Frontiers in Psychology · Terapia familiar
Por que uma metáfora ajuda numa sessão? Para Zuzanna Rucińska e Thomas Fondelli, que cruzam filosofia e clínica, o que conta não é o que ela diz, mas o que se faz com ela. Cruzando a terapia sistêmica colaborativa e a cognição corporificada e enativa, o artigo mostra, a partir de duas sessões com adolescentes, como palavras de ação enxertadas na metáfora da própria pessoa abrem um senso de agência.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Pôr em ato as metáforas na terapia sistêmica colaborativa, de Zuzanna Rucińska e Thomas Fondelli, publicado na Frontiers in Psychology (Frontiers Media) (2022), doi: 10.3389/fpsyg.2022.867235, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os trechos de sessões são apresentados em forma de diálogos; a declaração sobre a disponibilidade dos dados e a nota do editor não foram reproduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Não é o que a metáfora diz, mas o que se pode fazer com ela para produzir um senso de agência, que faz a metáfora funcionar.
Zuzanna Rucińska e Thomas Fondelli
Resumo
O que faz das metáforas boas ferramentas terapêuticas? Neste artigo, respondemos a essa pergunta analisando como as metáforas funcionam nas práticas terapêuticas sistêmicas colaborativas. Examinamos as propostas recentes, corporificadas, enativas e ecológicas, sobre as metáforas e apresentamos nossa própria concepção, dialógica e enativa, segundo a qual as metáforas são ferramentas para pôr em ato a mudança nos diálogos terapêuticos. Destacamos o papel de pôr as metáforas em ato na terapia, o que diz respeito à maneira como se usam as metáforas num processo compartilhado de comunicação. Nossa resposta é que as metáforas são boas ferramentas para se conectar a palavras de ação, por meio das quais se podem explorar a corporeidade e a agência da pessoa atendida. Para ilustrar nosso ponto de vista, analisamos dois exemplos de metáforas postas em ato em encontros terapêuticos com adolescentes. Nossa proposta enativa sobre as metáforas se distingue das demais por não depender de performances explícitas, mas permanecer no diálogo verbal. Consideramos o engajamento metafórico um ato de construção participativa de sentido, que se desdobra na interação. Essa ideia decorre de modos enativos de pensar a linguagem como um processo realizado por agentes corporificados em interação, e de ver também o falar como uma forma de fazer.
As metáforas são usadas com frequência em muitas terapias, seja para explorar os problemas de quem consulta, gerar novas compreensões ou introduzir um novo olhar sobre a vida dessas pessoas (ver, por exemplo, Tay, 2013; Stoddard e Afari, 2014; Stilwell et al., 2021). As metáforas também são uma ferramenta importante na terapia sistêmica colaborativa, em que servem para explorar a experiência de quem consulta e facilitar a mudança (Anderson, 1997; Antoine, 2017).
Mas o que faz das metáforas boas ferramentas terapêuticas? A teoria conceitual clássica da metáfora (Lakoff e Johnson, 1980, 1999) propõe que o pensamento metafórico se baseia numa transgressão consciente de categorias estabelecidas e num mapeamento de um domínio-fonte para um domínio-alvo. Nesse quadro linguístico, as metáforas permitem uma “transferência de sentido”, ou seja, pensar uma coisa nos termos de outra. Neste artigo, propomos responder a essa pergunta a partir de outra perspectiva, a da cognição corporificada e enativa (CCE, em inglês Embodied and Enactive Cognition) e da terapia sistêmica colaborativa. As concepções corporificadas e enativas das metáforas (Gallagher e Lindgren, 2015; Stilwell et al., 2021) ancoram o pensamento metafórico em processos corporais e motores e propõem que as metáforas sejam postas em ato em interações físicas em curso. A abordagem enativa, em particular, propõe uma nova maneira de pensar as metáforas. Ela se afasta da visão das metáforas como símbolos linguísticos que apenas “renomeiam” uma coisa como outra. Sugere, em vez disso, que as metáforas podem emergir em atividades de construção participativa de sentido (De Jaegher e Di Paolo, 2007), servir como meios para prolongar o engajamento e deveriam ser tratadas como ferramentas úteis para a interação e a comunicação (Rucińska et al., 2021). Além disso, destacamos a ideia de que podemos pôr as metáforas em ato. Pôr metáforas em ato diz respeito à maneira como se usam as palavras num processo compartilhado de comunicação. Mostraremos que, e isto é importante, nem sempre é a metáfora sozinha que produz a mudança no contexto terapêutico; é o uso hábil da metáfora pela pessoa terapeuta que permite ao diálogo metafórico gerar novos significados e novas possibilidades de ação. Para situar nossas ideias, apresentaremos exemplos da prática terapêutica sistêmica colaborativa. A abordagem sistêmica colaborativa da psicoterapia já adota a ideia de que a psicoterapia consiste em criar um contexto no qual terapeuta e pessoas atendidas, em conversa, exploram e coconstroem juntas novos significados (Anderson, 1997; Rucińska e Reijmers, 2015).
Nossa abordagem enativa das metáforas difere de outras propostas recentes (Gallagher e Lindgren, 2015; Stilwell et al., 2021), que se concentram sobretudo nos movimentos e nas performances corporais envolvidos em pôr metáforas em ato, deixando uma lacuna explicativa quando se trata de falar de metáforas postas em ato apenas no diálogo. Sustentamos que as metáforas podem ser postas em ato não só na brincadeira e no movimento, mas também no diálogo, já que falar também é uma forma de fazer. Em consequência, podemos pôr em ato diferentes possibilidades e encontrar novos sentidos ou significados na conversa terapêutica. Na verdade, uma expressão nem precisa ser uma metáfora consagrada para ser posta em ato como tal no diálogo.
O artigo está organizado da seguinte forma. Na seção “A terapia sistêmica colaborativa encontra a cognição corporificada e enativa”, apresentamos os princípios centrais da terapia sistêmica colaborativa e mostramos como ela se articula com a CCE. Na seção “As metáforas na psicoterapia e nas práticas sistêmicas colaborativas”, discutimos como as metáforas são usadas na prática sistêmica colaborativa e, na seção “Metáforas corporificadas, enativas e ecológicas”, esclarecemos como a CCE vê as metáforas. Na seção “Como as metáforas funcionam?”, analisamos como as metáforas corporificadas, postas em ato e ecológicas supostamente funcionam. Na seção “Pôr metáforas em ato no diálogo: exemplos da prática terapêutica”, ilustramos com dois exemplos da prática terapêutica sistêmica o que significa pôr metáforas em ato no diálogo. Na seção “O que faz das metáforas boas ferramentas terapêuticas? Uma análise”, analisamos o que, a nosso ver, faz das metáforas boas ferramentas terapêuticas. A essência de nossa proposta é que as metáforas funcionam melhor no diálogo terapêutico quando são associadas a palavras de ação. As palavras de ação permitem à pessoa terapeuta mudar o sentido das metáforas geradas por quem consulta e lançar as bases para que essa pessoa vivencie cada vez mais um senso de agência. Assim, o caráter transformador das metáforas nos encontros terapêuticos reside em seu uso, na medida em que elas podem ser ligadas a palavras de ação, fortalecendo dessa forma a agência da pessoa atendida e favorecendo a coconstrução de significados compartilhados (ou construção participativa de sentido).1 A seção “Conclusão e desdobramentos” encerra o artigo com reflexões sobre a aplicabilidade de nossa proposta a outros contextos terapêuticos e com pistas para trabalhos futuros.
Uma abordagem sistêmica da psicoterapia propõe que as pessoas são nós numa rede complexa de relações que as afetam em seu pensar, sentir e fazer; ela se concentra nas influências mútuas e complexas entre quem consulta e as redes em que essa pessoa está entrelaçada (Bertrando, 2007). Ao contrário do que muitas vezes se pensa, as abordagens sistêmicas da psicoterapia não se limitam ao trabalho com casais ou famílias: o paradigma sistêmico, em que as pessoas são entendidas como nós em redes de relações, permite trabalhar com indivíduos, casais, famílias e grupos (Boscolo e Betrando, 1996; Viou e Georgaca, 2019). A terapia sistêmica colaborativa, tal como desenvolvida, entre outras pessoas, por Harlene Anderson, é um tipo de terapia sistêmica que se concentra especificamente em desenvolver uma relação colaborativa entre terapeuta e pessoa atendida e em engajar-se em diálogos que estimulem o crescimento e a mudança. A terapia sistêmica colaborativa enfatiza que os sistemas sociais são sistemas linguísticos (Anderson, 1997): é por meio da linguagem, falada ou não, que as pessoas dão sentido a si mesmas, aos outros e ao mundo em que vivem (Anderson e Goolishian, 1992). Os significados que as pessoas cocriam são significados socialmente construídos: tomam forma em diálogos e interações (Rucińska e Reijmers, 2015), que por sua vez são influenciados por discursos sociais e culturais mais amplos e precisam ser situados neles. Na construção colaborativa de histórias e significados, terapeuta e pessoa atendida se empenham para que esta vivencie um “senso relacional de agência” (De Mol et al., 2018), que se refere à maneira como as pessoas podem voltar a vivenciar que fazem (ou podem fazer) diferença nas redes de relações em que vivem. No espaço dialógico que se cria entre terapeuta e pessoa atendida, esta pode vivenciar de novo como aparece em contextos relacionais de uma multiplicidade de formas e, assim, desenvolver novas perspectivas sobre si mesma, sobre o outro e sobre o mundo.
