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Revista Brasileira de Enfermagem · Migração

Redes de apoio social e etapa do ciclo de vida de famílias imigrantes venezuelanas

Que apoios restam a uma família venezuelana levada de avião de Roraima a Florianópolis? Uma equipe de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina construiu, com quatro famílias, seus genogramas e ecomapas. O núcleo familiar sustenta quase tudo, com as avós na linha de frente; a escola, as igrejas e as ONGs vêm depois, e os serviços de saúde só são procurados na urgência.

Autores Marcela Possato Correa da Rosa, Gisele Cristina Manfrini, Janaína Medeiros de Souza, Ana Cristina Oliveira da Silva Hoffmann, Rosane Gonçalves Nitschke e Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann (Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil); Jaime Alonso Caravaca-Morera (Universidad de Costa Rica, San José, Costa Rica)Primeira publicação Revista Brasileira de Enfermagem, 8 de dezembro de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Redes de apoio social e etapa do ciclo de vida de famílias imigrantes venezuelanas, de Marcela Possato Correa da Rosa, Gisele Cristina Manfrini, Janaína Medeiros de Souza, Ana Cristina Oliveira da Silva Hoffmann, Rosane Gonçalves Nitschke, Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann e Jaime Alonso Caravaca-Morera, publicado na Revista Brasileira de Enfermagem (SciELO) (2023), doi: 10.1590/0034-7167-2022-0790, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A Figura 1 (“Chart 1” no original em inglês) é reproduzida com os rótulos em inglês; a declaração de financiamento foi incluída nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

A migração forçada, por ser uma etapa não planejada do ciclo de vida familiar, modifica papéis e tarefas nas famílias.

Marcela Possato Correa da Rosa, Gisele Cristina Manfrini, Janaína Medeiros de Souza, Ana Cristina Oliveira da Silva Hoffmann, Rosane Gonçalves Nitschke, Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann e Jaime Alonso Caravaca-Morera

Resumo

Objetivo. Compreender as estruturas das redes sociais de famílias imigrantes venezuelanas interiorizadas e a etapa do ciclo de vida em que se encontram.

Métodos. Estudo qualitativo de casos múltiplos com famílias do Programa de Interiorização residentes na Grande Florianópolis, Brasil. A captação ocorreu por meio das redes sociais e de informantes-chave. Para a coleta de dados, foram usadas a técnica de photovoice e entrevistas semiestruturadas, categorizadas com o auxílio do software Atlas.ti. Foram elaborados genogramas e ecomapas.

Resultados. Das 4 famílias entrevistadas, totalizando 7 membros, com filhos pequenos, a família nuclear foi identificada como a principal rede de apoio informal. As redes formais incluíram escolas, igrejas e a sociedade civil.

Conclusão. As famílias se apoiam fortemente em sua estrutura nuclear, e as instituições formais atuam como recursos secundários. A etapa do ciclo de vida predominante é a das famílias com filhos pequenos. São necessários mais esforços para fortalecer as redes de apoio formais.

Descritores: análise de rede social, estágios do ciclo de vida, enfermagem familiar, determinantes sociais da saúde, deslocamento forçado

Introdução

Segundo o mais recente relatório anual da Agência da ONU para Refugiados, Tendências Globais (2022), 100 milhões de pessoas foram deslocadas à força no mundo. Esses dados ainda não contabilizavam as pessoas deslocadas do Afeganistão após a retirada dos Estados Unidos nem da Ucrânia com o início da guerra(1).

Na América Latina, devido à crise política, econômica e humanitária, a migração de venezuelanos e venezuelanas soma um total de 4 milhões de pessoas e é considerada o maior êxodo da história da região(2).

No Brasil, sabe-se que a população venezuelana tem o estado de Roraima como principal porta de entrada(3, 4). Depois de cruzar a fronteira, muitas pessoas recém-chegadas não encontram rede de apoio em solo brasileiro, situação que evidencia o despreparo para receber o grande contingente de pessoas que chega em curto espaço de tempo(3, 4, 5). Desde 2018, o governo brasileiro e agências internacionais iniciaram a Operação Acolhida, com o objetivo de promover o ordenamento da fronteira, o abrigamento e a interiorização(6).

