Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Prática clínica
O que acontece com uma terapia nascida no Wisconsin quando é praticada em Hong Kong? Ann Moir-Bussy, que ensinou terapia breve focada nas soluções na Universidade Shue Yan antes de voltar à Austrália, relata o que seis estudantes de mestrado inventaram num semestre de estágio. Uma menina disléxica que colore uma garrafa de Sprite como escala, um adolescente insone que lança Angry Birds rumo ao seu objetivo, uma mãe de 39 anos que não quer mais morrer depois de uma pergunta de exceção. E duas técnicas que emperram: o elogio, que a modéstia confuciana rejeita, e o milagre, reescrito como visita ao templo de Wong Tai Sin ou como filme dirigido pelo próprio adolescente. Um texto curto de 2014, primeiro número da revista, que coloca a pergunta que toda prática encontra: o que sustenta um método quando se muda de mundo?
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Using SFBT in Hong Kong: Initiatives from Hong Kong Master of Counselling psychology students and implications for cultural contexts in Australia, de Ann Moir-Bussy, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014), hoje Journal of Solution Focused Practices, doi: 10.59874/001c.75124, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As nove figuras do original são fotografias de desenhos de criança e de fichas de trabalho; não são reproduzidas, mas descritas em fichas, a partir da renderização das páginas. Os caracteres chineses são os do original. A autora apresentou uma versão deste texto na primeira conferência australiana e neozelandesa focada nas soluções, Gold Coast, julho de 2013. Esta tradução não foi feita nem pela autora nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) é uma abordagem terapêutica desenvolvida principalmente com base na cultura, nas crenças e nos ideais ocidentais. Seis estudantes de mestrado em psicologia do aconselhamento em Hong Kong participaram de um estágio clínico de um semestre durante o qual tiveram a oportunidade de aplicar os princípios da TBFS com uma clientela chinesa. O artigo começa com uma visão geral do desenvolvimento da TBFS e do aconselhamento em Hong Kong, seguida das considerações sobre o contexto cultural. Três exemplos de caso são apresentados, além das aprendizagens, dos desafios culturais e das experiências desse grupo de estágio. As implicações do uso da TBFS no contexto cultural australiano são brevemente discutidas.
Ao introduzir a terapia breve focada nas soluções (TBFS) num grupo culturalmente diferente daquele para o qual foi concebida, o novo contexto, os valores filosóficos e as crenças precisam todos ser levados em conta. Um grupo de estudantes de mestrado em psicologia do aconselhamento em Hong Kong realizou um estágio clínico durante o qual explorou o uso da TBFS com uma clientela variada, incluindo crianças com necessidades especiais e deficiências, adolescentes e pessoas atendidas em saúde mental. Este artigo começa com uma visão geral do desenvolvimento da TBFS em Hong Kong, seguida de uma breve discussão do contexto cultural chinês. Em seguida, são apresentados três exemplos de caso em que a TBFS foi aplicada pelo grupo de estágio do mestrado com uma clientela real. Cada estudo de caso usa pseudônimos, e a autorização dos pais foi obtida para usar os desenhos em apresentações e publicações. Depois, são explorados os desafios do uso de algumas técnicas da TBFS, especificamente os elogios e a pergunta do milagre. Por fim, são discutidas brevemente as implicações do uso da TBFS nos contextos culturais australianos.