Essa perspectiva sistêmica, informada pelo pensamento pós-moderno, exige também um olhar crítico sobre a posição de quem exerce a terapia. Em algumas correntes terapêuticas, atribui-se à pessoa terapeuta uma posição de especialista: cabe a ela julgar o que é normal ou patológico, o que causa a patologia e o que é necessário para recuperar a saúde. De uma perspectiva sistêmica pós-moderna, porém, a pessoa terapeuta também é um nó numa rede de relações que influencia a maneira como ela dá sentido ao que percebe. Seu pensamento, assim como o das pessoas que atende, é socialmente construído e, portanto, não é mais (nem menos) “verdadeiro” do que o da pessoa atendida. Abandona-se a ideia de uma expertise da pessoa psicoterapeuta sobre a vida de quem consulta, em favor de uma psicoterapia entendida como coconstrução (Gergen e Warhus, 2001). Nisso, a tarefa da pessoa terapeuta tem duas faces. Por um lado, cabe a ela criar um contexto no qual as pessoas atendidas se sintam seguras o bastante para compartilhar suas histórias. Por outro, a partir de uma posição de não saber (posição caracterizada pela curiosidade e pela reflexividade, na qual a pessoa terapeuta está aberta a aprender sobre quem consulta e não presume depressa demais que “sabe” qual é o problema dessa pessoa), é sua tarefa facilitar um diálogo em que novos significados, mais viáveis, possam ser gerados (Rober, 2005; Anderson, 2012). Assim, o foco da terapia sistêmica não está em “descobrir” ou “revelar” experiências como tais, mas no efeito que o diálogo terapêutico tem sobre a pessoa atendida, dentro e fora da sala de terapia.
Embora a corporeidade e as interações não verbais sempre tenham ocupado lugar central na prática terapêutica sistêmica (Jackson, 1957; Satir et al., 1991; Wilson et al., 2020),2 os desenvolvimentos teóricos recentes, centrados na linguagem e nas histórias, parecem ter criado uma “lacuna” entre a teoria sistêmica e sua prática (Bertrando e Gilli, 2008).3 Propomos que é aí que o referencial da CCE pode ajudar.
A concepção corporificada e enativa da cognição (CCE), dois pilares da “ciência cognitiva 4E” (ver Newen et al., 2018), tem uma série de conceitos centrais muito próximos do pensamento sistêmico e, por isso, poderia enriquecer a teoria sistêmica. A CCE se opõe às concepções cognitivistas e computacionais clássicas da cognição, que reduzem os processos cognitivos a manipulações de informação no cérebro. A cognição, argumenta-se, está ancorada em sistemas perceptivos e sensório-motores mais amplos e se desenvolve em interação com o ambiente. A cognição “corporificada” remete à ideia de que a cognição não se limita ao que acontece no cérebro, mas inclui processos dentro e fora dele. A cognição “enativa” remete à ideia de que a cognição envolve mais do que o corpo: envolve interações explícitas, adaptativas e recíprocas entre o agente e seu ambiente. As propostas da CCE costumam incluir a noção de affordance, oriunda da psicologia ecológica. As affordances são possibilidades de ação oferecidas a um agente pelo ambiente, que emergem da relação entre ambos.
Talvez sem surpresa, as terapias de orientação corporal e as arteterapias logo encontraram nessa nova abordagem da cognição um fundamento e uma inspiração para sua prática (Röhricht et al., 2014; Samaritter e Payne, 2016). Para as abordagens terapêuticas que enfatizam o movimento e a interação não verbal, essa abordagem da cognição oferece uma base sobre a qual fundamentar as ações da pessoa terapeuta e esclarecer como a mudança terapêutica acontece. Mas e a terapia sistêmica colaborativa, com seu foco na linguagem e no diálogo?
Aqui, ressaltamos que a CCE também pode se estender às práticas linguísticas. A linguagem, segundo os enativistas, é um fluxo de atividade num mundo sociomaterial de práticas (Di Paolo et al., 2018). Não é uma atividade descorporificada ou desacoplada de mentes superiores, mas uma atividade que emerge na interação social. Os enativistas usam o termo languaging para falar das atividades ligadas à linguagem, que incluem a fala, mas também comportamentos não verbais como os gestos e a imitação. O languaging capta a “continuidade entre os engajamentos corporais e as atividades, incluindo a fala e os comportamentos verbais” (Jensen, 2014, p. 6). A linguagem é, portanto, um processo cultural, ancorado na biologia humana e em práticas sociomateriais, que capta tanto a dimensão emocional quanto a dimensão afetiva das interações humanas. Isso permite que a terapia sistêmica colaborativa se apoie na CCE, pois encontra ali sustentação para a ideia de que o diálogo também é uma atividade corporificada.
Vamos agora examinar brevemente o papel das metáforas nas psicoterapias clássicas e sistêmicas e, em seguida, analisar o que podemos aprender sobre as metáforas a partir da perspectiva da CCE.
Na literatura psicoterapêutica, o termo “metáfora” costuma receber um sentido muito amplo. A metáfora designa simplesmente “um modo de falar em que uma coisa é expressa nos termos de outra” (Kopp, 1971, p. 28). A reflexão sobre o papel das metáforas na psicoterapia tem uma tradição longa e rica (ver, por exemplo, Tay, 2013). Numa tentativa de organizar a multiplicidade de formas pelas quais as metáforas podem influenciar os processos terapêuticos, Lyddon et al. (2001) propuseram a seguinte classificação: (1) construção da relação entre terapeuta e pessoa atendida, (2) acesso às emoções da pessoa atendida e simbolização dessas emoções, (3) revelação e questionamento de seus pressupostos tácitos, (4) trabalho com suas resistências e (5) introdução de novos quadros de referência.
Segundo Tay (2016), a literatura sobre o uso e o papel das metáforas nos processos terapêuticos mostra duas grandes tendências: uma abordagem centrada na pessoa terapeuta e uma abordagem centrada na pessoa atendida. Numa abordagem centrada na pessoa terapeuta, o foco está nela como autora da metáfora. Examina-se e descreve-se aquilo a que a pessoa terapeuta precisa estar atenta ao conceber metáforas, levá-las ao diálogo com as pessoas que atende e usá-las nos processos terapêuticos. Algumas correntes terapêuticas veem no encadeamento de metáforas uma oportunidade para quem faz terapia se comunicar indiretamente com o inconsciente da pessoa atendida, evitando assim a resistência consciente (Erickson e Rossi, 1976; Roffman, 2008; Burns, 2012). Mas a literatura também descreve formas de usar as metáforas de maneira mais explícita. As metáforas oferecem a terapeutas um modo de discutir concretamente com as pessoas atendidas hipóteses, ideias ou conselhos muitas vezes abstratos (Lakoff e Johnson, 1980; Tay, 2013, 2017). Para apoiar terapeutas nesse sentido, existem manuais que oferecem inúmeras metáforas a serem usadas quando se julgar útil ou necessário (Blenkiron, 2011; Stoddard e Afari, 2014).
A literatura de uma abordagem das metáforas centrada na pessoa atendida se concentra sobretudo nela como autora da metáfora. Essa abordagem está em sintonia com abordagens mais não diretivas da psicoterapia e vê as metáforas como um meio para as pessoas atendidas verbalizarem o que pensam, sentem e vivenciam (Lakoff e Johnson, 1980; McMullen, 1996). O foco está principalmente no conteúdo da metáfora, e a pessoa terapeuta interpreta a metáfora de quem consulta a partir de seu próprio quadro de referência. A metáfora é vista, então, como uma porta de acesso para revelar uma psicopatologia (Rhodes e Jakes, 2004; Coll-Florit et al., 2021) ou pensamentos e sentimentos inconscientes (Borbely, 2008). No entanto, uma abordagem mais orientada para o processo, como a terapia sistêmica colaborativa, enfatiza a importância de pôr entre parênteses as próprias interpretações e de se ater o máximo possível ao processo e à construção de sentido da pessoa atendida (Kopp e Craw, 1998; Sims, 2003; Rucińska et al., 2021). Na perspectiva terapêutica sistêmica colaborativa, as metáforas podem ser geradas tanto pela pessoa atendida quanto pela pessoa terapeuta (Rober, 1999). Independentemente de quem gere a metáfora, ela serve para coconstruir novas histórias. A metáfora em si não oculta nenhuma “verdade”, nem pretende transmitir “conhecimento” ou “insights”, mas pode oferecer um modo de investigar experiências de outra perspectiva.
