Journal of Solution Focused Practices · Relato de prática

O brilho no vidro quebrado, ou a força do micro-momento

Verão de 2020: noventa participantes de cinco continentes, uma escola de verão on-line e um modo de conduzir as sessões que, a princípio, desconcerta Katti Jisuk Seo — perguntas que parecem se repetir, sessões que não saem de uma janela de tempo minúscula, finais abruptos sem nenhuma ponte para a vida real. Depois ela mesma se senta na cadeira do cliente, e os poucos segundos entre o quarto e a cozinha se tornam o lugar de uma mudança duradoura. Relato de uma conversão e descrição precisa do que a torna possível: tecer as palavras do cliente, dar zoom, permanecer no micro-momento.

Autora Katti Jisuk Seo, coach, roteirista e professora de roteiro, BerlimPrimeira publicação Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2, 2021Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de The Glint of Light on Broken Glass Or: The Power of the Micro-Moment, de Katti Jisuk Seo, publicado em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2 (2021), doi: 10.59874/001c.75046, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto foi traduzido, rediagramado e provido de intertítulos para a leitura on-line, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pela autora nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Em agosto de 2020, participei da BRIEF Online Summer School, conduzida por Chris Iveson e Evan George, do BRIEF de Londres, acompanhados de seus colegas internacionais Elliott Connie e Adam Froerer, em Atlanta, na Geórgia. Era a primeira vez para mim. Eu estava longe de imaginar que essa viagem me levaria a uma garrafa quebrada ao luar.

Cerca de noventa participantes, vindos de cinco continentes, apareceram nas telas. Nas janelas ao fundo, dava para assistir ao amanhecer na Califórnia e ao anoitecer na Nova Zelândia. Alguns estavam sentados no calor do verão europeu, outros no frio do inverno sul-africano. Eu me conectava do coração de Berlim, cercada pelos sons ambientes de corais e de grupos de kung-fu que entravam pela minha janela: a pandemia os havia empurrado para ensaiar ao ar livre.

Três coisas que me desconcertaram

Quando assisti às duas ou três primeiras sessões ao vivo, preciso admitir, fiquei desconcertada. Não foram as perguntas centrais em si que me surpreenderam, como a pergunta das melhores esperanças (“Quais são as suas melhores esperanças em relação à nossa conversa?”) ou a pergunta de amanhã (“Se você acordasse amanhã e tivesse alcançado as suas melhores esperanças, qual seria a primeira coisa que notaria?”): o que surpreendia era o modo como os profissionais seguiam a partir dali. Três coisas eram enormemente diferentes da minha formação e da minha prática. Primeiro, as perguntas de seguimento me soavam estranhamente repetitivas. Eu tinha a impressão de que o profissional fazia a pergunta da diferença (“Que diferença isso faria?”) e “Como você notaria?” outra vez e mais outra. Segundo, as sessões se concentravam principalmente em um momento, ou em uma janela de tempo estreitada do futuro preferido, e não iam a outros lugares, como os tempos de exceção no passado ou algum outro ponto mais adiante no futuro. Terceiro, o final das sessões me parecia muito abrupto. Não havia recapitulação, nem convite a fazer uma experiência, nem próximos passos para o cliente sobre como seguir dali. Eu pensava que, se estivesse no lugar do cliente, poderia me sentir perdida. Primeiro esse mergulho profundo no meu futuro preferido, e agora o quê? Como eu chego lá de verdade, eu poderia pensar. Essas três coisas — a aparente repetição, o foco em um recorte de tempo estreito e o final sem nenhuma ponte entre a realidade e a vida desejada — me deixavam perplexa. Mas quanto mais a escola de verão avançava, mais esse estilo de prática focada nas soluções me conquistava. A verdadeira revelação foi a última demonstração de coaching, aquela em que eu era a cliente.

A sessão

Eu estava passando por flashes traumáticos naquela época. Evan George foi o profissional da minha sessão. É assim que me lembro das partes mais marcantes dessa sessão, de modo aproximado e resumido:

Sessão com Evan George

Evan — Quais são as suas melhores esperanças em relação à nossa conversa?

