Systemic Practice and Action Research · Prática sistêmica

A arte da investigação em sistemas soft: refazendo os passos de Churchman e Checkland

O que significa investigar um sistema quando cada pessoa o vê de um jeito? Frank Stowell volta às fontes da abordagem de sistemas soft, Churchman e Checkland, relidas à luz de Husserl e Gadamer. Daí extrai referências para toda investigação participativa: definir a fronteira, suspender as próprias certezas, fazer com que as pessoas envolvidas autentiquem o resultado.

Autores Frank Stowell (Escola de Computação, Faculdade de Tecnologia, Universidade de Portsmouth), Reino UnidoPrimeira publicação Systemic Practice and Action Research, 14 de setembro de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A arte da investigação em sistemas soft: refazendo os passos de Churchman e Checkland, de Frank Stowell, publicado na Systemic Practice and Action Research (Springer) (2024), doi: 10.1007/s11213-024-09689-9, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas figuras permanecem em inglês, com legendas traduzidas; as notas 17 e 18, idênticas, foram mantidas como estão. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Um sistema é um sistema porque dizemos que é.

Frank Stowell

Resumo

Neste artigo, proponho uma reflexão sobre a investigação em sistemas soft (soft systems inquiry). Para isso, retomo a discussão de Churchman sobre as ideias filosóficas que fundamentam os sistemas de investigação e, em seguida, examino a aplicação prática da investigação soft da qual Checkland foi pioneiro. Esse conjunto de trabalhos sugeria que os modelos ontológicos do comportamento organizacional eram inadequados e que somente a adoção de uma perspectiva epistemológica poderia oferecer uma base para compreender os sistemas complexos que caracterizam a sociedade humana. Essas ideias motivaram uma nova maneira de lidar com a complexidade. Elas criaram uma dificuldade para a pesquisa-ação, pois ser fiel a essa descoberta significava que qualquer método de investigação deveria ser capaz de lidar com tal complexidade. Um dos resultados foi a Metodologia de Sistemas Soft (Soft Systems Methodology, SSM). Paradoxalmente, o sucesso da SSM freou a continuidade da discussão sobre essas ideias. O propósito deste artigo é retomar as ideias de Churchman e Checkland como forma de voltar aos princípios primeiros. Aqui, reavalio as ideias deles, bem como as de Husserl e Gadamer, e sugiro que ainda há muito a ganhar com esse rico veio do pensamento sistêmico.

Palavras-chave: sistemas de investigação, metodologia de sistemas soft, método de investigação apreciativa, pesquisa-ação, sistemas digitais

O propósito deste artigo

Bertalanffy dizia: “…De uma forma ou de outra, temos de lidar com complexidades, com totalidades ou sistemas, em todos os campos do conhecimento. Isso implica uma reorientação fundamental do pensamento científico.” (ibid, 1973, p. 3). Esse reconhecimento se encarna no trabalho dos professores C. West Churchman e Peter Checkland.

O propósito deste artigo é retomar as ideias centrais de ambos e sua reflexão sobre os “sistemas de investigação”. Esses dois estudiosos lançaram as bases dos sistemas “soft”. O campo que me interessa é o dos “sistemas de investigação1”, isto é: como fazemos para descobrir as coisas? A questão surgiu com o crescimento dos sistemas digitais e da influência que exercem sobre nós. Ficou claro que ela também levanta uma questão mais ampla, por exemplo: como esses “sistemas2” são concebidos e desenvolvidos? Em que se baseiam e qual é a abordagem adotada por quem investiga? Vou discutir o que implica aplicar as ideias soft ao empreender uma investigação no mundo real. Meu propósito é considerar se, e como, podemos chegar ao “coração” da investigação.

Primeiro, declarar meu ponto de partida, minha Weltanschauung. Não se trata da história da prática sistêmica nem das origens do pensamento sistêmico. Por exemplo, um texto valioso de Georgiou (2007) explora o pensamento “sistêmico”. Nele, ele discute diversas ideias, da teoria geral dos sistemas às situações ideais de fala de Habermas. Georgiou apresenta uma visão que, segundo ele, descreve a epistemologia sistêmica. Embora esse percurso seja impressionante, duvido que ele capte, nessa discussão, a essência dos sistemas “soft”, mas essa não era sua intenção. Seu ponto de vista parece dever mais a Habermas e a uma interpretação psicológica do comportamento humano do que às ideias sobre sistemas de investigação defendidas por Churchman e Checkland.

Minha impressão geral sobre esse texto é que ele tende a uma interpretação psicológica dos sistemas, ao passo que o pensamento de sistemas soft é influenciado pelas ideias de Hegel e Husserl, e não pelas de Habermas e Sartre. A meu ver, essas ideias são pertinentes não só para a concepção e o desenvolvimento de sistemas digitais, mas também para a maneira como chegamos a compreender situações complexas em si mesmas. Ulrich (1994) também oferece uma exposição de “filosofia prática” na qual a influência de Churchman sobre as ideias sistêmicas é claramente delineada. Mas meu artigo não pretende revisar todos os métodos de investigação3; ele busca retomar as ideias de Churchman e Checkland e o surgimento da investigação em sistemas soft.

Um atributo importante da investigação soft é o reconhecimento da subjetividade da experiência4 e de como ela afeta a maneira de conduzirmos uma investigação livre de preconceitos. A observação de Husserl é apropriada ao caminho que segui: “Quem compara seus pensamentos sobre as coisas com as próprias coisas só pode, de fato, medir seu pensamento contingente, influenciado pelo costume, pela tradição, pela inclinação e pela aversão, em relação a um pensamento livre dessas influências e que não ouve outra voz senão a de sua própria legalidade intrínseca” (Husserl 2001a, b, p. 42). A essência dessa ideia emerge, creio eu, do pensamento de Churchman e Checkland, que, como observou Naughton (1979), pode ser descrito coletivamente como “tecnologia social”. Operacionalizar essas ideias não é tarefa trivial, pois compreender o que as partes interessadas precisam é tanto uma arte5 quanto uma ciência, algo muitas vezes mal compreendido e ausente das abordagens reducionistas da investigação.

Retomo as discussões de Churchman e Checkland sobre a investigação, sobre como atitudes e crenças podem influenciar os resultados e sobre como podemos levá-las em conta. Embora eu me refira às ideias expressas por Churchman em seu texto de 1971, não farei uma análise crítica dos filósofos que ele menciona6. Em vez disso, vou me valer de suas conclusões e de sua influência sobre a compreensão humana. Em seguida, examinarei as ideias de Checkland sobre a investigação organizacional, tal como descritas em Systems Thinking, Systems Practice (1999), e depois refletirei sobre essas ideias, seu impacto sobre a investigação e sua influência sobre a teoria e a prática sistêmicas. Concluirei com dois exemplos do resultado prático dessas ideias. O artigo foi dividido em seções, cada uma dedicada a um aspecto das ideias de Churchman e Checkland sobre a investigação. Começo pelos sistemas digitais e passo ao sistema e à teleologia, à investigação organizacional, à investigação singeriana, à Weltanschauung, ao pensamento acima e abaixo da linha, à fronteira e à medida de desempenho (MoP), aos elementos básicos de Churchman e à SSM de Checkland, depois às influências de Husserl e Gadamer, à prática e, por fim, às conclusões.

Os sistemas digitais e a importância da investigação

Os “sistemas” digitais são desenvolvidos a partir do que foi “descoberto” em uma investigação sobre uma área específica de preocupação, com base na qual se desenvolve um modelo, um algoritmo matemático. Esse modelo se torna o coração pulsante do sistema computacional. O programa se baseia em um algoritmo escrito por alguém para atender a um conjunto definido de objetivos. Quem programa está acorrentado a uma série de funções binárias, mas o mundo real é moldado por valores e opiniões. De onde vêm os dados com base nos quais o algoritmo é desenvolvido, como eles afetam o sistema mais amplo e como seu impacto sobre quem usa o sistema é considerado? Isso me leva a perguntar: como quem projeta decide o que deve ser codificado, e com que finalidade?

