Journal of Solution Focused Practices · Artigo conceptual
Uma fundação florentina, nascida do tratamento da dependência de cocaína, aplica há vinte anos a abordagem focada nas soluções e levou-a a um projeto europeu de educação de adultos para a comunicação pacífica. O fio é o de Eve Lipchik: uma solução que só vale para quem a propõe ainda não é uma solução, e as técnicas de de Shazer sem empatia desiludem. Daí os exercícios de grupo, gestos a imitar, histórias a continuar «nos sapatos» de quem falou antes, contos em que se trocam os bons e os maus, que produzem a mesma surpresa que a pergunta do milagre. E uma observação de época: perante os avatares de inteligência artificial, é a empatia que fará a diferença do psicólogo real.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Empathic Solutions, de Gianluca Ciuffardi, Sonia Scavelli e Andrea Leonardi, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2025), doi: 10.59874/001c.154161, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e paginado de novo, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo. O artigo ilustra a aplicação, pela primeira vez à realidade italiana, do trabalho realizado por inovadores da abordagem focada nas soluções como Eve Lipchik, que propôs (1999; 2011) uma forma nova e original de considerar as soluções e as estratégias num quadro focado nas soluções. Esta abordagem sublinha a importância da empatia na terapia breve. Por exemplo, destaca a necessidade de perguntar se uma solução funciona bem não só para a pessoa que a propõe, mas também para a sua família, os seus colegas, e assim por diante. Nesse caso, o uso da empatia e de outras competências sociais pode ajudar-nos a encontrar as melhores soluções para situações variadas, tendo em conta as nossas necessidades e as dos outros. A partir da nossa experiência num projeto europeu sobre o uso da empatia na vida quotidiana, apresentamos a nossa forma de trabalhar com grupos e as aprendizagens que emergiram ao longo dos encontros.
Palavras-chave: terapia breve focada nas soluções, empatia, comunicação, imaginação, solução
A aplicação da terapia breve focada nas soluções pela nossa equipa dura há pelo menos vinte anos. No início dos anos 2000, começámos ensaios de campo desta abordagem em contexto italiano, integrando-a em métodos mais convencionais de tratamento da dependência de cocaína. Os resultados foram encorajadores, com a resolução de mais de 60% dos casos clínicos (Leonardi et al., 2006). O nosso trabalho dos últimos anos deu origem a vários artigos internacionais (Leonardi et al., 2009, 2012) e a um manual operacional em que a nossa equipa apresentou os seus dados clínicos e os seus procedimentos de intervenção (Leonardi & Velicogna, 2009).
Em 2009, a nossa experiência clínica com pacientes dependentes de cocaína levou à criação da Fondazione Franceschi Onlus, organização sem fins lucrativos cujas atividades promovem programas sociais através de um envolvimento concreto em diversas áreas do trabalho social e psicológico. A Fundação Franceschi atua sobretudo no campo da ajuda psicológica, com atenção particular às dependências. Apoia pessoas de todas as idades e meios que atravessam situações difíceis, psicológicas, físicas, sociais ou familiares. A par deste compromisso direto, a Fundação promove e realiza atividades de investigação científica em psicologia e em ciências biopsicossociais, com o objetivo de desenvolver instrumentos eficazes de prevenção do sofrimento, de acompanhamento de situações críticas e de promoção do bem-estar psicofísico. Outra área de ação é a formação e a divulgação científica: através de cursos, conferências, aulas e publicações, a Fundação difunde os conhecimentos psicológicos e promove as competências culturais e sociais.
Numa perspetiva de evolução contínua, continuamos a aplicar o modelo focado nas soluções não só ao tratamento do abuso e da dependência de cocaína, mas também a diversos problemas psicológicos. A abordagem foi ainda adotada em contexto educativo (Ciuffardi et al., 2013), e contribuímos para a difusão de uma cultura focada nas soluções em Itália ao publicar a edição italiana do Handbook of Solution-Focused Therapy de Bill O’Connell e Stephen Palmer (2014), bem como outros trabalhos originais (Leonardi et al., 2019).
