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Esta versão foi traduzida do espanhol pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.

Red Sistémica · Psicoterapia

Scripta… volant! Uso e utilidade das mensagens SMS em psicoterapia

As mensagens SMS enviadas por telefones celulares podem representar um recurso terapêutico: garantem que terapeutas possam ser localizados, permitem oferecer apoio em situações graves, prolongam a força da relação terapêutica ao estender a intervenção para além do fim da sessão e tornam possível espaçar os encontros. Para explorar essas funções, a equipe examinou o conjunto das mensagens recebidas durante três a quatro meses por dois terapeutas de características diferentes, bem como suas respostas.

Autores Gianmarco Manfrida, psiquiatra, psicólogo e psicoterapeuta, diretor do Centro de Estudos e Aplicação da Psicologia Relacional de Prato; Erica Eisenberg, psicóloga e psicoterapeuta, docente do mesmo centroPublicação Red Sistémica, 2023Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“Abrevie seus raciocínios, pois nenhum é agradável se for longo.”

Miguel de Cervantes (1547-1616)

“Words are as sunbeams: the more they are condensed, the deeper they burn.” (As palavras são como raios de sol: quanto mais condensados, mais queimam em profundidade.)

Robert Southey (1774-1843)

Resumo

As mensagens SMS enviadas pelos telefones celulares podem representar um recurso terapêutico: permitem garantir o acesso rápido a terapeutas, oferecer apoio nas situações graves, prolongar a força da relação terapêutica ao estender a intervenção para além do fim da sessão e tornar possível uma redução da frequência dos encontros.

Para explorar essas funções, examinamos todas as mensagens recebidas durante um período de três a quatro meses por dois terapeutas de características diferentes. Uma análise quantitativa das mensagens recebidas, que leva em conta as características das mensagens e das pessoas que as enviam, é seguida de um exame mais detalhado que inclui as respostas dos terapeutas e considera a troca de mensagens.

As conclusões, além de confirmarem a hipótese de um uso conscientemente psicoterapêutico das mensagens SMS no quadro de uma terapia, parecem também valorizar a plasticidade do instrumento SMS, que dá a impressão de prestar-se tanto a fins de comunicação prática quanto a fins de apoio ou de intervenção terapêutica, conforme o caso, ao mesmo tempo conciso e incisivo.

Um instrumento barato, rápido e eficaz

Os SMS, mensagens escritas de no máximo cento e sessenta caracteres, enviadas por meio dos telefones celulares, representam hoje uma das modalidades de comunicação mais econômicas, mais rápidas e mais eficazes. Entraram no uso dos jovens a ponto de criar formas linguísticas particulares, ricas em abreviações e em simbolismos condensados, acompanhadas de carinhas (emoticons) que acrescentam uma nuance de significação não verbal, e parecem a muitos um elemento quase folclórico da comunicação atual: na realidade, o tráfego de SMS é altíssimo e representa uma fonte de receita considerável para as operadoras de telefonia móvel. As mensagens, com raras exceções ligadas ao tráfego ou a zonas residuais não cobertas pelo sinal, chegam imediatamente; custam menos que uma ligação; atravessam as fronteiras nacionais; permanecem arquivadas na memória do celular com a hora de envio e o número de telefone do remetente; e podem ser apagadas, guardadas ou repassadas a outros.

Pode esse instrumento ter uma utilidade, um lugar na prática psicoterapêutica? Consideramos que ele já o encontrou na prática da maioria de terapeutas, e que essa prática ainda não codificada exige uma pesquisa de verificação capaz de promover um uso correto e proveitoso dessa nova possibilidade de comunicação.

A possibilidade de manter uma comunicação aberta com as pessoas atendidas por meio dos SMS pode permitir:

1

Sustentar fora dos horários de atendimento

Oferecer apoio nas situações graves, urgentes ou de descompensação, fora dos limites de horário do encontro ou da conversa telefônica.

2

Prosseguir a intervenção

Continuar a intervenção para além do fim da sessão, decifrando a significação da mensagem recebida no interior do processo psicoterapêutico e respondendo a ela de maneira congruente.

3

Garantir a disponibilidade

Garantir o acesso a terapeutas, uma vez que as mensagens chegam imediatamente ou quando o celular é religado, caso estivesse desligado, mas sem a obrigação de responder de imediato, interrompendo outras sessões ou outras atividades.

4

Prolongar a relação terapêutica

Prolongar a força da relação terapêutica para além dos limites de horário da sessão – e portanto do enquadre habitual –, para que a pessoa atendida possa sentir-se estimulada, sustentada ou contida; em todo caso ajudada e acompanhada nos momentos de dificuldade, onde quer que se encontre.

5

Espaçar as sessões

Reduzir a frequência das sessões, com uma diminuição dos custos para as pessoas atendidas.

6

Preservar a autonomia terapêutica

Salvaguardar a autonomia de terapeutas, que podem decidir se, quando e como responder, refletindo com calma sobre a questão, eventualmente também metacomunicando, e mantendo assim o controle sobre eventuais excessos de indiscrição ou tendências a agir de maneira impulsiva.

O propósito deste trabalho é ilustrar as características do uso dos SMS, entendidos como um instrumento que responde aos objetivos descritos, no interior dos processos terapêuticos.

O que diz a literatura

A literatura sobre a relação, mais ou menos substitutiva, mais ou menos integradora, entre psicoterapia e instrumentos informáticos fundados na internet – chats, correio eletrônico, blogs, jogos de papéis e videoconferências – é abundante (10, 1, 9, 18, 19, 21, 5); no campo das terapias relacionais, Luciano L’Abate (14, 15) conduziu um trabalho pioneiro, aprofundado até a concepção e a experimentação de modalidades e de instrumentos capazes de reduzir ao mínimo a interação face a face.

O material relativo ao uso das mensagens SMS é, em compensação, escasso; com frequência, a imprensa especializada e os meios de comunicação de massa assinalam, em tom mais ou menos alarmista, os riscos da dependência (batizada de infomania) (25).

