Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Prática clínica
Uma mãe grita durante uma visita supervisionada, a polícia precisa intervir, a assistente social não aguenta mais: “Não vejo essas crianças voltando para ela tão cedo.” Robert Blundo, que forma equipes de proteção da infância na Carolina do Norte, transcreve a sessão de supervisão de grupo que se segue. Ele faz a pergunta do milagre não à mãe, mas à assistente, e depois a todo o grupo. Uma colega solta “parece uma mamãe urso-pardo”, e a mãe impossível volta a ser uma mãe que protege os filhotes porque o primeiro acolhimento deu errado. A assistente escreve uma carta. A mãe volta, com a carta na mão. Um texto curto de 2014, com um protocolo em oito passos, que diz sobretudo isto: num sistema em que se vigiam as famílias, a supervisão deve primeiro dessaturar a narrativa dos próprios profissionais.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Group supervision in Child Protective Service: Utilising the miracle question, de Robert Blundo, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014), hoje Journal of Solution Focused Practices, doi: 10.59874/001c.75125, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com a transcrição da sessão em quadro, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. “Child protective services” (CPS) é traduzido por “serviços de proteção da infância”. Esta tradução não foi feita nem pelo autor nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Nos Estados Unidos, os trabalhadores da proteção da infância encontram-se frequentemente numa relação adversarial com as famílias. Realizam em geral um trabalho indireto: monitorar planos de tratamento fixados de antemão e encaminhar para programas de tratamento ou intervenção, como cursos de parentalidade e manejo da raiva, cuja eficácia para reduzir comportamentos de risco é limitada. Neste estudo descritivo, um grupo de trabalhadores da proteção da infância recebeu formação na abordagem focada nas soluções para o trabalho direto com as famílias e recebe supervisão focada nas soluções. O uso da pergunta do milagre é descrito em detalhe, como exemplo de como se pode encorajar os trabalhadores a caminhar para uma prática mais positiva e esperançosa.
O verdadeiro sinal da inteligência não é o conhecimento, mas a imaginação.
Albert Einstein
Fazer a pergunta do milagre é um método de trabalho importante na prática focada nas soluções, e pode ser considerado na supervisão (de Shazer, 1988, 1991; de Shazer & Dolan, 2007; Pichot & Dolan, 2003). Essa técnica reflete uma mudança fundamental na maneira de envolver os clientes e, neste caso, os supervisionados. A prática focada nas soluções coloca os supervisionados na posição de especialistas em si mesmos e no seu trabalho. Este artigo trata especificamente do uso da pergunta do milagre numa sessão de supervisão de grupo focada nas soluções com trabalhadores da proteção da infância (Wetchler, 1990; Selekman & Todd, 1995; Junke, 1996). Pretende mostrar como o uso dessa técnica pode ampliar a criatividade dos trabalhadores, alargar as perspectivas dos trabalhadores da proteção da infância e permitir a um trabalhador ou a um grupo ver além do problema ou do impasse imediato, para obter percepções potencialmente úteis e maneiras de abordar a situação.
Os participantes do exemplo deste artigo estão engajados num projeto de pesquisa sobre o uso da prática focada nas soluções no seu trabalho com crianças e famílias. O grupo está sendo formado em serviços de proteção da infância focados nas soluções pelo autor, em formações e consultorias quinzenais. Alguns detalhes foram alterados, e o local e o contexto do trabalho não são revelados, para proteger a confidencialidade.
No projeto de pesquisa que estamos conduzindo, alteramos o trabalho da equipe de proteção da infância para que assuma mais trabalho direto com as famílias. Em vez de fazer o trabalho indireto de monitorar planos de tratamento fixados de antemão, feitos de encaminhamentos a programas, os trabalhadores estão sendo formados para envolver as famílias, com o trabalho focado nas soluções, na concepção do seu próprio conjunto de mudanças de comportamento, que criarão a segurança necessária para que o trabalhador possa encerrar o caso. Isso pode obviamente incluir serviços adicionais, como tratamento de drogas, serviços de saúde mental, cursos de parentalidade e programas de manejo da raiva. No entanto, muitas dessas famílias crônicas frequentaram inúmeros cursos de parentalidade e manejo da raiva sem fazer mudanças significativas.
