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Journal of Family Issues · Proteção à infância
Na Suécia, a internação em instituição fechada corta quase todos os vínculos de adolescentes e jovens, exceto com os pais. Quase dez anos depois, Sofia Enell e Monika Wilińska voltaram a entrevistar 11 jovens que passaram por essas unidades, além de familiares. Os relatos mostram as “sombras” que a internação continua a projetar: caos emocional, posições familiares redesenhadas e uma família de origem que não se consegue nem deixar nem fazer funcionar.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Toda a minha família não é realmente minha família”: as sombras da internação em instituição fechada sobre a família e as práticas familiares de jovens e de seus familiares, de Sofia Enell e Monika Wilińska, publicado na Journal of Family Issues (SAGE) (2022), doi: 10.1177/0192513x211030026, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Uma família sem contato e sem prática deixa de existir.
Sofia Enell e Monika Wilińska
Resumo
Este estudo, realizado na Suécia, explora as práticas familiares e as encenações da família (family displays) entre jovens com histórico de internação em instituição fechada, uma medida que limita e restringe os contatos e, por isso, provoca mudanças profundas nas relações. Quase dez anos depois da internação, as narrativas de 11 jovens e de 11 familiares indicados por elas e eles revelam uma luta contínua entre as realidades imaginadas e as realidades vividas da família. Essa luta aparece nas lembranças e nas emoções evocadas pelo contexto da instituição fechada e mostra o quanto a internação penetrou profundamente na vida familiar. Com a metáfora das sombras, distinguem-se a sombra do horror rememorado da internação (reflexo do deslocamento da família) e a da pressão para fazer a família funcionar (reflexo de práticas restritivas da instituição fechada, em que apenas a família (de origem) era considerada família e um conjunto de relações de importância (natural)). Defendemos que se dê mais atenção à perversidade dos arranjos de internação em instituição fechada, tanto no nível das políticas públicas quanto no das instituições.
Palavras-chave: família, práticas familiares, encenação da família, internação em instituição fechada, jovens adultos, pais, relações
O que é família para você? Essa pergunta foi feita a jovens que tinham passado por internação em instituição fechada cerca de oito anos antes. A internação em instituição fechada é a intervenção mais invasiva e controladora do sistema sueco de proteção à infância e foi concebida para proteger crianças e adolescentes em risco de causar dano a si ou a outras pessoas. Uma internação desse tipo implica passar um tempo indeterminado em um lugar com unidades trancadas, revistas corporais, isolamentos e vigilância 24 horas por dia. É evidente que os efeitos da internação nessas instituições vão muito além dos muros que as cercam. Além de viverem a instituição fechada como algo nocivo e punitivo, as pessoas jovens lutam para dar sentido à internação e a si mesmas (Enell & Wilińska, 2021; Henriksen & Prieur, 2019; Vogel, 2018).
A internação em instituição fechada representa uma intervenção crítica nas relações das pessoas jovens, dentro e fora da instituição, o que faz dela uma forma particular de prática relacional (Enell & Wilińska, 2021). Ao entrar na instituição fechada, a pessoa jovem é separada de suas relações anteriores e, ao mesmo tempo, inserida em novas relações temporárias com quem também reside ali e com a equipe que trabalha na instituição. Da mesma forma, os familiares enfrentam o desafio de manter as relações quando todas as formas de contato pessoal são severamente reduzidas pelas restrições institucionais. A internação em instituição pode, portanto, afetar gravemente as relações dentro de uma família, interrompendo, rompendo e redefinindo o sentido da família e das práticas familiares cotidianas. Neste artigo, exploramos como jovens com a experiência vivida da instituição fechada e seus familiares falam das relações familiares e como entendem a família.
O uso de metáforas é comum na pesquisa, sobretudo quando se busca comunicar experiências difíceis ou emocionalmente exigentes (Carpenter, 2008). Para ajudar a esclarecer como a internação em instituição fechada afeta a compreensão da família e das práticas familiares, usamos a metáfora das sombras. As sombras estão sempre presentes, mas, dependendo do objeto e de como a luz incide, suas formas e tamanhos mudam, e elas podem ficar mais ou menos visíveis. As sombras chamam a atenção para o objeto que as projeta, para a fonte de luz e para a superfície sobre a qual caem (Schilperoord & van Weelden, 2018). Neste artigo, abordamos a vida familiar como a superfície sobre a qual a internação em instituição (por seus impactos emocionais e relacionais) projeta suas sombras. A metáfora das sombras destaca como as experiências da instituição fechada podem rondar as imagens da família e da vida familiar anos depois da internação.
A pergunta “o que é família para você?” apela às imagens e aos ideais que cada pessoa tem da vida familiar e do sentido da família. As ideias de uma pessoa sobre a família costumam se apoiar em valores normativos sobre como a vida familiar “deveria” ser vivida e nas obrigações que se supõe que os membros de uma família tenham uns com os outros. Esses valores são moldados por contextos sociais e históricos específicos (Smart, 2007), e sua força está em nos ajudar a compreender e a medir nossa própria vida familiar, além de formar nossas práticas familiares e nossas encenações da família no dia a dia. As práticas familiares são ações voltadas a pessoas definidas como membros da família, e essas ações têm o objetivo de sustentar essas relações específicas (Finch, 2007; Morgan, 2011). As encenações da família (family displays), por sua vez, consistem em transmitir o sentido especial da família e em estabelecer diante dos outros que “esta é a minha família”; são ações de distinção e de “fazer família” (Finch, 2007). A necessidade de mostrar que as próprias relações familiares funcionam pode ser mais urgente em momentos de ambiguidade ou de mudança, como quando os filhos saem de casa ou (como neste estudo) quando uma família é separada pela internação de um filho ou de uma filha em instituição fechada.
Heaphy (2011) enfatizou o enraizamento sociocultural da encenação da família e o relacionou a dimensões de poder. Toda forma de encenação da família é delimitada por seu contexto situacional, que não só determina as práticas de encenação aceitas, como também impõe diversas exigências sobre quem pode fazer essas encenações e sobre como elas devem ser feitas. Da mesma forma, as práticas familiares refletem grupos singulares de pessoas que exercem seus vínculos relacionais e são afetadas pelas circunstâncias situacionais, que, por sua vez, dependem dos recursos disponíveis e regulam as moralidades e as legitimidades familiares. O estudo das práticas familiares e da encenação da família é, portanto, tanto um estudo das relações humanas e das interdependências no nível micro quanto um estudo das normas, expectativas e moralidades de nível macro que cercam as vidas relacionais. Quanto mais aprendemos sobre a família, mais aprendemos sobre o contexto em que a família é praticada e encenada.
Por causa desse enraizamento sociocultural, o pertencimento familiar não pode ser separado das práticas familiares (Morgan, 2011). O pertencimento à família pode ser redefinido conforme o apoio ou o contato é oferecido ou retirado, e essa redefinição também é possível para membros da “família de origem” (Becker & Charles, 2006). Em outras circunstâncias atípicas, como quando pais biológicos e famílias acolhedoras cuidam ao mesmo tempo das mesmas crianças, a ideia de pertencimento familiar pode ser ambivalente e gerar conflitos (Järvinen & Luckow, 2020). Expectativas normativas específicas da vida cotidiana também têm implicações para a forma de pensar as práticas familiares. A linguagem da família e as normas a ela associadas, como as ideias de estar junto, de pertencimento e de reciprocidade, constituem espaços discursivos poderosos que moldam o senso de si e, por isso, são difíceis de romper, de escapar ou de negociar (McCarthy, 2012). Por exemplo, as histórias de jovens de famílias “difíceis” (por exemplo, em que os pais têm problemas de abuso de substâncias) mostram o quanto é difícil libertar-se de relações abusivas e o quanto é difícil imaginar a vida sem a família de origem (Wilson, Cunningham-Burley, Bancroft, & Backett-Milburn, 2012).
