Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Entrevista
David Hains é enfermeiro de saúde mental na emergência de um hospital de Adelaide que atende cerca de 80.000 pacientes por ano. Na maioria das vezes ele tem uma única conversa com a pessoa que lhe é encaminhada e, durante anos, conduziu essa conversa como havia aprendido: levantar todos os motivos pelos quais o dia está ruim. Michael Durrant lhe pergunta o que mudou quando ele passou a procurar outra coisa — um homem em fim de vida que queria ensinar o filho a dirigir, uma mulher que a equipe não suportava mais e que ia à igreja todos os dias, e dez anos de profissão que não terminaram em esgotamento.
Tradução não oficial para o português. Esta entrevista é a tradução de Solution-Focused Work in the Busy Emergency Department of a Large City Hospital. An Interview with David Hains, de Michael Durrant, publicada no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 2 (2016), doi: 10.59874/001c.75091, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto foi traduzido e rediagramado. O original encadeia as perguntas sem nenhum intertítulo; acrescentamos sete, destacamos uma frase do entrevistado como epígrafe e inserimos links para outros artigos do atlas. Isso constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelo autor nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) vive um certo ressurgimento em Adelaide, na Austrália Meridional — em grande parte graças à influência de David Hains. Convidei David a rever seu percurso na abordagem focada nas soluções.
Se procurarmos problemas, só encontraremos problemas. Se procurarmos soluções, encontraremos soluções.
David Hains
Você pode me contar um pouco do que o levou à enfermagem em saúde mental, no início?
Na verdade foi em parte o professor Nicholas Procter (que está sediando o nosso congresso na Universidade da Austrália Meridional daqui a dois meses). Em 1993, eu cursava o primeiro ano da graduação em enfermagem e Nicholas era um dos meus tutores. Em julho, nós dois acabamos numa festa em que não conhecíamos mais ninguém, então sentamos juntos e conversamos. Nicholas me perguntou se eu tinha alguma ideia sobre a minha futura carreira de enfermeiro e sobre a direção que eu gostaria de tomar. Para dizer a verdade, eu não fazia ideia. Ele então perguntou se eu havia pensado em saúde mental e eu respondi: “Nunca pensei nisso, e nunca vou pensar”. No fim de 1996, eu estava terminando meu ano de recém-formado e surgiu um contrato de três meses para trabalhar numa unidade de saúde mental. Éramos vinte terminando ao mesmo tempo e todos recusamos a oferta. Depois me dei conta de que ficaria desempregado no fim do ano, então aceitei o posto só para poder dizer que tinha algo a colocar no currículo. Os três meses viraram nove meses, que viraram a minha carreira. Desde então tive vários empregos em que fui o único candidato, empregos que se revelaram absolutamente perfeitos para mim, mas que não interessavam a mais ninguém. Não sei o que isso diz a meu respeito!
Imagino que o foco nas soluções não estivesse na sua formação de enfermeiro: como você chegou a adotar essa abordagem?
Certamente não estava em nenhuma das minhas formações. Eu trabalhava havia vários anos em serviços de emergência e pensava em fazer algum tipo de projeto, sem saber qual. Decidi tentar definir a abordagem que estávamos usando. Tínhamos uma equipe bem pequena, composta por um psiquiatra, um residente de psiquiatria e um enfermeiro. Ela era liderada por um médico, mas não trabalhávamos realmente sob um modelo médico tradicional. Lembro, por exemplo, de uma ocasião em que o professor Kalucy (nosso psiquiatra) foi chamado a uma reunião urgente com o chefe da cirurgia, o gestor de riscos do hospital e mais algumas pessoas, para discutir um caso cirúrgico urgente de um paciente que também estava sob a lei de saúde mental. O professor me viu passar e me chamou para dentro da sala para pedir minha opinião. Fiz algumas sugestões e saí. Mais tarde, o chefe da cirurgia perguntou ao professor por que ele havia me chamado para dentro da sala e pedido minha opinião, e o professor respondeu: “é simplesmente o que fazemos”. Tínhamos uma equipe com hierarquia muito horizontal e, sem saber, éramos muito “centrados no cliente”, ainda que esse termo não fosse de uso corrente.
As abordagens de terapia breve já tinham alguma presença na saúde mental convencional da Austrália Meridional, ao contrário do resto da Austrália — penso no programa de terapia breve na saúde mental da criança e do adolescente, nos anos 1990 e no início dos anos 2000 (ver as referências). O que atraiu a sua atenção para a terapia breve?
