Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Journal of Solution Focused Practices · Pesquisa empírica
Duzentas e vinte e três pessoas que estudam no Japão preenchem sozinhas uma ficha de trabalho: um problema, a pergunta do milagre, um objetivo “concreto, pequeno e formulado como ‘eu farei’”, uma exceção, uma ideia para a semana. Cada pessoa avalia até que ponto imaginou bem o milagre e até que ponto o seu objetivo é concreto e realista; dois terapeutas avaliam o mesmo de fora. Gen Takagi e colegas mostram que os dois olhares se sobrepõem só fracamente, e que não predizem as mesmas coisas: a concretude julgada do lado da terapia faz subir a construção de soluções, a imaginação sentida pela pessoa faz subir a sua autoeficácia, o realismo sentido faz o problema avançar. Conclusão prática: verificar com a pessoa se ela imaginou o bastante, e continuar a concretizar até que, do lado da terapia, o objetivo pareça concreto. Com, no fim, uma reflexão sobre o Japão, Yanagida e Suzuki, e sobre o que vale a pergunta do milagre numa cultura que olha muito para o que pensam os outros.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Impact of Self and Therapists’ Evaluation of Responses to Miracle Question and Goal: Survey of Japanese Undergraduate and Graduate Students, de Gen Takagi, Taku Hiraizumi, Kazuma Sakamoto e Miki Hagidai, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2021), doi: 10.59874/001c.75043, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com a figura 1 descrita e as nove tabelas apresentadas em fichas, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. “Solution building” é traduzido por “construção de soluções”. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo. A terapia breve focada nas soluções é uma psicoterapia que não se concentra no problema, mas na clarificação do estado visado e na extensão das exceções. O objetivo deste estudo foi examinar os efeitos da autoavaliação e da avaliação terapêutica da clarificação do objetivo sobre as variáveis consideradas importantes em TBFS. No total, 223 pessoas que responderam a todos os questionários foram analisadas. Os resultados mostram uma correlação entre a autoavaliação e a avaliação terapêutica para a imaginação da pergunta do milagre, a concretude do objetivo e o realismo do objetivo. No entanto, nenhuma dessas relações era fortemente correlacionada, confirmando que a autoavaliação e a avaliação terapêutica diferem em certa medida. A avaliação terapêutica do objetivo teve impacto positivo na construção de soluções, na orientação para soluções e na análise causal. Além disso, a autoavaliação ligada à pergunta do milagre e ao objetivo teve impacto positivo na autoeficácia e no grau de resolução do problema. Esses achados indicam que as autoavaliações e as avaliações terapêuticas, ligadas à pergunta do milagre e ao objetivo têm efeitos diversos na resolução do problema.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) é uma psicoterapia proposta por de Shazer et al. (1986). De Shazer (1984) apontou que terapeuta e cliente têm uma relação igual e cooperativa. Essa visão ajudou a estabelecer a noção de que as pessoas têm a capacidade e os recursos para a resolução. Além disso, Gingerich et al. (1988) mostraram que as conversas sobre mudança estão associadas aos resultados do tratamento, e a técnica de questionamento da TBFS foi desenvolvida para eliciar nas pessoas conversas sobre mudança. Com esses fundamentos, a TBFS considera que compreender o problema não leva necessariamente a resolvê-lo (De Jong & Berg, 2013), e tenta construir uma solução em colaboração, concentrando-se nos desejos e recursos da pessoa.
Greene e Grant (2003) afirmam que “se você sabe para onde vai, é fácil chegar lá. Imaginar um futuro ajuda, portanto, a alcançá-lo” (p. 25). A característica da construção de soluções é concentrar-se na clarificação do estado visado e na extensão das exceções (De Jong & Miller, 1995). Na TBFS, a pergunta do milagre (PM) serve para clarificar o estado visado que reflete os desejos da pessoa (de Shazer & Dolan, 2012). A PM é um marco para o apoio, porque define o futuro desejado da pessoa e a vida após a resolução do problema (de Shazer, 1982). Greene e Grant apontam que são necessárias tanto uma visão difusa da solução pela PM quanto um objetivo específico que siga essa visão. No processo de clarificação, um objetivo bem formado deve, portanto, ser definido além da PM. Como condições de um objetivo bem formado, de Shazer (1991) indica: (1) importante para a pessoa, (2) limitado à situação, específico, acionável e mensurável, (3) realista. Tais objetivos tornam a imagem da solução mais clara, e as esperanças para a vida futura e a eficácia diante do problema aumentam (Jordan & Quinn, 1994; Shilts et al., 1997). Assim, a clarificação da imagem da solução e a definição de objetivos específicos pela PM desempenham um papel importante na TBFS. Em resumo, clarificar a imagem da solução pela PM e definir objetivos específicos ajudará a construir a solução.
Em seguida, as perguntas de exceção são aquelas que se concentram nos momentos em que um problema não ocorre, ou em que algo vai um pouco melhor. Mesmo os problemas mais persistentes não estão absolutamente sempre presentes, e há sempre exceções (Greene & Grant, 2003). Quando as pessoas começam a procurar exceções, podem encontrar e reproduzir exceções antes não reconhecidas (Berg & Dolan, 2001). Os princípios e técnicas focados nas soluções ajudam as pessoas a usar os seus processos de pensamento e experiências inerentes, talvez inconscientes, para encontrar a solução (Greene & Grant, 2003).
