Family Process · Terapia familiar
John, quinze anos, não sai mais do quarto e dá ordens aos pais aos gritos. Uma noite, o pai lhe dá uma bronca, se contém, se senta: “Podemos fazer de conta que voltamos no tempo, para eu entrar de novo e fazer melhor?” Tormod Rimehaug, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, descreve essa estratégia, nascida da resistência não violenta de Haim Omer: reencenar na hora a cena que deu errado, em vez de esperar a próxima ocasião. Os pais dão o exemplo primeiro, antes de propor que cada jovem faça o mesmo.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Voltar no tempo”: uma estratégia positiva para mudar comportamentos inaceitáveis de jovens, de Tormod Rimehaug, publicado na Family Process (Wiley) (2023), doi: 10.1111/famp.12882, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Uma ilustração inicial não é reproduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Concluir a VT com sucesso pode ser um poderoso ato reparador, centrado na encenação de um comportamento melhorado.
Tormod Rimehaug
Resumo
Este artigo descreve “Voltar no tempo” (VT), uma estratégia inovadora para lidar com comportamentos inaceitáveis ou coercitivos de jovens, baseada em princípios não violentos e inspirada no movimento da resistência não violenta (RNV), também chamada de abordagem da autoridade que conecta ou da autoridade cuidadora (AC), para a orientação e a supervisão de pais e outros adultos. Variantes da RNV/AC foram avaliadas como eficazes em ensaios clínicos randomizados e em delineamentos pré-pós. A VT não foi avaliada quanto à sua eficácia, mas mostra uma utilidade promissora em estudos de caso. O objetivo desta descrição da estratégia VT é incentivar seu desenvolvimento e o teste de sua utilidade em larga escala, para aprimorá-la e abrir caminho para avaliações de eficácia. O núcleo da VT é criar possibilidades de melhorar o comportamento sem demora, negociando a narrativa social da linha do tempo. Isso permite melhorar por meio da reencenação dos acontecimentos logo depois de ter dito ou feito algo infeliz ou inaceitável, em vez de esperar pela próxima situação comparável. Os adultos introduzem a estratégia dando o exemplo, antes que os jovens sejam incentivados a corrigir imediatamente o próprio mau comportamento sem esperar uma oportunidade posterior. Por fim, os adultos declaram que um conjunto de comportamentos inaceitáveis desqualificará qualquer pedido ou exigência, mas que será possível tentar de novo como se nada tivesse acontecido, usando a estratégia VT. Essa declaração pretende aumentar o interesse dos jovens em usar, por sua vez, a VT e, quando o uso dá certo, reduzir a escalada dos conflitos para a coerção e as ameaças.
Nota de tradução. O inglês Turning back the clock (TBC) é traduzido por “Voltar no tempo” (VT), nonviolent resistance (NVR) por “resistência não violenta” (RNV) e connecting authority ou caring authority (CA) por “autoridade que conecta” ou “autoridade cuidadora” (AC). Nos exemplos, as palavras entre sinais <xx> devem ser adaptadas às pessoas e às situações.
Este artigo descreve “Voltar no tempo” (VT), uma estratégia inovadora que ainda não foi avaliada quanto à sua eficácia, além de relatos de caso sobre sua utilidade e seu proveito diante de comportamentos negativos. Esta descrição está sendo publicada para incentivar a clínica e a pesquisa a desenvolver e avaliar sistematicamente sua utilidade, como passo para a construção de uma base de evidências de sua eficácia, se ela se mostrar eficaz na prática. A VT não foi pensada como um tratamento isolado, mas para ser combinada com outras estratégias conforme as necessidades de cada caso.
A estratégia VT se inspira em livros e manuais que descrevem o movimento da RNV, uma abordagem para fortalecer pais e adultos desafiados pelo comportamento negativo de jovens. Os nomes dados à abordagem mudaram um pouco: de RNV (resistência não violenta) e “nova autoridade” para “presença parental”, “autoridade que conecta” ou “autoridade cuidadora” (AC). Neste artigo, prefiro a denominação AC, porque ela destaca a dualidade da abordagem, a combinação inseparável de cuidado e clareza, de vínculo e autoridade na interação entre adultos e jovens. Ainda assim, usarei o termo “RNV” para me referir à tradição histórica e ao seu desenvolvimento, e AC para o estado presente e futuro dessas abordagens.
Independentemente de seu contexto e de suas motivações, o comportamento coercitivo é vivido como muito desagradável por quem sofre esse comportamento, muitas vezes como opressão ou tirania. É isso que fundamenta a aplicação, pela RNV/AC, de estratégias vindas das lutas políticas contra a opressão e a coerção a contextos mais pessoais. Nas famílias, o medo e a impotência podem levar à submissão ou à passividade, que reforçam as estratégias coercitivas e mantêm as disfunções ou os transtornos associados a elas.
Não se pode imputar aos jovens a responsabilidade por seus transtornos de saúde mental, mas seus atos continuam sob sua responsabilidade, com poucas exceções: a maioria das culturas não considera juridicamente responsáveis as pessoas psicóticas gravemente doentes no momento da ação. Já as pessoas que sofrem de problemas de saúde mental mais comuns costumam ser consideradas responsáveis pelos atos motivados por esses problemas, embora isso possa ser visto como circunstância atenuante. Isso não muda a aceitabilidade dos atos nem a responsabilidade de cada jovem por atos de reparação, reconciliação e melhora do comportamento. De todo modo, esses jovens podem merecer e precisar do apoio e da ajuda dos outros para aprender a escolher alternativas mais construtivas do que comportamentos coercitivos e ameaçadores em relação aos outros.