Embora as metáforas sejam parte integrante da prática psicoterapêutica e muitíssima pesquisa e reflexão tenham sido produzidas ao longo dos anos sobre seu papel nos processos psicoterapêuticos, Tay (2017) se preocupa com a pouca atenção dada à maneira como a teoria contemporânea da metáfora pode enriquecer a prática psicoterapêutica. Daí nossa pergunta: o que, nas metáforas, faz delas boas ferramentas terapêuticas? Nossa resposta se situará nas abordagens da metáfora oriundas da CCE, em particular a abordagem enativista, que vê as metáforas como ferramentas para práticas conjuntas de construção de sentido. Para compreender os processos de construção de sentido nos engajamentos metafóricos, voltamo-nos agora para a CCE, que vê as metáforas como corporificadas, postas em ato ou ecológicas, e discutimos como ela pode enriquecer e fundamentar o uso de metáforas geradas pelas pessoas atendidas na terapia sistêmica colaborativa.4
Na literatura filosófica, a metáfora costuma ser vista como um recurso literário que envolve a transgressão consciente de categorias estabelecidas e nos permite compreender um tipo de coisa (muitas vezes abstrata ou pouco familiar) nos termos de outra (mais concreta e familiar; Lakoff e Johnson, 1980; Stilwell et al., 2021). Recentemente, porém, as metáforas deixaram de ser tratadas apenas como entidades linguísticas (figuras de linguagem) ou processos linguísticos (mapeamentos fonte-alvo) e passaram a ser vistas como processos cognitivos e imaginativos (Gibbs, 2006), processos perceptivos (Szokolszky, 2019) ou até como affordances e figuras de ação (Jensen e Greve, 2019). Por exemplo, a visão dinâmica da metáfora (Müller e Tag, 2010) propõe um entrelaçamento dinâmico de processos sociais, cognitivos e afetivos na produção e na compreensão das metáforas e integra sistematicamente processos sociais e cognitivos para analisar a ativação de metáforas na interação conversacional. Neste artigo, não pretendemos oferecer um panorama completo de todas as propostas disponíveis sobre como pensar as metáforas. Faremos, contudo, uma breve caracterização de algumas das abordagens corporificadas, enativas e ecológicas mais recentes da metáfora (Machielsen, 2019; Szokolszky, 2019; Stilwell et al., 2021), a fim de situar nossa própria abordagem, dialógica e enativa, do uso de metáforas na terapia.5
Partiremos da afirmação de que as metáforas são corporificadas, uma ideia tão difundida que não deveria ser controversa. Mas o que significa exatamente, para uma metáfora, ser corporificada? A literatura sobre metáforas se refere a diferentes sentidos de corporificação, que vale a pena mapear. Ao dizer que “as metáforas são corporificadas”, pode-se querer dizer, no mínimo, uma das seguintes coisas: as metáforas têm raízes sensório-motoras, dependem de simulações motoras, exigem a ativação de circuitos físicos no córtex motor ou envolvem processos corporais afetivos, e essa lista não é exaustiva. Tentaremos desdobrar alguns desses diferentes sentidos em jogo.
Por exemplo, o conceito de “metáfora corporificada” pode se referir ao fato de que as metáforas existentes têm raízes corporais, como se vê nos exemplos de Lakoff (2008, 2012) e de Lakoff e Johnson (1999). Nessa perspectiva, embora as metáforas sejam unidades linguísticas, a linguagem que os seres humanos desenvolveram está ancorada em suas experiências físicas, e as metáforas conceituais podem se apoiar em experiências corporificadas. Segundo Lakoff (2008), todas as metáforas conceituais complexas podem ser decompostas em metáforas primárias, e as metáforas primárias são adquiridas “andando pelo mundo, movendo-se e percebendo constantemente” (Lakoff e Johnson, 1999, p. 57). Por exemplo, “AFETO É CALOR” é uma metáfora primária, pela qual associamos o calor físico à cordialidade. Isso ocorre, segundo Lakoff, “porque as metáforas primárias são circuitos físicos persistentes (duradouros ou permanentes) no cérebro” (Lakoff, 2012, p. 782; ver também Kompa, 2017, p. 203).
Às vezes, porém, nosso corpo não apenas serve de ancoragem para o pensamento metafórico, mas também parece servir de referência para compreender usos criativos e singulares da linguagem. As metáforas desencadeiam respostas corporais que nos permitem “vivenciar” o sentido de uma metáfora. Por exemplo, segundo Raymond Gibbs (2006), compreender metáforas que contêm um verbo de ação é imaginar-se ativamente realizando essa mesma ação. E, segundo Littlemore (2019), a metáfora corporificada se caracteriza por uma experiência corporal visceral usada para descrever algo abstrato. As metáforas corporificadas podem ter uma forte associação física ou provocar fortes reações físicas. Aqui, “corporificado” descreve situações em que se tem uma resposta física manifesta a palavras.
Segundo Littlemore (2019), as metáforas diferem no grau em que são corporificadas. Há metáforas que provocam uma resposta neurológica, há metáforas que podem apelar às nossas experiências com o corpo e ao que sabemos sobre ele, e há metáforas que também podem ser compreendidas porque fazem parte de nossa língua ou de nossas convenções, já que nasceram da história de nossas experiências e interações corporificadas. O sentido de corporificação que queremos destacar, no entanto, é que há um papel explícito do corpo na formação da compreensão das metáforas, ligado à enação: o movimento e a atividade corporais em curso. Passamos agora à proposta enativa.
Consideramos que Gallagher e Lindgren (2015) oferecem um bom exemplo de uma abordagem enativista das metáforas. Nas palavras de Gallagher e Lindgren:
O termo enativo aqui não designa um tipo diferente de metáfora em si, mas um tipo diferente de engajamento com a metáfora. Mais especificamente, podemos dizer que uma metáfora enativa é aquela que pomos em ato, isto é, aquela que pomos em ação ou que fazemos existir por meio da nossa ação (p. 392).
Gallagher e Lindgren contrastam as metáforas enativas com as metáforas sentadas (aquelas encontradas na leitura de um livro, que ficam “sentadas” na página esperando que alguém as descubra ao ler). As metáforas enativas, ao contrário, “fazem coisas, mas só quando nos engajamos com elas de alguma forma” (ibid., p. 392). O foco está em como podemos pôr as metáforas para trabalhar em situações reais de aprendizagem, e o artigo dá um exemplo de metáforas postas em ato em contextos específicos.6 Em suma, a proposta enativista é que as metáforas se realizam na ação participativa, que seus significados são criados na interação e que elas fazem parte da construção conjunta de uma nova realidade (Rucińska e Reijmers, 2015).
A partir da abordagem ecológica, Jensen e Greve (2019) propõem uma concepção um tanto semelhante das metáforas como produtos de sistemas organismo-ambiente. Jensen e Greve veem o engajamento metafórico como “uma forma de fazer que está inserida nos modos como fazemos as coisas no mundo e, como tal, pode ser entendida como manipulações hábeis de ambientes de qualquer tipo” (p. 2). A proposta é pensar as metáforas por meio do conceito de affordance, que tem a vantagem de nos ajudar “a focar a metáfora como parte de nossos fazeres ativos, e não como processos mentais internos ou traços estilísticos” (p. 12-13). Fala-se ainda em níveis de metaforicidade das palavras, para contestar a ideia de que os sentidos literal e figurado se distinguem nitidamente. Segundo essa proposta,
a metaforicidade precisa ser vista como um valor escalar; algo que está mais ou menos ativado ou presente (…). Notadamente, a metaforicidade não se restringe (ao significado das) palavras ou ações verbais, mas [depende] de uma variedade de atividades e sensações corporais (2019, p. 10).
Tanto as propostas enativistas quanto as ecológicas notam que os significados metafóricos surgem nas interações. Os enativistas argumentam que construímos nossos significados por meio da construção participativa de sentido, a ideia de que o sentido é alcançado conjuntamente por meio de uma história de rupturas e recuperações na coordenação interativa (De Jaegher e Di Paolo, 2007). Damos sentido ativamente, de modo contínuo, aos nossos ambientes: engajamo-nos em processos interativos de fazer surgir, ou pôr em ato, um mundo de relevância. A visão ecológica das metáforas como affordances permite que as metáforas façam parte dessas práticas de construção de sentido.
As propostas corporificadas, enativas e ecológicas fundamentam a visão das metáforas que compartilhamos. Nossa proposta se diferencia das demais na reflexão sobre como pôr metáforas em ato efetivamente produz mudança. Passamos agora a uma análise de como as metáforas da CCE supostamente funcionam, seguida de nossa proposta de pôr metáforas em ato no diálogo terapêutico.
Expusemos acima a essência das abordagens corporificada, enativa e ecológica das metáforas. Mas isso ainda não basta para explicar como as metáforas funcionam, nem o que, no fato de serem corporificadas, postas em ato ou ecológicas, permite que as metáforas nos tragam novos significados. Nesta seção, procuramos oferecer um breve panorama de como as metáforas supostamente funcionam nos modelos corporificado, enativo e ecológico, cada análise seguida de uma crítica ou ressalva relativa ao método em questão. Em seguida, propomos preencher uma lacuna das explicações disponíveis com nossa própria proposta.
Segundo uma primeira explicação, as metáforas funcionam porque nos permitem ver semelhanças entre duas entidades normalmente consideradas distintas (Szokolszky, 2006, 2019). Trata-se de uma habilidade que, de uma perspectiva representacional, é uma tarefa cognitiva complicada (Norbury, 2005).7 Mas a psicologia ecológica consegue explicá-la bem. A psicologia ecológica fala da captação direta de um padrão invariante num arranjo informacional específico tanto da fonte da metáfora quanto de seu alvo (por exemplo, o arranjo informacional comum a fogos de artifício e flores, que permite considerar metaforicamente os fogos de artifício como “flores no céu”).8 Segundo Agnes Szokolszky (2006), a metáfora prototípica se baseia numa semelhança compartilhada claramente perceptível (e/ou em “affordances compartilhadas”) entre dois objetos. Encontrar uma semelhança lança a base de uma metáfora, pois cria a possibilidade de perceber uma coisa nos termos de outra (por exemplo, um sapato nos termos de um barco) e, por sua vez, de dizer algo metaforicamente. Essa visão enraíza a capacidade de agir sobre metáforas em processos perceptivos simples, e não em processos cognitivos complexos, como o pensamento contrafactual ou a capacidade de representar uma coisa como outra. Assim, embora se acreditasse que a metáfora pressupunha habilidades de classificação fora do alcance da criança em idade pré-escolar, a perspectiva ecológica considera as metáforas ferramentas de aprendizagem que até crianças pequenas podem desenvolver, porque, dessa perspectiva, a metaforicidade é um fenômeno perceptivo.