Trabalhando nesse projeto, eu olhava para a terapia breve e para como a nossa abordagem poderia se alinhar com outras terapias breves. Foi então que tropecei na TBFS — ela não se parecia em nada com o que fazíamos, mas fez sentido imediatamente para mim. Durante anos eu havia adotado uma postura de não saber, sobretudo porque eu de fato não sabia e, portanto, não podia dizer a ninguém o que fazer. Sempre que alguém me perguntava: “O que eu deveria fazer?”, eu pensava: “Puxa, não faço ideia do que você deveria fazer”, então eu simplesmente dizia: “É difícil, não sei, mas o que você acha que poderia fazer?”. A TBFS então me deu mais razões e mais estrutura para essa conversa. Por que eu deveria dizer a alguém o que fazer, se posso levar essa pessoa a me dizer o que ela deveria fazer?
Descobri mais tarde que Tim Wand (enfermeiro de prática avançada em saúde mental, Royal Prince Alfred Hospital, em Sydney) também usava a TBFS na emergência e no ambulatório dele. Eu conhecia Tim havia vários anos e ele é um dos enfermeiros de saúde mental mais respeitados do país. Foi Tim quem me indicou você (Michael), e depois fui a Sydney para participar de uma oficina no Brief Therapy Institute of Sydney e também para rever Tim na emergência. Nos últimos anos, tem crescido o número de enfermeiros usando a TBFS na emergência e em postos de interconsulta psiquiátrica.
Você consegue pensar num exemplo, no início do seu uso do foco nas soluções, que realmente o convenceu da utilidade dessa abordagem no contexto da saúde mental?
Sim, com certeza. O primeiro paciente com quem experimentei a abordagem focada nas soluções. Era um homem de uns cinquenta e tantos anos, que chegou à emergência com falta de ar. Era divorciado e seus dois filhos adolescentes moravam com a mãe a duas horas de carro. Ele havia sido diagnosticado com câncer de pulmão terminal, não podia mais dirigir e estava ligado a um cilindro de oxigênio vinte e quatro horas por dia. O homem foi atendido pelo médico da emergência e encaminhado para uma avaliação em saúde mental por causa de uma possível depressão. Esse foi o primeiro “milagre”: que o homem tenha chegado à emergência por causa da dificuldade para respirar, mas que o médico da emergência tenha percebido que ele podia estar deprimido e que uma ajuda em saúde mental podia ser útil!
O que o levou a decidir experimentar suas novas habilidades focadas nas soluções com esse homem?
A razão pela qual escolhi esse homem primeiro é que eu procurava alguém com quem experimentar, mas queria alguém com quem eu não precisasse fazer a minha avaliação tradicional habitual. Descobri que ele havia feito uma avaliação completa em outro hospital poucas semanas antes, que fora diagnosticado com distimia (não sei bem por que o chamariam assim, mas isso é outra história) e que já tinha consulta marcada com o psiquiatra do serviço de cuidados paliativos. Isso era motivo suficiente para me dar a “permissão” de experimentar.
Quando o vi, simplesmente tentei ter uma conversa usando o pouco que eu sabia da abordagem focada nas soluções. Ele se apresentou de início apagado: humor baixo, energia baixa, motivação baixa. Cuidava um pouco mal de si mesmo e não via muita esperança para o futuro. O foco da minha conversa foi tentar estabelecer tanto como ele havia enfrentado a situação até ali quanto quais eram as suas melhores esperanças para o resto da vida, dadas as circunstâncias. Durante a conversa ele me disse que era apaixonado por carros e que tinha um carro antigo muito bonito parado na garagem, que não podia dirigir. Sem que eu fizesse qualquer sugestão, mas usando as técnicas da TBFS, ele conseguiu formular seu desejo e suas esperanças. Seu único desejo era poder ensinar o filho de dezesseis anos a dirigir antes de morrer. Exploramos com o que isso poderia “se parecer”: ele entraria em contato com a ex-mulher, que deixaria as crianças numa sexta-feira à noite, ele daria aulas de direção ao filho e fariam coisas como ir de carro até Brighton tomar sorvete, e ele combinaria com a mulher que ela buscasse os meninos no domingo à tarde. Quase sem nenhum estímulo, ele conseguiu planejar e descrever tudo isso em grande detalhe.
E o que aconteceu depois?
