continuar a relação e fazê-la funcionar de algum modo, a comunicação precisaria melhorar. A esposa entendia a necessidade de melhorar a comunicação para que conseguissem chegar a acordo sobre questões importantes durante e depois do divórcio, em relação aos cuidados com os filhos e a outros assuntos. Embora tivessem razões diferentes, ambos concordavam que melhorar a comunicação poderia ser um objetivo inicial útil para trabalharem juntos. Mantendo uma posição neutra, perguntei: “Quer vocês decidam ficar juntos e desenvolver a relação, quer decidam se separar com dignidade, como a comunicação de vocês deveria ser?” Ao longo da colaboração, mantive o foco constante na melhora da comunicação com os dois, deixando de lado a direção que a relação acabaria tomando. Eles concordaram que seria uma boa ideia melhorar primeiro a comunicação entre eles e depois passar à decisão sobre como seguir com a relação (ver também os princípios 4 e 6 da TBFS). Depois de algumas sessões, o casal descreveu a melhora na comunicação, ilustrando-a com situações concretas. A esposa chegou a mencionar, no último encontro, que estava considerando a possibilidade de continuarem amigos ou talvez voltarem a ficar juntos em algum momento no futuro. Ambos concordaram que agora conseguiam se entender muito melhor e com mais calma e compartilhar o que era necessário, que acreditavam ser capazes de tomar boas decisões juntos e que sabiam a quem recorrer, se necessário.
Outra maneira de desenvolver um futuro preferido em situações de desacordo sobre a direção é adotar uma “atitude de tanto um quanto outro” (de Shazer, 1985), isto é, não descartar de antemão nenhuma opção, mas explorar todas com cuidado e colocá-las, pela imaginação, lado a lado na conversa. Descrições detalhadas de cada opção (“Como isso vai ser, concretamente?”, “Que diferença isso vai fazer?”, “De que isso vai servir?” etc.), combinadas com o uso de perspectivas entrelaçadas (“Como o parceiro A vai saber que…?”, “Como ele vai reagir a isso?”), podem atenuar a dicotomia do “ou isto, ou aquilo”. As variantes podem ser apresentadas lado a lado e descritas com o mesmo cuidado, o que muitas vezes revela outras opções criativas. O método de von Kibéd conhecido como “tetralema” também pode ser usado para esse fim (Sparrer, 2007). Ele não só não reduz o número de opções (de duas para uma), como, ao contrário, amplia ainda mais as escolhas, incluindo a “opção A”, depois a “opção B”, depois “nem A nem B”, “tanto A quanto B” e, às vezes, nenhuma delas. Essa proposta leva o casal a criar uma variante que combina as duas opções opostas (A e B) ou, ao contrário, uma variante que não inclui nenhuma das duas e é completamente nova, criando assim espaço para ideias realmente originais.
Essas variantes também podem ser trabalhadas escrevendo-as e distribuindo as folhas pela sala de terapia, em acordo com as pessoas atendidas. Podemos então percorrer juntos essas estações e explorar cada variante, incluindo sentimentos, pensamentos, comportamentos e interações. O objetivo da técnica não é acelerar a tomada de decisão, mas ampliar as opções do dilema para incluir outras escolhas, criando espaço para decisões mais criativas e úteis.
Trabalhei com um casal de dois homens em que havia uma discrepância significativa na vida sexual. Enquanto um dos parceiros se sentia muito insatisfeito com a frequência do sexo, o outro se sentia pressionado e tendia a se retrair e recusar o sexo. Usamos o tetralema. Preparamos folhas de papel e, na primeira, sugeri registrar a primeira opção, que, depois de uma breve conversa, os dois chamaram de “noites quentes”. Na segunda folha registramos então a segunda variante, que chamaram de “minimalismo”. Perguntei qual variante queriam explorar primeiro, e escolheram “noites quentes”. Sugeri que colocassem a folha com a variante “noites quentes” em algum lugar da sala de consulta, e eles a colocaram juntos em um ponto. Depois ficamos em pé ao redor da folha e exploramos que sentimentos estavam associados a essa variante e que pensamentos, imagens e fantasias surgiam. Perguntei como seria essa variante na vida deles e que outras áreas da vida seriam afetadas se a seguissem. Depois de explorarmos essa variante em detalhe, eles colocaram no espaço a folha “minimalismo”, e de novo ficamos ao redor da folha e a exploramos com o mesmo cuidado. Em seguida, peguei outra folha, disse que era a opção “nem uma coisa nem outra” e pedi que a criassem. Depois de pensar um pouco, chamaram essa opção de “relação aberta”. Trabalhamos com ela da mesma forma que com as variantes anteriores. Por fim, ofereci a última folha, com a proposta “tanto A quanto B ao mesmo tempo”. Eles chamaram essa opção de “direção de fim de semana”, e trabalhamos com ela de forma semelhante às anteriores. Na sessão seguinte, relataram que, embora não tivessem colocado plenamente em prática nenhuma das variantes criadas na sessão anterior, concordavam que se sentiam mais próximos um do outro e estavam demonstrando mais ternura um pelo outro (ver o princípio 8 da TBFS).