Embora compartilhemos com a abordagem ecológica o cuidado de não superintelectualizar os mecanismos subjacentes aos engajamentos metafóricos, pensamos que a fonte e o alvo de uma metáfora não precisam compartilhar semelhanças estruturais nem se parecer de modo algum. Muitas metáforas são conceituais (por exemplo, “o amor é um campo de batalha”) e não permitem a captação de nenhum padrão informacional perceptivo. E o compartilhamento de affordances é uma afirmação ampla demais, já que fonte e alvo podem compartilhar um número infinito de affordances (possibilidades de ação), como a possibilidade de discorrer sobre elas. Não é isso que torna a visão perceptiva especial para explicar como as metáforas funcionam, pelo menos não no contexto terapêutico sistêmico colaborativo. Além disso, ainda que a psicologia ecológica possa responder que só trata das metáforas prototípicas, e não das conceituais, há outra questão em jogo: a passividade dessa abordagem. Na terapia, a ênfase está no papel ativo da ação e da interação dinâmicas em relação às affordances do discurso metafórico. O simples ato de ver semelhanças entre a metáfora e sua fonte, ou de prestar atenção às origens corporais das metáforas, não basta. Em nossa proposta, vamos nos concentrar em agir sobre as metáforas. Nesse sentido, não vemos a metaforicidade como algo que exija a percepção de semelhanças ou de “affordances compartilhadas”, mas propomos pensar as metáforas como ferramentas para novas formas de ver e de interagir.
Segundo outra explicação, as metáforas corporificadas funcionam porque remetem às nossas experiências pessoais e vividas (por exemplo, Littlemore, 2019). Essas metáforas se baseiam em correlações vivenciadas entre os domínios-fonte e alvo, e não em semelhanças percebidas. As correlações vivenciadas remetem às nossas experiências e sensações corporificadas e vividas no passado, o que torna mais provável que nos afetem neurologicamente quando as ouvimos.
Uma ressalva à afirmação de que as metáforas estão ancoradas em experiências corporais é que ela parece sugerir que essas metáforas desencadeariam compreensões personalizadas e individuais, já que cada metáfora se baseia na experiência corporificada própria de cada pessoa. Correr-se-ia então o risco de as metáforas não serem compreensíveis para os outros. Essa visão, porém, não é um problema se for combinada com o enativismo e a construção participativa de sentido. A construção participativa de sentido está em parte ancorada em nossas experiências corporais, mas, sobretudo, sugere que a construção de sentido é um ato conjunto, que se desenvolve intersubjetivamente. Nossas interações sociais mudam a forma como percebemos e compreendemos o mundo. Nenhuma pessoa escolhe sozinha o sentido de suas experiências; as experiências ganham sentido na interação com os outros, negociadas dentro de uma prática cultural. Na prática, isso significa que o sentido de uma metáfora é flexível e toma forma no contexto em que é usada. Uma mesma metáfora poderia até ser “reutilizada”, como mostraremos adiante. Partimos dessa ideia para discutir, na próxima seção, como as metáforas ganham sentido no contexto de um diálogo terapêutico.
Segundo mais uma explicação, as metáforas corporificadas funcionam porque desencadeiam respostas sensório-motoras, como descrevem algumas das propostas corporificadas (Schaefer et al., 2015; ver também Kompa, 2017). Aqui, a fonte e o alvo da metáfora não precisam se assemelhar estruturalmente; o que acontece é a ativação das regiões cerebrais que também seriam ativadas se de fato vivenciássemos o que a metáfora expressa. Kompa (2017) chama isso de “simulação”, embora se refira aos processos sensório-motores envolvidos na reencenação de uma experiência corporificada.9 Veja-se a explicação de Kompa (2017) sobre como as metáforas funcionam por simulação:
A ideia, basicamente, é que, para compreender uma expressão linguística, é preciso simular a experiência correspondente. Quando ouço a palavra “agarrar”, simulo (reenceno) a ação de agarrar. E, como já agarrei coisas antes, terei êxito e chegarei a compreender a palavra em questão. A simulação, por sua vez, requer ativação nas regiões sensoriais e motoras (bem como afetivas) do cérebro, porque, ao simular uma experiência particular, exibimos aproximadamente o mesmo padrão de atividade neural que acompanhou a experiência inicial. A compreensão da linguagem envolve de modo crucial o recrutamento do sistema sensório-motor (p. 196-197).
Concordamos com a afirmação de que a compreensão da linguagem é uma atividade sensório-motora. Há uma grande quantidade de evidências das neurociências e das ciências cognitivas que a sustentam, incluindo o fato de que alguns verbos de ação provocam ativação do córtex motor (Barsalou, 1999; Hauk et al., 2004).10 No entanto, Kompa (2017) argumenta que a simulação (tal como descrita acima) não dá conta da compreensão das metáforas porque “nos fornece uma teoria da interpretação literal. Mas interpretar metáforas exige que deixemos o sentido literal para trás (…). Compreender metáforas exige olhar as coisas de modo diferente do que antes” (p. 206). Considere-se a metáfora “AGARRAR uma IDEIA”. É a ativação dos mesmos neurônios de quando realmente agarramos uma xícara que nos permite compreender a metáfora em questão? Kompa contesta isso, argumentando que simular (ou, em termos da CCE, reencenar) nossas experiências corporais anteriores, ativando os processos sensório-motores relacionados ao agarrar quando pensamos na metáfora “AGARRAR uma IDEIA”, ainda não nos leva a compreender sua metaforicidade.
Embora a objeção de Kompa mereça ser analisada com mais detalhe no futuro, sugerimos que, para fins terapêuticos, a ideia da mera ativação de circuitos sensório-motores ligados a palavras de ação durante a fala dessas palavras de fato não é central, já que não é no desencadeamento de processos sensório-motores (como a ativação sensório-motora do agarrar com a mão) que a metáfora é posta em ato: é no diálogo. Se trabalhássemos com a metáfora “AGARRAR uma IDEIA” na terapia sistêmica, ela funcionaria como metáfora porque a atividade de agarrar está ligada à rede mais ampla de significados que podemos associar e criar com a palavra de ação “agarrar”, como uma sensação de conquista ou a emoção do êxito. A nosso ver, é o que se pode fazer com a metáfora para produzir mudança que faz a metáfora funcionar, como explicaremos adiante.
Assim, embora haja vários caminhos pelos quais as metáforas podem funcionar, cada um adaptado a seu próprio contexto,11 vamos nos concentrar na ideia de Gallagher e Lindgren (2015) de que as metáforas funcionam porque são postas em ato: elas nos convidam a “representar [nossas] compreensões com [nosso] corpo” (p. 398), em vez de pensar por meio de mapeamentos de domínios-fonte para domínios-alvo. Como observam Gallagher e Lindgren, as metáforas enativas não são um tipo diferente de metáfora: a diferença está em como as usamos. O enativismo pode, assim, propor outra maneira de ver como as metáforas podem ser postas em ação, no diálogo, o que nos parece o mais produtivo para um contexto terapêutico.
Endossamos essa abordagem enativista de pôr metáforas em ato e vemos com simpatia as propostas enativistas mencionadas acima. Uma limitação das propostas disponíveis, porém, é que tratam a enação de modo bastante literal. Gallagher e Lindgren (2015) falam de pôr metáforas em ato em atos que são performances corporificadas de faz de conta: é movendo o corpo que as pessoas que atuam agem metaforicamente. Jensen e Greve (2019) dizem que a enação acontece “nos e por meio dos movimentos gestuais” (p. 18).12 E, mais recentemente, Stilwell et al. (2021) discutem metáforas de dor postas em ato na terapia e propõem que a metáfora é posta em ato quando a pessoa terapeuta aplica pressão manual à fonte da dor da pessoa atendida. Nem antes, nem depois: é no toque que as metáforas foram postas em ato.13 Em todos esses exemplos, a metáfora é literalmente encenada, com movimento, gesto ou toque físico. Stilwell et al. chegam a contrastar explicitamente as metáforas enativas com as metáforas verbais; estas últimas são vistas como parte da “educação passiva do paciente” (p. 243). Essa é uma visão bastante limitada da enação, já que o enativismo se estende também à linguagem. Assim, embora concordemos que às vezes é assim que podemos pôr metáforas em ato (do mesmo modo que podemos pôr explicitamente em ato nossas imaginações em performances de brincadeira de faz de conta; ver Rucińska e Gallagher, 2021), nosso argumento neste artigo, e o ajuste que fazemos às visões enativas disponíveis da metáfora, é que pôr metáforas em ato também pode acontecer na fala, já que falar também é uma forma de fazer. Propomos que nenhuma performance explícita, além da verbalização linguística, precisa ocorrer para que a metáfora seja, ainda assim, posta em ato, pois a linguagem também é um processo corporificado e enativo. Na próxima seção, esclarecemos como, a nosso ver, pôr metáforas em ato funciona no diálogo.
Seguindo a análise acima, propomos que, na terapia sistêmica, podemos pôr metáforas em ato no diálogo. Isso significa que, num contexto terapêutico, a pessoa terapeuta pode usar palavras e verbos de ação associados à metáfora para gerar novas possibilidades de ação para a pessoa atendida que introduz a metáfora. A pessoa terapeuta não precisa analisar o sentido da metáfora; ela cria novos significados com a metáfora tal como introduzida pela pessoa atendida, para dar juntas um novo sentido à situação dessa pessoa.
Tomemos como exemplo falar de depressão. Esse diagnóstico, por si só, não justifica novos comportamentos. A narrativa da “depressão” é estática e muitas vezes restritiva: uma vez recebido o diagnóstico, ele pode ter um efeito incapacitante sobre a pessoa (não se sabe o que fazer a respeito, senão aceitar suas consequências). Mas, quando uma pessoa procura terapia para lidar com sua depressão, pode ser útil, para ela e para a pessoa terapeuta, falar por meio de metáforas. Isso poderia funcionar porque verbos orientados para a ação podem ser facilmente associados a essas metáforas. A pessoa terapeuta pode se engajar com habilidade nas metáforas e brincar com elas (mais do que com termos de diagnóstico clínico) para abrir novas conversas com a pessoa atendida. Mostraremos isso no exemplo abaixo.