A sociedade humana não se deixa simplificar facilmente em um modelo definitivo; as decisões são tomadas por seres humanos, e para quem atua em história da arte, teologia, ciência ou gestão não existe cálculo simples. Mesmo as pessoas que programam e conhecem métodos de investigação raramente têm a oportunidade de ver o “sistema” como um todo: elas o dividem em partes adequadas a seu propósito. As consequências não intencionais da instalação de uma tecnologia são agravadas por métodos de investigação importados da ciência reducionista, que raramente permitem a quem investiga considerar seu impacto sobre o sistema como um todo.

Errar pode ter efeitos duradouros e danosos. Veja-se, por exemplo, o projeto Horizon7. Os problemas de fundo do projeto Horizon do Post Office exemplificam a consequência de não considerar o sistema como um todo. Houve uma falha sistêmica que levou a várias acusações falsas de furto (ver Smith 2022). O impacto sobre as pessoas e as comunidades foi considerável. A importância da “descoberta” para quem projeta é clara, não só no desenvolvimento de sistemas digitais, mas também na investigação organizacional. Se a investigação tiver falhas, tudo o que vier depois também terá.

Toda investigação implica encontrar uma acomodação entre as partes interessadas sobre a questão a ser examinada, o que não é fácil, pois os sistemas sociais não são fixos e estão em constante mudança. Quem ocupa um cargo de gestão sabe que seu mundo é uma mistura de funções e práticas sociais. Essa pessoa atua em um mundo moldado pela imaginação e pela teoria, mas também pelas areias movediças dos gostos e das opiniões. Qualquer método de investigação empregado deveria ser capaz de considerar o sistema como um todo e permitir a quem investiga tomar consciência das práticas sociais e das opiniões subjetivas. Mas como decidir qual sistema investigar e qual método de investigação adotar?

O problema do sistema e da teleologia

Como decidimos qual é o “sistema” a ser investigado, ou como o reconhecemos? Certa vez escrevi que um sistema é um sistema porque dizemos que é. Isso não é tão frívolo quanto pode parecer à primeira vista. Os “sistemas” não são fixos, mas escolhidos pelas pessoas ligadas a eles. O “sistema” de transporte de uma pessoa é, para outra, um “sistema” que causa danos ambientais. Sistema. Isso não quer dizer que não existam sistemas reconhecidos como tais; a esses chamamos sistemas teleológicos. Mas, na fala cotidiana, a maioria dos sistemas a que nos referimos são construções intelectuais.

Churchman se refere ao conceito de teleologia8, isto é, o reconhecimento de algo que tem finalidade ou desígnio. Os acontecimentos só podem ser explicados em função dos fins para os quais se dirigem, de suas finalidades. Considerar um sistema teleológico, no sentido aristotélico, é perguntar: “qual é a natureza fundamental deste objeto?”, sua finalidade objetiva (Checkland 1981, p. 30). Ela pode ser intrínseca ou extrínseca. Mas Churchman observa que “nem todas as entidades teleológicas são sistemas. O traço distintivo dos sistemas é que podem ser separados em partes e que as partes trabalham juntas em prol do todo…” (ibid, 1971, p. 49). Por exemplo, podemos atribuir uma finalidade ao mecanismo de um relógio, mas há coisas sobre as quais não conseguimos explicar plenamente por que “caminham” para seu resultado final. O primeiro caso é uma característica do projeto; o segundo é o que percebemos como um processo teleológico natural. Tomemos o sol como exemplo de teleologia. Ele acabará por se extinguir. De forma simplista, podemos compará-lo a um fogo: ele queimará até que o combustível acabe. Não pode fazer outra coisa. Seu caminho, da origem ao fim, é predeterminado. Mas o sol é também uma parte essencial da vida vegetal, que aproveita sua energia pela fotossíntese. Esse processo produz os açúcares simples de que uma planta saudável precisa para crescer. Também podemos pensar em “sistemas” relacionados ao sol que nós mesmos criamos, como os painéis solares que convertem a energia solar em eletricidade. Podemos chamá-los de “sistemas” porque os definimos como tendo uma finalidade.

Nem todas as entidades teleológicas são sistemas. Um corpo humano pode ser pensado como teleológico, mas não pode ser separado em partes, porque as partes trabalham juntas para compor o todo (Churchman 1971, p. 47). Quem investiga sistemicamente se interessa pela relação entre as partes que compõem o “sistema como um todo”; neste caso, trata-se da interação entre as partes físicas e o todo para sustentar a vida. Embora possamos pensar em “sistemas” como o sistema respiratório, eles não são teleológicos: nós os nomeamos com um propósito específico. Checkland faz uma distinção importante entre teleologia e teleonomia. A teleologia é, em linhas gerais, uma forma de explicação no sentido aristotélico; é intrínseca ou imanente. A teleonomia, por outro lado, “…é um produto da seleção, e não sua causa9”. Discutir a diferença entre as duas, porém, não cabe neste artigo. Manterei a noção de teleologia tal como Churchman a descreve, e a de sistema como algo concebido por seres humanos com um propósito específico. Diante dessas considerações, como se escolhe o sistema de interesse e como quem investiga pode chegar a compreendê-lo?

A investigação organizacional

Empreender uma investigação sobre uma situação de interesse, um “sistema”, como uma organização10, na qual a tecnologia digital desempenha um papel importante, pode provocar uma colisão de opiniões difíceis de conciliar. Isso porque o “sistema” não é fixo e, quando se introduzem mudanças nas práticas de trabalho, as pessoas se sentem ameaçadas. Os conflitos que surgem costumam ser apresentados como conflitos salariais, que, embora significativos, nem sempre são a causa subjacente: o que pesa é a preocupação com as mudanças nas práticas de trabalho (Stowell 2020). O “sistema” de interesse, portanto, é visto de maneiras diferentes pelas pessoas envolvidas. Quem investiga precisa tentar compreender o que criou, ou está criando, os problemas em questão. Os métodos reducionistas herdados das ciências naturais muitas vezes se mostram insuficientes diante das questões complexas que emanam dos grupos sociais. Checkland afirma: “…a fraqueza da PO, não menor que a da engenharia de sistemas e da análise de sistemas, é estar casada com a lógica em situações nas quais a lógica não é necessariamente primordial” (ibid 1983, p. 668). Admite-se que empreender uma investigação e estabelecer a causa profunda do descontentamento exige uma abordagem capaz de investigar tais sistemas complexos, o que Ackoff chamava de sistemas “bagunçados” (messy)11 (Ackoff 1978, p. 4). É importante refletir sobre isso ao escolher um método para “descobrir”. Muitas vezes, o método escolhido é aplicado sem que se questione a base conceitual em que se apoia. Por exemplo, uma abordagem reducionista baseada nas respostas de uma amostra de opiniões (como questionários) pode facilmente se concentrar mais em validar o tamanho da amostra por algum método de desempenho12 do que na pertinência das perguntas para a situação explorada. Também é preciso reconhecer que a amostra é criada, analisada e interpretada por quem investiga. Essa pessoa dá continuidade ao tema estabelecido pela área de especialidade que habita13 (cavando o mesmo buraco mais fundo?). Uma segunda consideração importante é, como Churchman nos lembra, que “…nenhuma observação pode se tornar objetiva a menos que quem observa também passe por uma observação objetiva” (Churchman 1971, p. 150). Com que frequência quem pesquisa passa por observação ao conduzir uma investigação, e como saberá que terminou? Isso nos leva às observações de Churchman e Checkland e aos sistemas de investigação singerianos.

A investigação singeriana

Um sistema de investigação singeriano não tem ponto de término: é um ciclo contínuo de aprendizagem. Nesse sentido, a investigação singeriana pode ser considerada teleológica, pois a investigação nunca termina, assim como a curiosidade humana. Tal investigação “… é, antes de tudo, a noção aristotélica da função de um tipo” (Singer 1937, p. 271). A investigação singeriana deveria abarcar toda a amplitude da investigação no projeto, um ponto retomado por Churchman, que afirma ser necessário usar toda a amplitude da investigação para auxiliar a tarefa de concepção (Churchman 1971, p. 195). Da mesma forma, no modo 1 da SSM, Checkland se refere à investigação singeriana quando enfatiza que “…a etapa 7, sendo uma redefinição da situação-problema, mostra que a metodologia como um todo é um investigador singeriano…” (ibid, 1999, p. 260).

