Family Process · Terapia familiar

Fazer emergir generatividades no seio do desassossego relacional: uma entrevista com Karl Tomm

Durante cinquenta anos, Karl Tomm dirigiu o Calgary Family Therapy Centre. Com sua equipe, aprendeu a não fugir mais do momento em que, na sessão, “algo não está certo”: um mal-estar sentido no corpo, um sentimento de injustiça, que chamaram de desassossego relacional. Entrevistado por Carla Guanaes-Lorenzi, ele o descreve como um ponto de bifurcação, que pode levar a mais danos ou a algo novo, e conta a história de Colleen, uma mãe que acabara de empurrar a filha pela janela e lhe pedia que não a denunciasse. Quarenta anos depois, ela é advogada de famílias em situação de abuso.

Autores Carla Guanaes-Lorenzi (Universidade de São Paulo), Mónica Sesma-Vazquez (Universidade de Calgary), Joaquín Gaete Silva e Karl Tomm (Universidade de Calgary e Calgary Family Therapy Centre), Inés Sametband (Mount Royal University)Primeira publicação Family Process, 18 de março de 2025Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Fazer emergir generatividades no seio do desassossego relacional: uma entrevista com Karl Tomm, de Carla Guanaes-Lorenzi, Mónica Sesma-Vazquez, Joaquín Gaete Silva, Inés Sametband e Karl Tomm, publicado na Family Process (Wiley) (2025), doi: 10.1111/famp.70030, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Precisamos notar nosso notar, ou distinguir nossas distinções, para ver que efeitos elas têm sobre nós em nossas conversas.

Karl Tomm, em entrevista a Carla Guanaes-Lorenzi

Resumo

De 16 a 20 de agosto de 2023, realizou-se em Calgary, no Canadá, o congresso do 50º aniversário do Calgary Family Therapy Centre (CFTC): Fazer emergir generatividades no seio do desassossego relacional. O tema do congresso foi o desassossego relacional, uma noção introduzida no CFTC para tomar consciência de que algo é vivido como errado, incômodo, inquieto, ou como um sentimento de injustiça, quando alguma coisa é sentida como não estando bem durante o processo terapêutico. Na preparação do congresso, entrevistamos o Dr. Karl Tomm, fundador e consultor sênior do Calgary Family Therapy Centre e professor de psiquiatria na Cumming School of Medicine da Universidade de Calgary. Neste artigo, apresentamos a entrevista de Karl, na qual ele explica a noção de desassossego como uma resposta relacional a diferenças indesejadas, relativas a esperanças ou desejos, que emergem em nossas interações mútuas. Karl compartilha um exemplo clínico de uma possível passagem do desassossego à generatividade em um processo de terapia familiar. Oferecemos algumas reflexões teóricas sobre a maneira como Karl atravessa as interações de desassossego nas conversas de terapia familiar e discutimos ações que terapeutas podem empreender na terapia familiar para fazer emergir generatividades de dentro do desassossego relacional.

Palavras-chave: fazer-emergir (bringforthism), terapia familiar, desassossego relacional, processo terapêutico.

Nota de tradução. O inglês disquiet é traduzido por “desassossego”, a palavra de Fernando Pessoa no Livro do desassossego (The Book of Disquiet), ao qual a entrevista faz alusão. A expressão bring forth, herdada de Humberto Maturana, é traduzida por “fazer emergir”. As siglas dos padrões interpessoais (PIP, HIP, WIP, TIP, DIP, SCIP, SNIP) são mantidas em inglês.

1. Introdução

O Calgary Family Therapy Centre (CFTC) é uma organização sem fins lucrativos fundada em 1973 pelo Dr. Karl Tomm, MD, FRCPC, e outros colegas, no âmbito dos Alberta Health Services (AHS). O centro oferecia terapia familiar gratuita às famílias de Calgary e tornou-se também um espaço de formação em terapia familiar sistêmica, psicologia e serviço social, além da residência médica. Karl, professor de psiquiatria na Cumming School of Medicine da Universidade de Calgary, dirigiu o CFTC durante cinquenta anos, até agosto de 2023. Ao longo desse meio século, fez numerosas contribuições ao campo da terapia familiar. Entre elas está a série de artigos Interventive Interviewing (Tomm 1987, 1987b, 1988), um dos quais foi recentemente celebrado entre os 24 artigos mais influentes da história da área (Pote & Tatar, 2019). Além disso, o exercício de escuta reflexiva e a entrevista do outro internalizado como intervenções terapêuticas (Tomm e Acton 2011; Tomm 2025), bem como o modelo de terapia familiar Interpersonal Patterns Scope (IPscope) (Tomm et al. 2014), são internacionalmente conhecidos.

No CFTC, a equipe de supervisão, a equipe clínica e a equipe de consultoria têm amplo conhecimento do modelo Interpersonal Patterns Scope (IPscope). Muitas pessoas dessas equipes também integram à sua prática de terapia familiar e de supervisão diversas ideias contemporâneas da terapia familiar, entre elas as abordagens focadas nas soluções, colaborativas e narrativas, as equipes reflexivas e a just therapy. Além disso, a maior parte da equipe de supervisão é associada ao Taos Institute e se identifica com o construcionismo social e com as práticas colaborativo-dialógicas.

Terapeutas usam o modelo IPscope para descrever e analisar a maneira como os membros de uma família podem se engajar em certas relações e mantê-las, relações descritas como padrões interpessoais (IP). Segundo Tomm et al. (2014),

Os padrões interpessoais são formalmente definidos como interações repetitivas ou recorrentes entre duas ou mais pessoas, distinguidas por um observador (muitas vezes um terapeuta sistêmico), que destacam o acoplamento entre duas classes de comportamentos, atitudes, sentimentos, ideias ou crenças e que tendem a se reforçar mutuamente. (19)

Na terapia familiar, distinguem-se, assim, IP para dar visibilidade à circularidade e à reciprocidade das interações, centrando-se não nos membros da família individualmente, mas no espaço interativo (Tomm 2014).

Tomm (1988, 2014) propõe uma tipologia pragmática organizada em três classes de IP. As primeiras são os padrões centrais, que incluem os padrões interpessoais patologizantes (PIP), os padrões interpessoais de bem-estar (WIP) e os padrões interpessoais de cura (HIP). As segundas são os padrões de transição: os padrões interpessoais transformadores (TIP) e os padrões interpessoais de deterioração (DIP). Por fim, os padrões sociais incluem os padrões interacionais socioculturais (SCIP) e os padrões interpessoais da rede social (SNIP). Por meio dessa tipologia, Tomm et al. (2014) descrevem as relações familiares em sua trajetória, dos padrões patologizantes para padrões terapêuticos e geradores de bem-estar, incluindo sua relação com os discursos sociais e culturais e com a rede social da comunidade. O modelo IPscope torna visível o movimento permanente e dinâmico entre os padrões interpessoais. As conversas que acontecem na terapia podem promover a transformação (TIP) dos padrões interpessoais repetitivos e recorrentes nas famílias (PIP), favorecendo que HIP e WIP se estabeleçam (Gaete et al. s.d.; Gaete et al. 2020; Tomm 2014). Na prática clínica e na pesquisa em terapia familiar, o IPscope tem sido usado para gerar uma compreensão processual maior dos efeitos das intervenções terapêuticas e dos resultados da terapia familiar (Gaete et al. 2020; Tomm et al. 2014).

