The British Journal of Social Work · Serviço social
Videochamadas, mensagens, redes sociais: desde a pandemia, o vínculo entre crianças acolhidas ou adotadas e sua família de origem passa também pelas telas. A equipe de Mandi MacDonald, entre Belfast e Sydney, recusa-se a ver nisso um contato “virtual” e relê Bronfenbrenner para propor uma ecologia social digital em três R: relacionalidade, direitos, resiliência.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Relacionalidade, direitos e resiliência digitais: conceituar uma ecologia social digital das relações de crianças acolhidas ou adotadas com a família de origem, de Mandi MacDonald, Amy Conley Wright, Amanda Taylor-Beswick, Kathryn Gillespie e Susan Collings, publicado na The British Journal of Social Work (Oxford University Press) (2023), doi: 10.1093/bjsw/bcac140, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura permanece em inglês, com legenda traduzida; as declarações de fim de artigo estão reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Embora o contato mediado pela tecnologia seja caracterizado como “virtual”, as relações que ele possibilita e as emoções que gera são muito reais na ecologia social da criança.
Mandi MacDonald, Amy Conley Wright, Amanda Taylor-Beswick, Kathryn Gillespie e Susan Collings
Resumo
O uso das tecnologias de comunicação digital por crianças em acolhimento fora da família ou adotadas após o acolhimento familiar tem sido abordado sobretudo com hesitação e a partir de um paradigma de risco. A pandemia de covid-19 catalisou muitos cruzamentos entre o digital e o serviço social, inclusive nas práticas de contato com a família de origem, em que as visitas presenciais foram complementadas ou substituídas por contatos “virtuais” por meio de dispositivos digitais. Embora o contato mediado pela tecnologia seja caracterizado como “virtual”, as relações que ele possibilita e as emoções que gera são muito reais na ecologia social da criança. A onipresença do digital na vida social e o ritmo acelerado da mudança tecnológica criam tensões éticas e práticas importantes. Para ajudar as equipes de serviço social a lidar com essa complexidade do “contato na realidade” e a favorecer um uso seguro e ético das tecnologias de comunicação digital no contato com a família de origem, relacionamos a compreensão das dinâmicas desse contato com a literatura sobre o uso da tecnologia digital pelas crianças e com os conceitos ecológicos da pessoa em seu ambiente, para oferecer uma heurística de ecologia social digital para a prática do serviço social. Três aspectos-chave atravessam todos os sistemas e níveis, aqui chamados de os três R digitais: relacionalidade digital, direitos digitais e resiliência digital. São necessárias pesquisas futuras para compreender como essas dinâmicas se desenrolam.
Antes da pandemia de covid-19, o envolvimento das equipes de serviço social com as tecnologias on-line era pouco desenvolvido, apesar de evidências consideráveis de sua relevância (por exemplo, LaMendola, 1987; Rafferty, 1997). Os apelos para que a profissão enfrentasse sua defasagem de competências digitais tinham sido em grande parte ignorados (Taylor, 2017; Zgoda e Shane, 2018), e faltava compreender como a tecnologia se cruza com o social e apoia a prática (Susskind e Susskind, 2015). Para conter a propagação da covid-19, os governos do Reino Unido e da Austrália, onde a equipe está sediada, e de outros lugares impuseram regras como o distanciamento físico. A redução das oportunidades de interação presencial levou a uma aceleração significativa da prática apoiada pela tecnologia (Yadav e Yadav, 2022), inclusive para substituir ou complementar ações presenciais de proteção da criança, planejamento do acolhimento e revisões de caso; foi, porém, no contato com a família de origem, no acolhimento familiar e na adoção, que seu uso mais floresceu (Copson et al., 2022). Essa mudança de prática, reativa e circunstancial, e não proativa e visionária, aumentou a aceitação da tecnologia, mas também trouxe à tona os desafios de lidar com a hiperconectividade contemporânea. Embora o serviço social tivesse abordado o uso de celulares e redes sociais por crianças acolhidas ou adotadas sobretudo com hesitação e a partir de um paradigma de risco (Hammond et al., 2018), os benefícios das tecnologias digitais para apoiar as relações tornaram-se mais evidentes e mais valorizados na era da covid-19, com a ressalva de que as práticas digitais se desenvolvam de modo seguro e ético (Neil et al., 2020; Barnett-Jones e Manning, 2021; Ciftci et al., 2022).
Este artigo relaciona a literatura sobre o uso das tecnologias de comunicação digital por crianças e jovens à compreensão das dinâmicas do contato com a família de origem no acolhimento e na adoção, com base em nossas pesquisas anteriores (MacDonald, 2018, 2021; Collings et al., 2022), para conceituar as realidades do contato digital como parte da ecologia social da criança. Nosso objetivo é oferecer às equipes de serviço social que planejam, revisam e apoiam o contato um referencial conceitual para se orientar nesse terreno novo, ressaltando como o digital transformou a ecologia social e concentrando-nos em três questões-chave relacionadas ao contato: relacionalidade digital, direitos digitais e resiliência digital.
As tecnologias digitais hoje se infiltram em todos os aspectos da ecologia social de uma pessoa (Crawford e Schultz, 2019; Fuchs, 2021), a ponto de ser praticamente impossível não fazer parte do mundo digital hiperconectado, em que cada toque no teclado ou deslizar de dedo tem consequências (Eubanks, 2017; Noble, 2018; Benjamin, 2019). A onipresença das tecnologias de comunicação digital exige repensar alguns pressupostos fundamentais do serviço social, para refletir melhor a interação social humana no contexto sociotécnico contemporâneo, em que pessoas e tecnologias se cruzam e interagem, e para considerar o papel do digital nos sistemas socioecológicos (Bronfenbrenner, 1979).