Mas existem também relatos de experiências em que os SMS foram utilizados na medicina para reduzir a ansiedade das famílias de pessoas que iriam submeter-se a uma intervenção cirúrgica (11), para melhorar a taxa de comparecimento às consultas ambulatoriais (7, 17), para administrar o acompanhamento medicamentoso de pessoas diabéticas (13) e para favorecer a comunicação na presença de deficiências auditivas (20).

O fenômeno juvenil dos SMS foi estudado por suas características de uso e de linguagem (6, 2, 12) e levado em consideração pela psicanálise por suas significações de distanciamento da relação direta com o outro, inclusive na eventual relação terapêutica (26); um uso terapêutico do celular em casos de transtornos fóbicos ao dirigir já havia sido proposto por Flynn em 1992 (8).

No que se refere à utilização dos SMS, dispomos de algumas indicações para fins de counseling graças à descrição da atividade de um serviço de escuta para jovens em Lecco, onde a modalidade de acesso preferida revelou-se ser a dos SMS (3). Um verdadeiro uso terapêutico dos SMS, ainda que sob a forma de um reforço padronizado, é atestado por uma pesquisa neozelandesa significativa sobre a utilização das mensagens como suporte de um programa de cessação do tabagismo (22). Essa pesquisa mostra que, após seis semanas, um grupo de fumantes, incluído em um programa de recebimento de SMS de conselho e de encorajamento apresentava uma taxa de abandono da nicotina duas vezes superior à do grupo de comparação; os resultados positivos mantinham-se seis meses depois. Alguns sites da internet aprofundam seriamente a questão da relação entre psicoterapia e internet (24, 28, 29, 4), um deles ocupando-se também dos SMS (27).

Método da investigação

Propusemo-nos a examinar sob diversos ângulos todas as mensagens, sem excluir nenhuma, enviadas a dois terapeutas pelas pessoas que atendem durante um lapso de tempo bastante longo (três a quatro meses), bem como as respostas correspondentes. A escolha de visar a um número elevado de mensagens, a um período prolongado e a um número limitado de terapeutas foi feita para reduzir a variabilidade que a participação de um número maior de profissionais teria induzido, por excesso de estilos terapêuticos e comunicacionais distintos; os dois terapeutas, um psiquiatra e uma psicóloga, ambos especializados em psicoterapia, compartilham o mesmo tipo de abordagem relacional e utilizam habitualmente os SMS com plena consciência e com intencionalidade terapêutica. Com efeito, não é o uso ocasional dos SMS como modalidade de comunicação prática, comum a qualquer pessoa que use celular, que nos interessa, mas sua utilização consciente pelas pessoas atendidas e por terapeutas no interior de uma relação e de um processo de terapia. Os dois terapeutas empregam há anos o telefone celular como instrumento de trabalho, dando seu número a toda a clientela e respondendo pessoalmente a todos os contatos; para sua vida pessoal, privada e familiar, dispõem de outro número, reservado, que pode permanecer acessível mesmo quando o do trabalho está desligado.

As mensagens expedidas pelas pessoas atendidas foram estudadas em seu conjunto, mas também separadas por terapeuta e traduzidas em porcentagens, no que se refere a:

1

O número

O número total de mensagens recebidas por cada terapeuta.

2

O sexo de quem escreve

A distribuição das mensagens segundo o sexo da pessoa que as envia.

3

O conteúdo

O conteúdo, distinguido em quatro categorias.

4

O diagnóstico

O diagnóstico, segundo quatro grandes áreas psicopatológicas.

5

As características de urgência

A presença, na mensagem, de indicações de risco grave e imediato.

6

O horário e o dia de envio

A hora de envio e o dia de envio, distinguido em dia útil, véspera de feriado e feriado.

Relacionar as mensagens recebidas com as respostas enviadas pelos terapeutas permitiu, além disso, completar as indicações quantitativas dessa primeira fase da pesquisa com uma avaliação qualitativa, extraindo algumas sugestões para um uso terapêutico da correspondência por SMS.

As mensagens recebidas, assim como as respostas, foram descarregadas a cada semana em um computador pelos terapeutas; estes, no momento do início da pesquisa, não estavam informados dos parâmetros que seriam estudados, mas apenas da necessidade de conservar todas as mensagens recebidas e suas próprias respostas.

As pessoas que enviaram as mensagens não constituem uma população selecionada sob nenhum ângulo entre a clientela dos dois terapeutas: são somente as que recorreram, no período examinado, a essa modalidade de contato. As instruções que receberam são igualmente as mesmas dadas a toda a clientela desde a primeira entrevista: preveem que os terapeutas mantenham seu celular desligado nos feriados ou nos dias de férias e que respondam diretamente às ligações telefônicas das 9h30 às 20h nos dias úteis e nas vésperas de feriado; que, de todo modo, mesmo nesses dias, em condições que o tornem inevitável, o celular possa permanecer desligado durante períodos mais ou menos prolongados. Nesse caso, se preferirem, as pessoas atendidas podem enviar um SMS, com a certeza de que, assim que possível, a mensagem será lida e respondida por outro SMS; mesmo nos feriados e durante as férias, as mensagens recebidas são conferidas duas vezes por dia e, se for o caso, respondidas.

O exame quantitativo diz respeito apenas às mensagens enviadas pelas pessoas atendidas, uma vez que não era possível obter parâmetros que tornassem igualmente avaliáveis as respostas dos terapeutas, condicionadas em seus conteúdos, seus horários e suas características pelas primeiras; em compensação, as trocas de mensagens foram submetidas à análise, examinando-se o vínculo entre o tipo de solicitação e a resposta no interior da relação terapêutica. Pediu-se aos terapeutas que justificassem a resposta enviada; os resultados dessa parte da pesquisa serão expostos sob a forma de exemplos comentados de trocas de SMS típicas.

Análise quantitativa dos SMS recebidos pelos terapeutas

Número de mensagens SMS e distribuição por sexo

O terapeuta A, psiquiatra, recebeu 112 mensagens (91 de 18 pacientes mulheres e 21 de 7 pacientes homens) em quatro meses, com uma média de 0,93 mensagem por dia; a terapeuta B, psicóloga, recebeu em três meses 53 mensagens (42 de 20 pacientes mulheres e 11 de 6 pacientes homens), com uma média de 0,59 mensagem por dia.