A estratégia tradicional para deter os ciclos de coerção e submissão, nas sociedades e nas famílias, tem sido a punição autoritária e a contracoerção. Embora essas estratégias possam mostrar eficácia a curto prazo, um efeito colateral a longo prazo dessas estratégias negativas é o dano potencial às relações entre quem tem esses comportamentos e seus pares e pais (Omer et al., 2013, 2016). A deterioração das relações é um custo grave no tratamento e na educação dos jovens, em que relações positivas são consideradas ao mesmo tempo um valor fundamental e uma condição para a mudança, o desenvolvimento e o bem-estar (Omer, 2001). Além disso, a punição e a contracoerção tendem a produzir também reações emocionais como raiva, tristeza ou ansiedade, que podem evoluir para transtornos nos jovens e afetar gravemente seu funcionamento diário e seu bem-estar.
Por isso, estratégias para construir, manter e fortalecer relações positivas são usadas com frequência para contrabalançar esse efeito colateral das estratégias negativas e abrir caminho para estratégias mais moderadas ou positivas (Leijten et al., 2019). Seria preferível desenvolver uma gama mais ampla de estratégias positivas; aliás, no tratamento e no treinamento parental sistemáticos, estratégias positivas como reforçar e incentivar comportamentos desejados e não patológicos são mais usadas do que na educação e nas políticas sociais tradicionais.
O conflito entre o uso de intervenções negativas e o valor das relações positivas motivou o desenvolvimento de estratégias mais positivas para o tratamento e a educação. Ainda há, porém, uma necessidade urgente de desenvolver métodos positivos eficazes para resistir ao comportamento coercitivo. Um exemplo promissor é a abordagem da RNV (Omer, 2004), que inspirou a VT.
A abordagem RNV/AC da parentalidade foi desenvolvida primeiro por Omer (2004), inspirada na resistência política não violenta contra a opressão e a tirania, além da teoria do apego e da terapia familiar (Omer et al., 2013). A abordagem RNV/AC foi desenvolvida por muitas outras pessoas, entre elas Uri Weinblatt, Barbara Ollefs, Idan Amiel, Eli Lebowitz e Peter Jacob (Körner et al., 2019). Esse desenvolvimento adaptou em grande parte a abordagem RNV/AC a desafios ou contextos específicos, como instituições residenciais (van Gink et al., 2020), escolas (Omer, 2021a), grupos de pais (Newman et al., 2014) e acolhimento familiar (Van Holen et al., 2016). Originalmente, porém, a RNV era usada e coordenada entre os contextos da escola, da comunidade local e das famílias, em amplas alianças, embora muitas vezes começando pelos pais (Omer, 2004).
Os trabalhos diferem na forma de estruturar os aspectos da abordagem RNV/AC e na ênfase que lhes dão. Uma estrutura possível é a dos “7 pilares da nova autoridade” (7 Säulen der Neuen Autorität) de Körner et al. (2019):
Há alguns anos, conheci a RNV como estratégia para reduzir a violência e a coerção num contexto institucional. Pouco depois, observei um pai organizar a reencenação imediata de uma situação em que a filha em idade pré-escolar tinha se comportado de modo inaceitável em casa. Essas duas experiências me levaram a pensar em como uma combinação de elementos dessas observações poderia se tornar uma estratégia de intervenção.
Eu considerava uma fraqueza o fato de a abordagem RNV deixar para situações futuras a melhora do comportamento. Seria possível comprimir o processo, como fez aquele pai? A reencenação que observei entre pai e filha poderia ser usada com jovens para oferecer uma saída da armadilha do papel de culpado? Participar de uma reencenação exige admitir um erro, pelo menos implicitamente; uma “confissão de culpa” poderia ser mais aceitável se motivada pela possibilidade de corrigi-la imediatamente. Essas ideias resultaram na estratégia que apresento aqui: “Voltar no tempo”.
O comportamento coercitivo é um problema grave, tanto para as famílias e outros grupos submetidos a ele quanto para quem o pratica. Desenvolver intervenções eficazes contra o comportamento coercitivo pode servir para prevenir uma evolução antissocial para transtornos de conduta e problemas graves de personalidade, e pode contrabalançar a manutenção de situações de impasse associadas a outros transtornos, embora a presença de um diagnóstico psiquiátrico não seja condição para o possível benefício da VT.
Supõe-se que o risco de desenvolver transtornos de conduta ou um padrão antissocial se construa tipicamente por ciclos de submissão e contracoerção por parte dos outros, que resultam em ameaças e coerção cada vez maiores e repetidas, e não menores (Patterson et al., 1989). Estratégias específicas de intervenção RNV/AC foram desenvolvidas para comportamentos coercitivos que perpetuam problemas específicos entre crianças e adolescentes, como ansiedade (Lebowitz et al., 2014), ameaças suicidas (Omer e Dolberger, 2015), direção imprudente (Farah et al., 2014), violência entre irmãos (Hoffman et al., 2005), clima de grupo (Visser et al., 2021) e agressividade (Newman et al., 2014). Estratégias semelhantes foram desenvolvidas para problemas de dependência (Attwood et al., 2020), TOC (Lebowitz, 2013), transtornos alimentares (Shimshoni et al., 2022), autismo (Golan et al., 2018) e dependência adulta reivindicada (Lebowitz, 2016). É comum que pessoas com dependências tentem usar a coerção se alguém tenta interromper ou limitar seu comportamento aditivo ou seu acesso ao objeto da dependência, seja ele jogos eletrônicos, jogos de azar, compras ou sexo. Também é comum que pessoas com TOC não tratado esperem que a família aceite suas ideias obsessivas e se adapte a seus comportamentos compulsivos, e tentem obrigá-la a isso. Da mesma forma, pessoas com transtornos alimentares muitas vezes tentam obrigar a família a adaptar as compras, o preparo das refeições, as refeições e a atividade física a seus pensamentos e comportamentos disfuncionais, para permitir a manutenção do transtorno. Pessoas com traços autistas de alto funcionamento podem iniciar conflitos intensos com pares ou familiares sobre o sentido das palavras e sobre como a vida diária deve ser organizada de acordo com sua compreensão rígida e absoluta do mundo e da própria vida. Pessoas com transtornos de ansiedade muitas vezes se entregam a uma evitação incapacitante de situações e atividades comuns para reduzir sua ansiedade. Por isso, podem exigir respeito à sua evitação e tentar forçar os outros a ajudá-las a evitar situações que provocam ansiedade. Jovens com transtornos de personalidade em formação podem usar ameaças suicidas, autolesão e outros comportamentos dramáticos para obrigar as pessoas ao redor a atender a suas necessidades e desejos. Todos esses são exemplos de como a acomodação dos pais e da rede pode acabar mantendo os problemas dos jovens, em geral evitando ou neutralizando também os desafios do tratamento e do desenvolvimento (Shimshoni et al., 2019).