No serviço social, o pensamento ecológico costuma ser operacionalizado pela perspectiva da pessoa em seu ambiente. Esse paradigma tem origem no trabalho de Richmond (1922), que enfatizava que a prática deve considerar o meio em que a vida é vivida. A perspectiva da pessoa em seu ambiente é aceita como fundamental para a base de conhecimento do serviço social e orienta as compreensões ecológicas da resiliência (Ungar, 2011). Para promover bons desfechos para crianças e jovens com experiência de acolhimento, é preciso focar na interconexão entre suas capacidades e características individuais, seu acesso a recursos sociais e a maneira como interagem com esses recursos em seu mundo social (van Breda, 2018).
Refletindo sobre como o digital está remodelando a ecologia social, a conceituação proposta se apoia na pessoa em seu ambiente e oferece o “contato na realidade” como a lente para analisar e apoiar o vínculo, que passou necessariamente a envolver a tecnologia. A orientação sociotécnica destaca a bidirecionalidade das interações entre pessoas e tecnologias, reconhecendo que essas interações nem sempre são conduzidas pela pessoa, centradas nela ou mutuamente acordadas. Isso amplia o conceito de “dualismo digital” (Jurgenson, 2012, p. 83), que contesta a noção difundida de que os mundos sociais on-line seriam de algum modo menos reais (Rettie, 2004), ou de que as interações mediadas pela tecnologia seriam um simulacro, como sugere o termo “virtual”.
Para crianças acolhidas ou adotadas após o acolhimento, as complexidades relacionais e o significado emocional de suas interações com a família de origem não devem ser minimizados (Neil et al., 2020; MacDonald, 2021; Collings et al., 2022). Todos os arranjos de contato, presenciais ou a distância, devem estar atentos à maneira como o possível legado do trauma pode ser reativado. O trauma envolve respostas emocionais a experiências ameaçadoras; quando a ameaça vem de uma figura de apego, como ocorre nos maus-tratos e na negligência, isso pode interferir na regulação emocional e no processamento cognitivo da criança (van der Kolk, 2003). Embora o contato mediado pela tecnologia tenha sido comumente caracterizado como “virtual”, as emoções que ele gera são muito reais, assim como as relações que pretende possibilitar (Neil et al., 2020). O termo “virtual” inibiu nossa compreensão das oportunidades, dos desafios e das realidades subjetivas das interações que envolvem as tecnologias de comunicação digital, que fazem parte da ecologia social de crianças e jovens em situação de acolhimento ou de adoção, e este artigo examina o que essa conceituação de “contato na realidade” significa para o contato com a família de origem.
Em relação ao contato, o papel do serviço social muitas vezes é mediar e negociar as interações dentro dos vários sistemas sociais da criança e entre eles. A “ecologia social digital do contato com a família de origem”, sustentada pela teoria dos sistemas ecológicos (Bronfenbrenner, 1979), enquadra a tecnologia digital como parte integrante dos vários sistemas sociais e como ponte entre eles, para ajudar a lidar com as implicações da tecnologia para a prática.
Considerando a realidade atual do contato, fica evidente que as tecnologias de comunicação são um elemento central do mesossistema e um meio pelo qual as relações podem acontecer dentro dos microssistemas da família de origem e da família adotiva ou acolhedora, e entre eles, bem como entre a criança e esses dois microssistemas dos quais faz parte. Assim, a tecnologia pode mudar e prescrever a natureza dessa comunicação, tanto impondo restrições próprias de cada tecnologia quanto abrindo novas possibilidades de interação dentro dos sistemas e entre eles. As interações que envolvem a tecnologia também são uma parte cada vez mais essencial do macrossistema, no que diz respeito à infraestrutura de comunicação e às leis, práticas de governança, políticas sociais e recursos econômicos e educacionais que determinam o acesso a essa infraestrutura e seu uso (Crawford e Schultz, 2019). As equipes de serviço social, elementos-chave do exossistema, são elas mesmas limitadas e habilitadas em seu papel pela realidade de como o digital opera nos níveis do macrossistema e dos microssistemas.
Esta breve sinopse mostra que o contato com a família de origem na era digital é um sistema complexo, com múltiplas forças entrelaçadas que moldam profundamente as relações entre as crianças e suas famílias. Por isso, oferecemos a ecologia social digital do contato com a família de origem (Figura 1) como uma heurística para as equipes de serviço social diante da proliferação e da infusão do digital no contexto de prática específico do contato com a família de origem. Para ajudar ainda mais a lidar com essa realidade, a ecologia se concentra em três aspectos-chave que atravessam todos os sistemas e níveis, a saber, os três R digitais: relacionalidade, direitos e resiliência digitais.