O que queremos destacar por ora é que as metáforas permitem uma experiência transformadora quando são postas em ato no diálogo. Mas essa enação não precisa ser uma performance corporal. Concebidas como affordances linguísticas, ou possibilidades de ações futuras viabilizadas pela linguagem, as metáforas dependem do uso. Na terapia, as metáforas podem funcionar como objetos ou ferramentas a serem manipulados. Assim, embora as metáforas possam funcionar graças a suas propriedades simbólicas, queremos destacar outra forma de funcionamento das metáforas que ainda não foi discutida em detalhe: elas funcionam quando atuam como affordances linguísticas para a ação. Atuar como affordances linguísticas para a ação significa abrir novos modos de languaging, de falar sobre as coisas e de dar sentido a elas.14 A seguir, apresentaremos dois exemplos de encontros terapêuticos sistêmicos para ilustrar nosso argumento.
Andy tem 15 anos e luta há vários anos contra uma obesidade mórbida. Seus pais se divorciaram quando ele tinha 10 anos. Ele se lembra de que, pouco depois do divórcio, começou a comer cada vez mais. Comer, diz ele, oferecia uma forma de conforto. Sua mãe ficou sozinha depois do divórcio. Para dar conta financeiramente da nova situação, trabalhava muitas horas. Por isso, Andy ficava muitas vezes sozinho em casa. No início, Andy não se incomodava muito com o peso que ia ganhando aos poucos. Mas isso mudou com a passagem para o ensino secundário. Lá, ele sofreu bullying e exclusão por causa do peso. Outros jovens lhe atiravam palavras como “elefante” e “baleia”. Ele passou a sentir cada vez mais vergonha da própria aparência e se trancou no quarto. Escondia-se atrás do computador e entrou numa comunidade de jogos on-line. Os hábitos alimentares pouco saudáveis e a vida sedentária o levaram a desenvolver uma obesidade mórbida. Toda esperança de mudança se derretia como neve ao sol. Ele se sentia preso no próprio corpo e impotente diante de sua situação. Ficava cada vez mais difícil ir à escola e suportar os olhares dos outros jovens. Quando Andy tinha 14 anos, sua mãe sugeriu que ele buscasse ajuda num centro médico de reabilitação pediátrica, onde jovens com obesidade recebem tratamento residencial multidisciplinar para retomar hábitos alimentares e de vida saudáveis e recuperar a autoconfiança. Levou um ano até Andy ter coragem de dar esse passo.
Numa de suas conversas com Andy (A), o terapeuta (T) explora a maneira como os olhares dos outros o afetaram.
T: Lembro, de uma de nossas conversas anteriores, que você era muitas vezes excluído e sofria bullying na escola. Apesar dessa situação difícil, você continuou indo à escola. Como você conseguiu?
A: Com o tempo, eu [vesti] um arnês. Esse arnês me ajudou a aguentar todas aquelas palavras. Era a única coisa que eu podia fazer contra todas aquelas coisas feias que as pessoas me diziam.
T: Então você vestiu um arnês como forma de se proteger? É isso?
Note-se como Andy usa espontaneamente uma metáfora para responder à pergunta do terapeuta. A metáfora não é escolhida ao acaso. Andy é gamer e joga jogos em que um arnês é muitas vezes usado para proteger o avatar contra um mundo virtual perigoso. Suas experiências com os games lhe oferecem um arsenal de imagens do qual ele pode escolher à vontade para expressar suas experiências na conversa com o terapeuta.
O terapeuta quer explorar mais, a partir da posição de não saber, as experiências de Andy com a escola. Decide fazê-lo “permanecendo com” a metáfora que Andy lhe deu (continuando a usá-la e a explorá-la) e faz outras perguntas a Andy:
T: Quando você está com seu arnês, não sente mais o [peso das] palavras [que machucam]?
A: Sinto, mas só um pouco. Se você é atingido [por essas palavras], ainda sente o golpe. [Com o arnês] só dói menos.
T: Certo, então você ainda sente o golpe das palavras, mas ele fica amortecido.
A: Isso mesmo.
T: E como era para você ter que andar por aí com um arnês desses?
A: Eu me trancava no quarto o máximo possível para não ter que ver ninguém. Assim eu não precisava vestir meu arnês.
T: E por que exatamente? Como era para você ter que andar por aí vestindo um arnês desses?
A: Era muito cansativo ter que ficar com ele o tempo todo. Gastava muita energia não deixar as pessoas verem como eu me sentia por dentro. Mesmo que isso variasse de um dia para o outro.
T: Ah, é? E [essa variação] tinha a ver com o quê?
A: Em parte [era] por causa da quantidade de golpes que eu tinha que aguentar. E, no fim de uma semana de aula, o arnês também parecia muito mais pesado do que no começo da semana.
De uma perspectiva terapêutica, poderíamos dizer que Andy usa a imagem de um “arnês” como metáfora de sua luta para se proteger de experiências dolorosas. Ele usa a metáfora como meio de expressar como lidou com o bullying. A imagem concreta do arnês o ajuda a pôr em palavras a complexidade de suas experiências. Mas, de uma perspectiva enativa, a metáfora oferece um “espaço compartilhado de affordances” (Gallagher, 2020, p. 113), dentro do qual Andy e o terapeuta podem se mover para explorar mais suas experiências. Como um arnês é algo tangível e concreto, tanto Andy quanto o terapeuta podem se referir aos aspectos multissensoriais ligados a usar ou vestir um arnês para iluminar as experiências de Andy. Um arnês pode ser tirado e vestido; pode ser pesado ou leve (e isso pode variar de um dia para o outro ou de um momento para o outro); e pode absorver os golpes de fora, embora alguns golpes ainda possam doer mais do que outros.
Com suas perguntas sobre o arnês (como é senti-lo, ou que ações ele permite), o terapeuta convida Andy a ir além de uma comparação estática. As experiências de bullying de Andy são contextualizadas e diferenciadas na linguagem da metáfora. Nesse diálogo metafórico e por meio dele, ocorre um deslocamento perceptível de sentido. Ao contextualizar e diferenciar, Andy aparece cada vez mais para o terapeuta como um rapaz que se esforçou muito para se manter firme num “campo de batalha” de comentários e palavras que machucam. Ele não é apenas um rapaz “com arnês”, escondido atrás de um escudo. É um rapaz que veste “uma armadura”, aguenta golpes e enfrenta o cansaço. Onde a metáfora inicialmente oferecia a affordance de se esconder, agora oferece também a de resistir e revidar. Ao deslocar o foco de uma comparação estática para uma exploração dinâmica, o terapeuta lançou as bases para que Andy passasse a se ver e a se vivenciar cada vez mais como um rapaz que age, interage e faz escolhas: um rapaz com agência. Isso também é perceptível no trecho seguinte:
T: Ouço você falar de como tinha que aguentar golpes e de como era cansativo usar um arnês. E, mesmo assim, você levou um ano para dar o passo e vir ao nosso centro. Você pode me ajudar a entender isso?
A: Só dei o passo depois que ficou cansativo demais usar a armadura.
T: E por que não antes?
A: Eu achava que conseguiria continuar com a armadura. Quando senti que isso não era mais possível, dei o passo e vim para o centro.
T: Então você só deu o passo para vir ao nosso centro quando sentiu que não conseguia mais mantê-la. Que perseverança!
A: Talvez (risos).
Ao trabalhar com metáforas a partir de uma perspectiva sistêmica colaborativa, a pessoa terapeuta toma o cuidado de não analisar a metáfora, mas sim de criar um espaço em que as pessoas atendidas possam compartilhar e explorar suas experiências de tal modo que novas facetas dessas experiências possam ser abordadas e iluminadas de outra perspectiva. No trecho, o terapeuta destaca a perseverança de Andy em carregar o peso do arnês e, assim, convida Andy a reconsiderar suas experiências de outra perspectiva. Andy parece aceitar a proposta e abre um espaço para gerar, junto com o terapeuta, novas histórias sobre si mesmo.
Depois de explorar o que ajudou Andy a mostrar essa perseverança, no trecho seguinte o terapeuta convida Andy a explorar o que mudou desde o início do programa de reabilitação da obesidade. Note-se como o terapeuta mais uma vez formula a pergunta inicial de modo a convidar Andy a falar de si mesmo como alguém com agência, alguém que faz escolhas e toma atitudes bem pensadas.
T: Em algum momento você deu esse passo [de vir para a terapia]. E depois? O que você fez com o arnês?
A: Fiquei com o arnês nos primeiros meses. Quando conheci melhor o grupo, tirei para que vissem mais de quem eu sou de verdade.
T: As suas experiências com o grupo lhe deram coragem para tirar o arnês?
A: Sim.
T: E o que você notou que lhe deu confiança de que podia tirar o arnês?
A: Eu me sentia em casa no grupo. Sentia que não precisava me preocupar com a imagem que eu passava e que podia simplesmente fazer como fazia em casa. Sentia que não precisava fingir ser alguém que eu não sou.
T: E você poderia me contar mais sobre tirar a armadura? Como foi?
A: Foi peça por peça.
T: Peça por peça? E o que ajudou você, depois de cada peça, a tirar a seguinte?
A: Eu só percebi que não mudava muita coisa. Todo mundo continuava me olhando do mesmo jeito e continuava me tratando do mesmo jeito.
T: E isso lhe deu confiança para tirar o arnês peça por peça?
A: Sim.
T: E agora, onde está o seu arnês agora?
A: Está pendurado no cabideiro. Juntando poeira. Nunca se sabe quando vou precisar dele de novo.
T: (Risos.) Então você ainda não jogou fora?