Eu — Quero separar o passado do presente. Quero viver no aqui e agora e não ser atacada por memórias dolorosas.

Evan — Então, se você acordasse amanhã e fosse capaz de separar o passado do presente, qual seria o primeiro sinal que lhe diria que você está vivendo no aqui e agora?

Eu — Eu acordaria ainda com algumas imagens dos meus sonhos na cabeça e nos olhos. Notaria o quarto. Em vez de ficar rolando as lembranças da véspera, procurando coisas para lamentar ou chorar, sentiria cada parte do meu corpo acordando. Sentiria os meus dedos dos pés, os meus pés, as minhas pernas, os meus joelhos.

Evan — Então, naquela manhã, se você ainda tem algumas imagens dos seus sonhos na cabeça e sente cada parte do seu corpo acordando, se sente os dedos dos pés, os pés, as pernas, os joelhos, que diferença isso faria?

Eu — A minha mente se sentiria tão livre, eu simplesmente teria céu azul na cabeça.

Evan — Se você tem céu azul na cabeça, o que seria diferente no seu jeito de se levantar?

Eu — Eu flutuaria como uma pluma. Simplesmente me sentiria leve e livre. E apreciaria o quanto a minha vida é independente. Que posso fazer o meu café exatamente do jeito que gosto, porque o faço só para mim.

Evan — E então, como você gosta do seu café?

Eu — Não muito forte. Um café de prensa francesa, um café bem gostoso.

Evan — Quando você tem esse céu azul na cabeça, o que seria diferente no seu jeito de ir da cama até onde você faz o seu café gostoso de prensa francesa?

Eu — Há dois caminhos da minha cama até a cozinha. Naquele dia, eu pegaria o caminho mais ensolarado. Normalmente pego o mais curto, o mais escuro, pelo corredor, mas naquele dia eu pegaria o mais ensolarado.

Evan — Quando você está a caminho de fazer para si mesma um café bem gostoso, quando está pegando o caminho mais ensolarado, flutuando como uma pluma, com céu azul na cabeça, como você saberia que hoje consegue separar o passado do presente e viver no aqui e agora?

Eu — Sentiria os meus pés descalços no piso de madeira. Pensaria comigo mesma como é bonito ter um piso de madeira. Veria o sol se refletindo nele e sentiria como ele é quente.

Evan — E naquele momento, quando você sente os seus pés descalços no piso de madeira e vê o sol se refletindo no piso de madeira, se surgisse um pensamento que ataca, o que talvez fosse diferente no seu jeito de responder a ele?

Eu — Desta vez, eu notaria o pensamento antes que ele me atingisse e simplesmente o deixaria dentro do envelope. Não o abriria. Não lhe daria nenhum lugar para pousar. De qualquer forma, eu sei o que há lá dentro. Veria o envelope pelo canto do meu olho direito e simplesmente o mandaria para longe, para o horizonte, onde ele se desvanece, em vez de deixar que me atingisse e ficar remoendo.

Evan — E se você manda o envelope para o horizonte, que diferença isso faria?

Eu — Sentiria que sou capaz de me proteger. Que sou capaz de cuidar bem de mim.

Compartilho esta parte da sessão para mostrar os três aspectos que tornam essa abordagem tão potente para mim: (a) tecer, (b) dar zoom, (c) permanecer no micro-momento.

Tecer, dar zoom, permanecer

Por que tecer?