O Programa de Interiorização é voltado a imigrantes que, de forma voluntária, desejam se deslocar do estado de Roraima para outros estados brasileiros. Para isso, são fornecidas passagens aéreas às pessoas e às suas famílias que se enquadram em uma das modalidades do programa: institucional (de abrigo para abrigo), reunião social, reunificação familiar e vaga de emprego sinalizada(6). Desde 2018, cerca de 96 mil pessoas imigrantes foram interiorizadas, 88% das quais viajaram em grupos familiares, sendo Santa Catarina o estado que mais recebeu pessoas venezuelanas interiorizadas(7).

A presença de novos fluxos migratórios no Brasil levantou questões de direitos humanos, e o acesso à saúde e a inserção dessa população na sociedade e no mercado de trabalho foram apontados como problemas a serem estudados(8). O processo migratório envolve diferentes riscos à saúde das pessoas e, no contexto familiar, a migração pode ser considerada um processo não normativo (inesperado no ciclo de vida), permeado por situações de estresse, violência ou perseguição, em que a pessoa ou o grupo migra de forma não planejada(9, 10).

Segundo Sharon Denham, a vida e a saúde das famílias são afetadas por relações dinâmicas entre diversos sistemas, que vão do sistema familiar e da vizinhança (microssistema) ao sistema cultural e político (macrossistema)(11).

Nessa perspectiva, a rede de apoio social pode ser definida como a soma das relações que uma pessoa percebe como significativas, e constitui um elemento importante de sua experiência de identidade, de bem-estar, de hábitos de cuidado, de saúde e de capacidade de adaptação em uma crise(12).

Na enfermagem, a rede de apoio social é um elemento-chave da avaliação no cuidado, que busca compreender o contexto de vida e conhecer os recursos a serem mobilizados nos momentos do ciclo de vida e do processo saúde-doença das pessoas e das famílias(13).

Objetivo

Compreender as estruturas das redes sociais de famílias imigrantes venezuelanas que foram interiorizadas e a etapa do ciclo de vida em que se encontram.

Métodos

Aspectos éticos

O estudo foi conduzido de acordo com as diretrizes éticas nacionais e internacionais e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina, cujo parecer acompanha a submissão do artigo. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi obtido por escrito de todas as pessoas envolvidas no estudo, em versão traduzida para o espanhol.

As pessoas participantes receberam códigos de acordo com o número de identificação de cada família, F1/F2/F3/F4, e dos membros que participaram das entrevistas: (G) avó, (D) filha, (M) mãe, (P) pai. (AF1) = tia da família 1.

Referencial teórico-metodológico

Neste estudo, foi utilizado o referencial teórico das Rotinas e Rituais de Saúde Familiar (Family Health Routines and Rituals) de Sharon Denham. Segundo a autora, as redes de apoio social podem ser divididas em redes informais (família, amizades, vizinhança) e redes formais (serviços de saúde, assistência social, educação e igrejas)(11).

Tipo de estudo

Trata-se de um estudo qualitativo, com delineamento de estudo de casos múltiplos e análise narrativa, que usou o instrumento Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research (COREQ) como guia para a descrição dos procedimentos metodológicos.

Cenário do estudo

Os locais do estudo foram as cidades da Grande Florianópolis: Biguaçu, Florianópolis e São José, no estado de Santa Catarina. A escolha do local se deu porque o estado é a unidade federativa com o maior número de pessoas interiorizadas desde o início da operação(7).

Amostra

A população do estudo foi constituída por núcleos imigrantes de nacionalidade venezuelana, maiores de 18 anos, que participaram do Programa de Interiorização da Operação Acolhida. Foram excluídas do estudo as famílias venezuelanas que não participaram da Estratégia de Interiorização.

Embora o fluxo migratório venezuelano seja considerado um fluxo migratório forçado, pelas condições de crise em que ocorre, ele é referido como um fluxo misto, no qual há pessoas solicitantes de refúgio (com pedido ainda pendente), pessoas refugiadas reconhecidas, residentes temporárias e permanentes, entre outras. Por isso, a equipe de pesquisa optou por não considerar a condição migratória das pessoas participantes(1).