112
SMS recebidos em quatro meses pelo terapeuta A (psiquiatra)
53
SMS recebidos em três meses pela terapeuta B (psicóloga)
51
pessoas que escreveram ao todo, em sete meses acumulados

Quadro 1 – Número total de pessoas atendidas e por sexo; número total de SMS e por sexo de quem escreve; média diária de SMS recebidos. (Os oito quadros do artigo original apresentavam-se sob a forma de imagens, hoje indisponíveis; suas legendas são conservadas aqui, sendo os dados numéricos retomados no corpo do texto.)

A relação numérica entre homens e mulheres reflete a composição da clientela dos dois profissionais.

A média diária dos SMS, aparentemente baixa, é na realidade calculada sobre o número total de dias, inclusive os dias não úteis, dos sete meses considerados ao todo. Pode-se observar que o terapeuta A, médico psiquiatra e psicoterapeuta, com um número equivalente de pessoas atendidas e uma distribuição semelhante por sexo, recebe quase 40% mais mensagens do que a terapeuta B, psicóloga psicoterapeuta.

Quadro 2 – SMS por sexo de quem escreve: porcentagem sobre o total dos SMS e média por pessoa.

Parece que as pacientes fazem um uso maior da possibilidade de comunicação oferecida pelos SMS, enviando 40% mais mensagens do que os homens; mas um exame mais aprofundado permite excluir que o número mais elevado de mensagens recebidas pelo terapeuta A, um homem, em relação a B, uma mulher, dependa do sexo do terapeuta ou do das pessoas que escrevem.

Quadro 3 – Quadro por terapeuta, com a distribuição numérica das mensagens por pessoa.

O quadro evidencia uma distribuição diferente, entre os dois terapeutas, do número de mensagens recebidas: A recebe uma única mensagem da metade das pessoas atendidas em relação a B, ao passo que algumas pessoas lhe enviam muitas mais (de 8 a 23 cada uma!), fenômeno que não se verifica na clientela de B.

Conteúdo das mensagens

O conteúdo das mensagens foi classificado em quatro grandes categorias segundo o tema: M (perguntas sobre os medicamentos), A (anulação de uma consulta), S (solicitação de uma consulta, inclusive para um contato telefônico), I (pedido ou comunicação de informações relativas à terapia), Ps (mensagem ligada a intervenções terapêuticas realizadas nas sessões, e elaboração destas).

Quadro 4 – SMS por conteúdo: número e porcentagem sobre o total.

Verifica-se que, embora um dos terapeutas seja médico psiquiatra, as mensagens relativas aos medicamentos são raras, menos numerosas do que as que anulam ou solicitam consultas; o conteúdo dos SMS está, de todo modo, ligado sobretudo às intervenções realizadas durante as sessões de psicoterapia e aos fatos que a elas se referem.

Diagnóstico

Pediu-se aos dois terapeutas que distribuíssem as pessoas atendidas que haviam escrito em quatro grandes áreas diagnósticas: transtornos do humor, da ideação, neuróticos e da personalidade. A escolha de não recorrer a uma avaliação externa ou ao uso de testes diagnósticos justifica-se pela decisão de não interferir no processo terapêutico; a limitação a essas quatro grandes áreas diagnósticas deveria de todo modo reduzir os riscos ligados à subjetividade da avaliação e ao envolvimento na relação.

Quadro 5 – SMS por áreas diagnósticas e por terapeuta.

Os casos acompanhados pelo terapeuta A, psiquiatra além de psicoterapeuta, são avaliados como pertencentes a áreas diagnósticas suscetíveis de apresentar transtornos, se não mais graves, ao menos expostos a crises agudas mais frequentes; a terapeuta B, psicóloga, também atende pessoas desse tipo, mas em número menor.

Urgências

Foram considerados urgentes por uma avaliação externa, com base em um exame do contexto (horário, dia da semana, presença de outras mensagens), do conteúdo e da maneira como este é expresso na mensagem, os SMS que apresentavam indicações de risco grave e imediato para a saúde de quem escreve ou de outrem: intenções suicidas, ameaças de violência, intenção de passar a comportamentos indesejáveis.

Quadro 6 – SMS que apresentam características de urgência.

O terapeuta A recebe SMS com características de urgência de pessoas diferentes, ao menos uma vez por mês, fenômeno que não se verifica com a terapeuta B. O fato de que as urgências digam respeito a pessoas diversas, e não a modalidades repetitivas de contato, leva a considerá-las merecedoras de ser levadas a sério.

Horários

Os SMS trazem, abaixo do texto, a indicação da hora de envio. Uma vez que os terapeutas asseguram uma disponibilidade telefônica das 9h às 20h, foi feita uma análise das mensagens enviadas fora do horário, das 20h às 9h, e das pessoas que as enviaram. Consideraram-se em particular o peso em porcentagem das mensagens recebidas por cada um dos terapeutas; o número de pessoas que escreveram em relação ao total de cada terapeuta; a frequência máxima e mínima do recurso às mensagens fora do horário. Os terapeutas responderam geralmente na manhã seguinte.

Quadro 7 – SMS enviados fora do horário (depois das 20h e antes das 9h): número e porcentagens das mensagens e das pessoas que escreveram, por terapeuta.

Não se detectam diferenças significativas entre os dois terapeutas na recepção de mensagens “fora do horário” quanto ao número de pessoas que escreveram; A recebe mais mensagens do que B, mas isso se deve a um pequeno número de pessoas que enviam uma quantidade mais elevada de mensagens.

Feriados e vésperas de feriado

Além da hora, os SMS vêm acompanhados da indicação do dia de envio. Uma vez que os terapeutas não trabalham nem no sábado, nem no domingo, nem durante os períodos de férias, e que combinam com as pessoas atendidas uma disponibilidade telefônica até as 20h no sábado e um recebimento de mensagens nos demais dias, incluímos na pesquisa um exame das mensagens chegadas nas vésperas de feriado e nos feriados, quando a disponibilidade dos profissionais é reduzida ou nula, a fim de ver se isso acarretava alguma variação indicativa de uma função particular dos SMS na relação terapêutica quando as possibilidades de contato são reduzidas. Efetuou-se, portanto, para cada terapeuta, ponderando de maneira diferenciada os dias de férias tomados no período examinado, uma contagem total e uma contagem separada dos SMS das vésperas de feriado e dos feriados; uma avaliação em porcentagem do número das mensagens sobre o total recebido; uma contagem do número de pessoas que recorreram a esse recurso de comunicação.

