Journal of Marital and Family Therapy · Terapia familiar
Uma paciente e um membro de sua família desenham a mesma família? Em São Paulo, a equipe de Ana Carolina Soares Marinho construiu a distância, separadamente, o genograma de seis mulheres com transtorno de personalidade borderline e o de um membro de suas famílias. Os relatos divergem sobretudo em dois pontos: as pacientes relatam mais abuso físico, e seus familiares, mais relações distantes. Um estudo exploratório que faz do genograma uma ferramenta de pesquisa.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Novas estratégias para estudos com famílias no transtorno de personalidade borderline: desafios e potencialidades do uso do genograma, de Ana Carolina Soares Marinho, Camila Chagas, José Carlos Galduróz, Fernanda Celeste de Oliveira Martins Sassi, Erlei Sassi Junior, Francisco Lotufo Neto e Claudia Berlim de Mello, publicado na Journal of Marital and Family Therapy (Wiley) (2025), doi: 10.1111/jmft.70065, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; as duas figuras (genogramas) são reproduzidas na versão original, com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Em vez de serem vistas como viés metodológico, essas discrepâncias refletem divergências interpretativas.
Ana Carolina Soares Marinho, Camila Chagas, José Carlos Galduróz, Fernanda Celeste de Oliveira Martins Sassi, Erlei Sassi Junior, Francisco Lotufo Neto e Claudia Berlim de Mello
Resumo
O transtorno de personalidade borderline (TPB) é uma condição complexa, caracterizada por instabilidade emocional, dificuldades interpessoais e impulsividade. Embora estudos anteriores tenham explorado a influência do ambiente familiar na manifestação do TPB, ainda há lacunas metodológicas na investigação dessas relações, sobretudo para captar múltiplas perspectivas dentro de uma mesma família. Este estudo propõe uma abordagem metodológica que compara, por meio de um genograma, díades formadas por uma pessoa em tratamento e um membro de sua família. A pesquisa envolveu 12 pessoas (6 pacientes e 6 familiares) e analisou suas percepções das relações emocionais familiares (como fatores de risco ou de proteção) e a gravidade dos sintomas. Os resultados, obtidos por métodos mistos, indicaram discrepâncias entre pacientes e familiares em duas categorias de relações emocionais e comportamentos de risco: “Distante/pobre” e “Abuso físico”. O estudo discute outros usos possíveis do genograma para captar nuances das relações familiares e novas possibilidades de intervenções terapêuticas mais eficazes.
O transtorno de personalidade borderline (TPB) se caracteriza por um padrão persistente de instabilidade nas relações interpessoais, na autoimagem e na regulação emocional, somado a uma impulsividade acentuada (APA 2022). Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), os critérios diagnósticos do TPB envolvem: (1) esforços desesperados para evitar um abandono real ou imaginado; (2) um padrão de relações interpessoais instáveis e intensas, que alternam entre os extremos da idealização e da desvalorização; (3) perturbação da identidade, com autoimagem ou percepção de si acentuada e persistentemente instável; (4) impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas; (5) comportamentos, gestos ou ameaças suicidas recorrentes, ou automutilação; (6) instabilidade afetiva devida a uma acentuada reatividade do humor; (7) sentimentos crônicos de vazio; (8) raiva intensa e inadequada ou dificuldade de controlá-la; e (9) ideação paranoide transitória associada ao estresse ou sintomas dissociativos graves (APA 2022). Em diferentes países, entre eles Estados Unidos, Reino Unido e Países Baixos, a prevalência do TPB varia entre 1,1% e 3,2% (Ellison et al. 2018). Transtorno complexo e multidimensional, que abrange fenômenos afetivos, comportamentais e cognitivos, o TPB, no qual as pessoas afetadas muitas vezes lutam contra um vazio e uma solidão crônicos buscando excitação para enfrentá-los, pode se manifestar por uma ampla gama de sintomas, frequentemente associados a transtornos comórbidos (APA 2022; Fatimah et al. 2023; Paris 2005; Zanarini et al. 1998). Por isso, chegar a um diagnóstico preciso pode ser difícil, pois o transtorno pode ser confundido com outros quadros clínicos, como o transtorno afetivo bipolar ou o transtorno de estresse pós-traumático (Gunderson 2009).
Os riscos associados aos traços borderline e ao próprio transtorno resultam da interação entre fatores genéticos, epigenéticos, psicológicos, sociais e de experiência de vida (Bozzatello et al. 2021; Perez-Rodriguez et al. 2018). Traumas na infância, como negligência e abuso físico ou sexual, aumentam significativamente a probabilidade de desenvolver o transtorno (Porter et al. 2020; Zanarini et al. 2002). Estima-se que entre 30% e 90% das pessoas com TPB relatem histórico de abuso ou negligência, taxas bem mais altas que as observadas em outros transtornos de personalidade (Bozzatello et al. 2021). Segundo a revisão de Bozzatello et al. (2021), essas experiências adversas, sobretudo quando praticadas por figuras de apego, podem levar as crianças a internalizar a culpa pelos maus-tratos sofridos na família. Entre elas, o abuso sexual foi identificado como a única forma de maus-tratos com associação independente com o início precoce do TPB em adolescentes do sexo feminino (Infurna et al. 2016), e é um evento frequentemente relatado como ocorrido em contextos intrafamiliares (Australian Institute of Health and Welfare 2025; CSA 2025). Além do abuso, Crawford et al. (2009) observaram, com base em dados empíricos, que separações de um mês ou mais entre mãe e criança antes dos cinco anos de idade (por hospitalização, doença, estadias prolongadas com parentes ou demandas pessoais, educacionais ou profissionais da mãe) estão associadas a sintomas borderline. Além disso, Fatimah et al. (2020) verificaram que comportamento antissocial na vida adulta, transtornos por uso de substâncias e traços borderline paternos aumentam o risco de traços borderline apenas na filiação biológica. Embora esses achados apontem para uma transmissão genética, o estudo também discutiu vias de transmissão ambiental, como o TPB materno e práticas parentais desadaptativas (por exemplo, conflitos, falta de envolvimento e desrespeito). Esses padrões foram observados tanto na filiação biológica quanto na adotiva (Fatimah et al. 2020; Zalewski et al. 2014), o que sugere que fatores genéticos e ambientais podem contribuir para o desenvolvimento de traços borderline, dependendo da natureza da psicopatologia parental.