Para resumir14 as conclusões de Churchman: ele afirma que “…toda investigação deveria ter o propósito de criar conhecimento, [com uma] medida de desempenho definida.” E prossegue, o que é importante: “… conceber a investigação segundo linhas esotéricas e disciplinares provavelmente é um erro. O ambiente do sistema de investigação é um aspecto muito crítico do projeto; no ideal, todo mundo toma decisões, e o progresso pode ser medido pelo grau em que quem é cliente, quem decide e quem projeta são a mesma pessoa.” (ibid, p. 200-201). Trata-se de uma aspiração, com limites práticos. Não podemos levar em conta o mundo inteiro nem todos os pontos de vista de todas as pessoas. Isso significa que somos nós que selecionamos o “sistema” de interesse e as pessoas que vão participar.

As pessoas participantes, quem investiga e o “sistema” de interesse

Tanto Churchman quanto Checkland destacam a importância do envolvimento das pessoas participantes. Mas devemos estar atentos às Weltanschauungen, aos “W” de quem participa, e à sua influência sobre a investigação. No modo 1 da SSM, a criação de uma “figura rica” (Rich Picture) é uma maneira de obter os pontos de vista das pessoas participantes. Churchman sugere que quem investiga e quem participa deveriam se fundir em uma só entidade. Ele refletiu sobre as ideias de Leibniz, Locke, Kant, Hegel e Singer, e a isso Checkland acrescenta que as ideias de sistemas soft “… foram desenvolvidas e ganharam certo grau de legitimidade graças à sua associação com a filosofia de Husserl e a sociologia de Schutz” (Checkland 1999, p. 277-281; ver, por exemplo, Schutz 1962).

Para dar sentido à situação de interesse15, quem investiga com a abordagem de sistemas soft deveria reconhecer que as experiências pessoais desempenham um papel importante na seleção (intenção) e na “apreciação” do “sistema” para o qual nossa atenção se dirige. Em termos práticos, isso envolve tentar separar o que parece estar acontecendo do que as pessoas participantes gostariam que estivesse acontecendo (o ser e o dever ser). Pedimos que imaginem as “coisas” em si mesmas. Isso não se consegue sem dificuldade, e reconheço de saída a improbabilidade de alcançá-lo, mas essa deveria ser a intenção. Tal pensamento exige uma disciplina mental rigorosa. Churchman nos lembra que “…o ser humano se expressa à sua própria maneira individual, sem dúvida, e sua concepção do garante nasce de sua própria individualidade; no entanto, sua própria individualidade é uma realidade, e não algo relativo à visão de mundo desta ou daquela pessoa que investiga” (ibid 1971, p. 277). Na SSM, Checkland evoca a noção de Weltanschauung de Dilthey para destacar essas diferenças (Checkland 1999, p. 215-221).

Embora aceite a importância da Weltanschauung, tenho a impressão de que, na prática, ela nem sempre foi considerada como deveria. Incorporar essa ideia sem reflexão cuidadosa obscurece sua importância. Em minha experiência, há quase uma reação automática, uma tentativa de reconhecer que as pessoas têm ideias diferentes sobre a situação de interesse, sem considerar como isso se manifesta e afeta a investigação. Para reduzir esse risco, poderíamos dar um nome ao “sistema” e pedir às pessoas participantes que discutam suas entradas e saídas. Isso ajudará a trazer à tona pontos de vista sobre sua finalidade e a focar no que se entende por esse “sistema”.

Embora cada pessoa tenha uma visão diferente de um sistema, estamos tentando chegar a uma acomodação e precisamos reconhecer que, quaisquer que sejam as diferenças, ele continua sendo um sistema aos olhos de cada uma. Nesse sentido, podemos fazer justiça a Husserl. A fenomenologia se ocupa da maneira como reconhecemos algo, um fenômeno “…que, embora irreal de certa maneira, determina a realidade” (Patočka 2002, p. 31-37). Em outras palavras, o sistema é um sistema para quem o observa. Isso pode parecer óbvio, mas, ao dizê-lo, enfatizo que reconhecemos que nossa percepção de algo pode ser interpretada de maneiras diferentes por diferentes pessoas que observam, mas que a “coisa” continua sendo a “coisa” para elas. É importante lembrar que estamos selecionando uma parte que convém ao nosso propósito.

Não é ousado demais afirmar que a maioria das pessoas que observam não se esforça para compreender a essência do que observa e, em vez disso, defende sua opinião inicial. Mas refletir sobre essa ideia nos ajuda a reconhecer as dimensões ôntica e eidética16 que fundamentam nossa compreensão subjetiva do mundo.

Sistema, Weltanschauung e investigação

Usamos o termo “sistema” na fala cotidiana: o sistema judiciário, o sistema social, o sistema de saúde, a falha sistêmica e assim por diante. Tudo muito corriqueiro, mas raramente se pergunta a quem usa o termo o que entende pelo “sistema” a que se refere. Raramente há uma definição clara. Um exemplo disso é “uma organização17”: referimo-nos a ela como uma espécie de sistema18, mas é pouco provável que o objeto da discussão seja visto como um “sistema” da mesma maneira por todas as pessoas. Podemos chamar algo de sistema porque percebemos que é composto de partes que trabalham juntas para formar o todo, mas isso se baseia em uma opinião subjetiva.

Os sistemas são situações de interesse, reconhecidas como tais a partir da perspectiva de quem as observa, ou seja, são subjetivos; podemos dar-lhes um nome, mas raramente uma definição. Vemos cada situação de modo diferente, como observa Checkland: “… Dada a natureza dos seres humanos, lidaremos não com ‘problemas’, mas com ‘percepções de problemas’, e, naturalmente, será possível uma grande variedade de percepções…” (ibid 1999, p. 238). Como decidimos de que modo essa coisa que investigamos é um “sistema”, entre as muitas alternativas concorrentes? Quem incluímos e quem excluímos? É um dilema, mas lembremos que somos nós que decidimos.

Tanto Checkland quanto Churchman incluem a noção de Weltanschauung, expressão alemã que associa “mundo” e “percepção”. Ela se refere a uma visão filosófica do mundo e do lugar da humanidade nele, ou, de modo mais geral, a um ponto de vista particular. No modo 1 da SSM, a verificação CATWOE chama a atenção para o “W” para destacar a perspectiva por trás, por exemplo, da definição-raiz. Checkland também chama a atenção para o “W” na retrospectiva de trinta anos (ibid 1999, p. A40). É uma característica inegável da percepção humana. Nos últimos tempos, a expressão tem sido usada de forma bastante frouxa para indicar diferenças de opinião em sentido geral, e não a ideia mais refinada concebida por Dilthey19 (ver Dilthey 2002).

Para que quem investiga possa conduzir sua investigação, a situação de interesse deveria ser descrita de modo que todas as pessoas envolvidas tenham clareza sobre o que vão investigar e estejam de acordo quanto a isso. Isso impõe um desafio a quem investiga, se seguirmos Churchman, para quem o ambiente do sistema de investigação deve ser, de modo decisivo, um ambiente de cooperação, e o sucesso se mede pela maneira como quem projeta e quem é cliente se fundem em uma só pessoa. Mas todas as pessoas envolvidas terão pontos de vista diferentes. É importante que o método de investigação permita uma discussão livre. Nesse objetivo, penso que há semelhanças entre Churchman e a noção de fusão de horizontes de Gadamer20 (ibid 2004, p. 304-305). Além disso, no modo 1 da SSM, Checkland ecoa a importância da discussão nas etapas 6 e 7, que se destinam a provocar um debate sobre a viabilidade das implicações da etapa 4. A discussão e a compreensão são fundamentais tanto na abordagem de Checkland quanto na de Churchman. Ambos são movidos pelo modo da investigação singeriana. Isto é, primeiro, quem investiga pensa uma situação em sua totalidade e, depois, reconhece que a investigação é um processo sem fim. Isso não deve ser visto como uma conversa casual sobre o “sistema”, pois buscamos descrever sua essência. Trabalhamos em direção a uma visão compartilhada do “sistema” de interesse e a uma compreensão maior dele.

