Journal of Solution Focused Practices · Pesquisa empírica
Na Inglaterra e no País de Gales, é o profissional de saúde mental aprovado (Approved Mental Health Professional, AMHP), quase sempre um assistente social, quem decide em última instância uma internação compulsória. A lei lhe pede que entreviste a pessoa “de maneira adequada” e o código de prática recomenda um tempo a sós com ela, sem dizer como. Dezesseis AMHP de três administrações locais foram formados na prática focada nas soluções, e entrevistados antes e depois. O que dizem: a pergunta das melhores esperanças que mostra que se está escutando, informações que saem “naturalmente” sem interrogar sobre o risco, relatórios “muito mais humanos” que citam a pessoa palavra por palavra, e um ofício reencontrado: “isso devolve a esperança, mesmo quando alguém se sente sem esperança”.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Putting the Hope Back In: Making the Case for Solution Focused Practice in AMHP Interventions, de Nick Perry, Kelly Alexander e Jill Hemmington, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2026), doi: 10.59874/001c.161768, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com as falas dos participantes apresentadas em destaque e os trechos da folha de informação em quadros, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os colchetes e as reticências nas citações são dos autores. Os termos do direito inglês (AMHP, artigos do Mental Health Act 1983, código de prática) são explicados na primeira ocorrência. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
Este artigo explica a estrutura, o andamento e os resultados de um projeto de formação destinado a introduzir profissionais de saúde mental aprovados (Approved Mental Health Professionals, AMHP) em exercício aos pressupostos fundamentais e às técnicas da prática focada nas soluções (PFS), para que possam começar a aplicar esse aprendizado ao papel do AMHP. Entrevistas semiestruturadas foram realizadas antes e depois da formação e da supervisão pós-formação oferecida. A análise temática permitiu derivar temas dos dados das entrevistas. Entre os principais achados do estudo estão: a necessidade de maior profissionalização do papel do AMHP, ancorada em competências e conhecimentos específicos; a importância de uma comunicação intencional por parte dos AMHP; o valor de usar a prática focada nas soluções no tempo a sós com a pessoa avaliada, para dar prioridade à sua voz na avaliação; e o impacto na prática em geral, por exemplo na satisfação profissional dos AMHP.
Palavras-chave: AMHP, prática focada nas soluções, Mental Health Act, competências.
Mas eu gosto desta [abordagem] porque ela devolve a esperança, mesmo quando alguém se sente sem esperança…
Um AMHP participante, na epígrafe do artigo
Com as emendas ao Mental Health Act para a Inglaterra e o País de Gales finalizadas no fim de 2025 (MHA 2025) e a implementação das mudanças prevista para os próximos dez anos, há muita mudança pela frente para os profissionais de saúde mental aprovados, ainda que o seu dever central ao abrigo do artigo 13 (s13) permaneça o mesmo. Um novo código de prática está em construção no momento em que este artigo é submetido, e espera-se que os achados do projeto de formação aqui relatado venham somar-se à base de evidências para novas diretrizes legais sobre entrevistar “de maneira adequada” (s13(2), MHA 1983 conforme novamente emendado).
Mais adiante, talvez vejamos também mudanças no regulamento anterior (2008), que estruturou a competência dos AMHP por quase vinte anos. É em apoio aos apelos por formar os AMHP em práticas comunicativas, além da expertise jurídica, que submetemos este artigo a publicação.
Sucessor do assistente social aprovado (Approved Social Worker), o papel de profissional de saúde mental aprovado foi introduzido na Inglaterra e no País de Gales pelas emendas de 2007 ao Mental Health Act 1983. A lei de 1983 tinha, por sua vez, substituído o Mental Health Act 1959, e fornece os fundamentos legais para que pessoas sejam internadas compulsoriamente para avaliação seguida de tratamento. Ela estabelece o quadro de decisão em situações civis (parte II) e em situações forenses (parte III). Os profissionais elegíveis para a formação de AMHP são assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, enfermeiros de saúde mental ou de deficiência intelectual e psicólogos, embora 93% dos AMHP ainda venham do serviço social (Skills for Care, 2025).