A seleção das pessoas participantes ocorreu por busca ativa nas redes sociais, em perfis e comunidades destinados a reunir a comunidade venezuelana, e pela divulgação de convites on-line, também pelas redes sociais.

Coleta e organização dos dados

A partir de três pessoas informantes-chave iniciais, encontradas nas redes sociais, foram indicadas outras famílias que participaram do Processo de Interiorização. Das 12 famílias indicadas por essas pessoas, cinco aceitaram inicialmente participar da pesquisa, mas uma desistiu por falta de tempo para as entrevistas.

A coleta de dados ocorreu entre abril e novembro de 2021, nas casas das famílias. Foram utilizadas as técnicas de photovoice(14) e de entrevista semiestruturada, divididas em dois momentos: no primeiro, a coleta de dados por meio de imagens (fotos); no segundo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas nas casas de cada família.

Foram observados cuidados de precaução devido ao período pandêmico, com conversas em ambientes abertos e ventilados, uso de máscaras e álcool em gel. Para os registros fotográficos, a atividade foi orientada pela questão norteadora: “Que rotinas da sua família representam o cuidado com a sua saúde?” As entrevistas, com duração de 30 a 50 minutos, foram gravadas em áudio e depois transcritas e traduzidas para o espanhol, para priorizar o rigor na validação dos dados com as pessoas migrantes. Após a coleta dos dados dos genogramas e ecomapas de cada família, os diagramas foram construídos no software GenoPro.

Análise dos dados

A análise dos dados seguiu as etapas da Análise Temática. O processo de organização e categorização dos dados foi auxiliado pelo software Atlas.ti. As categorias foram descritas e discutidas à luz da literatura. A partir dos dados analisados, distinguiram-se quatro categorias.

Resultados

Composição familiar e fase do ciclo familiar

A partir dos dados sobre a estrutura familiar de quatro núcleos imigrantes venezuelanos, compostos por seis pessoas adultas, foram identificados aspectos relacionados às redes de apoio, à composição familiar, à escolaridade e à etapa de desenvolvimento. As unidades familiares eram formadas por três casais heterossexuais; em um deles, a esposa morava em Santa Catarina, enquanto o marido ainda residia em Manaus. Um dos núcleos era chefiado por uma mulher. Foram entrevistados cinco mulheres, com idades entre 25 e 50 anos, e um homem de 32 anos. Todas as famílias participantes tinham filhos com idades entre 0 e 11 anos, totalizando 7 crianças.

O tempo total de migração foi em média de cinco anos desde a chegada ao Brasil, e o tempo até chegar a Santa Catarina variou de 1 mês a 2 anos. Essa duração considera apenas os membros da família que chegaram pelo processo de interiorização, e não as pessoas que vieram por conta própria, como no caso da mãe da família 1 (MF1).

Quanto à escolaridade: na primeira família, a tia tinha ensino superior e pós-graduação; a mãe tinha ensino superior; e a avó tinha ensino médio completo. Na segunda família, ambos os pais tinham ensino superior incompleto. Na terceira família, ambos os pais tinham ensino médio completo, e na quarta família a mãe fez curso técnico. Nenhuma das pessoas entrevistadas trabalhava em sua área de formação, mesmo tendo experiência. Em todos os casos, as pessoas participantes expressaram insatisfação por não trabalharem em suas áreas.

Na Figura 1, são apresentados os genogramas e ecomapas construídos com as informações das quatro famílias venezuelanas. Esses diagramas fornecem dados que caracterizam os núcleos quanto à fase de desenvolvimento familiar em que se encontravam no momento da migração. A fase do ciclo de vida das famílias migrantes venezuelanas é marcada principalmente pela presença de filhos pequenos. Essa caracterização evidencia as particularidades do processo migratório com crianças e suas demandas de cuidado, bem como a presença de uma rede de apoio informal, muitas vezes representada pelas avós.