Além de identificar padrões problemáticos no funcionamento familiar, Gunderson e Lyoo (1997) destacaram a importância de como esses padrões são percebidos pelos diferentes membros da família. O estudo mostrou, por exemplo, que em geral são as famílias das pessoas com TPB que relatam problemas de comunicação e de temperamento ou hostilidade. Há também evidências de que as pessoas com TPB fazem julgamentos mais negativos sobre a família do que seus pais (Gunderson e Lyoo 1997). Notavelmente, em comparação com amostras de famílias normativas (sem membro com transtorno psiquiátrico) e até de famílias em sofrimento (famílias em crise ou com um membro com doença psiquiátrica ou abuso de substâncias), as pessoas com TPB percebiam a família como significativamente menos coesa, menos expressiva e mais conflituosa. Além disso, sempre que surgiam diferenças entre pacientes, pais e o grupo em sofrimento, os pais tendiam a ver a família de modo mais positivo, enquanto as percepções de quem estava em tratamento eram mais negativas que as do grupo em sofrimento. Esses achados sugerem que as discrepâncias de percepção nas famílias afetadas pelo TPB podem ir além da variação familiar comum e refletir uma dimensão específica, e clinicamente significativa, da variabilidade individual nessa população. Eles indicam que os estudos com essas famílias não devem se concentrar apenas nos padrões de funcionamento familiar associados a comportamentos de risco, mas também em como esses padrões são interpretados pelos diferentes membros. Comparar a percepção das relações emocionais em díades de paciente e familiar pode, portanto, ajudar a compreender melhor o funcionamento relacional das pessoas com TPB.
A pesquisa sobre o papel dos vínculos familiares nos sintomas comportamentais do TPB tem empregado diversas metodologias, com ênfase em escalas de autorrelato (Bozzatello et al. 2021). Roca et al. (2024), por exemplo, avaliaram por meio de três questionários o funcionamento conjugal (a relação entre os pais) e parental (a relação entre pais e prole) em famílias com prole diagnosticada com TPB. Os resultados revelaram discrepâncias notáveis entre pais e prole na percepção de cuidado e superproteção, com as pessoas com TPB tendendo a ver o ambiente familiar de modo mais negativo; a equipe também destacou dificuldades na comunicação familiar. Além disso, encontrou uma ligação entre melhores relações conjugais e maior gravidade dos sintomas do TPB. Adotando um referencial relacional, que enfatiza a forte influência das tendências disfuncionais das relações conjugais e parentais no desenvolvimento da personalidade e na saúde mental da prole, a equipe sustenta que uma abordagem relacional pode favorecer um planejamento terapêutico mais eficaz, ao considerar a relevância das interações familiares e não apenas uma perspectiva individual. Embora o foco principal seja os padrões relacionais, as discrepâncias de percepção relatadas entre pais e prole também apontam para a possível relevância clínica de como essas interações são vividas subjetivamente pelos diferentes membros da família. Também foram realizados estudos observacionais, como o de Kluczniok et al. (2018), que incluiu a observação de uma sessão de brincadeira entre uma mãe com histórico de TPB e sua criança. Esse estudo revelou uma ligação entre o TPB materno e maior hostilidade na interação mãe-criança, com a hostilidade materna mediando a associação entre o TPB materno e o número de diagnósticos psiquiátricos da criança. Do ponto de vista clínico, esses achados ressaltam o potencial de intervenções preventivas específicas para o transtorno, por exemplo, focadas na redução de comportamentos maternos hostis no contexto do TPB.
Assim, estudos sobre a psicopatologia do TPB no contexto do ambiente familiar podem levar ao desenvolvimento de intervenções que considerem a família um componente importante. A intervenção Helping Young People Early (HYPE), por exemplo, desenvolvida por uma equipe de pesquisa na Austrália para jovens de 15 a 24 anos com TPB, inclui psicoeducação da família sobre o transtorno. Ela também busca promover o bem-estar dos membros da família e das pessoas cuidadoras (Chanen et al. 2009, 2022). Além de melhorar o funcionamento psicossocial, essa intervenção também se mostrou eficaz para manter jovens com TPB em tratamento (Chanen et al. 2022). Outro exemplo é a intervenção BRIDGE (Brief, Intensive Assessment and Integrated Formulation), desenvolvida no Reino Unido, também para jovens com TPB, que incorpora a colaboração com uma equipe multi-institucional ajustada à pessoa, podendo envolver familiares e serviços de aconselhamento (Gajwani et al. 2024). No entanto, assim como no HYPE, o envolvimento da família não é o foco principal dessas intervenções. O papel da família costuma ser participar da elaboração de uma formulação compartilhada, isto é, um processo colaborativo centrado, junto com a pessoa jovem, na definição dos principais problemas e objetivos terapêuticos, quando clinicamente indicado (Gajwani et al. 2024). Vale notar que o BRIDGE ainda está em investigação e que os dados sobre sua eficácia ainda não foram publicados. Assim, embora estudos de intervenção com famílias de pessoas com TPB tenham mostrado, por exemplo, redução dos sentimentos de dor e culpa, da sobrecarga e dos sintomas ansioso-depressivos, além de melhora das habilidades relacionais e do clima familiar (Guillén et al. 2021), ainda existe uma lacuna sobre como as abordagens terapêuticas poderiam lidar com as divergências de percepção dentro das famílias.