Embora sejam considerados órgãos públicos (à luz do Human Rights Act 1998) e obrigados a responder de forma independente pelas suas decisões, esses profissionais exercem o papel em nome das administrações locais (s13, MHA); são nomeados por essas administrações; e podem também ser empregados a título principal por outras entidades (como os Mental Health Trusts). O código de prática do Mental Health Act (2015) orienta a maneira como os AMHP devem realizar o seu trabalho: elementos-chave são fornecer uma perspectiva social e realizar uma avaliação holística da pessoa com necessidades de saúde mental, para garantir o desfecho seguro e menos restritivo (DH, 2015).
Espera-se que o AMHP atue de forma independente dos médicos especialmente aprovados (s12, MHA), que podem fornecer recomendações médicas de internação hospitalar, sobre as quais o AMHP toma a decisão final (DH, 2015, 14.52; s13(5) MHA 1983 conforme novamente emendado). Como parte do seu papel de coordenar o trabalho ao abrigo do Mental Health Act e de obter as opiniões pertinentes (inclusive da pessoa, do seu “parente mais próximo” (Nearest Relative) – em breve a “pessoa nomeada” (Nominated Person) – e de outras pessoas significativas da rede), o AMHP deve também entrevistar a pessoa “de maneira adequada” (s13(2); COP, 14.49). É no processo de recolher esse leque de opiniões pertinentes, sobretudo as da pessoa avaliada, que surge uma oportunidade para o uso de competências de comunicação terapêutica.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) evoluiu a partir de abordagens “mais breves” da terapia familiar sistêmica (Weakland et al., 1974), e as ideias e perguntas-chave que deram estrutura a essa maneira de conversar foram concebidas por Steve de Shazer, Insoo Kim Berg e seus colegas do Brief Family Therapy Center de Milwaukee, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1980 (de Shazer et al., 1986).
Ao longo dos anos, a TBFS saiu da sala de terapia e passou a ser usada por profissionais de todas as origens e descrições (não só em contextos de saúde, mas em empresas, gestão e coaching) – daí a mudança terminológica para prática focada nas soluções (PFS) (Perry & Goldie-McSorley, 2024).
Os pressupostos fundamentais e as técnicas da abordagem, afinados em diferentes partes do mundo nos últimos quarenta anos, envolvem provavelmente a maioria dos seguintes elementos (de Shazer et al., 1986; George et al., 2012; Watzlawick et al., 1974):
As tarefas acima podem ser vistas como a espinha dorsal de uma conversa focada nas soluções, e há semelhanças óbvias entre algumas delas e outras modalidades terapêuticas – por exemplo, a TCC e as escalas, ou a PNL e a visualização –, mas há também singularidade (Jerome et al., 2023).
Os praticantes não são obrigados a seguir rigidamente uma ordem de perguntas, e as técnicas focadas nas soluções podem igualmente ser usadas de maneira não planejada (Shennan, 2025) ou aplicadas a cenários legais específicos (Turnell & Edwards, 1999) – e é assim que a abordagem se presta ao papel do profissional de saúde mental aprovado.
Embora o Mental Health Act 1983 (conforme novamente emendado) e o seu código de prática de 2015 exijam que os AMHP entrevistem “de maneira adequada” (s13(2)) e os incentivem a passar tempo a sós com as pessoas avaliadas ao abrigo da lei (COP, 14.54; COP para o País de Gales, 14.45, DH, 2015), não há (ainda) orientação detalhada sobre como fazê-lo. Em consequência, embora esteja claro que práticas comunicativas qualificadas são cruciais para o exercício do papel de AMHP, a formação de pós-graduação manteve uma lente amplamente jurídica e não ensinou aos AMHP como usar melhor o tempo a sós, nem como garantir que a sua prática incorpore os princípios orientadores do código. É nesse espaço que foi possível introduzir maneiras de trabalhar focadas nas soluções.
A natureza centrada na pessoa e baseada nas forças da PFS ajuda a obter da pessoa informações “novas”, em vez das informações centradas no problema contidas nos documentos de encaminhamento e nos baseados no modelo médico. Essas informações serão essenciais para compreender as esperanças da pessoa quanto à sua recuperação e os seus planos para o futuro que deseja, bem como para ajudar os avaliadores a chegar a visões mais equilibradas sobre o risco e sobre qual poderia ser o caminho mais apropriado e menos restritivo (Watson & Perry, 2022). Nesse sentido, a abordagem também se apresenta como aliada da prática antirracista (Lee, 2003; Perry, 2025; Simon, 2026).