No contexto desta pesquisa, o foco está no trabalho direto dos trabalhadores com a família, em torno do seu futuro desejado: manter os filhos consigo ou vê-los voltar do acolhimento. Um trabalho focado nas soluções muito específico é feito pelo trabalhador com os membros da família para identificar comportamentos de segurança particulares e detalhados, como objetivos que a família deve alcançar para criar segurança. Planos em passos comportamentais simples e claros rumo a um objetivo de segurança são estabelecidos, com a família participando da definição dos seus próprios objetivos, trabalhando com as exceções e fixando pequenos passos rumo ao objetivo de segurança.
O trabalho focado nas soluções é uma prática colaborativa, que envolve o cliente numa relação de mão dupla e o percebe como o especialista da sua vida e das suas experiências. Ao trabalhar com “supervisionados”, a colaboração, e não a supervisão, representa melhor esse processo. Supervisão conota controle e comando sobre algo ou alguém. Uma forma de poder sobre é presumida, mesmo que não seja abertamente pretendida. Colaboração conota uma discussão entre duas ou mais pessoas, e a ideia básica é o poder com, ou entre, duas ou mais pessoas. O poder com conota que todos os participantes têm poder, no sentido de que as suas ideias e experiências têm autoridade igual na conversa. Isso não nega que os supervisores têm agendas específicas, dados os seus papéis e responsabilidades na agência. Ao mesmo tempo, tanto o trabalhador quanto o supervisor reconhecem que a intenção é oferecer orientação, reflexão e apoio.
A supervisão focada nas soluções, em saúde mental, proteção da infância, dependências e outros serviços sociais, reconhece essa natureza fundamental da relação: é uma interação colaborativa centrada nas competências do trabalhador, ampliando potencialmente a consciência clínica. Obviamente, o supervisor ou consultor deve confrontar e interromper qualquer prática insegura e tratar das questões éticas. Uma prática competente e ética exige consultoria e aprendizagem contínua. A competência, por meio da modelagem e do reforço da autoconsciência, ou da capacidade de refletir sobre as próprias ações e crenças, é uma das chaves para o crescimento como profissional da proteção da infância.
A prática focada nas soluções adota uma perspectiva diferente para envolver os outros em torno dos desafios. Em vez de desvendar a história do problema, as relações patológicas subjacentes e o desenvolvimento de um pensamento irracional, o trabalho concentra-se em descobrir qual será o resultado desejado pelo cliente quando os problemas tiverem desaparecido ou estiverem muito melhores. Mais uma vez, o foco está em como envolver os clientes de uma maneira que os leve a criar futuros possíveis a partir da sua própria narrativa de vida e da sua cultura. Uma ressalva: quando um trauma ocorreu, ou uma crise irremediável ocorreu ou está ocorrendo, o deslocamento é para o enfrentamento e para o que será preciso para lidar com as consequências desse acontecimento traumático ou desse problema de saúde.
O supervisor colaborador, tal como o praticante focado nas soluções, usa diversas ferramentas da prática focada nas soluções, uma das quais é a curiosidade respeitosa: o supervisor está sempre curioso sobre como o trabalhador vê e compreende a situação. O’Connell (2003) descreve essa postura de curiosidade como uma postura que:
… leva o supervisor a descobrir a melhor forma de cooperar, de modo único, com este supervisionado. A exploração abrangerá os estilos de aprendizagem preferidos do supervisionado, o seu uso da linguagem, a sua experiência anterior de supervisão, o seu estágio de desenvolvimento profissional, as suas qualidades pessoais e o seu contexto.
