Red Sistémica · Psicopatologia

Uma visão relacional dos transtornos de personalidade

Nascida de uma vocação de revolução epistemológica e por muito tempo ocupada em forjar instrumentos para intervir nas relações, a terapia familiar sistêmica nunca produziu um discurso próprio sobre os transtornos de personalidade. Partindo de uma definição relacional da personalidade e das noções de nutrição relacional, conjugalidade e parentalidade, Juan Luis Linares propõe aqui reler a história da nosologia psiquiátrica – psicopatia, sociopatia, família multiproblemática, transtorno limítrofe – e avança hipóteses relacionais sobre as bases familiares das sociopatias, dos transtornos limítrofes e dos transtornos antissociais.

Autor Juan Luis LinaresPrimeira publicação capítulo de Terapia Familiar y de Pareja (org. Arturo Roizblatt), Editorial Mediterráneo, Santiago do Chile, 2006Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“As intervenções não se produzem sobre as relações em abstrato, mas sobre indivíduos em relação.”

Juan Luis Linares

Nota da redação

O original contém duas figuras. A figura n.º 1 (as quatro modalidades de família de origem segundo a conjugalidade e a parentalidade) é restituída abaixo sob a forma de grade. A figura n.º 2, esquema que situa as grandes áreas psicopatológicas nos três espaços de disfunção relacional, não pôde ser reproduzida; as remissões numeradas do texto (fig. n.º 2, “1” a “8”) referem-se a ela e foram conservadas.

Um ponto cego da terapia familiar

Considerando a aversão histórica da terapia familiar sistêmica a focalizar o indivíduo, tanto como objeto de reflexão teórica quanto como objeto de intervenção terapêutica, não é de surpreender que não exista um discurso próprio sobre os transtornos de personalidade. Com efeito, não apenas se suprimiu a raiz “psico” da denominação do modelo, como se abominou energicamente o diagnóstico individual, seguindo os passos de Bateson, que o desqualificava como conceito dormitivo (Bateson, 1972). Isso se compreende, pois a terapia familiar nasceu com uma vocação alternativa declarada, de revolução epistemológica, e durante muitos anos se dedicou legitimamente a criar instrumentos para intervir nas relações. Só recentemente se iniciou um movimento coerente de retificação, fundado na evidência de que as intervenções não se produzem sobre as relações em abstrato, mas sobre indivíduos em relação.

Esse movimento, contudo, ainda não alcançou o necessário processo de elaboração de uma psicopatologia relacional e, menos ainda, conseguiu gerar um discurso sistêmico sobre os transtornos de personalidade, terreno no qual se torna particularmente evidente que não se pode prescindir de uma teoria relacional da personalidade. E, embora não seja este o lugar para improvisar uma tarefa que deve necessariamente ser rigorosa e minuciosa, impõe-se a necessidade de começar a abordá-la.

Uma definição da personalidade

Gold e Bacigalupe realizaram uma revisão minuciosa das teorias da personalidade de natureza interpessoal e sistêmica (Gold e Bacigalupe, 1998) e pouco puderam encontrar além da teoria interpessoal de Harry Stack Sullivan (Sullivan, 1953) como proposta específica, inspiradora de numerosos autores sistêmicos. Entre seus muitos méritos teóricos figura o de ter cunhado o termo “sistema do self”, para designar uma personalidade moldada no olhar dos outros. Mas Sullivan continuou a exercer sua prática terapêutica em uma relação diádica com os pacientes, e os terapeutas familiares que o sucederam se desinteressaram da personalidade enquanto conceito intrapsíquico.

O que é a personalidade do ponto de vista relacional? Eis uma definição possível: “a dimensão individual da experiência relacional acumulada, em diálogo entre passado e presente, e enquadrada por um substrato biológico e por um contexto cultural”. Vale a pena examinar seus ingredientes um a um.

Dimensão individual. É necessário assumir que se trata de um conceito individual. Caso contrário, continuaríamos pensando em termos de esquemas ou padrões relacionais, mas não de personalidade.

Experiência relacional acumulada. Trata-se de uma reedição do velho conceito batesoniano de cismogênese, que, como se sabe, sublinhou a ideia, revolucionária em seu tempo, de que as pessoas são moldadas e definidas pela relação, e não o inverso.

Diálogo entre passado e presente. Somos o produto de uma história e, desse ponto de vista, o passado no qual se desenrolou a experiência relacional define a personalidade. Mas a história é continuamente reescrita no presente, a partir do qual é possível redefinir o passado.

Um modelo mecanicamente dependente do passado é, por exemplo, uma represa hidráulica: tantos hectolitros perdidos, tantos hectolitros a recuperar para voltar a um determinado nível. Mas a personalidade é um conceito comunicacional, mais próximo de um modelo informático, em que um simples clique sobre um ícone preenche imediata e espetacularmente toda a tela com uma nova imagem. É por isso que também é possível, a partir do presente, induzir mudanças espetaculares no passado, e é por isso que a tensão dialética entre passado e presente é um elemento tão importante na definição da personalidade.

Substrato biológico. O organismo humano, e muito particularmente o sistema nervoso central, são o hardware da personalidade. A genética certamente desempenha um papel importante na transmissão de certas predisposições a desenvolver determinados traços de personalidade.

Contexto cultural. A cultura enquadra e sobredetermina a personalidade, influenciando de modo decisivo sua definição (Falicov, 1998). Ser extrovertido não tem o mesmo sentido em um país nórdico e no Caribe, nem mesmo, dentro de um mesmo país, na serra ou no litoral peruano. As culturas desenvolvem mitologias que privilegiam certos traços de personalidade em relação a outros, condicionando sua inscrição no patrimônio psicológico de seus membros.

Para lembrar

A personalidade, no sentido relacional, é “a dimensão individual da experiência relacional acumulada, em diálogo entre passado e presente, e enquadrada por um substrato biológico e por um contexto cultural”. Ela não é uma represa que se enche e se esvazia mecanicamente, mas uma tela que o presente pode recompor com um clique: o passado continua redefinível.