As normas sociais sobre o que constitui (ou não constitui) uma família representam um sério desafio para quem não consegue corresponder ao ideal familiar. Já se demonstrou que as práticas familiares costumam se dar contra o pano de fundo de ideais persistentes da família nuclear (Ribbens McCarthy, Edwards, & Gillies, 2000; Stoilova, Roseneil, Carter, Duncan, & Phillips, 2017). Da mesma forma, jovens com experiência de acolhimento fora da família, bem como suas famílias, podem ter dificuldade em encaixar a própria situação nos ideais familiares predominantes na sociedade. Em geral, jovens que passaram pelo acolhimento fora da família tendem a ter uma compreensão mais fluida e ambígua da família e das relações familiares (Holland & Crowley, 2013; Parker & Mayock, 2019). Uma sensação de descontinuidade e a falta de segurança e de enraizamento são traços frequentes nas histórias familiares narradas por essas pessoas jovens (ibid.). Essas pessoas jovens demonstram muita criatividade ao problematizar o conceito de família. Assim, mantêm a importância da família, qualquer que seja a forma e o sentido que ela assuma, em sua própria vida (Boddy, 2019; Gwenzi, 2020).
Os imaginários e as práticas familiares estão inseridos em contextos sociais e estruturais específicos e, neste estudo, esses contextos são a Suécia, o sistema sueco de proteção à infância e a internação em instituição fechada. Como Estado, a Suécia oferece um marco desfamiliarizado, o que significa que não se espera que os indivíduos dependam do apoio familiar (Nygren, Naujanienè, & Nygren, 2018). Nesse marco, a proteção à infância sueca foi classificada como um sistema de serviços à família, em que o apoio às relações entre pais e filhos e o cuidado das crianças são o foco principal (Freymond & Cameron, 2006). Esse foco também deve ser mantido quando crianças são acolhidas fora da família pelas autoridades de proteção à infância (Höjer & Sjöblom, 2010).
Na Suécia, os serviços domiciliares, as formas não compulsórias de cuidado e o acolhimento familiar são, em geral, mais comuns do que o cuidado compulsório e o acolhimento institucional (Socialstyrelsen, 2020). Por isso, as 22 instituições fechadas administradas pelo Estado chamam a atenção por seu caráter compulsório e pelo uso de medidas restritivas de longo alcance. A maioria dessas instituições fica em zonas rurais e recebe de 14 a 59 jovens de até 21 anos (cerca de 1.100 crianças e adolescentes são enviados a uma delas a cada ano). Os fundamentos legais da internação e das restrições na instituição fechada são que a pessoa jovem é considerada (pelas autoridades de proteção à infância) um perigo para si ou para outras pessoas e que precisa de “supervisão rigorosa” (Lei sobre o Cuidado de Jovens (Disposições Especiais) 1990:52). Cerca de metade das internações são as chamadas “internações de urgência”, o que significa que a pessoa jovem é levada imediatamente para a instituição fechada e que o processo judicial ocorre depois. Não há prazo máximo de internação em instituição fechada (o tempo médio é de cinco meses) nem idade mínima (a idade média é de 16 anos). A internação em instituição fechada deve terminar assim que a autoridade de proteção à infância concluir que ela já não é necessária para o bem-estar da criança ou do adolescente. Na proteção à infância sueca, a internação em instituição fechada é reservada aos casos mais difíceis, e ela geralmente não ajuda a resolver os problemas subjacentes (Vogel, 2012).
Durante a internação em instituição fechada, as responsabilidades parentais são transferidas às autoridades de proteção à infância e exercidas nas próprias instituições. Durante o cuidado, os contatos da pessoa jovem com a família e as amizades são controlados e restringidos. Ao mesmo tempo, a legislação determina que a necessidade da criança de manter contato com os pais seja atendida tanto quanto possível. Ao longo dos anos, várias iniciativas buscaram incluir um trabalho com a família durante a internação (Kesthely, 2006; Ponnert & Svensson, 2012). Essas iniciativas, no entanto, não tiveram muito sucesso e, no fim, pouquíssimas famílias foram envolvidas. Embora as relações familiares, antes e depois da internação, não estejam livres de conflitos e de lutas e possam até ser destrutivas (Andersson, 2018; Höjer & Sjöblom, 2010), a família costuma ter um papel crucial na oferta do apoio social necessário depois da saída da instituição fechada (Harder, Knorth, & Kalverboer, 2011). A falta de um trabalho com a família e de um apoio que pudesse ajudar as pessoas jovens a lidar com as complexidades familiares e/ou a aprender a se distanciar de relações familiares destrutivas é, portanto, preocupante.
Neste artigo, adotamos uma perspectiva relacional sobre as famílias (Morgan, 2011; Smart, 2007; Finch, 2007) e trabalhamos o conceito de família no contexto da internação em instituição fechada para explorar como esse cuidado afeta as famílias, sua compreensão de família e suas práticas familiares cotidianas. Como contexto relacional, a internação em instituição fechada pode ser vista como extrema, por sua intervenção fundamental (embora temporária) em todos os demais contextos relacionais (Enell & Wilińska, 2021). Durante a internação, os contatos familiares ficam muito limitados pelas restrições de contato e muitas vezes só acontecem a uma distância física (às vezes considerável), enquanto a família se depara com distinções, criadas pelas equipes profissionais, entre encenações familiares “adequadas” e “inadequadas” (Ursin, Oltedal, & Muñoz, 2017). Ursin et al. (2017) constataram que as equipes profissionais consideravam a participação em terapia e em programas para pais, a melhora da situação econômica e uma estrutura familiar nuclear como encenações “adequadas”, enquanto os familiares valorizavam as “pequenas coisas”, como estar fisicamente juntos de novo e conviver. Por isso, a internação em instituição fechada põe à prova a vida familiar e os membros da família ao criar um contexto moral singular, no qual os imaginários sociais e os ideais de família e de vida familiar são revisitados. “Fazer família” durante uma internação em instituição está longe de ser simples e depende de condições que possibilitam ou impossibilitam certas formas de contato e certas práticas ligadas à família. Saber como as imagens da vida familiar e as práticas familiares são afetadas pelas experiências da instituição fechada é essencial para compreender as consequências das internações em instituição para jovens, para seus familiares e para suas relações familiares. Compreender melhor esses processos pode abrir novos caminhos para apoiar essas pessoas jovens e suas famílias e para trabalhar com elas.
Apresentamos um estudo de seguimento de jovens com experiência de internação em instituição fechada. No estudo anterior, a pessoa que assina em primeiro lugar entrevistou repetidamente (três vezes) 16 jovens (internados em instituição fechada no outono de 2010 ou na primavera de 2011), durante e depois da internação (Enell, 2016, 2017). Em 2018 e 2019, essas 16 pessoas, já adultas, foram contatadas novamente por cartas informativas, telefone, redes sociais e, em alguns casos, por meio dos pais. Depois de meses de esforços intensos para chegar a quem tinha participado do estudo original, uma pessoa recusou ativamente participar da pesquisa, uma nunca respondeu e outras três não puderam ser contatadas (as cartas informativas voltavam repetidamente com a observação “destinatário não encontrado”). No fim, 11 jovens (seis homens e cinco mulheres entre 21 e 26 anos) aceitaram participar do novo projeto de pesquisa.