O projeto de formação, que recebeu financiamento de um órgão do NHS, pôde contratar um formador experiente na abordagem focada nas soluções para integrar a equipe do projeto e formar os participantes em conjunto com um formador duplamente qualificado, AMHP e formador em prática focada nas soluções. A formação foi ministrada inteiramente on-line e ensinou os pressupostos e as competências fundamentais (referidos na “espinha dorsal” acima), permitindo aos participantes começar a ter conversas focadas nas soluções enquanto exerciam os seus deveres legais.
O projeto contou com um comitê de acompanhamento que incluía o responsável por Saúde Mental para o Serviço Social (no Department of Health & Social Care), representantes do órgão financiador, os formadores e os pesquisadores, e que apoiou o planejamento e o cronograma do trabalho.
Uma proposta de pesquisa foi submetida, e a aprovação ética da universidade foi obtida. A folha de informação aos participantes explicava o objetivo do estudo:
Folha de informação aos participantes
Este estudo explorará se, e com que finalidade, [o tempo a sós recomendado pelo código no ponto 14.54] acontece na prática. Com base num estudo piloto anterior, examinará se esse é um lugar para a PFS, bem como de que modo os AMHP poderiam ampliar as suas competências de comunicação na entrevista legal, quando pertinente.
Atualmente, há poucas evidências disponíveis sobre como os AMHP conduzem o seu trabalho profissional, e este estudo somará à base emergente de evidências e conhecimentos. No conjunto, este estudo se apoiará no desenvolvimento profissional contínuo dos AMHP e no seu profissionalismo distinto na aprovação e na reaprovação, e os desenvolverá.
Os dezesseis participantes, todos AMHP qualificados e em exercício (de três administrações locais), receberam a seguinte explicação para o convite a integrar o projeto:
Folha de informação aos participantes
Você foi convidado a participar por ser um AMHP qualificado e em exercício, e porque procuramos compreender como, ou se, os AMHP conseguem passar um tempo significativo a sós com os usuários e, além disso, como ou se a PFS pode apoiar esse trabalho.
A formação foi gratuita para os participantes, que foram liberados do trabalho para assistir a ela. Os participantes foram escolhidos pelos responsáveis AMHP das suas respectivas administrações locais, e a formação terá cumprido as dezoito horas de formação anual exigidas pelo regulamento AMHP. O documento de informação aos participantes explicava o processo do projeto. Antes de um total de vinte e quatro horas de formação, ministradas em cinco sessões em semanas consecutivas, as duas pesquisadoras identificadas (as acadêmicas de serviço social qualificadas como AMHP) realizaram entrevistas semiestruturadas com os participantes. Os formadores não participaram dessas entrevistas; o formador qualificado como AMHP e em PFS, no entanto, participou da discussão dos achados e da coautoria deste artigo.
A formação em si foi experiencial, com o mínimo de tarefas de casa. A orientação para a prática focada nas soluções foi ampliada por trechos em vídeo de trabalho real, e os participantes puderam praticar perguntas focadas nas soluções em pequenos grupos e em plenária.
Textos anonimizados de trabalho de AMHP, demonstrando a prática focada nas soluções, foram partilhados e discutidos. Os participantes foram incentivados a praticar as perguntas fora da formação e a relatar os resultados, e isso se tornou o conteúdo das sessões de supervisão oferecidas após a formação.
Concluída a formação, foi oferecida supervisão on-line uma vez por mês durante três meses e, ao término da supervisão, as acadêmicas qualificadas como AMHP realizaram uma segunda entrevista semiestruturada com os participantes.