A nutrição relacional

O elemento mais importante da experiência relacional que se acumula para servir de base à construção da personalidade individual é a vivência subjetiva de ser amado. Desde o nascimento, a criança processa sua relação com os pais em termos de amor, mas trata-se de um amor complexo, que pouco se parece com o amor romântico (essa sublime simplificação). O amor complexo com o qual se constrói a personalidade é um processo relacionalmente nutritivo que, longe de consistir em um fenômeno puramente afetivo, possui ingredientes cognitivos, emocionais e pragmáticos. Há, portanto, um pensar, um sentir e um fazer amorosos.

Para construir uma personalidade madura, a criança precisa se perceber reconhecida como um indivíduo independente, dotado de necessidades próprias, distintas das de seus pais. A falha de reconhecimento, ou desconfirmação, é um fracasso da nutrição relacional no terreno cognitivo, que pode acarretar sérias deficiências para a construção da personalidade. O mesmo ocorre, sem sair do componente cognitivo da nutrição relacional, com a desqualificação, que é um fracasso da valorização das qualidades pessoais pelas figuras significativas do entorno relacional.

Os pais podem ser ternos e afetuosos com os filhos e se mostrar incapazes de reconhecê-los ou valorizá-los adequadamente. Mas o inverso também pode ocorrer, e é então o plano emocional que registra o fracasso das funções parentais. É o caso dos pais distantes, rejeitadores ou hostis em relação aos filhos porque os percebem como obstáculos à sua própria realização individual, ou como aliados do outro em uma situação de desarmonia conjugal. As carências nutritivas na relação com um dos pais podem ser compensadas pelo outro, mas essas compensações nem sempre ocorrem ou nem sempre são suficientes. E, de todo modo, uma personalidade madura não pode ser construída sem os aportes emocionais da nutrição relacional, que são o afeto e a ternura.

Quanto aos componentes pragmáticos do amor complexo ou nutrição relacional, eles se resumem principalmente, no que diz respeito ao vínculo pais-filhos, à socialização, com sua dupla vertente, protetora e normativa. Uma boa acomodação do indivíduo à sociedade é fundamental para a sobrevivência e é, em grande medida, responsabilidade dos pais; para ser plenamente bem-sucedida, exige um acoplamento adequado de proteção e normatividade. Mas tanto uma quanto a outra podem eventualmente falhar, tanto por falta quanto por excesso. A personalidade da criança poderá então sofrer as consequências negativas disso.

Com base nessa bagagem fundamental, a criança organiza sua experiência relacional em termos narrativos, isto é, construindo histórias que dão sentido a tudo o que lhe acontece. E algumas dessas histórias são selecionadas para constituir a identidade, na qual o indivíduo se reconhece a si mesmo e sobre a qual não aceita facilmente transigir. O conteúdo da narrativa individual, tanto da que é identitária quanto da que não é, assim como a relação entre as duas, constitui a trama da personalidade. Importa que a identidade seja sólida, nem acanhada nem hipertrofiada, para servir de ancoragem adequada a uma narrativa não identitária que deve ser tão rica e variada quanto possível. E nem é preciso dizer que a nutrição relacional, enquanto amor complexo, constitui o material com o qual se constrói toda a estrutura.

1

Pensar amoroso

Reconhecimento da criança como indivíduo distinto e valorização de suas qualidades. Seus fracassos: a desconfirmação e a desqualificação.

2

Sentir amoroso

Afeto e ternura. Seu fracasso: pais distantes, rejeitadores ou hostis.

3

Fazer amoroso

A socialização, com sua dupla vertente protetora e normativa. Seus fracassos: tanto por falta quanto por excesso.

Parentalidade e conjugalidade

Nessa perspectiva, torna-se evidente a importância da família como cadinho da personalidade. Para além de fatores genéticos difíceis de avaliar e impossíveis de modificar, a família é o principal veículo dos condicionamentos culturais e, além disso, o espaço onde se geram e se desenvolvem os estímulos relacionais mais influentes sobre a maturação individual (a nutrição relacional). Não deveria, portanto, surpreender que se focalize a família no momento de compreender alguns dos mais importantes enigmas relativos à personalidade normal e patológica. E, mais ainda, deve tratar-se de uma focalização exigente em rigor conceitual e rica em nuances, que não se limite a considerar a família como um lugar onde se socializam as crianças ensinando-as a imitar condutas adaptadas. A equação complexa que é a nutrição relacional compõe-se, como vimos, de elementos múltiplos e extremamente sutis, que dependem da idiossincrasia de cada família. É possível, contudo, extrair dela algumas leis gerais.

O entorno imediato da criança, isto é, sua família de origem, é organizado por duas dimensões relacionais de grande importância, geralmente encarnadas pelos pais. Trata-se da conjugalidade e da parentalidade (Linares, 1996), que representam duas versões da nutrição relacional, entendida respectivamente como amor conjugal e amor parental.

A conjugalidade, em um casal com vocação familiar, funda-se em uma reciprocidade cognitiva, emocional e pragmática, pela qual os dois membros negociam um acordo que implica um pensar amoroso (reconhecimento e valorização), um sentir amoroso (ternura e afeto) e um fazer amoroso (desejo e sexualidade, principalmente). Tudo isso exige a troca, isto é, um exercício de dar e receber de forma equilibrada, com um importante componente igualitário.

Em contraste, a parentalidade apoia-se em uma relação complementar, isto é, desigual, na qual o dar e o receber não podem ser equilibrados. Não há dúvida de que os pais recebem uma forte gratificação da criação dos filhos, mas a cadeia é fundamentalmente linear e, em benefício da espécie, cada geração paga à que a segue a dívida que contraiu com a anterior. O amor parental comporta, assim como o amor conjugal, elementos cognitivos que implicam reconhecimento e valorização, e elementos emocionais que passam pelo afeto e pela ternura. Quanto aos componentes pragmáticos, as diferenças são radicais, pois o fazer amoroso parental consiste, fundamentalmente, no exercício da socialização. Esta não é outra coisa senão uma preparação adequada para a integração na sociedade, e compõe-se de dois elementos de igual importância: a normatividade, que deve garantir o respeito do indivíduo pela sociedade, e a proteção, encarregada de fazer com que esse respeito seja recíproco.

Conjugalidade

Reciprocidade cognitiva, emocional e pragmática: dar e receber de forma equilibrada. O fazer amoroso é principalmente o desejo e a sexualidade.

Parentalidade

Relação complementar, desigual: cada geração paga à seguinte a dívida contraída com a anterior. O fazer amoroso é a socialização, normativa e protetora.