Outras contribuições de Karl e de sua equipe no CFTC são menos conhecidas do público. Nos últimos anos, a equipe do CFTC incorporou a exploração deliberada do potencial generativo do desassossego relacional às conversas de debriefing que se seguem às consultas. Essa prática começou como uma maneira de fazer o debriefing depois das consultas semanais em equipe, também chamadas de screenings. Explorar o potencial generativo do desassossego relacional mostrou-se tão fecundo para a equipe que a supervisão clínica estendeu esse processo a quase todas as conversas pós-sessão. Durante essas conversas, o grupo reflete e examina criticamente a conversa e o processo terapêuticos, fazendo perguntas como: vocês notaram momentos de desassossego relacional durante a sessão de terapia familiar? Como vocês dão, ou podemos dar, sentido a esses momentos de desassossego? O que esses momentos nos dizem sobre a dor ou as dores da família, ou sobre aquilo com que algum de seus membros pode estar lutando? Que ações foram tomadas para fazer a conversa e a relação avançarem? Que momentos foram percebidos como cintilantes ou generativos? Vivemos erros terapêuticos e/ou aberturas para desenvolvimentos alternativos? O que a pessoa terapeuta poderia ter feito de outro modo? O que houve de generativo naquilo que essa pessoa e os membros da família fizeram juntos? Essas perguntas ajudam a equipe terapêutica a tomar consciência de como usa suas teorias e modelos terapêuticos e de qual é o efeito de suas ações no processo terapêutico, e a explorar novas direções para seu trabalho.

A equipe do CFTC cultivou, assim, um espaço conversacional para diálogos generativos sobre as ideias e práticas da equipe terapêutica, chamado de “pesquisa como prática cotidiana” (St. George et al. 2015). Esses diálogos aconteceram em diferentes contextos: processos de grupo, reuniões de pesquisa como prática cotidiana, supervisão clínica e autorreflexão da equipe terapêutica ao redigir os prontuários clínicos. Além disso, ao acolher equipes de pesquisa locais e internacionais nas atividades de pesquisa como prática cotidiana e ao desenvolver com elas projetos de pesquisa publicáveis sobre o desassossego relacional, a equipe do CFTC passou a compreender melhor o potencial generativo do desassossego relacional nos processos terapêuticos e nos de formação e supervisão clínica.

2. Explorar a generatividade no seio do desassossego

A presente entrevista foi conduzida por Carla Guanaes-Lorenzi (doravante Carla), docente da Universidade de São Paulo (Brasil), durante uma estadia de pesquisa de seis meses na Universidade de Calgary. Nesse período, Carla trabalhou com a equipe do CFTC e, em particular, com Mónica Sesma-Vazquez, Inés Sametband e Joaquín Gaete-Silva, que assinam este artigo em coautoria, em projetos de pesquisa voltados a compreender melhor como terapeutas atravessam o desassossego relacional nas sessões de terapia familiar. Esta entrevista faz parte dessa iniciativa de pesquisa colaborativa entre Carla e a equipe do CFTC; foi gravada digitalmente em áudio, transcrita e editada pela equipe que assina o artigo, com Karl Tomm. Depois de editar a entrevista, planejamos em grupo um exercício reflexivo: dialogar sobre alguns pontos-chave que, como equipe de coautoria, consideramos possíveis contribuições principais para a conceituação do desassossego relacional na prática cotidiana da terapia familiar. Primeiro resumimos esses pontos e depois os discutimos.

Na primeira parte da entrevista, Karl explica por que ele e a equipe do CFTC exploraram o potencial generativo do desassossego relacional. Ele nos apresenta sua compreensão das interações de desassossego, enfatiza por que as considera importantes e convida, na terapia familiar, a explorar maneiras criativas de responder a essas situações pouco familiares e incômodas, que ocorrem com frequência nos encontros terapêuticos. Em seguida, Karl conta a história de Colleen, uma cliente com quem trabalhou em terapia familiar muitos anos atrás. Karl tinha a autorização prévia de Colleen para apresentar parte de sua história como exemplo de generatividade em terapia familiar no congresso do 50º aniversário do CFTC e, mais tarde, voltou a contatá-la para pedir autorização para publicar esta entrevista na Family Process. Como sua história é uma parte importante da própria entrevista, e para garantir que ela pudesse dar consentimento informado à publicação, Karl lhe enviou a primeira versão deste artigo. Colleen sugeriu nomes fictícios, fez comentários e editou sua história para que pudéssemos seguir adiante protegendo sua confidencialidade, com base em uma postura ética relacional e dialógica. Esse exemplo clínico é um convite a resistir à tentação de evitar os momentos de desassossego na conversa e a sentir, em vez disso, o entusiasmo que pode resultar da busca persistente de melhores maneiras de sintonizar com as demandas e a dor relacional da família. Esperamos que o público leitor aprecie esta entrevista tanto quanto nós e que ela levante perguntas que nos ajudem a continuar refletindo sobre a complexidade de nosso trabalho em terapia familiar, reunindo ao mesmo tempo recursos para fazer emergir o melhor das famílias com quem trabalhamos.

3. Entrevista

Carla: Agradeço, Karl, por você ter aceitado esta entrevista. Minha primeira pergunta é: quando você começou a usar a palavra desassossego?

Karl: Não me lembro com certeza. Digamos que provavelmente há uns dez anos.

Carla: Por que o termo desassossego? Você se lembra de como essa palavra lhe veio à mente?