O primeiro programa de formação em TBFS foi conduzido em Singapura e Hong Kong por volta de 1999-2000 sob a liderança de Insoo Kim Berg. A equipe de formação original incluía “Brian Cade, Michael Durrant e Therese Steiner” (M. Durrant, comunicação pessoal, 2014). Em 2004, foi criada a Academy for Solution-Focused Therapy Training e, em 2006, a “Academy… organizou a primeira conferência Ásia-Pacífico focada nas soluções” (M. Durrant, comunicação pessoal, 2014). Em 2006, uma segunda academia foi formada e nomeada Brief Academy (M. Durrant, comunicação pessoal, 2014). Naquela época, a TBFS não tinha muitos adeptos, e algumas experiências negativas com a pergunta do milagre lhe deram uma má reputação quanto à sua utilidade. Além disso, a maioria dos serviços de aconselhamento e de psicologia não conhecia a TBFS e, consequentemente, não a usava. Hoje, porém, as duas organizações mantêm a sua presença e o seu envolvimento em eventos nacionais e internacionais (Durrant, 2014). Houve também algumas publicações locais em chinês, entre elas Solution-Focused Therapy: Social Work Application (Ho & Chu, 1999), Solution-Focused Therapy: Practice and Reflections 1 (Ng & Ho, 2003) e Solution-Focused Therapy: Practice and Reflections 2 (Ho & Lau, 2003).
O aconselhamento em Hong Kong começou no setor da assistência social durante os anos 1950 (Lai & Mak, 1996; Leung, T., 1990; Moir-Bussy, 2006; Shek, 1999). Foi uma resposta à agitação e aos tumultos desencadeados pela Revolução Cultural, com o consequente aumento dos problemas sociais, especialmente a delinquência infantil e juvenil. Igrejas e agências de assistência social procuraram responder a esses problemas. Leung (1999) observa que o primeiro serviço de aconselhamento foi a Federation of Youth Groups, “um programa experimental de aconselhamento cuja equipe era formada por pessoas que regressavam de programas de formação nos Estados Unidos” (p. 77). Nos anos 1970, o aconselhamento começou a ser incluído nos programas de diploma e mestrado em educação, e a Universidade Chinesa de Hong Kong formou a Hong Kong Professional Counselling Association. No início de 2004, a Asian Professional Counselling Association foi fundada pela professora Catherine Sun Tien-Lun e pela Sra. Tse Pui Chi, com uma equipe entusiasta de aconselhamento.
O primeiro curso formal de diploma em aconselhamento foi oferecido no Hong Kong Shue Yan College em 1976, com o início do seu Diploma em Ciências Sociais (Aconselhamento e Psicologia). O HK Shue Yan College tornou-se universidade em 2005 e oferecia então uma graduação completa de quatro anos, na forma de um Bachelor of Social Science Honors (Aconselhamento e Psicologia). Em 2010, a universidade iniciou um mestrado em psicologia do aconselhamento, e foi nesse curso que a TBFS foi ensinada pela autora, com as pessoas matriculadas participando de um estágio clínico com a TBFS durante o seu internato. As discussões em aula e as aprendizagens das seis primeiras pessoas que fizeram esse estágio clínico em TBFS formam a base deste artigo.
Em Hong Kong, a população chinesa é conservadora, dependente da autoridade (Ho, 1996; Ho, Peng & Chan, 2002; Sun, 2008) e geralmente hesitante em procurar aconselhamento. Tende a resistir à mudança dos seus pensamentos cognitivos e insiste em preservar os seus saberes e rituais tradicionais. Além disso, como a doença mental é vista como fraqueza ou imperfeição, há um estigma associado a quem procura aconselhamento para problemas mentais (Chung & Wong, 2004). Ademais, na cultura chinesa, considera-se o eu interdependente muito mais importante do que o eu individual, derivando “a sua autoestima da capacidade de se conter, e de se ajustar aos costumes sociais e manter a harmonia com eles” (Sun, 2008, p. 56). Outra faceta essencial das relações interpessoais é a noção de face (mian zi), pela qual o eu-em-relação chinês deve ganhar face, dar face aos outros e não fazer os outros perderem a face (Hu, 1994; Sun, 2008). Assim, reconhecer que um membro da família precisa de aconselhamento e de ajuda de uma pessoa de fora poderia fazer a família perder a face aos olhos dos outros. A busca de ajuda é passiva, ou não é ativamente empreendida, o que leva a uma maior dependência da família e do círculo de amizades. Se a decisão de pedir ajuda é tomada, as famílias tendem a procurar o serviço social, profissão mais conhecida do que o aconselhamento. No entanto, tanto o aconselhamento quanto o serviço social são vistos como autoridade, e a expectativa é que essas disciplinas forneçam as respostas necessárias.