O’Connell, 2003, p. 90
A curiosidade respeitosa toma a forma de perguntas no trabalho focado nas soluções. Sharry (2001) chama as perguntas focadas nas soluções de perguntas construtivas, porque “geram nova experiência sobre as soluções potenciais e sobre as forças e capacidades do cliente” (p. 33). A pergunta do milagre é precisamente uma pergunta construtiva. Exige uma imaginação que reflita a experiência de vida do cliente ou, no nosso caso, do trabalhador da proteção da infância. A pergunta do milagre envolve a imaginação do trabalhador e concentra-se num resultado ou objetivo desejado. Quando pensamos em objetivos, em resultados desejados para a nossa vida, trata-se muito provavelmente de resultados positivos, possivelmente a superação de uma situação difícil. Pensar assim cria um sentimento de esperança e positividade. Groopman (2004) observou que, ao se considerar um resultado positivo ou desejado, a esperança é gerada, e a esperança envolve:
… uma antecipação afetiva, isto é, o sentimento reconfortante, energizante, elevador que você experimenta quando projeta na mente um futuro positivo. Isso exige que o cérebro gere um estado afetivo, ou emocional, diferente daquele em que você está no momento.
Groopman, 2004, p. 193
Outro construto fundamental da abordagem focada nas soluções é que o “problema” não acontece o tempo todo, a cada instante (salvo uma condição crônica ou fatal). Uma mãe não bate no filho a cada hora de cada dia. Uma criança não falta à escola todos os dias. A ansiedade e a depressão vão e vêm ao longo do dia. Todos esses momentos em que o desafio é menos grave ou está ausente são chamados de exceções. Essas exceções são exemplos das forças e capacidades que a pessoa tem no seu próprio repertório, e das maneiras possíveis de agir que atenuam o problema e criam um momento melhor, um futuro possível.
Há muitas maneiras de focar as intervenções de supervisão ao trabalhar com um praticante. No exemplo a seguir, desvendar as forças do clínico e as soluções possíveis para os problemas que enfrenta com um cliente torna-se ao mesmo tempo um modelo de trabalho numa perspectiva focada nas soluções com os clientes, e uma ajuda ao supervisionado para descobrir a sua própria criatividade e as suas soluções possíveis para os desafios desse caso particular.
A narrativa positiva voltada para o futuro constrói-se por perguntas respeitosamente curiosas sobre os resultados desejados, ou sobre o que será diferente quando o problema estiver resolvido. A pergunta do milagre (de Shazer, 1988; de Shazer & Dolan, 2007) é precisamente uma pergunta desse tipo, e uma forma de encorajar o trabalhador da proteção da infância a pensar de modo criativo nas maneiras possíveis de trabalhar com o cliente. Ajuda os membros da supervisão de grupo e o supervisor a construir uma nova narrativa, diferente da narrativa saturada de problema. Sair da narrativa negativa em que se está enraizado oferece a oportunidade de considerar uma ampla gama de possibilidades, incluindo simples dados ou fatos negligenciados, perdidos no foco negativo (Berg & De Jong, 1996).
O insight e a criatividade diminuem quando a pessoa está tomada por um pensamento e um afeto negativos (Compton & Hoffman, 2013). Quando o pensamento do trabalhador passa a ser dominado pelas experiências negativas, a cognição se estreita quanto aos passos alternativos possíveis para fazer as coisas mudarem para melhor. O questionamento pelo milagre, por parte do supervisor, dá ao trabalhador a oportunidade de assumir a liderança na criação de outro resultado possível. Em vez de assumir a responsabilidade de saber “o que é certo fazer” e tirar a iniciativa do trabalhador (tomando potencialmente uma decisão mal informada), usar a pergunta do milagre pode dar ao supervisor e ao trabalhador a oportunidade de considerar possibilidades que talvez nunca tenham considerado, de reconhecer exceções perdidas na frustração de uma narrativa negativa, o que pode criar percepções para ações potenciais a fim de resolver os desafios.
Isso é possível graças às perguntas construtivas mencionadas acima: aquelas que pedem aos clientes que desenvolvam uma narrativa sobre um futuro possível e um resultado desejado, em vez de perguntas sobre o passado e descrições do problema, da sua história e da sua intensidade (O’Hanlon & Beadle, 1999). Quando lhe pedem para considerar um “milagre”, o trabalhador da proteção da infância tem a oportunidade de articular ideias que de outro modo não consideraria. A maioria de nós censura as próprias ideias e as avalia antes de expressá-las. Isso é particularmente verdadeiro se a pessoa pensa numa ideia, presume então que não vai funcionar ou que é inaceitável e, autocensurando-se, deixa de mencioná-la.