O objetivo do contato é possibilitar relações duradouras e significativas entre crianças e jovens e suas famílias de origem. Uma pergunta a fazer sobre a tecnologia digital é se ela consegue sustentar as dinâmicas relacionais complexas associadas ao contato. Muitas crianças e jovens têm grande habilidade para interagir e manter relações pela tecnologia. Alguns estudos indicam que os meios digitais podem facilitar a revelação pessoal ou conversas delicadas (Vincent, 2015; Chan, 2016; Gibson e Trnka, 2020), já que reduzem os inibidores não verbais (Best et al., 2014), enquanto outros apontam uma preferência pela comunicação presencial para falar de preocupações e resolver desacordos (Children’s Commissioner, 2018). Mesmo nos espaços digitais, crianças e jovens podem preferir trocar apoio com pessoas que conhecem fora da internet e em quem confiam (Gibson e Trnka, 2020).
A comunicação digital entre parentes tornou-se uma prática familiar quase obrigatória (Holmes e Wilding, 2019), de modo que as famílias de origem, adotivas e acolhedoras não estão sozinhas ao buscar, pela tecnologia, relações emocionalmente significativas com pessoas que vivem em outro lugar. Estudos sobre famílias transnacionais mostram como as tecnologias de comunicação digital permitem que parentes separados geograficamente mantenham práticas familiares a distância, chegando a exercer e delegar papéis parentais pelo smartphone (Waruwu, 2022). Os tipos de interação direta que ocorrem num espaço físico compartilhado também podem acontecer por meio das tecnologias de comunicação; por exemplo, conversar em plataformas de videoconferência permite que as pessoas estejam visivelmente copresentes no espaço digital compartilhado. Mesmo sem comunicação direta e síncrona, os membros da família podem alcançar uma copresença, que envolve a percepção de atenção mútua e de envolvimento emocional (Campos-Castillo e Hitlin, 2013) e uma sensação de proximidade emocional, de estar juntos e de estar presentes uns para os outros apesar da separação física (Urry, 2002; Baldassar et al., 2016).
Crianças mais velhas podem exercer sua capacidade de agir nessas trocas a distância ao criar e administrar grupos familiares, ou ao usar a tecnologia de forma criativa para construir narrativas familiares (Kędra, 2021). Para jovens em situação de refúgio, o uso criativo da tecnologia permite uma copresença imaginária, por meio de imagens editadas digitalmente que representam simbolicamente como as relações poderiam ser se as circunstâncias fossem outras, significando uma experiência familiar imaginada, impossível de alcançar, mas que, ainda assim, constrói um sentimento de família (Robertson et al., 2016).
O contato oferece um potencial de desenvolvimento da identidade ao permitir que as crianças compreendam suas origens, e precisamos entender como esse processo é afetado pelas tecnologias de comunicação digital. Para os jovens, as redes sociais podem ser uma plataforma de comparação social (Hur e Gupta, 2013) e uma ferramenta de construção identitária (Swist et al., 2015). Tirar selfies, por exemplo, dá às crianças controle editorial sobre a imagem (Phippen, 2017), permite experimentar a autorrepresentação e oferece a chance de descobrir como os outros as percebem (Vincent, 2015).
A alteração digital de fotografias, porém, pode ter impacto negativo na autoimagem das crianças (McCrory et al., 2020) e levanta questões sobre sua capacidade de ler e julgar criticamente as autorrepresentações on-line de outras pessoas. Isso é especialmente pertinente para crianças que não dispõem de um acervo de lembranças ou de detalhes de sua história de vida com que avaliar a autenticidade das autorrepresentações on-line de parentes de origem, o que pode deixá-las mal preparadas para fazer escolhas informadas sobre a natureza da relação.
A forma como a proximidade mediada digitalmente é praticada precisa reconhecer que as relações próximas podem envolver aspectos positivos e negativos (Holmes e Wilding, 2019) e que um envolvimento próximo com parentes de origem pode ser emocionalmente ambíguo ou ativamente angustiante (Boyle, 2017). As relações mantidas pela tecnologia são moldadas por sua história social, emocional e cultural singular (Baldassar et al., 2016); a tecnologia possibilita o que já existe, mas é um veículo inadequado para resolver dificuldades relacionais (Madianou, 2016).
Aplicativos e dispositivos digitais oferecem vários modos de comunicação, com diferentes níveis de proximidade e diferentes maneiras de estar copresente. Entre a gama de opções de comunicação, ou polimídia, as videochamadas talvez ofereçam a experiência mais íntima e imersiva (Waruwu, 2022), já que ouvir e/ou ver a outra pessoa pode acrescentar profundidade de sentido (Shier, 2021). As alternativas à conversa síncrona incluem meios não verbais como o compartilhamento de fotos, o bate-papo escrito ou a troca de emojis, que permitem expressar informações e emoções. Cartões digitais e compartilhamento de fotos possibilitam a copresença visual e o compartilhamento informal de experiências (Cabalquinto, 2020), o que pode facilitar um envolvimento próximo na vida cotidiana (Kędra, 2021). Comparados às cartas, esses diversos modos de comunicação assíncrona podem facilitar que crianças e parentes de origem compartilhem pensamentos e sentimentos de forma mais imediata (Barnett-Jones e Manning, 2021).