A análise temática (Braun & Clarke, 2024) foi usada para fazer emergir temas e achados. A análise temática serve para categorizar, examinar e decodificar padrões de significado num conjunto de dados qualitativos (Braun & Clarke, 2024), e é uma abordagem adequada para explorar experiência, percepção e interação social. Para analisar os dados deste estudo, as acadêmicas de serviço social e o formador em PFS qualificado como AMHP começaram por se debruçar sobre as transcrições das entrevistas para identificar códigos iniciais e, em seguida, procuraram relações entre esses códigos para gerar e nomear temas (Braun & Clarke, 2024). A análise dos dados foi fortalecida por um processo de triangulação, em que os três coautores revisaram as mesmas transcrições e compararam a codificação. A discussão reflexiva levou à construção dos temas-chave e garantiu o rigor, ao demonstrar claramente a consistência da codificação e o enraizamento dos temas nos dados (Braun e Clarke). Os temas identificados são listados por subtítulo abaixo.
Os participantes refletiram sobre a necessidade de profissionalização do papel de AMHP, para que tenha a sua própria base de evidências, conhecimentos e competências. O debate sobre a necessidade de profissionalização do papel de AMHP está em curso desde as emendas de 2007 ao Mental Health Act 1983, quando enfermeiros, terapeutas ocupacionais e psicólogos se juntaram aos assistentes sociais na lista de disciplinas elegíveis para a formação de AMHP (Fish, 2022). Fish (2022) destaca que uma responsabilidade-chave do AMHP é manter a pessoa avaliada no centro do processo de avaliação e garantir a consideração das suas circunstâncias numa perspectiva social, conforme o ponto 14.52 do código de prática do MHA (2015). Fish (2022) conclui, porém, que houve pouco consenso quanto às competências e conhecimentos necessários para que os AMHP cumpram essa função. Isso é congruente com os AMHP deste estudo, que observaram:
Nunca falamos sobre… o que a gente realmente faz… A gente pode de fato se profissionalizar… A teoria informa a prática, não é?… Senão, a gente inventa tudo!
Um AMHP participante
O sentido que os AMHP atribuem ao papel como profissão (e não simplesmente como qualificação) foi explorado mais a fundo na pesquisa: 80% de uma amostra de 247 AMHP conceitualizam o papel de maneira diferente da sua disciplina de origem, identificando competências, conhecimentos, status e poder como contribuintes para a sua percepção do papel de AMHP (Hemmington et al., 2021). Os AMHP identificam que lutam por legitimidade profissional, trabalhando como trabalham ao lado dos profissionais médicos (Fish, 2022). Os participantes deste estudo concordaram que outras disciplinas alcançaram um nível maior de profissionalismo para os seus papéis:
[As profissões afins] se profissionalizaram de verdade… Enquanto [nós temos dificuldade] porque sempre tentamos nos alinhar com os clientes… [nós] podemos ser mais profissionais… [começar a ter] alguma coisa por escrito.
Um AMHP participante
Apesar de competências avançadas terem sido identificadas como essenciais para uma prática eficaz dos AMHP (Morriss, 2016), a ausência de uma base de evidências para as competências dos AMHP é um interesse de pesquisa significativo no campo (Hemmington, 2024). Hemmington (2024) constatou que uma prioridade-chave para os AMHP é melhorar a comunicação para fortalecer a prática relacional. Os participantes deste estudo também refletiram sobre a base de competências dos AMHP:
… Isso nos faz pensar… em como refazer… alguma coisa em que pendurar as nossas competências.
Um AMHP participante
Usar abordagens de comunicação planejadas e intencionais é uma competência-chave do AMHP (Hemmington, 2024). Uma área em que os participantes da pesquisa de Hemmington et al. consideraram que a formação dos AMHP poderia melhorar (2021, p. 45) é “como o AMHP pode envolver a pessoa na avaliação, talvez com alguma modelagem de como isso poderia ser”. Este estudo contribui para a base de evidências da prática dos AMHP em relação à comunicação e às abordagens relacionais, na medida em que os participantes identificaram como a introdução de competências focadas nas soluções ampliou a sua capacidade de envolver as pessoas no trabalho ao abrigo do Mental Health Act:
A prática mudou ao longo dos anos… perdemos o lado humano… [a formação] trouxe de volta o tentar compreender de verdade o que eles querem… olhar para um futuro preferido para eles… isso muda a dinâmica.