A pergunta do milagre é feita de uma maneira específica e visa abrir a narrativa. Como pode parecer inicialmente fantasiosa, permite que maior criatividade e mais possibilidades se expressem. Neste caso, pede-se à trabalhadora, assim como a todos os outros membros do grupo, que imagine terminar o dia de trabalho, voltar para casa e fazer o que faz normalmente até ir dormir. Então ela adormece. Mas, enquanto dorme, acontece um milagre. O milagre é que esse impasse, desafio ou problema desapareceu, mas ela não sabe, pois está dormindo. Pergunta-se então à trabalhadora: “Qual seria a primeira coisa que você notaria de diferente com esta família e que lhe diria que o milagre aconteceu?” “O que seria diferente?” (pedindo especificamente os detalhes dessa diferença). “O que o seu cliente faria de diferente? O que você faria de diferente?”
Quando o resultado desejado ou o futuro preferido é descrito, um novo conjunto de possibilidades é expresso, positivas, que ajudam a gerar um pensamento mais criativo em todos os presentes na consultoria de grupo. Não só a trabalhadora, mas os outros trabalhadores do grupo que conhecem a família e os desafios do trabalho com ela contribuem com percepções e ideias. Na maioria das vezes, ganha-se uma perspectiva diferente e esperançosa sobre a família e as suas ações, mesmo onde o cinismo havia tomado conta.
À medida que isso é discutido e compartilhado, pode-se seguir com uma de duas perguntas. A primeira é perguntar se houve, durante o trabalho com esta família, algum momento em que alguma parte desse milagre já aconteceu. É uma exceção possível ao problema. O foco passa então a ser a descrição de comportamentos positivos, por exemplo a família cooperando e tomando as medidas necessárias para a segurança, mesmo que modestamente.
As perguntas passam a ser: “O que era diferente naquele momento? O que a família ou o cliente fazia de diferente? O que era diferente na situação ou no contexto de vida do cliente, de qualquer forma?” Estar envolvido com os trabalhadores da proteção da infância e com outros sistemas provoca mudanças importantes no contexto de vida do cliente. As coisas não estão “normais”. “O que pode ter contribuído para essa diferença? Em que você era diferente com a família?” Olhar a situação do ponto de vista das exceções ou das respostas positivas ao trabalho (e ao trabalhador) abre a porta para remover parte da negatividade acumulada em torno da família.
O supervisor pode então perguntar: “Se isso fosse possível, como, ou o que precisaria acontecer, para reengajar esse comportamento mais positivo?” A resposta pode ir de: a família sentindo-se apoiada e fazendo, portanto, esforços para mudar; circunstâncias de vida que mudam e criam melhores oportunidades para a família; ou uma interação específica com o trabalhador que fez a família avançar numa direção positiva. Em algumas dessas situações, o trabalhador pode ter envolvido a família de maneiras mais úteis, e é importante identificar o que foi mais útil para tornar o trabalho mais bem-sucedido.
O contrário também é verdadeiro. O que o trabalhador ou outros podem ter feito, inadvertidamente, que perturbou a relação e provocou uma resposta negativa da família? Quando lhe fazem a pergunta do milagre e depois lhe dão a oportunidade de explorar a situação numa perspectiva mais ampla e positiva, o trabalhador abre portas para percepções que podem apontar novas compreensões possíveis do impasse. Obviamente, o foco costuma estar na família que deve agir. A família é vista como o “paciente” ou como aquela que é problemática, deixando de fora o trabalhador e a equipe, que podem não reconhecer as consequências das ações que tomaram (sem intenção). Ao dar um passo atrás, o trabalhador e os membros do grupo podem obter uma percepção sobre o seu próprio trabalho e sobre o contexto da vida da família dentro dos serviços de proteção.
O fato de alguma parte do milagre ou do resultado desejado já ter acontecido torna-se a “exceção” à narrativa do problema e o início de uma narrativa possível, positiva e desejável, sobre o futuro e o sucesso potencial. Partir de pequenos sucessos ou de pequenos passos que criam uma relação de trabalho mais útil pode ajudar o clínico a tomar medidas para mudar o trabalho com um cliente. A narrativa positiva agora descrita substitui a narrativa negativa e oferece a oportunidade de perguntar como essa narrativa positiva esperada (que descreve a relação de trabalho desejada) poderia acontecer, se não aconteceu antes. É uma oportunidade de avaliar criticamente o processo, mas de forma mais positiva, criativa e esperançosa. Baseia-se também nas próprias ideias e percepções do trabalhador. Quando isso é feito em consultoria de grupo, todos os membros podem participar e ganhar em pensamento criativo e em contribuição para a exploração da situação difícil.