De Jong e Berg (2013) recomendam procurar as exceções depois da pergunta do milagre, por duas razões. Primeiro, no início da terapia, as pessoas estão tão concentradas em falar do problema que dificilmente notam exceções. Nesse ponto, fazer perguntas para encontrar exceções pode parecer deslocado. Mas depois que a pessoa deu uma descrição concreta da sua vida após o milagre, a busca de exceções pode começar com naturalidade. Segundo, essa ordem torna mais fácil para a pessoa encontrar exceções diretamente ligadas ao milagre (descrição detalhada do que quer ver diferente na sua vida). São as exceções mais úteis para construir a solução, porque estão estreitamente ligadas ao que a pessoa quer. É, portanto, importante procurar as exceções depois de definido o objetivo bem formado.
Nos últimos anos, ferramentas de autocuidado que não exigem intervenção terapêutica, como fichas de trabalho e a internet, foram desenvolvidas e mostraram-se eficazes (Cuijpers & Schuurmans, 2007). Em TBFS, houve estudos sobre os efeitos do formato de ficha: Grant (2012) mostrou que fichas estruturadas em torno da PM aumentavam a resolução de problemas e a autoeficácia em comparação com perguntas centradas no problema. Takagi et al. (2019) desenvolveram uma ficha composta de perguntas de exceção e da PM e verificaram que ela aumentava o grau de resolução do problema, a autoeficácia e a construção de soluções. Assim, embora a eficácia de uma ficha composta de técnicas TBFS tenha sido demonstrada, o impacto dos elementos individuais não foi examinado em detalhe. Este estudo concentra-se, portanto, na clarificação da imagem da solução e na definição de objetivos específicos e realistas entre os elementos da TBFS, e examina a sua eficácia em detalhe.
Muitos estudos sobre objetivos foram conduzidos nos domínios dos projetos pessoais e da indústria. Na pesquisa sobre projetos pessoais, os objetivos pessoais foram ligados ao bem-estar subjetivo (Brunstein, 1993). Numa perspectiva de aproximação-evitação, Emmons (1996) classifica os objetivos em três categorias: o que queremos alcançar, o que queremos manter e o que queremos evitar. Os objetivos de evitação, mesmo alcançados, apenas adquirem a ausência de consequências negativas, não a presença das consequências positivas necessárias para atender às necessidades da pessoa (Elliot & Sheldon, 1998). De fato, Coats et al. (1996) encontraram uma correlação negativa entre objetivos de evitação e otimismo e autoestima, e positiva com a depressão. Diferenças culturais também foram examinadas: enquanto os objetivos de evitação estavam negativamente associados ao bem-estar subjetivo nos Estados Unidos, nenhuma correlação significativa foi encontrada na Coreia (Elliot et al., 2001). No Japão, os objetivos de evitação podem não ter efeitos negativos. Mas não há diferença cultural no fato de que os objetivos de aproximação confirmam mais os resultados do que os de evitação, e os objetivos de aproximação são mais importantes na construção de soluções. Elliot e Friedman (2007) apontaram, aliás, a importância de passar da busca de objetivos de evitação para a de objetivos de aproximação. No Japão, Kurosawa (2012) propôs a condição “fazer” em vez de “não fazer” como condição de objetivo em TBFS, e este estudo também pede que os objetivos sejam de aproximação, conforme essa condição.
A pesquisa sobre desempenho na indústria mostrou que objetivos concretos e difíceis levam a maior desempenho (Locke & Latham, 2013). Além disso, Emmons (1992) mostrou, num estudo quantitativo, que objetivos abstratos estão associados a sofrimento psicológico como a depressão. Espera-se, portanto, que ter objetivos concretos leve a melhor desempenho e estabilidade mental. Por outro lado, a dificuldade pode ter efeitos negativos, como baixar o moral e a eficácia, se a tarefa for complexa ou num nível que a pessoa julga inalcançável (Locke & Latham, 2013). Em particular, alcançar vários objetivos na vida cotidiana exige a execução de tarefas complexas, como a necessidade de mudar de estratégia em interação com o ambiente. Para manter um sentimento de autoeficácia na resolução dessas tarefas, é importante que o realismo dos objetivos seja altamente avaliado. Do exposto, é importante, como clarificação dos objetivos em terapia breve focada nas soluções, clarificar a imagem da solução e definir objetivos específicos e realistas. Ao medir separadamente a imaginação da imagem da solução, a concretude do objetivo e o realismo do objetivo, examinamos os efeitos individuais desses elementos.
A definição de objetivos específicos e alcançáveis é particularmente crucial em TBFS. Emmons (1992) mostra, num exame quantitativo, que objetivos abstratos estão associados a sofrimento psicológico, como a depressão. Por outro lado, ainda não há pesquisa que tenha examinado quantitativamente a influência da clarificação do objetivo sobre variáveis como a construção de soluções, considerada importante em TBFS. Também nenhuma pesquisa discutiu em detalhe o que influencia a avaliação das características dos objetivos, tanto do lado da terapia quanto do lado subjetivo da pessoa. A autoavaliação dos objetivos nem sempre coincide com a avaliação terapêutica. Por exemplo, uma pessoa pode sentir que um objetivo é específico e realista, mas, do ponto de vista terapêutico, pode parecer insuficientemente específico, ou que um objetivo mais realista é necessário. O objetivo deste estudo foi, portanto, examinar os efeitos das avaliações do objetivo, pela própria pessoa e do lado da terapia, sobre as variáveis consideradas importantes em TBFS. Em TBFS, a importância do objetivo é citada como condição de um bom objetivo. Mas a importância do objetivo é largamente subjetiva, própria da pessoa, e difícil de avaliar por outros. Além disso, como este estudo trata de objetivos definidos pela própria pessoa, e não dados por outros, há pouca possibilidade de que objetivos sem importância sejam definidos. Por essas duas razões, decidimos concentrar-nos na concretude e no realismo dos objetivos.