A pesquisa sobre relações íntimas e familiares destaca o peso da percepção, mais do que da realidade objetiva, nos desfechos relacionais. Já se mostrou que a semelhança percebida (e não a real) entre integrantes do casal prediz maior atração em diferentes relações, o que poderia se dever a vieses cognitivos e a processos de manutenção da autoestima (por exemplo, “essa pessoa é parecida comigo, ou deveria ser”) (Montoya et al. 2008). Nas relações amorosas, a idealização, dada e recebida, está associada a menos conflito e maior satisfação (Murray et al. 1996). Achados recentes de Salla e Feixas (2023) reforçam o potencial clínico de trabalhar a percepção interpessoal nas relações próximas. A análise mostrou que a semelhança percebida com o ideal de parceria e a precisão na percepção da autoimagem da outra pessoa estavam significativamente associadas à satisfação relacional. Em particular, uma visão mais positiva da outra pessoa do casal estava ligada não só a maior satisfação pessoal, mas também a maior satisfação relatada pela outra parte. Com base nesses achados, a equipe defende a relevância de estratégias terapêuticas que trabalhem explicitamente as metapercepções (isto é, “o que essa pessoa pensa de mim?”).
Em conjunto, esses achados de contextos clínicos e relacionais ressaltam a relevância de trabalhar não só os aspectos estruturais do funcionamento familiar, mas também a maneira como cada pessoa interpreta suas experiências relacionais e lhes dá sentido. No caso do TPB, essa perspectiva pode oferecer contribuições importantes a abordagens terapêuticas que vão além do manejo individual dos sintomas e levam em conta o contexto relacional e perceptivo em que os sintomas se expressam e se mantêm.
O possível papel dos membros da família na expressão dos sintomas do TPB também pode ser investigado por meio do genograma, um método gráfico descritivo de análise das relações familiares com longa história no contexto clínico (Varty et al. 2023). Ele permite representar a árvore familiar de uma pessoa, abrangendo dimensões que vão do biológico ao sociocultural (Sourdeau 2024), e tem sido usado em diversos estudos para descrever com mais profundidade aspectos relacionais, permitindo observar padrões familiares insuspeitados (Sitnik-Warchulska e Izydorczyk 2018; Wendt e Crepaldi 2008). Identificar as percepções das relações familiares e as discrepâncias entre membros também é importante para a pesquisa sobre condições psiquiátricas. Apesar disso, poucos estudos incluíram o genograma como estratégia metodológica para investigar o papel das relações familiares na sintomatologia do TPB. Dominguez et al. (2025) relataram seu uso no estudo de caso de uma pessoa que sofreu abuso sexual, mas apenas para descrever a estrutura familiar. Além disso, um estudo sobre um ensaio clínico que investigava a eficácia de um programa de intervenção também incluiu o genograma, mas como parte da caracterização sociodemográfica da amostra (Guillén et al. 2024). Assim, o desenvolvimento e o uso de estratégias metodológicas focadas nas relações familiares, e em possíveis vieses de percepção, podem ser úteis em contextos clínicos e científicos na abordagem do TPB.
Em suma, o ambiente familiar tem papel central no desenvolvimento e na expressão dos sintomas do TPB, não só como fonte de experiências adversas precoces ligadas a fatores de risco como abuso, negligência ou separação, mas também como contexto em que dinâmicas relacionais em curso, como as dificuldades de comunicação e as percepções divergentes entre pacientes e familiares, podem influenciar a forma como os sintomas são vividos e mantidos. E, embora os estudos com famílias de pessoas com TPB tenham mostrado resultados importantes, ainda são necessários aprimoramentos metodológicos e estudos que considerem o possível foco na redução dos conflitos intrafamiliares (Guillén et al. 2021). O principal objetivo deste estudo foi investigar, por meio do genograma, como díades formadas por uma pessoa com TPB e um membro de sua família (de preferência um membro da fratria ou um dos pais) identificam as relações emocionais e comportamentos de risco (RECR) na família. Esses dados correspondem a relações e eventos relatados individualmente, que podem estar associados a potenciais fatores de risco ou de proteção relacionados ao desenvolvimento e à gravidade do transtorno. Investigou-se também em que medida esses padrões estavam associados à gravidade dos sintomas borderline, avaliada por um questionário. Em suma, o estudo apresenta novas metodologias de métodos mistos e destaca o uso do genograma na pesquisa com pessoas diagnosticadas com TPB e suas famílias. A hipótese é que surgirão discrepâncias de percepção significativas entre as pessoas com TPB e os membros de sua família em relação às RECR. Propomos, além disso, que o genograma tem potencial como valiosa ferramenta clínica e de pesquisa para explorar e visualizar essas dinâmicas relacionais.
A amostra foi composta por seis mulheres diagnosticadas com TPB e seis membros de suas famílias indicados por elas (três homens e três mulheres), com idades entre 18 e 56 anos. Entre os membros da família havia quatro membros da fratria, um pai e uma mãe, conforme a indicação das pacientes. O diagnóstico foi confirmado por pelo menos dois psiquiatras especialistas e por testes baseados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) e na Borderline Symptom List (BSL-23). O recrutamento foi feito no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, especificamente no Ambulatório Integrado. As pessoas foram inicialmente informadas sobre a pesquisa pela equipe clínica. Em seguida, receberam um convite formal e informações adicionais sobre o estudo por mensagem de texto enviada pela pessoa responsável pela pesquisa. Foi dito com clareza que a participação era inteiramente voluntária e não afetaria de modo algum o atendimento clínico em curso ou futuro. A equipe clínica apenas forneceu as informações iniciais sobre o estudo e não teve nenhum envolvimento nas decisões de participação. As participantes do grupo clínico estavam em tratamento havia pelo menos um ano, com acompanhamento médico, e participavam, com familiares, de uma intervenção de grupo operativo voltada a melhorar a alexitimia e as habilidades narrativas, como preparação para uma psicoterapia breve.