A estratégia VT pode ser usada em combinação com outras estratégias de AC, em esforços limitados ou amplos para resistir ao comportamento coercitivo. Também pode ser útil diante de desafios menos graves, mas não é adequada a comportamentos mais graves que envolvam violência. A estratégia VT se baseia nos mesmos princípios e atitudes da AC, e esses princípios e atitudes devem ser transmitidos explicitamente no que é dito e feito nas situações, ou permeá-los.
Dois princípios básicos da AC foram mantidos no desenvolvimento da VT. Primeiro, protestar claramente contra o comportamento negativo e recusar-lhe apoio. Segundo, eu queria manter o princípio da AC “mude primeiro o seu próprio comportamento se quiser que os outros mudem”; seria preferível, portanto, usar o exemplo em vez de instruções. Os elementos práticos da VT também incluem outros princípios da AC: presença, colaboração, melhora das relações e reconciliação, transparência e abertura, reparação, mas com melhora do comportamento imediata, e não posterior.
Como na AC em geral, cada pessoa é considerada responsável por seus atos, mas os erros podem ser corrigidos e neutralizados com reparações, reconciliação e busca de soluções melhores. Quem agiu mal recebe incentivo para reparar e a se reconciliar com quem foi prejudicado por seu comportamento negativo, e a encontrar na prática comportamentos mais construtivos.
Alguns dos princípios específicos comunicados e demonstrados na VT são que erros, faltas e comportamentos moderadamente inaceitáveis podem ser admitidos abertamente sem provocar punição. Espera-se, porém, fazer melhor não só no futuro, mas também de imediato. Isso é compatível com a atitude básica da RNV, mas é enfatizado com mais força na VT.
Ao descrever a estratégia VT, usarei como exemplos as relações entre pais e jovens. Jovem será usado para designar uma pessoa de qualquer idade com problemas de comportamento, incluindo a coerção dos outros. Adulto ou pai/mãe designará a pessoa que expressa a necessidade de mudança de comportamento e se oferece para ajudar e apoiar essa mudança (pais não implica que haja necessariamente mais de uma pessoa). O papel de pai/mãe ou de adulto também pode caber a profissionais da docência, a equipes de instituições e ao serviço social, em interação com jovens ou com pessoas mais novas ou mais velhas. Até adolescentes que ocupam uma posição de liderança podem achar a VT útil para apoiar a mudança em seu grupo de pares ou em sua família.
Nos exemplos, as palavras entre sinais <xx> devem ser adaptadas às pessoas e às situações.
Os elementos centrais da VT consistem numa troca social que começa com a afirmação de que um comportamento recente foi inaceitável e/ou teve um resultado indesejável. Em seguida, há a proposta de corrigir o comportamento imediatamente, com base num acordo de fazer de conta que é possível “voltar no tempo” e reencenar o acontecimento para permitir um comportamento e um resultado mais positivos. Em terceiro lugar, a situação é encenada desde o início como se fosse real, reencenada, buscando uma maneira mais aceitável de falar e agir. Por fim, propõe-se considerar a versão melhorada do acontecimento reencenado como o acontecimento “real”, mais uma vez dependendo do acordo entre as partes.
O objetivo dessa manobra é permitir que o comportamento mude numa reencenação imediata, em vez de esperar pela próxima ocorrência natural de uma situação ou sequência de comportamentos comparável.
Essa redefinição social da realidade exige um acordo voluntário entre as partes envolvidas. Isso depende de um nível mínimo de confiança e colaboração entre jovens e adultos. Se esse mínimo faltar, a confiança e a colaboração podem ser melhoradas por estratégias de construção da relação iniciadas pelos adultos, descritas na AC, mas não detalhadas aqui. A confiança e a colaboração também podem ser construídas praticando a igualdade apesar das diferenças de posição: mostrando que os mesmos valores e expectativas valem para pais e jovens. Neste contexto, isso se demonstra introduzindo a VT pelo exemplo dos pais antes de propor aos jovens que a usem. Em resumo: quem está no papel adulto admite um comportamento indesejável, pede uma chance de corrigir o erro imediatamente, conduz uma reencenação e propõe que o resultado melhorado da situação seja considerado o resultado “real”.
Os passos centrais do roteiro da VT, usados nas três etapas, são os seguintes: admissão, desejo de refazer, acordo, reencenação, avaliação e redefinição da realidade. Toda pessoa comete erros e diz ou faz coisas de que se arrepende e que gostaria de desfazer. Admitir os erros pode ser o primeiro passo para realizar esse desejo, no quadro de negociações e redefinições sociais da realidade.
Esses passos são usados nas três etapas de introdução da VT: (1) Exemplo: os passos da VT são demonstrados pelos adultos; (2) Proposta: os jovens recebem a opção de escolher os passos da VT depois de terem feito algo moderadamente inaceitável; e (3) Argumentos desqualificadores: constrói-se a expectativa de que a VT seja usada para corrigir comportamentos negativos específicos, definidos como “desqualificadores”.