O objetivo deste artigo é apresentar o trabalho que a Fondazione Franceschi Onlus realiza há vários anos no campo da educação de adultos, fundado não só na tradição focada nas soluções, mas também nos estudos sobre a empatia e a inteligência emocional. Entre as aplicações do foco nas soluções, uma das mais importantes é o trabalho com adultos para promover relações saudáveis e construtivas, caracterizadas pela curiosidade e pelo reconhecimento mútuo das necessidades e das emoções. O artigo ilustra o nosso trabalho nesta área, em que tentámos integrar as técnicas próprias de de Shazer com uma linguagem criativa e exercícios que favorecem uma mudança de perspetiva: em nosso entender, esta abordagem pode integrar-se muito bem na forma de pensar focada nas soluções.
A abordagem focada nas soluções foi muitas vezes entendida, por muita gente, como um conjunto de técnicas pragmáticas e de perguntas viradas para o futuro, concebidas para encorajar os pacientes a recorrer aos seus próprios recursos para superar os problemas atuais, evitando pensar demasiado no passado, exceto quando esse passado possa ter servido para identificar soluções ainda válidas e praticáveis. Segundo a nossa proposta teórica e prática, a terapia focada nas soluções pode ser enriquecida pela capacidade de entrar em empatia com a visão dos outros, tal como a tradição psicológica fundada na empatia (Rogers & Kinget, 1965; Rosenberg, 2015) pode beneficiar muito dos instrumentos da abordagem focada nas soluções. De facto, autores de primeiro plano como Eve Lipchik (2011) sublinharam que as técnicas focadas nas soluções podem produzir resultados dececionantes se negligenciarem as dimensões emocional e empática. Além disso, com o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), tornou-se claro que os aspetos emocionais e empáticos são a chave para «pôr a diferença a trabalhar» (de Shazer, 1991) entre as máquinas ou os avatares que poderiam servir para a terapia, e o valor significativo da presença, da atenção e da empatia humanas fornecidas por «psicólogos reais». Sem empatia, os psicólogos correm o risco de se tornar obsoletos, sobretudo se se apoiarem apenas em técnicas derivadas de diversas teorias e tradições de investigação para conduzir o seu trabalho clínico.
Numa época como a nossa, caracterizada pela incerteza e por guerras pela conquista de territórios e de recursos naturais, a comunicação pacífica é um valor fundamental para promover o progresso social e civil. Hoje mais do que nunca, as pessoas precisam de aprender a comunicar com os outros de forma positiva e pacífica, reconhecendo as suas próprias necessidades e as dos outros numa relação construtiva e empática. Um dos aspetos mais importantes da empatia é a capacidade de dialogar consigo mesmo, de tentar compreender melhor os seus estados de espírito e de dar sentido às suas experiências emocionais. De facto, só através de uma comunicação verdadeira e consciente consigo mesmo é possível construir relações autênticas e sinceras com os outros, valorizando as forças de cada um e facilitando a aceitação dos pontos de vista alheios sobre as questões fundamentais da existência. A Fondazione Franceschi Onlus de Florença organizou nos últimos anos importantes iniciativas de investigação e de formação, incluindo a publicação de um artigo científico sobre a paz e o budismo (Uga et al., 2010) e a participação num projeto de parceria europeia para o desenvolvimento das competências sociais através da comunicação pacífica. Esta atividade insere-se num projeto Grundtvig, financiado pela Comunidade Europeia, realizado com outros centros e organizações de prestígio de França, Alemanha, Lituânia, Polónia e Reino Unido. Todas as organizações envolvidas se comprometeram a dar aos aprendentes desfavorecidos os meios para reforçar as suas competências sociais e cívicas, os seus valores humanistas, a sua empatia e a sua autoestima. Os participantes dos grupos de educação de adultos aderiram ao projeto porque queriam aprender a comunicar pacífica e construtivamente com os outros. Queriam aprender a considerar as perspetivas dos outros para compreender os seus pontos de vista, e aumentar a sua empatia para interagir de forma mais funcional e mais calorosa. Segundo a competência dos parceiros, centrámo-nos na comunicação nas relações de género, nas famílias, em torno do emprego e do desemprego, e em referência à internet e às redes sociais. O nosso tema geral foi a aprendizagem intercultural, nos nossos países multiculturais e em toda a Europa. Os cidadãos das sociedades modernas têm de enfrentar pacificamente as diferenças entre iguais (formalmente), e portanto desenvolver as competências adequadas. Por isso, procurámos ajudar os aprendentes a desenvolver exercícios de comunicação a partir das suas experiências e a transformá-los em interações não violentas, em grupos ao nível local e nos encontros transnacionais do projeto. Formadores profissionais facilitaram e avaliaram estes processos, trocaram métodos e asseguraram uma ampla divulgação.