Quanto às aprendizagens e aos casos apresentados neste artigo, o grupo de estágio em psicologia do aconselhamento percebeu que era preciso mudar a aliança clínica de uma aliança de dependência para uma aliança de colaboração. Reconheceu também que seria mais apropriado poder deslocar a tendência chinesa de confiar no destino e no coletivismo (Leung, 2010) para uma abordagem mais holística, em que a clientela pudesse reconhecer que tem forças e a capacidade de resolver as dificuldades dentro das suas próprias famílias de forma positiva.
A tradução dos termos para o chinês pode às vezes levar a mal-entendidos. Por exemplo, a tradução de “Solution-Focused Brief Therapy” para o chinês é 短期焦點解決治療, que significa terapia / de curto prazo / focada / solução, e 尋解導向治療, terapia / orientada / para a busca de solução. No confucionismo, os nomes determinam os papéis e as responsabilidades. Assim, “a retificação dos nomes (zheng ming) significa estar à altura dos seus papéis e responsabilidades com correção na linguagem e no comportamento, isto é, observando a propriedade social” (Sun, 2008, p. 13). A tradução chinesa de TBFS pode, portanto, criar a falácia de que o aconselhamento tem o poder de resolver todos os problemas e de que esse é o seu papel. Consequentemente, a clientela chinesa pode ter formado a impressão de que a pessoa que aconselha assumiria toda a responsabilidade e a iniciativa de fornecer soluções e respostas na TBFS. O grupo de estágio em psicologia do aconselhamento enfrentou esses desafios de forma criativa ao abordar as dificuldades surgidas da língua, das traduções e das expectativas da sua clientela chinesa.
O sistema educacional de Hong Kong oferece 12 anos de escolaridade gratuita e universal, primária (6 anos) e secundária (6 anos). Há aproximadamente 568 escolas primárias, 542 escolas secundárias e 61 escolas especiais. As crianças com necessidades educacionais especiais (NEE) são alocadas às escolas com base na gravidade da sua necessidade (Miho, 2013). Se diagnosticadas com NEE graves e deficiências múltiplas, são matriculadas em escolas especiais; caso contrário, vão para escolas regulares. O diagnóstico e a avaliação das necessidades dessas crianças seguem o modelo médico. As necessidades de estudantes com NEE frequentemente não são reconhecidas e, se as crianças estão em escola regular, podem sofrer por vezes zombarias e falta de apoio (Miho, 2013). O papel do corpo docente inclui ensino, administração da turma, orientação, disciplina e aconselhamento. Se a equipe docente não consegue lidar com os problemas da criança com NEE, ela é frequentemente encaminhada à pessoa responsável pela orientação e disciplina. Em geral, corpo docente e pais trabalham juntos para remediar as dificuldades, compensar a fraqueza da criança e reduzir as barreiras à aprendizagem. Em alguns casos, os pais se tornam superprotetores e muito envolvidos nos cuidados dos filhos, e tendem a pressioná-los a alcançar um nível alto, mesmo que isso ultrapasse as suas capacidades. O caso de YL mostra uma aplicação da TBFS com uma criança com necessidades especiais. A pessoa estagiária de psicologia do aconselhamento foi designada para trabalhar com essa criança.
YL (pseudônimo) era uma menina de nove anos que vivia com os pais e a irmã mais nova. A mãe era a principal cuidadora. YL tinha diagnóstico de transtorno da linguagem expressiva, dislexia chinesa e problemas de atenção. Estudava numa escola regular. A mãe apresentava YL como tendo pouca motivação para aprender, porque adiava as tarefas de casa e, quando começava, passava longas horas fazendo-as, incluindo a revisão para o ditado e a ortografia. A mãe também afirmava que YL não era obediente em casa e às vezes tinha birras. Foi relatado que era alvo de zombarias dos colegas.