A: Não.
Inicialmente, o terapeuta criou um espaço conversacional em que Andy podia falar de suas experiências de aguentar os golpes e carregar o peso do arnês. O foco estava no fardo de Andy. À medida que a conversa avançava, o terapeuta passou para uma exploração mais orientada para a ação. Ele convida Andy a falar do que Andy “fez” com o arnês e por quê. O foco do terapeuta está agora no que Andy vivenciou e na maneira como respondeu a isso como participante ativo do acontecimento. As perguntas do terapeuta convidam Andy a explorar a maneira como lidou com sua situação como alguém que avalia criticamente e faz escolhas informadas. Ele escolheu “vestir um arnês” para se defender, escolheu esperar para ingressar no programa de reabilitação e, quando não conseguiu mais seguir sozinho, escolheu “ficar com o arnês” nos primeiros meses, depois do que decidiu “tirar o arnês” gradualmente, peça por peça. As perguntas orientadas para a ação convidaram Andy a não se ver mais apenas como alguém que sofria, mas também como alguém que lidou com a situação da melhor forma que pôde.
Embora o terapeuta tenha escolhido deliberadamente suas perguntas e “estruturado a conversa” (White, 2007), ele não determinou unilateralmente a direção que a conversa tomaria nem quais significados poderiam vir para o primeiro plano. No contexto da terapia, a conversa foi um processo de construção participativa de sentido em que ambos os participantes influenciaram o rumo da conversa. Por meio de uma metáfora enativa, Andy e o terapeuta cocriaram novas linhas narrativas nas quais Andy aparece como participante ativo nos diversos nós de relações em que está enredado. Inspirado por esse senso relacional de agência recém-encontrado, espera-se que ele seja encorajado a se reposicionar de outro modo nos diversos nós de relações em que está enredado: não apenas como vítima de bullying, mas também como uma pessoa corajosa e forte.
Ben é um rapaz autista de 17 anos. Ele luta contra pensamentos negativos. A luta nem sempre aparece por fora: ela acontece “na cabeça dele”. Os pensamentos negativos não o largam. Numa das conversas, Ben conta ao terapeuta sobre seu comportamento autolesivo: às vezes, quando está passando por um momento muito difícil, Ben se corta. Ele conta ao terapeuta que, quando está assim, sente ao mesmo tempo a necessidade de ser deixado em paz e o desejo de ser ajudado. Pouco antes de se cortar, predomina a sensação de querer ser deixado em paz. Depois de se cortar, ele percebe que precisa de ajuda. Só que não sabe como as pessoas poderiam ajudá-lo.
O terapeuta tem curiosidade sobre essa virada na experiência e pergunta a Ben o que acontece depois que ele se corta para que sinta necessidade de ser ajudado. Ben conta ao terapeuta que se cortar o ajuda a deixar os pensamentos saírem. Quando a cabeça transborda, ele se corta. E, nesse momento, percebe que precisa de ajuda. O terapeuta diz a Ben o quanto acha marcante que o corte provoque uma virada em suas experiências, da necessidade de ser deixado em paz para a necessidade de ser ajudado. Ben reconhece isso, mas no início tem dificuldade de pôr em palavras o que exatamente provoca essa virada. Depois de um breve silêncio, Ben diz de repente:
B: É como com as tatuagens. Se você é contra tatuagens, acha que são uma forma de automutilação. Mas, se você gosta de tatuagens, uma tatuagem pode ser vista como uma história que você grava no seu corpo. O corte funciona para mim como uma tatuagem funciona para [essas pessoas].
T: Ouço você usar a palavra “história”. Uma tatuagem é uma história que é contada. (…) E qual é a história por trás das suas tatuagens?
B: Uma grande história dos últimos dois anos.
T: E ela tem um título?
B: Não sei se eu conseguiria dar um título a ela.
(…)
T: Posso lhe fazer uma pergunta estranha? Digamos que a gente se encontrasse de novo daqui a um ano e você tivesse feito uma tatuagem sobre as cicatrizes. Que tipo de tatuagem você escolheria? Que forma ela teria?
B: Essa é uma pergunta difícil. Acho que eu poria a imagem de um esqueleto de smoking dançando uma música lenta com uma dama comum. Na verdade, esse também poderia ser o título da minha história.
T: O esqueleto de smoking dançando uma música lenta com uma dama?
B: Sim.
T: Certo, e qual é a história por trás dessa tatuagem?
B: A dama poderia ser qualquer pessoa que se automutila por um motivo ou outro. E ela dança uma música lenta com a morte. Porque nunca se sabe quando se corta fundo demais.
T: Por que você escolheu uma dama?
B: Porque eu me vejo mais como o esqueleto do que como a dama. Às vezes me sinto muito perto da morte.
T: Ela diz algo sobre o quanto você está ou esteve perto da morte?
B: É por isso que é uma música lenta, porque às vezes eu me sinto muito perto.
(…)
T: Então, daqui a um ano, essa tatuagem seria a história de quanto você esteve perto da morte e de quão íntima era aquela dança naquela época. E talvez também de quanta coragem você teve?
B: Sim, provavelmente.
Ao discutir a metáfora da tatuagem, o terapeuta fez algumas escolhas sobre as perguntas que fazia e as que deixava de fora. As perguntas que ele fez foram orientadas por suas hipóteses terapêuticas e pelas respostas de Ben. Trabalhando com a metáfora da “tatuagem” iniciada por Ben, o terapeuta poderia ter continuado a discussão de muitas maneiras orientadas para a ação. Por exemplo, a metáfora poderia ter sido usada para fazer diferentes tipos de perguntas relativas à agência, como: “A tatuagem é uma obra acabada?”, “Que cores ela terá daqui a um ano?”, “Quão visível você poderia torná-la para o mundo lá fora?” ou “Você vai cobri-la ou deixá-la visível?”. Perguntas como essas abrem espaço para Ben pensar sobre seu futuro. Embora “tatuagem” seja um substantivo, e seja mais facilmente atribuível às cicatrizes de Ben, o terapeuta tem ferramentas para levar mais longe o sentido da metáfora, para suscitar em Ben pensamentos sobre assumir o controle e agir no futuro. Trabalhar com a metáfora da tatuagem dá ao terapeuta margem para explorar possibilidades de ação que não estão disponíveis quando se recebe, em circunstâncias semelhantes, um diagnóstico como, por exemplo, “Ben está deprimido”.
Como esses dois exemplos se relacionam com a ideia enativista de construção de sentido? No caso de Andy, falar do “arnês” o ajudou a pôr em palavras a complexidade de sua experiência e permitiu que se desenrolasse um novo tipo de conversa, que ajudou Andy a dar, junto com o terapeuta, um novo sentido a suas experiências dolorosas. Da mesma forma, no caso de Ben, falar da “tatuagem” permitiu que ele se sentisse compreendido, pois a conversa pôde avançar com o terapeuta, e juntos deram um novo sentido à situação dele. O valor das duas metáforas está em terem aberto caminho para conversas diferentes e, por sua vez, permitido ganhar novas perspectivas sobre os próprios problemas, perspectivas que, graças às conversas orientadas para a ação que se seguiram, permitiram tanto a Andy quanto a Ben sentir que tinham controle sobre seus problemas. Desenvolveremos a seguir esses valores agregados de pôr metáforas em ato.
De nossa perspectiva dialógica e enativa, as metáforas são boas ferramentas terapêuticas não porque revelam experiências, mas porque permitem compartilhar e transformar essas experiências. Falar em “revelar experiências” é problemático a nosso ver, porque sugere que existem verdades ocultas que a metáfora permitiria revelar, verdades que de algum modo teriam sido “reprimidas” e agora seriam trazidas à superfície. Assim, embora seja possível obter um novo insight ao pôr metáforas em ato, esse não é o objetivo da terapia sistêmica colaborativa, pois o novo insight deve ser visto como mais uma perspectiva que a pessoa atendida pode adotar sobre seu problema. Vemos as metáforas como ferramentas que oferecem à pessoa terapeuta diferentes possibilidades de fazer a pessoa atendida se sentir compreendida. Elas também são boas para explorar as experiências da pessoa atendida e trazer novas ideias para o primeiro plano. As metáforas permitem contar histórias novas e diferentes e, com as perguntas que faz, a pessoa terapeuta pode fazer emergir na pessoa atendida experiências de agência. Por fim, as metáforas funcionam como lentes por meio das quais a pessoa atendida, depois da terapia, pode abordar e vivenciar o mundo lá fora.
Como as metáforas fazem isso, em nossa concepção? Em suma, as metáforas funcionam quando são habilmente orientadas para ações no diálogo. As metáforas que Andy e Ben compartilharam foram orientadas para a ação pelo terapeuta. E, embora suas metáforas fossem substantivos, a abordagem sistêmico-enativa usada pelo terapeuta o levou a se concentrar nas ações possíveis associadas a esses substantivos. Um arnês é algo atrás do qual se pode esconder ou com o qual se pode lutar. Uma tatuagem é algo que se pode colorir, desenhar ou com que se pode contar uma história. Da perspectiva sistêmico-enativa, qualquer metáfora (mesmo as metáforas “sentadas”) pode ser remetida a uma ação. O conteúdo da metáfora original não é tão importante quanto o que se faz com a metáfora. A melhor maneira de produzir mudança é por meio de palavras de ação, pelas quais o terapeuta pode produzir mudança quando convida a pessoa atendida a fazer algo colaborativamente com a metáfora.