Um AMHP participante
Stevens et al. (2019) examinam o que motiva os profissionais de saúde mental a se tornarem AMHP e, inversamente, o que poderia dissuadi-los. Identificam um leque de fatores intrínsecos e extrínsecos que contribuem para a decisão. Em congruência com este estudo, os seus participantes se preocupavam com a construção de relações e com um possível efeito intrínseco negativo nas relações terapêuticas com as pessoas que usam os serviços. Paralelamente, havia um efeito extrínseco positivo ligado à estima profissional e à progressão na carreira (Stevens et al., 2019), ambos componentes que aumentam a satisfação profissional e reduzem o esgotamento (Evans et al., 2005; Garvey, 2025). Os participantes deste estudo também estão curiosos sobre como a introdução de uma abordagem focada nas soluções na sua prática de AMHP poderia mudar a sua experiência do papel e aumentar a satisfação profissional:
Eu estava um pouco preso na rotina do trabalho e sentia falta… de ter essas relações melhores com as pessoas… embora eu ainda veja as pessoas talvez uma ou duas vezes… há mais conexão… isso… ajudou na minha satisfação com o trabalho.
Um AMHP participante
O papel do AMHP é complexo e multifacetado, exigindo que os praticantes ocupem espaços diversos ao realizar uma avaliação ao abrigo do Mental Health Act. Leah (2020) identificou oito papéis (quase-juiz, detetive, executor da lei, guardião da justiça social, defensor, educador, mediador e terapeuta) para conceitualizar a amplitude da prática dos AMHP. No entanto, a experiência da pessoa avaliada nem sempre é de envolvimento. Blakley (2023) constata que as pessoas avaliadas vivem a equipe de avaliação como uma “barragem de três”, o que reduz as oportunidades de a voz do usuário ser ouvida.
O ponto 14.54 do código de prática do Mental Health Act (DH, 2015, p. 122) afirma que “os pacientes devem normalmente ter a oportunidade de falar a sós com o AMHP”. Durante a entrevista semiestruturada anterior à formação, os participantes discutiram a sua prática atual quanto a ver a pessoa a sós antes da avaliação. Um participante achava que ver a pessoa a sós era uma questão de “curiosidade profissional… fazer aquelas perguntas” e partilhava a sua “preocupação de que os nossos AMHP estejam ocupados demais e não façam as perguntas”, continuando que “está virando um procedimento em vez de ser sobre a pessoa, e eu não gosto do rumo que isso está tomando”.
Outro achava que ver a pessoa a sós permitia uma visão independente da sua situação: “Acho que é benéfico para nós porque estamos vendo aquela pessoa por conta própria… Não estamos com médicos tentando influenciar a situação”. Contudo, apesar das evidências de que as pessoas avaliadas querem se sentir escutadas (Akther et al., 2019; Blakley, 2023; Johansson & Lundman, 2002), os participantes relataram que não procuravam rotineiramente ver a pessoa a sós, citando muitas vezes que isso era mais provável quando não havia contato prévio com a pessoa, ou devido a preocupações com o risco.
Depois da formação, os participantes voltaram a falar de reservar tempo para falar com a pessoa a sós antes da avaliação. Um participante refletiu que conseguiu se envolver mais com a pessoa avaliada e, ao perguntar sobre as suas melhores esperanças, saber mais sobre as suas necessidades e desejos e compreender como a pessoa se sentira em avaliações anteriores:
Consegui… obter dela o que ela queria dos serviços, o que ela não tinha expressado antes… Era frustração da parte dela por ninguém estar escutando.
Um AMHP participante
Isso apoia tanto Hemmington et al. (2021, p. 48) quanto Blakley (2023), que sugerem, respectivamente, que os AMHP deveriam “permitir que as pessoas avaliadas contem as suas histórias sem lhes impor perguntas prescritas”, e que as experiências negativas de avaliação e os sentimentos de coerção podem ser atenuados quando a pessoa avaliada se sente ouvida.
O foco em ver a pessoa a sós também levou um participante a refletir que a abordagem focada nas soluções lhe permitiu reconectar-se com as suas raízes profissionais de assistente social, em termos de envolvimento com a pessoa e de abordagem da avaliação numa perspectiva baseada nas forças e no modelo social:
Gosto… de estarmos voltando a como praticávamos como AMHP quando me qualifiquei.