Os critérios de inclusão para o grupo clínico (pacientes com TPB) eram ter diagnóstico confirmado pela equipe do hospital (composta por profissionais de psiquiatria e de psicologia), saber ler e escrever e ter mais de 18 anos. Para o grupo familiar (os membros da família indicados), os critérios de inclusão exigiam ter mais de 18 anos e saber ler e escrever. Os critérios de exclusão eram deficiência visual não corrigida, condições neurológicas ou diagnóstico de deficiência intelectual. Além disso, quem integrava o grupo familiar não podia ter diagnóstico de TPB.
O perfil sociodemográfico e clínico é apresentado na tabela 1. Quanto à escolaridade, observaram-se diferenças significativas entre os grupos. No grupo TPB, a maior parte (42%) tinha ensino médio completo, e apenas 8% tinham ensino superior completo. Ninguém nesse grupo tinha pós-graduação completa ou apenas o ensino fundamental. Já o grupo familiar apresenta uma distribuição mais diversa: 17% tinham ensino médio completo, 17% ensino superior completo, 8% pós-graduação completa e 8% ensino fundamental completo.
Tabela 1 — Perfil sociodemográfico e clínico da amostra
Seis pessoas por grupo. Família: membro da família (membro da fratria ou um dos pais). TPB: participante com transtorno de personalidade borderline.
Quanto ao perfil clínico, o grupo TPB apresentou maior gravidade dos sintomas borderline, com a maioria das participantes classificada como “Moderada” (33%) e “Alta” (17%). Já o grupo familiar mostrou predominância de casos com sintomas leves ou ausentes, com 25% classificados como “Nenhuma ou baixa” e 8% como “Leve”. Essa diferença sugere que o grupo TPB tinha uma sintomatologia mais grave quanto aos traços borderline medidos pela BSL-23, enquanto o grupo familiar apresentava uma distribuição mais equilibrada, com menor impacto dos sintomas borderline.
As pessoas participantes fizeram uma entrevista semiestruturada conduzida pela pessoa que assina primeiro o artigo, profissional de psicologia com formação em terapia comportamental dialética e experiência clínica em psicoterapia com pessoas diagnosticadas com TPB. O objetivo era construir um genograma familiar (tabela 2). O genograma é uma estratégia gráfica de registro e interpretação de dados familiares (genéticos, culturais, sociais etc.), com códigos específicos para os membros e para as variáveis relacionais (ver a figura 2, na seção 3, para mais detalhes). As perguntas abordavam temas como a presença de comportamentos de risco na família, a percepção de apoio social, a qualidade das relações familiares e características sociodemográficas. A tabela 2 sintetiza os principais conteúdos de interesse das perguntas.
Tabela 2 — Principais categorias abordadas nas entrevistas semiestruturadas e aspectos analisados
A coleta de dados foi feita a distância, pela plataforma Google Meet, usando o espelhamento de tela de um tablet para construir o genograma. As entrevistas de construção do genograma foram feitas separadamente, uma com a paciente e outra com o membro da família. Isso ajudou a minimizar vieses e a evitar que o discurso de uma pessoa fosse influenciado pelo da outra. O formato remoto foi escolhido para estar de acordo com os procedimentos clínicos do ambulatório em que o recrutamento foi feito.
Todas as entrevistas foram gravadas e depois transcritas, o que permitiu retomar as categorias durante a análise dos dados e, assim, interpretar as narrativas com mais precisão. Durante o processo, o genograma era desenhado diretamente na tela do tablet, o que permitia à pessoa entrevistada acompanhar a construção em tempo real e contribuir ativamente para a organização e a validação do esquema familiar (uma tela pautada facilitava o desenho).
Após a construção inicial no tablet, o genograma foi transferido para o software GenoPro (2020) (figura 1), que ajudou a armazenar e representar graficamente dados familiares detalhados.

Como mencionado na introdução, o conjunto das representações de relações emocionais e comportamentos de risco inferidas da análise do discurso das pessoas participantes durante a construção dos genogramas recebeu, no presente estudo, a sigla RECR.
Para classificar e categorizar essas relações familiares tal como definidas pelas pessoas participantes, usaram-se as categorias fornecidas na legenda gerada pelo software de genograma, bem como a frequência das relações, também extraída do genograma. Cada escore de RECR corresponde à frequência de cada uma dessas relações categorizadas, isto é, a cada evento identificado por cada pessoa. No total, foram identificadas 28 categorias distintas de RECR. Notou-se, porém, que nem todas as relações mencionadas nas entrevistas, e observadas no genograma, constavam da legenda fornecida. Assim, as relações ausentes foram identificadas e classificadas manualmente pela pessoa responsável pela pesquisa, garantindo que todas as relações relevantes fossem devidamente consideradas na análise.
Antes das entrevistas, pediu-se às pessoas participantes que preenchessem a Borderline Symptom List (BSL-23), instrumento validado que avalia a gravidade dos sintomas associados ao TPB (Bohus et al. 2009; Catelan e Nardi 2021). Com base nessa escala, obtiveram-se os dados sobre a gravidade dos sintomas na amostra. Esses sintomas também foram avaliados nos membros da família, pois o interesse era investigar em que medida sintomas borderline poderiam influenciar a percepção das características das RECR. É importante mencionar que a BSL-23 avalia sintomas do TPB e não fornece diagnóstico clínico. Assim, se familiares relatam sintomas de TPB segundo a escala, isso não indica necessariamente um diagnóstico formal do transtorno.
Os dados foram inicialmente tabulados no Excel e depois transferidos para o software Jamovi (The Jamovi Project 2022) para a análise estatística. A frequência das RECR em cada família foi ponderada pelo número de membros da família presentes em três gerações no genograma (fratria, pais, tios e tias, avós). Nos casos de discrepância entre o número de membros relatado pela paciente e o relatado pelo membro da família, considerou-se o número fornecido pela paciente, já que o foco do estudo era a perspectiva dela. Essa ponderação visou garantir que a análise quantitativa refletisse adequadamente a distribuição das RECR, considerando as variações no número de membros de cada genograma.