Conforme preencha ou não as condições do amor conjugal, a conjugalidade será harmoniosa ou desarmoniosa. Contudo, a harmonia implica a capacidade de resolver razoavelmente os conflitos conjugais, inclusive pela separação e pelo divórcio; de modo que, do ponto de vista de sua influência sobre os filhos, podem-se considerar conjugalmente harmoniosos os casais que negociam adequadamente, independentemente de seu estado civil. Por outro lado, conjugalidade e parentalidade são variáveis relacionais independentes, embora com certo grau de influência recíproca. É por isso que vale a pena considerar as possibilidades de uma conservação ou de uma deterioração primárias da parentalidade, anteriores a qualquer influência que a conjugalidade possa exercer sobre ela.

Assim como a personalidade individual se constrói com identidade e narrativa, o sistema familiar se articula em termos de mitologia e organização. A mitologia familiar é o espaço onde convergem, e de onde brotam, as narrativas individuais dos membros do sistema. Constitui, por conseguinte, um território de negociação narrativa, cujo resultado são os mitos, nos quais coexistem um determinado clima emocional, elementos cognitivos, que são os valores e as crenças, e elementos pragmáticos, que são os rituais. Por sua vez, a organização é o resultado do desenvolvimento evolutivo das estruturas familiares ao longo do ciclo de vida, e nela se distinguem aspectos tão importantes quanto a hierarquia, a coesão e a adaptabilidade. Mitologia e organização familiares condicionam-se mutuamente, ao mesmo tempo em que oferecem um quadro relacional extremamente rico para a construção e o desenvolvimento da personalidade dos membros do sistema.

Disfunções relacionais familiares

A combinação das duas dimensões relacionais descritas, conjugalidade e parentalidade, cria, segundo sua predominância relativa, quatro grandes modalidades possíveis de família de origem, como mostra a figura n.º 1. Entre elas, a que é definida pela conjugalidade harmoniosa e pela parentalidade primariamente conservada é a que oferece mais possibilidades de proporcionar uma nutrição relacional plenamente satisfatória. Nela, os pais têm uma boa capacidade de resolver adequadamente os conflitos que vivem como casal, ao mesmo tempo em que criam os filhos com uma boa oferta amorosa nos níveis cognitivo, emocional e pragmático.

As famílias com tendências disfuncionais ocupam os outros três quadrantes da figura n.º 1, sempre em função da presença nelas das dimensões relacionais citadas.

As famílias trianguladoras são aquelas em que se combinam uma conjugalidade desarmoniosa e uma parentalidade primariamente conservada. Os pais, razoavelmente envolvidos no início na satisfação das necessidades nutritivas dos filhos, perdem o rumo diante da irrupção de sérias dificuldades em resolver seus próprios conflitos conjugais. E acabam eventualmente por recorrer aos filhos com diversas propostas de aliança, criando-lhes problemas que denotam a deterioração secundária da parentalidade. Desse ponto de vista, definimos a triangulação como o envolvimento disfuncional dos filhos na resolução dos problemas relacionais dos pais.

Figura n.º 1 – As quatro modalidades de família de origem segundo a conjugalidade e a parentalidade (reconstituição).

Conjugalidade harmoniosa + parentalidade primariamente conservada

Família funcional: nutrição relacional plenamente satisfatória.

Conjugalidade desarmoniosa + parentalidade primariamente conservada

Famílias trianguladoras: deterioração secundária da parentalidade.

Conjugalidade harmoniosa + parentalidade primariamente deteriorada

Privação: importantes carências na nutrição relacional dos filhos.

Conjugalidade desarmoniosa + parentalidade primariamente deteriorada

Situação caótica: carências nutritivas muito graves.

Quando os pais não apresentam dificuldades notáveis no plano conjugal, mas se mostram primariamente incompetentes no exercício da parentalidade, falamos de privação, situação geradora de importantes carências na nutrição relacional dos filhos. Essa modalidade de família em geral provê as necessidades materiais deles, e chega a oferecer-lhes modelos positivos de socialização, a partir de uma normatividade adequada ou até, eventualmente, excessiva. São pais formalmente bem adaptados, que não chamam a atenção dos serviços sociais e são bem considerados pelos de saúde mental, mas que fracassam nos níveis mais profundos, onde suas próprias necessidades nutritivas prevalecem sobre as dos filhos.

Se a conjugalidade desarmoniosa coexiste com a parentalidade primariamente deteriorada, a situação relacional em que se desenrola a criação dos filhos pode ser qualificada de caótica. Trata-se de famílias que apresentam carências nutritivas muito graves, que expõem os filhos a todo tipo de riscos, entre os quais as severas falhas de socialização não são o menor. Contudo, porque suas carências são tão evidentes, essas famílias podem facilmente gerar recursos compensatórios, tanto externos quanto internos. Os externos vêm com as intervenções corretivas, terapêuticas ou solidárias, sejam elas espontâneas ou profissionais, enquanto os internos são um efeito colateral da conjugalidade desarmoniosa, que pode provocar reações parentais paradoxais em um dos dois pais.

Os transtornos de personalidade na nosologia psiquiátrica

Desde as primeiras tentativas de classificação dos transtornos mentais, descreveram-se quadros caracterizados por uma conduta inadaptada, uma baixa produtividade social e uma falta de consciência moral. Emil Kraepelin, na edição de 1915 de seu célebre tratado de psiquiatria, introduziu o termo personalidade psicopática que, em conformidade com as orientações dominantes na Alemanha da época, assumiu as conotações de uma patologia hereditário-degenerativa de raízes biológicas. Tal foi a concepção dominante enquanto durou a liderança alemã da psiquiatria, e o personagem que melhor a ilustrava era o delinquente imoral ou amoral, que terminava a vida na prisão ou no asilo.

Mas a derrota do nazismo tornou impossível a manutenção de propostas demasiado contaminadas pela cumplicidade com os horrores dos campos de concentração. Além disso, Partridge havia introduzido nos Estados Unidos o termo sociopatia, muito mais afinado com a ideologia americana do New Deal, saturada de otimismo sociológico (Partridge, 1930). É claro que o sonho americano também podia fracassar, mas, quando isso acontecia, nos bairros marginais das grandes cidades, o personagem emblemático era um gângster violento, mas razoavelmente socializado.