Ao convidar as pessoas jovens para o estudo, também lhes pedimos que indicassem familiares que pudessem ser contatados para entrevistas sobre a vida familiar durante e depois da internação. Nove participantes fizeram indicações, e duas pessoas não deram nenhum nome porque viam suas relações familiares como tensas demais. Uma pessoa indicou um pai e uma irmã, e as demais indicaram apenas pais e mães (11 pais e mães biológicos e três pais e mães acolhedores). Embora essas pessoas tivessem sido escolhidas para as entrevistas familiares, parte das pessoas jovens expressou ambivalência quanto a considerá-las membros da família. Uma irmã, um pai acolhedor e uma mãe recusaram-se a participar, e uma mãe não pôde ser contatada. Ao todo, participaram os pais e as mães de oito jovens. A mãe e o pai acolhedores que participaram eram a família acolhedora da jovem desde a primeira infância dela. A maioria das pessoas jovens morava perto da família; quatro tinham filhos, e duas moravam com os filhos (para quem não morava com os filhos, as crianças viviam com o outro genitor). A Tabela 1 resume as características de quem participou desta pesquisa.
Tabela 1 — Os jovens adultos, seus familiares e sua situação de vida atual
Para cada jovem: idade; familiar(es) indicado(s); familiar(es) entrevistado(s); moradia e ocupação no momento da entrevista.
A maioria das pessoas entrevistadas escolheu um local neutro para a entrevista, quase sempre uma sala de reuniões em um centro de convenções perto de onde morava. Três jovens e cinco familiares pediram entrevista em casa. Dois familiares pediram entrevista por telefone e por videoconferência. As entrevistas em profundidade inspiraram-se na entrevista centrada em quem narra (teller-focused interview), uma forma de abordar questões complexas sobre as quais pode ser difícil falar com estranhos (Hydén, 2014). A partir de uma posição de escuta, quem entrevista busca apoiar e incentivar quem narra no ato de contar. A entrevista se baseia em uma compreensão dialética de como o sentido é coconstruído no encontro e na concepção da entrevista como prática relacional. Esse método, somado ao fato de que a pessoa que conduziu as entrevistas (a pessoa que assina em primeiro lugar) tinha conhecido todos os jovens e a maioria dos familiares durante o estudo anterior, proporcionou um contexto relacional único, que nos permitiu explorar questões potencialmente sensíveis durante as entrevistas. Os temas centrais das entrevistas foram o sentido da família, a(s) relação(ões) familiar(es) atual(ais), a(s) relação(ões) familiar(es) na época da internação e as reflexões sobre as implicações da internação para as relações familiares atuais. A duração das entrevistas variou: a mais curta durou 40 minutos e a mais longa, quase três horas. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas literalmente com o consentimento das pessoas entrevistadas. Para respeitar o anonimato das pessoas participantes, todos os nomes foram alterados e as informações sobre os vínculos entre cada jovem e os pais foram omitidas. O estudo recebeu aprovação ética do comitê regional de ética em pesquisa, n.º 2018/273-31.
Esse procedimento de entrevista (em que algumas pessoas participantes escolhiam outras) fez com que jovens e familiares tivessem possibilidades diferentes de definir os termos durante as entrevistas. As pessoas jovens tinham liberdade para definir quem, em sua opinião, pertencia à família, mas o familiar indicado para a entrevista não tinha a mesma liberdade para se definir. Essa diferença criou um enquadre particular e pode ter afetado a forma como jovens e familiares compartilharam suas histórias.
Este estudo adota uma abordagem narrativa. Reconhecendo a produção social das histórias individuais, lemos essas histórias como discursos produzidos social e culturalmente, filtrados por experiências individuais e por relações inseridas em contextos específicos. Examinamos em profundidade como os diversos sentidos da família e das práticas familiares revelam aspectos da internação em instituição fechada, como esses sentidos interagem com os imaginários sociais da família e quais são as consequências desses sentidos para a vida cotidiana dessas pessoas jovens e de seus familiares. Os conceitos de práticas familiares (Morgan, 2011) e de encenação da família (Finch, 2007) servem como pontos de ancoragem que moldam nossa interação com os dados das entrevistas e nossa compreensão deles.
Seguindo uma abordagem relacional das vidas pessoais, levamos em conta as lembranças, as emoções e o contexto, essenciais para compreender a vida pessoal (Smart, 2007). Começamos identificando os trechos das entrevistas em que se falava de família, de vida familiar ou de posições familiares. Concentramos nossa atenção especificamente nos tipos de sentidos atribuídos à família, nas emoções que cercavam essas histórias e nas lembranças familiares. Também registramos os aspectos temporais das histórias, isto é, se elas se referiam ao momento da entrada na instituição fechada ou ao período durante ou depois da internação. Ao observar como jovens e familiares davam sentido à família, traçavam fronteiras entre família e não família e se situavam em redes de relações em diferentes momentos da vida, não só obtivemos uma visão das trajetórias familiares individuais, como também vimos como a internação projetava sombras sobre as experiências ligadas à família e ouvimos como essas experiências eram narradas.
A metáfora da sombra é usada para ilustrar o que se pode aprender sobre o contexto da internação em instituição fechada na Suécia ao ouvir as histórias que jovens e familiares contam sobre a vida familiar. Essas histórias são criadas na interseção entre experiências familiares individuais, ideais familiares imaginados e expectativas sociais e institucionais sobre práticas e encenações familiares. Constatamos que as sombras projetadas pela internação se revelavam em três áreas distintas: o caos emocional, as posições familiares revistas e negociadas e o fazer e desfazer a família. A seguir, apresentamos as diversas maneiras pelas quais a internação afetou a compreensão de jovens e famílias nessas três grandes áreas da vida familiar. Curiosamente, essas histórias também revelaram noções nuançadas e complexas de temporalidade. Embora se referissem a experiências passadas de internação, as histórias, quando analisadas pela lente das práticas e das encenações familiares, davam testemunho de concepções não lineares do tempo. Acontecimentos passados e presentes se entrelaçavam em histórias que revelavam diversas práticas e encenações familiares. Entendendo tempo e lugar como interdependentes (Morgan, 2011), as histórias entrelaçadas revelam como a internação continua a influenciar a vida das famílias anos depois de ter acontecido. Assim como o tempo e o lugar são fluidos e difíceis de apreender, também o são as sombras.
Um dos aspectos mais marcantes das histórias contadas por jovens e por seus pais sobre a vida familiar durante e depois da internação era o caos emocional. Essas experiências e histórias eram marcadas por uma ampla gama de emoções, sentidas com intensidade e que mudavam em ritmo acelerado.
