Clínica · Domínio

Você não pertence a ninguém: sair das lógicas de domínio, na vida e no cuidado

Uma frase simples, quase evidente. E, no entanto, quantos vínculos — amorosos, familiares, profissionais e, às vezes, até terapêuticos — escorregam para uma lógica de posse, de dívida, de poder?

“Você não pertence a ninguém.”

Este texto toma posição: o cuidado não é um poder, ajudar nunca é dominar, e o silêncio diante do abuso nos torna cúmplices. Trata-se de um chamado à justiça relacional: reconhecer a dignidade do sujeito, esclarecer as responsabilidades e devolver ao vínculo sua função de apoio, em vez de um uso de controle.

Quando o vínculo se torna dominação

O domínio psicológico nem sempre começa com um grito. Ele se insinua: promessas ambíguas, dívidas morais, isolamento sutil, desqualificação do pensamento, confusão mantida. Num casal, numa equipe, numa família, numa formação ou num consultório de terapia, o enquadre e a qualidade do diálogo fazem a diferença entre uma relação que eleva e uma relação que aprisiona.

No campo sistêmico, sabemos que as microdinâmicas — lealdades, dívidas, segredos, duplos vínculos — podem transformar uma relação de ajuda numa mecânica de dominação se ninguém estiver encarregado de pensar seus efeitos.

Os silêncios cúmplices: um fenômeno sistêmico

A omertà institucional tem seus motores: lealdade ao grupo, medo de represálias, retórica da neutralidade, fadiga moral. A psicologia social descreve há muito tempo o efeito do espectador: quanto mais testemunhas há, menos cada uma se sente responsável por agir. O cuidado não escapa a essa difusão de responsabilidade — daí a necessidade de papéis e de procedimentos de alerta explícitos.

Justiça relacional: uma bússola para a ética do cuidado

Na terapia contextual, Boszormenyi-Nagy fala de justiça relacional: equilíbrio das contribuições, confiabilidade, responsabilização, transmissão leal entre gerações. Essa bússola convida os profissionais a se situarem não “acima”, mas a serviço da confiabilidade do vínculo.

A neutralidade na sistêmica, tal como a pensa a escola de Milão, não é indiferença: é uma posição de curiosidade multidirecional — hipotetização, circularidade, neutralidade — que impede a dominação; ela não a tolera. Quando a “neutralidade” se torna pretexto para o silêncio diante de violências, ela trai sua função.

Por que falar disso tudo agora?

Porque a transparência se impõe. Fui testemunha, em algumas instituições, de dinâmicas de domínio encobertas por uma lealdade de fachada, pelo verniz de uma “neutralidade” e, às vezes, pela omertà. Recuso-me, de agora em diante, a normalizá-las.

Já passou da hora de ter a coragem de combatê-las: nomeá-las sem rodeios, documentá-las, proteger quem sofre com elas, exigir procedimentos claros e contrapoderes efetivos, e aceitar colocar nossas práticas em questão. O cuidado nada tem a temer da luz; o que ela ameaça são os arranjos que fabricam a impunidade.

Falemos, ajamos e sustentemos a linha de uma justiça relacional que protege. A fala completa — em francês — está abaixo.

Como citar este artigo

Besse, J. (2025, 12 de outubro). Você não pertence a ninguém: sair das lógicas de domínio, na vida e no cuidado. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/voce-nao-pertence-a-ninguem-sair-das-logicas-de-dominio-na-vida-e-no-cuidado

Para ir mais longe

Trocas

Comentários 0

Entre para participar da discussão. Entrar

  1. Nenhum comentário por enquanto. Comece a discussão.

Carrinho

Seu carrinho está vazio.