Eis um conjunto de perguntas que usam a pergunta do milagre como parte de uma supervisão ou consultoria:
Este exemplo foi tirado de uma consultoria ou supervisão de grupo real. Lembremos que os trabalhadores e os seus supervisores estão sendo formados para fazer mais trabalho direto focado nas soluções com as famílias. Geralmente participam cinco a seis trabalhadores, todos assistentes sociais com mestrado. Embora o foco esteja num caso particular, todos os membros do grupo são convidados a participar da pergunta do milagre e a fazer comentários durante a discussão. Isso enriquece o reservatório de possibilidades criativas, ajuda a ensinar o trabalho focado nas soluções e baseia-se em relações colaborativas.
Transcrição da consultoria de grupo
Trabalhadora da proteção da infância (TPI): Tenho um problema de verdade. A mãe veio para uma visita supervisionada aqui na agência e estava louca. Gritava que não a deixavam ver as crianças sem alguém vigiando, e que ia se certificar de que estavam bem na família acolhedora. Tinha havido de fato alguns problemas numa família acolhedora anterior e as crianças tinham sido transferidas. Ela estava agressiva, exigia falar com os filhos sobre como estavam na família acolhedora e os interrogava sobre o que acontecia lá. Tentei dizer que isso não era apropriado. As crianças não precisam ser interrogadas sobre tudo. Ela está lá para visitá-los. Tivemos de chamar o policial para ajudar a fazê-la parar de gritar. Foi realmente algo, e não vejo essas crianças voltando para ela tão cedo. Não tenho nenhuma vontade de vê-la de novo.
Consultor: Foi obviamente muito duro para você e para todos os outros envolvidos.
TPI: Sim, e não sei mais o que fazer. Ela é impossível. Não consigo falar com ela na maior parte do tempo. Não responde às minhas ligações. Estou realmente farta dela. Não vejo as crianças voltando algum dia para ela [outros membros do grupo comentavam como ela era difícil].
Consultor: Imagino que, com todos os casos que vocês têm e o trabalho duro que fazem, seja desanimador. Todos vocês têm um trabalho muito difícil, já falamos disso. Deixe-me fazer uma daquelas perguntas estranhas que usamos às vezes, a pergunta do milagre. Vejamos se todos nós conseguimos encenar essa pergunta do milagre. Você volta para casa, cuida do que precisa ser feito e vai dormir como de costume. Então, durante a noite, acontece um milagre, e esse milagre é que essa mãe se transforma, assim, na pessoa com quem você teria vontade de trabalhar. Agora, ao acordar, você se levanta e vai trabalhar como de costume. Claro, você não sabe que o milagre aconteceu. Qual seria a primeira coisa que você notaria, ao se ver envolvida com essa mãe, que lhe diria: “Isso deve ser algum tipo de milagre, não acredito em como está indo!” Quais seriam as primeiras coisas que você notaria em você e nela que a fariam pensar que algo realmente estranho deve ter acontecido?
TPI: Ela não seria mais minha cliente. [todos riem]. Sério, é difícil de imaginar. Acho que eu teria vontade de contatá-la e de me encontrar com ela.
Consultor: O que mais seria diferente? O que seria diferente em você e nela que lhe diria que isso aconteceu? Algo está diferente?
TPI: Acho que ela estaria calma e querendo trabalhar para recuperar os filhos. Eu também estaria calma, e poderia conversar com ela sobre o que precisa acontecer para garantir a segurança.
Consultor: O que ela faria que lhe diria que quer trabalhar para recuperar os filhos?
TPI: Ela seria respeitosa e calma comigo e, ao ver as crianças, não ficaria interrogando sobre a família acolhedora e sobre como estão lá. Ela apenas conversaria com eles sobre coisas do dia a dia. Preciso ver que ela é capaz de ser responsável e comprometida em ter as crianças de volta. Ela responderia às minhas ligações e conversaria comigo sobre o que precisa acontecer.