Karl: Lembro que, em nossas discussões pós-sessão, depois das entrevistas de screening, as conversas se dispersavam; continuavam, continuavam, continuavam… E não havia uma estrutura clara sobre como queríamos conversar no pós-sessão. Então quisemos mais disciplina e nos preocupamos em apertar um pouco as coisas. Decidimos nos concentrar em perguntas específicas na discussão pós-sessão. E, como você sabe, as perguntas que hoje gostamos de fazer são: quais são os principais PIP e HIP? E quais são os momentos cintilantes de influência terapêutica? Mas também queríamos abrir espaço para notar os aspectos negativos do que estava acontecendo, onde as coisas não iam bem, e não ignorar isso. Às vezes, as terapias orientadas para os recursos tendem a privilegiar demais o positivo. Então sugeri que olhássemos para os erros. A equipe do CFTC não ficou à vontade com a ideia de se concentrar nos erros [risos]. Eu acho útil reconhecer os erros, porque aprendemos com eles, não é? Mas descobrimos que a linguagem do desassossego relacional convinha melhor ao nosso grupo de terapeutas, e as pessoas ficavam mais à vontade para prestar atenção ao que nos deixava desconfortáveis durante a sessão. Isso nos ajudava a nos concentrar no que, na entrevista, poderia ter sido tratado de outro modo. Tivemos muitas conversas sobre isso, e foi assim que as coisas evoluíram. Quando esse foco passou a fazer parte de nossa discussão pós-sessão, tornou-se um grande recurso de aprendizagem: prestar atenção a esses momentos.

Carla: Que diferença o foco no desassossego relacional trouxe em relação ao que vocês faziam antes? Você disse que ele se tornou um grande recurso de aprendizagem. Que diferença você notou nas possibilidades que esse foco traz?

Karl: Acho que ele traz a possibilidade de ir mais a fundo no processo. Para mim, o fenômeno do desassossego é um fenômeno corporificado. Como seres humanos, estamos de certa forma ressoando mutuamente. Quando as pessoas se sentem desconfortáveis, isso vem de algum lugar. Há alguma perturbação que desencadeia esse sentimento. Então, ser capaz de notá-lo, depois acompanhá-lo, para tentar determinar suas origens, é uma maneira de chegar a um nível mais profundo de compreensão conversacional. Era isso que eu achava tão enriquecedor: acrescentava profundidade à conversa. E não precisávamos concordar a respeito, as pessoas podiam viver os desassossegos de maneiras diferentes. Não havia consenso sobre isso. E essas diferenças eram diferenças úteis.

Carla: Quando você pensa no termo desassossego, o que ele significa para você?

Karl: Significa que algo não está certo, que algo está errado aqui. E, é claro, implica algum tipo de julgamento. Os valores das pessoas também estão envolvidos. Mas, no geral, eu diria que há um sentimento de injustiça. Algo simplesmente não está certo. Às vezes é muito explícito, as pessoas estão em conflito intenso, por exemplo quando se desqualificam, gritam umas com as outras, se culpam, e assim por diante. Mas às vezes é mais sutil; elas interagem por meio de microagressões. Podemos identificá-las por uma sensação corporal e, quando nos concentramos nelas, podemos começar a entender por que estão surgindo. Às vezes não entendemos por conta própria, mas entendemos conversando com outros membros da equipe terapêutica.

Carla: Isso quer dizer que às vezes você pode sentir o desassossego na sessão sem necessariamente entender o que está acontecendo, e só mais tarde lhe dá sentido, durante uma conversa pós-sessão?

Karl: Sim.

Carla: Você acha que há diferença entre desconforto e desassossego?

Karl: Eu diria que sim. Acho que o desconforto surge muitas vezes em situações generativas. Embora o desassossego também possa ser uma fonte de generatividade. Quando as pessoas estão no limite de suas capacidades e vão além de onde estiveram antes, há desconforto. Elas não estão à vontade; podem estar um pouco ansiosas. Mas pode ser uma coisa boa que estejam se esforçando para ir além de onde estiveram. Então acho que essa é uma dimensão do desconforto que eu não associaria ao desassossego. O desassossego, para mim, é mais negativo, mais ancorado em emoções negativas. O desconforto pode ser negativo, claro, mas também pode ser positivo. Quando o desassossego surge, há uma resposta a ele, e essa resposta tem restrições associadas, porque as pessoas querem diminuir o desassossego; há um impulso de reduzi-lo.

Carla: Se olharmos no dicionário (Oxford English Dictionary s.d.), encontraremos outras palavras como possíveis sinônimos, como ansiedade ou preocupação. Você acha que há diferença entre essas palavras?

Karl: Eu diria que sim, no sentido de que, com o desassossego, há um sentimento de iniquidade e de injustiça associado à experiência. O nervosismo de falar em público poderia ser um exemplo de ansiedade. A pessoa sente desconforto, mas isso não é necessariamente negativo, e não trará generatividade em si, no sentido de gerar mais energia para fazer o que pode ser difícil de fazer. Nesse contexto, eu ligaria o desassossego mais ao sentimento de iniquidade e de injustiça, à experiência de que algo está errado.

Carla: No texto de referência que você escreveu para o congresso (Tomm 2022), você menciona diferentes fontes de desassossego relacional. Poderia dar alguns exemplos?

Karl: Bem, no trabalho que fazemos, a principal fonte vem dos desassossegos relacionais atuais que existem no sistema familiar com o qual trabalhamos. O desassossego no sistema familiar suscita desassossego no sistema terapêutico. Como terapeutas prestam atenção aos desassossegos, procuram maneiras de permitir um movimento para fora desse desassossego e, com sorte, criar alguma generatividade.

Carla: Esse desassossego relacional no sistema familiar provavelmente está ligado aos momentos em que terapeutas reconhecem um PIP intenso. Você concordaria?

Karl: Sim. Isso desencadeia desassossego no sistema terapêutico. Começa no sistema familiar, mas desencadeia desassossego no sistema de terapia. Esses desassossegos tornam-se então um ponto de potencial trabalho clínico.

Carla: Você poderia desenvolver isso?

Karl: Bem, também pode haver desassossegos que surgem no próprio sistema terapêutico. Por exemplo, quando há uma diferença de valores entre a família e a pessoa terapeuta. Então não surge apenas dentro da família. Uma pessoa terapeuta pode querer ver sua própria agenda cumprida. Se insistir nela, a família pode resistir. O desassossego pode, portanto, surgir também do sistema terapêutico. Ou pode surgir entre a família e a fonte de encaminhamento. A fonte de encaminhamento pode achar que a família precisa fazer terapia, mas a família não quer realmente fazer terapia. Ainda assim, cede ao poder e à influência da fonte de encaminhamento. Isso pode ser uma fonte de desassossego. A iniciativa original de buscar alguma ajuda terapêutica pode vir de fora da família.

Carla: Você sempre nos lembra que não se trata apenas de se concentrar excessivamente em identificar ou examinar os desassossegos, mas também do potencial generativo dos desassossegos.

Karl: Sim.

Carla: Quais são esses potenciais generativos, e como podemos notar os potenciais generativos do desassossego numa sessão terapêutica?

Karl: Bem, quando a emoção passa do sentimento negativo e da tensão para o entusiasmo, e você sente o entusiasmo, sente que algo novo está surgindo, então sabe que as coisas estão indo na direção certa.

Carla: Com o desassossego você sente um sentimento negativo corporificado, mas nesse caso nota entusiasmo, que é um sentimento positivo. Então o que poderíamos notar é, sobretudo, uma mudança emocional.