Um AMHP participante
Este estudo constata que dar aos AMHP uma abordagem que os capacita a envolver as pessoas avaliadas usando o ponto 14.54 do código envolve melhor a pessoa na sua própria avaliação, com a consequência de que a pessoa se sente ouvida (Akther et al., 2019; Johansson & Lundman, 2002).
As evidências aqui estão subdivididas nos seguintes títulos.
Poucas pesquisas sobre os AMHP se concentraram até hoje no seu papel na comunicação com as pessoas avaliadas ao abrigo do Mental Health Act (Hemmington, 2024). Leah (2020) destaca os múltiplos papéis que os AMHP adotam e aponta o de terapeuta entre eles, sugerindo que os AMHP usam competências terapêuticas tanto para demonstrar cuidado quanto para gerir o impacto emocional durante as avaliações. Watson e Perry (2022) exploram o benefício de uma abordagem focada nas soluções nas avaliações, concluindo que ela contribui para uma maneira mais centrada na pessoa e baseada nas forças de envolver a pessoa avaliada. Ao explorar o papel da comunicação no exercício dos deveres de AMHP e o efeito de uma abordagem focada nas soluções no envolvimento dentro da avaliação, este estudo apoia a afirmação de Watson e Perry (2022), como comenta um participante:
Quais são as suas melhores esperanças para esta conversa… [mostra] que você está escutando.
Um AMHP participante
Enquanto outro participante refletia:
Usando uma abordagem diferente… aprendi bastante coisa diferente sobre ela… sem ter de perguntar sobre o seu risco… Saiu naturalmente.
Um AMHP participante
Este último comentário sugere que usar uma abordagem focada nas soluções dentro da avaliação permitiu ao AMHP conectar-se de forma mais autêntica com a pessoa e recolher informações sem que a pessoa se sentisse interrogada, apoiando ainda mais o ponto de Hemmington et al. (2021) sobre a imposição de perguntas. Isso é significativo em relação ao que os participantes relatavam antes da formação, quando comentavam o foco médico persistente das avaliações, o que espelha o achado de Brammer (2020) de que as avaliações ao abrigo do Mental Health Act mantêm o foco na sintomatologia em detrimento da consideração das circunstâncias pessoais. Os participantes sentiram que uma abordagem focada nas soluções lhes permitia estabelecer o seu papel específico no processo de avaliação:
É defender a pessoa… obter a sua opinião e trazê-la para o processo de avaliação… toda essa informação rica que pode ajudar com as perspectivas sociais.
Um AMHP participante
Também em apoio ao trabalho de Watson e Perry (2022), os AMHP que participaram deste estudo refletiram sobre a mudança na sua prática após a conclusão da formação focada nas soluções, em particular na passagem de uma abordagem pelos déficits para uma abordagem baseada nas forças:
Foi uma postura diferente… Acho que eu não teria começado por aí. Teria olhado para o que deu errado… seguido mais pelo caminho dos déficits… E se vê nas suas interações com as pessoas que isso de fato desenvolve essa relação.
Um AMHP participante
Voltando ao uso do “tempo a sós” do ponto 14.54, os participantes consideraram a sua relevância em relação ao seu dever ao abrigo do artigo 13:
Aqui a equipe comunitária me diz uma coisa. A família me diz outra. A única maneira de eu descobrir é… ver a pessoa a sós.
Um AMHP participante
Outro participante também relacionou as mudanças na sua abordagem à sua responsabilidade ao abrigo do artigo 13(2) do MHA 1983 (2007 e 2025), quanto ao que significa entrevistar “de maneira adequada”:
Se não estamos fazendo as perguntas certas… estamos dando a eles a melhor chance? E foi uma maneira adequada?
Um AMHP participante
Pesquisas recentes sobre o significado e o alcance do artigo 13 do Mental Health Act desafiaram os AMHP em particular, e os serviços de saúde mental em geral, a revisitar como os AMHP procedem do encaminhamento à decisão na aplicação da lei. Simpson, Lewis e Mitchell (2024, p. 8) falam da necessidade de desacelerar o processo; de que os AMHP sejam mais capacitados a considerar o mérito de cada encaminhamento e a decidir se um exame médico é apropriado, para se afastar de uma abordagem de “despachar o caso”. As evidências deste estudo sugerem que os AMHP podem usar a prática focada nas soluções para devolver a pessoa avaliada ao centro do processo e recolher informações que permitam considerar alternativas à internação ao abrigo da lei.