A VT pretende reduzir a impotência dos adultos, desenvolver uma cultura de admissão dos erros, reduzir os comportamentos inaceitáveis dos jovens e, em última instância, levar a comportamentos mais positivos de adultos e jovens na vida diária. A nova prática e a nova cultura devem incluir as atitudes e os comportamentos de adultos e jovens; por isso, a estratégia começa pelo exemplo, dado pelos adultos, do que se quer estabelecer.
Para dar o exemplo da VT, é preciso reagir imediatamente ao perceber que se disse ou fez algo estúpido ou errado (não violento), tendo ao mesmo tempo algumas ideias de comportamento e resultado melhores, e responder como neste exemplo:
Adulto: “Me perdoe, mas o que eu acabei de dizer/fazer foi <inaceitável/insensível/estúpido>. Queria que não tivesse acontecido e ter feito algo melhor. Você topa me deixar tentar de novo, de um jeito melhor? A gente poderia fazer de conta que isso não aconteceu, fazer de conta que é possível voltar no tempo, e agir como se fosse cinco minutos atrás, quando <eu passei pela porta>?”
Quando se chega a um acordo para tentar, a situação é reencenada, com um resultado, espera-se, mais aceitável. A reencenação pode, se necessário e se houver acordo, ser repetida várias vezes antes do próximo passo.
“Foi uma escolha um pouco/bem melhor para os dois lados, não acha?” // “A gente pode combinar que foi esta última versão que aconteceu de verdade?”
Se não se chegar a esse acordo, a tentativa específica de VT geralmente termina ali, mas os pais devem tentar de novo a VT em situações adequadas antes de desistir de usá-la. Mesmo tentativas malsucedidas ou unilaterais de VT podem contribuir para a mudança, ao introduzir a ideia de que admitir e corrigir erros é possível. Se o uso imediato da VT for recusado, ainda é possível iniciar, em relação ao mesmo acontecimento, as estratégias tradicionais da AC de reparação, reconciliação e melhora do comportamento posteriores.
O exemplo pode ser tentado primeiro depois de erros menores e moderados e, em situações mais exigentes, só depois de usos bem-sucedidos. Se a etapa do exemplo der certo várias vezes, de modo que jovens acumulem experiência com pais que usam a VT, vale conversar sobre a possibilidade de também a usarem antes da primeira proposta efetiva.
A primeira proposta efetiva de uso da VT deve vir imediatamente depois de um comportamento inaceitável ou indesejado, de preferência ligado a um resultado que estaria ao alcance com outros argumentos ou depois de negociar uma solução equilibrada. Isso porque a VT deve ser vivida como compensadora, resultando num resultado melhor do ponto de vista de quem recebe a proposta. Ela pode começar com uma frase como esta:
“Essa foi uma escolha infeliz. Não posso aceitar que você use <yy> para conseguir o que quer. Conseguir <xx> poderia ter sido possível, mas não se você usar <yy> como argumento.” Isso usa implicitamente a lógica dos “argumentos desqualificadores”, mas sem tê-la declarado como princípio absoluto, como se faz depois, na terceira etapa, “Argumentos desqualificadores”.
O primeiro objetivo desse anúncio é bloquear o reforço da coerção e das ameaças moderadas, preparar a conclusão de que esses não são argumentos eficazes e despertar o desejo de desfazer e mudar o acontecimento. Não é preciso concordar explicitamente que foi insensato usar ameaças nem pedir desculpas por isso. Essa avaliação e essa decisão devem ser apresentadas como fatos, não como algo a discutir. Isso é mostrar autoridade sem forçar nem prescrever escolhas alternativas.
O passo seguinte em direção à VT pode ser verbalizado assim:
“Você quer ter a chance de voltar no tempo e tentar de outro jeito? A gente poderia fazer de conta que isso não aconteceu, fazer de conta que é possível voltar no tempo, e agir como se fosse cinco minutos atrás, quando você <passou pela porta>?”
Quando se chega a um acordo para tentar, a situação é reencenada uma ou várias vezes, até que se use uma abordagem mais aceitável e que um resultado melhor esteja ao alcance.
O resultado pretendido é o uso de argumentos mais aceitáveis e o atendimento do pedido. Se o pedido não puder ser atendido integralmente, buscar soluções intermediárias, oferecendo um atendimento parcial, uma compensação, uma substituição ou especificando condições que precisam ser cumpridas antes, pode ser vivido como compensador.
Se houver recusa em tentar a VT, não se pode ir adiante. A VT pode, porém, ser proposta de novo em situações adequadas. Se a primeira reencenação não resultar em melhora do comportamento, ela pode ser repetida várias vezes para permitir um resultado melhor. Às vezes a reencenação terá de ser encerrada sem sucesso. Tanto às recusas quanto à falta de melhora pode-se responder assim:
“Essa foi uma escolha infeliz. Queríamos que você experimentasse o valor de admitir os erros e de ter a chance de corrigi-los de imediato. Você sabe que não posso deixar você ter <xx> se usar <yy> para conseguir o que quer. <xx> poderia ter sido possível, mas não se você usar <yy> como argumento.”
Com sucesso ou com fracasso, o exemplo dos pais pode continuar em situações naturais adequadas, para transmitir com mais força o valor de admitir e corrigir os erros. Também é possível incentivar o uso da VT mais tarde, apesar de uma recusa inicial.
Se a VT der certo e resultar num comportamento melhor, cabe esta conclusão:
“Foi uma escolha um pouco/bem melhor para os dois lados, não acha?” // “A gente pode combinar que foi a última versão que aconteceu de verdade?”
Tanto a etapa do exemplo quanto a da proposta devem ser tentadas primeiro depois de erros menores ou moderados e só experimentadas em situações mais exigentes depois de usos bem-sucedidos. Quando os jovens já viveram o uso bem-sucedido da VT em situações menos difíceis, ampliar o uso e estabelecer a expectativa de que a usem pode ser mais realista.