Karl: Bem, acho que as emoções são uma base mais ampla da qual as cognições podem então surgir. As cognições podem ser congruentes com as emoções. Mas, para mim, a emoção é uma maneira de ancorar as coisas, de saber o que as cognições realmente significam. Quando tenho a sensação de que algo está acontecendo aqui, em termos de novas possibilidades, de novas distinções sendo feitas ou de novos padrões emergindo, há o entusiasmo que vem disso. E é coletivo, não é uma coisa individual. Muitas vezes, várias pessoas podem ressoar com essa emoção quando o processo terapêutico vai bem.

Carla: Já ouvimos você usar às vezes a palavra sintonia; essa palavra caberia aqui?

Karl: Sintonizar? Sim.

Carla: Haveria uma sintonia entre a pessoa terapeuta e os membros da família. Nesse caso, por exemplo, a família e a pessoa terapeuta compartilhariam esse entusiasmo?

Karl: Sim.

Carla: Você diria explicitamente à família que notou uma situação de desassossego?

Karl: Ah, sim. Eu não usaria necessariamente a linguagem do desassossego. Mas certamente puxaria conversa sobre isso.

Carla: Você tem um exemplo de como faria isso?

Karl: Bem, se você nomeia o fenômeno, cria uma distância entre você e o fenômeno nomeado. Por exemplo, pode chamá-lo de conflito ou de assédio, ou de padrão PIP, ou do que for. Dar um nome ao desassossego relacional permite examiná-lo, concentrar-se nele e ter uma relação com a situação que se acabou de nomear. Então, para mim, esse é provavelmente um dos primeiros passos rumo à generatividade. Mesmo que a nomeação seja intrapessoal, em seus próprios pensamentos, você está traçando uma distinção. Você provavelmente nomeia algo implicitamente quando o distingue. Se depois leva essa distinção para a conversa, isso acrescenta ainda mais potencial para separar o desassossego das pessoas que o estão gerando. E isso, para mim, é o começo da capacidade de trabalhar nele, de trabalhar com ele [pausa]. Um dos temas que surgiram de nossas conversas ao longo do último ano, nos seminários de pesquisa como prática cotidiana, é considerar o desassossego relacional como um chamado à ação. Gosto muito dessa ideia. Porque, se conseguirmos ligar o fenômeno do desassossego à necessidade de agir, à necessidade de fazer algo a respeito, talvez possamos chegar a algum lugar. Gostei muito disso. Isso nos leva a um lugar melhor do que simplesmente tentar escapar do desassossego e evitar o desconforto, que é nossa tendência natural. Muitas vezes, tentamos nos afastar, escondê-lo ou encobri-lo de algum modo. Mas, em vez de fazer isso, avançar agindo sobre ele ajuda a liberar seu potencial de generatividade.

Carla: Que ações poderiam ser tomadas numa situação em que há desassossego relacional? Nomeá-lo?

Karl: Bem, antes mesmo de nomeá-lo, precisamos de abertura e disposição para nos aproximar dele, a ir até ele, a não nos afastar dele, a ir até ele. Assim, à medida que você vai até ele, torna-se possível traçar distinções à sua volta, dar-lhe um nome. E então podemos encontrar a linguagem e explorar suas possibilidades.

Carla: Um conceito que estamos tentando explorar melhor em nosso projeto sobre desassossego relacional é o de “acolher” o desassossego. Parece que algumas pessoas da equipe terapêutica do CFTC se referem a esse primeiro momento de não evitar o desassossego, e parte delas mencionou a expressão “ficar sentado com” [o desassossego]. Estávamos considerando o “acolhimento do desassossego” como um dos conceitos que poderíamos explorar melhor.

Karl: Fico um pouco desconfortável com a ideia de acolher o desassossego em si, porque isso quase implica o desejo de fazê-lo emergir ou de criar desassossego. E não quero fazer isso. Não gostaria de criar desassossego desnecessário. Mas, se ele existe, se já está lá, então acolher uma resposta a ele faz muito sentido para mim. Quero me aproximar dele. Acolhê-lo no sentido de reconhecer seu potencial, sim. Estar, de certa forma, disposto a vê-lo. Há ali algo que merece atenção. E então posso sentir que estou fazendo meu trabalho de terapeuta ao me aproximar dele e não evitá-lo.

Carla: No texto de referência (Tomm 2022), você menciona que o desassossego relacional pode muitas vezes ser um “grande motor de criatividade ou de novos desenvolvimentos importantes” (p. 3). Você tem um exemplo de sua prática terapêutica que nos ajude a entender melhor como o desassossego se transformou numa grande fonte de criatividade?