Nos anos 1950, o movimento americano do serviço social desembarcou no campo da saúde mental, achando o termo sociopatia ainda demasiado médico para seu gosto. O objeto característico da intervenção dos assistentes sociais continuava o mesmo, isto é, a violência, o abuso, a toxicomania e, em última análise, a marginalidade e a pobreza; mas, a partir de sua epistemologia, propuseram como alternativa o novo conceito de família multiproblemática, que representou mais um passo na sociologização do campo. Sempre se debateu, e continua-se a debater em nossos dias, a questão de saber se a pobreza é um fator pertinente na deterioração da saúde mental (Costello, 2003).

Simultaneamente, a síndrome ou transtorno borderline, que logo se tornaria o transtorno de personalidade limítrofe, surgia com a intenção de preencher o espaço existente entre psicose e neurose, que era, de certo modo, aquele que a antiga psicopatia já ocupava. Só que, a partir de então, esta renascia despojada de conteúdos geneticistas e com uma clara vontade de compreensão psicanalítica. Ao longo dos anos, o transtorno de personalidade limítrofe não parou de se afastar de seu primeiro significado psicopatológico de transtorno limítrofe psico-neurótico, para assumir conteúdos próprios da personalidade psicopática. E, ainda hoje, amplos setores de opinião continuam a considerá-lo incurável e se surpreendem quando esses pacientes melhoram ao longo de um tratamento (Gunderson, 2003).

Para lembrar

Psicopatia hereditário-degenerativa (Kraepelin, 1915), sociopatia do New Deal (Partridge, 1930), família multiproblemática do serviço social (anos 1950), depois transtorno limítrofe de inspiração psicanalítica: cada época rebatizou o mesmo espaço clínico, entre psicose e neurose, segundo sua ideologia dominante – biológica, sociológica ou psicanalítica.

Os transtornos de personalidade na psiquiatria atual

Chegamos assim ao último passo significativo da nosologia psiquiátrica para classificar os transtornos de personalidade. A American Psychiatric Association, em sua série de manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais (os sucessivos DSM), acabou por distinguir um Eixo II, próprio dos transtornos de personalidade, distinto do Eixo I, que corresponde aos transtornos clínicos. Introduz-se assim uma dicotomia profunda entre sintomas clínicos e personalidade, que não precisam manter relação mútua. Como veremos mais adiante, essa separação não tem nenhuma justificativa do ponto de vista psicorrelacional, que impõe naturalmente uma continuidade entre as diferentes manifestações psicológicas, normais e patológicas.

O Eixo II do DSM-IV-TR (American Psychiatric Association, 2000) distingue três grupos de transtornos de personalidade:

Grupo A

Transtorno paranoide, transtorno esquizoide e transtorno esquizotípico da personalidade.

Grupo B

Transtorno antissocial, transtorno limítrofe, transtorno histriônico e transtorno narcisista da personalidade.

Grupo C

Transtorno evitativo, transtorno dependente e transtorno obsessivo-compulsivo da personalidade.

É evidente que, mediante uma pequena modificação (a passagem do transtorno histriônico do grupo B para o grupo C), os três grupos se sobrepõem às três grandes áreas da psiquiatria clássica: psicoses (grupo A), psicopatias (grupo B) e neuroses (grupo C). Mas, para o que nos interessa aqui, vale a pena também nos determos nas características específicas do grupo B.

Por um lado, o panorama se enriquece notavelmente com a inclusão de três modalidades distintas e complementares: um padrão geral de desprezo e transgressão dos direitos alheios (o transtorno antissocial), um padrão geral de instabilidade impulsiva nas relações interpessoais (o transtorno limítrofe) e um padrão geral de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia (o transtorno narcisista).

Por outro lado, a dimensão social dos transtornos de personalidade, outrora representada pelas sociopatias e, de forma extrema, pelas famílias multiproblemáticas, desaparece quase totalmente. Para encontrar seus vestígios no DSM-IV, é preciso vasculhar as letras miúdas do Eixo I, onde, sob a rubrica Outras condições que podem ser foco de atenção clínica, aparecem fenômenos como: problemas relacionais (pais-filhos, conjugais, entre irmãos), problemas relacionados a abuso ou negligência (abuso físico, abuso sexual, negligência da criança), comportamento antissocial da criança ou do adolescente, assim como do adulto, etc. Em suma, uma verdadeira desintegração e dispersão dos aspectos mais sociais dos transtornos de personalidade, que, na prática, impedem seu manejo diagnóstico pelos clínicos.

Os transtornos do vínculo social

Todas as denominações utilizadas pela psiquiatria para designar os transtornos de conduta com déficit de adaptação social, supostamente centrados em estruturas patológicas da personalidade, foram propostas a partir de perspectivas parciais e enviesadas, desprovidas de uma visão integrada do ser humano. É o caso da psicopatia biologista, da sociopatia e da família multiproblemática sociologistas e, evidentemente, dos transtornos de personalidade do DSM-IV, artificialmente separados do restante das manifestações psíquicas.

Em coerência com a definição da personalidade aqui proposta em uma perspectiva relacional, o transtorno de personalidade subjaz necessariamente a toda manifestação psicopatológica estruturada, pois não há solução de continuidade no psiquismo. Distinguiremos, portanto, quatro grandes áreas psicopatológicas, dotadas cada uma de um espaço de personalidade problemática específico, e argumentaremos em favor da existência de certas particularidades relacionais subjacentes, também elas específicas. Trata-se das três grandes categorias da psiquiatria clássica, às quais viria se somar uma quarta, correspondente às depressões, destacadas do campo psicótico:

1

Transtornos neuróticos

Recuperam a antiga denominação, reagrupando os diversos transtornos que têm a ansiedade como denominador comum, distimia incluída.

2

Transtornos psicóticos

Coincidem, em linhas gerais, com o capítulo correspondente do DSM-IV, estruturados em torno das esquizofrenias e das psicoses delirantes.

3

Transtornos depressivos

Correspondem ao espaço da antiga psicose maníaco-depressiva, integrando sua separação do tronco psicótico proposta pelo DSM-IV e reconhecendo o peso específico bem maior do depressivo em relação ao maníaco.

4

Transtornos do vínculo social

Herdeiros da antiga psicopatia, definidos como transtornos de conduta com déficit de adaptação social, impulsividade e destrutividade.