A tecnologia pode oferecer às crianças maneiras menos intensas e menos pesadas de manter o vínculo com parentes de origem quando essas relações são complexas ou emocionalmente difíceis (Simpson, 2020; Waruwu, 2022). O caráter efêmero das mensagens em algumas plataformas de redes sociais (Quinn, 2019) oferece um modo utilmente passageiro de manter contato, e a função “curtir” das publicações oferece um meio espontâneo e instantâneo de se conectar sem o foco concentrado do contato presencial, aliviando a pressão de uma resposta longa (Shier, 2021). Os múltiplos usos possíveis dos dispositivos podem, ao mesmo tempo, ajudar os jovens a lidar com o tédio ou com interações desconfortáveis (Vincent, 2015), o que faz deles um recurso valioso durante chamadas de voz ou vídeo. A variedade de aplicativos de comunicação pode lhes dar capacidade de controlar o ritmo, a frequência e o momento das interações, bem como a possibilidade de usar os recursos da plataforma para impor regras de comunicação aceitável (Kędra, 2021).
Manter-se conectado pela tecnologia, porém, exige tempo e esforço e pode ser emocionalmente exaustivo (Kędra, 2021). Exige de quem participa da troca cuidado e sensibilidade em relação à experiência emocional da outra pessoa (Alinejad, 2019). Se as crianças não conseguem manter a atenção na interação ou não têm competência tecnológica, isso pode resultar em mal-entendidos, estresse ou conflito, ampliando assim a distância emocional entre as pessoas (Waruwu, 2022).
Um princípio fundamental da prática sensível ao trauma é que se deve promover a segurança relacional com as principais figuras de cuidado e evitar intrusões ou tensões desnecessárias na vida familiar (Purvis et al., 2015). As realidades emocionais da comunicação mediada pela tecnologia precisam ser manejadas, e o trabalho de alcançar uma copresença significativa precisa ser equilibrado com um trabalho sobre as fronteiras. O uso excessivo da tecnologia digital em casa e os desacordos sobre a supervisão parental podem levar a conflitos familiares (UNICEF, 2017). Outras preocupações com a possível intrusão na vida familiar de jovens em acolhimento ou adoção se concentram na possibilidade de que esses jovens ou seus parentes de origem iniciem um novo contato sem mediação, com possíveis repercussões para a estabilidade do acolhimento (Children’s Commissioner, 2017), muitas vezes sem o conhecimento ou a mediação da família acolhedora ou dos pais adotivos. Isso pode ser desestabilizador ou apresentar riscos de proteção, especialmente no início da adolescência, quando as habilidades digitais dos jovens podem superar sua maturidade emocional.
A gestão das fronteiras não depende inteiramente de quem usa a tecnologia, pois o ecossistema digital tem muito a ganhar ao promover a conexão. Os aplicativos digitais são desenvolvidos principalmente por corporações comerciais globais (Fuchs, 2021). Muitos aplicativos servem para estender e aumentar as redes sociais de quem os usa e são movidos por algoritmos que identificam e sugerem novas conexões (Crawford e Schultz, 2019), sem considerar quaisquer preocupações de segurança ou privacidade das pessoas e operando, em grande parte, fora do controle delas (Eubanks, 2017; Keddell, 2019).
Os aplicativos de redes sociais também funcionam para manter as pessoas engajadas com as redes existentes, por exemplo por meio de “feeds de notícias” constantemente atualizados. Esses recursos comerciais não são desenvolvidos pensando nas necessidades de crianças e jovens com experiência de acolhimento. Na falta de uma tecnologia sob medida, essas crianças e jovens e suas famílias só podem usar esses produtos comerciais, cujas características podem levar as crianças a estar “sempre conectadas” (Simpson, 2020; Shier, 2021). Essa consciência constante, difusa e periférica da presença on-line de amizades e familiares pode oferecer certa tranquilidade emocional nas relações fortes, mas, nas relações frágeis, pode levar a conflitos e a uma vigilância indesejada (Madianou, 2016).
Alguns recursos tecnológicos, porém, podem ser usados para estabelecer fronteiras mais claras e exercer controle, por meio das configurações de privacidade ou das funções de silenciar (Greenhow et al., 2017; Simpson, 2020; Shier, 2021). As mensagens de texto, por exemplo, permitem que quem envia limite a divulgação de informações pessoais, como localização ou aparência, sobretudo quando as interações correm o risco de ser intensamente emocionais ou conflituosas (Waruwu, 2022). Os jovens podem adotar práticas de desconexão sem sair totalmente dos aplicativos (Zhao, 2019), escolhendo o modo e o momento da conexão e da desconexão para manter um equilíbrio entre autonomia, privacidade e proximidade.
Em resumo, a comunicação digital pode permitir que as crianças interajam positivamente com os membros da família de origem, contribuindo para a construção do relacionamento e da identidade, quando o serviço social incentiva a atenção às diferentes oportunidades oferecidas pelas várias mídias e tecnologias, às fronteiras e às respostas emocionais e à segurança das crianças e dos membros da família.
De modo geral, as abordagens para mediar o uso da tecnologia digital pelas crianças se concentraram nos danos potenciais (Livingstone et al., 2017; Global Kids Online, 2019), mas há uma ênfase recente nos direitos. Em março de 2021, o Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas publicou orientações sobre os direitos da criança em relação ao ambiente digital (CDC, Comentário Geral nº 25). O texto apela aos governos para garantir que os pais recebam apoio para compreender o mundo digital, que os serviços digitais sejam acessíveis a todas as crianças e que o design digital leve em conta as necessidades das crianças. Uma abordagem baseada em direitos contesta o predomínio do paradigma de risco e destaca a importância da igualdade de acesso das crianças a dispositivos, aplicativos, redes e orientação, considerando o acesso à internet um direito básico (Berners-Lee e Leith, 2021), a ser garantido de forma ética e segura.