Karl: Posso contar a história de uma jovem que veio me ver em terapia. Ela começou me perguntando sobre os limites da confidencialidade, sobre quem podia ver meus registros, se os registros eram seguros, e assim por diante. Imediatamente pensei que provavelmente havia algo de jurídico em sua situação. Claramente, ela queria que eu mantivesse suas informações em sigilo. Então tentei responder às perguntas dela da melhor maneira possível. Depois ela me perguntou: “Com quem você fala sobre seus clientes?”, e assim por diante. E eu disse: “Bem, não sei o que você quer compartilhar comigo, mas posso dizer que não vou compartilhar com ninguém o que você quiser compartilhar comigo sem antes conversar com você, isso eu posso garantir. Mas não posso dizer que não vou falar com mais ninguém. Depende do que for.” Eu queria que ela se sentisse segura o bastante para contar o que a perturbava, mas não queria me encurralar prometendo não falar com outras pessoas. Isso bastou para que ela me contasse que tinha tentado machucar a filha. Essa mulher, que vou chamar de Colleen para não usar o nome verdadeiro de minha cliente, contou que algumas semanas antes tinha empurrado a filha de quatro anos, vamos chamá-la de Millie, pela janela do apartamento delas, no segundo andar. Colleen explicou que tinha avisado Millie muitas vezes para não se debruçar na janela, mas Millie continuava indo até a janela e Colleen continuava mandando que ela se afastasse. Então, numa ocasião, quando Millie mais uma vez se debruçava na janela, Colleen ficou tão exasperada que sentiu o impulso de empurrá-la para fora. Agiu sobre esse impulso levantando as pernas da menina, e Millie caiu. Ela empurrou a filha pela janela, e a filha caiu e se machucou. Colleen ficou extremamente abalada com o que tinha feito. Depois levou a filha para a casa da mãe, e a mãe insistiu para que ela fizesse terapia. Foi assim que ela veio me ver. Então me disse: “Não quero que você ligue para o Serviço de Proteção à Criança, porque eles já tiraram minha filha de mim antes, levei um ano inteiro para recuperá-la e não quero passar por isso de novo.” Então me vi numa encruzilhada muito desassossegadora, porque legalmente eu deveria notificar o caso, mas isso seria fazer o contrário do que ela me pedia. Então lhe fiz muitas perguntas: “Onde está sua filha agora?”, e ela respondeu: “Está com minha mãe.” A criança estava, portanto, com a avó. Perguntei: “Ela se machucou muito?”. Ela disse: “Não. Ficou com hematomas, mas nada grave.” E continuei: “Bem, sua filha vai ficar com a avó por enquanto?”, e ela disse que sim. Então perguntei: “E sua mãe estaria disposta a participar da terapia, para que eu possa obter informações complementares?”, e ela também disse que sim. Então eu disse: “Tudo bem, nessas circunstâncias, posso aceitar seu pedido. Por enquanto, não vou ligar para o Serviço de Proteção à Criança.” Como Millie parecia estar bem, vivendo num lugar seguro com a avó, concordei em não ligar para o Serviço de Proteção à Criança “por ora”. O que eu estava fazendo era colocar o propósito da lei acima da letra da lei. O propósito da lei é manter a criança segura, e a letra da lei diz que você deve notificar. Então não notifiquei, porque ela me pediu que não o fizesse e eu queria ter certeza de que poderia criar uma boa relação terapêutica com ela. Se eu a tivesse denunciado, acho que não haveria nenhuma chance de ter uma relação terapêutica com ela. O que fiz, basicamente, foi criar condições para trabalhar com ela em terapia. À medida que a terapia avançava, Colleen revelou uma história de abusos sofridos por parte do próprio pai, e assim por diante. E, além disso, o pai de sua filha Millie também tinha sido violento com ela, o que dificultara seu vínculo com Millie quando bebê. Ela precisava de um apoio considerável para lidar com seu próprio sentimento de injustiça. Havia, portanto, muita história de fundo que tinha contribuído para o abuso que ela praticou contra a filha naquele momento. Decidi trabalhar com ela por um longo período, e aconteceu que a avó de fato criou a neta até a adolescência. Colleen participava dos cuidados com a filha, mas a uma distância segura. Millie pedia muitas vezes para voltar a morar com a mãe, mas a família extensa se manteve firme quanto a esse arranjo. As coisas se desenrolaram de maneiras muito positivas. Por fim, quando Millie teve idade suficiente para entender, Colleen expressou seu arrependimento e pediu desculpas à filha. Mais tarde, Colleen cursou Direito e se especializou no trabalho com famílias em situação de abuso. Liguei para ela há poucas semanas para pedir autorização para usar sua história em minha apresentação no congresso do CFTC (Tomm 2023), e ela disse: “Sim, claro.” Também me contou que a pessoa que julgava um caso a tinha agradecido espontaneamente por seu trabalho com as famílias. Essa pessoa lhe disse: “Você está fazendo um trabalho excelente por essas famílias!”. Não é incrível? Se eu a tivesse denunciado, ela provavelmente teria sido acusada de agressão, ou algo assim, porque ela tinha, sim, a intenção de machucar a filha. Isso estava em sua mente. Mas esse desfecho, ela trabalhando com outras famílias abusivas e aquela pessoa que julgava reconhecendo espontaneamente seu trabalho como “excelente”, é um resultado generativo fantástico, não é? Além disso, quando se tornou advogada, ela moveu uma ação contra o pai pelos anos de abuso que sofreu na juventude. Fiquei fascinado ao ver como, se estivermos dispostos a encontrar uma maneira de criar espaço para a generatividade, coisas boas podem acontecer. Pergunto-me se, dada sua experiência vivida, Colleen não se tornou muito mais hábil em compreender e julgar situações complexas de abuso do que a maioria de nós jamais poderia. Se eu a tivesse denunciado quando a conheci, ela poderia ter enfrentado acusações criminais e talvez nunca tivesse entrado na faculdade de Direito.

Carla: Uau!

Karl: Não é algo e tanto?

Carla: Sim, é incrível!

Karl: Esqueci de contar que, seis meses depois de começar a trabalhar com ela, recebi um telefonema do Serviço de Proteção à Criança. Queriam informações sobre Colleen, e eu disse: “Bem, não tenho liberdade para compartilhar informações sobre ela, porque não tive oportunidade de perguntar à minha cliente.” Nessa situação, a pessoa que ligou me disse que eles já sabiam do que tinha acontecido. Ele disse: “Bem, sabemos que você a está atendendo e queremos que continue a atendê-la.” Então, na vez seguinte em que vi minha cliente, contei a ela sobre esse telefonema. Ela riu e disse: “Ah, eu sei o que aconteceu.” Então explicou que tinha brigado com a irmã e que a irmã tinha ameaçado ligar para o Serviço de Proteção à Criança.

Carla: É uma história notável. Em que momento você sentiu desassossego? E quais foram suas ações para seguir adiante com isso?

Karl: Houve muitos desassossegos. Havia o desassossego de ela sentir ódio da filha por causa do que a filha representava, por causa do pai e de sua própria história. E havia o desassossego de eu estar numa situação em que me pediam para fazer algo que, ética e legalmente, eu não deveria fazer. Eu estava tentando encontrar uma maneira de engajá-la numa relação terapêutica sem rejeitar seu pedido principal, que era não ligar para o Serviço de Proteção à Criança. Mas também queria, de algum modo, criar a possibilidade de avançarmos terapeuticamente. Aliás, eu deveria ter mencionado que não fiz isso sozinho. Eu tinha o apoio de uma equipe; trabalhamos em equipe nesse caso. A equipe me ajudou a lidar com meu desassossego. Eu tinha discutido a situação com a equipe, porque não podia confiar inteiramente em meu próprio julgamento. Precisava ter cuidado com as decisões que estava tomando. Felizmente, tenho uma equipe que me apoia muito. No fim, as coisas deram certo a longo prazo. Foi realmente incrível.

Carla: Que ótimo!

Karl: Vou lhe contar mais um elemento importante dessa história. Trabalhei com Colleen pela primeira vez há uns quarenta anos, mas, não faz muito tempo, quando Millie, a filha, se tornou adulta, se casou e teve seu próprio filho, voltei a vê-las quando o menino chegou mais ou menos à idade que Millie tinha quando o incidente aconteceu. Havia um conflito entre Colleen e a filha sobre permitir que Colleen visse o neto. Compreensivelmente, Millie hesitava um pouco, dado que o filho tinha mais ou menos a idade que ela própria tinha quando o incidente original ocorreu. Elas voltaram para mais terapia, e pude apoiá-las para conversarem sobre essa situação delicada. Acabaram concordando que, desde que Colleen continuasse tomando o antidepressivo e aceitasse não falar com o neto sobre as questões de abuso na família, Millie estava de acordo com que Colleen passasse tempo com ele. Então conseguiram resolver as coisas. É muito fascinante ter um contato tão longo com essa família. Fascinante.