O uso de técnicas focadas nas soluções permitiu a alguns AMHP sentirem-se reposicionados como defensores da pessoa na entrevista. Os participantes refletiram sobre os benefícios para a construção de rapport, de relação e de aliança.
Você está construindo um rapport… Acho que é eles sentirem que estão sendo escutados e ouvidos muito mais… Eu tinha perdido essa prática… e isso é uma coisa muito importante para mim.
Um AMHP participante
Hemmington (2024) identifica a necessidade de abordagens que capacitem os AMHP a se posicionar ao lado da pessoa avaliada, e este estudo fornece evidências de que usar o tempo a sós recomendado para fazer perguntas focadas nas soluções, bem como para explicar o papel do AMHP, ajudou os participantes a consegui-lo:
Com toda a certeza aliado [à pessoa]… se alguém está extremamente ansioso, não quer falar, e você lhe diz antes: é isto que está acontecendo, você está realmente tirando um tempo para se sentar com a pessoa.
Um AMHP participante
Leah (2020) identifica o “defensor” como um dos aspectos do papel de AMHP. Estes achados apoiam essa possibilidade, ao mesmo tempo que dialogam com a reflexão de Blakley (2023) sobre quem representa de fato a pessoa avaliada durante o processo de avaliação ao abrigo do Mental Health Act. Blakley (2023) argumenta que, embora o papel de parente mais próximo exista como salvaguarda, é o AMHP quem é central para garantir que a voz da pessoa seja ouvida; e é o AMHP quem tem o poder de garantir que a pessoa seja apoiada para articular o seu ponto de vista.
Além das competências de comunicação verbal de que os AMHP precisam para exercer o seu papel, os achados deste estudo destacam a importância de uma abordagem baseada nas forças na comunicação escrita dos relatórios. Um participante observa:
Isso me fez garantir que os meus relatórios pareçam muito mais humanos.
Um AMHP participante
O uso das abordagens focadas nas soluções claramente se estendeu para além da interação com a pessoa avaliada e reforçou a confiança dos participantes para assumir o papel de defensor (Leah, 2020), como comenta um participante:
Agora uso muito mais as palavras exatas… então digo… por que eles estão no hospital. E depois ponho citações: “Estou farto disto. Fiz isto. Fiz aquilo”… como eles estão se sentindo… e depois sempre digo “quanto ao futuro, é isto que eu sinto”. Então percebi que foi assim que mudei… será que é porque estou mais interessado no que eles estão dizendo, que eu realmente [o] escrevo.
Um AMHP participante
Simpson, Lewis e Mitchell (2024, p. 10) resumem que uma área para o desenvolvimento da prática dos AMHP é a comunicação de “decisões defensáveis” nos relatórios MHA. Este estudo amplia esse ponto ao sugerir que a representação da voz da pessoa no relatório é primordial para sustentar a decisão de internar, e que se alinha com os novos princípios legais (derivados do relatório Wessely: DHSC, 2018).
A experiência dos usuários com as avaliações ao abrigo do Mental Health Act é uma área pouco pesquisada (Akther et al., 2019; Blakley, 2023). As pessoas avaliadas ao abrigo da lei relataram um leque de experiências tanto inclusivas quanto excludentes (Blakley, 2023). O relatório Wessely (DHSC, 2018, p. 57) conclui que “os pacientes devem ser tratados de uma maneira que os respeite no contexto das suas próprias vidas, que reconheça as suas forças, necessidades, valores e experiências”. Poder fazer perguntas que façam emergir informações sobre o “futuro preferido” da pessoa foi visto pelos participantes como uma maneira de envolver melhor a pessoa avaliada, colocando-a no centro da avaliação e facilitando uma maior compreensão da sua experiência vivida:
Quando o leito ficou disponível… passei bastante tempo com ele porque… não estava totalmente convencido de que os critérios de internação ainda estavam preenchidos… tivemos uma conversa muito boa… começamos a falar de… um futuro preferido… de algo diferente… tentando realmente inspirar alguma esperança. Ele não estava feliz onde estava… não se sentia seguro no seu ambiente… isso me permitiu olhar para aquilo com mais detalhe.