Genogramas e ecomapas das quatro famílias venezuelanas (F1 a F4): à esquerda, os genogramas de três gerações, com os núcleos circundados conforme o percurso migratório; à direita, os ecomapas que ligam cada família à família extensa, às avós maternas, ao trabalho, às redes de saúde, às amizades e à comunidade (igreja, escola, ONGs); legenda dos símbolos e dos tipos de relação
Figura 1. Genogramas e ecomapas das famílias participantes do estudo. SC = Santa Catarina, Brasil (esquema original em inglês)

Outro ponto que se destaca, ilustrado nos genogramas, é a identificação dos núcleos migrantes das famílias. Os fluxos migratórios variam, como indicam as cores da legenda: núcleos que residem atualmente em Santa Catarina em razão do processo de interiorização, núcleos que estão em Santa Catarina mas não foram interiorizados e núcleos que vivem no Brasil fora de Santa Catarina.

Nesse contexto, fica claro que as migrações são transições que ocorrem em diferentes núcleos familiares ao longo do ciclo de vida.

Quanto à categoria temática das redes de apoio das pessoas migrantes, observa-se, a partir dos ecomapas e das entrevistas, a identificação de quatro subcategorias:

  1. Rede Familiar;
  2. Rede de Amizades/Conhecidos;
  3. Rede Comunitária (trabalho/organizações não governamentais/igrejas/escolas);
  4. Redes de Saúde.

Entre as famílias entrevistadas, a principal rede de apoio é estabelecida pela conexão direta entre os próprios membros da família, tenha a migração da Venezuela para o Brasil sido simultânea ou não. Essa rede oferece segurança emocional durante o percurso migratório e nos períodos de adaptação após a chegada ao destino. O apoio da rede familiar não se dirige apenas ao núcleo imediato, mas também à família extensa que vive em outro estado ou país. No núcleo familiar migrante, a avó materna tem papel fundamental nas atividades domésticas cotidianas, na educação e no cuidado direto das crianças, e é também respeitada por transmitir valores e práticas culturais de saúde e manter os rituais religiosos.

A mãe é responsável por tudo o que diz respeito às crianças: fazer o café da manhã, o almoço, dar banho ou ajudar no banho (elas tomam banho sozinhas, mas ainda precisam de ajuda). [...] E ela tem que fazer o almoço, sentar com elas [a criança]. Então, em casa, quem sente mais estresse é principalmente a mãe. (avó da criança, AF1)

Em algumas experiências migratórias de avós maternas, cuja função familiar significativa se reflete na adaptação à nova etapa de vida em outro país, surgem relatos de um vazio na integração e na socialização das pessoas idosas com a comunidade. Coincidentemente, durante o período da pesquisa, em duas famílias as avós maternas optaram por voltar à Venezuela; em outra, houve o relato de uma avó que também voltou ao país de origem:

Uma das coisas que minha mãe deseja é ir embora, porque quer voltar para a Venezuela. Ela diz: “Na Venezuela eu saía, trabalhava, encontrava o que fazer. Mas aqui não conheço ninguém, não entendo, não falo a língua. Quero sair, mas não posso, porque não conheço nada.” (MF3)

A rede familiar “extensa” oferece um apoio menos recorrente, mas seus membros parecem ter papel crucial na ajuda financeira para a continuidade da transição dos núcleos migrantes:

A tia dele, que morava aqui, nos disse que tinha trabalho e que a gente ia ganhar, não lembro, talvez 2.000 reais por mês, lá em 2016. [...] Então a gente disse: vamos para o Brasil e daqui a seis meses voltamos. (MF4)

A coesão do casal aparece como fator de apoio significativo no núcleo familiar durante o percurso migratório. Em uma das famílias, as adversidades encontradas fortaleceram a relação conjugal:

Sabe aquele parceiro que você tem, que passou por muitas dificuldades com você, e mesmo assim a gente ficou ainda mais próximo? E aqui estamos, né? (MF2)

Meu marido é quem nos traz paz e segurança. A gente se sente tranquila e em paz com ele por perto. (MF4)

Por outro lado, os reveses no processo migratório sinalizam frustração, como no caso da família F1, monoparental, em que as duas filhas adultas passaram por separações conjugais. Nesse cenário, a separação afeta a rede de apoio para o cuidado das crianças, exigindo que elas desempenhem sozinhas os papéis e as tarefas familiares:

Minha filha é uma criança muito alegre, mesmo sentindo muita falta do pai. Ele está presente na vida deles, só por mensagens e áudios. Mas não financeiramente. (AF1)

Nesse contexto monoparental, observa-se solidariedade entre as irmãs adultas no apoio financeiro, no cuidado das crianças e no sustento da avó. A irmã mais velha, chefe da família, iniciou a migração sozinha e foi responsável por trazer depois os demais membros da família: a irmã mais nova, a avó, os filhos da irmã mais velha e uma sobrinha, filha de um irmão que mora no Equador:

Não posso simplesmente abandonar as crianças assim. Afinal, elas me chamam de “mãe”. Recebo delas amor e carinho como mãe, então me sinto responsável. (AF1)

Enquanto a rede familiar surge como o principal apoio psicossocial, a rede de amizades e conhecidos está intrinsecamente ligada ao projeto migratório. As famílias estabelecem contato com pessoas já estabelecidas e, com base em comentários sobre as características dos estados e municípios, decidem migrar. Ao chegar, são acolhidas e auxiliadas por essas redes:

Eu não tinha decidido vir para Santa Catarina, mas aí conheci uma amiga. Ela me mostrou fotos, e as fotos também transmitiam que aqui é muito melhor, muito tranquilo, seguro, e assim fui me interessando, até que decidi vir. (MF4)

Embora essa rede se mostre fundamental no processo migratório, algumas situações de desamparo geram vulnerabilidade, sobretudo na chegada ao destino. Nesse momento podem ocorrer desentendimentos entre pessoas migrantes que se conhecem, ou mesmo frustrações quando as expectativas não se cumprem no local escolhido:

O rapaz que ia me receber aqui me disse: “Você tem que chegar até sexta, porque eu vou para a Venezuela. Se não chegar até sexta, não vai ter onde dormir, porque quero deixar você com meu filho aqui.” Eu disse: “Tá bom.” Mas atrasou até sábado [...] e o filho dele nunca apareceu. Escrevi, escrevi e escrevi, mas ele nunca apareceu. Chegamos no sábado e ele apareceu na terça. (MF2)

A reestruturação da vida em Santa Catarina exige buscar contatos pessoais locais, acessar equipamentos sociais e estabelecer uma rede comunitária. Essa rede é formada principalmente pelo apoio recebido no trabalho, em igrejas, escolas e organizações não governamentais (ONGs). As ONGs oferecem ajuda vital nos primeiros dias após a chegada das famílias, ajudando a dar forma a um senso concreto de fixação no local. Essa ajuda pode vir na forma de doação de móveis, aluguel de moradia, informações sobre vagas de emprego ou apoio geral:

Então a pessoa que conduzia o culto perguntou: “Quem aqui tem família?” Muita gente disse: “Eu, eu.” Eu chorei, dizendo que não tinha ninguém. Estava muito frio. Então essa pessoa disse: “Vou pagar hotel para 3 pessoas, mas amanhã ao meio-dia vocês têm que sair.” (MF2)

Para as crianças, os pais acreditam que a rede mais significativa para promover a integração é o sistema escolar. O papel do corpo docente e dos colegas na integração à nova cultura pode amenizar as dificuldades durante o processo migratório, sobretudo quando as famílias transitam entre vários lugares ou cidades:

Sabe, ela estuda numa escola e alguém do corpo docente de lá ajuda com o transporte. Essa pessoa a deixa aqui e demora um pouco mais para ir embora, porque ela tem que esperar [a pessoa docente]. (AF1)

No entanto, foram relatados casos de xenofobia, inclusive na escola, como contou uma das famílias:

A gente ficou com pena dela, porque no Dia dos Povos Indígenas deram parabéns a ela. Disseram: “Parabéns!”, e ela respondeu: “Hã? Mas não é meu aniversário.” Disseram: “Não, mas é o Dia dos Povos Indígenas.” (AF1)