Esta terceira etapa consiste em estabelecer a expectativa de que a VT seja usada para corrigir comportamentos específicos. Para que isso faça sentido, é preciso primeiro estabelecer esses comportamentos específicos como inaceitáveis, declarando-os “argumentos desqualificadores”.
O argumento desqualificador é um princípio implícito da VT, mas anunciá-lo como princípio absoluto pode abrir caminho para o uso da VT em situações mais acaloradas e incidentes difíceis, com comportamentos muito inaceitáveis (exceto a violência física). Declarar certos comportamentos dos jovens como argumentos desqualificadores exige dos pais que sigam essa declaração sem exceções. Declarar algo argumento desqualificador pode ser incluído num anúncio, ou apresentado como tal, como nas intervenções tradicionais da AC, ou numa forma menos estruturada.
Num anúncio, a declaração é apresentada oralmente e por escrito, sem ligação direta no tempo com um comportamento incluído entre os argumentos desqualificadores. Não se espera que essa declaração bloqueie diretamente o comportamento, mas que avise que ele não será mais reforçado pela submissão no futuro. Os adultos não podem controlar o comportamento dos jovens, mas podem controlar o próprio comportamento, como afirmam os princípios da AC. Para garantir a validade desse princípio, o conjunto dos adultos do entorno deve apoiar a declaração e se comprometer a respeitar o princípio, individual e coletivamente.
A introdução pode soar mais ou menos assim:
“Decidimos que não podemos mais aceitar que você consiga o que quer <berrando, gritando ou ameaçando quebrar coisas, nos atacar ou se machucar>. De agora em diante, sempre que você tentar fazer qualquer uma dessas coisas para conseguir o que quer, decidimos que isso vai automaticamente desqualificar você para consegui-lo. Mesmo que o que você pede seja uma coisa ou um serviço pequeno e comum, você não poderá tê-lo se usar esses meios de coerção.”
“Estamos dizendo isso agora como um aviso amigável, em vez de deixar que você descubra de surpresa. Queremos que você tenha a chance de pedir o que quer de maneiras mais aceitáveis.”
Em caso de protesto contra esse novo princípio, a resposta padrão é repetir, em tom de voz normal e sem nenhuma demonstração de força não verbal: “Essa é a nossa decisão conjunta, e ela não pode ser mudada.” Uma tentativa de subverter a decisão com um ou mais “argumentos desqualificadores” será o primeiro teste de firmeza, o que pode ser explicado assim: “Esta é a sua primeira experiência com a nossa decisão” e “Não podemos mudar a decisão porque você tenta consegui-lo usando esses argumentos desqualificadores.”
Os adultos precisam manter firmeza na decisão e não ceder a pressões ou ameaças de qualquer tipo. Isso é mais fácil com o apoio de uma aliança mais ampla de adultos (ou jovens) do entorno, como sugere a AC tradicional. O teste decisivo da decisão de desqualificar argumentos inaceitáveis virá na próxima vez em que um pedido ou uma exigência vier com argumentos desqualificados. Então, tendo usado a VT em situações menos desafiadoras, é possível propor a VT como solução sempre que surgirem argumentos desqualificadores. A VT dá a cada jovem a oportunidade de tentar de novo com argumentos mais aceitáveis, imediatamente ou depois de um breve intervalo, se necessário, para que os ânimos se acalmem de uma situação acalorada.
A razão para não declarar os argumentos desqualificadores antes é que isso pode levar a uma escalada do conflito para derrubar a decisão. A VT tem mais chances de se consolidar como nova alternativa depois que suas recompensas foram experimentadas.
Se a introdução da VT der certo com pais e jovens, ela pode entrar no uso regular da vida diária e ser avaliada pela ocorrência espontânea de comportamentos mais positivos de todas as partes em situações naturais ao longo de várias semanas. Com o tempo, a VT pode se tornar desnecessária graças à redução do mau comportamento, ou entrar no repertório diário de interação entre pais e jovens.
John era um garoto de 15 anos que tinha se retirado aos poucos da vida social: muitas vezes se recusava a ir à escola, parecia bastante deprimido, descuidava da aparência e do quarto, e gritava com os pais ordenando que atendessem a seus desejos e necessidades. Fazia com que todas as refeições fossem levadas ao seu quarto, onde se recusava a deixar qualquer pessoa entrar. Os pais o encaminharam, por meio do médico de família, para avaliação psiquiátrica. Mas John se recusou a ir com eles à primeira consulta, e eles foram sem ele. Sem ter avaliado John, a pessoa responsável pelo atendimento psicológico ofereceu aos pais orientações preliminares sobre suas próprias reações e estratégias, sugerindo a VT como estratégia.
No dia seguinte, a mãe esqueceu de bater antes de entrar no quarto dele, o que provocou em John uma explosão de raiva que terminou com: “Eu me recuso a comer a sua comida nojenta se você não consegue nem respeitar a minha privacidade!” Ela pediu desculpas e perguntou se podia sair e entrar de novo no quarto de maneira mais respeitosa. A resposta dele foi: “Faça o que quiser.” Ela saiu com a bandeja, esperou meio minuto e depois bateu à porta avisando que estava trazendo o jantar. Ele a deixou entrar, mas não reagiu de nenhuma outra forma além de receber a comida.