Em algumas sessões de terapia de casal em que há discrepância entre as direções das duas pessoas, o foco pode estar no exame da situação. Esse exame, no entanto, é feito segundo os princípios da TBFS. Portanto, não se trata de explorar as causas hipotéticas do desacordo, nem de analisar o desacordo sobre a direção em si (ver os princípios 5 e 6 da TBFS), mas de captar e desenvolver até os menores recursos sobre os quais construir o trabalho futuro com o casal (ver os princípios 2, 4 e 7 da TBFS). Pode-se dar atenção à forma como o casal funciona dentro do desacordo (por exemplo, usando uma escala do funcionamento da relação), à existência de coisas sobre as quais as duas pessoas conseguem concordar (exceções ao problema), ou aos benefícios que o desacordo trouxe até agora, bem como às consequências negativas para todas as pessoas envolvidas (variação da “pergunta pesadelo”; Berg & Reuss, 1998). Essas conversas oferecem ao casal um espaço para expressar a dificuldade da situação e também podem dar pistas para negociar mais tarde um futuro preferido (a colaboração pode depois se concentrar, por exemplo, no reforço das exceções ao problema, em novas melhoras na escala do funcionamento da relação, ou na consideração tanto dos benefícios quanto das consequências negativas quando as pessoas atendidas tomarem novas decisões sobre sua direção na terapia de casal).
A exploração conjunta dos aspectos temporais, isto é, de quanto tempo mais o casal quer ou consegue continuar no desacordo, também pode trazer perspectivas interessantes. Para alguns casais, pode ser importante combinar um prazo claro dentro do qual a direção pode permanecer indefinida e ainda não esclarecida, sobretudo em situações em que uma das pessoas não consegue decidir, no momento, como continuar a relação e a outra precisa chegar a uma decisão o quanto antes (por exemplo, após a descoberta de uma infidelidade de uma delas). A negociação de um prazo para a decisão deve vir acompanhada de passos concretos das duas pessoas, dentro desse período, para chegar a uma decisão. Geralmente, uma pessoa dá passos concretos para esclarecer o que é importante para si, e a outra se empenha em respeitar temporariamente esse processo, sem pressionar por uma decisão rápida, fortalecendo, em vez disso, a capacidade de viver bem, independentemente do que a primeira acabe decidindo. O prazo negociado ajuda a evitar o padrão em que uma pessoa pressiona cada vez mais por uma decisão e reforça o “travamento” da outra, indecisa (ver o princípio 3 da TBFS), ao mesmo tempo que cria espaço para o surgimento de uma decisão melhor e mais responsável das duas pessoas sobre a direção futura (ver o princípio 8 da TBFS).
Há conversas terapêuticas em que é muito útil focar aquilo que ajuda o casal a lidar com essa situação de desacordo sobre a direção. Isso pode ser especialmente importante quando uma das pessoas, ou as duas, estão na terapia de casal de forma involuntária. Às vezes, uma das pessoas (ou mesmo as duas) não quer terapia, mas alguma outra instância influente (uma instituição, uma autoridade religiosa, um familiar etc.) percebe a necessidade de mudança e encaminha o casal para a terapia. Nesse caso, além de focar a forma de lidar com a situação, funciona bem explorar os desejos da pessoa ou instituição que encaminhou (“Como a pessoa/instituição X vai saber que a situação melhorou o suficiente para que vocês não precisem mais vir à terapia de casal?”). Em outros casos, o próprio casal gostaria de mudar, mas tem pouca confiança de que a terapia possa ajudar, o que o impede de formular um futuro preferido. Focar aqui a forma de lidar com a situação pode criar uma espécie de “colchão” até que o casal ganhe um pouco mais de confiança de que uma mudança para melhor possa acontecer (ver o princípio 4 da TBFS).
Às vezes, uma das pessoas, ou as duas, precisa testar se vale a pena investir energia e esforço na relação e tentar melhorá-la, ou se ela está tão “danificada” que já não faz sentido tentar mantê-la e desenvolvê-la. Pessoalmente, acho muito melhor fazer esse teste na forma de exploração de exceções ou de experimentos entre as sessões, em que a dinâmica do sistema se mostra na prática (ver os princípios 2 e 3 da TBFS), em vez de tentar resolver essa questão de modo teórico ou a partir de uma posição de especialista que emite um parecer.