Um AMHP participante
Os participantes também refletiram sobre como uma conversa focada nas soluções permitiu à pessoa avaliada considerar novas perspectivas:
Mantém muito presente que isto é sobre o indivíduo. Quando muitas vezes vemos pessoas que sentem que se perderam. Oferece a essa pessoa… uma maneira única de olhar para a frente… de olhar para dentro de si… Na verdade, eu poderia ter um futuro diferente… aquele rapaz me disse: “Meu Deus, só de conversar, percebi que a única pessoa que me segura sou eu”. Não fui eu que fiz isso. Foi ele.
Um AMHP participante
Neste estudo, a experiência dos participantes de ter usado técnicas focadas nas soluções na sua prática de AMHP apoia o achado de Blakley et al. (2023) de que concentrar-se na construção de relações e numa prática centrada na pessoa nas avaliações ao abrigo do Mental Health Act pode colocar a voz do usuário no centro. As opiniões dos participantes também apoiam o argumento de Watson e Perry (2022) de que os AMHP deveriam fazer pleno uso do “tempo a sós” incentivado pelo código.
O uso da abordagem pelos participantes sustentou melhorias nas competências de comunicação, na coleta de informações, na redação de relatórios e na prática baseada na relação em geral.
Há outras informações que os participantes partilharam em entrevista sobre o apoio necessário para manter a abordagem, e sobre como lidar com os obstáculos ao seu uso no local de trabalho, às quais os autores esperam voltar.
Por ora, acreditamos que esta primeira parcela de evidências defende a utilidade da PFS nas intervenções dos AMHP, bem como a inclusão da PFS nas oportunidades de formação dos AMHP – tanto quando se qualificam quanto quando procuram desenvolver e depois sustentar a sua prática centrada na pessoa e baseada nas forças.
Complexe Systémique: o que reter
O contexto é inglês, mas a pergunta é de todos: como manter uma conversa terapêutica no coração de um ato de coerção? Aqui a lei oferece uma brecha, o “tempo a sós” do código de prática, e a abordagem focada nas soluções dá aos profissionais algo a fazer com ela: uma pergunta das melhores esperanças, um futuro preferido, e relatórios que citam a pessoa palavra por palavra. Para ler na sequência de Suspender a descrença, em que Nick Perry mostra uma avaliação desse tipo em ação, e com a prática crítica de Guy Shennan. Os achados se apoiam em dezesseis participantes voluntários e na sua própria fala, sem medida junto às pessoas avaliadas: como dizem os próprios autores, é uma “primeira parcela de evidências”.
Notas dos autores
Nick Perry: e-mail nick.perry@eastsussex.gov.uk. A Dra. Kelly Alexander é responsável pela disciplina de Serviço Social, School of Humanities and Social Science, Care, Health and Emotional Wellbeing, e professora sênior (Senior Lecturer), School of Humanities and Social Science, University of Brighton. E-mail K.J.Alexander@brighton.ac.uk. A Dra. Jill Hemmington é professora sênior (Senior Lecturer), School of Social Work, Care and Community, University of Central Lancashire. E-mail JHemmington@uclan.ac.uk.
Submetido em 27 de março de 2026. Aceito em 6 de maio de 2026. Publicado em 13 de maio de 2026.
Referências
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Tradução não oficial para o português de Putting the Hope Back In: Making the Case for Solution Focused Practice in AMHP Interventions, de Nick Perry, Kelly Alexander e Jill Hemmington, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 10, n.º 1 (2026), p. 26-39, doi: 10.59874/001c.161768, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Putting the Hope Back In: Making the Case for Solution Focused Practice in AMHP Interventions”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Perry, N., Alexander, K., & Hemmington, J. (2026). Devolver a esperança à avaliação: em defesa da prática focada nas soluções nas intervenções dos profissionais de saúde mental aprovados (AMHP) (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/devolver-a-esperanca-a-avaliacao-em-defesa-da-pratica-focada-nas-solucoes-nas-intervencoes-dos-amhp (Obra original publicada em 2026 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 10, n° 1 (2026), p. 26-39; republicada em 2026 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/161768)
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