Como medida de eficácia, usamos a escala do inventário de construção de soluções (SBI). Smock et al. (2010) identificaram três componentes importantes da construção de soluções: ter uma visão clara do estado desejado, reconhecer as exceções e ter esperança no futuro. Com base nesses componentes, um inventário foi desenvolvido para avaliar a capacidade de construir soluções (Smock et al.). Em particular, no processo de clarificação dos objetivos pela pergunta do milagre, a construção de soluções deve ser reforçada, pois as pessoas participantes imaginam um estado desejável e definem objetivos específicos e realistas. Em TBFS, a construção de soluções é a variável mais importante, e quando é reforçada, a autoeficácia e as estratégias de enfrentamento devem mudar positivamente.
Por outro lado, como a construção de soluções não é uma medida direta da autoeficácia nem das estratégias de enfrentamento em si, quatro indicadores de eficácia foram usados: autoeficácia, grau de resolução do problema, nível ideal de vida e estratégias de enfrentamento, para captar em detalhe as mudanças positivas produzidas pela TBFS. A autoeficácia é a confiança na resolução de problemas, e as pessoas com alta autoeficácia tendem a ser otimistas, confiantes nas suas ações e proativas na sua execução (Kelder et al., 2015). Aumentar a autoeficácia é, portanto, elemento essencial para melhorar situações problemáticas. As técnicas TBFS mostraram aumentar a autoeficácia (De Jong & Berg, 2013; Grant, 2012; Takagi & Wakashima, 2019), e espera-se que imaginar soluções e definir objetivos específicos e realistas a aumentem.
Em seguida, o grau de resolução do problema mede se o problema é grave ou está próximo da resolução. De Jong e Hopwood (1996) examinaram a eficácia da TBFS com um índice de resolução graduado de 0 a 10, e relataram que 74% do corpo estudantil melhorou um ponto ou mais. Além disso, o nível ideal de vida é um índice que mede se a vida atual está longe ou perto do ideal. Pakrosnis e Cepukiene (2012) apontam que os efeitos da TBFS podem ter impacto positivo não só nos temas e situações específicos abordados em terapia, mas também em vários aspectos da vida da pessoa. Espera-se, portanto, que em TBFS não só o problema específico, mas a vida inteira da pessoa melhore. Em resumo, o grau de resolução do problema e o nível ideal de vida serão reforçados ao imaginar plenamente a solução e definir objetivos concretos e realistas.
Por fim, as estratégias de enfrentamento são indicadores que medem como as pessoas lidam com os problemas. Tsukahara (2010) classificou-as em duas categorias: o controle primário, que tenta diretamente resolver o problema em si, e o controle secundário, que tenta resolvê-lo ajustando a percepção do problema. Ambos se mostraram eficazes para reduzir sintomas depressivos. Como Greene e Grant (2003) recomendam determinar um plano de ação após a clarificação do objetivo, é importante criar uma mudança na forma como as pessoas lidam com os seus problemas em TBFS. Por outro lado, a forma como a imaginação da imagem da solução, a concretude e o realismo do objetivo afetam as estratégias de enfrentamento não foi examinada. Este estudo examinou, portanto, os efeitos sobre as estratégias de enfrentamento de forma exploratória.
A pesquisa foi conduzida em novembro e dezembro de 2018. Pessoas de graduação e pós-graduação no Japão foram recrutadas por uma empresa de pesquisas online. Esta registrava as pessoas que desejavam cooperar em pesquisas, e era possível, pela sua plataforma, pedir-lhes que cooperassem. No recrutamento, explicou-se às pessoas, na tela de autorização, o conteúdo do estudo, o formato do questionário, que não eram obrigadas a responder, e que as suas respostas seriam tratadas estatisticamente sem identificação pessoal. Só quem concordava podia passar à tela de resposta. As pessoas participantes responderam duas vezes às medidas de eficácia, logo antes e logo depois de preencher a ficha baseada na TBFS (ver figura 1). Não procuramos pessoas que precisassem de aconselhamento ou familiarizadas com a TBFS; a pesquisa foi difundida ao acaso pela empresa de pesquisas, e obteve-se a cooperação de quem aceitou. Além disso, nenhum aconselhamento individual ou de grupo ocorreu, e cada pessoa devia trabalhar nos seus próprios problemas.
Figura 1 (descrita). Desenho experimental
Um fluxograma vertical: pessoas elegíveis abordadas (n = 320) → pré-questionário → definição do problema → resposta adequada (n = 223) [ramo lateral: resposta inadequada (n = 97)] → pergunta do milagre → clarificação do objetivo → pergunta de exceção → pós-questionário → analisados (n = 223).
320 pessoas participaram da pesquisa. Deviam responder às perguntas sobre problemas, PM e clarificação do objetivo com fichas. As 97 pessoas que responderam “nada em particular”, “nada” ou “não sei” à pergunta sobre o problema não foram incluídos, por duas razões: (1) é muito provável que estivessem tentando minimizar o esforço, e a sua atitude de resposta poderia não ser adequada; (2) é difícil trabalhar a clarificação da PM e dos objetivos sem um problema colocado. Assim, 223 pessoas (74 homens e 149 mulheres; 18-25 anos, idade média 20,77, DP = 1,62) foram incluídas na análise.
Dados demográficos. Gênero e idade.
Inventário de construção de soluções. Medido pelos 14 itens do questionário desenvolvido por Smock et al. (2010), que avalia a capacidade de identificar exceções, soluções e esperança no futuro. Takagi et al. (2015) desenvolveram uma versão japonesa, revisada por Takagi et al. (2019) em japonês mais fácil de entender. Estrutura unifatorial. Itens pontuados numa escala Likert de cinco pontos, de “1 = discordo totalmente” a “5 = concordo totalmente”. O escore total dos 14 itens serve de indicador.