Trabalhei com um casal de meia-idade. A esposa tomou a iniciativa da terapia e falou que queria melhorar a comunicação. Falou também de confiança quebrada. Ela havia descoberto um caso extraconjugal dez anos antes, embora a situação tivesse conseguido se estabilizar. O marido, músico profissional, passava muito tempo longe de casa. Isso, somado a uma comunicação precária, fazia a esposa se perguntar se “estava acontecendo alguma coisa de novo” e gerava certo “cansaço da relação”. Ela mencionou também os problemas do marido com o álcool. O marido disse que tinha hesitado muito em vir para a terapia de casal e que duvidava que ela ainda pudesse ajudá-los. Ele se sentia constantemente vigiado e sentia que ele e a esposa tinham se distanciado, sobretudo depois que os filhos saíram de casa, e que tinham pouco em comum. Os dois se perguntavam se fazia sentido tentar salvar a relação ou se seria melhor seguirem caminhos separados. Expliquei que precisava de informações adicionais para responder à pergunta deles de forma séria; caso contrário, seria pura especulação. Isso os deixou intrigados, e me perguntaram de que informações eu precisaria para lhes dar uma opinião. Depois de pensar um pouco, disse que precisaria saber algumas coisas:
Os pontos apresentados fizeram sentido para os dois, e trabalhamos os pontos 1 e 2 na primeira sessão, registrando-os por escrito. Quanto ao ponto 3, combinamos agendar cinco sessões de terapia de casal, com cerca de três semanas de intervalo, período em que ambos se dedicariam plenamente ao trabalho na relação, e avaliar a evolução na quinta sessão. Na quinta sessão, avaliamos juntos que algumas pequenas mudanças tinham acontecido, e o casal decidiu continuar a melhorar a relação por conta própria, com a possibilidade de marcar uma “sessão de apoio”, se necessário.
Por último, mas não menos importante, podem-se oferecer sessões individuais em caso de desacordo sobre a direção do casal. Como não considero adequado combinar sessões individuais e de casal com as mesmas pessoas, costumo, em casos assim, encaminhar para outras pessoas terapeutas para as sessões individuais. Isso deixa aberta a possibilidade de continuarmos juntos na terapia de casal. Às vezes acontece de eu aceitar trabalhar individualmente com uma das pessoas, mas isso fecha a possibilidade de trabalhar individualmente com a outra e a possibilidade de voltar a trabalhar com o casal no futuro. Se necessário, porém, posso indicar outras pessoas que atuam em terapia de casal.
A Tabela 2 resume as diferentes opções de trabalho com o futuro preferido mencionadas anteriormente. De modo geral, acho útil seguir o quadro da tabela de cima para baixo, isto é, focar primeiro a formulação de uma visão comum do futuro preferido das duas partes e só voltar a atenção para outras opções de trabalho com o futuro preferido quando esse caminho se mostrar impossível.
Tabela 2 — Síntese das variantes de trabalho com futuros preferidos na terapia de casal
A negociação de futuros preferidos tem papel importante para orientar a terapia de casal, fortalecer a aliança e aumentar a esperança de que a terapia de casal será útil. Foram apresentadas opções para formular uma ideia compartilhada do futuro preferido de um casal, bem como opções sobre como proceder quando as ideias de futuro preferido diferem ou quando surgem desacordos entre as duas pessoas sobre a direção. Os exemplos da prática mostram que não se trata apenas de “perguntas inteligentes” preparadas de antemão, mas da arte de desenvolver as conversas com as pessoas atendidas na terapia de casal, de modo que possam esclarecer aos poucos o que é importante para elas e que direção faz sentido para elas na continuidade da relação.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do texto está em levar a sério o que a terapia de casal tem de específico: não há uma demanda, mas pelo menos duas, e elas nem sempre convergem. Em vez de buscar logo de saída um objetivo comum, Zatloukal propõe uma gradação: visar primeiro uma visão compartilhada, depois aceitar projetos distintos que se apoiam e, em caso de desacordo franco (ter um filho ou não, ficar ou partir), trabalhar a interseção, mesmo mínima, dos futuros preferidos, desdobrar as opções com o tetralema, negociar um prazo para a decisão ou testar a viabilidade da relação por meio de experimentos entre as sessões. Para a clínica sistêmica, é uma forma concreta de sustentar a multiparcialidade sem exigir que o casal entre em acordo cedo demais. O texto continua sendo um ensaio clínico: as vinhetas vêm da prática do autor, sem avaliação sistemática, e as situações de coerção ou violência, em que a neutralidade precisa ceder, são apenas mencionadas. Para ler junto com o artigo do mesmo autor sobre as variedades do trabalho com o futuro preferido e com o artigo sobre conversas focadas em soluções no desacordo.
Notas do original
Declaração de interesses. Nenhum potencial conflito de interesses foi declarado.
Referências
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Tradução não oficial em português de Negociar futuros preferidos na terapia de casal focada em soluções, de Leoš Zatloukal, International Journal of Systemic Therapy, vol. 37, no 1 (2026), doi: 10.1080/2692398x.2025.2492816, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Negotiating Preferred Futures in Solution-Focused Couple Therapy”, publicado em International Journal of Systemic Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Zatloukal, L. (2026). Negociar futuros preferidos na terapia de casal focada em soluções (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/negociar-futuros-preferidos-na-terapia-de-casal-focada-em-solucoes (Obra original publicada em 2025 em International Journal of Systemic Therapy, 37(1), 1-18 (2026); republicada em 2026 por International Journal of Systemic Therapy, https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/2692398X.2025.2492816)
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