Quadro 8 – SMS enviados nas vésperas de feriado e nos feriados: número e porcentagens por terapeuta.

Observa-se que o terapeuta A recebe muito mais mensagens nas vésperas de feriado e nos feriados, quase quatro vezes mais do que B; as pessoas que lhe enviam mensagens são mais numerosas; a porcentagem sobre o total das mensagens é quase o dobro.

No conjunto, pode-se concluir que o terapeuta A – psiquiatra além de psicoterapeuta, homem e mais velho – recebe, com clientela equivalente, mais mensagens durante a semana e sobretudo fora do horário, nas vésperas de feriado e nos feriados, bem como mensagens que apresentam características de urgência, comparativamente a B, psicóloga psicoterapeuta, mulher e mais jovem. A diferença deve-se a um número mais elevado de mensagens enviadas por algumas pessoas, pertencentes a categorias diagnósticas que implicam maior gravidade clínica; em compensação, é independente do sexo de quem escreve e do do terapeuta. O conteúdo das mensagens também é diferente: poucas dizem respeito a prescrições de medicamentos, recebendo A antes um número maior de comunicações relativas ao andamento e ao percurso da intervenção psicoterapêutica, mais orientadas no sentido de um pedido de “prolongamento” das sessões.

Dado que o terapeuta A tende em geral a ver sua clientela com menos frequência do que a terapeuta B, e que boa parte dela é acometida por patologias mais graves que exigem com frequência intervenções urgentes, pode-se pensar que esse mesmo terapeuta A utiliza os SMS como confirmação ou controle do processo terapêutico com mais assiduidade do que B, que deles faz mais frequentemente um uso orientado para a gestão prática da terapia e para um apoio psicológico.

Para lembrar

As diferenças observadas entre os dois terapeutas não se devem nem ao sexo do terapeuta nem ao de quem escreve, mas à gravidade clínica das situações acompanhadas e ao espaçamento das sessões. Delineiam-se dois usos distintos e igualmente legítimos do SMS: um voltado antes para a confirmação e o controle do processo terapêutico, o outro para a gestão prática da terapia e o apoio psicológico.

Essa hipótese de dois usos possíveis, distintos e legítimos, dos SMS só pode ser confirmada por um exame qualitativo das trocas, comparando algumas mensagens recebidas por cada um dos dois terapeutas e as respostas que eles lhes deram.

Exemplos de trocas de SMS entre pessoas atendidas e terapeutas

Primeiro exemplo: a paciente Francesca e o terapeuta A

Trata-se de uma enfermeira de 31 anos, em seu quinto atendimento de psicoterapia por transtornos depressivos, com uma tentativa de suicídio por ingestão de medicamentos e um transtorno de personalidade borderline. Ela vive sozinha; a tentativa de suicídio se segue ao fim de uma relação amorosa com um homem muito problemático, infiel e violento, mas também exigente e despótico.

Troca de mensagens

F., quarta-feira 01/02, 23h40: Sempre me senti fora da vida social. Com ele eu me sentia normal. Ser traída também é normal… O orgulho não é tão importante.

A., quinta-feira 02/02, 10h: De fato, a concorrência não a estimula, não é mesmo? Vamos, Francesca… Não faça o papel de apaixonada louca.

F., quinta-feira 02/02, 10h15: O orgulho é importante, mas é secundário. É a solidão que provoca as crises de angústia, então eu ajo para não ficar sozinha. Se eu o perder, fico sozinha.

A., quinta-feira 02/02, 11h05: A companhia do Richard me parece comprometedora e incerta demais para você… Mas faça como achar melhor.

F., quinta-feira 02/02, 18h56: Sinto-me sozinha como um ano antes de conhecê-lo. Passo o dia inteiro na cama. A que posso me agarrar?

A., quinta-feira 02/02, 19h10: Você sabe perfeitamente que, enquanto isso, pode se agarrar a mim. De fato, você me liga e me escreve… e faz bem, pode contar comigo, Francesca. Depois veremos.

Em um encontro dois dias antes, F. havia relatado que Richard voltara a se aproximar dela e que ela sentia graves dificuldades emocionais; o objetivo de A é permanecer uma referência, inclusive entre as sessões, numa fase inicial da relação terapêutica em que ainda não foi possível estabelecer um vínculo suficientemente sólido para oferecer garantias contra a repetição de comportamentos autoagressivos. Um fator de alarme é o horário da primeira mensagem, bem como a menção, na terceira, do dia passado na cama, isto é, sem ir trabalhar e sozinha em casa. As mensagens do terapeuta respondem ao pedido de F. de não ser deixada sozinha; ao mesmo tempo, prosseguem uma linha de intervenção iniciada na última entrevista, que visa modificar a imagem de Richard como príncipe encantado único e insubstituível, e buscar nas características de personalidade e na história da paciente as motivações de seu mal-estar, como forma de reduzir sua reatividade a estímulos exteriores incontroláveis, tais como as idas e vindas de Richard.

Segundo exemplo: a paciente Claudia e a terapeuta B

Troca de mensagens

C., sábado 01/04, 18h46: Passei também em francês, e a professora que havia me reprovado da vez anterior me parabenizou. Estou contente. Até quarta-feira. Um abraço.

B., sábado 01/04, 19h05: Muito bem, Claudia! Estou muito contente. Você demonstrou capacidade, determinação e vontade, e foi recompensada com toda a justiça. Até quarta-feira. Com afeto.