Autoeficácia. Medida pelos 10 itens da escala de autoeficácia geral, desenvolvida por Jerusalem e Schwarzer (1992) e traduzida para o japonês por Ito et al. (2005). Estrutura unifatorial. Itens pontuados numa escala Likert de quatro pontos, de “1 = nada verdadeiro” a “4 = totalmente verdadeiro”. O escore total serve de indicador.
Grau de resolução do problema. Medido por um item, segundo Iwamoto et al. (2016): “Um escore de 0 significa que o problema é muito grave e ruim, e um escore de 10 que o problema é administrável por você. Que escore você acha que o problema tem agora para você?”
Nível ideal de vida. Medido por um item, no mesmo formato: “Um escore de 0 significa que a sua vida em geral é muito grave e a pior, e um escore de 10 que a sua vida é muito ideal. Que escore você dá à sua vida atual?”
Estratégias de enfrentamento. Medidas pelos 20 itens das escalas de controle primário e secundário desenvolvidas por Tsukahara (2010), em quatro subescalas: orientação para soluções (6 itens), análise causal (4 itens), aceitação de sentido (6 itens) e ajuste do pensamento (4 itens). Itens pontuados numa escala Likert de cinco pontos, de “1 = discordo totalmente” a “5 = concordo totalmente”. Validade e confiabilidade confirmadas por Tsukahara (2010). Esta escala mede tanto as estratégias que tentam resolver o problema em si quanto as que ajustam a percepção do problema; como se espera que a TBFS produza mudanças em ambas, foi adotada. A orientação para soluções é um enfrentamento proativo de resolução, medido por itens como “Vou fazer algo a respeito pelos meus próprios esforços”. A análise causal analisa as causas do problema, medida por itens como “Vou tentar resolver o problema pelos meus esforços”. Essas duas relevam do controle primário. A aceitação de sentido faz emergir o sentido positivo do problema, medida por itens como “Acho que foi uma experiência significativa na minha vida”. O ajuste do pensamento ajusta positivamente os pensamentos, medido por itens como “Se eu conseguir superar isso, o resto da minha vida certamente vai melhorar”. Essas duas relevam do controle secundário.
Perguntas sobre o problema. “Fale-me de um problema que teve um impacto negativo contínuo na sua vida.”
Avaliação do problema. Para confirmar a avaliação do problema, perguntamos: a atribuição de causas (“Você acha que é a causa deste problema, ou acha que ele é causado por outros, pelo ambiente etc.?”, de 1 = concordo totalmente que sou a causa, a 5 = concordo totalmente que outros, o ambiente são a causa); a eficácia percebida (“Em que medida você sente que consegue lidar com este problema sem ajuda?”, de 1 = nada, a 5 = fortemente); a motivação (“Qual é a sua motivação para resolver este problema?”, de 1 = muito baixa, a 4 = muito alta); o impacto na vida (“Que impacto negativo este problema tem na sua vida?”, de 1 = muito pequeno, a 4 = muito grande). A avaliação do problema não foi usada na análise, pois o objetivo do estudo era examinar os efeitos das avaliações das respostas à PM e à clarificação do objetivo.
Pergunta do milagre. “Se um milagre acontecesse e este problema desaparecesse, em que você acha que a sua vida seria diferente? Dê o máximo de detalhes possível, mesmo que seja só a sua imaginação ou as suas esperanças.” As pessoas participantes avaliavam também o seu grau de imaginação, de 1 (nada) a 4 (muito bem). Essa autoavaliação é chamada eu-PM-imagem.
Clarificação do objetivo. “Defina um objetivo a partir da sua resposta à PM. Faça um objetivo que cumpra as seguintes condições: objetivos no nível da ação, tão concretos e visíveis quanto possível; um objetivo tão pequeno e realista quanto possível (os primeiros pequenos sinais, não o objetivo final); o objetivo positivo ‘eu farei’ em vez do objetivo negativo ‘eu não farei’.” Avaliavam também a concretude do seu objetivo, de 1 (nada específico) a 4 (muito específico), e o seu realismo, de 1 (muito difícil) a 4 (muito fácil).
Pergunta de exceção. “Lembre-se de um momento em que os objetivos que você definiu foram alcançados em parte, ou em que a gravidade do problema era um pouco menor. O que havia de diferente em você naquele momento? E o que você pode fazer para aumentar essas situações?”
Ideias para resolver o problema. “Responda: o que você pode fazer para resolver o seu problema na semana que vem?”
Avaliação das ideias. Utilidade (“Quão útil você acha que a ideia será?”, de 1 = totalmente inútil, a 5 = totalmente útil); realismo (“Qual a probabilidade de você realizar a ideia?”, de 1 = nunca, a 5 = certamente); novidade (“Quão diferente é essa ideia de tudo o que você já pensou?”, de 1 = completamente diferente, a 5 = exatamente igual). Não usadas na análise.
O conteúdo das respostas à PM foi avaliado quanto à concretude da imaginação por duas pessoas docentes universitárias (as que assinam em primeiro e segundo lugar) com doutorado, especialistas em TBFS, segundo os critérios da tabela 1.
Tabela 1. Critérios de avaliação da concretude da imaginação para a pergunta do milagre
0 = objetivo inadequado; 1 = o objetivo não é nada específico; 2 = não muito específico; 3 = razoavelmente específico; 4 = muito específico.
