Red Sistémica · Epistemologia
Texto de apresentação da seção “Ecologia das ideias”, aberta no primeiro número de Perspectivas Sistémicas. Marcelo Pakman parte da definição batesoniana de informação — “uma diferença que faz diferença” — para propor um programa: as ideias são feitas para ser pensadas e para produzir outras; uma disciplina que põe suas ideias de base “no congelador” se esclerosa. Daí a aposta da seção: fazer circular ideias vindas de outros campos e incluir na trama da exposição o observador, sua história e seus sentimentos.
A que remete o nome desta seção? Não é evidente que as ideias são feitas para ser pensadas? Eis uma boa ocasião para começar a pensar: o que são as ideias? o que é pensar? quais são as ideias que nos propomos a pensar? E ainda: quais são os limites entre as ideias? o que delimita as disciplinas, os campos de conhecimento, uns em relação aos outros?
G. Bateson, que tinha uma capacidade particular de circunscrever certas noções de um modo ao mesmo tempo justo e belo, definiu a informação como “uma diferença que faz diferença”1.
a) O que isso significa? Quando dizemos “janela”, não é a janela em si mesma que se distingue: ela se distingue por um limite em que deixa de ser janela e se transforma em “parede”. É a relação janela-parede, ou a diferença janela-parede, que constitui a informação. A informação é, portanto, uma diferença, porque é sempre uma distinção, uma borda, um contorno que um observador pode traçar.
b) Essa diferença, que pode ser traçada por um observador, faz uma diferença em quem recebe a informação: algo na prática do receptor muda pelo próprio fato de receber essa informação. A unidade mínima de informação é uma “ideia”2. E toda ideia engendraria, em quem a recebe, outra ideia. Desse ponto de vista, as ortodoxias ficam questionadas. Elas comportam a visão das ideias como elementos que deveriam ser transmitidos de forma pura e “não contaminada”. Isso implica, ao mesmo tempo, entender a comunicação como “algo” que passa de um organismo a outro, e a informação como a “substância” que é transmitida — o que remete à ação mecânica de uma fila de pedreiros passando tijolos uns aos outros.
Não é essa a visão da informação que emerge da sistêmica cibernética. As ideias são feitas para ser pensadas, para produzir outras ideias em um processo evolutivo contínuo. Talvez essa maneira de conceber as ideias facilite a evolução de nossas práticas e nos proteja das ortodoxias, que se poderiam entender como uma patologia da evolução de uma disciplina.
As ortodoxias surgem, no entanto, e a sistêmica cibernética — como qualquer disciplina — não está a salvo de cair nelas. Convém, então, perguntar como nascem as disciplinas… e como nascem as ortodoxias.
As disciplinas aparecem como um conjunto de práticas voltadas a pensar certas ideias. Elas não surgem por voluntarismo, como se se tratasse de fundar um belo dia uma cidade delimitando um terreno e pondo em prática planos de urbanização. Com o tempo, essas práticas adquirem certa regularidade e certa coerência: engendram um espaço identificável por um nome, desenham seu perfil e o distinguem de outros espaços. Chega um momento em que se passa a pensar as próprias práticas e seus limites; em que se busca aprofundar a identidade e delimitar a disciplina. É também o momento propício às ortodoxias: certas ideias de base são postas “no congelador” e se tornam a bandeira da nova disciplina.
Tentaremos contribuir para a construção do caso de nossa disciplina — enquanto sistema ecológico de ideias e de práticas — dando-lhe uma identidade e conservando-lhe, ao mesmo tempo, elasticidade suficiente para impedir que as ortodoxias esclerosem sua evolução. Para isso, trabalharemos ideias vindas de múltiplas disciplinas, capazes de fazer uma diferença no campo sistêmico e, em particular, no campo da psicoterapia. Isso implica guardar-se tanto da recusa excessiva de uma fonte de diferenças potenciais em que selecionar novos elementos, quanto da aplicação automática de conceitos nascidos em outros campos de prática.
Contradiremos o princípio clássico de objetividade científica, segundo o qual o observador não deve participar de suas observações. Incluiremos na trama da exposição o observador, sua história, seus sentimentos: sua pretensa “subjetividade”.
E isso com o objetivo de superar um duplo hiato: o que separa as disciplinas como compartimentos estanques — cuidando sempre da diferença que introduz a aplicação de conceitos pertencentes a outras práticas — e o que separa o observador de sua observação3.
Como psicoterapeutas, vivemos cotidianamente o desafio de tornar comensuráveis o mundo das noções científicas e o mundo da emoção; nesse sentido, essa maneira de pensar as ideias tem relação com essa experiência cotidiana.
De acordo com o que acaba de ser exposto, apresentaremos com frequência conversas, diálogos, em que as noções científicas ganham uma carne bem firme, num entrelaçamento de história pessoal e de pensamento.
Bibliografia
1 – Bateson.
2 – Bateson.
3 – Huxley.
Este artigo é a tradução para o português de “Ecología de las ideas. Pensando ideas.”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 1, 1988). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Pakman, M. (2022). Ecologia das ideias. Pensar as ideias (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/ecologia-das-ideias-pensar-as-ideias (Obra original publicada em 1988 em Perspectivas Sistémicas, n° 1, 1988; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/20/ecologia-de-las-ideas-pensando-ideas/)
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