As famílias venezuelanas acessam os serviços de saúde de múltiplas formas, muitas vezes motivadas por necessidades específicas, como pré-natal, doenças ou emergências que exigem atendimento médico. Seu vínculo com as unidades de saúde tende a ser frágil. A principal porta de entrada nos serviços públicos costuma ser a Unidade de Pronto Atendimento ou os setores de urgência e emergência dos hospitais. Durante a pandemia, todas as famílias relataram que pelo menos um membro tinha contraído o coronavírus:

Acho que já te contei que a gente passou pela COVID. Todo mundo pegou, e eu fiquei internada. Cheguei a ir para a UTI, mas minha mãe não quis ir para o hospital. (AF1)

Algumas pessoas, ao contrair a COVID-19, optaram por não procurar atendimento médico, seja por medo da internação e da consequente separação da família, seja por possíveis barreiras linguísticas. A língua se destaca como obstáculo no acesso aos serviços de saúde, mesmo em diferentes circunstâncias de atendimento. Ainda assim, as pessoas entrevistadas enfatizam que a experiência geral de acesso aos serviços de saúde muitas vezes é marcada pelo acolhimento caloroso e pela competência profissional. No entanto, conseguir chegar ao serviço, sobretudo por causa dos compromissos de trabalho, pode ser um desafio:

Eu achava que toda pessoa que ia para o hospital tinha que ir para a UTI, então eu pensava: “E as crianças?” Sabe? Eu estava muito mal, mas antes de tudo agradeço a Deus. Também cuidaram de mim. Ela [a menina] tem 7 anos e ele [o menino] 4, mas de vez em quando entravam no quarto, subiam na cama. (AF1)

Minha irmã tinha que tomar insulina porque tem… como se diz… diabetes. Ela ainda não cuidou disso. Tem outros problemas também; fez uma cirurgia. Eu também preciso ir ao médico, mas fui adiando, fui adiando. (AF1)

Tem um médico aqui que é colombiano. É ele que me atende, né? Ele me dá um desconto porque sou estrangeira, e ele encarou isso como uma parceria, já que também é estrangeiro. (MF2)

Ao relatar suas experiências em vários lugares ao longo do percurso migratório, as famílias percebem melhoras na acessibilidade dos serviços de saúde. Notam essas melhoras mesmo sem contar com uma equipe de saúde fixa para atender às suas necessidades. Parte dessa percepção se deve à constante mudança de residência, já que buscam condições de vida mais adequadas à sua situação econômica:

Troquei de posto de saúde muitas vezes porque a gente se mudava sempre. Primeiro fui a Coqueiros e depois, finalmente, terminei meu pré-natal aqui em Areias, São José. (MF3)

Discussão

A presença de uma rede de apoio social e emocional sólida está associada à prevenção da violência e ao fortalecimento de habilidades. A eficácia dessa rede se evidencia em respostas que indicam redução significativa de sintomas como depressão e sentimento de desamparo. Na ausência dessa rede, observa-se aumento da vulnerabilidade das pessoas a situações de risco, como nos fluxos de migração forçada(15).

A migração, em si, é um fenômeno comunitário, no qual a rede informal se organiza para que uma pessoa migre. Muitas vezes se migra sem companhia, às vezes em grupo, e ao longo do percurso se constroem as redes de apoio(16). A estabilidade e a força dessas redes influenciam o modo como o processo migratório vai se desenrolar, o que nem sempre é ditado por fatores financeiros, mas pelos contextos das redes já estabelecidas no destino. Essas redes são vistas como apoio nos primeiros dias após a chegada(17, 18), sentimento explicado por um senso de pertencimento cultural e linguístico e pela experiência compartilhada do grupo migrante. Isso se reflete numa compreensão mútua das dificuldades enfrentadas durante o percurso(17, 18). Uma razão provável para o aumento das interiorizações é a modalidade “Reunião Social”.

Quanto à presença de avós em idade avançada nas famílias, ela garante o cuidado doméstico das crianças e um apoio informal para que os casais trabalhem fora, mas os resultados mostraram falta de contatos sociais fora do domicílio. Essa situação se agravou durante a pandemia, já que as pessoas idosas eram consideradas grupo de alto risco para a COVID-19. Embora as pessoas idosas imigrantes viajem com seus descendentes, o que poderia reduzir o isolamento social, fatores como rearranjos na estrutura familiar e diferenças culturais podem gerar conflitos geracionais. O sentimento de perda do papel social, somado à falta de domínio da língua do país de acolhimento e ao tempo de permanência, contribui para o isolamento desse membro da família(19).