Nunca mais vi esse homem, mas sempre me lembrei da história dele. Alguns anos depois, eu contava essa história durante uma oficina de TBFS que eu conduzia. Uma das participantes me disse que conhecia esse homem, pois trabalhava na época como enfermeira de saúde mental no serviço de cuidados paliativos. Ela me perguntou: “você quer saber o que aconteceu?”, e me disse: “Ele ensinou o filho a dirigir”.
Você trabalha hoje na emergência de um grande hospital urbano. Em que consiste o seu trabalho?
Meu trabalho na emergência hoje é mais do que apenas fazer avaliações, embora isso ainda seja boa parte do que preciso fazer. Costumo dizer que “as pessoas não vêm à emergência porque estão tendo um bom dia”. Enquanto a abordagem tradicional seria descobrir todos os motivos pelos quais o dia delas está ruim, eu sei que fazer uma avaliação não vai fazê-las se sentirem melhor. Meu trabalho é mais tentar virar as pessoas do avesso. Talvez eu tenha apenas uma chance, uma única interação, então preciso que ela seja boa. Algumas das pessoas que conheci no Canadá, como Lance Taylor, assim como a equipe de Red Deer, chamam isso de avaliação equilibrada (Wright, Badesha e Schepp, 2014). Isso faz todo o sentido para mim neste ambiente.
Em que a abordagem focada nas soluções faz diferença nesse contexto?
Incorporar o trabalho focado nas soluções ao meu dia fez uma diferença enorme, tanto no trabalho que faço quanto na minha carreira de enfermeiro. Estou nesse posto há dez anos e é raro alguém não ter se esgotado nesse tempo. Quando você passa doze horas por dia ouvindo os problemas das pessoas e os carregando, isso desgasta de verdade. Além disso, há as pressões políticas, ambientais e de tempo num serviço que atende cerca de 80.000 pacientes por ano, ligado a um hospital sempre lotado. E depois volto para uma casa movimentada, onde minha mulher e meus filhos só querem me contar todos os problemas deles! O tempo gasto no trabalho focado nas soluções não é apenas tempo gasto sem ouvir problemas. É uma chance de fazer algo terapêutico, de ajudar as pessoas, de lembrar por que entrei na enfermagem. Meus pacientes normalmente vão embora se sentindo bem — e eu também!
Fale-me da paciente da emergência que melhor ilustra a diferença que o foco nas soluções faz nesse contexto.
Mary era uma mulher de uns cinquenta e tantos anos, das colinas de Adelaide. Antes era uma mulher trabalhadora incansável, numa família tradicional do leste europeu. Tinha orgulho da casa, passava muito tempo cozinhando, cuidando da casa, criando os filhos etc., e ajudando o marido na fazenda. Mary sofreu um acidente e quebrou gravemente a perna. Precisou de cirurgia e de fixação interna. A perna infeccionou e ela ficou seis meses no hospital tomando os antibióticos mais fortes que podíamos oferecer. Na alta, continuou com antibióticos e analgesia forte. Mary voltava com frequência à emergência dizendo que a dor era incontrolável e que achava que a infecção havia voltado. Era atendida pelo médico da emergência, que não conseguia fazer nada por ela, e o resto do dia era passado tentando dar alta. Ela costumava se recusar a ir para casa pois, do ponto de vista dela, nada havia sido feito e estava convencida de que a infecção havia voltado. A emergência ficou cada vez mais frustrada com o reaparecimento dela. Ao longo das idas seguintes, a “infecção” e a dor pareceram subir pelas pernas, para as costas, o abdome, o tórax, o pescoço, a cabeça…
Como você se envolveu?
A equipe de saúde mental não foi acionada até que ela dissesse a palavra mágica: suicídio. “Eu podia muito bem me matar, de tão forte que é a dor”. Para a equipe da emergência, essa era a chance de lavar as mãos, já que agora era um problema psiquiátrico. Mary ficou contente de falar comigo, mas não via que eu tivesse algo a oferecer, pois acreditava que precisava ser readmitida na ortopedia e que precisava de analgesia mais forte. No nosso primeiro encontro, devo ter passado a primeira hora ouvindo os problemas dela e a segunda tentando me livrar da sala, e depois a encaminhei de volta à emergência dizendo que não havia nada que eu pudesse fazer. Mary devia ter uma cópia da minha escala, pois só aparecia nos dias em que eu trabalhava, e normalmente era eu quem tinha de atendê-la. Mary dava trabalho, e mais tarde descobri que ela já havia esgotado dois psiquiatras diferentes. Tentei intervir algumas vezes, sem nenhum sucesso. Ela estava absolutamente focada na dor. Descrevo Mary como um buraco negro: quando você estava na presença dela, toda a sua energia era sugada e, quando saía da sala, você se sentia completamente esvaziado — sem que nada tivesse mudado em Mary. Decidi que não tinha nada a perder e que tentaria pôr em prática minhas novas habilidades de TBFS. Falei antes com a psiquiatra dela, para não pisar no calo de ninguém, e ela me respondeu: “FAÇA QUALQUER COISA, POR FAVOR!”.