Nas cinco primeiras sessões, a pessoa estagiária usou uma abordagem psicodinâmica, com pouco sucesso ou progresso. Na sexta sessão, a pessoa estagiária, tendo aprendido a TBFS, começou a usá-la com a criança. No início dessa sessão, YL comentou que se lembrava do que tinha sido feito nas sessões anteriores; a pessoa estagiária elogiou então a sua boa memória, identificando assim uma das forças de YL e fortalecendo o vínculo. A pessoa estagiária também incorporou técnicas de arteterapia (Nims, 2007) para as perguntas de escala e para a definição de objetivos, a fim de ajudar a despertar a esperança na menina. Outra maneira de ajudar YL a definir os seus objetivos foi o rearranjo sintático, por exemplo:
Essa reformulação lhe deu a percepção de que as coisas podem melhorar gradualmente. Além disso, Nims (2007) observa que a arte é uma excelente ferramenta para ajudar as crianças a fazer uma imagem do que está acontecendo na sua vida agora e a mostrar o que, nas suas ações, indicaria que as coisas estão melhores. Pediu-se então a YL que:
O primeiro desenho de YL (ver figura 1) a representava sentada à sua mesa. O rosto estava abatido, sem sorriso. Ela falou da dificuldade que tinha em casa e na escola. O segundo desenho (ver figura 2) mostrava uma menina sorridente e indicava que a mudança que queria fazer era tornar-se uma menina feliz e sorridente.
YL também adorava Sprite; a noção de escala usada na TBFS foi então desenhada para que ela a colorisse na forma de uma garrafa de Sprite (ver figura 3), com os dois tons representando a mudança após algumas sessões. O quarto desenho (figura 4) mostra o objetivo definido: fazer as tarefas sem ser pressionada e tirar notas bem melhores no ditado, tudo o que ela alcançou.
Figuras 1 a 4. Os desenhos de YL (descritos)
Figura 1, “YL sentada à mesa, rosto abatido”: um desenho a lápis, uma menina de rabo de cavalo e suéter xadrez, braços ao longo do corpo, boca caída. Figura 2, “Como YL gostaria de ser”: a mesma silhueta, a mesma roupa, mas um sorriso largo. Figura 3, “A escala em garrafa de Sprite”: uma garrafa desenhada na vertical, colorida em dois tons de cinza, com quatro caixas de marcar legendadas em chinês na margem e a anotação “4-10”: o preenchimento marca onde YL está, o tom mais escuro o caminho já percorrido. Figura 4, “YL feliz fazendo as tarefas”: uma menina de cabelos pretos, sorridente, de roupa escura, uma mochila estilizada, um sol rabiscado no canto.
Nas sessões seguintes, a pessoa estagiária convidou a mãe a participar e lhe mostrou como o uso da linguagem da TBFS e das formas de encorajamento podia ajudar YL a continuar melhorando. Não foi tarefa fácil, pois muitas mães chinesas querem tanto que os filhos sejam perfeitos. A mãe tentou elogiar mais e, à medida que o fazia, o comportamento de YL e a sua atitude em relação às tarefas melhoraram, e ela ficou muito mais feliz. Na última sessão, a mãe anunciou com orgulho que YL havia tirado 80% no ditado e agora fazia as tarefas de melhor vontade. A pessoa estagiária elogiou não só a mãe, mas também YL, por saber o que a mãe queria e por estar disposta a trabalhar em direção ao que a mãe desejava para ela.
CN (pseudônimo) era um menino de 13 anos matriculado no primeiro ano do secundário numa escola regular. Vivia com os pais e a irmã mais nova. A mãe era a principal cuidadora. A professora de orientação da escola o encaminhou ao serviço de aconselhamento, pois CN lhe havia relatado que sofria de insônia, e notava-se também que lhe faltava autoestima para lidar com a mudança para o secundário.