Consultor: Então, houve algum momento, ao vê-la, em que foi de alguma forma próximo da sua imagem do milagre?
TPI: Acho que no início, antes de as crianças serem acolhidas pela primeira vez, ela parecia mais disposta a falar comigo e a me contatar.
Consultor: O que era diferente naquele momento? O que você acha que tornava as coisas diferentes para ela?
TPI: Deixe-me pensar. Tem sido tão difícil ultimamente. Acho que a situação era que, até ela fazer algumas mudanças, as crianças estariam seguras na família acolhedora, e que era temporário.
Consultor: Então, o que você fez para ajudar a melhorar as coisas naquele momento?
TPI: Eu via a transferência das crianças como temporária, e o que havíamos combinado que precisava mudar como mais fácil de fazer do que acabou sendo.
Consultor: Então, como você acha que o que você fazia e dizia ajudou a melhorar as coisas para ela naquele momento?
TPI: Acho que ela me ouvia dizer coisas mais positivas. Ela entendia que o acolhimento era temporário e que as crianças ficariam bem até que ela fizesse as mudanças. Eu era tranquilizadora e confiante de que esse caso se resolveria seguindo as ideias e as mudanças que havíamos elaborado juntas.
Consultor: Em que você acha que isso foi útil para ela? Como isso a ajudou a manter a calma e a trabalhar mais com você?
TPI: Acho que ela se sentia mais segura quanto às crianças e à volta à normalidade.
Consultor: Vejo como isso pode tê-la ajudado a ficar mais calma e a trabalhar com você. O que seria preciso para que isso acontecesse de novo?
TPI: Não sei, porque as crianças tiveram um problema de verdade naquela família acolhedora e tivemos de retirá-las e colocá-las em outra casa. Ela ficou brava com o que aconteceu.
Consultor: Então os medos que ela tinha se concretizaram. Nessa situação, o que você acha que mudou para ela?
TPI: Acho que ela não acredita mais em mim quando digo que as crianças estão seguras, e ficou mais difícil falar com ela porque está tão brava conosco por tê-las tirado e depois por ter de transferi-las de novo.
Consultor: Então, o que você poderia fazer para ajudá-la a acreditar em você de novo?
TPI: Não tenho certeza, ela está tão brava agora.
Outra TPI na reunião: Parece uma mamãe urso-pardo.
Consultor: Conte-nos mais sobre isso. Em que ela é uma mamãe urso-pardo?
A outra TPI: Bem, agora ela vê os filhotes em perigo e está nos atacando, exatamente como fazem os ursos quando têm filhotes.
Consultor: Então, se é isso que está acontecendo, o que isso diz sobre essa mãe? O que lhe diz sobre ela?
TPI: Ela está brava porque não protegemos bem os filhos dela e tivemos de transferi-los para uma nova família acolhedora. Está tentando protegê-los como qualquer mãe faria. Não confia mais em mim, nem em nós.
Consultor: Faz sentido. O que você teria de fazer para tentar alcançá-la, quando ela pensa que a agência não a vê mais como uma mãe boa o bastante e talvez não esteja protegendo os seus filhos?
TPI: Preciso poder dizer a ela que sei que ela se importa muito com os filhos e com a segurança deles, e que é uma boa mãe em muitos aspectos. Acho que a raiva dela foi como a de uma ursa com os filhotes. Ela não deveria ter agido assim, mas consigo ver como pode estar se sentindo agora.
Consultor: Então, já que ela se recusa a vê-la, como você poderia fazê-la saber o que pensa dela como mãe, e dos possíveis medos depois de as crianças terem sido retiradas da primeira família acolhedora?
TPI: Às vezes escrevo cartas aos clientes. Eu poderia escrever uma carta dizendo que sei que ela se importa de verdade com a segurança dos filhos e quer tê-los com ela. Posso tentar tranquilizá-la quanto às suas preocupações depois da situação da última família acolhedora. E também que aquilo em que havíamos trabalhado ainda pode acontecer, para que os filhos voltem para casa.
Consultor: Então, vale o esforço de fazê-la saber isso? É algo que você poderia fazer em breve?