Para testar as diferenças de RECR entre os grupos (pessoas com TPB e membros da família) e segundo a gravidade dos sintomas do TPB, examinaram-se primeiro os pressupostos de normalidade e de homogeneidade das variâncias. O teste de Shapiro-Wilk indicou que várias variáveis violavam o pressuposto de normalidade (por exemplo, Abuso, W = 0,520, p < 0,001; Desconfiança, W = 0,561, p < 0,001; Comportamentos alimentares de risco, W = 0,828, p = 0,0199). O teste de Levene também revelou violações do pressuposto de homogeneidade das variâncias em algumas variáveis (por exemplo, Hostil, F(1, 10) = 10,44, p = 0,009; Distante/pobre, F(1, 10) = 5,62, p = 0,039). Diante dessas violações (p < 0,05), usou-se o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis nas comparações entre grupos.
Realizou-se uma análise de variância não paramétrica de Kruskal-Wallis, considerando a variável “diagnóstico”, variável categórica que representa o pertencimento ao grupo (grupo clínico, pessoas com TPB, ou membros da família), e os escores de RECR como variável dependente contínua. O mesmo teste foi aplicado para analisar a relação entre a gravidade dos sintomas, variável categórica com quatro níveis (nenhuma ou baixa, leve, moderada e alta), e as RECR.
Na análise qualitativa, os genogramas da paciente e do membro da família correspondente foram primeiro examinados individualmente e depois reunidos e integrados em um único documento, para permitir uma interpretação comparativa dos padrões relacionais. O foco foi identificar se as RECR significativas destacadas nas análises quantitativas estavam presentes, e entre quais membros específicos da família essas relações ocorriam.
Essa abordagem se orientou pela metodologia de estudo de casos múltiplos descrita por Yin (2003), que considera cada caso (no nosso estudo, cada díade paciente-familiar) um “estudo completo” em si mesmo. Nos estudos de casos múltiplos, o objetivo não é generalizar estatisticamente de uma amostra para uma população, mas explorar se os padrões se repetem em casos diferentes, selecionados de propósito. É a chamada lógica de replicação: cada caso ou confirma um padrão (replicação literal) ou mostra um resultado contrastante por razões teoricamente previstas (replicação teórica) (Yin 2003). Essa lógica é análoga à realização de uma série de experimentos, em que cada caso serve para confirmar, refutar ou refinar as proposições teóricas emergentes.
No nosso estudo, esse delineamento permitiu examinar se as RECR identificadas na análise quantitativa também estavam representadas nos dados qualitativos dos genogramas, e como esses padrões variavam entre as famílias. Essa metodologia também integra dados qualitativos e quantitativos, uma combinação muito poderosa.
Seguindo as recomendações de Eisenhardt (1989) para construir teorias a partir de estudos de caso, empregaram-se análises intracaso e intercasos. A análise intracaso envolveu a exploração detalhada da dinâmica de cada díade, enquanto a comparação intercasos buscou identificar padrões de semelhança e diferença entre as díades. Essa tática obriga a pesquisa a comparar e contrastar sistematicamente os casos. Essas comparações são centrais para a construção teórica, pois favorecem compreensões mais robustas, generalizáveis e empiricamente fundamentadas (Eisenhardt 1989). No conjunto, essa abordagem de casos múltiplos permitiu explorar a interação entre as percepções relacionais nas diferentes famílias no contexto do TPB.
A análise de variância não paramétrica revelou diferença significativa entre os grupos para a relação emocional Distante/pobre, χ² (gl = 1) = 5,429, p = 0,0198, e para Abuso físico, χ² (gl = 1) = 5,133, p = 0,0235 (tabela 3).
Tabela 3 — Diferenças nas características das RECR familiares percebidas pela paciente e pelo membro da família
Para cada categoria: χ², gl, valor de p, ε².
Análise de variância não paramétrica (Kruskal-Wallis). Valores significativos em negrito.
A comparação de médias e medianas mostrou que, para a relação emocional Distante/pobre, as participantes com diagnóstico de TPB apresentaram valores mais baixos (média = 0,076; mediana = 0,072) que os membros da família (média = 0,238; mediana = 0,221), o que sugere que as pessoas com TPB percebiam essa relação com menos frequência que os membros da família. Já para a relação emocional Abuso físico, as pessoas com TPB apresentaram valores mais altos (média = 0,251; mediana = 0,191) que os membros da família (média = 0,061; mediana = 0,026), o que indica que as pacientes relatavam mais essa experiência que os membros da família (tabela 4).
Tabela 4 — Percepção das situações pela paciente e pelo membro da família, quanto às relações distantes/pobres e ao abuso físico
Família: membro da família (membro da fratria ou um dos pais). TPB: participante com transtorno de personalidade borderline.
Além disso, realizou-se uma análise de variância não paramétrica (Kruskal-Wallis) para investigar a relação entre a gravidade dos sintomas do TPB e as RECR. Os resultados indicaram que, em geral, não houve diferenças estatisticamente significativas para a maioria das RECR avaliadas (p > 0,05), exceto para a variável Suspeita de uso de álcool e drogas, que mostrou diferença significativa entre os grupos, χ² (gl = 3) = 11,00, p = 0,0117 (tabela 5). É importante notar que esse resultado significativo se baseia nos dados de uma única participante, uma irmã (grupo familiar) do subgrupo de gravidade “leve”.
Tabela 5 — Análise estatística da relação entre a gravidade dos sintomas do TPB e as RECR
Para cada categoria: χ², gl, p, ε².
Análise de variância não paramétrica (Kruskal-Wallis). TPB: transtorno de personalidade borderline; RECR: relações emocionais e comportamentos de risco. Valor significativo em negrito.
O genograma de cada díade (paciente e membro da família) foi analisado individualmente e depois comparado ao outro, com base nos objetivos do estudo. Essa abordagem permitiu não só quantificar as RECR, mas também compreender como elas se manifestavam em cada unidade familiar e compará-las ao genograma do membro da família correspondente. A seguir, apresentamos uma síntese descritiva dos principais achados, analisados no nível individual e entre as díades, destacando a frequência e o contexto relacional das relações distantes/pobres e do abuso físico, tal como relatados por cada pessoa (tabela 6).