Carla: É mesmo. Uma terapeuta que entrevistei no CFTC para nosso outro projeto disse que, para ela, o desassossego podia ser como um “professor”, porque deixa uma lição. Então acrescentamos esta pergunta ao nosso roteiro de entrevista: se o desassossego pudesse ser visto como um professor, quais seriam suas principais lições?

Karl: É uma bela metáfora.

Carla: Sim, eu gosto dela. Quais foram as principais lições do seu desassossego?

Karl: Bem, as principais lições? Acho que uma seria que o desassossego pode ser o começo de mais trauma, ferimento e dano. Ou pode ser o começo da criatividade e de novos desenvolvimentos terapêuticos e curativos. Então eu diria que o desassossego pode marcar um ponto de bifurcação. É um momento de oportunidade, potencialmente, para que as coisas sigam nesta direção e não naquela.

Carla: Como, na terapia familiar, ganhar atenção a esses momentos de bifurcação? Você menciona em seu texto de referência (Tomm 2022) que é importante que terapeutas “se tornem cada vez mais conscientes das distinções que traçamos e que acabamos por fazer emergir em nossos atos na terapia” (6). Então, quando você fala desse ponto de bifurcação, como ter mais consciência do que se faz emergir com as próprias ações?

Karl: Acho que a maneira de ter mais consciência disso é fazer uma recursão sobre suas reflexões, pensar sobre seu pensamento e notar os efeitos em você, sobretudo quando traça uma distinção específica.

Carla: É como explorar a voz interior da pessoa terapeuta?

Karl: Sim… Quer dizer, se você escuta sua escuta, e como escutar desse modo tem efeitos em você, e como isso influencia para onde você vai. Por exemplo, você pode escutar de certas maneiras quando ignora o desassossego e o evita. Pode escutar em busca de possibilidades tranquilizadoras, para pôr óleo sobre as águas agitadas, e assim por diante. Ou pode escutar de maneiras que o levem às nascentes do desassossego, em termos de injustiça ou iniquidade, e então potencialmente desconstruir essas injustiças. Precisamos, portanto, notar nosso notar, ou distinguir nossas distinções, para ver que efeitos elas têm sobre nós em nossas conversas.

Carla: Gosto da ideia de notar nosso notar. Como poderíamos convidar outras pessoas a se entusiasmarem com o desassossego, como você fez aqui no CFTC?

Karl: Bem, posso identificar uma virada em nosso programa. Foi há muitos anos, numa discussão pós-sessão depois de um screening. Estávamos tendo uma boa conversa. Eu tinha conduzido a entrevista, e ela tinha sido bem boa. Falávamos sobre o que tinha acontecido na sessão que fora realmente útil, e assim por diante, e então, perto do fim da conversa, eu disse: “Acho que cometi um erro na entrevista, quando não respondi a isto…”. O grupo ficou meio chocado, porque a equipe tinha me colocado num pedestal. Para ela, tudo o que eu faço em terapia tinha de ser perfeito. Então expliquei por que achava que tinha sido um erro e o que podíamos aprender com ele. O entusiasmo foi grande, porque estávamos aprendendo em conjunto. Eu também fiquei entusiasmado, porque a equipe estava entusiasmada. Outra pessoa teve a coragem de dizer: “Bem, eu fiquei pensando quando você disse X… porque aquilo poderia ter sido um problema.” Então fiquei entusiasmado com o que eu acabava de aprender. Vendo meu entusiasmo, as outras pessoas da equipe sentiram mais segurança para perguntar: “Ah, sim. E quanto a…?”. Então o entusiasmo tomou conta de toda a equipe, porque as pessoas estavam, na verdade, compartilhando seus desassossegos, não é? E esse foi o começo da mudança em nosso processo, em nosso programa e em nossa cultura no CFTC. Que eu, como diretor, estivesse disposto a falar abertamente de meus erros e discuti-los foi, para mim, muito útil. Porque, quando eu consigo fazer isso, fica mais fácil para outras pessoas fazerem o mesmo e também se permitirem ser mais vulneráveis, porque veem o potencial de aprendizagem que pode vir de notar o desassossego e refletir sobre os possíveis erros.

Carla: Quando li o livro do IPscope (Tomm et al. 2014), notei que a palavra “desassossego” não está lá. O que seria diferente na abordagem IPscope se a compreensão do desassossego fosse incluída? De que maneiras a compreensão do desassossego relacional poderia enriquecer o IPscope?

Karl: Acho que a tornaria mais densa, a enriqueceria bastante. O que é coerente com o que eu disse antes: quando entramos no desassossego, ganhamos profundidade. Acho que essa é uma contribuição muito valiosa de traçar essa distinção. Quando escrevemos o livro, tínhamos a distinção, mas ainda não a colhíamos, sabe, a generatividade que vem dela, ou a generatividade mais plena possível.

Carla: Se você pensar nos diagramas do IPscope (Tomm et al. 2014) que explicam o movimento ou as transições entre PIP e HIP, e assim por diante, onde situaria o desassossego?

Karl: Bem, está nos PIP. Todo PIP tem desassossegos.

Carla: O desassossego estaria no movimento?

Karl: Bem, sim, é aqui que entra em jogo a relação entre o intrapessoal e o interpessoal, porque o desassossego é primeiro sentido de forma intrapessoal. Aparece como um mal-estar corporal.

Carla: Como resposta a…

Karl: Sim, muito como resposta a um processo de interação, o processo de interação que gera um PIP. Então, sim, há desassossego em todo PIP.

Carla: Certo! Se você escrevesse um novo livro, seu livro dos desassossegos [mencionando uma conversa anterior no CFTC, que se referia ao título da obra de Fernando Pessoa, “Livro do desassossego”] (Pessoa 2015), quais seriam seus principais capítulos?

Karl: O que acho que ainda não foi feito, e eu esperava que isso pudesse começar no congresso do CFTC, é iniciar uma taxonomia das diferentes generatividades que podem surgir quando se entra no desassossego e se trabalha com ele. Por exemplo, há as bifurcações que mencionei antes. O questionamento de bifurcação poderia ser um exemplo de categoria de generatividade. Mas acho que poderia haver muitas categorias e diferentes tipos de generatividades que surgem do desassossego. Essa análise ainda não foi feita. E ainda não tivemos essas conversas como equipe. Talvez isso possa ser um tema para nosso grupo de reuniões mensais de pesquisa como prática cotidiana!

Carla: Você pode nos explicar um pouco mais o que quer dizer com questionamento de bifurcação?