E esse “qualquer coisa”, o que foi?
Na vez seguinte em que Mary veio ao hospital, eu tentava entender as exceções e como perguntar para encontrá-las. Eu sabia que o problema não podia estar acontecendo 100% do tempo, mas era difícil porque tudo o que eu sabia sobre Mary até então era que ela não saía de casa (a não ser para vir à emergência), que não conseguia cuidar de si mesma, nem cozinhar, nem limpar, nem cuidar da casa etc. Até onde eu sabia, a única coisa que ela conseguia fazer era vir à emergência. Isso até que, durante a minha conversa de TBFS, Mary revelou que ia à igreja TODOS OS DIAS. Mary me disse que adora ir à igreja, que tem muitas amigas lá, que tem uma fé forte, que às vezes almoçam juntas depois etc. Conseguimos identificar que a dor era muito menor na igreja (ou nem existia) e que ali ela conseguia lidar com a vida e fazer atividades. Ouvi também que, depois da missa, muitas mulheres ficavam para o almoço e que, no caminho de volta, Mary às vezes fazia outra coisa, como compras. Conseguimos identificar alguns recursos (por exemplo, que ela sabia aguentar firme) e depois outras coisas que ela podia fazer. Foi uma conversa muito positiva.
Então aconteceu a coisa mais incrível. Mary se levantou e, pela primeira vez, pediu ela mesma a alta. Saímos juntos, ela apertou minha mão e nos despedimos. Então aconteceu a segunda coisa mais incrível: voltei ao meu consultório e percebi que, pela primeira vez, eu havia conseguido conversar com Mary sem sair com a sensação de que toda a vida havia sido sugada de mim. Na verdade me senti bem. Mary saiu com um sentimento de esperança no futuro, e eu saí com uma carreira de enfermeiro rejuvenescida — isso durou, e se fortalece toda vez que faço TBFS com um cliente.
Você voltou a ver Mary?
Eu a vi algumas vezes desde então, mas só por encontrá-la por acaso quando ela vinha por questões médicas ou físicas. A frequência das idas dela à emergência diminuiu imediatamente. Os médicos da emergência não viram mais necessidade de encaminhá-la para uma avaliação em saúde mental. Registro que um psiquiatra a readmitiu na internação uma ou duas vezes, mas presumo que tenha sido porque a abordagem centrada no problema e na medicação identificou algo que eu não vi necessidade de identificar.
Você recebeu um prêmio do primeiro-ministro da Austrália Meridional pelo seu trabalho como enfermeiro de saúde mental. O que lhe valeu essa distinção?
Todo ano o Departamento de Saúde da Austrália Meridional oferece cinco bolsas para enfermeiros viajarem ao exterior a fim de estudar algo que possa beneficiar os enfermeiros e o serviço de saúde do estado. Comecei a planejar isso em 2013, três anos antes de efetivamente chegar ao Canadá. Minha ideia era usar a terapia focada nas soluções para desenvolver um modelo de cuidado para enfermeiros no campo da saúde mental. Não posso realmente reivindicar essa ideia como minha, já que eu havia lido os trabalhos de Margaret McAllister (2007) e de Tim Wand (2010, 2013), mas não havia muita coisa acontecendo na Austrália Meridional. O processo de candidatura envolvia pesquisar o que eu queria fazer e para onde queria ir, depois entrar em contato com as pessoas relevantes pelo mundo, planejar a viagem em detalhe e então apresentar uma candidatura bastante detalhada, incluindo demonstrar que aquilo beneficiaria os serviços de saúde locais.
E para onde você foi?