Considerámos de imediato este projeto ideal para aplicar ao contexto italiano as técnicas focadas nas soluções revistas na perspetiva de Eve Lipchik, porque envolvia grupos heterogéneos de pessoas com recursos, experiências e capacidades muito diferentes. A composição dos grupos refletia uma riqueza que só uma abordagem focada nas soluções consegue valorizar, mesmo em contexto não clínico. Não se devem esquecer, com efeito, as origens sistémicas da terapia focada nas soluções, desenvolvida, sem surpresa, através do trabalho de de Shazer e dos seus colegas com casais e famílias no Brief Family Therapy Center (BFTC) de Milwaukee. A teoria e as técnicas associadas foram originalmente desenvolvidas em contexto de grupo, tendo em conta as relações entre indivíduos. Só mais tarde foram aplicadas aos indivíduos, considerados como sistemas, e depois à terapia individual.
Durante os encontros em Florença e nos outros países europeus, fizeram-se exercícios para desenvolver as capacidades de escuta de cada um. Por exemplo, os participantes deviam prestar atenção às necessidades e às emoções dos outros através da linguagem corporal, usando elementos gráficos e escritos ou temas musicais. Noutro exercício, deviam apresentar-se ao grupo com um gesto que tivesse para eles um significado pessoal, e depois tentar reproduzir os propostos pelos outros. Assim, cada participante, um após outro, tentava repropor o gesto de outro que tinha memorizado, construindo um alfabeto emocional e comportamental que permitia comunicar entre si de forma não verbal. Outros exercícios consistiam em exprimir-se de forma artística e original, com desenhos, colagens e outras imagens, para exprimir emoções, ideias e interesses, ou em ouvir narrativas do folclore local. Outros ainda visavam fazer emergir os próprios recursos e os dos outros através de jogos de papéis originais: num deles, os formadores encorajavam os participantes a elogiarem-se mutuamente pelos seus êxitos numa área particular, trabalho ou lazer, ou mais geralmente pela forma como tinham sabido superar os desafios que a vida coloca sem cessar, recordando metáforas tiradas de livros, de filmes célebres e de outras narrativas da tradição oral. Um dos princípios-chave que partilham a abordagem empática e a abordagem focada nas soluções é, com efeito, considerar que cada um ainda está a tentar fazer o seu melhor, em situações complicadas e muitas vezes sem o benefício da experiência passada. Outros exercícios consistiam em criar uma «história comum» a partir de um início narrativo («Era uma vez um chapéu de palha…»): os participantes de cada grupo deviam desenvolver à vez a primeira frase, «caminhando nos sapatos» de quem os tinha precedido. Não podiam fechar a frase, mas deviam deixar um final aberto que os outros pudessem continuar. Este exercício «simples mas não fácil» favoreceu um grande respeito pelas perspetivas de cada um e estimulou a criatividade, encorajando os participantes a encontrar soluções originais e inovadoras para os problemas encontrados pelas personagens inventadas. Isso enriquecia de cada vez a história com elementos novos e conduzia a desfechos inesperados. Uma variante consistia em inventar finais diferentes para histórias e contos célebres do folclore de cada país, trocando os «bons» e os «maus» para dar à história outro desenvolvimento e abrir a narrativa a algo novo e inesperado. Esta mudança de perspetiva é semelhante à mudança de olhar e à perturbação do sistema de ideias e de construtos que perguntas como a pergunta do milagre ou a procura de exceções ao problema principal visam produzir no estado de espírito dos pacientes. Em ambos os casos, o sentimento de surpresa e de curiosidade é o mesmo, tal como a possibilidade de ver a própria história e a dos outros sob um ângulo diferente. Trata-se de usar «chaves para a solução» (de Shazer, 1985) diferentes das habituais.
Tentar mudar o ponto de vista com que olhamos o outro contribuiu para criar um clima de grande confiança nos grupos de aprendizagem durante os encontros previstos pelo projeto europeu, valorizando também os recursos mais funcionais para construir uma relação fundada no respeito e no reconhecimento das próprias necessidades e das dos outros. Foram aí abordados diferentes temas, como a comunicação não violenta nas relações de género, bem como a relação entre pessoas de culturas diferentes em diversas áreas (família, trabalho, escola e web). Convém precisar que estes encontros não tinham finalidade terapêutica, mas apenas experiencial e educativa, tornando-se a empatia um instrumento indispensável para conhecer melhor os outros. Para melhorar as relações humanas nas sociedades multiculturais modernas, os cidadãos deveriam aprender a tratar pacificamente as «diferenças entre iguais», a exprimir as suas necessidades de forma construtiva e a desenvolver as competências interpessoais adequadas. Assim, nos diversos encontros realizados em Florença e noutros países da União, refletimos sobre a forma de promover o bem-estar nas relações entre as pessoas e os diferentes grupos sociais.