No dia seguinte, o pai entrou na sala e repreendeu John por usar roupas sujas e malcheirosas no sofá. John gritou de volta que não tinha motivo para viver e que não se importava com nada, zombando também das roupas velhas do pai e jogando um livro nele. O pai se sentou, suspirou e disse: “Queria não ter dito aquilo. Podemos fazer de conta que voltamos no tempo e agir como se isso não tivesse acontecido, para eu entrar de novo e fazer melhor?” John primeiro rejeitou a ideia: “O tempo é fixo e real e não pode ser negociado.” O pai concordou que o tempo físico não pode ser mudado, mas que as pessoas podem combinar de considerar acontecimentos como parte apenas da história, sem relevância para o futuro. Depois de uma longa discussão sobre isso, John deixou o pai tentar uma reencenação. O pai entrou uma segunda vez e comentou as roupas sujas de John, mas continuou oferecendo ajuda para separar e lavar as roupas em vez de repreendê-lo. John gritou de novo diante do primeiro comentário do pai, mas, quando lhe ofereceram ajuda, acabou aceitando e, uma hora depois, deixou os pais entrarem no quarto e colaborou com eles separando as roupas para lavar ou guardar.
Depois, os pais viveram outras situações em que se arrependeram das primeiras palavras ou ações e puderam refazê-las. John comentou com ironia como eles tinham ficado arrependidos. Aos poucos, os pais também começaram a contestar mais alguns comportamentos disfuncionais de John e a propor a VT a ele. Às vezes ele aceitava reformular suas ordens ou desfazer os gritos na reencenação. Mas continuava, em algumas ocasiões, gritando e dando ordens.
Por fim, os pais anunciaram por escrito e oralmente, depois de bater à porta dele: “Não vamos mais tolerar seus insultos nem que você nos trate como escravos. Não vamos atender a seus desejos nem cooperar com você quando você fizer isso; mas você poderá se arrepender e tentar de novo de um jeito melhor.” Mais tarde, no mesmo dia, a mãe o convidou para ir à cozinha comer seu bolo preferido com chocolate quente. Ele foi à cozinha e ouviu um discurso em que os pais declaravam seu amor e seu apreço por ele.
Nas semanas seguintes, todos os gritos e ordens receberam um retorno claro e uma proposta de voltar no tempo e usar meios mais aceitáveis para obter o que ele queria. Cada vez mais, pedia-se também a John que fizesse as coisas por conta própria. Mas os pais continuaram a fazer coisas positivas por ele sem que ele pedisse. No fim, tanto John quanto os pais criaram o hábito de se corrigir depois de serem levados por suas primeiras reações emocionais. Durante todo o processo, os pais tiveram sessões quinzenais com o atendimento psicológico, sobre como poderiam prevenir escaladas e recusar a acomodação a John sem intensificar os conflitos se ele voltasse aos velhos hábitos de gritar e dar ordens.
Ao longo desse processo, o humor e a aparência de John melhoraram, ele passou a frequentar regularmente a escola e retomou a vida social. Foi reduzindo os gritos e as ordens e assumindo cada vez mais responsabilidade pelas próprias necessidades e pelo bem-estar dos outros membros da família. Além disso, os pais sentiram que a relação com John estava melhorando e, por fim, não viram motivo para retomar a avaliação psiquiátrica.
O caso de John é incluído como ilustração, mostrando também como os pais muitas vezes transformam e adaptam princípios e sugestões à própria maneira de pensar e de falar.
A VT foi usada em alguns outros casos, incluindo jovens autistas em acolhimento familiar, jovens que passaram por traumas, em acolhimento institucional, e adolescentes em sua família de origem. Em alguns casos, a combinação com outras intervenções foi essencial. A VT teve pelo menos sucesso parcial, mas também foi rejeitada como inútil por parte dos pais ou jovens que a experimentaram.
A estratégia VT usa os elementos da AC de afirmações de autoridade claras e inegociáveis, combinadas com o convite a cooperar na busca de soluções aceitáveis para todas as partes. Outras atitudes e pressupostos básicos da AC também estão integrados à VT. Apenas a reencenação imediata e a negociação social da linha do tempo e da realidade são próprias da VT. Permite-se que os acontecimentos sejam reencenados como se ainda não tivessem ocorrido, e a história do que aconteceu é negociada depois.
Depois de comportamentos negativos menos graves que a violência, a VT pode ser usada como um caminho mais curto para a melhora do comportamento do que as intervenções tradicionais da AC. Ao contrário da AC, a VT leva diretamente à melhora do comportamento, enquanto na AC tradicional esse é o ponto de chegada desejado de um longo processo.
A VT não é um programa de tratamento completo, mas uma estratégia que pode ser integrada a outros componentes de intervenção em programas de tratamento para diferentes públicos em que o comportamento coercitivo faz parte do quadro. Para ser aceitável pelos jovens, a VT exige ao menos uma admissão implícita de ter cometido um erro. Além disso, pode ser necessário (antes da VT ou além dela) explorar as experiências subjetivas e realizar reparações e gestos de reconciliação para reparar danos práticos, emocionais e relacionais que possam ter se acumulado.
A principal fraqueza da VT é dar por garantidos pré-requisitos que outras estratégias da AC tratam especificamente, como relações negativas, falta de disposição para cooperar e falta de apoio de outras pessoas. Quando esses pré-requisitos faltam, não são contraindicações para a VT; antes, podem precisar ser melhorados para que a VT ou outra abordagem de AC possa ser eficaz.
Outra fraqueza importante é que a VT não se concentra nas diferenças de experiência subjetiva da situação, incluindo reações emocionais fortes que motivam o comportamento inaceitável. Isso acontece com frequência na adolescência após um trauma e pode exigir exploração cuidadosa e diálogo sobre as experiências subjetivas contrastantes das pessoas envolvidas. Alguns casos podem até exigir cuidados sistematicamente sensíveis ao trauma (Holmes et al., 2015) antes que qualquer mudança seja possível. Nesse contexto, um uso descuidado da VT pode ser vivido como apenas mais uma injustiça insensível.