A importância e os desafios de pensar acima e abaixo da linha

Nossa discussão até aqui destacou o fato de reconhecermos que o mesmo “sistema” pode ser percebido de modo diferente por outras pessoas. A ideia de pensar acima e abaixo da linha foi uma maneira imaginativa de tentar levar quem investiga e quem participa a se desprender de seu “mundo real”. Husserl nos pede que reconheçamos o “núcleo” de algo, sua essência21. Isso se ancora no conceito e depende de deixar de lado todas as ideias preconcebidas (epoché) para ver os fenômenos através de lentes límpidas, permitindo assim que o verdadeiro sentido dos fenômenos emerja naturalmente com e dentro de sua própria identidade (Moustakas 1994).

Aqui, pedimos às pessoas participantes que concebam a “essência” (eidos)22 da “coisa” que investigamos. A essência, se puder ser apreendida, explica a existência, a identidade, os poderes, a categorização, as relações e os atributos perceptíveis de cada coisa (Gibson 2010). Observemos que as essências23 não são formas preexistentes, mas eidéticas: são imagens mentais de algo. As formas não são vistas como preexistentes lá fora, mas como constituídas em atos intencionais, nos quais nossa visada se dirige a elas. É a natureza fundamental de algo, o que é indispensável. A ideia de essência em Husserl consiste em suspender o juízo sobre a existência, o que significa que não há universal. Entendo com isso que cada “coisa” que abordamos é tomada em si mesma24. Husserl pede que suspendamos nossos juízos em favor de sua criação por atos intencionais25, pelos quais nos engajamos. Estes pertencem inteiramente à mente; são imanentes. Aprendemos sobre o mundo “experienciando as coisas”, o que nos dá um meio de apreender o que elas são. Para que se aprecie isso, Checkland pede a quem investiga que faça uma espécie de ginástica intelectual. Ele sugere que imaginemos uma linha separando o mundo real do mundo do pensamento e olhemos as coisas com um novo olhar (Checkland, por exemplo, 1981, p. 247; Checkland e Scholes 1999, p. 27). É uma maneira de operacionalizar conceitos difíceis. O mundo real é o que quem investiga percebe como sendo o “sistema”; no segundo, abaixo da linha, pensamos em termos de ideias sistêmicas. O primeiro é um mundo que pode ser modelado ou medido pela observação; o segundo, um assim chamado “mundo do pensamento”. O mundo do pensamento é um mundo intangível, imanente, restrito inteiramente à mente ou a um domínio dado; é interno e subjetivo.

É importante lembrar que o que escolhemos reconhecer como sistema é algo que nós extraímos de um sistema mais amplo. Essa extração será determinada por vários fatores, entre eles a percepção que quem investiga tem da situação e as diversas influências que atuam sobre essa pessoa. É algo composto de atividades com propósito. Mas é quem investiga que atribui uma finalidade a esse “sistema”. A tarefa de pensar acima da linha é tentar compreender essa coisa, sua essência. Em termos práticos, isso provavelmente não é possível, mas tentar fazê-lo ressalta sua importância, em vez de um “aceno” protocolar à Weltanschauung.

A distinção entre atividades acima e abaixo da linha enfatiza que pensar acima da linha é pensar a “coisa” em seu estado primordial, evitando nossas “prontidões” naturais26 (readinesses, Vickers 1983). No modo 1 da SSM, a figura rica oferece às pessoas participantes a base para identificar o que, para elas, são problemas ou questões. Essa é uma atividade acima da linha. Na prática, isso é desafiador, e quem investiga deveria estar consciente da exigência intelectual que isso cria. Reconheço a dificuldade de tentar pensar as preocupações em sua forma mais “pura”, mas quem investiga deveria ter consciência de que precisa se concentrar em um “sistema” que selecionou dentro do “sistema” mais amplo. É uma escolha subjetiva. Isso é importante porque as opiniões subjetivas das pessoas participantes, seja na SSM, seja em outra abordagem, podem transbordar para o pensamento abaixo da linha e, consequentemente, provavelmente importar muitos dos mesmos “problemas”.

Pedir a quem investiga que pense em termos de acima e abaixo da linha separa o que está acontecendo no “mundo real”, acima da linha, da reflexão sobre partes selecionadas desse mundo, abaixo da linha.

Pensar abaixo da linha envolve selecionar sistemas considerados pertinentes aos temas-problema identificados nas atividades “acima da linha”. No modo 1 da SSM, quem investiga e quem participa refletem sobre os “temas-problema” e contemplam sistemas que consideram pertinentes a esses temas. Devemos ter consciência de que aquilo que escolhemos reconhecer como “sistema” é algo que extraímos de um sistema mais amplo. “…se algo é ou não um sistema é considerado uma escolha específica de quem projeta.” (Churchman 1971, p. 42). É uma escolha subjetiva e estará relacionada à perspectiva de quem investiga.

Isso pode ser problemático, pois não é raro que quem investiga e quem participa pensem no que, a seu ver, “É”27 o caso na situação de preocupação, isto é, nos sistemas do mundo real. Se continuarem a pensar o que “É” o caso abaixo da linha, o objetivo se enfraquece. O ponto deste exercício é pedir a quem investiga que pense suas preocupações empregando o pensamento “sistêmico”, e nada mais28. Pede-se às pessoas participantes que suspendam o pensamento sobre experiências anteriores de situações semelhantes e, no caso da SSM, que se concentrem nos “temas-problema” e nos sistemas nocionais considerados pertinentes a eles. A suspensão do pensamento sobre problemas semelhantes se aplica a qualquer investigação, com a SSM ou com outros métodos soft. Husserl chama isso de epoché: pôr entre parênteses as experiências anteriores de situações semelhantes (ver acima).

A distinção entre acima e abaixo da linha não deve ser considerada exclusiva da SSM. Trata-se de um exercício intelectual pertinente a qualquer investigação sistêmica. No Método de Investigação Apreciativa (Appreciative Inquiry Method, AIM), a diferença é destacada ao se pedir às pessoas participantes que pensem uma questão, ou pergunta, relacionada ao sistema de preocupação em termos de “o que é o caso” e, depois, do que “deveria” ser o caso (Stowell 2021a).

Pensar em termos de acima e abaixo da linha é um exercício intelectual importante e uma consideração valiosa para quem deseja compreender melhor a investigação em sistemas soft.

Fronteira e abordagem adotada

Quem investiga deveria começar seu percurso declarando a abordagem a ser adotada29, definir sua fronteira e acordar onde ela começa e onde termina. É importante deixar claro quem vai conduzir a investigação, qual será o método de investigação e quem serão as pessoas participantes30. Esclarecer a fronteira do sistema de interesse é valioso para todas as pessoas envolvidas. Isso pode ajudar a evitar que se deixem de fora áreas e pessoas pertinentes à investigação. Esse aspecto importante claramente faltou no projeto Horizon.

Churchman diz que todo mundo projeta. O sucesso, diz ele, se mede pela maneira como quem projeta e quem é cliente se fundem em uma só pessoa. Mais uma vez, há aqui um eco da fusão de horizontes de Gadamer (ver acima). O acordo sobre a fronteira é importante aqui, e são quem investiga e quem participa que fazem os julgamentos de fronteira. Como diz Ulrich: “…não é a realidade lá fora… mas sim o ponto de vista de quem investiga” (Ulrich 1994, p. 226). Não é algo que exista à espera de ser descoberto. Determinamos o “sistema” de interesse como algo que recortamos de sistemas mais amplos e de seu ambiente, o que ressalta a subjetividade de nossa ação. Tanto Churchman quanto Checkland enfatizam a importância da fronteira e, embora Checkland não a explicite no modo 2 da SSM, ela é, de fato, definida pela “situação de preocupação”, isto é, pelas razões pelas quais quem pesquisa ou pratica se envolve na investigação. Mas, para quem começa a investigar com sistemas soft sem ainda conhecê-los, pode ser útil representar a área de preocupação (de interesse) em imagem. O ato de traçar a fronteira que distingue o “sistema” de interesse do sistema mais amplo ao qual pertence ajuda a clarear o pensamento. Para isso, é importante que as pessoas participantes saibam que a fronteira é determinada pelo(s) ponto(s) de vista das pessoas envolvidas.