Para as próprias crianças e jovens, a tecnologia digital é vital, e há consciência tanto de suas oportunidades quanto de seus riscos (Third et al., 2017). Apoiar a autonomia emergente da criança significa, portanto, superar as barreiras socioeconômicas, geográficas, educacionais, linguísticas e etárias que podem levar a desigualdades digitais (UNICEF, 2017; Brosch, 2019), e dotar as crianças das habilidades necessárias para manter seus vínculos significativos num ambiente digital. A falta de acesso à tecnologia e/ou de confiança para usá-la pode prejudicar os direitos de jovens com experiência de acolhimento (McGhee e Roesch-Marsh, 2020), inclusive o direito de manter contato com os pais quando isso for compatível com seu bem-estar (artigo 9 da CDC) (UN General Assembly, 1989). A desvantagem digital deixa parte dos parentes de origem sem acesso a dispositivos conectados à internet, a uma rede wi-fi eficiente ou a crédito no celular, o que dificulta sua participação significativa no contato (Copson et al., 2022). Promover a inclusão das redes familiares provavelmente exigirá oferecer recursos e apoio tanto às crianças quanto aos adultos.
A inclusão digital das crianças deve ser vista pelas lentes duplas da participação e do bem-estar (McGhee e Roesch-Marsh, 2020). As crianças têm direito à liberdade de expressão e ao acesso à informação (artigos 13 e 17 da CDC), e a estar em segurança ao exercer esses direitos. Pais e governos enfrentam uma tensão entre equilibrar o direito das crianças de participar do mundo digital e o de serem protegidas nele, para maximizar os benefícios sem agravar vulnerabilidades existentes ou a exposição a danos (Livingstone et al., 2017; Brosch, 2019). Esses direitos podem parecer conflitantes, por exemplo, quando o direito das crianças de conhecer suas origens cria, ao mesmo tempo, a possibilidade de que parentes de origem as contatem de forma imprevisível (Aroldi e Vittadini, 2017).
O apoio e a orientação dos adultos devem ser adequados ao desenvolvimento, reconhecendo a capacidade crescente da criança de fazer suas próprias escolhas (artigo 5 da CDC), pois uma aversão excessiva ao risco pode comprometer o desenvolvimento da resiliência e da autonomia (Phippen, 2017). Um projeto de lei britânico que obriga as empresas a proteger as pessoas usuárias on-line foi criticado por potencialmente restringir a liberdade de expressão. A falta de orientação, porém, é um desafio fundamental, já que os novos desenvolvimentos tecnológicos avançam mais rápido que a regulamentação, e sua adoção pelas crianças, mais rápido que pelos pais (Livingstone et al., 2018). Essas tensões são evidenciadas pela capacidade das crianças de contornar as restrições de idade das plataformas de redes sociais, às vezes sem que os pais saibam, e por sua habilidade digital para esconder a atividade on-line. Para ampliar os direitos das crianças nos espaços digitais, as plataformas deveriam adotar um design “adequado à idade” (Children’s Commissioner, 2018); a abordagem habitual, porém, é a de designs “cegos à idade”, que não verificam a idade de quem usa e não se adaptam a diferentes níveis de habilidade (Brosch, 2019). Por isso, é necessário um julgamento crítico informado para avaliar a adequação de cada aplicativo ou plataforma a cada pessoa. As equipes de serviço social precisam ter competência tecnológica para promover a inclusão de crianças, pais e famílias acolhedoras por meio de apoio e educação (Taylor-Beswick, 2021); no entanto, muitas vezes são os jovens que assumem o papel de especialistas em tecnologia da família (Copson et al., 2022).
Para o senso de privacidade dos jovens, é fundamental ter controle sobre o conteúdo on-line publicado a seu respeito e sobre o acesso às próprias publicações (Sen, 2016). Muitos pais incluem os filhos em suas publicações nas redes sociais, na prática do sharenting, às vezes sem o conhecimento ou o consentimento das crianças (Steinberg, 2017), o que gera sentimentos de chateação, constrangimento e impotência (UNICEF, 2017; Bessant, 2018; Children’s Commissioner, 2018). Há implicações de segurança se informações que permitem identificar a criança forem incluídas, enquanto a marcação e o recompartilhamento dão às informações compartilhadas on-line um alcance e uma durabilidade de que os próprios pais podem não ter consciência (Bessant, 2018; NSPCC, 2021), e representam, para crianças e jovens, uma perda de controle sobre suas narrativas on-line. Os precedentes jurídicos enfatizam o papel dos pais no exercício do controle sobre o filho menor (Steinberg, 2017), como guardiões da privacidade dos filhos (Bessant, 2018), o que deixa às crianças poucos recursos para contestar as práticas de sharenting.
As visitas de contato podem ser uma oportunidade para os pais de origem tirarem ou receberem fotografias das crianças, o que abre a possibilidade de publicação posterior em suas contas de redes sociais. Compartilhar assim as conquistas das crianças pode aumentar o sentimento de conexão dos pais de origem e, quando feito de forma adequada, contribuir para construir uma narrativa positiva e coesa (Bessant, 2018). No entanto, as imagens às vezes são tiradas e publicadas às escondidas ou em violação de acordos de contato específicos, e há preocupações com a possível falta de configurações de privacidade nas contas de redes sociais dos parentes de origem e com a extensão em que as imagens das crianças podem ser recompartilhadas (MacDonald, 2021). Todos os pais e famílias acolhedoras deveriam conhecer o impacto potencial do compartilhamento on-line, e acordos explícitos deveriam ser negociados e reforçados. A suposição de que os adultos têm o direito de publicar imagens de crianças deve ser questionada (Phippen, 2017), e a consulta às crianças e a obtenção de seu consentimento sobre o uso de suas imagens e informações devem ser incentivadas (NSPCC, 2021).