Algumas hipóteses relacionais para os transtornos de personalidade

Refletindo sobre as disfunções relacionais mais importantes que podem ocorrer sob o signo da triangulação, da privação e da caotização (figura n.º 1), é possível descrever algumas correspondências com as áreas psicopatológicas que acabam de ser mencionadas e, por conseguinte, com as personalidades problemáticas específicas subjacentes (o que se chama de transtornos de personalidade). A figura n.º 2 mostra um esquema possível de localização dessas correspondências.

Os transtornos neuróticos situam-se plenamente no espaço das triangulações (fig. n.º 2, “1”). Com efeito, desde a metáfora edipiana que inspirou a teoria psicanalítica das neuroses, estas são associadas a uma situação relacional definida por uma aliança com um dos pais e uma relação conflituosa com o outro. É evidente que a desarmonia conjugal subjacente no casal parental, somada a um interesse primário pelos filhos que faz deles aliados desejáveis, constitui o terreno propício ao desenvolvimento dessas triangulações, que chamaremos de manipuladoras. Os sintomas neuróticos podem se aninhar nas dobras dessas relações trianguladas, que admitem numerosas fórmulas e combinações. Mas é aqui, além disso, que se situarão os transtornos de personalidade do grupo C, definidos preferencialmente pela ansiedade, como o transtorno evitativo e o obsessivo-compulsivo, assim como, eventualmente, o histriônico, que pertence ao grupo B.

Os transtornos psicóticos (fig. n.º 2, “2”) podem ser compreendidos, do ponto de vista relacional, como um resultado da desconfirmação, fenômeno comunicacional que consiste na experiência subjetiva da negação da própria existência por figuras significativas das quais se depende. Embora a desconfirmação ocorra com a máxima frequência e intensidade nas situações de triangulação, ela também pode surgir nas de privação e de caotização. Os transtornos de personalidade do grupo A, a saber, o esquizoide, o esquizotímico e o esquizotípico, seguirão uma distribuição semelhante.

Os transtornos depressivos respondem a um esquema relacional presidido fundamentalmente pela exigência e pela falta de valorização ou desqualificação, que tende a ocorrer frequentemente no espaço das privações (fig. n.º 2, “3”). Trata-se sobretudo do que se chama de depressão maior, acompanhada, em sua localização relacional, do transtorno depressivo da personalidade e, eventualmente, do transtorno de personalidade dependente, que pertence ao grupo C. O prolongamento da área depressiva em direção ao espaço das caotizações (fig. n.º 2, “4”) corresponde ao transtorno bipolar, que, embora compartilhe com a depressão maior o substrato de desqualificação, apresenta em geral, diferentemente desta, uma parentalidade primariamente deteriorada.

Quanto aos transtornos do vínculo social, que constituem o tema central deste capítulo, eles aparecem distribuídos entre os três espaços relacionais disfuncionais (fig. n.º 2, “5”). Aplicando a lógica do DSM-IV, tratar-se-ia de transtornos de personalidade em estado quase puro, sem outra mistura de manifestações clínicas inscritíveis no Eixo I além daquelas outras condições que podem ser foco de atenção clínica mencionadas acima. Incluiremos, contudo, nessa rubrica as principais variantes de inadaptação social que, ao longo da história da psiquiatria, foram tipificadas e descritas como transtornos psicopatológicos. Distinguem-se assim três grandes grupos:

1

Sociopatias

Transtornos do vínculo social caracterizados fundamentalmente por sua relação com a pobreza e outros fatores sociais desestabilizadores, como a imigração de risco. Existe uma ampla coincidência com as famílias multiproblemáticas: trata-se de pessoas que desenvolvem certa parassociabilidade, não desprovida de habilidades relacionais. Tendem a depender dos serviços sociais e a se vincular a seus pares, com o perigo de cair em redes marginais e mafiosas.

2

Transtornos limítrofes

Transtornos do vínculo social caracterizados fundamentalmente pela tendência à impulsividade e ao isolamento, resultado do fracasso do estabelecimento de relações sociais estáveis. São pessoas inadaptadas no plano profissional, de grande instabilidade relacional, que podem desenvolver sintomas múltiplos e cambiantes das constelações neurótica, psicótica e depressiva.

Na falta de pesquisas ulteriores que permitam seu eventual desmembramento, incluiremos no grupo dos transtornos limítrofes os transtornos narcisistas, caracterizados por uma conduta grandiosa e arrogante e uma tendência a invejar e explorar os outros. Por enquanto, faltam-nos dados para descrever suas bases relacionais, e temos a impressão de que elas não são muito diferentes daquelas que atribuímos aos transtornos limítrofes.

3

Transtornos antissociais

Transtornos do vínculo social caracterizados fundamentalmente pela tendência à agressividade e à destrutividade, com traços impulsivos marcados e uma carência de normatividade e de senso moral. É nesse grupo que podem se manifestar mais facilmente condutas delituosas graves, embora existam importantes passarelas com as sociopatias e os transtornos limítrofes.

Hipóteses relacionais específicas para os transtornos do vínculo social

1. As sociopatias

Na fig. n.º 2, “5”, observam-se diferentes áreas que se distribuem nos três espaços de disfunção relacional, correspondentes às triangulações, às privações e às caotizações.

As sociopatias situam-se de pleno direito no espaço das caotizações (fig. n.º 2, “6”), definido por uma conjugalidade desarmoniosa e uma parentalidade primariamente deteriorada. Trata-se, com efeito, de famílias que, muito cedo, frequentemente desde a constituição do casal fundador, fracassam tanto no plano conjugal, naufragando em um oceano de desacordos e mal-entendidos, quanto no plano parental, caindo em negligências maciças em relação aos filhos. Esses dois traços podem aparecer por ocasião de circunstâncias de vida críticas e inéditas, mas é mais frequente que se transmitam de geração em geração, favorecidos pela cultura da pobreza e do desenraizamento social em que essas famílias geralmente se encontram mergulhadas.

Os pais, muitas vezes muito jovens, brigam continuamente, entregando-se a episódios de notável violência que os levam a se abandonar e a se separar, tantas vezes quanto a se reconciliar e a voltar a ficar juntos. A fidelidade não é uma qualidade muito pertinente nesse contexto; não é, portanto, estranho que se estabeleçam relações esporádicas com terceiros, às vezes em um clima de franca promiscuidade, nem que, nos abandonos daí resultantes, proliferem as famílias monoparentais. Se a violência pode ser a expressão da frustração conjugal, veiculada pela impulsividade e pelas tendências ao agir, o sexo se converte em pseudossolução, encarregada de criar a ficção de um vínculo sólido, na realidade inexistente. É por isso que esses casais comunicam uma impressão de paixão atormentada, contraditória e desconcertante, capaz de enganar os observadores ingênuos.