O ponto culminante de uma investigação é considerar ações de mudança. Podemos separá-las entre o que é desejável e o que é aceitável, ou viável, para as pessoas participantes. Essa é uma atividade do mundo real, acima da linha, em que as pessoas participantes deliberam se o resultado da investigação pode ser implementado. A atividade enfatiza a importância da cooperação e da aceitação do resultado, isto é, de sua apropriação, pelas pessoas envolvidas. Isso só pode ser alcançado se quem investiga e quem detém o problema se fundirem em uma só entidade. O último ponto a discutir é a ideia de medir a satisfação com o resultado de uma investigação, uma medida de desempenho. Em certa medida, isso nos faz passar da investigação, da descoberta, para um resultado prático, o do projeto de sistemas, passando da apreciação à atualização.

Medida de desempenho ou autenticação

Churchman discute longamente a conveniência de o sistema resultante da investigação ter alguma medida de desempenho31 (MoP) que permita a quem projeta e às partes interessadas avaliar se o resultado atende às suas expectativas. Os exemplos que ele dá ilustram o desafio que isso cria, pois fica claro que cada situação poderia produzir requisitos diferentes. Cada MoP depende da perspectiva das diferentes partes interessadas envolvidas. Da mesma forma, Checkland observa que as medidas de desempenho dependem do desempenho dos sistemas julgado em relação ao desempenho do sistema como um todo (ibid, 1981, p. 174). Isso põe em foco a natureza de uma abordagem “soft” da investigação, que nem sempre se limita a quem projeta e a quem é cliente32. Checkland sugere que a MoP se concentre em três questões33: “…verificar se o produto é obtido, verificar se recursos mínimos são usados para obtê-lo, verificar em um nível superior se vale a pena produzir essa informação…” (ibid, 1999, p. A24).

Não devemos esquecer que uma investigação soft diz respeito à aprendizagem das pessoas participantes sobre o “sistema” de preocupação e a permitir que elas considerem ações de mudança (Vickers 1983, p. 212). É fácil esquecer isso se o ciclo de aprendizagem ficar subordinado ao estabelecimento de um conjunto de critérios para julgar sua eficácia. É um equilíbrio delicado entre desenvolver um “sistema” que satisfaça as pessoas participantes e impor um padrão de referência para medir seu desempenho. Checkland e Poulter (2006, p. 14) discutem as atividades envolvidas na descoberta e sugerem quatro níveis de atividade. O nível 3 consiste em discutir e debater, passando depois ao nível 4, que é projetar a ação para melhorar a situação. Os módulos resultantes são monitorados em função do desempenho das atividades.

Embora eu aceite o argumento de Churchman e Checkland de que o resultado deveria ter algum meio de avaliar seu desempenho, ainda é preciso que seja algo que as pessoas participantes possam abraçar. Em um artigo, Champion e Stowell (2001) sugerem que as ideias tradicionais relativas à verificação de “sistemas” (MoP) e as expressões associadas às abordagens “hard”, como validação e verificação, podem desviar a atenção. Segundo esse artigo, o papel das pessoas participantes é autenticar o processo de investigação e seu resultado. A noção de autenticidade34 é um meio de as pessoas participantes demonstrarem sua aceitação do resultado do estudo. É a aceitação de um resultado antes de passar à ação. A ideia oferece uma maneira “soft” de endossar o resultado, mantendo “…um livre intercâmbio de ideias e expressões entre as pessoas participantes.” (ver, por exemplo, Stowell 2021b).

Devemos, no entanto, reconhecer que somos nós que escolhemos o sistema a estudar, que o número de opiniões que conseguimos abarcar é limitado e que nem todas as partes interessadas terão compartilhado essa experiência. Em termos práticos, é importante que as pessoas diretamente envolvidas se apropriem do resultado, para que haja “defensores” suficientes para levar adiante e sustentar as mudanças. É preciso estar atento às sensibilidades do sistema mais amplo e ao efeito do resultado sobre outras pessoas (por exemplo, o projeto Horizon). Para isso, a proposta de Champion e Stowell de que aquilo que emerge de uma investigação seja “autenticado” antes de se passar ao projeto da ação para melhorar a situação tem mérito. A passagem da apreciação à atualização evidencia a dificuldade de passar de uma investigação “soft” a um projeto que introduz maneiras de medir o desempenho para avaliar seu valor.

Pôr em prática as ideias soft: Churchman e Checkland

Churchman, o teórico, e Checkland, o empirista e praticante, compartilham o interesse pelo que chamamos de “sistemas soft”. Suas ideias inspiraram muitas pessoas da comunidade sistêmica a explorar essa nova área de pesquisa e prática sistêmicas. Em The Design of Inquiring Systems (1971), Churchman explora as ideias filosóficas de Leibniz, Locke, Kant, Hegel e Singer sobre o entendimento humano. Seu texto oferece uma base para quem se interessa pelas ideias filosóficas e pelos fundamentos de uma “investigação sistêmica”. A essas ideias se soma uma dimensão prática criada por Checkland et al. (1981). Minha investigação revelou semelhanças e diferenças entre esses dois estudiosos. As ideias discutidas acima se encarnam da seguinte maneira. Churchman nos oferece elementos básicos, e Checkland, os meios práticos de implementar ideias tão difíceis35 (Checkland 1981, p. 161-180).

Ocupa lugar de destaque na análise de Churchman e no trabalho de Checkland aquilo que Singer (1936) chamava de contentamento, com o que se referia a “…aqueles aspectos da vida que lhe dão sentido” (Churchman 1971, p. 199-200); em termos práticos, uma investigação sistêmica deveria buscar alcançar conhecimento, cooperação e acordo. Para resumir essas ideias, Churchman propõe elementos básicos, fundados na noção singeriana de um processo de investigação sem fim. Resumo esses elementos básicos36 da seguinte forma:

  1. A finalidade do sistema de investigação é criar conhecimento.
  2. A medida de desempenho é definida.
  3. A clientela é constituída por “todos os seres humanos teleológicos”.
  4. O conhecimento adquirido deve ser útil a todos os seres humanos de todas as sociedades.
  5. O ambiente do sistema de investigação deveria ser de cooperação.
  6. Idealmente, as decisões são tomadas por todo mundo, mas é preciso reconhecer que haverá quem lidere e quem siga.
  7. Todo mundo projeta. O sucesso se mede pela maneira como quem projeta e quem é cliente se fundem em uma só pessoa (a definição da fronteira é importante aqui).
  8. A natureza do processo deveria transmitir uma sensação de otimismo.

Churchman nos lembra que a filosofia subjacente é, em última análise, determinada pelas influências intelectuais de quem conduz a pesquisa (ibid 1971, p. 277). Sem uma consciência crítica de como fazemos para descobrir, corremos o risco de “cavar o mesmo buraco mais fundo”.

Checkland reconhece que o modo 1 da SSM é útil para “ensinar” a investigação soft. Com minha própria experiência de prática e de docência, posso atestar isso, pois ele oferece a oportunidade de destacar pontos importantes a considerar. Checkland descreve o modo 1 da SSM da seguinte forma:

  1. Etapas 1 e 2. A etapa de expressão da “situação-problema”, realizada coletando o maior número possível de percepções, sem forçar a análise em termos sistêmicos. Nessa primeira versão, quem investigava recebia o incentivo de produzir uma representação do tipo “cartum”, que Checkland chamou de figura rica (Rich Picture). Essas atividades são atividades “acima da linha”. Checkland chama tais “sistemas” de sistemas de atividade com propósito.
  2. Etapa 3. Quais são os sistemas nocionais que, a partir da etapa de análise, parecem pertinentes ao problema? Isso é feito “abaixo” da linha.
  3. Etapa 4. Construir e testar modelos conceituais37. Primeiro, uma descrição de um conjunto de atividades humanas com propósito, concebido como um processo de transformação (chamada definição-raiz). Segundo, construir um modelo das atividades necessárias para realizar a transformação descrita na definição-raiz (DR)38. (Essa atividade, como a etapa 3 acima, é uma atividade “abaixo da linha”.)
  4. Etapa 5. Comparar o modelo conceitual com o que está acontecendo na situação-problema. Essa é uma atividade “acima da linha” e é a etapa em que os conceitos sistêmicos oferecem o meio de destrinchar as complexidades da realidade.
    As etapas 6 e 7 se destinam a provocar um debate sobre a viabilidade das implicações da etapa 4. O resultado são mudanças de estrutura, de processo e/ou de atitude.