No que respeita à empatia, pode distinguir-se uma componente cognitiva (conhecer o ponto de vista do outro) e uma componente emocional, ligada à observação e à partilha das emoções. Existe também uma dimensão motivacional que pode levar as pessoas a agir procurando a cooperação com os outros, e não apenas a competição dentro e fora dos grupos. Mesmo em plena era digital, acreditamos que a empatia continua a ser uma competência pessoal fundamental, porque pode voltar a pôr o ser humano no centro de tudo na natureza. Tentar compreender melhor os outros, pôr-se por um instante no lugar de alguém sem esquecer as próprias necessidades, pode permitir construir relações mais saudáveis, capazes de evoluir em conjunto, quando apoiar-se sobretudo em trocas digitais arriscaria, a prazo, secar o próprio conceito de relação. O ato de comunicar bem deveria ser mediado por uma reflexão consciente. Só através de uma comunicação pacífica é que os dois interlocutores (isto é, as pessoas que participam na conversa) deixam de querer apenas persuadir o outro a mudar a sua forma de pensar ou de sentir sobre uma questão ou situação. A comunicação pacífica permite às pessoas abrir-se a uma perspetiva nova, construída em conjunto, capaz de superar as visões parciais de cada um. Um dos princípios essenciais da comunicação pacífica, mas o mesmo conceito poderia aplicar-se à abordagem focada nas soluções, é que aprender a escutar significa antes de mais tentar perceber o ponto de vista do interlocutor no próprio espaço mental, evitando assim cair na armadilha de formular automaticamente objeções, críticas e fechamentos ao que acaba de ser dito. Isso não significa de modo nenhum abandonar a posição pessoal sobre uma questão, mas simplesmente tentar, por alguns instantes, recuar em relação ao próprio sistema de referência e considerar o de outra pessoa, para ter a oportunidade de definir melhor e rever alguns elementos das próprias ideias através de um confronto pacífico com o que o outro diz. Neste sentido, a melhor escuta é o que Rogers e Farson (1957) chamaram «escuta ativa», participação consciente de quem escuta, que tenta aprender algo de novo sobre o que está a ser comunicado, enquanto a escuta passiva é mais fria, mais distante e rigidamente ancorada nas suas crenças iniciais, que nunca podem evoluir em novas direções por enriquecimento mútuo. Uma forma de aprender algo de novo é, pelo contrário, abrir-se às ideias do outro com interesse e curiosidade autênticos, aceitando sentir-se algo «deslocado» em relação às certezas e crenças iniciais. Pode então ser útil tentar ser mais empático durante a comunicação, isto é, tentar observar e perceber as emoções que o nosso interlocutor sente, deixando as emoções e os sentimentos dos outros ressoar em nós, sem estar totalmente separado dos próprios estados de espírito. De facto, o ato de comunicação pacífica não deveria ser conduzido pelo fluxo emocional exterior, mas antes pela perceção do que o outro sente e exprime de forma não verbal, mantendo-se plenamente consciente das próprias necessidades e estados emocionais do momento. A escuta ativa e empática assenta, portanto, na empatia e na aceitação do que o outro diz, duas qualidades que assentam por sua vez na criação de uma relação positiva e construtiva, de tal modo que o outro se sinta compreendido empaticamente e não julgado pelas suas ideias e sentimentos sobre algo ou alguém. Usamos a capacidade humana de reconhecer e interpretar os estados mentais dos outros, muitas vezes inconscientemente, para nos orientarmos no mundo social, talvez o ambiente mais complexo do universo.