Eu tentava encontrar algum lugar que estivesse usando a TBFS em serviços de saúde mental agudos, em várias equipes. Depois de contatar diversas pessoas na Europa e na América do Norte, além da lista de discussão SF, recebi um e-mail de Phil Wright, em Red Deer, Alberta: “acho que talvez tenhamos o que você está procurando”. Meu primeiro pensamento foi: “Ótimo, mas onde diabos fica Red Deer?”. Fui ao Google e achei a página da cidade, que me informou que a previsão era de −10 °C naquele dia. Disse a Phil que normalmente eu não saio da cama se não for fazer pelo menos +10 ° lá em casa, ao que ele respondeu: “Se você vier para cá, vai passar muito tempo na cama”. Resisti por um tempo, esperando o contato de algum serviço de uma ilha tropical do Pacífico Sul, mas isso não aconteceu. Phil me colocou em contato com Lance Taylor, Dene Shipowick, Darcy Jessen e outros em Alberta, e acabei conseguindo montar um plano e uma candidatura dignos de uma bolsa.
E você acabou na Nova Escócia? Fica do outro lado do país!
Programei minha viagem para coincidir com o congresso da Solution Focused Brief Therapy Association em Halifax, na Nova Escócia, e então pedi ao meu chefe se eu podia ficar um pouco mais e participar do congresso (congressos não eram cobertos pela bolsa). Meu chefe concordou em pagar parte das despesas, e a SFBTA me deu uma entrada gratuita. Enquanto estive lá, também pude participar de uma oficina de dois dias com Lance Taylor e Heather Fiske, e conheci gente muito interessante, como Elliott Connie e Adam Froerer, Frank Thomas, Jeff Chang, Joel Simon, e também Harvey Ratner, do Reino Unido, e Ella de Jong, da Holanda, entre tantos outros. Eu nunca teria imaginado encontrar tantos apaixonados pelo foco nas soluções em um só lugar.
Como meu trabalho na emergência muitas vezes envolve atender pessoas com risco de suicídio, foi um privilégio conhecer Heather, que é provavelmente A especialista internacional no uso da TBFS com pessoas em crise suicida aguda (Fiske, 2008). Quando estive na casa de Heather para a festa pós-congresso, pude contar a Joel a minha história com o homem em fim de vida (acima). Parte da razão pela qual consegui conversar com aquele homem é que o primeiro livro focado nas soluções que eu havia lido (o único, na época) era o de Joel sobre o uso da TBFS no fim da vida e no aconselhamento no luto (Simon, 2009). Acho que Joel estava à beira das lágrimas quando lhe contei a história. Ele disse que escreveu o livro porque achava que era uma boa ideia e que funcionava, mas que é só depois de ouvir histórias como a minha que ele sabe que tudo valeu a pena.
Qual foi um ponto alto da viagem?
Curiosamente, eu usava a TBFS havia alguns anos mas, como estava sozinho em Adelaide, nunca havia visto ninguém conduzir uma sessão ao vivo. No Canadá pude assistir a muitas sessões e, para mim, isso era quase tão empolgante quanto ler sobre os primeiros tempos de Milwaukee, quando as pessoas podiam observar e discutir as sessões e aprender enquanto elas aconteciam. Simplesmente não temos essa cultura aqui.
Vi muitas sessões em algumas semanas e gostei muito. No meu último dia no centro comunitário de saúde mental de Red Deer era uma terça-feira, dia em que funciona um atendimento sem hora marcada focado nas soluções. Havia cerca de quinze profissionais que se reuniam numa sala e esperavam os clientes entrarem. Depois nos dividíamos: um conduzia a entrevista e vários observavam. O primeiro cliente chegou cerca de uma hora antes de o atendimento abrir — fazia uns −2 ° lá fora e eu simplesmente não conseguia acreditar.
Depois de observar todas essas entrevistas, fiquei espantado ao ver que esses serviços pareciam atrair todas as pessoas simpáticas. Por que as pessoas simpáticas nunca vêm à minha emergência? Só me toca ver os encrenqueiros, os “TP”, os bêbados e os drogados, os simuladores etc., mas nunca as pessoas simpáticas. O último cliente em Red Deer era um jovem trazido pela namorada. Os dois bebiam todos os dias e havia muito conflito na relação. No entanto, durante a entrevista ouvi que esse rapaz estava se formando como cozinheiro, que acabara de vencer uma grande competição e que estava treinando para ir às Ilhas Maurício para uma competição mundial de culinária. Ouvi falar dos recursos, das forças e das ambições dele, e o clínico era muito hábil em fazer emergir a visão do futuro preferido daquele rapaz. Eu estava muito otimista quanto ao futuro dele e, de novo, me perguntei por que nunca via homens assim na minha emergência.