Usar a VT para corrigir violência física ou sexual pode ser considerado antiético, pois isso pode ser vivido como uma banalização desses comportamentos, como algo que pode ser esquecido se for corrigido. A violência física e a sexual não são adequadas para correção imediata por reencenação. Esses comportamentos exigem, no mínimo, afirmações claras de seu caráter inaceitável, processos de exploração e troca das experiências subjetivas e atos de reparação e reconciliação para restaurar as relações, se possível.
Programas com outras estratégias da AC mostraram-se eficazes como treinamento parental, influenciando tanto a experiência subjetiva quanto o comportamento efetivo dos pais. A maioria dos estudos de efeito sobre estratégias da AC usa delineamentos pré-pós, embora alguns ensaios clínicos randomizados também tenham sido realizados (Omer, 2021b). Os efeitos sobre os pais parecem muitas vezes menores do que os efeitos sobre o comportamento problemático dos jovens, embora ambos sejam frequentemente clinicamente significativos. As estratégias da AC parecem mais eficazes para resolver situações de bloqueio em que os jovens negam ter um problema e precisar mudar algo, muitas vezes com o apoio de acomodações parentais (Shimshoni et al., 2022). Nessas situações, há pouco espaço para autocorreção ou tratamento. Os problemas iniciais são mantidos e protegidos por coerção, ameaças ou violência. Assim, não há cooperação, e os adultos podem cair na submissão e na impotência diante da coerção. A AC e a VT não são, portanto, primordialmente tratamentos de problemas, mas podem ser eficazes para tornar possíveis a resolução de problemas ou o tratamento. A VT é um pouco mais focada na mudança do comportamento dos jovens do que outras estratégias da AC, mudando sobretudo as estratégias coercitivas e defensivas, e não os problemas que essas estratégias mantêm e protegem nos jovens.
A VT e a AC não podem ter sucesso sem algum grau de relação colaborativa ou positiva entre pai/mãe e jovem. Isso não é exclusivo da VT, mas é comum em muitos métodos que visam à mudança de comportamento (Leijten et al., 2019). Investir na melhora da relação entre pais e jovem ao longo do tempo pode ser uma preparação e um apoio necessários para o uso da VT, pelo menos antes de incentivar jovens a usá-la.
Pode ser irrealista esperar que a VT ou qualquer outra estratégia da AC corrija com sucesso comportamentos aceitos, incentivados ou reforçados pelo grupo de jovens. A falta de apoio amplo de outros adultos e, em certa medida, do grupo de jovens minará o uso da VT e de outras estratégias da AC (Jakob, 2018). Não é pré-requisito, porém, haver concordância total sobre valores ou regras. Quem inicia a VT deve representar e afirmar os valores subjacentes e esperar que sejam respeitados, mas sem impor regras detalhadas às demais pessoas. O diálogo sobre valores pode ser parte necessária de um uso bem-sucedido da VT. Se houver concordância, do lado jovem, de que talvez seja necessária uma mudança, a VT é uma estratégia possível.
Comportamentos motivados pelo desejo de atenção ou aplausos dos pares, por melhorar o próprio status opondo-se aos adultos ou por despertar o interesse de pares atraentes podem ser difíceis de mudar. Quando esses motivadores estão presentes, a resposta mais eficaz pode ser ignorar os comportamentos menos graves quando ocorrem e tratá-los depois, quando não houver uma plateia de pares testemunhando a conversa.
Há vários níveis de comportamento negativo: do grave, coagir os outros com ameaças e uso de violência, passando por exigir a retratação de afirmações ou decisões ou a suspensão de regras, até a recusa em cumprir regras e instruções. Separar o grave, o ruim e o menos sério pode ajudar a poupar energia, priorizar as questões que exigem atenção e diferenciar as estratégias de reação disponíveis. Separar e priorizar podem ser processos importantes na construção de amplas alianças de mudança entre adultos, mas esses processos não são discutidos aqui. Os três níveis de mau comportamento podem ocorrer não só como aspecto de transtornos, mas também associados a sintomas subclínicos desses transtornos, ou basear-se apenas num desenvolvimento social atípico. A VT talvez seja mais adequada ao nível ruim do comportamento negativo, e não ao nível grave das agressões físicas ou sexuais violentas.
Se os jovens rejeitarem sistematicamente a VT, os adultos podem limitar seus esforços de mudança ao exemplo: admitir os próprios erros e tentar corrigi-los, dando-se bastante tempo para avaliar se o passo seguinte, propor aos jovens que usem a VT, é possível. Permitir uma experiência prolongada da mudança dos adultos primeiro pode mudar o clima e as relações e tornar possíveis mudanças que antes eram impossíveis.
Há elementos comuns entre a VT e as “comissões de verdade e reconciliação” usadas na África do Sul e em outros processos pós-conflito, na valorização das confissões e do reconhecimento da responsabilidade, seguidos de desculpas, reparações ou compensações, mas não de punição. A VT também incorpora princípios semelhantes aos da confissão e da absolvição religiosas.
Comportamentos coercitivos inaceitáveis podem ocorrer sem nenhuma ligação com um transtorno de saúde mental, embora essas associações sejam vistas com frequência. A coerção também pode proteger a imaturidade e a recusa em respeitar normas e tradições sociais. Alguns casos graves podem corresponder a uma categoria diagnóstica, mas o uso da VT não exige a presença de nenhum diagnóstico. Embora o desenvolvimento dos transtornos de conduta seja caracterizado por anos de “ciclos coercitivos” (Patterson et al., 1989), o uso da coerção e de outros comportamentos inaceitáveis não é um indicador forte de transtorno de conduta ou de outro problema de saúde mental, e pode estar associado a vários padrões disfuncionais, como direção imprudente, dependência adulta, comportamento suicida e autolesão (Shimshoni et al., 2019). A coerção e a acomodação são os fatores comuns que sustentam os padrões de interação mencionados na introdução, permitindo que as estratégias negativas continuem em vez de enfrentar os desafios do desenvolvimento, da mudança ou do tratamento (Shimshoni et al., 2019). A coerção e a acomodação familiar são fenômenos transdiagnósticos, comuns também nos atrasos de desenvolvimento da independência e do funcionamento psicossocial.