A pessoa estagiária criou de forma criativa fichas de trabalho para ajudar CN a se expressar e para avaliar quanta confiança ele tinha no início do aconselhamento. A primeira ficha (ver figura 5) foi concebida para definir os objetivos de CN e avaliar o seu nível de motivação para resolver as preocupações apresentadas.
Essa imagem ajudou CN a ser mais concreto sobre os seus objetivos e a visualizar onde queria estar: livre da insônia e com mais confiança em si. A pessoa estagiária também quis avaliar os níveis de estresse de CN e usou novamente uma ficha (ver figura 6) no início e no fim para comparar a diferença.
Outra ficha (ver figura 7) serviu para aplicar a pergunta do milagre e ajudar CN a tomar consciência de como queria que as coisas fossem, concentrando-se na consciência das suas sensações, sentimentos e ações e em quem mais notaria a mudança. Norum (2000) afirma que, para que a terapia tenha sucesso, a consciência cognitiva e a consciência sensorial que a pessoa atendida tem de si mesma são fatores cruciais. Assim, a imaginação do estado ideal da pessoa atendida foi formulada com várias sensações (ouvir, ver e sentir). Elas estão na ficha e ajudaram CN a reconhecer mais profundamente o que queria e a ser mais realista e mais ancorado quanto à sua vida ideal.
Uma vez estabelecida a sua visão do futuro preferido, os objetivos se tornaram mais concretos, e os níveis de estresse e de confiança para atingir o seu objetivo foram medidos em escala (ver figuras 8 e 9). As imagens criativas usadas pela pessoa estagiária ajudaram CN a se expressar de forma positiva. Além disso, CN foi encorajado a listar as suas forças e as qualidades que o ajudariam a atingir o seu objetivo.
Figuras 5 a 9. As fichas de trabalho de CN (descritas)
Figura 5, “A escala Angry Birds de CN” (ficha 1: objetivo da sessão e nível de motivação): um estilingue embaixo à esquerda, uma trajetória em arco de dez pássaros até uma torre de porcos embaixo à direita, e um quadro “My goal” preenchido à mão em chinês. Figura 6, “A escala de estresse de CN” (ficha 2: nível de sofrimento antes e depois da sessão): dois termômetros graduados de 0 a 10, uma grande seta entre eles, o primeiro marcado mais alto que o segundo. Figura 7, “Os objetivos concretos de CN” (ficha 3: sensações e sentimentos inspirados pela pergunta do milagre): uma silhueta de fada no canto, e uma estrela de cinco pontas cujas pontas trazem Hear, See, Feel, Action, Who, cada uma preenchida em chinês. Figura 8, “A ficha prática de CN” (ficha 4: solução e grau de confiança para aplicá-la): um pequeno personagem segurando uma bandeira, um balão de pensamento preenchido em chinês, um cacho de balões. Figura 9, “A história de sucesso de CN” (ficha 5: forças, plano de trabalho e grau de confiança): um personagem de desenho animado radiante, um grande balão de fala em chinês, um termômetro graduado na margem.
O que parecia impossível ao aluno no início tornou-se uma história de sucesso: ele alcançou o que queria e ganhou confiança.
Uma pessoa do grupo, que atuava em enfermagem de saúde mental, se interessava por como a TBFS poderia ser usada com pessoas atendidas em saúde mental. Em Hong Kong, o tratamento dos problemas de saúde mental se baseia muito no modelo médico e no uso de medicação. Segundo Bakker, Bannink e Macdonald (2010), a TBFS é eficaz na intervenção em crise. Embora a TBFS possa ser muito útil na intervenção em crise, é importante que a clínica compreenda o estatuto da emergência psiquiátrica e as necessidades da clientela. Anguilera (1998) propõe um modelo para lidar com a emergência psiquiátrica, em que o estado atual da pessoa atendida, os seus comportamentos e a situação tal como ela a conceitua são vistos como a sua incapacidade de identificar um mecanismo de enfrentamento ou um apoio social. A orientação da intervenção é, portanto, ajudar a pessoa atendida a encontrar melhores mecanismos de enfrentamento e fornecer apoio social. A TBFS é particularmente útil nesses casos. As emergências psiquiátricas exigem resultados terapêuticos rápidos, mais prováveis quando as intervenções são simples e diretas (Callahan, 2009).