Para pais e mães, as histórias da vida familiar na época da internação do filho ou da filha em instituição fechada eram histórias de uma parentalidade em crise. Embora vários pais e mães tivessem pedido a internação e tivessem a convicção de não haver outra opção, relataram como questionaram as próprias capacidades parentais e como sentiam o julgamento dos outros. Como explicou uma mãe:
[…] quando ela [a filha] foi tirada de casa, a gente se sentia a pior mãe do mundo… Quer dizer, como se a gente não valesse muita coisa. (Agneta, mãe)
A internação em instituição fechada é vista como último recurso na proteção à infância, e essa opção só surge quando tudo o mais falhou, inclusive a família. Ter um filho ou uma filha internada em instituição fechada trazia, portanto, uma sensação de fracasso pessoal, ampliada pelo estigma social que cerca a internação. Os pais e mães que tinham buscado, por iniciativa própria, a ajuda das autoridades de proteção à infância, e assim pedido a internação dos próprios filhos, enfatizavam as situações que os levaram a contrariar o que se considera uma “boa parentalidade”. Os sentimentos de vergonha e de falta de autoestima expressos dão testemunho do enquadre moral que define o que pais e mães devem e não devem fazer e fazem da responsabilidade parental uma exigência inquestionável (Ribbens McCarthy et al., 2000).
Defendemos que esses sentimentos de vergonha estão ligados às sombras da internação que recaem sobre a autoestima dos pais e mães. O prisma abrangente do fracasso parental, quando se tem filhos internados na instituição, torna a sombra da internação persistente e visível na forma como pais e mães falam da família. Curiosamente, o impacto da internação não se apaga com o tempo; ao contrário, a sombra da internação afeta a imagem que pais e mães têm hoje de si e de suas competências parentais. Imagens perturbadas de si também desencadeavam pensamentos perturbados sobre a própria posição, e esses pensamentos eram vividos como uma pesada carga emocional:
Mas a gente ainda está aqui, e com certeza é isso que… é isso que importa de certa forma, por mais horrível que tenha sido. Então, aguentar, eu diria que isso é subestimado como método, aguentar de verdade. Às vezes é só isso. Quer dizer, não dá para fazer nada além de aguentar, porque não se tem outra escolha. (Gunilla, mãe)
Ao refletir sobre sua experiência, Gunilla usou repetidamente a palavra “aguentar” para explicar sua posição de mãe. A sensação de impotência surgia como uma condição avassaladora, que afeta todos os aspectos da vida familiar. “Aguentar” indicava não só a força interior para enfrentar circunstâncias desfavoráveis, mas também uma luta contínua para encontrar o próprio lugar na imagem abalada da vida familiar. Mesmo anos depois da internação, a força do caos emocional daquela época ainda vem à tona quando pais e mães dão sentido à própria posição familiar e à própria família.
Essa sombra do caos emocional parece persistir nas imagens perturbadas que pais e mães têm de si. Para parte desses pais e mães, as dúvidas sobre a própria posição familiar vinham de anos. Para essas pessoas, a internação pode ter ampliado problemas e preocupações já existentes:
Sou praticamente um fracasso nessa parte. O que eu considero família é uma família nuclear. É isso mesmo. Mas eu estraguei isso lá atrás, quando tinha 18 anos, as minhas ideias sobre família, por assim dizer. (Linn, mãe)
Ao admitir ser um fracasso, Linn usou o presente. Para ela, as experiências de uma parentalidade em crise pareciam constituir um traço permanente de sua vida como mãe. Nesse contexto, a internação era usada como exemplo, ou melhor, como prova de fracassos que não podiam ser escondidos nem consertados. Nesse trecho muito emotivo, Linn lembrou a gravidez na adolescência para enfatizar que, desde o início, estava fadada a fracassar. O fracasso que ela percebia não se referia aos acontecimentos reais, mas aos ideais familiares imaginados que, quando não alcançados, podem ter prejudicado de forma permanente o modo como as pessoas se relacionam com os outros e se envolvem na vida familiar.
O envolvimento e a posição dos pais no momento da internação também receberam atenção nas histórias contadas pelas pessoas jovens. Embora pudessem descrever relações tensas e frágeis com os pais antes da internação, essas pessoas expressavam reações muito intensas ao envolvimento dos pais (ou à falta dele) na internação. Assim como no tom muito emotivo de algumas histórias de pais e mães, jovens cujos pais tinham tomado a iniciativa da internação expressavam raiva e desrespeito. Ao refletir sobre a internação, Rashid compartilhou os sentimentos fortes e ambivalentes que teve quando se viu na instituição fechada:
Quando isso aconteceu, como eu… Eu ainda amo a minha mãe. Quando eu falava com ela, eu chorava… Na primeira vez que eu… eu berrava e ela berrava. Mas eu disse que odiava ela e tal, mas, meu Deus… Eu sabia no fundo do coração que não odiava ela, eu só falava merda porque estava com uma raiva do cão. […] Eu estava com raiva do lugar onde ela me pôs, era disso que eu estava com raiva. Mas eu ainda amava a minha mãe, mas eu ainda estava… é que, com certeza eu disse todas aquelas coisas para ela porque estava com medo, [eu] lembro que estava com medo porque me sentia numa prisão. (Rashid, rapaz)
Os sentimentos de medo e de raiva que acompanhavam a internação eram também sentimentos de abandono e de fúria contra pais cujo papel era proteger os filhos. Lembranças vívidas de choro e de gritos, como as de Rashid, eram comuns nas histórias de jovens que lutavam para entender a internação em instituição fechada. Como já indicado, grande parte da luta que essas pessoas expressavam estava ligada a imagens familiares perturbadas e rompidas. Independentemente da situação anterior e da qualidade das relações familiares antes da internação, ao narrar sua experiência essas pessoas jovens não conseguiam dar sentido à situação, porque não conseguiam dar sentido ao papel que a família assumira durante a internação. Rashid, por exemplo, fala ao mesmo tempo de raiva e de amor pela mãe, ao tentar recordar os sentimentos conflitantes e avassaladores que desde então marcaram suas experiências e lembranças da instituição fechada. A sombra desses sentimentos ambíguos em relação aos pais rondava a forma como falavam da internação, quase dez anos depois. Ainda assim, depois de tanto tempo, várias dessas pessoas jovens nos disseram que a força das emoções envolvidas dificultava conversar sobre essa ambiguidade com os pais.
A internação em instituição fechada (uma intervenção poderosa, de último recurso, para a qual a pessoa jovem muitas vezes tinha sido levada às pressas) é um contexto extraordinário para pensar questões de família e de vida familiar. Afirmamos que, como prática institucional, a internação em instituição fechada é muito carregada de emoção e afeta as relações tanto de quem está privado de liberdade quanto de suas famílias (Enell & Wilińska, 2021). O caos emocional que acompanha essa forma de internação está intimamente ligado à perturbação da vida familiar e às imagens do que as famílias deveriam ser. No imaginário social da família, pais e mães são quem cuida dos filhos e os protege; os filhos, por sua vez, podem contar com os pais. A internação mostra que essa ideia nem sempre é a realidade. Em alguns casos, mostra que a família não basta; em outros, que a família é a principal fonte dos problemas. O peso emocional dessas formas de entender a família no contexto da internação não pode ser subestimado. As vozes de filhos, filhas, pais e mães apresentadas acima mostram que emoções vívidas, fortes e duradouras acompanham a internação e estão ligadas ao modo como olhamos para as famílias. A sombra do horror rememorado da internação não diz respeito só à institucionalização; diz respeito também ao deslocamento da família, e essa sombra aparece como emoções que tanto os filhos quanto as famílias precisam administrar sozinhos muitos anos depois.