É o termo que Adam Froerer usava para descrever o modo de construir as perguntas focadas nas soluções. O profissional pega as palavras do cliente e as tece na pergunta seguinte. E, da resposta que vem, pega de novo algumas palavras e as tece na pergunta seguinte, e assim por diante. É assim que o momento vai ficando cada vez mais cheio de todos os ingredientes que compõem o futuro preferido. Por exemplo, Evan tomou as minhas “imagens dos meus sonhos” e o fato de eu sentir “os meus dedos dos pés, os meus pés, as minhas pernas, os meus joelhos” como o fio que ele entrelaçou com a pergunta “que diferença isso faria”. Em seguida, retomou o meu “céu azul na cabeça” para tecê-lo na conversa, perguntando de novo o que seria diferente, e assim por diante. O que me parecera perguntas repetitivas no começo da escola de verão passou a fazer sentido. Entendi que pode ser sempre a mesma pergunta da diferença, mas que a cada vez ela vem cheia de material novo entregue pelo cliente. O que torna isso tão potente? Não são apenas as palavras que se entrelaçam. São momentos e significados que se encaixam uns nos outros. Depois daquela sessão, tornou-se impossível para mim não associar os reflexos luminosos no meu piso de madeira àquele estado de espírito de “céu azul”. Ligo automaticamente as minhas belas tábuas de piso à minha capacidade de me proteger, de cuidar bem de mim. Essas coisas agora são inseparáveis.

O que quero dizer com dar zoom?

Comparadas à maioria das conversas focadas nas soluções que eu havia vivido até então, inclusive na minha própria prática, as sessões da escola de verão se concentravam num intervalo de tempo notavelmente estreito. Não se falava das semanas seguintes, dos meses, dos marcos futuros, mas somente de um ou dois trechos, na maior parte das vezes a manhã no futuro preferido — nem mesmo a manhã inteira, e sim os momentos minúsculos, as frações desses momentos. A conversa com Evan me fez dar zoom nos poucos segundos entre o quarto e a cozinha. E com isso ela me levou a destravar sensações corporais, pensamentos, imagens que me esperam no meu futuro preferido e das quais eu não sabia antes. O meu flutuar de pluma, o meu caminho mais ensolarado, o apreço pela independência da minha vida, expresso num café de prensa francesa.

Permanecer no micro-momento

O que torna isso tão importante? Em uma das demonstrações ao vivo, Elliott Connie permaneceu incansavelmente no microssegundo anterior ao momento em que o cliente sairia do quarto para fazer café — muito parecido com a minha sessão com Evan. Perguntei a Elliott o que o levava a se concentrar no momento antes de sair do cômodo, em vez do preparo do café em si ou de qualquer momento posterior. Ele disse: porque há riqueza em cada momento. O que me fascinou em todas as sessões a que assisti na escola de verão foi essa persistência em permanecer no micro-momento, o nanossegundo entre o passo anterior e o passo seguinte. Para mim, isso quer dizer resistir à tentação de deslocar a atenção, de passar a qualquer outro momento no futuro — uma tentação bastante presente [frase elíptica no original — Complexe Systémique]. Isso exige do profissional um alto grau de confiança no processo. Primeiro, é preciso acreditar que há mais a descobrir se mantivermos o foco neste ponto do tempo. Segundo, é preciso acreditar de verdade que uma grande mudança pode prosperar a partir dos menores momentos. Ao adotar essa via, apoiamo-nos na convicção de que não é necessário dar zoom para fora, sobre períodos mais amplos, nem saltar para vários pontos do futuro, para assegurar uma mudança significativa. Contamos puramente com a força do micro-momento, que pode se espalhar para outros tempos da vida do cliente depois da conversa.

O que veio depois

Foi isso que vivi nos meses seguintes à escola de verão: a mudança que eu desejava se infundiu em cada fração da minha manhã, no cheiro dos móveis novos da minha cozinha, no meu travesseiro, na minha roupa de cama, nos meus músculos oculares relaxados, nos sons de verão de Berlim vindos de fora. E dali para cada célula do meu sistema. Olhando para trás agora, posso dizer que o número de ataques de memórias dolorosas passou de trinta por dia para três por semana e agora para zero por mês. Os finais de sessão que me haviam parecido tão abruptos no começo da escola de verão fazem todo o sentido em retrospecto. Não se faz o cliente definir passos práticos para ir da realidade ao futuro preferido, porque simplesmente se deixa a sessão se desdobrar no que vem depois dela.