Karl: Bem, talvez eu possa voltar um pouco e dar algum contexto teórico. O termo bifurcação vem do trabalho de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers sobre a evolução dos sistemas complexos, sua teoria das estruturas dissipativas (Prigogine e Stengers 1984). Nesse trabalho, o que descobriram foi que, se um sistema em evolução chega a um ponto de bifurcação, ele termina em lugares muito diferentes conforme evolua numa direção ou na outra. Esses pontos de bifurcação são, portanto, pontos muito importantes na evolução de um sistema. E, na compreensão que temos de nós mesmos e de nossas relações, chegamos a muitos pontos de bifurcação. Assim, se a terapia consegue fazer emergir esses pontos de bifurcação, ela convida as pessoas a reconhecerem as alternativas e a se reconhecerem como tendo uma escolha entre essas alternativas, o que as empodera. Isso abre espaço para que tenham alguma agência, o que é uma experiência maravilhosa: perceber que você tem uma escolha e pode escolher algo melhor, ou seguir seus valores e crenças quanto à direção que privilegia na relação.

Carla: Para encerrar, Karl, há algo que eu não perguntei e que você acha importante compartilhar?

Karl: Provavelmente, mas não consigo pensar nisso agora! Gostei muito desta conversa, Carla. Obrigado!

Carla: Karl, agradeço muito pelo seu tempo. Agradeço muito mesmo!

4. Discussão

A conceituação e a consideração clínica do desassossego relacional em terapia familiar podem ter implicações profundas para a prática clínica, em particular para terapeutas que adotam uma abordagem informada pelo relacional. Ao refletir sobre seus usos possíveis, identificamos três grupos de práticas que podem ajudar terapeutas que desejam ampliar a generatividade no seio do desassossego relacional: notar, compartilhar e reconhecer.

4.1 Notar o desassossego relacional

A primeira prática consiste em assumir nossa capacidade, como terapeutas, de notar diversas formas de desassossego relacional ou de experiências de desassossego (Simão 2000) durante o processo terapêutico. Pode-se argumentar que a capacidade de reconhecer a dor relacional é fundamental para a terapia, pois é ela que leva as pessoas a procurar serviços de terapia familiar. Embora possamos pensar que todo ser humano tem a capacidade de notar a dor, em nossa formação no CFTC esperamos que terapeutas desenvolvam intencionalmente essa habilidade. De modo informal, pessoas que fizeram residência no CFTC relataram repetidamente que se familiarizar com a noção de desassossego relacional, isto é, convidar e acolher coletivamente o notar do desassossego relacional como algo que vale a pena, por exemplo na supervisão clínica e no debriefing pós-sessão, as ajudou a desenvolver sua habilidade de identificar diversas formas de dor relacional. Notar o desassossego relacional pode incluir atender e responder deliberadamente a diversas formas de fala de objeção (Sametband et al. 2023; Strong e Tomm 2007): desde objeções abertas entre duas pessoas que participam da sessão (“Não concordo com você!”; “isso não é verdade!”) até maneiras mais sutis de protestar. Por exemplo, as pessoas podem manifestar uma objeção tornando-se monológicas, ou menos abertas a ser influenciadas pelas palavras e atos das demais pessoas; ou talvez mais propensas a ficar presas a um certo ponto de vista, ou a interromper as demais pessoas de maneiras não generativas; ou talvez comecem a se remexer na cadeira, ou protestem franzindo a testa, mostrando hesitação na fala (“beeem…”; “sim, mas”, usando ressalvas), ou simplesmente permanecendo em silêncio e retirando-se da conversa em curso. Ao se tornarem mais sensíveis ao reconhecimento do desassossego relacional nas formas de objeção da fala e da relação, e ao tratarem esse desassossego relacional como um chamado a uma ação terapêutica apropriada, terapeutas podem abrir espaço para que esses desassossegos relacionais sejam compartilhados e publicamente reconhecidos, o que por sua vez pode fazer emergir mais generatividade (desenvolvemos mais adiante a generatividade potencial de compartilhar os desassossegos relacionais).

Durante a entrevista, Karl descreveu ter sentido e notado desassossego quando Colleen o interrogou sobre suas responsabilidades profissionais na primeira sessão. Ele parece ter percebido uma forma sutil de objeção embutida na pergunta de Colleen; como se pudesse haver algo de “errado” ali. A nosso ver, ao notar o desassossego, Karl tentou avançar com ele adotando uma postura de autorreflexividade. Ele parece ter se relacionado com “seu” desassossego (o dele? o dela?) como uma forma de dor; talvez um sinal de “sentir-se inseguro”, e tentou reconhecer e abrir espaço para que Colleen compartilhasse sua dor legítima e talvez sua relutância em se engajar na terapia. Ao mesmo tempo, notou outra fonte de desassossego: suas preocupações com a segurança de Millie. Como Karl define claramente, o desassossego pode ser visto como um “ponto de bifurcação. Pode ser o começo de mais trauma, ferimento e dano. Ou pode ser o começo da criatividade e de novos desenvolvimentos terapêuticos e curativos.”

4.2 Compartilhar o desassossego relacional

Terapeutas podem compartilhar sua consciência de um desassossego relacional fazendo uma pausa para refletir, fazendo outras perguntas ou compartilhando sua percepção. Podem compartilhar seu próprio desassossego e perguntar se alguém mais está notando ou vivendo a situação atual como desassossegadora. Usando perguntas circulares, podem explorar a experiência das demais pessoas presentes (por exemplo: como você acha que esta conversa está sendo para sua mãe neste momento?), ou convidar os membros da família a nomear aquilo a que seu desassossego pode estar respondendo (por exemplo: do que se trata a dor de sua mãe?; quais poderiam ser algumas consequências positivas e negativas de sua mãe compartilhar do que se trata sua dor?; por que essas seriam consequências positivas ou negativas para você?). Ao fazer perguntas animadas por seu próprio desassossego, terapeutas podem ajudar as demais pessoas presentes a fazer existir pela fala os desassossegos, o que vemos como terapêutico na medida em que faz emergir como plenamente legítimas outras maneiras de viver a relação. Em suma, vemos nisso um ato de amor potencialmente curativo.