Em seguida, duas pessoas avaliaram 23 respostas à PM, 10% das 223 analisadas, e calcularam a taxa de concordância. A confiabilidade entre avaliações foi de 0,887, coincidência quase perfeita. A pessoa que assina em primeiro lugar avaliou então as respostas restantes. Esse valor serve de escore de avaliação terapêutica da concretude da imaginação para a PM, chamado terapeuta-PM-imagem.
O conteúdo das respostas de objetivo foi avaliado quanto à concretude e ao realismo pelas mesmas duas pessoas, segundo os critérios das tabelas 2 e 3.
Tabela 2. Critérios de avaliação da concretude do objetivo
0 = objetivo inadequado; 1 = nada específico; 2 = não muito específico; 3 = razoavelmente específico; 4 = muito específico.
Tabela 3. Critérios de avaliação do realismo do objetivo
0 = objetivo inadequado; 1 = nada realista; 2 = não muito realista; 3 = razoavelmente realista; 4 = muito realista.
As duas pessoas avaliaram 23 respostas de objetivo, 10% do total, e calcularam a concordância: 0,951 para a concretude e 0,933 para o realismo, quase perfeitas. A pessoa que assina em primeiro lugar avaliou então as respostas restantes. Esses valores servem de escores de avaliação terapêutica, chamados terapeuta-objetivo-concreto e terapeuta-objetivo-realismo.
O SPSS (versão 24.0) foi usado na análise. O alfa de Cronbach verificou a confiabilidade das escalas. Para as correlações, calculou-se o coeficiente de Pearson. Um método stepwise foi usado na regressão múltipla para identificar as variáveis que influenciam as variáveis consideradas importantes em TBFS. Todas as análises usaram teste bilateral, com limiar de p < 0,05.
O escore médio de cada escala foi calculado e usado como escore. Os alfas confirmaram a confiabilidade: construção de soluções 0,91, autoeficácia 0,88, orientação para soluções 0,88, análise causal 0,82, aceitação de sentido 0,89, ajuste positivo do pensamento 0,74; todas acima de 0,70. As estatísticas descritivas estão na tabela 4.
Tabela 4. Estatísticas descritivas das escalas (N = 223): M (DP)
Construção de soluções 3,27 (0,72); autoeficácia 2,45 (0,53); grau de resolução do problema 4,94 (2,17); nível ideal de vida 4,98 (2,04); estratégias de enfrentamento: orientação para soluções 3,48 (0,90), análise causal 3,40 (0,93), aceitação de sentido 3,27 (1,00), ajuste do pensamento 3,49 (0,92).
Os escores eu-PM-imagem, terapeuta-PM-imagem, eu-objetivo-concreto, terapeuta-objetivo-concreto, eu-objetivo-realismo e terapeuta-objetivo-realismo também foram usados na análise. As suas estatísticas descritivas estão na tabela 5.
Tabela 5. Estatísticas descritivas dos escores de avaliação (N = 223): M (DP)
Eu-PM-imagem 3,12 (0,80); eu-objetivo-concreto 2,72 (0,80); eu-objetivo-realismo 2,29 (0,78); terapeuta-PM-imagem 2,65 (1,00); terapeuta-objetivo-concreto 2,70 (0,86); terapeuta-objetivo-realismo 2,62 (0,84).
Testes t pareados examinaram as mudanças antes e depois da sessão de trabalho (tabela 6). Diferenças significativas foram obtidas em todas as variáveis, com escores mais altos depois do trabalho do que antes.
Tabela 6. Mudanças dos escores antes e depois da sessão de trabalho (N = 223): antes M (DP); depois M (DP); t
Construção de soluções 3,27 (0,72); 3,40 (0,82); −2,81**. Autoeficácia 2,45 (0,53); 2,57 (0,64); −3,31**. Grau de resolução do problema 4,94 (2,17); 5,33 (2,19); −4,13***. Nível ideal de vida 4,98 (2,04); 5,18 (2,14); −2,43*. Orientação para soluções 3,48 (0,90); 3,67 (0,92); −4,30***. Análise causal 3,40 (0,93); 3,54 (0,99); −3,15**. Aceitação de sentido 3,27 (1,00); 3,46 (1,00); −4,54***. Ajuste do pensamento 3,49 (0,92); 3,62 (0,96); −2,91**. * p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001.
Uma análise de correlação examinou a relação entre a autoavaliação e a avaliação terapêutica das respostas (tabela 7). Eu-PM-imagem correlaciona-se positiva e significativamente com eu-objetivo-concreto, terapeuta-PM-imagem, terapeuta-objetivo-concreto e terapeuta-objetivo-realismo. Eu-objetivo-concreto, com eu-objetivo-realismo, terapeuta-PM-imagem, terapeuta-objetivo-concreto e terapeuta-objetivo-realismo. Eu-objetivo-realismo, com terapeuta-objetivo-realismo. Terapeuta-PM-imagem, com terapeuta-objetivo-concreto e terapeuta-objetivo-realismo. Por fim, terapeuta-objetivo-concreto com terapeuta-objetivo-realismo.
Esses resultados mostram uma correlação entre as autoavaliações e avaliações terapêuticas para PM-imagem, objetivo-concreto e objetivo-realismo. Mas nenhuma é forte, o que confirma que as duas avaliações diferem em certa medida. Além disso, se a autoavaliação indica que uma PM-imagem mais alta está associada a um eu-objetivo-concreto mais alto, nenhuma associação com eu-objetivo-realismo aparece. Já do lado da terapia, quanto mais alta a PM-imagem, mais altos terapeuta-objetivo-concreto e terapeuta-objetivo-realismo. Isso sugere que, quanto maior a concretude da imaginação para a PM do ponto de vista terapêutico, maiores a concretude e o realismo dos objetivos.