Claudia tem 22 anos, está em terapia há dois anos por crises de bulimia; eliminado esse problema, a terapia orientou-se, há um ano, para a resolução de problemas de crescimento que bloquearam o desenvolvimento da vida de Claudia, tanto no campo dos estudos quanto no das relações sociais e afetivas. A mensagem responde a um período de apoio à retomada da assiduidade universitária. A terapeuta não quer apenas valorizar o resultado obtido pela paciente, mas fazê-la adquirir, através dele, uma maior confiança em qualidades de caráter das quais se sente desprovida. Ao mesmo tempo, a terapeuta minimiza seu próprio papel na obtenção do resultado, aceita uma relação parcialmente adotiva, solicitada através do abraço, mas a modera com um com afeto; confirma a consulta seguinte, garantindo implicitamente que, por ora, não há risco de que ela se retire se a paciente progredir.

A mensagem visa, portanto, a um apoio terapêutico que ultrapassa o resultado positivo e se estende a uma reorganização do caráter.

Terceiro exemplo: a paciente Tilde e o terapeuta A

Troca de mensagens

T., quinta-feira 26/01, 20h10: Doutor, a respeito desse medicamento, eu preciso dele? Poderia me servir para devolver ao meu cérebro serotonina, adrenalina…?

T., sexta-feira 27/01, 9h38: Mas como se resolve o problema da despersonalização, com os tiques que aparecem quando estou estressada?

T., sexta-feira 27/01, 14h10: Doutor, minha histeria está ligada à demência?

T., sexta-feira 27/01, 18h22: Doutor, se eu não paro de falar, é porque sou louca?

A., sexta-feira 27/01, 18h32: Você não é louca, Tilde, mas é muito inconveniente…

Tilde apresentou transtornos delirantes de transformação corporal, atualmente contidos por uma defesa rígida fundada em rituais obsessivos; em terapia há alguns meses, ela pede sem cessar garantias, de modo obsessivo, ao terapeuta, que não responde a todas as mensagens, mas somente a algumas, numa tentativa – uma vez contidos os transtornos da ideação – de tornar menos rígidas defesas compulsivas, muito limitantes também para a vida cotidiana. A resposta de A visa, de um lado, a fornecer a garantia buscada; de outro, em relação à ausência de resposta aos SMS anteriores, a favorecer um melhor controle da ansiedade.

Quarto exemplo: o paciente Luigi e a terapeuta B

Troca de mensagens

L., domingo 13/03, 14h05: Doutora, bom dia, é o Luigi, acabo de chegar ao aeroporto de Budapeste… aqui está tudo bem… a viagem correu bastante bem. Muito obrigado! Um abraço!

B., segunda-feira 14/03, 9h20: Luigi, fico feliz que a viagem tenha corrido bem. Fique tranquilo e divirta-se. Até breve.

A ligação por SMS combinada na sessão anterior à partida permite ao paciente, que sofre de ataques de pânico, enfrentar uma viagem de avião com sua companheira e algumas pessoas próximas. O êxito da empreitada pode contribuir para aumentar a confiança em si do paciente e reduzir os riscos de recidiva dos ataques de pânico, evitando também o surgimento de problemas na relação afetiva e no grupo social de referência. A resposta da terapeuta confirma seu interesse protetor, sem carregar o paciente de responsabilidades em excesso, devolvendo assim a experiência atravessada a um quadro de normalidade.

Alguns exemplos de SMS entre os mais frequentes, por tipo de conteúdo

Medicamentos

Troca de mensagens

Uma paciente para A: Se eu tivesse de aumentar a sertralina, quando deveria tomar o segundo comprimido?

Anulação

Troca de mensagens

Um paciente para B: É o T., estou doente. O dia 15 me serviria, se não houver problema. Obrigado.

B. ao paciente: T., lamento que você esteja doente. Ligue para mim antes das 11h30 ou das 13h às 13h45 e eu lhe darei a próxima consulta.

A resposta da terapeuta é acolhedora, mas sublinha que não cabe ao paciente decidir a data e a hora das consultas, convidando-o a combinar em conjunto a nova data.

Informação e controle

Troca de mensagens

Um paciente de A (uma semana depois do primeiro encontro): Bom dia, não há melhora, estou abatido e tenho medo de não conseguir.

A. ao paciente: Compreendo a incerteza e o desânimo, mas você sabe que aqui todo mundo lhe quer bem e que não há razão para se sentir como um cachorrinho perdido numa floresta de lobos. Além disso, dentro de pouco tempo os medicamentos também farão efeito. Coragem!

Uma paciente para B: Bom dia, eu queria lhe dizer que em Caserta correu tudo bem. Perdoe-me por lhe enviar esta mensagem com alguns dias de atraso.

B. à paciente: Meus parabéns, Marcella. Fico muito feliz com isso.

Às mensagens que os informam de dificuldades e de progressos, permitindo um controle do que se passa entre as sessões, os terapeutas respondem com uma participação que sustenta as pessoas atendidas nos momentos mais duros e os reforça positivamente naqueles de um êxito merecido.

Psicoterapia

Troca de mensagens

Uma paciente para B: Bom dia, Doutora! Como estou um pouco abatida, eu lhe seria grata se me enviasse, se possível, um SMS de encorajamento. Minha situação com Mauro não mudou. Obrigada e desculpe.

B. à paciente: Luciana, dou a você todo o meu encorajamento e todo o meu apoio, mas gostaria primeiro de saber como é que você não veio à consulta de 10/02, o que aconteceu com você.

A terapeuta aceita o pedido de encorajamento, mas anuncia o tema da próxima sessão, convidando a paciente a um engajamento maior e iniciando uma intervenção sobre a relação terapêutica, entendida como apoio ou como aliança com vistas a uma mudança.

Troca de mensagens

Uma paciente para A: FIQUEI ANSIOSA O DIA INTEIRO. NO FIM NÃO AGUENTEI MAIS E CEDI À MINHA AUTOTERAPIA BEBENDO LICOR DE AMÊNDOA. CHOREI MUITÍSSIMO. TENHO VERGONHA DISSO. EU QUERIA LHE CONTAR. P.S. ESPERO DORMIR ESTA NOITE E VER VOCÊ AMANHÃ ÀS 10H30, SENÃO LIGAREI PARA O HORÁRIO DAS 13H.