Nessas condições de caos emocional e relacional, tanto para os familiares quanto para as pessoas jovens, esperava-se que as relações com a família continuassem durante a internação, agora dentro das restrições de uma instituição fechada (Enell & Wilińska, 2021). Uma dessas restrições era que, nas primeiras semanas ou meses, a pessoa jovem não podia telefonar para ninguém de sua rede pessoal, exceto para os pais. Além disso, o número de ligações e o tempo permitido eram limitados. Segundo alguns jovens (o que pais e mães confirmaram), só era possível fazer uma ligação de dez minutos e receber uma ligação de dez minutos por dia. Outra restrição dizia respeito às visitas, que em alguns casos se limitavam a um fim de semana a cada três. Essas condições eram agravadas pela localização (muitas vezes remota) das instituições fechadas. Na maior parte do tempo, os contatos das pessoas jovens com o mundo exterior se restringiam ao contato com os pais, independentemente da qualidade da relação ou das tensões familiares existentes.
As pessoas jovens viveram de maneiras diferentes a separação forçada e o contato muito restrito com a família. Para algumas, as restrições eram muito frustrantes. Lisa, por exemplo, contou que, apesar de conflitos anteriores, a mãe era a primeira pessoa para quem escolhia ligar, e que muitas vezes usava as duas ligações diárias permitidas para falar com ela. Pelo que se lembra, eram essas ligações que a mantinham de pé. Mais adiante na internação, quando Lisa pôde falar com outras pessoas além dos pais, ela explica que o número limitado de ligações diárias a obrigava a escolher entre aceitar uma ligação ou guardá-la para depois, caso a mãe ligasse. Muitas vezes, dava prioridade às ligações da mãe. Oito anos depois da internação, ela reflete:
O fato de que a minha relação com a minha mãe, principalmente com a minha mãe, se baseava em eu estar mal, e isso desgastou a nossa relação a ponto de que até hoje nunca vamos ter uma relação de mãe e filha, porque sempre tem alguma coisa em que ela precisa me ajudar. Ainda é um pouco uma relação de dependência. É assim desde [nome da unidade fechada], sinto que ela é a única em quem posso confiar em certas questões. Então é ela que tem que me ajudar. Isso cansa ela e também faz com que muitas vezes a gente tenha… não mais, mas a gente teve muitas discussões e brigas porque eu achava que ela devia me ajudar, enquanto ela talvez pensasse “tá, mas você também precisa aprender”. (Lisa, jovem mulher)
Lisa apresentava sua relação com a mãe como atípica em comparação com o ideal de uma relação “adequada” entre mãe e filha. A forma como ela ficou dependente da mãe no momento em que estava mais vulnerável lhe deu uma compreensão da relação que ainda estava presente em sua vida. O fato de ela mostrar o próprio bem-estar como dependente da mãe é, para ela, uma sombra nítida e ainda presente da internação, que impede a mudança que ela espera de si mesma: tornar-se uma filha autônoma, em uma relação mais igualitária com a mãe.
A internação, como período difícil e muito carregado de emoção, também podia fortalecer os laços e vínculos familiares. Esse era um ponto em que jovens e pais de uma mesma família podiam concordar, e foi o que aconteceu com Nora e a mãe. Nora, assim como Rashid, tinha raiva da mãe por tê-la colocado na instituição fechada. Depois de perceber que só podia ter contato com os pais, Nora disse: “bom, claro, eles ficaram muito importantes para mim, porque eu não podia ter mais nada”. As relações também podiam se fortalecer em situações em que jovens e pais se sentiam unidos contra o poder abrangente da internação. Ter um inimigo comum podia permitir que as duas partes redefinissem as relações e as posições familiares. O exemplo de Lisa traz a perspectiva de uma mãe que, graças à sua capacidade de mobilizar recursos, surge como a pessoa mais importante na vida de Lisa. Talvez a mãe de Lisa sempre tivesse agido assim, mas talvez tenha sido a internação que revelou a Lisa o sentido e a importância de suas ações.
Se a internação pode ter desencadeado mudanças e redefinições da família que resultaram em mais ou em melhor conexão para algumas famílias, para outras o caminho até uma compreensão maior exigiu mais tempo e esforço, como ilustra a história a seguir:
Johan: Quando você ficava em [unidade fechada] e em [cidade] e tal, não tinha muito de família, porque… você só tinha contato por telefone de vez em quando.
Pessoa entrevistadora: Com…?
Johan: Com os seus pais de verdade. Então não tinha muito de relação. Você perdia muitas relações naquela época. Mas você ainda sabia quem eles são, e você ainda conhece eles, mas perde a conexão que tinha. […] E você perde também o contato com os seus irmãos… já que você não está em casa. Você está longe, está muito longe deles. (Johan, rapaz)
Na encenação familiar de Johan acima, ele estabelece uma distinção entre conhecer a família e fazer família. Sua reflexão pesarosa lembra vivamente a importância das práticas familiares para o modo como vivemos as famílias, em que as “pequenas coisas” (Ursin et al., 2017), como estar junto, manter contato e participar da vida uns dos outros, fazem diferença. Uma família sem contato e sem prática deixa de existir. Ainda assim, Johan usava as categorias de “pais” e “irmãos” para nomear suas relações familiares, embora o “muito longe” final indique uma grande distância emocional, que cresceu durante o acolhimento institucional e quando havia restrições às relações com outras pessoas. Mas a história de Johan também é a de relações familiares revistas depois do desligamento do acolhimento por idade. Depois de anos em diversos arranjos de cuidado, Johan retomou o contato com a mãe e com alguns de seus irmãos.
Você aprende a dar valor, porque um familiar pode sumir assim [ele estala os dedos] e não está mais lá. (Johan, rapaz)
A forma como ele dava sentido às relações familiares pode ser entendida como uma sombra do tempo passado em acolhimento e das mudanças relacionais súbitas que as sucessivas colocações trouxeram para sua vida. A sombra da internação, em sua história, é uma lembrança viva da temporalidade da família e de seus limites.
A fragilidade das relações familiares durante a internação também afetava a forma como jovens e pais concebiam a família. As pessoas jovens destacavam a importância da confiança, do apoio e do cuidado. Embora, por padrão, a família fosse para elas os pais, também abriam espaço para definições mais abertas de família, baseadas não em laços de sangue, mas na prática concreta e nas qualidades das relações.
Família para mim. Bom, quer dizer, toda a minha família não é realmente minha família nesse sentido. Para mim, a minha família são as pessoas por quem, bom, você faria basicamente qualquer coisa. Ou sem as quais você se sente muito, muito vazia. É como um pilar. […] E eu não sinto bem isso pela minha mãe, infelizmente. Eu gostaria, mas não sinto. (Nora, jovem mulher)
A ideia de que a família faria tudo por seus membros e de que as relações familiares dão uma sensação de estabilidade e de segurança era muito difundida entre as pessoas jovens. Essas reflexões muitas vezes apareciam contra o pano de fundo de experiências vividas de vida familiar que não correspondiam bem a esse quadro. A luta evidente na história de Nora pode refletir qualquer luta em que alguém tenta se libertar de uma família definida pelo nascimento. Assim, “toda a minha família não é realmente minha família” não é só a expressão de uma situação familiar complicada, mas sobretudo a expressão de uma posição moral segundo a qual, para se qualificar como “família”, é preciso merecer. Quando o pertencimento familiar não corresponde à prática familiar, esse pertencimento pode ser retirado (ver Becker & Charles, 2006). As fronteiras que as pessoas jovens traçavam em torno da família, excluindo alguns familiares e incluindo outras pessoas, como amizades ou até animais de estimação, não eram traçadas de coração leve. A descrição que Nora faz de seus sentimentos pela mãe biológica evoca uma sensação de perda e decepção e dá testemunho do lugar valioso (determinado cultural e socialmente) dos pais biológicos, sejam quais forem as circunstâncias.