TPI: Sim. Vou me reunir com a minha supervisora e redigir uma carta para ela.
Consultor: Obviamente não temos ideia se isso vai funcionar ou não neste caso. Mas parece ser uma forma possível de reengajá-la como você a havia engajado no início. Vamos ver o que acontece.
[A mãe de fato compareceu a um encontro com a trabalhadora e trouxe a carta consigo. Estava muito mais conciliadora e teve uma boa visita com os filhos.]
Neste exemplo, os trabalhadores (todos os membros do grupo) aprenderam a sair do discurso saturado de problema, com os seus julgamentos negativos crescentes sobre essa cliente. Descobriram que, ao dar um passo atrás e olhar quais poderiam ser as possibilidades, em vez de se enredar em tudo o que está errado, podem começar a adotar outras perspectivas sobre os comportamentos e encontrar maneiras criativas de envolver a cliente. Podem reconhecer o que fazem ou talvez não façam que tem impacto no processo e no trabalho com a cliente, sem se concentrar no que “deu errado” nem permanecer nas histórias negativas sobre os comportamentos da cliente. O foco está nas possibilidades, e não nos “fracassos”.
Isso fez das sessões com os trabalhadores uma experiência de crescimento cada vez mais positiva, e a positividade está sempre ligada à criatividade e a um pensamento mais amplo (Fredrickson, 2001). Em vez de repetir a narrativa habitual que explora problemas ou déficits potenciais, a experiência constrói a confiança e a capacidade de considerar opções e possibilidades. Os trabalhadores puderam aprender a fazê-lo por si mesmos e a refletir sobre si de forma mais produtiva. Pela minha experiência, a consultoria (supervisão) focada nas soluções ajuda a dar aos trabalhadores a oportunidade de sair do foco estreito da narrativa negativa ou, pior, da tendência a pressionar mais o cliente e a se tornar mais críticos. Em vez disso, podem demonstrar a sua criatividade e a arte do seu trabalho ao construir, com as famílias e na sua forma de abordá-las, uma narrativa de possibilidades e resultados positivos.
O acompanhamento, na sessão seguinte, começa geralmente com a pergunta “O que esteve melhor?”, no sentido de qualquer coisa, inclusive a questão que foi o foco da sessão anterior. A oportunidade aqui é descobrir qualquer outra mudança positiva, bem como acompanhar como o novo esforço fez diferença. Isso mantém, mais uma vez, a expectativa positiva e o potencial de movimento rumo a melhores resultados. Mesmo que só pequenos deslocamentos tenham sido notados, esses pequenos deslocamentos são os primeiros passos para melhores resultados. A conversa pode então passar a ser sobre como construir sobre eles. Sugeriram-nos usar as escalas no nosso trabalho e, claro, é algo que começamos a acrescentar à supervisão. Elas são usadas no trabalho entre o trabalhador e o cliente, como parte da sua formação para se tornarem trabalhadores da proteção da infância mais ativos e engajados.
O trabalho focado nas soluções exige uma perspectiva muito diferente do que costuma ser uma visão patológica da família, que precisaria ser tratada ou consertada por serviços especializados. O sistema de proteção da infância nos Estados Unidos é, em muitos aspectos, um encontro adversarial (embora não seja considerado assim pela agência e pelos trabalhadores). Nos Estados Unidos, as famílias são consideradas problemáticas e depois enviadas a diversos serviços, que são então monitorados pelo trabalhador da proteção da infância. O trabalhador cria um plano de intervenção e depois espera que a família se engaje em psicoterapia, cursos de parentalidade, tratamento de drogas ou cursos de manejo da raiva. Se os membros da família não cumprem, pressiona-se para que participem. Essa posição instala uma relação adversarial e também encoraja os trabalhadores a procurar os comportamentos negativos, como “não comparecer” a algum programa de intervenção. Passar desse papel de especialista “adversário” para um papel de trabalho de caso baseado nas forças, focado nas soluções e colaborativo não é uma mudança fácil. A ideia de proteger as crianças sobrepõe-se à oportunidade de envolver a família nas exceções e nos potenciais de um trabalho de caso direto focado nas soluções, para fazer mudanças e utilizar os serviços. O foco no que vai mal e a identificação dos comportamentos negativos que criam um problema de segurança para as crianças são obviamente importantes, já que o objetivo do trabalho é proteger a criança. No entanto, a intenção é também reforçar o funcionamento da família e manter a criança com a sua família.