A. à paciente: Ponha o despertador, Annarita: o horário das 13h não está mais disponível.

O terapeuta capta o caráter dramático, acentuado até na escrita em maiúsculas da mensagem, que contrasta com a reserva de guardar para si, até a manhã seguinte, o privilégio de vir na hora marcada ou mais tarde: ele se recusa a desresponsabilizar a paciente, garantindo-lhe ao mesmo tempo sua disponibilidade, e cria as premissas para propor, na sessão seguinte, a necessidade de tratar-se verdadeiramente do alcoolismo, em vez de sentir pena de si mesma e fazer-se lamentar por sua própria incapacidade. Ele escolhe de propósito responder de modo muito breve e usando apenas minúsculas, a fim de sublinhar o componente exibicionista da mensagem recebida.

Troca de mensagens

Um paciente para A: Deve haver alguma razão para eu sempre ficar doente 2 dias antes da prova…

A. ao paciente: Também começo a desconfiar disso…

O paciente para A: Isso é encorajador…!

Eis uma troca muito breve que põe em jogo uma reflexão irônica sobre a repetição de um problema e sobre a relação terapêutica, reflexão que poderia ocorrer no curso de qualquer sessão de terapia.

Pedido de consulta, para um encontro ou para uma conversa telefônica

Troca de mensagens

Um paciente para A: Você pode me dar um horário para uma conversa por telefone?

A. ao paciente: Ligue agora.

Uma paciente para B: Doutora, você pode me atender na quinta-feira às 17h45? Estou enviando uma mensagem porque não gostaria de incomodá-la, até logo, Gioia.

B. à paciente: Gioia, na quinta-feira estou lotada. Ligue para mim amanhã das 10h às 12h para marcar outro horário. Com afeto.

A escrita terapêutica dos SMS

A maneira como os SMS são escritos nunca deve ser considerada fortuita, tanto no caso dos que chegam quanto no dos que são enviados pelos terapeutas.

No exemplo anterior, uma das mensagens, escrita toda em maiúsculas, parece inteiramente coerente com um diagnóstico de personalidade histriônica, tanto pelos caracteres quanto pelos conteúdos: ela já comporta, portanto, uma sugestão diagnóstica.

Muitas mensagens, além disso, chegam aos terapeutas sem assinatura, como se a pessoa pretendesse ser imediatamente reconhecida ou, melhor ainda, ser única na relação terapêutica; nesse caso, uma resposta que se limite a assinalar a ausência de assinatura restabelece de imediato um princípio de realidade na relação, poupando ao mesmo tempo o trabalho de identificar o envio recorrendo à agenda.

Às vezes as mensagens recebidas contêm incoerências e contradições que podem ser imediatamente assinaladas e examinadas depois na terapia, de modo a criar uma ativação na pessoa atendida e a treiná-la na exploração psicológica.

Um uso expressivo, se não conscientemente retórico, dos SMS é igualmente atestado pelo uso da pontuação, como no exemplo seguinte, em que se vê o quanto a paciente busca comunicar a notícia de maneira impactante:

Troca de mensagens

Uma paciente de A: Bom dia, é a Cristina… tenho uma novidade… estou grávida de cerca de oito semanas. Pelo visto fiz mal as minhas contas!

Do lado terapêutico também, cada SMS recebido exige escolhas estilísticas de resposta adaptadas ao conteúdo, de modo a confirmá-lo e a reforçá-lo com elementos persuasivos (16): para responder a uma anulação, por exemplo, pode-se escolher um tom neutro, ou preocupado, ou mesmo indiferente, segundo a significação atribuída à anulação, o momento do processo terapêutico e as intenções quanto à intervenção.

Recorrer ao primeiro nome da pessoa pode ser uma maneira de dar maior personalização à mensagem, tornando menos fria a palavra escrita. O lugar do nome na mensagem pode exprimir nuances de significação diferentes: por exemplo, Giovanni, você fez uma besteira é mais compreensivo e menos acusatório do que Você fez uma besteira, Giovanni!, em que a contiguidade com o fim da frase, ainda mais se houver um ponto de exclamação, parece implicar uma repreensão em vez de uma solidariedade consoladora. Esta, por sua vez, pode ser acentuada simplesmente pelo uso da pontuação: Giovanni, você fez uma besteira… Pode-se dizer que a organização da frase, a distribuição das palavras, a pontuação, a sonoridade que ressoa em nós na leitura e outros recursos dão igualmente à mensagem escrita esse aspecto conotativo das significações que a pragmática da comunicação atribui ao componente analógico da linguagem (23).

Para lembrar

Nada é fortuito num SMS: as maiúsculas, a ausência de assinatura, a pontuação, o lugar do nome são outros tantos marcadores analógicos. Na terapia, escolhe-se, portanto, a cada mensagem, um tom e uma forma; a assinatura, por extenso ou em iniciais, funciona como um marcador de contexto que lembra que a troca se dá numa relação profissional.

Assinar sempre as mensagens, por extenso ou por iniciais, não é, portanto, apenas uma dívida de cortesia e um sinal de educação: um fecho como Dra. E. B. (inicial do primeiro nome, sobrenome por extenso) ou G. A. (iniciais) representa de todo modo um marcador de contexto, indicando que se trata de uma mensagem inscrita numa relação profissional, o que reduz os riscos de um excesso de familiaridade.

Quando se considera, na posição de terapeuta, que se recebem mensagens demais, ou quando se quer sublinhar com fins terapêuticos o desequilíbrio da relação, podem-se empregar diversas maneiras: responder com um SMS que sublinhe o excesso, não responder, ou responder apenas depois de um prazo suficiente para fazer a pessoa temer ter exagerado, conservar as mensagens na memória do celular e utilizá-las na sessão seguinte para delas fazer um tema de trabalho sobre a relação…

Na terapia, a escolha dos termos apropriados para criar na pessoa atendida o efeito psicológico desejado é um empenho, de grau variável, mas que não se deve subestimar: um simples encorajamento não é, com efeito, o mesmo conforme seja expresso por Muito bem! ou por Até breve. Uma brincadeira ou um comentário jocoso podem confirmar um entendimento particular em certas situações: por exemplo, Parabéns, um resultado de prestígio que lhe trará crédito… e clientes!; em outras, é oportuno empregar expressões mais gerais, por exemplo: Fico feliz que você tenha obtido um resultado tão bom.