Tabela 7. Relação entre as autoavaliações e avaliações terapêuticas (N = 223): correlações
1 eu-PM-imagem — 2 eu-objetivo-concreto 0,17*; 3 eu-objetivo-realismo −0,01; 4 terapeuta-PM-imagem 0,14*; 5 terapeuta-objetivo-concreto 0,14*; 6 terapeuta-objetivo-realismo 0,18**.
2 eu-objetivo-concreto — 3: 0,30***; 4: 0,15*; 5: 0,22***; 6: 0,28***. 3 eu-objetivo-realismo — 4: 0,08; 5: 0,13; 6: 0,19**. 4 terapeuta-PM-imagem — 5: 0,48***; 6: 0,44***. 5 terapeuta-objetivo-concreto — 6: 0,75***. * p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001.
Para examinar esse impacto, escores de mudança foram obtidos subtraindo os escores pré dos escores pós para construção de soluções, autoeficácia, grau de resolução do problema, nível ideal de vida e estratégias de enfrentamento. Um escore de mudança positivo elevado indica que o escore aumentou após o trabalho. Uma regressão múltipla foi conduzida com as autoavaliações e avaliações terapêuticas como variáveis independentes e os escores de mudança como variáveis dependentes (tabelas 8 e 9), pelo método stepwise, conforme o objetivo do estudo.
Tabela 8. Impacto das avaliações sobre os aspectos psicológicos (N = 223): coeficientes padronizados para construção de soluções; autoeficácia; grau de resolução; nível ideal de vida
Eu-PM-imagem: 0,08; 0,15*; 0,00; −0,07. Eu-objetivo-concreto: 0,00; 0,06; 0,04; −0,03. Eu-objetivo-realismo: 0,00; 0,02; 0,16*; −0,09. Terapeuta-PM-imagem: 0,03; 0,08; 0,09; 0,14. Terapeuta-objetivo-concreto: 0,14*; 0,06; 0,07; −0,04. Terapeuta-objetivo-realismo: 0,08; −0,01; 0,04; −0,01. R²: 0,01; 0,02; 0,02; 0,00. Nota: para as variáveis excluídas não significativas, indica-se o coeficiente na entrada; para os modelos sem variável significativa, o R² com todas as variáveis forçadas. * p < 0,05.
Terapeuta-objetivo-concreto tem impacto positivo na construção de soluções: quanto mais específicos os objetivos do ponto de vista terapêutico, mais a construção de soluções aumenta. Eu-PM-imagem tem impacto positivo na autoeficácia: quanto mais a imaginação para a pergunta do milagre é percebida como concreta subjetivamente, mais a autoeficácia aumenta. Nenhuma variável independente tem efeito significativo no nível ideal de vida.
Quanto às estratégias de enfrentamento, terapeuta-objetivo-concreto tem impacto positivo na orientação para soluções: quem define objetivos muito específicos do ponto de vista terapêutico tem mais orientação para soluções. Terapeuta-objetivo-realismo tem impacto positivo na análise causal: quem define objetivos realistas do ponto de vista terapêutico tem nível mais alto de análise causal. Nenhuma variável tem efeito significativo nos outros subfatores.
Tabela 9. Impacto das avaliações sobre as estratégias de enfrentamento (N = 223): orientação para soluções; análise causal; aceitação de sentido; ajuste do pensamento
Eu-PM-imagem: 0,07; −0,01; −0,02; −0,02. Eu-objetivo-concreto: −0,05; −0,07; −0,02; 0,00. Eu-objetivo-realismo: −0,11; −0,02; −0,08; −0,09. Terapeuta-PM-imagem: 0,04; 0,02; 0,02; −0,01. Terapeuta-objetivo-concreto: 0,21**; 0,00; 0,01; 0,10. Terapeuta-objetivo-realismo: 0,02; 0,15*; 0,12; −0,02. R²: 0,04; 0,02; 0,00; −0,01. * p < 0,05; ** p < 0,01.
Os resultados mostram uma correlação entre as autoavaliações e avaliações terapêuticas, tanto para a imaginação da PM quanto para a concretude e o realismo do objetivo. Mas nenhuma é forte, o que confirma que as duas avaliações diferem em certa medida. De Jong e Berg (2013) apontam que os terapeutas precisam organizar e destacar a informação útil para definir objetivos e usar eficazmente os recursos. Como a avaliação terapêutica pode olhar os objetivos de um ponto de vista diferente do da pessoa, é importante dar retorno para tornar os objetivos mais concretos e realistas, e encorajar a pessoa a adquirir novas perspectivas.
Os resultados indicam que a concretude do objetivo avaliada do lado da terapia tem impacto positivo na construção de soluções. Ao definir objetivos julgados muito concretos do lado da terapia, a pessoa reforça a sua construção de soluções. Ela tem também impacto positivo na orientação para soluções. Orientação para soluções e construção de soluções são conceitos semelhantes; mas a construção de soluções é própria da prática TBFS, enquanto a orientação para soluções é apresentada como estratégia de enfrentamento, que se concentra não em “qual é o problema”, mas em “como resolvê-lo”. Aumentar a concretude do objetivo avaliada do lado da terapia deve, portanto, aumentar a solução proativa e as tentativas de enfrentamento. Emmons (1992) mostrou que objetivos abstratos estão associados a sofrimento psicológico; os nossos resultados o confirmam e sugerem que definir objetivos mais concretos e engajar-se no trabalho TBFS, como as perguntas de exceção, pode promover uma atitude mais positiva diante dos problemas e da construção de soluções.