Tabela 6 — Síntese das percepções diádicas das relações “Distante/pobre” e “Abuso físico” relatadas nas análises qualitativas dos genogramas
Para cada pessoa: número de relações e entre quem.
Neste estudo, investigamos semelhanças e discrepâncias na percepção das RECR segundo a perspectiva de díades formadas por uma pessoa com transtorno de personalidade borderline e um membro de sua família. Para isso, analisamos as associações entre seus componentes e dois desfechos, o diagnóstico e a gravidade dos sintomas.
Encontramos diferenças na percepção de duas categorias de RECR entre o grupo TPB e o grupo familiar: Distante/pobre e Abuso físico. No referencial das RECR, abuso físico designa uma relação em que uma pessoa abusa fisicamente de outra, incluindo quaisquer lesões não acidentais, como bater, chutar, esbofetear, queimar ou estrangular. Já a categoria Distante/pobre descreve uma relação marcada por comunicação limitada, muitas vezes devida a diferenças percebidas de estilo de vida (Emotional Relationships, GenoPro 2025). O abuso físico foi relatado com mais frequência pelas participantes do grupo clínico, enquanto a categoria distante/pobre foi relatada com mais frequência pelos membros da família. Além disso, os resultados sugerem que a percepção de suspeita de uso de álcool e drogas pode estar associada à gravidade dos sintomas do TPB, já que as outras dimensões das RECR não mostraram associação significativa. Porém, é importante destacar que essa RECR foi relatada por uma única participante, do grupo de gravidade “leve”: uma irmã que descreveu a suspeita de uso de álcool e drogas por parte da paciente. Embora esse relato isolado não permita inferência estatística, consideramos que ele merece atenção de uma perspectiva clínica e exploratória, sobretudo porque este estudo visa apresentar uma nova forma de avaliar as dinâmicas familiares emocionais e ligadas ao risco no TPB. Essas percepções individuais, embora não generalizáveis, ainda podem oferecer contribuições valiosas para a avaliação terapêutica e o planejamento da intervenção. Parece, portanto, que relatos dessas RECR durante a construção do genograma podem ajudar a compreender melhor a variabilidade individual que pode estar associada à gravidade dos sintomas e às dificuldades relacionais. Eles também podem refletir vieses e padrões de comunicação específicos, tanto da própria paciente quanto do sistema familiar, o que reforça a importância de examinar não só os padrões objetivos do funcionamento familiar, mas também como cada membro os interpreta subjetivamente. Explorar tanto as semelhanças quanto as diferenças dessas percepções pode esclarecer como os vieses de percepção e os padrões de comunicação moldam a experiência das relações emocionais na família, revelando distorções ou descompassos que, de outro modo, passariam despercebidos.
A análise quantitativa mostrou que as pacientes relatavam a relação emocional “abuso físico” com mais frequência que o grupo familiar. No entanto, ao integrar a análise qualitativa, foi possível identificar quais membros da família eram mencionados nos relatos e verificar se havia coerência entre o relato da paciente e o do membro da família. Acreditamos que essa abordagem metodológica combinada permite compreender melhor as percepções individuais ligadas ao TPB e as possíveis divergências e convergências na experiência das RECR dentro da família.
No exemplo apresentado na figura 2, foram analisados dois membros da mesma família: uma paciente e um membro da família, neste caso um membro da fratria. Embora a legenda quantificada gerada pelo genograma fornecesse informações valiosas sobre as RECR e sua frequência, a representação gráfica dos genogramas permitiu uma análise mais detalhada. Com essa visualização, observou-se que a paciente relatou uma relação de abuso físico entre seus avós paternos, enquanto o membro da fratria descreveu a relação do mesmo casal como harmoniosa. Embora os dois genogramas pertençam à mesma família, cada um reflete a perspectiva singular de uma pessoa (uma paciente, a outra membro da família), o que pode resultar em diferenças nas representações. Uma mesma linha pode variar, por exemplo, porque cada pessoa percebe e interpreta as relações familiares de modo diferente.

Diante das discrepâncias de percepção, intervenções que envolvam os membros da família, como a terapia familiar, podem ajudar a promover a sintonia emocional, reduzir conflitos e melhorar o conjunto dos resultados do tratamento. Embora o envolvimento da família nem sempre seja central nas intervenções existentes para o TPB, nossos resultados sugerem que abordagens terapêuticas que trabalhem a comunicação familiar e a percepção interpessoal podem ser um complemento importante às estratégias de tratamento individual. Identificar como pacientes e familiares percebem a proximidade emocional, o conflito ou o abuso pode trazer novas compreensões sobre dinâmicas relacionais capazes de influenciar a expressão ou a manutenção dos sintomas.
Assim, incorporar elementos que explorem como cada pessoa acredita ser percebida pelas outras (metapercepção) pode aumentar ainda mais a eficácia das intervenções centradas na família. Considerando a possível influência dos vieses cognitivos e dos processos de manutenção da autoestima na percepção interpessoal (Montoya et al. 2008), assim como o papel da idealização, dada e recebida, na regulação dos conflitos, estratégias terapêuticas que ajudem a esclarecer as percepções mútuas e favoreçam uma reinterpretação construtiva das experiências relacionais podem ser benéficas (Murray et al. 1996). Intervenções que incluem o questionamento circular, a formulação compartilhada ou ferramentas qualitativas como as grades relacionais (Salla e Feixas 2023), como a terapia familiar, poderiam ser adaptadas para facilitar esse processo, ajudando os membros da família a compreender não só as experiências de cada membro, mas também como essas experiências são construídas subjetivamente.