Uma história através dos SMS

Com base no que foi dito a respeito do uso não fortuito das mensagens, deveria ser possível ver a história terapêutica em evolução reunindo todos os SMS enviados por uma mesma pessoa ao longo de um período prolongado, paralelamente às sessões de terapia, bem como as respostas terapêuticas.

Exemplo: Luciano, 43 anos, é um empresário acometido de transtornos narcísicos da personalidade, com reações impulsivas e arriscadas ocasionais, em fase depressiva na sequência de uma separação turbulenta que poderia comprometer sua situação profissional e econômica; ele tem dois filhos pequenos que a mãe pretende levar para outra região, perspectiva de perda que ele não consegue aceitar.

Troca de mensagens

Luciano para A, 27/01, 17h21: É mais forte do que eu, não consigo me controlar, não dou conta: ver meus filhos brincando na quadra, felizes e serenos, e pensar que há alguém fazendo de tudo para afastá-los de mim, imaginando que longe de mim eles ficarão bem, isso me corta a respiração, isso me mata. Choro só de pensar que há grandes chances de que isso possa acontecer. Eu sei, tenho de ser forte e estar sempre sorrindo, mas cada dia é mais difícil.

Resposta de A, 27/01, 18h02: Você luta por amor aos seus filhos, tanto quanto para sobreviver; aguente firme e não faça besteira, eles precisam de você. Você não está numa corrida de cem metros, mas numa maratona.

Luciano, 29/02, 15h40: Bom dia! Passei por um período de extrema confusão, desculpe não ter ligado para você. Quando posso ligar? Um abraço.

Resposta de A, 29/02, 19h05: Ligue agora, se quiser.

Luciano, 25/04, 2h43: Passei um domingo sereno, sozinho em casa, e uma bela noite com amigos… Estou fazendo a contagem regressiva à espera de poder ficar com meus filhos. É uma bela sensação, boa noite e sobretudo: um bom despertar!

Luciano, 30/04, 11h12 (mensagem não assinada): O juiz decidiu que as crianças ficariam aqui, e que eu poderia estar mais com elas… Não acabou, mas é uma grande vitória. Estou muito feliz!

Resposta de A, 01/05, 10h23: Parabéns, de verdade: você fez o que não lhe é fácil, ficar tranquilo e aguentar firme, e sua tenacidade foi recompensada. Continue assim!

A segunda sequência de mensagens apresenta uma evolução narrativa coerente, ainda que consista em trocas espaçadas no tempo, e um sentido terapêutico fundado na proposta de uma história de resgate altruísta e sofrido, dirigida a um homem e pai deprimido e confuso. As mensagens pontuam a evolução da história desenvolvida nas sessões de terapia, integrando-se a ela, reforçando-a, resumindo-a e relançando-a nos momentos de dificuldade, mas também sintetizando-a numa moral que anuncia um aprofundamento, na terapia, do trabalho sobre o transtorno da personalidade.

Um caso-limite

Esta troca de mensagens, enviadas a uma terceira terapeuta, refere-se a uma situação que nada tem de incomum, mas que é de natureza a alarmar particularmente terapeutas mais jovens. Trata-se de SMS enviados de maneira anônima, por computador, com mensagens de amor procedentes de um suposto paciente.

Troca de mensagens

Xxxxadsl.it, quarta-feira 18/05, 15h42: Como você é bonita, Diletta… feliz de quem pode falar com você… roçar em você… amar você… fique tranquila, sou apenas um admirador, nada mais. (A mensagem não é assinada e o número de telefone não é localizável.)

Xxxxadsl.it, sexta-feira 21/05, 0h19: Amar mais… é uma doce loucura e também um pouco culpa minha… pois eu amo você mais… Adeus, Diletta. (A mensagem não é assinada e o número não é localizável. O conteúdo da mensagem é um trecho de uma canção.)

Xxxxadsl.it, sexta-feira 21/05, 0h19: O que é amar… é escutar em silêncio a lua e se perder… e sofrer sem fazer barulho… amar é você, lento despertar… (A mensagem, ainda anônima, prossegue o texto da canção anterior.)

Xxxxadsl.it, sábado 22/05, 8h40: Eu queria você, eu queria você, e venderia até a minha alma… eu queria você com Q maiúsculo… eu quero você tanto que não aguento mais… Bom domingo. (A mensagem, nas mesmas modalidades, reproduz um trecho de outra canção, de outra autoria.)

De um número de celular, domingo 22/05, 15h18: Bom dia, Doutora, sou o Jacopo, um de seus antigos pacientes. Escrevo esta mensagem para suplicar que você me perdoe: sou o autor das mensagens anônimas que você recebeu… perdão e perdão de novo, a você e ao seu marido. Ainda estou numa crise terrível e, nos momentos mais desesperados, agarro-me às poucas lembranças bonitas que tenho. Você não receberá mais nenhuma outra mensagem minha. Eu juro. Estou pronto a reparar, se causei algum dano. Desculpe-me mais uma vez. Atenciosamente. Jacopo Bianchi.

A terapeuta a Jacopo, segunda-feira 23/05, 9h: Compreendo que o fato de estar mal possa levá-lo a buscar um “anestésico” ou uma “ama” em vez de uma ajuda terapêutica. Não perca a esperança, mas busque esta última, antes de qualquer outra coisa. Dra. Diletta Rossi.

A terapeuta espera a manhã de segunda-feira para enviar sua resposta, a fim de não dar a impressão de ter sido perturbada demais pessoalmente ou em sua vida familiar. Ela sabe que trouxe, ainda que fosse à época jovem e pouco experiente, uma ajuda significativa ao paciente, e formula uma resposta que o ajuda a retomar os fios de um discurso terapêutico interrompido.

Jacopo é um rapaz cujo caso a terapeuta citada acompanhou até dois anos atrás. Obeso (cerca de 120 kg para 165 cm), ele sofria de ataques de pânico muito graves com agorafobia; matriculado com excelentes resultados na escola de enfermagem, havia interrompido subitamente seus estudos e toda relação social. Nunca havia saído com uma moça; a família se vira esporadicamente presa em graves dificuldades.