Além das perguntas circulares, terapeutas às vezes compartilham seu desassossego de modo mais direto, seja por comentários de autorrevelação (Posso compartilhar um desassossego que senti quando ouvi você dizer isso?), seja encenando o desassossego, como mostra a resposta de Karl ao pedido de Colleen de não ligar para o Serviço de Proteção à Criança. Nesse caso, perguntamo-nos se Karl não agia sob a influência de seu próprio desassossego ao começar a reconhecer que o pedido de Colleen poderia colocá-lo num espaço dilemático, um impasse entre duas obrigações (percebidas). De um lado, notificar um incidente violento e maximizar a segurança das pessoas mais vulneráveis na relação; de outro, nutrir a relação terapêutica honrando o pedido de Colleen e confirmando ao mesmo tempo que Millie estava segura. Embora Karl não tenha compartilhado explicitamente seu desassossego com Colleen, ele conseguiu encená-lo de maneiras reconhecíveis. Procurou saber onde Millie estava naquele momento e se certificou de que estava segura, perguntou se Millie tinha se machucado no incidente e talvez tenha demonstrado algum alívio (com sua expressão facial, com seu tom de voz) ao confirmar que Millie ficaria com a avó materna. Ao fazer todas essas perguntas com certo grau de preocupação, imaginamos que Colleen possa ter reconhecido ou sentido que Karl estava em desassossego quanto à segurança da filha e examinava o nível de risco e as medidas de segurança existentes. Ele chegou a perguntar se a mãe de Colleen estaria disposta a participar do processo terapêutico e foi transparente sobre sua necessidade de obter informações complementares. Como elemento de generatividade que vemos decorrer dessa preocupação (encenada) após o pedido de Colleen, pensamos que o compartilhamento do desassossego por Karl pode ter influenciado, ou mesmo ocasionado, a disposição de Colleen de esclarecer a situação de segurança atual da filha e possivelmente um certo alívio de seu desassossego inicial. Além disso, essa conversa pode ter gerado uma sensação compartilhada de alívio que parece ter influenciado a aceitação, por Karl, do pedido de Colleen de não ligar para o Serviço de Proteção à Criança naquele momento.

4.3 Reconhecer o desassossego relacional

A prática de reconhecer o desassossego relacional implica legitimá-lo trazendo-o à luz, ou ac-knowledge, segundo o jogo de palavras inglês. O prefixo ac da palavra acknowledgment é uma adaptação do latim ad, que significa “a”, “em direção a” ou “acrescentado a”. O reconhecimento é a expressão explícita de algo já conhecido (pelo menos por quem fala), comunicado a outra pessoa e às vezes a toda uma comunidade (Tomm e Govier 2007). Isso pode envolver exercícios de escuta reflexiva (Tomm e Acton 2011), em que alguém é convidado a espelhar em palavras uma forma de dor e a participar, assim, da coconstrução das influências (mutuamente reconhecíveis) que geram desassossego numa pessoa (por exemplo: o que você ouve sua mãe dizer quando ela compartilha seu desassossego?). Ou isso pode servir para coconstruir reflexivamente novas compreensões de si, como pessoa, como família ou como comunidade, o que consideramos essencial para favorecer a mudança terapêutica (ver, por exemplo, Gaete et al. 2020). Por exemplo, perguntar: “O que esse desassossego lhe diz sobre o que é importante para sua mãe?” poderia levar a formular objetivos comuns para a terapia, incorporando as respostas a uma agenda comum (por exemplo: o que há de bom para você naquilo que é importante para sua mãe? Isso também é importante para você? É importante para nosso trabalho em terapia? Como assim?).

Embora não possamos ilustrar, a partir da entrevista, as ações com que Karl e Colleen reconheceram seus desassossegos, imaginamos que fizeram emergir uma compreensão compartilhada de suas preocupações como legítimas e justificadas, e que exigiam uma discussão mais aprofundada. Em outras palavras, a segurança é uma preocupação muito importante e audível no contexto da terapia, tanto em relação às práticas de confidencialidade quanto à proteção e ao respeito da dignidade de todas as pessoas, em particular das mais vulneráveis numa relação terapêutica. Além disso, pensamos que o desassossego ganhou força (em seu potencial terapêutico) quando foi legitimado, isto é, reconhecido, pela equipe profissional de Karl, que o apoiou em seu processo de tomada de decisão.

Como observação final, convidamos o público leitor a considerar a sugestão de Karl de compreender o desassossego relacional como um fenômeno corporificado. Essa corporificação reconhece sua complexidade situada em todas as suas facetas: é uma forma de sentimento, envolve uma forma de julgamento (o “errado” implícito) e uma cognição, no sentido de que o sentimento diz respeito a algo com que quem o sente se importa (valores, esperanças relacionais) numa situação vivida. Esperamos que coexplorações centradas em notar, compartilhar e reconhecer os desassossegos relacionais possam ajudar quem atravessa esses desassossegos a compreender melhor suas circunstâncias, de maneiras que as ajudem a realizar suas esperanças relacionais.

Complexe Systémique: a reter

Esta entrevista vale, antes de tudo, por um gesto de método. Em vez de tratar o mal-estar da pessoa terapeuta como um ruído a neutralizar, a equipe de Calgary o toma como informação sobre o sistema: o desassossego nasce na família, propaga-se ao sistema terapêutico e torna-se “um chamado à ação”. Tomm, porém, recusa “acolhê-lo”, o que equivaleria a procurá-lo: vai-se até ele quando ele está lá, e nomeia-se para se diferenciar dele. O caso de Colleen mostra o preço dessa escolha, e seus apoios. Colocar “o propósito da lei acima da letra da lei” só foi sustentável porque a menina estava segura com a avó e porque a equipe dividia a decisão com ele. Não é uma receita: a notificação continua sendo uma obrigação, e o texto não diz o que teria acontecido se a família extensa não tivesse se mantido firme. A cena mais transmissível está em outro lugar: o dia em que o diretor reconhece diante da equipe um erro de entrevista e toda a equipe finalmente ousa dizer suas próprias dúvidas. Ler com a entrevista sobre erros e dilemas no trabalho com adolescentes e com a entrevista com Humberto Maturana, de onde vem a ideia de “fazer emergir” um mundo por nossas distinções.

Notas do original

Conflito de interesses. A equipe de pesquisa declara não ter conflitos de interesses.

Agradecimentos. Este estudo foi financiado em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasil, código de financiamento 001, e em parte pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bolsa de produtividade, Brasil.

Referências

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Tomm, K., S. St. George, D. Wulff, and T. Strong. 2014. Patterns in Interpersonal Interactions: Inviting Relational Understandings for Therapeutic Change. Routledge.

Tradução não oficial em português de Fazer emergir generatividades no seio do desassossego relacional: uma entrevista com Karl Tomm, de Carla Guanaes-Lorenzi, Mónica Sesma-Vazquez, Joaquín Gaete Silva, Inés Sametband e Karl Tomm, Family Process, vol. 64 (2025), doi: 10.1111/famp.70030, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Bringing Forth Generativities Within Relational Disquiet: An Interview With Karl Tomm”, publicado em Family Process (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Guanaes-Lorenzi, C., Sesma-Vazquez, M., Silva, J. G., Sametband, I., & Tomm, K. (2025). Fazer emergir generatividades no seio do desassossego relacional: uma entrevista com Karl Tomm (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/fazer-emergir-generatividades-no-seio-do-desassossego-relacional-uma-entrevista-com-karl-tomm (Obra original publicada em 2025 em Family Process, 64(1), e70030 (2025); republicada em 2025 por Family Process, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/famp.70030)

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