Então tive uma grande revelação. Na semana anterior a essa entrevista, o rapaz havia ido à emergência de Red Deer. Estava bêbado, havia brigado feio com a namorada e, no processo, tinha quebrado uma garrafa de cerveja e aberto a mão. Imagino que estivesse agitado, talvez agressivo. Teríamos identificado a dependência de álcool, o comportamento impulsivo, a violência doméstica e talvez até um transtorno de personalidade. Teríamos sugerido que procurasse o serviço de álcool e drogas e um programa de manejo da raiva, e teríamos 100% de certeza de que ele não iria. Foi então que entendi que o resultado é determinado pelas perguntas que fazemos. Se procurarmos problemas, só encontraremos problemas. Se procurarmos soluções, encontraremos soluções.
E o que mais?
Outro ponto alto foi ver o trabalho de grupo focado nas soluções, tanto em Red Deer quanto em Ponoka. Eu nunca havia trabalhado com grupos e não estava procurando isso durante a viagem, mas o que eles faziam ali era inacreditavelmente simples e ainda assim muito eficaz. Perguntei aos participantes por que saíam de casa numa segunda-feira à noite com −1 ° lá fora. Responderam unanimemente que tiravam tanto proveito daquilo que não podiam faltar. Do mesmo modo, na unidade de reabilitação com internação em Ponoka, vi os pacientes chegarem ao grupo quinze minutos mais cedo e ficarem ali sentados, com os cadernos no colo, prontos para começar. Eu nunca teria imaginado que pacientes de uma unidade de reabilitação chegassem cedo para qualquer coisa, mas também ali eles diziam que tiravam tanto proveito do grupo que não queriam perdê-lo. Desde que voltei a Adelaide, grupos focados nas soluções foram implantados no hospital de Noarlunga, com grande sucesso.
Você é A peça-chave na organização do congresso australiano de 2017 sobre a abordagem focada nas soluções. Quais são as suas “melhores esperanças” em relação a esse congresso?
Voltar a Adelaide e receber de você (Michael) a proposta de sediar o congresso australasiano de TBFS foi simplesmente um sonho para mim. Depois de participar do segundo congresso da AASFBT em Sydney, eu me perguntava se algum dia teríamos interesse suficiente em TBFS em Adelaide para sediar um congresso — e alguns anos depois aqui estamos. Quando isto for publicado, o congresso provavelmente já terá passado, então uma das minhas esperanças é que ainda possamos falar dele de forma positiva depois de julho. Espero muitas coisas desse congresso. Primeiro, o crescimento do trabalho focado nas soluções em Adelaide ocorreu sobretudo nas áreas de saúde mental aguda, então eu adoraria que os clínicos daqui pudessem mostrar isso ao resto do mundo, o que por sua vez inspiraria as pessoas daqui a continuar o trabalho. Segundo, gostaria que o congresso desse um impulso ao crescimento do trabalho focado nas soluções fora do mundo da saúde mental — nas escolas, por exemplo: sei que há algo acontecendo com alguns orientadores escolares, mas adoraria ver mais. Num plano mais pessoal, gostaria de aprender a usar abordagens focadas nas soluções dentro de organizações, então estou muito ansioso para ouvir sobre o trabalho de Sophie Giesler e de outros. Por fim, gostaria de entender pelo menos um pouco os fundamentos filosóficos da TBFS sobre os quais Dan Hutto escreve: o trabalho dele parece impressionante, mas eu não faço a menor ideia do que ele está falando!
E depois você criou um grupo de interesse sul-australiano sobre a TBFS.
Alguns anos atrás me perguntaram se eu aceitaria conduzir, de vez em quando, uma oficina de um dia sobre TBFS para os profissionais do serviço público de saúde mental aqui em Adelaide. As oficinas pareceram correr bem e, depois de alguns anos, algumas pessoas vieram me perguntar como poderíamos aprender mais e divulgar o quanto isso era bom para o serviço de saúde mental. Decidimos nos reunir e juntar algumas ideias. Éramos cinco no primeiro encontro, e decidimos criar um encontro regular de formação, apoio, supervisão entre pares e promoção da TBFS. Decidimos nos estabelecer por meio do Mental Health Professionals Network pela simples razão de que eles forneciam dinheiro (para o coffee break e as despesas) e um pouco de apoio administrativo (para divulgação, listas de presença e certificados). Fizemos nosso primeiro encontro em abril de 2016 e nos reunimos a cada três meses desde então. Hoje temos mais de cem nomes, com gente da saúde pública e privada, além de orientadores escolares e de profissionais de ONGs. Há alguns meses, a comunidade de prática focada nas soluções da Austrália Meridional se filiou formalmente à AASFBT.