As entrevistas com pais e mães revelaram possibilidades muito mais limitadas de negociar o conceito de família. Embora parte desses pais e mães compartilhasse as definições mais abertas de família dos filhos, nenhuma das pessoas entrevistadas entre pais e mães rejeitou os filhos nem se recusou a vê-los como parte da família, nem na época da internação nem depois. Para algumas delas, a experiência da internação obrigou a dar prioridade aos filhos. Linn, que antes se descrevera como um fracasso familiar, pretendia terminar a relação prejudicial com o companheiro na época em que a filha foi internada em instituição fechada. No entanto, a forma como a equipe da instituição enfatizou a importância do apoio parental para a filha a fez mudar de ideia, e ela permaneceu na relação.
E isso ficou gravado em mim, o quanto a gente era importante. E isso me fez recuar um pouco, porque [nome da filha] ainda vem em primeiro lugar. (Linn, mãe)
A forma como Linn mostrava que colocava a filha em primeiro lugar e assumia a responsabilidade parental deixando de lado as próprias necessidades surgiu como uma lição moral da internação sobre como ser uma “boa mãe ou um bom pai”. Em termos de sombra da internação, essa lição moral reforçou a percepção que ela tinha de si mesma como um fracasso, e durante a entrevista ela falou de si mesma como uma mãe insuficiente.
As experiências pelas quais pais e mães tinham passado também podiam ajudá-los a admitir que a vida familiar não precisa ser perfeita, ou melhor, que não pode ser uma questão de perfeição.
E que não é preciso, nem tudo tem que ser alegre, dá para ficar com raiva um do outro, dá para ficar triste também, mas ainda assim manter o contato. […] Eu nunca poria os meus filhos para fora de casa. Eu os coloquei no mundo e então… bom, é um compromisso para a vida toda. (Agneta, mãe)
Falando da posição de quem sustenta a família, pais e mães muitas vezes compartilhavam suas experiências de manter as coisas de pé e de fazer o melhor possível para que a família acontecesse. De acordo com o imperativo moral de colocar os filhos em primeiro lugar (Ribbens McCarthy et al., 2000), assumiam para si a responsabilidade pela vida familiar. Embora as experiências com a internação pudessem lhes permitir refletir com mais liberdade sobre como as famílias poderiam ser, elas também lançavam sobre a parentalidade uma sombra moralmente enraizada: os filhos devem ser a primeira prioridade.
A pressão para fazer a família (leia-se: a família de origem) funcionar é evidente nas histórias tanto de pais e mães quanto de jovens. Há sinais de pessoas, sobretudo jovens, criando novos sentidos e abrindo a ideia de família a pessoas de fora da rede tradicional de parentesco, bem como sinais de que a família é pensada como uma forma de fazer, e não como uma unidade fixa. Ainda assim, essas interpretações ocorrem contra o pano de fundo de ideias firmemente enraizadas sobre a predominância das famílias de origem. A noção de “família de origem” é persistente, e as pessoas jovens relutam muito em abrir mão dela (como também observaram, por exemplo, Wilson et al., 2012). É possível que a ideia seja tão importante que, ao tentar mostrar que uma família está funcionando, os membros da família (de origem) sejam levados a explorar novas formas de interagir e de se comunicar (Finch, 2007). A pressão para fazer a família funcionar e a comunicação revista de uma família podem ser entendidas como uma sombra da internação: os contatos com os pais são aceitos, mas também se reforça a ideia de que a família (de origem) é importante.
O contexto pós-internação de uma família marcada pelo caos emocional e (em muitos casos) por imagens revistas da família também tem consequências para as práticas e ações imediatas que mantêm ou dissolvem diversas relações familiares. Assim como a encenação da família e as práticas de “fazer família” revelam muito sobre as famílias no contexto da internação, a ausência de encenação, ou o desfazer da família, pode oferecer percepções ainda mais profundas sobre as complexidades familiares. Como aponta Gabb (2011), as encenações familiares visíveis e invisíveis são igualmente relevantes para entender o que é a família. Não surpreende que, nas histórias analisadas, a dimensão do “fazer” aparecesse com mais frequência entre pais e mães entrevistados, enquanto as histórias de desfazer a família apareciam exclusivamente entre as pessoas jovens. Por desfazer a família, entendemos neste contexto o processo de redefinir os pressupostos normativos e os ideais da vida familiar e de se distanciar da preeminência abrangente da família na vida dos indivíduos. Nesse sentido, toda tentativa de desfazer a família se volta tanto para imaginar quanto para viver a vida sem a família como uma das formas relacionais mais desejadas.
Em geral, pais e mães são considerados responsáveis pela forma que as famílias assumem (Ribbens McCarthy et al., 2000). A internação pode, portanto, pôr à prova a capacidade dos pais de estar à altura das exigências de ser uma “boa mãe” ou um “bom pai”. As encenações familiares podem então se tornar uma estratégia útil para afastar o estigma moral decorrente da internação e transmitir que suas relações familiares são como as das “famílias de verdade” (cf. Ursin et al., 2017). No trecho a seguir, Olle mostra o que aprendeu com a experiência de ter um filho ou uma filha internada em instituição fechada:
Bom, agora a gente também tem outra perspectiva sobre isso, mas uma família, no fundo, é poder falar de tudo. A gente pode se envolver com o que cada um faz. A gente não deixa ninguém passar o dia sem contar alguma coisa que viveu, é preciso pelo menos conversar um pouco sobre o que a pessoa pensa. (Olle, pai)
A importância da comunicação e de ficar de olho (indiretamente) nos filhos pode ser lida como um exemplo típico de reprodução do ideal parental. Para Olle, essa descrição também indicava que a conversa diária ganhou importância como resultado direto das experiências com a internação, e ele relacionava essa conversa às dificuldades nas relações familiares, sobretudo entre pais e filhos. Como ele admite, aprendeu a fazer isso porque “a gente achava que vivia bem e tinha uma vida boa, mas pelo jeito [a filha] não estava nada bem”. Assim, o modo como Olle faz família nove anos depois traz a sombra de sua experiência com a internação.
Conversar, ou “só conversar”, como diriam alguns pais, mães e jovens, tornou-se uma das formas mais importantes de fazer família. As histórias, tanto de pais e mães quanto de jovens, pouco falavam de outros tipos de atividade: conversar e telefonar eram o que mais se mencionava para explicar as práticas familiares durante e depois da internação. Às vezes, porém, conversar indicava dificuldades, dependência ou medo:
Agora, quando ele liga com tanta frequência, ele liga só para conversar… Não, talvez não, não só para conversar, sempre tem alguma coisa que ele quer. Mas antes, você sabia, “pronto, deve ter acontecido alguma coisa”, quando ele ligava. Mas agora não é mais assim. (Robert, pai)
Os comentários de Robert revelam o lado problemático da comunicação, ao mostrar como uma prática aparentemente única (telefonar) pode ganhar vários sentidos mesmo quando as mesmas pessoas estão envolvidas. O que antes era motivo de preocupação mudou e agora é uma oportunidade de manter contato. No entanto, “fazer família” não diz respeito só ao como e com quem, mas também ao quando e ao onde. As considerações de pertencimento e de prática que mantêm vivo o conceito de família (Morgan, 2011) também têm dimensões espaciais e temporais que podem mudar ou afetar o sentido que lhes é atribuído, o que também se reflete em Boddy (2019), segundo quem as lembranças e as relações familiares podiam mudar ao longo do tempo e se tornar tanto tensas quanto apoiadoras.