A minha primeira sessão como coach depois da escola de verão foi com uma cliente que dizia ansiar pelo sentimento de ter chegado à sua vida. A vida inteira ela havia sentido como se estivesse esperando para chegar. Apliquei a abordagem de tecer, dar zoom e permanecer no micro-momento. Depois da nossa viagem à manhã dela, aquela em que sentiria que chegou à sua vida, ela me disse algo que me fascinou. Disse que nunca havia realmente acreditado que esse sentimento de ter chegado sequer existisse. Sempre achara que era uma esquisita teoria utópica sua, algo absolutamente fora de alcance, algo que ela havia inventado. E agora, durante a nossa sessão, ela de fato experimentou esse sentimento com cada fibra do seu sistema. Foi como viajar no tempo, e não apenas no sentido de saltar para um tempo diferente: você salta também para o corpo daquela versão de si mesma, com tudo o que vem junto, a mente, as sensações corporais, as emoções.

Em comparação com as demonstrações ao vivo da escola de verão, as minhas sessões de coaching anteriores tinham uma perspectiva de zoom para fora e se concentravam nos passos práticos pelos quais o cliente chegaria à vida que deseja, fosse a mudança interior, exterior ou ambas. Continuo valorizando aquela abordagem, e o novo ângulo que aprendi não é uma substituição, mas uma extensão da minha prática de coaching.

O brilho no vidro quebrado

A força do micro-momento também alimenta outros campos do meu trabalho. Além do coaching focado nas soluções, dou aula para roteiristas e escrevo roteiros eu mesma. Na arte de contar histórias, a regra do “mostre, não conte” é crucial. Esse preceito é descrito de modo bastante plástico pelo dramaturgo russo Anton Tchékhov, escrevendo em 1886 ao seu irmão Alexandre:

Nas descrições da natureza é preciso agarrar os pequenos detalhes e agrupá-los de tal modo que, quando o leitor fecha os olhos, obtenha uma imagem. Por exemplo, você terá uma noite de luar se escrever que, na represa do moinho, um caco de vidro de uma garrafa quebrada cintilava como uma estrelinha brilhante, e que a sombra negra de um cão ou de um lobo rolava como uma bola.

Com o tempo, as instruções de Tchékhov foram reformuladas e condensadas nesta bela fórmula:

Não me diga que a lua está brilhando; mostre-me o brilho da luz no vidro quebrado.

Fórmula condensada a partir de Tchékhov

O estilo de perguntas que aprendi na escola de verão enriqueceu o meu processo criativo de ensinar e de escrever quando busco encontrar aquele “brilho da luz no vidro quebrado”. Ele me inspira a fazer aos meus alunos e a mim mesma perguntas como: “Qual será o primeiro sinal que fará o público saber que é uma noite de luar, antes mesmo de vermos a lua propriamente dita?” E então continuo permanecendo no micro-momento para reunir detalhes vivos, pedindo mais sinais. Isso alimenta a criação de cenas visuais. Como autores, não queremos simplesmente informar o nosso público enunciando os fatos. Queremos pintar imagens na mente do nosso leitor, queremos levá-lo através de toda uma experiência viva e inescapável. E é isso que a abordagem de tecer, dar zoom e permanecer no micro-momento possibilita.

Referências

Yarmolinsky, A. (1954). The unknown Chekhov: Stories and other Writings hitherto untranslated Anton Chekhov. Noonday Press.

Katti Jisuk Seo

E-mail: mail@kattijisuk.com

Tradução não oficial para o português de The Glint of Light on Broken Glass Or: The Power of the Micro-Moment, de Katti Jisuk Seo, Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n. 2, 2021, 10.59874/001c.75046, sob licença CC BY 4.0. Tradução, diagramação e intertítulos: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem a autora nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The Glint of Light on Broken Glass Or: The Power of the Micro-Moment”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Seo, K. J. (2021). O brilho no vidro quebrado, ou a força do micro-momento (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-brilho-no-vidro-quebrado-ou-a-forca-do-micro-momento (Obra original publicada em 2021 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 5, n° 2, 2021; republicada em 2021 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75046)

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