Por que pôr metáforas em ato com palavras de ação funciona na psicoterapia? Repetindo, isso oferece à pessoa atendida e à pessoa terapeuta modos de explorar experiências de tal maneira que as pessoas atendidas possam se sentir ouvidas e compreendidas, comunicar o que pensam ou sentem e ser convidadas a explorar sua agência, e não apenas ajudar a pessoa atendida a obter um insight sobre sua condição. Embora a clareza seja importante, da perspectiva sistêmica o insight não basta para progredir (como disse Watzlawick, 2009, numa frase célebre, “o insight pode causar cegueira”). Além disso, a escolha da metáfora, por si só, não leva a uma experiência transformadora. Fazer uma analogia para captar as próprias experiências não basta em si, pois não é a metáfora em si (graças às suas propriedades simbólicas ou corporificadas) que faz o trabalho, mas a maneira como a metáfora é usada e respondida (ou posta em ato) numa interação. A nosso ver, é o ato comunicativo com a metáfora que se torna uma experiência transformadora para as pessoas atendidas. A metáfora precisa ser recebida por outra pessoa, aceita e, em troca, dar lugar a uma ação. As metáforas funcionam melhor quando fazem parte de um engajamento colaborativo.
Tomemos o exemplo de Ben, que usou a metáfora da tatuagem para falar de suas dificuldades. Notamos que, quando Ben usou a mesma metáfora para falar com a mãe, não se sentiu compreendido. De nossa perspectiva, isso acontece porque, sem que a mãe retome a metáfora nas conversas entre eles ou aja de algum modo a partir dela, a comunicação entre os dois se interrompe, e o engajamento não resulta numa experiência transformadora para Ben. A metáfora, porém, funciona com o terapeuta, que a usa para fazer a discussão avançar. Para a terapia sistêmica, a metáfora é um veículo de mudança.
Em suma, as metáforas em si não fazem o trabalho pesado. O que importa é o que se faz com a metáfora, e não o que a metáfora significa. É a maneira como a pessoa terapeuta põe as metáforas em ato, descobrindo palavras de ação que permitem à pessoa atendida ir além da metáfora, que torna a metáfora terapeuticamente útil. Considere-se, por contraste, o Big Book of ACT Metaphors (Stoddard e Afari, 2014), que se propõe a oferecer uma “lista exaustiva de metáforas” voltadas para o tratamento de diversas condições, da ansiedade à depressão, ao trauma ou aos transtornos alimentares. Opomo-nos à ideia de que encontrar a metáfora “certa” ajudará alguém a resolver seu problema.
Por fim, concentrar-se nas palavras de ação permite à pessoa atendida recuperar um senso de agência. Quando as metáforas são discutidas com palavras de ação, a pessoa terapeuta pode escolher elaborar a metáfora com perguntas que, ao serem respondidas, permitem à pessoa atendida recuperar um senso de influência sobre a própria vida. Vemos o senso de agência como mais do que um simples conhecimento do tipo de influência que se tem: é uma experiência corporificada de ser capaz de agir, de fazer, de se mover e de mudar. Os engajamentos metafóricos podem oferecer a possibilidade de explorar as próprias experiências de modo a sentir que a mudança é possível. Como a pessoa terapeuta quer dar às pessoas que atende a sensação de ter controle sobre aquilo com que lutam fora da sala de terapia, espera-se que o senso de agência permaneça com a pessoa depois do fim da terapia e se traduza em capacidade de lidar com a vida cotidiana.
Em resumo, apresentamos neste artigo uma proposta para ver as metáforas como ferramentas de ação no contexto terapêutico sistêmico colaborativo. Defendemos a ideia de que as metáforas funcionam melhor quando são postas em ato e de que engajar-se em movimentos ou performances explícitas não é a única maneira de pôr metáforas em ato. As metáforas também podem ser postas em ato e exploradas conjuntamente no diálogo. Como a intenção da terapia sistêmica colaborativa é trazer novas experiências para a pessoa atendida, as metáforas são recursos úteis nessa abordagem quando postas em ato com palavras de ação. Pôr metáforas em ato permite fazer surgir novas perspectivas e um senso de agência nas pessoas atendidas, porque a pessoa terapeuta coconstrói dinamicamente a metáfora com a pessoa atendida e usa palavras de ação para criar conjuntamente novos significados. Assim, nossa resposta à pergunta “o que faz das metáforas boas ferramentas terapêuticas?” é que elas podem ser ligadas a palavras de ação, por meio das quais se podem explorar a corporeidade e a agência da pessoa atendida.
Embora nossa análise se baseie na abordagem sistêmica colaborativa da psicoterapia, temos a convicção de que outros modelos terapêuticos também podem se inspirar nela. Uma condição importante, porém, é que o foco da terapia não esteja em descobrir ou expor significados “fixos”, “ocultos” ou “reprimidos”, mas em cocriar criativamente realidades mais vivíveis; por isso, nem todas as terapias pela fala poderão se beneficiar de nossa estratégia de intervenção.15
Compartilharemos três aprendizados práticos que decorrem de nossa proposta. Primeiro, a nosso ver, não é preciso trabalhar com uma metáfora culturalmente estabelecida: qualquer palavra serve. A pessoa terapeuta deve ficar atenta a palavras que se prestem a explorações metafóricas enativas. Por exemplo, é usando palavras comuns (como “tatuagem” ou “escudo”) e explorando as palavras de ação ligadas a elas que se pode avançar. Segundo, sabemos que trabalhar com metáforas existentes às vezes pode até ser prejudicial, sobretudo quando pacientes ou terapeutas adotam interpretações literais ou simplistas delas. Por exemplo, Stilwell et al. (2021) observam que o uso de metáforas estruturais lineares (como: a dor é um “nó”, o corpo é uma “máquina” ou não se tem “estabilidade do core”) pode limitar a capacidade de uma pessoa de compreender sua condição, pois sugere à pessoa atendida que a causa de sua dor persistente é, por exemplo, “simplesmente um nó muscular, e não uma experiência complexa” (p. 6). Por isso, é importante que a pessoa terapeuta seja sensível aos efeitos que uma metáfora (e sua coconstrução) pode ter sobre a pessoa atendida. Terceiro, embora às vezes seja útil explorar a metáfora ao máximo, a pessoa terapeuta também deve saber quando deixá-la de lado. Trata-se de aproveitar a metáfora ao máximo e, quando ela não for mais útil, largá-la, para que a pessoa atendida possa se concentrar em novas experiências seguindo adiante na vida. Não convém se “prender” às metáforas bem-sucedidas, mas vê-las como ferramentas. Depois de usadas com sucesso (com o sentido coconstruído com a pessoa atendida, permitindo-lhe encontrar uma nova perspectiva), elas devem ser deixadas de lado, para que não restrinjam a pessoa daí em diante.16
Podemos, portanto, indagar mais sobre o papel das metáforas em nossa proposta. Se é o uso de palavras de ação que produz a mudança relevante, por que não aplicar simplesmente palavras de ação a quaisquer palavras, em vez de metáforas? Não poderíamos apenas nos concentrar em introduzir muitas palavras de ação num diálogo terapêutico, ou usar palavras de ação com termos diagnósticos, sem antes encontrar uma metáfora? O que há de especial em pôr metáforas em ato?
Para responder a essa pergunta, é útil lembrar mais uma vez as qualidades corporificadas das metáforas tal como discutidas na perspectiva da CCE. Em primeiro lugar, as metáforas têm raízes corporificadas que podem ser exploradas. Elas permitem falar dos aspectos multissensoriais de nossas experiências (Abrahamson, 2020). Uma vez descobertas as raízes corporificadas e os aspectos sensoriais das metáforas, fica mais fácil encontrar palavras de ação para explorá-las mais. Em segundo lugar, as metáforas remetem a uma rede de significados. Podem desencadear associações feitas em diferentes contextos e nos permitir aplicá-las a um contexto presente. Por exemplo, os objetos-fonte das metáforas (arnês e tatuagem) estão inseridos em diferentes práticas e fazeres (literatura, filmes ou vida cotidiana), o que permite falar de novas maneiras sobre o alvo: a pessoa terapeuta pode recorrer às nossas experiências compartilhadas e às narrativas culturais ligadas a escudos e tatuagens para encontrar palavras de ação pertinentes, que podem ser usadas para fazer a conversa avançar. As metáforas ajudam, assim, a pessoa terapeuta a aproveitar o diálogo e a encontrar muitas palavras de ação para aprofundar o tema da conversa. Por fim, algumas metáforas podem funcionar melhor do que palavras comuns, porque permitem visualizações sensório-motoras concretas. Por exemplo, num diálogo terapêutico, uma pessoa terapeuta sistêmica pode convidar a pessoa atendida a converter o que diz em uma imagem e chamar a atenção dela para suas modalidades fenomenológicas implícitas (somáticas, proprioceptivas e cinestésicas).17 Tomemos como exemplo as palavras “helpless” e “powerless”, que se podem traduzir por “desamparado” e “impotente” (Fondelli e Rucińska, 2021). Embora pareçam intercambiáveis numa conversa, essas palavras nos permitem imaginar-nos em situações diferentes. O desamparo pode ser imaginado como não ter ninguém por perto com quem contar (não há mais ninguém na cena imaginada). A impotência pode ser imaginada como não conseguir influenciar alguém que está ali (há outra pessoa na cena imaginada). Essas imagens, por sua vez, convidam a palavras de ação diferentes. Assim, uma vez que se visualiza como o corpo está situado nessas relações, novas palavras de ação, com novas possibilidades de ação, podem emergir. A concepção enativa da imaginação, que propõe que as imaginações estejam profundamente enraizadas em experiências e afetos corporais (Rucińska e Gallagher, 2021), pode esclarecer melhor como novas experiências corporais podem surgir com o imaginar.
Repetindo, a nosso ver, não é o que a metáfora diz, mas o que se pode fazer com ela para produzir um senso de agência, que faz a metáfora funcionar. Como foi nossa mensagem o tempo todo, em diferentes contextos e interações, os significados das metáforas podem mudar com o uso.