Na terapia apareceu rapidamente uma situação grave, complicada pelo abuso de álcool (à noite e sozinho), pela redução progressiva de toda atividade social e pelo surgimento de ideias de referência. Ele às vezes se apresentara à sessão com os dois braços cobertos de cortes nítidos e profundos, declarando intenções suicidas.

Terceiro filho, nascido na sequência e em compensação da morte prematura, aos 5 anos, de uma irmã chamada Jacopina, ele sempre fora um menino modelo, gentil e bom, superprotegido por pais abalados pela morte da filha. A irmã mais velha havia saído de casa, com muitas dificuldades de desligamento, dois anos antes. A psicoterapia durara cerca de dois anos; Jacopo não retomara os estudos, mas retomara algumas amizades. Cuidava de um cachorrinho e às vezes ajudava o pai nos trabalhos do campo; fazia compras por conta dos pais.

Ele não tinha mais ataques de pânico, não se cortava mais e não bebia mais álcool; a obesidade, essa, persistia.

Superados os sintomas mais agudos, no início de um aprofundamento do trabalho sobre os transtornos da personalidade, Jacopo passara a dizer que só vinha porque estava apaixonado pela terapeuta e, depois de alguns meses, abandonara dizendo que preferia parar. Os pais, naquele momento, também haviam interrompido os contatos.

A terapeuta observa o mal-estar por trás dos conteúdos e dos horários de envio das mensagens, e utiliza a ocasião oferecida para repropor a possibilidade de retomar a terapia, ainda que com outros, em vez de confiar-se a fantasias ou a infantis esperanças de adoção afetiva. Com efeito, Jacopo busca a solução de seu problema de autonomia pessoal reduzida – ao qual corresponde um grave transtorno da personalidade – na fantasia de ser salvo pelo amor de uma mulher angelical, versão masculina do papel do príncipe encantado dos contos para meninas.

A terapeuta supera assim a inquietação criada pelas mensagens anônimas utilizando-as para redefinir a transferência do paciente.

Incidentes desse gênero são bastante correntes na vida dos psicoterapeutas, e deixar o número do celular com as pessoas atendidas pode inquietar terapeutas em início de carreira; por outro lado, é pior estar acessível no telefone de casa ou nele encontrar mensagens anônimas. O celular é sempre, e de todo modo, um telefone de trabalho, menos privado do que a linha fixa; pode ser desligado com facilidade, e é igualmente possível ter no mesmo aparelho dois números, um privado e outro público, com toques diferentes inclusive.

Conclusões

As mensagens que se pode enviar e receber por meio do telefone celular podem representar um recurso significativo para os psicoterapeutas; trata-se de uma maneira econômica e sintética de comunicar, quase em tempo real. Há alguns anos, pareceu que a difusão da internet iria transtornar completamente a maneira de fazer psicoterapia, superando o modelo fundado no diálogo face a face; hoje, podemos constatar que pode haver diferentes modalidades de incluir correios eletrônicos e exercícios terapêuticos no andamento das terapias (14), e mesmo de construir seções de um programa de formação para psicoterapeutas, na Noruega e na América Latina, tirando proveito de uma interação virtual; mas também que a relação terapêutica exige um envolvimento pessoal que dificilmente prescinde do encontro direto e próximo de duas ou mais pessoas.

A mensagem SMS não obriga a utilizar um computador portátil nem a sentar-se diante de um computador fixo; não implica o risco de dispersar o conteúdo em correios eletrônicos de comprimento excessivo; garante o acesso imediato a terapeutas, deixando-lhes ao mesmo tempo a liberdade de controlar os tempos e as modalidades da resposta; não obriga a dedicar tempos longos demais a ler e a decifrar as comunicações recebidas, e depois a organizar e a escrever as respostas.

Certamente, ele não substitui os encontros terapêuticos, mas pode permitir espaçá-los no tempo, e pode prolongar e reforçar sua ação para além dos limites estreitos da hora da sessão.

Além disso, permite gerir situações de risco oferecendo uma possibilidade de contato rápido nas urgências; monitorar a tomada de medicamentos nas fases iniciais do tratamento; e sustentar as pessoas atendidas que tentam superar dificuldades criadas pelos sintomas na vida real, participando a distância, de maneira pouco intrusiva, de seus esforços de mudança. Pode-se fazer dele um uso diferenciado conforme as necessidades da pessoa atendida e os objetivos terapêuticos, fazendo prevalecer aspectos de apoio, de controle e de estimulação, ou introduzindo a quente, com rapidez e poder de síntese, elementos interpretativos, humorísticos ou, de todo modo, dotados de um poder de redefinição que, por si sós, já podem ter um valor psicoterapêutico.

O problema do desenvolvimento possível de uma dependência excessiva em relação à terapia, que se torna acessível quase o tempo todo, como se o celular viesse a representar um cordão umbilical psicológico, não é maior do que aquele que induziria um número maior de encontros diretos para gerir a mesma situação, e constitui um risco constante da relação terapêutica.

Como todos os instrumentos úteis, os SMS exigem, de quem deles faz um uso consciente na terapia, atenção, prontidão, empenho e responsabilidade; recompensam esse esforço com uma maior eficácia e com uma economia de tempo de contato direto com cada pessoa atendida, o que permite ampliar a clientela e reduzir os custos das terapias, com benefícios para todo mundo, afinal, não apenas econômicos mas também sociais.

Notas do original

1. Psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta. Diretor do Centro de Estudos e Aplicação da Psicologia Relacional, Prato.

2. Psicóloga, psicoterapeuta. Docente do Centro de Estudos e Aplicação da Psicologia Relacional, Prato.

Referências

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Sites indicados

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Este artigo é a tradução para o português de “¡SCRIPTA… VOLANT! USO Y UTILIDAD DE LOS MENSAJES SMS EN PSICOTERAPIA”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Red Sistémica). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Manfrida, G. M., & Eisenberg, E. (2023). Scripta… volant! Uso e utilidade das mensagens SMS em psicoterapia (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/scripta-volant-uso-e-utilidade-das-mensagens-sms-em-psicoterapia (Obra original publicada em 2023 em Red Sistémica; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/02/10/scripta-volant-uso-y-utilidad-de-los-mensajes-sms-en-psicoterapia/)

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