Em seu texto de 1999, Checkland apresentou os resultados de um programa de pesquisa sobre a investigação (realizado ao longo de trinta anos39). Desse programa de pesquisa surgiram o modo 1 da Metodologia de Sistemas Soft (SSM) e, mais tarde, o modo 2. Muitas das reflexões de Churchman estão presentes nas etapas do modo 1 da SSM, como se pode ver na discussão acima. Acrescento agora, abaixo, a descrição que Checkland faz do modo 2 da SSM, que incorpora as lições aprendidas com sua aplicação (ver Checkland 1999, p. A9):

  1. Mundo real: uma complexidade de relações.
  2. Relações exploradas em modelos de atividade com propósito baseados em visões de mundo explícitas.
  3. Investigação estruturada pelo questionamento da situação percebida, usando os modelos como fonte de perguntas.
  4. Ações de melhoria baseadas na busca de acomodações (versões da situação com as quais interesses em conflito conseguem conviver).
  5. Investigação, em princípio, sem fim; mais bem conduzida com uma ampla gama de partes interessadas; entregar o processo às pessoas que vivem a situação.

As ideias de Churchman e Checkland mudaram a abordagem da investigação e ofereceram uma maneira de lidar com a complexidade das situações sociais. O propósito principal de uma investigação em sistemas soft é engendrar um ciclo de aprendizagem, em vez de buscar uma solução ótima, como costuma acontecer com uma abordagem guiada pela técnica. Isso era novo e inovador.

Reflexões sobre as ideias de Husserl e Gadamer para a investigação soft

A investigação soft e o desenvolvimento dessas ideias estão bem representados pela impressionante quantidade de literatura em torno da Metodologia de Sistemas Soft (ver Checkland 1999), e não vejo benefício em acrescentar algo a essa literatura. Tomarei a SSM como dada, na medida em que ela satisfaz os pontos-chave levantados acima. A prática de sistemas soft se ocupa de compreender nossas experiências imaginadas e “reais” e o modo como elas moldam nossa percepção do mundo. Husserl se ocupava de explicar como cada pessoa formula sua compreensão do mundo e de situações específicas. Ele argumentava que aprendemos sobre o mundo experienciando as “coisas”, o que nos dá um meio de dar sentido a elas. Os indivíduos vivenciam o mundo da vida e, por meio dessas experiências, tentam compreender o porquê e o quê das coisas vividas. O conhecimento científico, por outro lado, tenta atribuir razões a esses acontecimentos, mas “…a ciência não tem um modo adequado de estudar o que é elusivo, pois sempre visa à precisão, e por isso, em um sentido bem real, a ciência está alienada da natureza” (Churchman 1971, p. 18).

O resultado de uma investigação soft se baseia no conhecimento adquirido no ciclo de aprendizagem, que permite às pessoas participantes considerar ações de mudança. A investigação precisa “…passar de pensar sobre a ação para pensar sobre o apoio à ação…” (Champion 2001, p. 79). Criar esse círculo virtuoso, porém, é problemático, porque significa abandonar uma crença construída a partir da experiência pessoal. Uma investigação soft tem o desafio de levar em conta as opiniões e os pontos de vista das pessoas participantes e de oferecer um meio prático de lidar com eles. Então, como fechar o círculo entre reconhecer a importância da experiência subjetiva e levá-la em conta em termos práticos?

Para evitar pré-julgamentos decorrentes de nossas próprias “prontidões” (Vickers 1983, p. 48)40, Dilthey nos oferece a Weltanschauung, mas Gadamer propõe o ciclo de aprendizagem como forma de estruturar a compreensão, o que me parece mais atraente. Ele diz que a compreensão só pode ser alcançada em referência à Weltanschauung e ao tempo41 em que essa compreensão ocorre. Ou seja, nossa compreensão de algo se situa no contexto em que o fenômeno é vivenciado. A isso podemos acrescentar Husserl, que diz: “…Todo ser humano compreende antes de tudo… seu mundo circundante concreto ou sua cultura; e o faz precisamente como ser humano que pertence à comunidade que o molda historicamente…” (ibid p. 133, 1991). A compreensão, diz Gadamer, é a “…interação do movimento da tradição e do movimento de quem interpreta… e está… constantemente se formando em nossa relação com a tradição, como meio de examinar sua legitimidade” (Gadamer 2004, p. 293). A ideia gadameriana do ciclo de aprendizagem envolve um intercâmbio entre as pessoas participantes até que se alcance um ponto de compreensão mútua. Para isso, acrescento à discussão acima as seguintes ideias, que podem enriquecer de forma útil as maneiras de conduzir uma “investigação soft”:

  1. Reconhecer que nossas experiências de vida nos ajudam a dar sentido ao “nosso” mundo (noemata).
  2. Reconhecer a importância da empatia como instrumento para construir relações.
  3. Ter consciência de nossas próprias experiências e do impacto que terão sobre a maneira como percebemos qualquer situação e agimos nela (por exemplo, as etapas 1 e 2 do modo 1 da SSM).
  4. A importância de um livre intercâmbio de ideias e expressões entre as pessoas participantes (Gadamer 2004, fusão de horizontes).
  5. Ter consciência da linguagem usada em qualquer encontro, de seus significados “em contexto” e no tempo; incentivar uma participação sem julgamentos, destacando a “armadilha” da intersubjetividade (a “pré-compreensão” e as “prontidões”).
  6. Ter consciência da importância e do caráter prático do ciclo de aprendizagem “sem fim” (ciclo singeriano).
  7. E qualquer método de investigação empregado deveria ser fiel ao que foi dito acima e não ficar refém de seu próprio desenho (por exemplo, Churchman 1971, p. 249).

Na última seção, apresento em forma de diagrama dois métodos de investigação soft: o modo 2 da SSM e o AIM.

Representações esquemáticas de dois métodos de investigação soft

A SSM ofereceu à prática uma abordagem de sistemas soft para lidar com situações bagunçadas (ver, por exemplo, Ackoff 1971, p. 4). O modo 1 da SSM oferece uma representação visual de uma maneira de operacionalizar essas ideias. As lições aprendidas com a prática levaram ao desenvolvimento do modo 2. Esse desenvolvimento é representado pelo diagrama da retrospectiva de trinta anos da SSM, reproduzido abaixo na figura 1.

Diagrama do ciclo de aprendizagem e investigação da SSM segundo Checkland: uma situação-problema percebida, modelos de atividade com propósito baseados em visões de mundo explícitas, a comparação dos modelos com a situação, a busca de acomodações e a ação para melhorar, que modifica a situação e reinicia o ciclo
Figura 1. O ciclo de aprendizagem e investigação da SSM (segundo Checkland 1999, p. A8-9) (diagrama original em inglês)

O ciclo de aprendizagem pode ser visto na iteração entre diferentes visões do problema percebido, que resulta em modelos de sistemas de atividade com propósito pertinentes. Embora as ideias soft ofereçam a base para pensar como conduzir uma investigação, e a SSM seja uma maneira de operacionalizá-las, a história não termina aí. O Método de Investigação Apreciativa42 (AIM) foi desenvolvido por West (1990) e Stowell e, ao longo de várias aplicações, passou por uma evolução que o transformou de um método de elicitação de conhecimento em um método de investigação organizacional (Stowell 2021a). Ele não substitui a SSM; é, antes, um método alternativo de investigação soft. Embora incorpore muitas das ideias da SSM, apresenta também algumas diferenças úteis.