A tecnologia digital pode afetar o direito da criança à privacidade (artigo 16 da CDC) de várias maneiras: a privacidade física pode ser violada quando o rastreamento ou a marcação revelam a imagem ou a localização de uma criança; a privacidade das comunicações pode ser violada quando as publicações são acessadas por destinatários não previstos; e a privacidade das informações pode ser violada quando os dados pessoais das crianças são coletados ou tratados sem que elas compreendam ou consintam (UNICEF, 2018), às vezes para ganho comercial. Para algumas crianças que sofreram maus-tratos, proteger a privacidade é importante para sua segurança e seu sentimento de segurança. Os jovens podem ser informados sobre as configurações de privacidade e ajudados a limitar seus contatos e a escolher com critério suas plataformas e seus públicos (Vincent, 2015). Todas as práticas nas redes sociais, porém, têm uma dimensão material significativa, produzindo rastros digitais que podem ser reunidos para criar um perfil da pessoa, sua pegada ou sombra digital, que se torna difícil de controlar. As diretrizes europeias indicam que os Estados devem proteger o direito das crianças à privacidade e à proteção de dados e garantir que as partes interessadas, inclusive pais ou famílias acolhedoras, façam o mesmo (Council of Europe, 2018). Isso inclui o “direito ao esquecimento” (Bunn, 2019), um direito amplamente desconhecido ou raramente exercido no trabalho dos serviços para a infância, e sobre o qual pais, famílias acolhedoras e jovens precisam de informação. Como a atenção aos direitos das crianças sobre seus dados é relativamente recente, são necessárias mais pesquisas e regulamentação para compreender e atender às suas necessidades de acesso digital e de privacidade (Livingstone et al., 2018).
Há um reconhecimento geral do direito de crianças e jovens de participar da comunicação digital, mas esse direito precisa ser equilibrado com o direito à segurança. O serviço social pode incentivar famílias acolhedoras e parentes a proteger a privacidade digital de crianças e jovens e a consultar essas crianças e jovens antes de compartilhar publicamente on-line suas imagens ou informações pessoais.
O desenvolvimento da resiliência é um foco crescente das iniciativas de bem-estar on-line voltadas a crianças e jovens (UK Council for Internet Safety, 2019). Uma abordagem ecológica da resiliência trata da interação entre as capacidades e características da pessoa e as circunstâncias de seus mundos sociais (Ungar, 2011). Promover a resiliência digital das crianças inclui, portanto, desenvolver sua capacidade crítica e sua competência técnica, orientar práticas parentais construtivas e aprimorar a expertise digital das profissões envolvidas (Livingstone et al., 2017).
O letramento digital exige habilidades específicas para comunicar e interpretar sentidos, sobretudo conteúdos emocionais. Muitas crianças e jovens desenvolveram algum letramento emocional on-line e consciência dos riscos (Vincent, 2015; Livingstone et al., 2017; Gibson e Trnka, 2020), empregando julgamentos críticos semelhantes aos que as relações fora da internet exigem (Wang e Edwards, 2016). Os estudos mostram um uso responsável dos dispositivos e aplicativos, com consciência das próprias necessidades de privacidade e de segurança emocional e das dos outros (Gibson e Trnka, 2020), além do uso de estratégias de enfrentamento depois de deparar com um risco on-line, como contar a alguém amigo ou a um dos pais, bloquear contatos, modificar as configurações de privacidade ou sair do site. No entanto, quem é vulnerável a riscos fora da internet tem menos probabilidade de ser resiliente on-line (Livingstone et al., 2017).
O letramento digital é influenciado pelo apoio familiar (Chaudron, 2015; Phippen, 2017) e é especialmente eficaz quando aproveita ao máximo a expertise de crianças e jovens e reconhece suas forças (Swist et al., 2015). Embora as influências adultas possam orientar as respostas aos riscos, é preciso dar aos jovens capacidade de agir e espaço para desenvolver por conta própria estratégias e resiliência, por meio da aprendizagem experiencial (Swist et al., 2015; Wang e Edwards, 2016), como parte de seu caminho rumo à autonomia digital (Hammond et al., 2018). Embora poucas iniciativas educativas tenham sido avaliadas (Livingstone et al., 2017), os elementos-chave da aprendizagem deveriam tratar da pressão dos pares, das estratégias de desconexão e da compreensão dos algoritmos digitais, além de ajudar crianças e jovens a conceber as realidades abstratas do mundo digital e a desenvolver o pensamento crítico, em especial para diferenciar imagens selecionadas ou alteradas digitalmente da vida real das pessoas (Children’s Commissioner, 2018).