Essa perspectiva também reforça o valor de intervenções que facilitem a comunicação aberta nas famílias em contextos clínicos. A intervenção Sibling (SIBS), desenvolvida na Noruega, por exemplo, busca fortalecer a comunicação entre os pais e a fratria de crianças com transtornos crônicos, ao mesmo tempo que capacita os pais a oferecer apoio informativo e emocional (Haukeland et al. 2020). Essa intervenção mostrou melhora significativa na qualidade da comunicação diádica, junto com melhoras relatadas na saúde mental da fratria. Como nosso estudo evidencia percepções divergentes das dinâmicas familiares no TPB, uma intervenção que favoreça o compartilhamento emocional e melhore a compreensão mútua poderia, nesse contexto, ajudar a reduzir essas lacunas de percepção.
Em suma, nossos achados apoiam uma abordagem relacional e atenta às percepções no planejamento do tratamento do TPB. Intervenções futuras poderiam se beneficiar de contribuições de modelos terapêuticos relacionais e metacognitivos para reduzir as lacunas de compreensão e favorecer ambientes familiares mais coerentes e validantes.
Além disso, ao considerar o desenvolvimento de intervenções focadas na comunicação entre membros da família no TPB, é essencial avaliar melhor os déficits de comunicação específicos envolvidos na psicopatologia do TPB e em cada família. Assim, aprimorar os instrumentos e métodos capazes de atender a esses objetivos torna-se crucial, sobretudo porque as escalas de autorrelato muitas vezes não conseguem captar o discurso da pessoa de forma mais aberta, deixando de lado aspectos essenciais de sua subjetividade. Por isso, os métodos mistos parecem mais adequados para desenvolver melhor estratégias de intervenção ou protocolos especializados. Sendo assim, o uso do genograma parece ser uma alternativa metodológica para estudar famílias no contexto do TPB.
Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a usar o genograma como método para avaliar a percepção de árvores familiares “duplicadas” dentro das famílias e, como tal, apresenta pontos fortes e desafios. O genograma dá à pessoa participante a oportunidade de acompanhar em tempo real a construção de seu genograma familiar, o que lhe permitiu contribuir de forma mais ativa para o processo, fazendo as observações e os comentários que julgava relevantes. Proceder assim reduziu a chance de a pessoa responsável pela pesquisa interpretar mal o que a pessoa entrevistada dizia. Além disso, o uso de genogramas pode representar um acréscimo valioso à prática clínica, sobretudo como ferramenta para visualizar dinâmicas relacionais e suscitar a discussão sobre narrativas conflitantes. Pelo genograma, é possível integrar o discurso da pessoa obtido em entrevista semiestruturada e, ao mesmo tempo, quantificar os relatos sobre relações emocionais e comportamentos de risco. Ao mapear tanto eventos objetivos quanto percepções subjetivas, os genogramas podem ajudar as equipes clínicas a identificar áreas de falha de comunicação, conflitos não reconhecidos ou assimetrias relacionais relevantes para o planejamento do tratamento. Estudos futuros que usem essa estratégia metodológica podem contribuir para aumentar a validade externa dos resultados e para integrar a avaliação por genograma em programas psicoeducativos ou familiares.
Poucos estudos, como o nosso, empregaram análises quantitativas no contexto de genogramas. Um exemplo é o estudo de Sitnik-Warchulska e Izydorczyk (2018) que, como o nosso, explorou padrões familiares, mas em um contexto não clínico e em uma perspectiva individual, e não diádica. O objetivo era identificar configurações familiares que exigem atenção terapêutica por sua associação com comportamentos suicidas ou violentos em adolescentes do sexo feminino. Por meio de uma análise baseada no genograma, a equipe verificou que esses comportamentos estavam ligados a estressores familiares transgeracionais, como dificuldades emocionais, doenças crônicas e relações trianguladas, e destacou que essas configurações podiam servir como indicadores clinicamente relevantes. Sitnik-Warchulska e Izydorczyk (2018) ressaltam que reconhecer esses padrões é valioso na prática clínica e pode ser útil em um contexto de prevenção. Esses achados apoiam a relevância das abordagens baseadas no genograma para identificar dinâmicas familiares disfuncionais, o que também é um objetivo central do nosso estudo. Enquanto Sitnik-Warchulska e Izydorczyk (2018) conduziram sua pesquisa presencialmente, nosso estudo foi realizado a distância. Nessa linha, amostras coletadas em pesquisas remotas podem apresentar maior diversidade racial e geográfica que estudos presenciais (Shields et al. 2021). Além disso, o uso remoto do genograma apresentou outras vantagens importantes, sobretudo na pesquisa com famílias, pois permite incluir pessoas que, por diversas razões, não estariam disponíveis para avaliações presenciais, seja a pessoa em tratamento, seja o membro da família. Essa abordagem amplia as possibilidades de pesquisa e facilita a coleta de dados em um formato acessível e flexível. Também é possível que, estando em casa, a pessoa se sinta mais à vontade para falar de temas sensíveis.
Até onde sabemos, apenas um estudo publicado, não limitado ao transtorno de personalidade borderline, incorporou a construção remota de um genograma à sua metodologia. Andrade et al. (2024) elaboraram os genogramas das pessoas participantes durante entrevistas remotas, com espelhamento de tela e o software GenoPro (GenoPro 2020). Não encontramos, porém, nenhum estudo, remoto ou presencial, que tenha usado genogramas no contexto do TPB.
Por fim, a pesquisa remota pode superar certas barreiras, mas também pode trazer novos desafios. Um aspecto crucial que pode afetar a construção do genograma é a influência cultural, pois as mesmas palavras podem ter sentidos diferentes para cada pessoa. O termo “abuso”, por exemplo, pode ser interpretado de várias maneiras, conforme as experiências e os contextos culturais. Por isso, é essencial que as equipes de pesquisa se mantenham atentas para compreender bem o que a pessoa entrevistada quer transmitir. Para atenuar esse desafio, é importante envolver outros membros da equipe de pesquisa na categorização dos temas abordados (Carter et al. 2014). Revisar as transcrições com a contribuição de diferentes profissionais pode ajudar a minimizar vieses de interpretação e garantir uma análise mais precisa e contextualizada das narrativas coletadas.