Esse resultado evidencia como a migração forçada, por ser uma etapa não planejada do ciclo de vida familiar, modifica papéis e tarefas nas famílias. No caso das avós, elas podem negligenciar aspectos de sua saúde, de suas rotinas de lazer e até de sua integração ao novo país ao se dedicar exclusivamente à criação das crianças.

Para as crianças, a rede formal mais acessível continua sendo a escola, que também funciona como espaço de integração da família. No entanto, ela ainda apresenta desafios, como a dificuldade com a nova língua e a xenofobia. Com base neste estudo, fortalecer essa rede pode transformar a escola num ambiente mais seguro, que promova o empoderamento social, atenue os sentimentos iniciais de desamparo e ajude a mobilizar recursos internos de enfrentamento. Nesse sentido, a escola também pode ser uma porta de entrada para os serviços de saúde.

Quanto à atividade de trabalho, mesmo as pessoas participantes com ensino superior completo ou incompleto que estavam empregadas no momento da pesquisa tinham uma ocupação que não correspondia à sua área de formação. Isso se observa até no caso da tia da família 1 (AF1), que tem ampla experiência em recursos humanos. Uma explicação possível é que imigrantes com maior escolaridade encontram emprego com mais facilidade, mas em áreas diferentes de sua formação(8, 9).

Com base nos resultados, as redes formais, incluindo os serviços de saúde e de assistência social, não foram o primeiro recurso procurado. Esse achado pode estar relacionado à falta de confiança, já que, neste estudo, esses serviços só são procurados em situações de emergência.

Quanto aos motivos da procura pela Unidade de Pronto Atendimento e pelos setores de urgência e emergência dos hospitais, podemos apontar: a priorização do trabalho em detrimento do cuidado com a saúde; a falta de um atendimento sensível às questões socioculturais de cada família migrante; e as dificuldades de comunicação, que geram o medo de não encontrar compreensão e/ou acolhimento como imigrante. Esses motivos podem estar ligados às dificuldades de acesso e de criação de vínculo com os serviços das Unidades Básicas de Saúde(3, 4, 5, 9).

Considerando a fragilidade das redes sociais formais, recomenda-se propor espaços de discussão entre lideranças comunitárias imigrantes e equipes de saúde. O envolvimento das lideranças comunitárias, das equipes de saúde e das instâncias locais de decisão pode ajudar a esclarecer demandas e a elaborar propostas de melhoria dos serviços, com o objetivo de favorecer a integração social das pessoas imigrantes.

Nas instituições de saúde, a participação das pessoas usuárias é impulsionada por maior democratização da informação; pelo reconhecimento, por parte das equipes, das pessoas usuárias como sujeitos do processo de cuidado, e não apenas como objetos de práticas e prescrições; e pela conscientização dessas pessoas sobre seus direitos e seu papel na defesa dos próprios interesses(20).

A participação das pessoas imigrantes nas ações e nos serviços de saúde exige empoderamento quanto à sua posição e aos seus direitos. Para isso, o vínculo com as equipes, baseado na confiança e no diálogo mútuo, é um caminho para fortalecer e reconhecer essa rede como apoio social nos locais de destino.

Para incluir a migração em planos comunitários voltados ao desenvolvimento e à construção de uma sociedade mais integrada, é essencial compreender elementos da composição familiar e social, elaborar perfis migratórios locais e realizar exercícios de mapeamento comunitário que facilitem o processo. Isso evitará prejuízos tanto às comunidades de acolhimento quanto às pessoas imigrantes.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável reconhece a migração como motor do desenvolvimento sustentável. No entanto, a relação entre migração e desenvolvimento é complexa e envolve processos políticos e as condições econômicas e sociais dos possíveis países de destino(21).