Para terminar, o que é esse “Left Turn”?
Com o interesse crescente pela TBFS em Adelaide, eu vinha recebendo pedidos de formação de diferentes organizações. Como algumas dessas pessoas não conseguiam acesso à formação normal que eu oferecia pelo serviço público de saúde mental, decidi montar um pequeno negócio para poder oferecer essa formação em caráter privado. Foi assim que nasceu a Left Turn Solutions. (“Quando as coisas não vão bem, vire à esquerda”.) Não é trabalho suficiente para eu poder largar o meu emprego, mas essa possibilidade fez com que mais gente em Adelaide pudesse ter acesso a formação focada nas soluções. Conduzi oficinas para a Mental Illness Fellowship of South Australia (uma organização não governamental) e também para a Southern Adelaide Complex Care Team (uma equipe fora da saúde mental que atua em problemas complexos e multidimensionais). Tenho outras oficinas previstas com equipes de saúde mental e de fora da saúde mental.
Sobre os autores
David Hains é enfermeiro de saúde mental, com quinze anos de experiência em serviços de emergência em Adelaide, na Austrália Meridional. É coordenador da comunidade de prática de TBFS de Adelaide, membro do conselho da Australasian Association for Solution-Focused Brief Therapy e organizador do Congresso Australiano e Neozelandês de 2017 sobre a abordagem focada nas soluções. Em 2016, criou a consultoria Left Turn, tanto para ampliar seu ensino e sua consultoria em TBFS quanto como oportunidade de passar (lenta e cautelosamente) à prática privada. E-mail: david@leftturnsolutions.com.au
Michael Durrant é diretor do Brief Therapy Institute of Sydney, presidente da Australasian Association for Solution-Focused Brief Therapy e editor desta revista. E-mail: michael@briefsolutions.com.au
Referências
Allison, S., Roeger, L., Dadds, V. & Martin, G. (2000). Brief therapy for children’s mental health problems: Outcomes in a rural setting. Australian Journal of Rural Health, 8(3), 161–166.
Allison, S., Stacey, K., Dadds, V., Roeger, L., Wood, A. & Martin, G. (2003). What the family brings: gathering evidence for strengths-based work. Journal of Family Therapy, 25, 263–284.
Dadds, V., Roeger, L., Stacey, K., Martin, G., Wood, A & Allison, S. (2001). Maintaining the gains: What worked in the year after brief family therapy, Australian & New Zealand Journal of Family Therapy, 22(4), 181–188.
Fiske, H. (2008). Hope in action: Solution-focused conversations about suicide. New York: Routledge.
Simon, J. (2009). Solution Focused practice in end-of-life and grief counseling. New York: Springer Publishing.
McAllister, M. (Ed.) (2007) Solution Focused nursing: Rethinking practice. Palgrave MacMillan.
Wand, T. (2010) Mental health nursing from a Solution Focused perspective. International Journal of Mental Health Nursing, 19, 210–219.
Wand, T. (2013) Positioning mental health nursing practice within a positive health paradigm. International Journal of Mental Health Nursing, 22, 116–124.
Wright, P., Badesha, J., & Schepp, G. K. (2014) Balancing a solution focused approach with traditional psychiatric assessment in a Canadian emergency room. Journal of Systemic Therapies, 33, 24–34.
Tradução não oficial para o português de Solution-Focused Work in the Busy Emergency Department of a Large City Hospital. An Interview with David Hains, de Michael Durrant, publicada no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 2 (2016), doi: 10.59874/001c.75091, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Solution-Focused Work in the Busy Emergency Department of a Large City Hospital. An Interview with David Hains”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Durrant, M. (2016). O trabalho focado nas soluções na emergência de um grande hospital (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-trabalho-focado-nas-solucoes-na-emergencia-de-um-grande-hospital (Obra original publicada em 2016 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, 2(2); republicada em 2023 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75091)
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