Se manter contato era uma prática importante de encenação da família no contexto pós-internação, ficar por conta própria era a principal estratégia das pessoas jovens para “desfazer a família”.
Eu não ligo mais tanto para a família, como ligava quando era mais nova. Não ligo porque família é família, mas você… quer dizer, são eles que ainda podem te machucar mais ou… É assim… então, a coisa mais importante para mim, na verdade, sou eu mesma. (Tove, jovem mulher)
Relações tensas com os pais, somadas às experiências de internação, podiam levar as pessoas jovens a se voltar para dentro, buscando por conta própria uma melhor qualidade de vida, sem referência à família. A ênfase em si poderia, portanto, ser vista como extensão dos discursos individualistas (predominantes nas unidades fechadas) que, em nome de ensinar responsabilidade, tinham aos poucos se transformado em uma sombra: a de culpar e estigmatizar a juventude como fonte de todos os problemas (Enell & Wilińska, 2021).
Em sua história, Tove também deu voz aos sentimentos negativos e às dificuldades vividas nas relações com a família. Reconhecendo a importância atribuída às famílias, ela enfatizou que o dano emocional causado por relações familiares difíceis “machuca mais”. Essas dificuldades também significam que as pessoas jovens podem ter recursos relacionais limitados para seguir em frente e criar novas relações e novas famílias, como descrito em outra entrevista:
Adam: Hum. Mas então, acho que é muito porque… não moro com a mamãe e o papai desde 2007. Tem sido principalmente sobre criar a minha própria família.
Pessoa entrevistadora: Quem conta como família para você hoje em dia?
Adam: Hoje em dia. Não sei. (Adam, jovem adulto)
Apenas uma minoria das pessoas jovens achava difícil ou impossível definir as relações familiares atuais. A história de Adam sobre “criar família” reflete o seu fazer e desfazer da família ao longo de uma infância que incluiu múltiplas colocações em famílias acolhedoras e em acolhimento institucional. Sua resposta “não sei” sugere sentimentos ambíguos em relação às relações familiares e, como sugeriram Holland e Crowley (2013) em seu estudo sobre jovens que deixavam uma situação de acolhimento, a perda de ter a biografia de outras pessoas entrelaçada à sua por um longo período.
Para muitas dessas pessoas jovens, o conceito de família parecia reservado aos pais, o que ficou evidente nas histórias de quem tinha filhos. Nessas histórias, essas pessoas se identificavam como “filhos” dos pais, e não como pais e mães dos próprios filhos. Ter filhos parece ter aproximado parte dessas pessoas jovens de seus pais. Quando lhes pediam que nomeassem os membros da família, os próprios pais vinham primeiro. Assim, não saber quem é a sua família não deve ser lido literalmente como não ter relações familiares, mas pode ser entendido como uma dificuldade persistente de aceitar relações disfuncionais com os pais. Na entrevista, Adam falou dos irmãos e de sua tatuagem que diz “família”, para enfatizar que sempre estaria ao lado da família. Esse ideal e essa moral de como fazer família talvez reflitam o que ele gostaria que a família tivesse feito por ele enquanto lutava para criar a própria família.
O “não sei” também pode lembrar a etapa da vida em que essas pessoas jovens se encontravam. Estavam numa idade em que muitos jovens saem de casa e da família de origem. Sair de casa é considerado uma das transições mais importantes entre a juventude e a vida adulta; trata-se, porém, de um processo longo, que depende de diversos aspectos estruturais, contextuais e relacionais (Holdsworth & Morgan, 2005). Entrar na vida adulta com a experiência da internação, em que parte dessas pessoas se sentiu abandonada pelos próprios pais e culpada por perturbar a vida familiar, pode ter facilitado desfazer a família, ao menos temporariamente. Para pais e mães de filhos que entram na vida adulta, a responsabilidade parental e a obrigação moral de proteger o filho ou a filha e colocá-lo em primeiro lugar parecem persistir, mesmo no processo em que os filhos deixam a família de origem.
O principal objetivo desta pesquisa foi lançar luz sobre a família e as práticas familiares entre jovens com histórico de internação em instituição fechada e seus familiares. Ao refletir sobre as diversas formas pelas quais a internação pode afetar as famílias, usamos a metáfora das sombras para compreender como a internação se manifestou nas práticas e nas encenações familiares dessas pessoas jovens e de seus familiares. Nas três grandes áreas (caos emocional; posições familiares revistas e negociadas; fazer e desfazer a família) em que as sombras da internação se revelaram, essas sombras assumiram formas diferentes: algumas eram nítidas, outras mais difíceis de apreender. Entre as sombras mais nítidas estavam o horror rememorado da internação (reflexo do deslocamento da família) e a pressão para fazer a família funcionar (reflexo da prática restritiva de considerar apenas os pais (biológicos) como família e como de importância (natural) para as pessoas jovens).
Constatamos também que, em grande medida, as histórias narradas pelas pessoas jovens e por seus pais eram histórias de encenação da família, em que se enfatizava como eram as famílias e o que essas famílias significavam para quem falava. Falava-se muito menos das práticas familiares e das diversas formas de fazer família, sobretudo depois do período de internação. Esse achado indica uma grande luta em torno do sentido da família, principalmente para as pessoas jovens, mas também para alguns pais e mães. Lembremos o argumento de Heaphy (2011) de que o enraizamento contextual restringe quem pode fazer encenações familiares, e de que modo. As sombras identificadas e as lutas das pessoas participantes podem refletir diversos contextos situacionais difíceis em sua vida antes, durante e depois da internação. A seguir, argumentaremos que essas sombras estão ligadas ao contexto situacional da internação em instituição fechada.
Analisar o material com o uso ativo dos conceitos de práticas e encenações familiares nos permitiu identificar e refletir sobre as normas, expectativas e moralidades ligadas à palavra “família”. Uma delas diz respeito à “relação entre pais e filhos”, concebida pelas pessoas jovens e por seus pais como o núcleo da vida familiar. As encenações de pais e mães mostram uma compreensão bastante estática e fixa do que é a família, e que desfazer ou redefinir os filhos como membros da família parece moralmente proibido (ver também Becker & Charles, 2006; Ribbens McCarthy et al., 2000). Em contraste com as visões expressas por pais e mães, as encenações familiares das pessoas jovens estavam fortemente ligadas ao “fazer” família; ainda assim, os pais estavam presentes nas histórias dessas pessoas. Elas se referiam quase exclusivamente aos pais como família durante a internação, depois de deixar a instituição e quando lhes foi pedido que indicassem familiares para este estudo. Irmãos ou outras pessoas significativas raramente eram mencionados. A presença marcante dos pais nas narrativas não mudava conforme as relações parentais fossem tensas, conforme a pessoa jovem tivesse passado muito tempo em acolhimento e estabelecido novas relações (familiares), ou mesmo conforme tivesse formado a própria família com parceria afetiva e filho(s). Pesquisas anteriores mostraram que quem deixa o acolhimento pode viver uma fluidez significativa na família (ver Holland & Crowley, 2013; Parker & Mayock, 2019); em contraste, a maioria dessas pessoas jovens não viveu as mesmas ambiguidades nas relações familiares.