Complexe Systémique: a reter
O artigo desloca uma pergunta que a clínica costuma se fazer: é preciso buscar a metáfora “certa”? Não, respondem Rucińska e Fondelli: a metáfora vale pelo uso que duas pessoas fazem dela. O arnês de Andy vira armadura que se veste, se tira peça por peça, se pendura no cabideiro; a tatuagem de Ben vira uma história cujas cores e visibilidade podem ser escolhidas. Cada verbo transforma uma imagem estática em possibilidade de agir, e uma posição de vítima em experiência de agência. Reconhece-se aí a posição de não saber de Anderson e Goolishian, mas também uma velha intuição de Palo Alto: o insight não basta, algo precisa acontecer na troca. Para a prática, três referências concretas: partir das palavras da pessoa, mesmo as banais; não prender ninguém numa metáfora estrutural (“o corpo é uma máquina”); saber largar a metáfora quando ela já serviu. Limites: apenas duas vinhetas, sem análise dos efeitos a longo prazo, e um caso de autolesão que também pede uma avaliação de risco que o artigo não aborda. Para ler junto com o artigo sobre o poder das metáforas na terapia de casal e com o artigo sobre a passagem da intervenção especializada à conversa colaborativa.
Notas do original
1 Agradecemos à pessoa anônima responsável pela revisão pela formulação oportuna.
2 Por exemplo, Jackson (1957) enfatizava a importância de prestar atenção aos aspectos analógicos da comunicação, como a respiração, o tom de voz e os movimentos corporais; Satir et al. (1991) enfatizavam a importância de “vivenciar” durante as conversas terapêuticas e convidavam os membros da família a esculpir suas relações com o corpo. E, mais recentemente, Wilson et al. (2020) enfatizam que a terapia sistêmica é antes de tudo uma enação, ou uma performance, criada entre todas as pessoas que dela participam.
3 Bertrando e Gilli (2008) observam que há uma lacuna entre, de um lado, o foco da teoria sistêmica na linguagem e nas histórias e, de outro, a prática sistêmica, atenta ao efeito que essas histórias têm sobre as experiências corporais da pessoa atendida. O estudo descreve como o foco estreito na linguagem e no diálogo na construção da teoria sistêmica e sua “tendência crescente (…) a enfatizar as palavras e a narração, obscurecendo a relevância da interação corporal” (Bertrando e Gilli, 2008, p. 368) tiveram o efeito de criar os chamados “diálogos descorporificados”: diálogos tão centrados no conteúdo do que é dito que subestimam as experiências corporificadas e as interações não verbais.
4 Observamos que, embora pensemos que nossas ideias sobre as metáforas não são específicas da terapia sistêmica colaborativa e poderiam ser aplicadas a outras terapias, há duas razões principais para nos atermos à terapia sistêmica colaborativa. Primeiro, o contexto terapêutico sistêmico é um contexto mais favorável para pôr metáforas em ato, pois, na terapia sistêmica, não usamos as metáforas para revelar significados, mas para criá-los. Segundo, pôr metáforas em ato em terapias pela fala típicas, nas quais o foco ainda está em “revelar significados”, pode produzir resultados opostos aos que consideramos benéficos em nossa perspectiva. Voltaremos a isso adiante.
5 Neste artigo, não nos apoiaremos na distinção técnica entre metáfora, símile e analogia. Essas distinções não são relevantes para nosso argumento: mesmo que se verificasse que alguns de nossos exemplos não tratam stricto sensu de metáforas, mas deveriam ser classificados linguisticamente como símiles ou analogias, nossas ideias seriam igualmente pertinentes para os contextos terapêuticos.
6 O contexto considerado é uma brincadeira de faz de conta em que se finge ser um meteoro para aprender sobre trajetórias e conceitos de física associados. O artigo descreve um experimento em que crianças aprendiam sobre as trajetórias dos meteoros “corporificando-as” no faz de conta, por exemplo correndo, pulando e deslocando-se explicitamente no espaço ao redor. No contexto do jogo, a corrida das crianças tinha natureza metafórica, já que punha em ato o movimento do meteoro. A brincadeira de faz de conta envolve uma transformação metafórica em que se age como se uma coisa fosse outra, e é precisamente nessa ação que a banana (alvo) é um telefone (fonte).
7 Por exemplo, Norbury (2005) caracteriza a capacidade de ver semelhanças entre dois objetos distintos como “um processo de desenvolvimento complexo que exige a aquisição de uma série de habilidades [como] representações semânticas suficientemente amplas para captar a comparação feita” (p. 384). Para Norbury, decidir em que aspectos dois objetos são semelhantes implica pensar por meio de mapeamentos do domínio-fonte para o domínio-alvo com o uso de “habilidades de raciocínio analógico” (2005, p. 385).
8 “No cerne da metáfora está a captação direta de (a ressonância a) um padrão invariante num arranjo informacional específico tanto do tópico quanto do veículo (como, no caso de flores e fogos de artifício, invariantes que especificam uma expansão progressiva a partir de um ponto central). Dessa forma, a metáfora, como outras formas de conhecer, depende de um processo fundamentalmente perceptivo” (Szokolszky, 2006, p. 87).
9 Uma caracterização tão ampla da simulação não compromete com a Teoria da Simulação, que é representacional.
10 Como discute Kompa, “há estudos de fMRI que mostram que o processamento de verbos que denotam ações realizadas com a mão (pegar, agarrar), o pé (chutar) ou a boca (lamber) provoca ativação no córtex motor (e pré-motor) (de maneira somatotopicamente organizada)” (2017, p. 197).
11 Por exemplo, um contexto terapêutico pode exigir um tipo de metáfora diferente do exigido para aprender uma habilidade; sobre este último, ver Abrahamson (2020).
12 O exemplo dado é fazer “longos movimentos amplos da esquerda para a direita e de volta” (p. 19) para pôr em ato o conceito de “ponte”.
13 “Essas metáforas se tornaram enativas por meio da interação clínica; observamos uma construção dinâmica de sentido se desdobrar na relação de cuidado quando a equipe clínica tocava as pessoas atendidas nas áreas das costas em que sentiam dor, bem como nas áreas adjacentes. À medida que a equipe clínica aplicava pressão manual nos tecidos, chamava-se a atenção das pessoas atendidas para os músculos que a pessoa clínica percebia como enodados, tensos ou fibrosos” (Stilwell et al., 2021, p. 239, grifos nossos).
14 Agradecemos à pessoa anônima responsável pela revisão pela formulação útil.
15 Por exemplo, pôr metáforas em ato em terapias nas quais o foco ainda está em “revelar significados” pode produzir resultados opostos aos que consideramos benéficos neste método de intervenção (que é fazer surgir o senso de agência da pessoa atendida). É possível, por exemplo, pôr metáforas em ato concentrando-se nas palavras de ação ligadas a elas para revelar mais “verdades ocultas” sobre a pessoa atendida. Isso seria feito concentrando-se em palavras de ação que aprofundam a compreensão original da metáfora (por exemplo, insistindo no peso de carregar um “arnês”). Mas isso só reforçaria a pessoa atendida nos antigos significados (por exemplo, o arnês como representação do peso do bullying) e não lhe traria novas perspectivas, que são, em última análise, o valor agregado de nossa abordagem.
16 Considere-se uma analogia útil de Abrahamson (2020) sobre como alguém que ensina violoncelo usa a metáfora “segure como um morango” para transmitir como deve ser a pegada de quem aprende (suave, como se houvesse medo de esmagar um morango). Quando a pessoa aprende a pegada e encontra por si mesma um fluxo musical, a metáfora cumpriu seu papel e deve ser deixada de lado. Quem estuda não deve mais pensar na metáfora do morango ao tocar, mas concentrar-se nas novas experiências musicais, e nas affordances para tocar, que o domínio da pegada permitiu.
17 Segundo Abrahamson (2020), a compreensão das metáforas e a capacidade de aprender com elas residem na emergência de “múltiplas modalidades sensoriais que brotam tacitamente [na enação da metáfora], incluindo a visual, a auditiva, a cinestésica, a proprioceptiva e a somática” (p. 216).
Ética. De acordo com a legislação local e as exigências institucionais, o estudo com seres humanos não exigia avaliação nem aprovação ética. Obteve-se o consentimento informado das pessoas envolvidas no encontro terapêutico e de seus responsáveis legais ou familiares para a publicação de quaisquer imagens ou dados potencialmente identificáveis incluídos neste artigo.
Contribuições. As duas pessoas que assinam o artigo contribuíram de forma substancial, direta e intelectual para o trabalho e aprovaram sua publicação.
Financiamento. Este trabalho foi possível graças ao auxílio “Enactive Approach to Pretending” (12J0419N) da Research Foundation – Flanders (FWO).
Conflitos de interesse. A equipe declara que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que pudessem ser interpretadas como potencial conflito de interesses.
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Tradução não oficial em português de Pôr em ato as metáforas na terapia sistêmica colaborativa, de Zuzanna Rucińska e Thomas Fondelli, Frontiers in Psychology, vol. 13 (2022), doi: 10.3389/fpsyg.2022.867235, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (trechos de sessões apresentados em diálogos). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Enacting Metaphors in Systemic Collaborative Therapy”, publicado em Frontiers in Psychology (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Rucińska, Z., et Fondelli, T. (2022). Pôr em ato as metáforas na terapia sistêmica colaborativa (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/por-em-ato-as-metaforas-na-terapia-sistemica-colaborativa (Obra original publicada em 2022 em Frontiers in Psychology, 13, 867235 (2022); republicada em 2022 por Frontiers in Psychology, https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2022.867235/full)
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