O letramento digital dos pais e das famílias acolhedoras, sua confiança e sua capacidade de orientar e incentivar as crianças são um apoio crucial (Chaudron, 2015), que pode ser enfraquecido por lacunas significativas de conhecimento sobre a tecnologia digital e a privacidade on-line (Livingstone et al., 2018). Com a rápida evolução das novas tecnologias digitais, pais e famílias acolhedoras nem sempre conhecem a variedade de atividades on-line das crianças e podem achar mais fácil antecipar riscos do que identificar benefícios (Kumpulainen e Gillen, 2017). Medidas parentais de restrição passiva, como a instalação de filtros, não eliminam necessariamente o risco de danos on-line (Livingstone et al., 2017). Em vez disso, recomendam-se estratégias ativas de educação e de mediação. A parentalidade restritiva reduz os riscos, mas também limita as oportunidades, ao passo que a mediação apoiadora e a negociação ativa podem possibilitar um envolvimento on-line mais seguro e incentivar comportamentos protetores saudáveis e respostas de enfrentamento (Livingstone et al., 2018). Os jovens podem expressar preferências quanto à supervisão parental e identificar boas razões para permitir que os pais vejam sua localização, seus contatos e seu histórico de busca, mas consideram menos aceitável que os pais controlem as funções do dispositivo, por exemplo restringindo o uso da câmera (McNally et al., 2018). Pais e famílias acolhedoras podem recorrer a recursos para se informar e se preparar para conversas com as crianças (Hur e Gupta, 2013), mas as profissões envolvidas também têm um papel-chave como fontes de informação (Chaudron, 2015; Livingstone et al., 2017).
Relações de apoio, possibilitadas e fortalecidas pelas redes on-line, podem ser um aspecto crucial do desenvolvimento da resiliência de crianças e jovens com experiência de acolhimento (McGhee e Roesch-Marsh, 2020). No entanto, o predomínio do paradigma de risco pode ser um obstáculo a isso (Hammond et al., 2018), e é crucial a formação das equipes de serviço social para que desenvolvam a própria competência digital (Taylor, 2017) e compreendam as necessidades digitais das crianças.
A competência digital provavelmente segue trajetórias de desenvolvimento semelhantes às de outras habilidades, mas há poucas evidências sobre o uso das tecnologias de comunicação por crianças pequenas. Por volta dos nove ou dez anos, as crianças podem perceber a posse de um smartphone como essencial para a vida social (Vincent, 2015). No entanto, os primeiros contatos com dispositivos digitais muitas vezes ocorrem antes dos dois anos, em geral pelo aparelho de um dos pais (Chaudron, 2015), e às vezes as crianças pequenas podem usar a conta de um dos pais, o que contradiz as mensagens de segurança e as expõe involuntariamente a conteúdos inadequados (Children’s Commissioner, 2018). A aprendizagem digital por tentativa e erro acontece em casa desde cedo, em grande parte pela observação e reprodução das práticas dos outros; por isso, as habilidades podem ser mais avançadas do que os pais imaginam e, mesmo com alfabetização limitada, as crianças pequenas podem usar o preenchimento automático de palavras e o reconhecimento de voz e de imagem para se comunicar on-line (Chaudron, 2015; Kumpulainen e Gillen, 2017).
Crianças e jovens com deficiência intelectual são vistos como um público mais vulnerável a danos on-line, onde há menos limites ou pistas visuais, o que torna mais difícil identificar comportamentos inadequados e distinguir fantasia de realidade (Livingstone et al., 2017). Isso pode ser especialmente difícil para quem tem dificuldades com habilidades sociais ou tende a interpretar literalmente até as interações sociais fora da internet. Chadwick et al. (2019) observam que, embora parte dos jovens com deficiência intelectual demonstre capacidade de lidar com os riscos on-line, e também de driblar restrições, esses jovens podem enfrentar uma supervisão parental maior, que pode minimizar os riscos, mas também reduz os benefícios e enfraquece a participação digital, podendo levar a um acesso desigual e a um letramento menor.
O Comentário Geral nº 25 deveria fortalecer os apelos para que o ambiente digital seja seguro para todas as crianças desde a concepção e por padrão, sujeito a um monitoramento de segurança tão rigoroso quanto o aplicado a ambientes físicos, como parquinhos (ver, por exemplo, a 5 Rights Foundation, https://5rightsfoundation.com/). Até lá, precisamos ter em mente que a tecnologia digital não é projetada levando em conta as capacidades das crianças, e menos ainda as de crianças pequenas ou com deficiência, ou de crianças que viveram um trauma
No contexto do contato com a família de origem, a resiliência digital significa prestar atenção ao letramento digital da criança ou do jovem, aos riscos potenciais e aos recursos de proteção em sua ecologia social digital, e à forma como a criança e sua família estão preparadas para lidar com eles. O serviço social pode oferecer estratégias para mediar o risco, ao mesmo tempo que promove estratégias ativas de enfrentamento e oportunidades para que os jovens se tornem digitalmente autônomos, à medida que assumem gradualmente a responsabilidade de manter as relações com a família de origem.
Este artigo explorou como a heurística de ecologia digital proposta para o contato com a família de origem (Figura 1) pode orientar as equipes de serviço social e outras profissões que apoiam crianças acolhidas ou adotadas após o acolhimento e suas famílias, além de estruturar uma agenda de pesquisa. Ele sugere que os esforços para fortalecer a resiliência sejam dirigidos à criança e às suas redes de apoio, mas que isso seja acompanhado por esforços para alcançar segurança e privacidade desde a concepção, no desenvolvimento das tecnologias e aplicativos digitais e nas leis e políticas que regem seu uso (Livingstone et al., 2017). A maior parte da prática do serviço social se situa no nível do exossistema, e o design de produtos ou a regulação global de empresas multinacionais estão fora do alcance da maioria das equipes de serviço social. Essas equipes, porém, têm um papel importante na promoção da relacionalidade, dos direitos e da resiliência digitais das crianças, na medida em que essas dimensões afetam suas relações mais próximas dentro dos microssistemas.