A empatia reflete a capacidade humana de compreender os outros, a forma como interpretamos os seus pensamentos e emoções, sobretudo quando veem o mundo de outra maneira. Pode recordar-se a este respeito o que defendia Zenão, o célebre filósofo da Grécia antiga: temos duas orelhas e uma boca, portanto deveríamos escutar mais do que falamos. Segundo o grande filósofo do estoicismo, se uma pessoa é capaz de escutar ativamente, é possível aprender algo de novo, enquanto no caso contrário não haveria aprendizagem alguma. De facto, o diálogo pressupõe sempre a escuta ativa; não há diálogo sem escuta participativa e sem o compromisso de compreender o que o outro nos quer comunicar. Segundo Carl Rogers (1965), um dos principais especialistas do estudo e da prática da empatia, toda a incapacidade de comunicar vem da dificuldade de escutar o que o outro tenta dizer, sobretudo quando não se presta atenção à comunicação não verbal. Nesta ótica, as pessoas em diálogo deveriam ser vistas como os membros de uma orquestra, cada um a tocar um instrumento diferente. Aprender a aceitar as diferenças de cada um, a valorizá-las na conversa, pode levar a diversidade das opiniões e dos sentimentos a integrar-se finalmente numa espécie de melodia, diferente da simples soma algébrica das ideias e das emoções, algo qualitativamente diferente. É interessante notar que o kanji da escuta ativa é o mais complexo de todo o alfabeto japonês: compõe-se de cinco caracteres mais pequenos que representam as orelhas, os olhos, a atenção, o espírito e o coração (o maior). Na cultura japonesa, o ato de escutar não é, portanto, apenas um processo sensorial passivo em que os sons são mecânica e aleatoriamente entregues às orelhas e depois descodificados pelo cérebro, mas também um processo psicológico ativo em que os sons percebidos são traduzidos em conceitos e sentimentos de complexidade crescente.
Segundo diferentes autores (Rogers & Kinget, 1965; Rosenberg, 2015), os principais elementos de uma boa atividade de escuta são os seguintes:
Através destes princípios preliminares, é possível ligar-se ao mundo dos outros, por um ato autêntico de imaginação. O termo empatia vem do grego empátheia, que significa literalmente «afeição»: os gregos antigos usavam-no em particular para descrever a relação complexa e profunda entre o público e os atores de uma comédia ou de uma tragédia. Desde as suas origens, a dimensão da empatia remete, portanto, para a capacidade de sentir e suscitar emoções perante uma obra de arte ou as narrativas dos aedos, criando um laço profundo que na Idade Média foi renovado pelos menestréis capazes de comover o auditório cantando as façanhas dos cavaleiros da Távola Redonda ou do ciclo bretão. Até a noção de imaginação vinda do coração, celebrada por grandes artistas como Miguel Ângelo ou Dante, remetia precisamente para a capacidade de «ver» a beleza e a força interiores na unicidade de cada pessoa, animal ou elemento natural. A ligação entre a empatia e a ficção artística é também confirmada pela investigação científica moderna: segundo Keith Oatley (1992), por exemplo, não há grande diferença entre a resposta empática suscitada pela narração de um texto literário ou pelo visionamento de um filme e a que é suscitada pela observação direta de acontecimentos reais e físicos. Nas duas situações, as respostas empáticas do indivíduo podem ter a mesma intensidade e a mesma expressão fisiológica.
Existe também, em diversos ambientes de trabalho, uma necessidade crescente de melhorar o espírito de colaboração e o trabalho de equipa, para enfrentar melhor os desafios que o mundo moderno não para de nos lançar. À luz destas considerações, a abordagem focada nas soluções de de Shazer (1991), internacionalmente reconhecida pelos seus elevados índices de eficácia (Selekman & Beyebach, 2014), pode realmente ajudar as pessoas a construir relações saudáveis e positivas com os outros, valorizando as forças presentes em cada um de nós e aceitando os pontos de vista alheios sobre as questões fundamentais da existência. Esta abordagem pode ser vista como uma forma de comunicar diferente do habitual, porque assenta na criatividade e na abertura de espírito. Toma, portanto, a forma de uma linguagem diferente da habitual, capaz de promover relações fundadas no reconhecimento e na descoberta dos recursos, contrariando desde o início os preconceitos que arriscam levar à construção de muros entre as pessoas. Superando o peso dos estereótipos, o modelo focado nas soluções pode, pelo contrário, ajudar a «abrir janelas» e a construir relações humanas fundadas na confiança e no respeito, para aumentar o bem-estar das pessoas e contribuir assim para a realização das aspirações pessoais. Sem necessariamente entrar em conflito com os outros, mas promovendo e reforçando a colaboração e a cooperação. Segundo o modelo de de Shazer, o melhor sistema para sair de um problema ou de um conflito quase nunca é tentar identificar as razões ou as causas que levaram à criação do problema, atividade que leva inevitavelmente a culpar-se a si mesmo ou aos outros, mas poder centrar-se com os outros nas soluções possíveis, que podem enfim ser partilhadas para superar o problema em conjunto.