Algumas limitações podem ser identificadas neste estudo. Primeiro, a amostra foi recrutada em um único ambulatório em que as pacientes já estavam em tratamento, podendo, portanto, representar um perfil de pessoas com melhores desfechos clínicos. Além disso, apenas um membro da família por paciente foi incluído. A perspectiva isolada de uma única pessoa da família, possivelmente muito próxima da paciente, sobretudo por ter sido indicada por ela, pode gerar viés na percepção da família. Por fim, a amostra muito pequena limita nossas conclusões. Essa limitação, contudo, é coerente com a natureza exploratória do estudo e com seu foco metodológico. Por exemplo, embora o parentesco entre cada participante com TPB e o respectivo membro da família (mãe, pai, membro da fratria) tenha sido identificado e representado no genograma segundo as convenções habituais, essas relações familiares específicas não foram incluídas nas análises quantitativas. Essa decisão se baseou no pequeno tamanho da amostra e no objetivo principal do estudo, que era apresentar o genograma como ferramenta metodológica para mapear as RECR, e não examinar diferenças segundo o tipo de relação familiar. São necessários estudos com amostras maiores e contextos mais diversos, como outras faixas etárias e pessoas sem tratamento prévio, para que os resultados sejam mais representativos. Também vale notar que a coleta de dados a distância pode ser muito difícil, pela diversidade das dinâmicas familiares e das rotinas domésticas, que podem dificultar uma privacidade completa para a pessoa participante. Este estudo se concentra nas percepções subjetivas de cada participante sobre suas relações familiares. Por isso, diferenças entre os relatos, como um dos pais não reconhecer um comportamento percebido como abusivo pela outra pessoa, são esperadas e significativas. Em vez de serem vistas como viés metodológico, essas discrepâncias refletem divergências interpretativas centrais para a compreensão das relações emocionais e dos comportamentos de risco relevantes.
Em conclusão, o uso do genograma parece ser uma estratégia metodológico-clínica adequada para estudar famílias com pessoas com transtorno de personalidade borderline. Ele permitiu identificar convergências e discrepâncias nas percepções familiares sobre relações emocionais e comportamentos de risco, analisar diferenças específicas nessas percepções e identificar quais membros da família eram destacados em cada situação. Ao comparar as representações das mesmas relações a partir de duas perspectivas diferentes, o estudo oferece compreensões sobre como as divergências de percepção podem refletir a variabilidade individual, os vieses de percepção e os padrões de comunicação característicos das dinâmicas familiares no TPB. Essa comparação contribui para o desenvolvimento de intervenções mais personalizadas, sobretudo quanto à identificação das RECR a serem trabalhadas e dos membros da família mais afetados. Assim, o genograma pode ser uma ferramenta valiosa não só para a pesquisa, mas também para a avaliação terapêutica e o planejamento da intervenção. Sua aplicação remota pode favorecer a diversidade das amostras, tornando a coleta de dados mais flexível e acessível. O uso do genograma se destaca como um procedimento inovador para a pesquisa e para a abordagem clínica do tratamento de pessoas com TPB, oferecendo um meio estruturado de explorar as dinâmicas familiares e aprimorar intervenções futuras.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do estudo está menos em seus números, tirados de seis díades, do que em seu gesto metodológico: desenhar duas vezes o mesmo genograma, com duas pessoas diferentes, e tratar a distância entre eles como um dado, e não como um erro. Onde uma pessoa vê violência entre avós, a outra vê harmonia. Para a clínica sistêmica, é uma velha intuição posta de novo para trabalhar: não existe uma família, mas tantos mapas quantas são as posições no sistema, e o sofrimento também se aloja nesses descompassos. Construído na tela, em tempo real, diante dos olhos da pessoa, o genograma se torna uma ferramenta de coconstrução, e sua versão remota abre acesso a familiares que não viriam a uma consulta. Os limites são claros: uma amostra minúscula, só de mulheres do lado das pacientes, recrutada em um único serviço, familiares escolhidos pelas pacientes, testes repetidos em 28 categorias que pedem cautela e uma leitura ainda próxima de um modelo de fatores de risco. Resta ver esses genogramas cruzados discutidos em sessão, com a família reunida. Para ler junto com o artigo sobre o genograma como ferramenta sistêmica e com o artigo sobre o transtorno borderline em terapia.
Notas do original
Aprovação ética. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, sob o parecer nº 6.957.080. Todas as pessoas participantes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de participar. O estudo foi conduzido de acordo com a Declaração de Helsinque.
Agradecimentos. A taxa de processamento de artigo desta pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) (identificador ROR: 00x0ma614).
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Tradução não oficial em português de Novas estratégias para estudos com famílias no transtorno de personalidade borderline: desafios e potencialidades do uso do genograma, de Ana Carolina Soares Marinho, Camila Chagas, José Carlos Galduróz, Fernanda Celeste de Oliveira Martins Sassi, Erlei Sassi Junior, Francisco Lotufo Neto e Claudia Berlim de Mello, Journal of Marital and Family Therapy, vol. 51, no 4 (2025), doi: 10.1111/jmft.70065, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “New Strategies for Studies With Families in Borderline Personality Disorder: Challenges and Potentialities of the Use of Genogram”, publicado em Journal of Marital and Family Therapy (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Marinho, A. C. S., Chagas, C., Galduróz, J. C., Sassi, F. C. O. M., Sassi Junior, E., Lotufo Neto, F., et de Mello, C. B. (2025). Novas estratégias para estudos com famílias no transtorno de personalidade borderline: desafios e potencialidades do uso do genograma (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/novas-estrategias-para-estudos-com-familias-no-transtorno-de-personalidade-borderline (Obra original publicada em 2025 em Journal of Marital and Family Therapy, 51(4), e70065 (2025); republicada em 2025 por Journal of Marital and Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jmft.70065)
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