Limitações do estudo

Este estudo tem limitações decorrentes da coleta de dados no contexto da pandemia de COVID-19, que afetou tanto o trabalho da equipe de pesquisa quanto a disponibilidade das famílias para participar.

Contribuições para a área

Espera-se que os resultados desta pesquisa lancem luz sobre questões relacionadas às famílias em fluxos migratórios. O desejo é que mais ações de fortalecimento das redes de apoio formais, que incluem os serviços de saúde e de assistência social, sejam discutidas. Numa perspectiva global e interdisciplinar, este estudo também contribui para a compreensão de alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como saúde e bem-estar (ODS 3), redução das desigualdades (ODS 10) e trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8).

Considerações finais

Este estudo permitiu compreender as redes de apoio de famílias imigrantes venezuelanas que participaram do Programa de Interiorização e se estabeleceram nas cidades da Grande Florianópolis. Observou-se que a principal rede de apoio informal é a família nuclear e que, entre as redes formais, se destacam as escolas, as igrejas e a sociedade civil.

Quanto à fase do ciclo de vida, todas as famílias estão na etapa considerada como a das famílias com filhos pequenos. A avó é a principal responsável pelo cuidado diário das crianças e da casa, mesmo com sua própria rede de apoio sendo limitada. A situação desse membro na família imigrante reforça a necessidade de pesquisas voltadas a esse perfil.

Embora os esforços das redes formais sejam louváveis, há lacunas perceptíveis no acolhimento e na integração, incluindo o acesso aos serviços da Atenção Primária à Saúde, apontado como um dos mais frágeis.

Complexe Systémique: a reter

O interesse deste pequeno estudo está tanto na ferramenta quanto no resultado: o genograma e o ecomapa, cruzados com o photovoice, mostram num relance por onde passam os vínculos de uma família deslocada e onde eles faltam. As famílias se apoiam quase exclusivamente no próprio núcleo, com uma figura que volta de um caso a outro: a avó materna, pilar do cuidado das crianças, mas isolada, sem a língua e sem papel social, a ponto de várias voltarem para a Venezuela. Numa leitura sistêmica, a migração forçada aparece como uma transição não normativa que redistribui os papéis entre as gerações e fragiliza as pessoas mais velhas. Do lado das redes formais, a escola funciona como porta de entrada, enquanto a saúde se resume à urgência, por falta de vínculo e de língua comum. Para a clínica, isso convida a perguntar quem carrega o cuidado na família, e a quem esse cuidado custa. Os limites são claros: quatro famílias, recrutamento pelas redes sociais, coleta em plena pandemia. Para ler junto com o artigo sobre a contação de histórias entre mães venezuelanas e seus filhos pequenos e com o artigo sobre o genograma.

Notas do original

Financiamento. Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).

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Tradução não oficial em português de Redes de apoio social e etapa do ciclo de vida de famílias imigrantes venezuelanas, de Marcela Possato Correa da Rosa, Gisele Cristina Manfrini, Janaína Medeiros de Souza, Ana Cristina Oliveira da Silva Hoffmann, Rosane Gonçalves Nitschke, Ivonete Teresinha Schülter Buss Heidemann e Jaime Alonso Caravaca-Morera, Revista Brasileira de Enfermagem, vol. 76, supl. 2, e20220790 (2023), doi: 10.1590/0034-7167-2022-0790, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figura reproduzida em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Social support networks and life cycle stage of Venezuelan immigrant families”, publicado em Revista Brasileira de Enfermagem (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

da Rosa, M. P. C., Manfrini, G. C., de Souza, J. M., Hoffmann, A. C. O. S., Nitschke, R. G., Heidemann, I. T. S. B., et Caravaca-Morera, J. A. (2023). Redes de apoio social e etapa do ciclo de vida de famílias imigrantes venezuelanas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/redes-de-apoio-social-e-etapa-do-ciclo-de-vida-de-familias-imigrantes-venezuelanas (Obra original publicada em 2023 em Revista Brasileira de Enfermagem, 76(Suppl 2), e20220790 (2023); republicada em 2023 por Revista Brasileira de Enfermagem, https://www.scielo.br/j/reben/a/YtFbMgsjgQwZgK6nrdxg3Mf/?lang=en)

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