Um conjunto de perguntas muito útil e válido a fazer nessas situações poderia ser o seguinte: Onde estou a concentrar a minha atenção neste momento? No problema, ou na solução que procuro alcançar? A minha solução tem em conta os sentimentos e as necessidades dos outros? Quando tomámos uma decisão, soubemos comunicar o que queríamos fazer ou alcançar? Preciso da ajuda dos outros para obter o que realmente quero?
Segundo os princípios da abordagem focada nas soluções, pode dizer-se que existem duas formas diferentes e opostas de concentrar a atenção, que exigem por sua vez formas de pensar radicalmente diferentes:
No primeiro caso, a atenção é inevitavelmente atraída pelos elementos mais negativos de uma situação ou de uma discussão: tende-se então a pensar não em termos de possibilidades e oportunidades, mas em termos de limites. Este processo torna mais difícil uma forma possível de cooperação e faz pender a relação para o lado da competição e do desafio, em que só um pode ganhar. Acaba-se por impor o próprio ponto de vista ao outro, quando encontrar uma solução comum para o problema exigiria mais abertura de espírito e cooperação estratégica.
Na história da psicologia, a abordagem de de Shazer procurou deslocar o centro do processo terapêutico do problema para a solução: segundo os seus princípios, não é necessário investigar as causas que teriam criado a situação problemática, como se faz habitualmente nos paradigmas tradicionais, a psicanálise por exemplo, mas importa mais ajudar o paciente a imaginar outro cenário com a pergunta do milagre, apoiando-se nas suas capacidades criativas. Podem sempre encontrar-se soluções alternativas e originais para sair do problema. Todo este processo criativo deveria, claro, ter em conta o sistema de relações com que o indivíduo se confronta e se relaciona na vida quotidiana, e não só o seu próprio ponto de vista, mas também as necessidades e as visões das outras pessoas envolvidas. O foco nas soluções é uma abordagem pragmática que ajuda as pessoas a operar mudanças profundas na sua forma de pensar e de agir em relação aos outros, porque quase nunca é possível resolver um problema com o tipo de pensamento que o criou. As perguntas focadas nas soluções encorajam as pessoas a pensar de outra forma e mais criativamente do que o habitual, dando-lhes uma perspetiva diferente e mudando a sua forma de interagir. O que conta são as mudanças realizáveis no presente e as tentativas de alcançar passo a passo os objetivos desejados e futuros. Em muitos casos, a solução pode estar mesmo à frente dos nossos olhos, nas nossas relações quotidianas com os outros no trabalho, na escola, na família, e assim por diante.
Para facilitar a aprendizagem dos princípios focados nas soluções sobre estas questões, nos encontros e formações previstos pelo nosso projeto, propusemos jogos de papéis como os mencionados acima, para estimular o reconhecimento das próprias necessidades e das dos outros, bem como a capacidade de imaginar cenários e contextos diferentes do atual, como na pergunta do milagre. Esta lógica está muito próxima da linguagem criativa das crianças: sempre que as crianças brincam ao «faz de conta que…», um cavaleiro medieval ou um astronauta, «como se…», desafiam um dragão ou exploram um mundo extraterrestre, e sem o saber fazem algo muito semelhante à pergunta do milagre tal como de Shazer a concebia, através da qual se tenta recriar certas características da infância, como a curiosidade e a emoção da surpresa perante acontecimentos positivos inesperados.
A abordagem focada nas soluções pode, portanto, servir também, na comunicação empática, para deslocar a discussão do problema para a solução. Há várias formas de o conseguir:
Durante os encontros em Itália e nos outros países, os exercícios estimularam a parte mais criativa de cada um de nós, formadores e aprendentes: foi sempre possível relacionar-se e comunicar com os outros de forma mais eficaz e construtiva, aprendendo a resolver os conflitos pacificamente, pelo diálogo e pela imaginação, inspirados por exemplos, metáforas e analogias tiradas da história e das tradições locais. Através de exercícios práticos, os participantes puderam desenvolver formas adequadas e originais de resolver os problemas, aplicáveis a diferentes contextos da vida quotidiana e do trabalho, reforçando a sua criatividade e favorecendo a aceitação das diferenças, duas competências essenciais para viver melhor na sociedade complexa de hoje.