A repetição constante de situações familiares problemáticas, ao longo do tempo, pode tornar supervisores e trabalhadores desgastados e cegos ao que é possível. É um trabalho muito difícil, e o trabalhador está na linha de frente de muita pressão e muita política. Assim, é muito difícil afastar-se do papel tradicional de “vigilante” da família. Nesse papel, os trabalhadores adotam frequentemente uma perspectiva muito estreita e negativa, que resulta na sua frustração e na sua negatividade em relação às famílias.
Este projeto de pesquisa e o trabalho que acaba de ser descrito são um esforço desta agência para mudar de verdade a forma como os trabalhadores da proteção da infância veem as famílias e trabalham com elas. É o primeiro verdadeiro desafio para trabalhadores que aprendem a prática focada nas soluções: permanecer do lado do que funciona, e das possibilidades ou oportunidades que se podem criar quando se é criativo e se aprende a pensar num contexto mais amplo. Reforçar a consciência pela prática focada nas soluções, dando um passo atrás e olhando as possibilidades (por mais rebuscadas que pareçam à prática tradicional), é uma das chaves para evitar recair na dissecação de problemas negativos e nas sugestões sobre o que fazer. Ajuda também a centrar o trabalho nos esforços do trabalhador, sem postura de julgamento. Muitas vezes, essas oportunidades de criatividade e imaginação, como experimentar a pergunta do milagre, podem ajudar trabalhadores e supervisores a ver a situação com novos olhos e a encontrar outras opções e perspectivas.
Complexe Systémique: o que reter
Um texto modesto, sem dados, mas uma cena de supervisão que não se esquece. O que muda tudo não é a pergunta do milagre em si, é que ela é feita aos profissionais e não à família, e feita ao grupo inteiro. A metáfora da mamãe urso-pardo, lançada por uma colega, faz o que nenhuma análise faria: reenquadra a raiva como proteção, e a trabalhadora reencontra uma mãe onde só via um processo. Blundo diz também a coisa difícil: num sistema de vigilância, a narrativa saturada de problema é a dos profissionais tanto quanto a das famílias, e a supervisão deve começar por aí. Para ler com Perry, Alexander e Hemmington sobre a esperança na avaliação sob coerção, com Hsu e Chen sobre a supervisão focada nas soluções, e com Proteção ou maus-tratos institucionais, que faz a mesma pergunta do lado das políticas públicas.
Referências
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Fredrickson, B. L. (2001). The role of positive emotions in positive psychology: The broaden-and-build theory of positive emotions. American Psychologist, 135(5), 1190–1195.
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Pichot, T. & Dolan, Y. M. (2003). Solution-Focused Brief Therapy: Its Effective Use in Agency Settings. New York: The Haworth Clinical Practice Press.
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Wetchler, J. L. (1990). Solution-Focused supervision. Family Therapy, 17(2), 129–138.
Sobre o autor
Robert (Bob) Blundo, Ph.D., MSW, LCSW, BCD, é professor de serviço social clínico na School of Social Work da University of North Carolina Wilmington (EUA) e diretor do Strengths and Solution-Focused Collaborative. Ensina a prática focada nas soluções na graduação e na pós-graduação, conduz formações e desenvolve programas focados nas soluções para agências regionais, por meio de formação e consultoria. E-mail: blundor@uncw.edu
Tradução não oficial para o português de Group supervision in Child Protective Service: Utilising the miracle question, de Robert Blundo, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n.º 1 (2014), artigo 6, p. 46-60, doi: 10.59874/001c.75125, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Group supervision in Child Protective Service: Utilising the miracle question”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Blundo, R. (2014). A supervisão de grupo na proteção da infância: utilizar a pergunta do milagre (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-supervisao-de-grupo-na-protecao-da-infancia-utilizar-a-pergunta-do-milagre (Obra original publicada em 2014 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n° 1 (2014), article 6, p. 46-60; republicada em 2014 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75125)
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