Em uma atmosfera tão explosiva quanto caótica, os filhos vêm ao mundo marcados pelo selo do abandono à própria sorte. O caráter prolífico dessas famílias desorienta os serviços sociais, que tendem a atribuí-lo à pura irresponsabilidade, quando seu sentido é mais complexo. Irresponsáveis, sim, se entendermos por isso desprovidos da capacidade reflexiva que permitiria antecipar as necessidades dos filhos e garantir sua satisfação, mas também desesperadamente agarrados a uma parentalidade prolífica, fisicamente vigorosa, em contraste com sua deterioração relacional. Assiste-se aqui, mais uma vez, a uma atribuição de significado simbólico, que quer ver nos vínculos parentais o enraizamento transgeracional de que tão dramaticamente se carece. É por isso que, paradoxalmente, e não apenas por vontade de prejudicar, essas famílias reagem com ferocidade quando se veem ameaçadas da perda dos filhos.

Mas, enquanto isso, não há dúvida de que estes podem conhecer um destino incerto, à mercê de um caos que, por vezes, revela possuir leis cruéis. Mal vestidos, mal alimentados e com uma higiene pessoal sumária, chamam a atenção na escola por seus atrasos e seu absenteísmo, ou porque carregam os estigmas de violências físicas. Os vizinhos denunciam o abandono, quando eles não são objeto de uma trágica notícia de acidente doméstico, sobre o pano de fundo relacional das brigas dos pais, das visitas intempestivas de amantes não menos violentos e do abuso contínuo de álcool e outras drogas. E não é de surpreender que tudo isso tenha efeitos sobre a personalidade dos filhos, que, no mínimo, se desenvolverá com uma socialização defeituosa, tanto na vertente normativa quanto na vertente protetora.

Mas as famílias caóticas têm uma qualidade muito importante: sua capacidade, também ela paradoxal, de gerar recursos relacionais sobre o que, à primeira vista, parece um terreno nutricionalmente estéril. Esses recursos provêm indistintamente do interior ou do exterior do sistema, e podem ser compreendidos como reações ecológicas à profunda carência estrutural, exibida com provocação aos quatro ventos. Quanto mais profundo é o abismo que separa os pais e quanto mais eles estão mergulhados em dinâmicas destrutivas, mais um deles pode reagir tomando o leme da família e salvando os filhos do naufrágio. Além disso, a qualquer momento, a família ampliada pode intervir, recorrendo às suas fracas forças para prestar uma ajuda modesta, mas oportuna. Sem falar de outros agentes externos, tanto espontâneos quanto profissionais, que são incitados a intervir para fazer frente às carências de toda ordem que a situação evidencia. Essas intervenções podem se revelar contraproducentes se forem realizadas exclusivamente em perspectivas de controle, repressão ou substituição, mas, muito frequentemente, representam aportes de nutrição relacional preciosos para a maturação da personalidade dos filhos.

Eis uma das razões pelas quais, embora essas famílias relacionalmente caóticas sejam um viveiro de sociopatia, nem todos os seus membros seguem esse caminho. As outras razões são atribuíveis à complexidade e à incerteza.

Vinheta clínica: Ernesta

Ernesta nasceu em um pequeno povoado do litoral pacífico da Colômbia, no seio de uma família pobre e desestruturada. Seus pais, separados desde o nascimento dela, desinteressaram-se dela, confiando sua educação à avó paterna, que fez o que pôde, e foi muito, para substituí-los. E se não fez mais, foi porque não a deixaram, obstinados em explorar Ernesta fazendo-a trabalhar desde a mais tenra infância. Aos seis anos, a menina já percorria as ruas onde se desenrolava sua vida, vendendo comida e bugigangas sob a ameaça alternada do pai e da mãe caso não trouxesse dinheiro suficiente para casa. E, como não podia deixar de acontecer, foi nessas mesmas ruas que Ernesta conheceu o abuso extrafamiliar e que, mal entrada na adolescência, teve suas primeiras experiências sexuais com parceiros precários, cujo fruto foram três filhos em cinco anos.

Chegada à idade adulta entre pancadas, abusos e explorações de toda ordem, Ernesta emigrou para a Espanha com os filhos, decidida a construir uma nova vida. Trazia uma frágil bagagem de resiliente que lhe permitiu se instalar com a ajuda de alguns parentes, mas os problemas não demoraram a recomeçar. Instalada em um bairro difícil, começou a ser abordada por personagens duvidosos, um deles claramente predador. Mulher sedutora, não lhe faltavam propostas de prostituição, às quais nem sempre conseguia resistir, enquanto os filhos, meio abandonados, se deixavam proteger por um homem de intenções turvas sob o olhar indiferente da mãe. Quando, ao cabo de alguns anos, os serviços sociais tomaram conhecimento da situação, Ernesta estava mergulhada em uma profunda depressão, enquanto os filhos frequentavam gangues violentas e participavam de atos delituosos.

2. Os transtornos limítrofes

A localização dos transtornos limítrofes no esquema das disfunções relacionais básicas da família de origem (fig. n.º 2, “7”) mostra duas variantes possíveis, uma no espaço das triangulações e outra no das privações. Tal é também, por enquanto, a hipótese relativa ao transtorno narcisista, incluindo o narcisismo maligno (Kernberg, 1984).