Submetido a 20 de maio de 2025, aceite a 10 de dezembro de 2025, publicado a 18 de dezembro de 2025.
Complexe Systémique: a reter
Um texto de praticantes mais do que um artigo de investigação, e que vale pelos seus exercícios: o alfabeto de gestos, a história a continuar sem nunca a fechar, o conto em que se invertem os papéis. São instrumentos de grupo, transponíveis tal e qual para a formação ou para uma oficina, e os autores têm razão em lembrar que a abordagem de Milwaukee nasceu com famílias antes de ser aplicada a indivíduos. A tese de fundo, a de Lipchik, «para além da técnica», ganha aqui uma formulação simples: uma solução que só vale para mim ainda não é uma solução. Ler-se-á com mais distância a erudição convocada, Zenão, Dante, o kanji da escuta, que tem algo de ornamento, e a promessa de um psicólogo salvo da IA pela empatia, que continua a ser uma aposta. Ler com Além da técnica, a história de Maggie e o ensino das técnicas básicas de comunicação.
Referências
Ciuffardi, G., Scavelli, S., & Leonardi, A. (2013). Solution-Focused Brief Therapy in Combination With Fantasy and Creative Language in Working With Children: A Brief Report. International Journal of Solution-Focused Practices, 1(1), 44-51. https://doi.org/10.14335/ijsfp.v1i1.14
de Shazer, S. (1985). Keys to solution in brief therapy. Norton.
de Shazer, S. (1991). Putting Difference to Work. Norton.
Leonardi, A., Fioravanti, P., Scavelli, S., & Velicogna, F. (2006). Programma Conoscenza: trattamento psicoeducativo integrato ed evoluto per problemi di cocaina. In G. Serpelloni, T. Macchia, & G. Gerra (Eds.), Cocaina. Manuale di aggiornamento tecnico scientifico (p. 637-653).
Leonardi, A., Fioravanti, P., Scavelli, S., & Velicogna, F. (2009). Programma Conoscenza. Psycho-educational, integrated and evolved treatment for cocaine addiction. International Journal of Mental Health & Addiction, 7(4), 513-529.
Leonardi, A., Scavelli, S., & Ciuffardi, G. (2012). The Interactional Approach in the Treatment of Cocaine Addicts. In D. Belin (Eds.), Addictions - From Pathophysiology to Treatment. InTech. https://doi.org/10.5772/50728
Leonardi, A., Scavelli, S., & Wolf, F. (Eds.). (2019). As If. Brief contributions to Brief Therapy. Fondazione Franceschi Onlus.
Lipchik, E. (2011). Beyond Technique in Solution-Focused Therapy: Working with Emotions and the Therapeutic Relationship. Guilford.
Oatley, K. (1992). Best Laid Schemes: The Psychology of Emotions. Cambridge University Press.
O’Connell, B., & Palmer, S. (2014). Manuale di Terapia Centrata sulla Soluzione. Libri Liberi.
Rogers, C. R., & Farson, R. E. (1957). Active listening. Industrial Relations Center of The University of Chicago.
Rogers, C. R., & Kinget, M. G. (1965). Psychothérapie et relations humaines. Éditions Nauwelaerts.
Rosenberg, M. B. (2015). Nonviolent Communication: A Language of Life (3.ª ed.). PuddleDancer Press.
Selekman, M., & Beyebach, M. (2014). Changing Self-Destructive Habits: Pathways to Solutions with Couples and Families. Routledge. https://doi.org/10.4324/9780203386019
Uga, V., Zilli, I., Scavelli, S., & Leonardi, A. (2010). The Value of Peace: Subjective Importance and Perceived Self-Efficacy in Promoting Pacific Cohabitation. Social Behavior and Personality, 38(10), 1355-1358. https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.10.1355
Tradução não oficial em português de Empathic Solutions, de Gianluca Ciuffardi, Sonia Scavelli e Andrea Leonardi, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 9, n.º 2 (2025), p. 81-91, doi: 10.59874/001c.154161, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Empathic Solutions”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Ciuffardi, G., Scavelli, S., & Leonardi, A. (2025). Soluções empáticas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/solucoes-empaticas (Obra original publicada em 2025 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 9, n° 2 (2025), p. 81-91; republicada em 2025 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/154161)
Para ir mais longe