Por exemplo, no modo 1 da SSM, a progressão do desenvolvimento de uma figura rica até o surgimento dos temas-problema é identificada (e selecionada) pelas pessoas participantes. É um meio de envolvê-las em um ciclo de aprendizagem. No AIM43, parte-se de uma questão ou pergunta, que é um ponto de partida comum para quem presta consultoria ou investiga. Perguntamos às pessoas participantes “o que é o caso” que cria essa questão. Elas são convidadas a produzir, na forma de um diagrama de Venn, círculos concêntricos que se sobrepõem ao ponto central no qual a questão (ou pergunta) é identificada. Cada diagrama contém o que a questão significa para cada pessoa. Esses diagramas de Venn (mapas de sistemas) são então discutidos em plenária. Isso se destina a destacar as divergências de opinião e a iniciar um ciclo de aprendizagem. As diferenças entre as pessoas participantes são discutidas, e elas tentam encontrar uma acomodação de pontos de vista: uma aproximação da noção gadameriana de fusão de horizontes. Não é raro que a pergunta seja reconsiderada à medida que as pessoas participantes discutem suas opiniões. Essa etapa atende à sugestão de Churchman de que quem projeta e quem é cliente se fundam em uma só pessoa e oferece uma boa base para prosseguir. A investigação segue então as linhas mostradas na figura 2, abaixo. O AIM é discutido em detalhe em Stowell 2021a.

Diagrama do Método de Investigação Apreciativa (AIM): suas etapas sucessivas, da questão de partida e dos mapas de sistemas individuais à discussão em plenária, à acomodação dos pontos de vista e ao projeto de ações
Figura 2. O Método de Investigação Apreciativa (AIM) (diagrama original em inglês)

Conclusões

Churchman e Checkland consideraram como conduzir uma investigação sobre o tipo de questões complexas associadas às situações sociais. Embora mais interessado nos fundamentos filosóficos da compreensão, Churchman delineou ideias que, a seu ver, deveriam ser consideradas. Tanto ele quanto Checkland tinham preferência por Singer, mas, para Checkland, foram a filosofia de Husserl e a sociologia de Schutz, associadas à noção de sistemas apreciativos de Vickers, que permitiram desenvolver as ideias em uma abordagem prática44. Creio que esses dois estudiosos abriram um novo capítulo para a teoria e a prática sistêmicas. Enquanto Churchman ofereceu uma discussão esclarecedora sobre a investigação (que toda pessoa que pratica ou pesquisa sistemas deveria ler), Checkland ofereceu uma maneira de realizá-la (ver acima).

Usei o modo 1 da SSM em várias seções para reconhecer a importância dessas ideias inovadoras. Ele também oferece a quem investiga e está começando com os sistemas soft uma estrutura a partir da qual parar e refletir sobre essas ideias (ver Stowell 2016). Incluí o modo 2 da SSM para ilustrar seu desenvolvimento ao longo de três anos. Acrescentei também o AIM como exemplo de desenvolvimento da investigação soft que conserva sua filosofia subjacente. As ideias soft, na forma da SSM, deram credibilidade ao que poderia passar por devaneios filosóficos. Espero que este artigo possa inspirar novas explorações.

Complexe Systémique: a reter

Este texto não vem da clínica, mas fala diretamente a quem conduz entrevistas sistêmicas. Frank Stowell lembra que um sistema não é dado: ele é recortado por quem o observa, segundo sua Weltanschauung, e é esse recorte, a fronteira, que precisa ser explicitado e negociado com as pessoas envolvidas. A distinção de Checkland entre pensar “acima” e “abaixo” da linha lembra um exercício bem conhecido das equipes clínicas: separar o que acontece daquilo que se constrói para pensá-lo. A ideia de “autenticação”, em que são as pessoas envolvidas, e não uma medida externa, que validam o resultado, aproxima-se da coconstrução de sentido na sessão ou no trabalho em rede. Os limites são claros: um ensaio sem dados, exemplos sobretudo organizacionais e de informática, uma leitura rápida de Husserl e Gadamer e um texto que também promove o AIM, método que Frank Stowell ajudou a desenvolver. Para ler junto com o artigo sobre a cibernética de primeira e de segunda ordem e com o artigo sobre o construtivismo.

Notas do original

1 Tomado do título do livro de C. West Churchman, The Design of Inquiring Systems (1971).

2 “Sistema” é usado no sentido de Churchman, Checkland e Bertalanffy (ver essas obras).

3 Para uma discussão valiosa sobre o pensamento sistêmico “hard”, ver o capítulo 5 de Checkland 1999 e também Ulrich 1994, p. 329.

4 Ver Ulrich 1994, p. 321.

5 The Art of Systems Thinking, O’Connor e McDermott 1997.

6 Ver, por exemplo, Ulrich 1994, p. 337-342.

7 O programa de contabilidade Horizon, da Fujitsu, levou a um dos erros judiciais mais abrangentes da história jurídica do Reino Unido.

8 Ver, por exemplo, Bertalanffy 1973, p. 44-46; Seung 2009, p. 172-180; Popper 1983, p. 267-268; Hegel 1977, p. 156.

9 Ver Dresow e Love (2023) para uma discussão valiosa.

10 Organização: uma construção intelectual, um nome genérico; ver adiante a discussão sobre “nomear o sistema”.

11 Ver também Armson 2011, especialmente p. 14.

12 Por exemplo, ISO 17025:2017. https://www.iso.org/ISO-IEC-17025

13 Churchman comenta secamente que “a ciência é uma instituição dedicada à sobrevivência” (1971, p. 59).

14 Para compreender o pensamento de Churchman, recomenda-se a leitura de The Design of Inquiring Systems.

15 A fenomenologia realista estuda a estrutura da consciência e da intencionalidade, supondo que ela ocorre em um mundo real em grande parte exterior à consciência e que não é, de algum modo, trazido à existência pela consciência (Encyclopedia of Phenomenology, Kluwer Academic Publishers, 1997, Dordrecht e Boston).

16 Ôntico: o que está ali; eidético: sua estrutura essencial.

17 A organização é um conceito intelectual para descrever um “sistema”, muitas vezes aceito sem questionamento. Ela se torna um processo coletivo de atribuição de sentido. Uma discussão útil pode ser encontrada em Checkland 1999, p. A46-A48.

18 A organização é um conceito intelectual para descrever um “sistema”, muitas vezes aceito sem questionamento. Ela se torna um processo coletivo de atribuição de sentido. Uma discussão útil pode ser encontrada em Checkland 1999, p. A46-A48.

19 O objetivo de Dilthey era ampliar a Crítica da razão pura de Kant, essencialmente cognitiva, em uma Crítica da razão histórica.

20 “…a fusão de horizontes era a forma em que essa unidade (de sentido) se atualiza, o que não permite a quem interpreta falar de um sentido original da obra sem reconhecer que, ao compreendê-la, o próprio sentido de quem interpreta também entra em jogo…” (Gadamer 2004, p. 578).

21 MacQuarrie 1973 oferece uma discussão interessante sobre esse tema, por exemplo, p. 61-101.

22 Essência: conjunto de propriedades de uma coisa, ou das instâncias de um tipo de coisa, que essa coisa precisa possuir para ser essa coisa em particular (Bullock e Trombley 2000, p. 282-283; e Gibson, baixado em 2021).

23 Popper rejeita a ideia de uma explicação última. Ele pergunta: “por que não haveria tantas essências diferentes quantas são as coisas diferentes?” (1983, p. 194-197).

24 Invariância: algo permanente, que permanece inalterado. Como um círculo.

25 Intencionalidade: é o modo da consciência, o modo de nossa intenção, que faz a diferença, imanente em cada caso particular (ver Husserl 2001a, b, p. 84-85).

26 Vickers afirma que damos sentido ao nosso mundo por meio da experiência que temos dele, da maneira como o sentimos e nos relacionamos com ele por meio de nossa experiência subjetiva.

27 Ver Vickers 1983 para uma discussão sobre juízos de valor. O ser e o dever ser: Churchman 1971, p. 201-202.

28 Reconhece-se que, quando foi proposta pela primeira vez, essa ideia fazia parte do processo de aprendizagem da SSM.

29 Ver Checkland e Howell 1998, sobre o FMA.

30 O mnemônico PEArL se mostrou útil aqui; ver Champion e Stowell (2001); Stowell e Cooray (2016).

31 Para uma discussão esclarecedora, ver Churchman 1971, capítulo 6.

32 Um exemplo recente desse tipo de influência é destacado por Hart 2014, p. 176-179.

33 Checkland se refere aos três E: eficácia (efficacy), eficiência (efficiency) e efetividade (effectiveness) (1999, p. A25).