As triangulações surgem quando uma parentalidade primariamente conservada se vê secundariamente deteriorada pelo impacto de uma conjugalidade desarmoniosa, o que faz com que os filhos se vejam convidados a participar, com poucas possibilidades de se esquivar, dos jogos relacionais disfuncionais dos pais. Como vimos, existem diversas modalidades de triangulação, entre as quais as manipuladoras estão relacionadas aos fenômenos neuróticos e as desconfirmadoras aos fenômenos psicóticos. Nesse contexto, podemos chamar de triangulação equívoca uma situação relacional em que os pais, muito distantes um do outro, negligenciam a educação do filho na crença interessada de que é o outro que se encarrega dela. Cada um cumpre suas funções a contragosto, sem dissimular muito seu cansaço e sua contrariedade, com o sentimento de que o que faz é o resultado injusto da inibição do outro. Em uma variante, o filho dispõe de um dos pais muito próximo, quase fusional, que não admite a menor hesitação na incondicionalidade da relação, enquanto o outro aproveita a ocasião para se afastar inflexivelmente. Com o tempo, quando o ciclo de vida impõe dinâmicas de autonomização, o primeiro acaba por tomar distância por sua vez. Pode também acontecer que o genitor aliado seja frio e pouco nutritivo, enquanto o antagonista é mais caloroso e intenso, mas rígido e autoritário. Nenhum dos dois oferece, em todo caso, um apoio sólido ao qual se vincular.

No espaço das privações desenvolvem-se dinâmicas relacionais definidas por uma parentalidade primariamente deteriorada e uma conjugalidade harmoniosa, geralmente sob o signo da complementaridade. Os pais, em bom entendimento entre si, mostram-se incapazes de responder às necessidades nutritivas do filho, que percebem como incômodo e cheio de defeitos. Se predominam a exigência e a baixa valorização de seus esforços, é provável que o resultado se oriente para a depressão maior; mas se o que sobressai é uma atitude de rejeição, misturada a uma pseudo-hiperproteção que visa mais a se livrar da presença exigente e fastidiosa do filho do que a satisfazer suas necessidades, estão sendo lançadas as bases do desenvolvimento de um transtorno limítrofe. Nos dois casos, a nutrição relacional do filho é profundamente afetada, sob uma superfície de primoroso respeito às aparências de adequação social. Mas se, no primeiro caso, produz-se uma hipersociabilidade normativa, que faz do depressivo o escravo da honorabilidade da fachada, no segundo, a normatividade social fracassa, e com ela a capacidade de construir vínculos estáveis.

Privação por exigência e desqualificação

Hipersociabilidade normativa, escravidão da fachada honrada: o caminho da depressão maior.

Privação por rejeição e pseudo-hiperproteção

Fracasso da normatividade social e da capacidade de construir vínculos estáveis: o caminho do transtorno limítrofe.

Vinheta clínica: Enrique, Rosa e Silvia

Enrique e Rosa decidiram adotar uma menina peruana depois de perder o filho adolescente em um acidente de trânsito. Mas, contrariamente às suas ilusões e expectativas, as coisas não correram bem desde o início. Silvia, segundo eles, não se parecia com Carlos, o filho morto; por sua turbulência e sua sensualidade precoce, ela lhes lembrava continuamente fantasmas ligados às suas obscuras origens tropicais e terceiro-mundistas.

Rosa havia vivido uma infância de privação, abandonada pelo pai e criada por uma mãe arbitrária e frívola que a explorava descaradamente em proveito de seus próprios caprichos. Não havia sequer aprendido a escrever bem, porque a mãe a tirava da escola para que fizesse as tarefas domésticas em seu lugar. Quando conheceu Enrique, um homem autoritário e controlador, mas bem organizado e muito apaixonado por ela, Rosa se jogou em seus braços, acreditando ter encontrado a segurança e a proteção tão desejadas. E, de fato, foi em grande parte o caso. O casal sempre funcionou com grande solidez, embora as perdas sucessivas tenham acabado por abalar Rosa: primeiro a morte de Carlos, depois a decepção da adoção de Silvia e, por fim, um problema de impotência de Enrique, surgido ao mesmo tempo que as primeiras manifestações da menopausa dela.

Com Rosa deprimida, as características básicas do casal parental se acentuaram ainda mais. Enrique se dedicou de corpo e alma a cuidar da esposa, que considerava uma bonequinha bonita e irresponsável, enquanto tratava Silvia, agora adolescente, com um despeito crescente, acusando-a de ser a responsável pelos problemas da mãe. Nesse contexto, Silvia se tornou uma jovem rebelde, abandonou a escola e frequentou companhias pouco recomendáveis, em uma atmosfera de instabilidade emocional e promiscuidade sexual. O diagnóstico de transtorno limítrofe não se fez esperar, confirmando a antiga apreensão dos pais de terem adquirido um material defeituoso.

Podemos levantar a hipótese, em contrapartida, de que a deterioração primária da parentalidade penalizou Silvia ao confrontá-la com uma comparação impossível de satisfazer com o irmão morto idealizado. É verdade, como diziam os pais, que a menina teve tudo o que queria, mas isso ocorreu em um contexto de rejeição crescente, definido pela necessidade deles de se desculpabilizar expiando a morte de Carlos. A pseudo-hiperproteção assim desenvolvida, longe de beneficiar Silvia, fez dela cada vez mais uma criança mimada, com dificuldades para respeitar limites e regras, e uma grande desconfiança quanto à autenticidade nutritiva das relações interpessoais. Por outro lado, a conjugalidade harmoniosa dos pais, fundada em uma complementaridade progressivamente enrijecida, longe de constituir um quadro funcional para o exercício da parentalidade, transformou-se em um estreito espartilho que a sufocava ainda mais. Com efeito, a boa harmonia dos pais não deixava filtrar nenhuma dissidência compensatória, mas apresentava a Silvia uma frente de rejeição impenetrável.

3. O transtorno antissocial

A fig. n.º 2, “8” mostra os transtornos antissociais situados a cavalo entre o espaço das privações e o das caotizações. É que, com efeito, nos dois espaços podem se reunir as circunstâncias propícias a esquemas de conduta antissocial, que supõem uma profunda desnutrição relacional tingida pelo fracasso mais completo da normatividade.

A raiz privada do transtorno antissocial pode se ativar quando, no contexto relacional do transtorno limítrofe por privação, a rejeição do filho se torna tão evidente que domina qualquer veleidade de socialização. Quanto à raiz caótica, ela pode ser operante quando as duras condições da sociopatia não são temperadas por recursos compensatórios internos ou externos. Nos dois casos, estão lançadas as bases para o desenvolvimento de condutas que implicam o desprezo e a violação dos direitos alheios, transformado em objeto de satisfação imediata dos próprios desejos e caprichos. Verdadeiros predadores humanos, os sujeitos assim criados ilustram melhor do que outros a máxima segundo a qual o mal existe, e não é outra coisa senão a ausência de amor.