A autoavaliação da imaginação da PM tem impacto positivo na autoeficácia. Shilts et al. (1997) relatam um sentimento mais esperançoso após responder à PM; os nossos resultados vão nesse sentido. Para a autoeficácia, é crucial também ter a sensação de ter imaginado o suficiente, do ponto de vista da pessoa e não da terapia. É, portanto, importante verificar com a pessoa a sua imaginação para a PM, em vez de julgá-la do lado da terapia. Deve-se também refletir em detalhe sobre como fazer a PM para que a pessoa sinta mais imaginação. Por exemplo, De Jong e Berg (2013) mencionam, entre as precauções, “fazer várias pausas, dando à pessoa tempo para compreender as perguntas e ver diferentes aspectos da sua experiência”. Apontam também que as perguntas devem continuar a ser feitas de forma a permitir à pessoa expressar uma imagem satisfatória do futuro, em vez de terminar apenas na PM (De Jong & Berg, 2013). Os nossos resultados sugerem que a satisfação da pessoa é essencial à autoeficácia, e que é vital trabalhar com ela por perguntas e respostas para que possa imaginar plenamente a solução.
A autoavaliação do “realismo do objetivo” tem impacto positivo no grau de resolução do problema. De Jong e Berg (2013) indicam que questionar a viabilidade, para as pessoas que apresentam objetivos irrealistas, lhes permite rever as suas ideias. A avaliação, pela pessoa, do realismo dos seus objetivos poderia, portanto, mudar a sua percepção do grau de resolução. Na prática, os terapeutas escolhem uma forma de responder avaliando o realismo para tornar os objetivos realistas. Mas a prática eficaz exige que as pessoas sintam que os seus objetivos são alcançáveis graças à abordagem terapêutica, aumentando o grau de resolução. Por outro lado, o realismo avaliado do lado da terapia tem impacto positivo na análise causal: um realismo maior, julgado do lado da terapia, facilita a análise pela pessoa das causas do problema. Objetivos viáveis devem, portanto, ser definidos em colaboração, dos dois pontos de vista. Locke e Latham (2013) mostraram que, na indústria, objetivos específicos e difíceis levam a melhor desempenho. Mas a dificuldade pode ter impacto negativo no moral e na eficácia quando a tarefa é complexa ou julgada inalcançável. Os problemas apresentados em TBFS são mais complexos do que os das pesquisas industriais. De fato, este estudo mostra que, quanto maior o realismo do objetivo, melhor o impacto. Pode-se dizer, portanto, que definir objetivos muito realistas em TBFS pode melhorar a situação problemática.
Por fim, nenhuma avaliação mostrou efeito no nível ideal de vida, na aceitação de sentido e no ajuste do pensamento. A natureza imaginativa da PM e o caráter dos objetivos não devem ter efeito nas percepções da vida, nem nas estratégias de enfrentamento por transformação cognitiva. Por outro lado, a comparação dos escores pré e pós revelou mudanças significativas em todas as variáveis. Seja qual for o conteúdo das respostas à PM e à clarificação do objetivo, implementar o trabalho TBFS deve, portanto, aumentar o nível ideal de vida, a aceitação de sentido e o ajuste do pensamento. Este estudo examinou os efeitos da avaliação das respostas, mas os efeitos da implementação do trabalho TBFS deverão ser comparados a um grupo controle, e uma pesquisa mais detalhada é necessária. Além disso, os resultados se limitam a impactos de curto prazo; uma pesquisa longitudinal de um mês será essencial para confirmar o impacto de longo prazo do objetivo.
Como a amostra deste estudo é apenas japonesa, é necessário examinar o seu contexto cultural. Kunio Yanagida (1875-1962), folclorista japonês, apontou que no Japão a palavra “multidão” (a maré da opinião pública) está em voga há muito tempo, e que, quando surge uma nova tendência, a cultura japonesa tenta segui-la sem verificar o seu valor. E à medida que os intercâmbios com o exterior floresceram, essa tendência se intensificou, e as pessoas passaram a aceitar sem crítica as opiniões de algumas pessoas superiores, sem pensar por si mesmas (Yanagida, 2015). A tendência japonesa a aceitar sem crítica as correntes ao redor facilitou muito a aceitação da cultura ocidental. Como resultado, o espírito do utilitarismo e do capitalismo ocidentais foi adotado no Japão. Sobre a difusão do utilitarismo no Japão, Daisetsu Suzuki (1870-1966), estudioso japonês do budismo, disse: “Há momentos em que pensamos usar máquinas, mas na verdade somos usados por máquinas. Quando tentamos produzir resultados com eficiência, fixamo-nos nesse propósito, e não podemos fazer o que realmente queremos fazer como queremos fazê-lo, pura e livremente, como seres humanos, para além dos interesses calculistas. Não poderão exercer a sua verdadeira independência e criatividade, um modo de vida que emana de um ponto de vista humano profundo” (Takemura, 2018). Kunio Yanagida aponta ainda que “os japoneses formaram-se originalmente com base nas sanções trazidas por estranhos numa pequena sociedade”. Essa tendência é mais pronunciada no mundo atual das redes sociais, em que muitos vivem referindo-se aos padrões de valor dos outros e concentrando-se no chamado “que dirão”, em vez de realizar o que realmente querem fazer. É precisamente nesse Japão que é importante que as pessoas pensem no que querem ser segundo os seus próprios padrões de valor e tenham objetivos claros graças à TBFS. De fato, este estudo mostrou que a abordagem TBFS é eficaz mesmo no Japão. Em particular, o fato de a imaginação da PM autoavaliada ter efeito positivo na autoeficácia sugere que é útil, para pessoas japonesas preocupadas com o olhar do mundo, pensar no que querem ser segundo os seus próprios valores. É preciso, no entanto, cautela quanto à influência cultural desses resultados, pois o estudo abrange só pessoas japonesas e não permite comparação entre culturas. Estudar os efeitos das avaliações da PM e do objetivo em pessoas de diversas origens culturais, e examinar as diferenças culturais, é uma tarefa futura.