Quando há um transtorno tratável, o tratamento específico baseado em evidências pode ser obstruído pelo comportamento coercitivo e pela acomodação familiar ao transtorno. A AC e a VT podem, portanto, ser eficazes como estratégias que possibilitam o tratamento, permitem a continuidade do desenvolvimento ou interrompem padrões de interação disfuncionais. A utilidade potencial da VT exige apenas que os adultos vejam a necessidade de uma mudança no comportamento dos jovens. Tipicamente, as consequências não parecem ser estratégias eficazes ou levaram à deterioração das relações.
Uma ideia importante da tradição da RNV é que não é possível forçar outras pessoas a mudar seu comportamento, mas é possível mudar nossas próprias respostas e influenciar outras pessoas a compreender a necessidade de mudança e apoiar sua busca de maneiras menos negativas de lidar com os desafios. A VT poderia ajudar a mudar algumas dessas situações desafiadoras, mas essa afirmação precisa ser provada na prática. Equipes de pesquisa e de clínica são, portanto, incentivadas a avaliar essa proposta e relatar sua experiência e seus resultados a um público internacional. A VT deveria ser avaliada sistematicamente como intervenção separada, como elemento de uma abordagem mais ampla de AC e como complemento a tratamentos baseados em evidências para transtornos específicos.
Em suma, a AC tradicional provavelmente pode alcançar grande parte dos mesmos resultados que a VT. No entanto, o uso da reencenação e o prazo mais curto até a melhora são próprios da VT. Essas talvez sejam as contribuições mais valiosas da VT, porque permitem que atos negativos sejam corrigidos imediatamente, sem esperar pela próxima ocorrência natural. Concluir a VT com sucesso pode ser um poderoso ato reparador, centrado na encenação de um comportamento melhorado. Além disso, a VT reduz, e pode até eliminar, o estigma social de ter cometido os atos. Esse aspecto do acordo para reescrever a história se assemelha aos efeitos emocionais e sociais da reconciliação ou da absolvição usadas em outras tradições.
A VT é uma estratégia promissora diante de comportamentos coercitivos e inaceitáveis de jovens, e para tratar esses comportamentos como obstáculo ao tratamento de transtornos que eles podem estar mantendo. A VT é uma estratégia direta, para uso entre adultos e alguém sob seus cuidados. Pode ser utilizada sobretudo por meio da orientação, da supervisão e da formação de pais e profissionais em relação direta com os jovens em questão.
A VT pode ser aplicada a outros contextos, idades e relações, como as relações de ensino, de cuidado ou de acompanhamento social, relações entre pares ou irmãos, e adultos que trabalham com grupos de jovens, e não apenas com indivíduos.
A VT não é um método baseado em evidências, embora os testes clínicos preliminares da estratégia em casos isolados mostrem um potencial promissor. Ela se apoia em princípios e estratégias que se mostraram eficazes para fins semelhantes, mas sua eficácia ainda precisa ser comprovada. Esta descrição da VT está sendo compartilhada para incentivar novos testes sistemáticos de sua utilidade e eficácia. Isso deveria ser seguido pelo aprimoramento e pela manualização de seus passos, pré-requisitos e cuidados com base na experiência, antes de avaliar sua utilidade e seu efeito em grupos maiores e com delineamentos controlados. As pessoas interessadas em desenvolvimento e testes sistemáticos são convidadas a entrar em contato com quem assina o artigo ou incentivadas a realizar uma avaliação independente.
Complexe Systémique: a reter
O interesse dessa estratégia está numa ideia sistêmica simples: o que aconteceu numa relação depende em parte do que se combina guardar. Ao propor reencenar a cena e considerar a segunda versão como “a verdadeira”, sai-se da alternativa entre punir e deixar passar, e poupa-se cada jovem do lugar de culpado. A ordem das etapas é o outro achado. Os pais começam, reconhecendo os próprios deslizes, o que torna menos humilhante a proposta que vem depois; a regra dos “argumentos desqualificadores” só chega no fim, quando a reparação já deu provas. O texto é honesto quanto aos limites: nenhuma avaliação além de estudos de caso, um único caso detalhado e uma contraindicação clara para a violência física e sexual, que não se “reencena”. Também assinala que o método ignora as vivências subjetivas, o que pode ferir jovens que passaram por um trauma. Ler com o artigo sobre uma técnica surpreendente diante dos comportamentos agressivos dos adolescentes, na mesma linhagem da resistência não violenta, e com o artigo sobre a violência filioparental, para as situações em que a reencenação já não basta.
Notas do original
Agradecimentos. Agradeço a Haim Omer, integrante do corpo docente, pelo valioso retorno durante o desenvolvimento e a redação. Agradeço a Aleksander Helmersberg por inspirar a intervenção “Voltar no tempo” ao dar novas chances à filha. [Correção de 15 de junho de 2023, após a primeira publicação on-line: a segunda frase foi acrescentada.]
Referências
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Tradução não oficial em português de “Voltar no tempo”: uma estratégia positiva para mudar comportamentos inaceitáveis de jovens, de Tormod Rimehaug, Family Process, vol. 62 (2023), doi: 10.1111/famp.12882, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (ilustração não reproduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““Turning back the clock”: A positive strategy for changing unacceptable youth behavior”, publicado em Family Process (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Rimehaug, T. (2023). “Voltar no tempo”: uma estratégia positiva para mudar comportamentos inaceitáveis de jovens (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/voltar-no-tempo-uma-estrategia-positiva-para-mudar-comportamentos-inaceitaveis-de-jovens (Obra original publicada em 2023 em Family Process, 62(4) (2023); republicada em 2023 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.12882)
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