Vinheta clínica: Kevin

O pai de Kevin era um alcoolista violento, habituado a viver às custas dos serviços sociais, que, quando se separou da esposa, obteve a guarda do filho porque a mãe, deficiente e psicótica, era ainda menos capaz de garantir sua segurança.

Tendo crescido em um meio desprovido de qualquer ternura e sob uma ameaça contínua à sua sobrevivência, Kevin aprendeu a abrir caminho na vida tomando o que precisava por meio da intimidação e da agressão. Desde muito pequeno, havia forjado para si uma lenda de perigo público, queimando e lacerando animais vivos na rua e agredindo os colegas de escola com uma frieza e uma eficácia absolutas. Adulto, Kevin se tornou um cliente habitual das delegacias e das prisões, cultivando gêneros de risco e de lucro crescentes. Homem de inegável atrativo físico, não tinha nenhuma dificuldade em encontrar companheiras, que usava e descartava sem jamais desenvolver vínculos estáveis. Quando, após sua última prisão, foi atendido por psicólogos, manifestou uma total indiferença em relação a qualquer vínculo emocional, que tachava de sentimentalismo inútil, expressando uma arrogância inabalável em sua decisão de prosseguir sua singular carreira profissional.

Considerações finais

Tudo o que acaba de ser exposto sobre os transtornos de personalidade apoia-se em uma pesquisa clínica sobre as bases relacionais da psicopatologia, que vem se desenvolvendo há anos e que já deu alguns frutos significativos nos campos dos transtornos depressivos (depressões maiores e distimias) (Linares e Campo, 2000) e das psicoses (Linares, Castelló e Colilles, 2001). O programa correspondente aos transtornos de personalidade está atualmente em curso, e as ideias aqui expostas constituem uma primeira amostra dele.

Os transtornos de personalidade não constituem um território independente no campo da psicopatologia, e não se sobrepõem de forma arbitrária ou aleatória às outras manifestações sintomáticas. Ao contrário, existe um continuum coerente na mente humana, que faz com que uma personalidade específica esteja necessariamente presente em todo fenômeno psíquico, normal ou patológico.

Os quatro grandes espaços da psicopatologia – neuroses, psicoses, depressões e transtornos do vínculo social – possuem, em consequência, suas respectivas dimensões de personalidade problemática, que, por sua vez, correspondem a outras tantas áreas de disfunção relacional. Entre os quatro, os transtornos do vínculo social, herdeiros das antigas personalidades psicopáticas, são os que formam o objeto privilegiado de reflexão destas páginas; eles se dividem, por sua vez, em três grupos dotados de substratos relacionais diferentes nas famílias de origem: as sociopatias (caotizações), os transtornos limítrofes (triangulações e privações) e os transtornos antissociais (privações e caotizações).

A delinquência e o crime, expressões máximas e extremas dos transtornos do vínculo social, podem ser alcançados a partir de qualquer uma de suas variantes, mas também a partir da normalidade relacional e da ausência de psicopatologia, segundo as circunstâncias individuais, familiares e sociais concorrentes (Lykken, 1995).

Do mesmo modo, a infinita capacidade do ecossistema de gerar recursos relacionalmente nutritivos pode tornar resilientes sujeitos marcados pelas circunstâncias mais adversas, preservando-os de cair nessas patologias como em outras.

Para lembrar

Não há salto de continuidade no psiquismo: cada grande área psicopatológica carrega sua personalidade problemática, e cada uma remete a um espaço de disfunção relacional da família de origem. Sociopatias (caotização), transtornos limítrofes (triangulação e privação) e transtornos antissociais (privação e caotização) são assim legíveis como fracassos da nutrição relacional – e nunca como destinos, pois o ecossistema sempre pode gerar recursos nutritivos.

Nota do original

(*) Capítulo do livro organizado por Arturo Roizblatt, Terapia Familiar y de Pareja (2006), Editorial Mediterráneo, Santiago do Chile.

Referências

American Psychiatric Association (2000) – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-IV-TR. Washington DC.

Bateson, G. (1972) – Steps to an Ecology of Mind. Ballantine Books, New York.

Costello, E. J. (2003) – Can money buy mental health? Journal of the American Medical Association, 290, n.º 15, p. 2023-29.

Falicov, C. J. (1998) – Latino Families in Therapy. The Guilford Press, New York.

Gold, S. y Bacigalupe, G. (1998) – Interpersonal and systemic theories of personality (in: D. Barone, M. Hersen y V. V. Hasselt, Advanced Personality). P. 57-79. Plenum, New York.

Gunderson, J. y cols. (2003) – Vanishing Borderline Personality Disorder. Psychiatry: Interpersonal and Biological Processes, 66, n.º 2, p. 111-19.

Kernberg, O. (1984) – Severe Personality Disorders. Yale University Press, New Haven, Ct.

Linares, J. L. (1996) – Identidad y narrativa. La terapia familiar en la práctica clínica. Paidós, Barcelona.

Linares, J. L. y Campo, C. (2000) – Tras la honorable fachada. Los trastornos depresivos desde una perspectiva relacional. Paidós, Barcelona.

Linares, J. L., Castelló, N. y Colilles, M. (2001) – La thérapie familiale des psychoses comme processus de reconfirmation. Cahiers critiques de thérapie familiale et de pratiques de réseaux, vol. 26, p. 61-82.

Lykken, D. T. (1995) – The Antisocial Personalities. L. Erlbaum Ass., Hillsdale, N.J.

Partridge, G. E. (1930) – Current conceptions of psychopathic personality. American Journal of Psychiatry, 10, p. 53-99.

Sullivan, H. S. (1953) – The Interpersonal Theory of Psychiatry. Norton, New York.

Este artigo é a tradução para o português de “Una visión relacional de los trastornos de personalidad”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Terapia Familiar y de Pareja (dir. A. Roizblatt), Editorial Mediterráneo, Santiago du Chili, 2006). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

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Como citar este artigo

Linares, J. L. (2023). Uma visão relacional dos transtornos de personalidade (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/uma-visao-relacional-dos-transtornos-de-personalidade (Obra original publicada em 2006 em Terapia Familiar y de Pareja (dir. A. Roizblatt), Editorial Mediterráneo, Santiago du Chili, 2006; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/02/08/una-vision-relacional-de-los-trastornos-de-personalidad/)

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