A comunicação digital tem um potencial significativo para nutrir as relações entre crianças adotadas ou acolhidas e suas famílias de origem, mas é fundamental ter em mente a dimensão de “contato na realidade” de sua experiência vivida, bem como a natureza emocionalmente real e o impacto potencial de suas interações digitais. O serviço social deve considerar a função complementar do contato on-line (Greenhow et al., 2017), mas sem vê-lo como menos real que a visita presencial. Dado o potencial limitado de resolver dificuldades ou tensões relacionais num ambiente digital, a prática sensível ao trauma exige investir na construção do relacionamento e na mediação fora de todas as comunicações entre as crianças e seus parentes e em apoio a elas (MacDonald, 2021; Collings et al., 2022).
O serviço social deve defender os direitos de participação das crianças. Suas equipes devem atuar segundo códigos de ética profissional que enfatizam tanto a privacidade quanto a autodeterminação (Reamer e Siegel, 2021), o que, no mundo digital, significa formar-se nos protocolos de cibersegurança de seu serviço e cumpri-los, dar o exemplo de boas práticas na obtenção do consentimento informado para o compartilhamento de informações e manter atualizado o conhecimento das leis e das diretrizes do setor. Como “pais institucionais” (corporate parents) das crianças acolhidas, as equipes de serviço social também têm a responsabilidade de ampliar seu letramento digital e de ser um recurso de apoio para pais e famílias acolhedoras. Isso exigirá equipes de serviço social com letramento digital (Taylor, 2017), capazes de selecionar criticamente tecnologias e plataformas on-line, preservando o melhor interesse das crianças.
A comunicação digital altera a ecologia social do contato com a família de origem, introduzindo novas considerações sobre as relações, os direitos e a resiliência digitais das crianças. Parte da mediação feita pelo serviço social pode ser assumida diretamente pelas famílias e pelos jovens, mas isso provavelmente exigirá uma negociação assistida sobre o tipo de plataforma escolhida para o contato, sobre como e quando será usada e sobre os conteúdos que serão compartilhados. Aprimorar as habilidades e os conhecimentos de pais, famílias acolhedoras, crianças e profissões envolvidas em matéria de redes sociais e de privacidade on-line abre possibilidades para fortalecer uma presença on-line de apoio e estratégias alternativas de construção da história de vida (Aroldi e Vittadini, 2017). São necessárias pesquisas futuras para compreender como essas dinâmicas se desenrolam e como o serviço social facilita o uso da tecnologia digital para manter as crianças conectadas à família de origem quando estão fisicamente separadas dela.
Complexe Systémique: a reter
O artigo tem o mérito de recolocar o digital onde a criança vive: não ao lado do vínculo, mas dentro dele. Reler Bronfenbrenner nesse ponto ajuda a ver que a plataforma não é um simples canal entre a família de origem, a família acolhedora ou adotiva e a criança, mas um terceiro ativo, com seus algoritmos, suas sugestões de contatos e suas notificações, que pesa sobre as fronteiras do sistema. Para a prática, vale reter a ideia de negociar o contato digital como um ritual relacional explícito: que meio, em que ritmo, que conteúdos, que lugar para as fotos e sua publicação, quem faz a mediação e como a criança pode se desconectar sem romper. A prudência, porém, se impõe: é um texto conceitual, sem dados próprios, cuja heurística não foi posta à prova; a voz das crianças e dos pais de origem não aparece, e existe o risco de transferir às famílias acolhedoras uma mediação que os serviços não financiam. O quadro jurídico é britânico e australiano. Para ler junto com o artigo sobre o contato com os pais de origem vivido por pais adotivos e com o artigo sobre os vínculos parentais apoiados pelas tecnologias digitais.
Notas do original
Financiamento. Este trabalho recebeu apoio de uma bolsa British Academy / Leverhulme Small Research Grant (SRG1920/101614).
Conflito de interesses. Nenhum conflito de interesses declarado.
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Tradução não oficial em português de Relacionalidade, direitos e resiliência digitais: conceituar uma ecologia social digital das relações de crianças acolhidas ou adotadas com a família de origem, de Mandi MacDonald, Amy Conley Wright, Amanda Taylor-Beswick, Kathryn Gillespie e Susan Collings, The British Journal of Social Work, vol. 53, no 1, p. 216-235 (2023), doi: 10.1093/bjsw/bcac140, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Digital Relationality, Rights, Resilience: Conceptualising a Digital Social Ecology for Children’s Birth Family Relationships When in Care or Adopted”, publicado em The British Journal of Social Work (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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MacDonald, M., Wright, A. C., Taylor-Beswick, A., Gillespie, K., et Collings, S. (2023). Relacionalidade, direitos e resiliência digitais: conceituar uma ecologia social digital das relações de crianças acolhidas ou adotadas com a família de origem (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/relacionalidade-direitos-e-resiliencia-digitais-conceituar-uma-ecologia-social-digital (Obra original publicada em 2022 em The British Journal of Social Work, 53(1), 216-235 (2023); republicada em 2023 por The British Journal of Social Work, https://academic.oup.com/bjsw/article/53/1/216/6651766)
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