As severas limitações relacionais da internação abalaram os fundamentos da vida em geral e da vida familiar em particular. Nesse caos emocional, as pessoas jovens ficaram com os pais como as únicas pessoas disponíveis fora da instituição para conforto e apoio. Os pais também se tornaram seu único elo relacional e biográfico com a vida anterior à internação. Defendemos que, no contexto da internação, o envolvimento e a responsabilidade parentais se sobrepuseram a todas as outras considerações relacionais, o que criou e/ou reforçou, para pais e mães, obrigações morais de colocar os filhos em primeiro lugar e, para as pessoas jovens, imagens morais de que a família (isto é, os pais) está presente aconteça o que acontecer. Esse ideal fixo da relação entre pais e filhos prende mais estreitamente as pessoas jovens e seus pais a uma compreensão moral da família como “os pais”, ao mesmo tempo em que restringe suas práticas. A sombra das restrições relacionais e de ter contato apenas com os pais recai pesadamente sobre essas pessoas mais tarde na vida. A relação com o(s) pai(s) parece ter prioridade sobre (todas) as outras relações, por mais tensa que seja. A compreensão da família em termos de apoio parental também pode produzir imagens distorcidas da família, difíceis de corresponder.
Se considerarmos o contexto da internação como um roteiro cultural para encenações familiares “adequadas”, a “família de origem” parece ser considerada de importância “natural”. Esses roteiros essencialistas correm o risco de “tornar invisíveis realidades e possibilidades relacionais alternativas” (Heaphy, 2011, p. 37). Defendemos, portanto, que o contexto da internação não sustenta o enraizamento das pessoas jovens em relações que não sejam com os pais. Tampouco o contexto institucional sustenta a ideia de biografias entrelaçadas com outras relações além dos pais. As estratégias de solidão das pessoas jovens e o consequente desfazer da vida familiar poderiam ter sido evitados se diferentes tipos de relação tivessem sido acolhidos e apoiados durante a internação. Além disso, esse roteiro pode prejudicar uma compreensão da família como algo relacional, criado e mantido por diversas práticas (Morgan, 2011). Consequentemente, tanto pais e mães quanto jovens compartilharam histórias de uma luta entre suas imagens da família, moralmente enraizadas, e a experiência de familiares que não alcançavam esse ideal (no caso das pessoas jovens) ou de serem quem fracassava (no caso dos pais e mães).
O título deste artigo traz uma citação de uma das jovens, Nora, que afirmou: “Toda a minha família não é realmente minha família”. Esse trecho manifesta tanto a persistência de normas familiares moldadas cultural e socialmente, que enfatizam a relação entre pais e filhos, quanto a ideia de que o pertencimento familiar é algo a que se precisa fazer jus por meio de ações: é preciso conquistá-lo e merecê-lo. As emoções e os sentimentos por trás dessa frase provavelmente são reconhecíveis por muitas pessoas que, em momentos de raiva, atacam noções idealizadas de família. Aqui, porém, a afirmação se apoia numa condição mais permanente. As histórias narradas pelas pessoas jovens e por seus pais são condicionadas pela influência contínua da internação, inserida no contexto estrutural de um modelo de proteção orientado para a família dentro de um Estado de bem-estar desfamiliarizado. Juntas, essas duas forças criam uma tensão estrutural entre, de um lado, políticas sociais fundadas nos ideais de independência e de relação direta entre o indivíduo e o Estado e, de outro, práticas institucionais que enfatizam a dependência do apoio familiar. As tensões aparentes entre políticas, práticas e experiências cotidianas se revelam nas dificuldades de conciliar as realidades imaginadas e vividas da família, e essas dificuldades levam algumas pessoas jovens a concluir que o melhor caminho é investir em si, e não nas relações (familiares).
Ao discutir, ou melhor, “perturbar” o conceito de família entre jovens com experiência de acolhimento fora da família, Boddy (2019, p. 2249) enfatiza a importância de levar em conta tanto os sentidos comuns quanto os sentidos singulares da família. Neste artigo, partimos do sentido comum para chegar a sentidos singulares da família, a fim de chamar a atenção para o efeito permanente que a internação tem tanto sobre as pessoas jovens quanto sobre seus pais. A sombra da internação sobre as práticas e as encenações familiares é um lembrete eloquente de que as políticas e as instituições de proteção à infância podem marcar filhos e pais para a vida inteira ao intervir no que a vida humana tem de mais precioso, a saber, as relações (Donati, 2011). Com foco específico na família, nossos resultados nos levam a defender que se dê mais atenção à perversidade dos arranjos de internação em instituição fechada, tanto no nível das políticas quanto no das instituições, porque esses arranjos prejudicam as pessoas jovens e suas famílias ao limitar seus recursos e reduzir suas possibilidades de fazer ou de desfazer a família.
Complexe Systémique: a reter
Este texto lembra que uma medida de proteção é também uma intervenção em um sistema relacional, e que ela o reconfigura de forma duradoura. Ao reduzir os contatos apenas aos pais, a instituição fechada fabrica uma família obrigatória: aprofunda a dependência (Lisa), fixa nos pais o imperativo moral de “colocar o filho em primeiro lugar” até a autoacusação (Linn) e deixa às pessoas jovens duas saídas estreitas, continuar presas aos pais apesar de tudo ou se fechar em si. A metáfora das sombras convida a escutar, anos depois, o que continua ativo nos relatos, em vez de considerar a internação encerrada na saída. Para a prática, o desafio é sustentar durante a internação outros vínculos além dos pais (irmãos, amizades, pessoas próximas escolhidas) e acompanhar também o distanciamento de relações destrutivas. O estudo é qualitativo e sueco: 11 jovens, pais e mães indicados por elas e eles, e um enquadre de entrevista que dava aos pais menos liberdade para se definir. Para ler junto com o artigo sobre as relações de jovens que passaram pelo acolhimento com seus pais de origem e com a reflexão sobre proteção e maus-tratos institucionais.
Notas do original
Correspondência. Sofia Enell, Departamento de Serviço Social, Universidade Linnaeus, Växjö SE-351 95, Suécia.
Agradecimentos. A equipe de pesquisa agradece a todas as pessoas jovens e familiares que participaram do estudo por compartilharem generosamente suas reflexões sobre a vida familiar.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse relativos à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.
Financiamento. A equipe de pesquisa declara ter recebido o seguinte apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo: este artigo conta com apoio financeiro do Conselho Sueco de Pesquisa em Saúde, Vida Profissional e Bem-Estar (Forte), dnr 2017-00261, STYA-2017/0003.
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Tradução não oficial em português de “Toda a minha família não é realmente minha família”: as sombras da internação em instituição fechada sobre a família e as práticas familiares de jovens e de seus familiares, de Sofia Enell e Monika Wilińska, Journal of Family Issues, vol. 43, no 8 (2022), doi: 10.1177/0192513x211030026, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““My Whole Family Is Not Really My Family”—Secure Care Shadows on Family and Family Practices Among Young Adults and Their Family Members”, publicado em Journal of Family Issues (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Enell, S., et Wilińska, M. (2022). “Toda a minha família não é realmente minha família”: as sombras da internação em instituição fechada sobre a família e as práticas familiares de jovens e de seus familiares (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/toda-a-minha-familia-nao-e-realmente-minha-familia-as-sombras-da-internacao-em-instituicao (Obra original publicada em 2021 em Journal of Family Issues, 43(8), 2210-2233 (2022); republicada em 2022 por Journal of Family Issues, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0192513X211030026)
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