Em resumo, os resultados indicam que a avaliação terapêutica da concretude dos objetivos, a autoavaliação e a avaliação terapêutica do realismo dos objetivos, e a autoavaliação da imaginação da PM estão associadas a bons resultados. Embora se deva notar que este estudo abrangeu só uma amostra japonesa e em formato de ficha, três implicações clínicas podem ser tiradas. Primeiro, quando a PM é feita, deve-se trabalhar para aumentar a imaginação da imagem da solução, o que aumentará a confiança da pessoa na resolução. Em particular, é importante verificar com a pessoa o seu grau de imaginação da PM, em vez de o julgar só do ponto de vista terapêutico, pois o sentimento da pessoa de ter imaginado o suficiente leva a bons resultados. Segundo, quando a terapia trabalha para aumentar a concretude dos objetivos da pessoa, a construção de soluções deve ser facilitada. Com base nos nossos resultados, é importante tentar clarificar o objetivo até que ele pareça concreto do lado da terapia, pois bons resultados foram obtidos quando os terapeutas o avaliaram como concreto. Terceiro, o grau de resolução e a análise causal devem aumentar quando a terapia trabalha para aumentar o realismo dos objetivos da pessoa. Para aumentar o grau de resolução, em particular, é importante que a terapia preste atenção ao realismo do objetivo tal como a pessoa o avalia, e trabalhe para aumentá-lo. Como se viu, o impacto dos pontos de vista terapêutico e pessoal sobre a avaliação da PM e do objetivo é diverso, e é importante usar eficazmente ambos, em vez de se ater a um só. Pode-se concluir, portanto, que é importante conduzir a terapia num processo colaborativo, usando a avaliação da PM e do objetivo dos dois pontos de vista.
Por fim, duas limitações. Primeiro, do ponto de vista terapêutico, a equipe de pesquisa avaliou a imaginação da PM, a concretude e o realismo do objetivo a partir do conteúdo das respostas nas fichas. Isso pode diferir da avaliação de respostas dadas oralmente em terapia real; um estudo mais detalhado é necessário antes de aplicar estes resultados à terapia. Além disso, como a taxa de concordância das duas avaliações foi alta, julgamos a validade da avaliação suficiente. Mas obter avaliações de mais terapeutas, e conduzir pesquisas baseadas em avaliações altamente generalizadas, partilhadas por muitos terapeutas, é tarefa futura. Será preciso também examinar se o ponto de vista de um terceiro ou o da terapia é necessário, comparando a avaliação terapêutica com a de pessoas sem expertise em psicologia clínica. Segundo, os resultados se limitam a efeitos de curto prazo; embora os efeitos imediatos do trabalho TBFS sejam evidentes, os efeitos de mais longo prazo restam por identificar. Por exemplo, as pessoas capazes de definir objetivos concretos e realistas talvez consigam alcançá-los, mas isso levará tempo. Uma pesquisa longitudinal, de um mês ou seis meses, é portanto necessária.
Agradecimentos. Este estudo foi apoiado por uma bolsa de pesquisa da Division for Interdisciplinary Advanced Research and Education da Universidade de Tohoku. Todas as pessoas que contribuíram, inclusive na pesquisa, recebem um caloroso agradecimento.
Complexe Systémique: o que reter
Um estudo em ficha, sem terapeuta, cuja lição vale, no entanto, para a sessão: terapeuta e pessoa atendida não avaliam a mesma coisa, e são dois preditores diferentes. A pessoa que sente ter “imaginado o bastante” ganha confiança; o objetivo julgado concreto do lado da terapia faz avançar a construção de soluções. Daí duas instruções simples: perguntar à pessoa se viu bem o seu milagre, e não largar a concretização enquanto não se vê, com os próprios olhos, a ação. A página sobre o Japão, Yanagida e Suzuki, lembra que a pergunta do milagre pede que se pense com a própria cabeça, o que não é culturalmente neutro. Para ler com a técnica dos círculos, em que um objetivo só é escrito depois de reformulado em positivo, e com a TBFS em Hong Kong, outra leitura cultural da pergunta do milagre.
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Contatos
Gen Takagi: Tohoku Fukushi University, Sendai · Taku Hiraizumi: Miyagi University, Sendai · Kazuma Sakamoto: Tohoku University, Sendai · Miki Hagidai: Shibata Gakuen University, Hirosaki (m.hagidai@gmail.com)
Tradução não oficial para o português de Impact of Self and Therapists’ Evaluation of Responses to Miracle Question and Goal: Survey of Japanese Undergraduate and Graduate Students, de Gen Takagi, Taku Hiraizumi, Kazuma Sakamoto e Miki Hagidai, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n.º 2 (2021), artigo 3, p. 11-27, doi: 10.59874/001c.75043, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, com a figura descrita e as tabelas em fichas. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Impact of Self and Therapists’ Evaluation of Responses to Miracle Question and Goal: Survey of Japanese Undergraduate and Graduate Students”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Takagi, G., Hiraizumi, T., Sakamoto, K., & Hagidai, M. (2021). O impacto da avaliação, por si mesmo e pelo terapeuta, das respostas à pergunta do milagre e ao objetivo: inquérito com estudantes japoneses (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-impacto-da-avaliacao-por-si-mesmo-e-pelo-terapeuta-das-respostas-a-pergunta-do-milagre-e-ao-objetivo (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 2 (2021), article 3, p. 11-27; republicada em 2021 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75043)
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