34 A autenticidade envolve “…uma demonstração, para as pessoas implicadas em uma investigação, de que os resultados de um processo de aprendizagem colaborativo e interpretativo são pertinentes à situação em foco e aceitáveis para as pessoas envolvidas”. Ver Champion e Stowell 2001; Stowell, F. A. e Cooray, S. 2016.

35 Usei essa primeira versão da SSM porque ela representa o exemplo mais claro da reflexão inicial sobre a operacionalização da investigação em sistemas soft.

36 A lista completa encontra-se em Churchman 1971, p. 200.

37 Recomenda-se a leitura da discussão dessa etapa do modo 1 da SSM, p. 169-177 (Checkland 1999).

38 O FSM e os sistemas de atividade humana são abandonados mais tarde e não figuram no modo 2 da SSM.

39 Ver Checkland 1999, STSP, uma reflexão de trinta anos.

40 Ver também Hegel 2003, p. 44-53.

41 Para uma discussão interessante, ver Bergson 1971, capítulo II, especialmente p. 139.

42 O Método de Investigação Apreciativa (AIM) não deve ser confundido com a Appreciative Inquiry (Cooperrider e Srivastva 1987) e sua maneira “espontânea” de envolver as pessoas participantes. O AIM tem uma estrutura de ideias, não estruturada como tal, mas que oferece a quem o pratica um conjunto de ferramentas “investigativas” baseadas nas ideias de holismo e subjetividade. As “ferramentas” usadas são uma ajuda para pensar a situação e para captar os pontos de vista das demais pessoas participantes.

43 Uma discussão completa do AIM pode ser encontrada em Stowell 2021a.

44 O que Vickers (1983, p. 69) descreve como “…a história interior de um indivíduo, de uma organização e de uma sociedade…”.

Referências

Ackoff RL (1971) Towards a system of systems concepts. Manag Sci 17(11):661-671

Ackoff RL (1978) The art of problem solving. Wiley, New York

Armson R (2011) Growing wings on the way, systems thinking for messy situations. Axminster, Axminster

Bergson H (1971) Time and free will. George Allen & Unwin, New York

Bullock A, Trombley S (2000) New fontana dictionary of modern thought. Harper Collins, London, p 433

Champion D (2001) Navigating the gap between purposeful action and a serving information systems, PhD thesis, unpublished. De Montfort University

Champion D, Stowell FA (2001) PEArL: a systems approach to demonstrating authenticity in information system design. J Inf Technol 16(1):3–12

Checkland PB (1981) Systems thinking systems practice. Wiley, Chichester

Checkland PB (1983) OR and the systems movement: mappings and conflicts. J Oper Res Soc 34(8):661–675

Checkland PB (1999) Systems thinking systems practice, a thirty-year retrospective. Wiley, Chichester

Checkland PB, Howell S (1998) Action research: its nature and validity. Syst Pract Act Res 11(1):9–21

Checkland PB, Poulter (2006) Learning for action. Wiley, Chichester

Checkland PB, Scholes J (1999) Soft systems methodology and action. Wiley, Chichester

Churchman CW (1971) The design of inquiring systems, basic concepts of systems and organizations. Basic Books, New York

Cooperrider DL, Srivastva S (1987) Appreciative iInquiry in organisational life research. Organisation Change Develop 1:129–169

Dilthey W (2002) The formation of the historical world in the human sciences: selected works, volume III: the formation of the historical world in the human sciences. Princeton University Press, Oxfordshire UK

Dresow M, Love AC (2023) Teleonomy: revisiting a proposed conceptual replacement for teleology. Biological Theory, Springer. https://doi.org/10.1007/s13752-022-00424-y.downloaded25/3/24

Embree LE (1997) Encyclopedia of phenomenology. Kluwer Academic Publishers, Dordrecht

Gadamer HG (2004) Truth and method, 2nd edn. Continuum, New York

Georgiou I (2007) Thinking through systems thinking. Routledge, London

Gibson P (2010) http://philosophyideas.com/files/papers/Aristotle%20on%20Essences.pdf. Accessed 2021

Hart P (2014) Investigating issues influencing knowledge sharing in a research organisation using AIM, Unpublished Thesis. University of Portsmouth

Hegel GWF (1977) Hegel’s phenomenology of spirit, trans A.V. Miller. Oxford University Press

Hegel GWF (2003) The phenomenology of mind. Dover Publications, USA

Husserl E (1991) Cartesian meditations. Kluwer Academic Publishers, the Netherlands

Husserl E (2001) Pure phenomenology, its method and its field of investigation. In: Moran D, Mooney T (eds) The phenomenology reader. Routledge, London, pp 124-133

Husserl E (2001) Logical investigations, vol 1. International Library of Philosophy, Routledge , London and New York

ISO 17025 (2017) https://www.iso.org/ISO-IEC-17025. Accessed 27 Aug 2024

MacQuarrie J (1973) Existentialism. Penguin Books, London

Moustakas CE (1994) Phenomenological research methods. Sage Publications, Thousand Oaks

Naughton J (1979) Functionalism and systems research: a comment. J Appl Sys Anal 6(1)

O’Connor J, McDermott I (1997) The Art of Systems Thinking. Thorosons, An Imprint of Harper Collins, Hammersmith, London

Patočka J (2002) Plato and Europe. Stanford University Press, CA

Popper KR (1983) Objective nowledge, 2nd edn. Oxford University Press, Oxford

Schutz A (1962, 1964, 1966) Collected Papers: Studies. In: I Schutz (ed) Phenomenological Philosophy, vol III. The Hague, Nijhoff

Seung TK (2009) Kant. A Guide for the Perplexed. Continuum, London

Singer EAJ (1937) On the Contented Life. Henry Holt and co., USA, New York

Smith C (2022) Post Office and Fujitsu to face inquiry over Horizon scandal, BBC Consumer affairs correspondent. https://www.bbc.co.uk/news/business-63205335. Accessed July 2024

Stowell FA (2016) Soft, Not Vague, on Peter B. Checkland, Systems Thinking, Systems Practice –A 30 year Retrospective (1981/1999), (ed D. Baecker), Schlüsselwerke der Systemtheorie, 3rd ed., VS Springer, 2016, Wiesbaden pp 411–440

Stowell FA (2020) Power in Organisations, A Soft Systems Perspective. Systemic Practice and Action Research, Springer. https://doi.org/10.1007/s11213-020-09541-w

Stowell FA (2021a) The Appreciative Inquiry Method (AIM); from knowledge elicitation to organisational inquiry. In: Systems research and behavioral science. John Wiley & Sons, Ltd

Stowell F (2021b) Part two: the challenges of a soft systems inquiry. Integrating Husserl and Gadamer. Kybernetes 50(5):1553–1565

Stowell FA, Cooray S (2016) Virtual action research for virtual organisations? In: Systemic practice and action research, pp 117–143

Ulrich W (1994) Critical heuristics of social planning. Haupt, Bern

Vickers G (1983) The art of judgement. Harper and Rowe, London

von Bertalanffy L (1973) General Systems Theory. Penguin Press, Bungay, Suffolk, Great Britain

West D (1990) The Appreciative Inquiry Method: A Systemic Approach to Information Systems Requirements Analysis. In: Stowell F, McGraw-Hill (eds) Information Systems Provision, London, pp 140–158

Tradução não oficial em português de A arte da investigação em sistemas soft: refazendo os passos de Churchman e Checkland, de Frank Stowell, Systemic Practice and Action Research, vol. 37, no 6 (2024), doi: 10.1007/s11213-024-09689-9, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The Art of Soft Systems Inquiry: Retracing the Footsteps of Churchman and Checkland”, publicado em Systemic Practice and Action Research (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Stowell, F. (2024). A arte da investigação em sistemas soft: refazendo os passos de Churchman e Checkland (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-arte-da-investigacao-em-sistemas-soft-refazendo-os-passos-de-churchman-e-checkland (Obra original publicada em 2024 em Systemic Practice and Action Research, 37(6), 1123-1140 (2024); republicada em 2024 por Systemic Practice and Action Research, https://link.springer.com/article/10.1007/s11213-024-09689-9)

Para ir mais longe

Carrinho

Seu carrinho está vazio.