Uma cliente se apresentou à pessoa estagiária com ideação suicida. A mulher tinha 39 anos e sofria de depressão pós-parto havia vários anos.
A pessoa estagiária adotou algumas das técnicas da TBFS aprendidas durante os estudos. Parte da transcrição de uma das sessões de terapia é apresentada a seguir.
Trecho de sessão
Cliente (C): Tenho pensamentos suicidas há 9 anos, e a ideação ainda está ativa. Ontem eu estava pensando em me jogar de um lugar alto.
Terapeuta (T): Pode me contar mais?
C: Minha vida é dolorosa demais. Ninguém me ama nem me apoia. Toda vez que falo dos meus problemas com meu marido, ele conversa comigo um pouco e depois muda para um assunto ligado ao nosso filho. Ele geralmente acha que eu sou complicada e que crio problemas o tempo todo.
T: Muitas pessoas que se sentem ignoradas pelas pessoas importantes para elas sentiriam dor (normalização). Por outro lado, você deve amar muito a sua família e o seu marido. Talvez esteja notando o problema porque quer que a relação do casal cresça (elogio, e ênfase na importância da relação para a clientela chinesa).
C: Sim… (soluçando)
T: Fale-me de uma vez em que o seu marido não a ignorou, quando você falava dos seus problemas pessoais com ele. (pergunta de exceção)
C: … Não sei… Ele sempre me ignora.
T: Então, quando foi a última vez em que você se sentiu um pouco menos ignorada, ou teve uma comunicação melhor com o seu marido? (perguntas de exceção)
C: Semana passada. Quando eu estava falando dos efeitos colaterais dos meus antidepressivos.
T: Uau! Como você conseguiu fazer isso? (pergunta de enfrentamento)
C: Falei com meu marido com sinceridade. Ao contrário de outras vezes, em que eu teria um ataque de raiva, não briguei com ele por não ter notado meu efeito colateral. Só disse que o efeito colateral me incomodava muito. Então ele mostrou muita preocupação comigo, e conversamos sobre isso por quase meia hora.
T: Gostaria de lhe fazer uma pergunta estranha… imagine… você dorme muito bem esta noite… um milagre acontece enquanto você dorme… o milagre cria para você a maneira de ter uma comunicação perfeita com o seu marido… isso acontece enquanto você está dormindo… então você não sabe que aconteceu, mas quando acorda algo está diferente… que mudanças você nota ao acordar? (pergunta do milagre)
C: Eu ficaria muito feliz. Minha vida seria mais colorida. Meu marido e eu viajaríamos com o nosso filho, e os dois apoiariam muito o meu humor deprimido.
T: Numa escala de um a dez, em que um é a pior situação e dez equivale ao milagre… como você avalia o seu estado atual? (pergunta de escala)
C: Eu diria “4”.
T: Então… o que você precisaria fazer, e estaria disposta a fazer, para que a sua situação ficasse um pouco mais perto de dez, acima de 4, e você tivesse mais vontade de viver? (pergunta de enfrentamento)
C: Sabe… o meu mau gênio pode arruinar a nossa comunicação, mas não é fácil controlá-lo quando falo com meu marido. Em vez disso, porém, eu tentaria desenvolver uma maneira melhor de me comunicar com ele. Por exemplo, posso escrever meus sentimentos num diário e mostrar a ele. Quando ele entender a minha situação, então eu me sentirei amada por ele, e terei mais chances de viver melhor (solução).
Ao fim dessa conversa, o humor da paciente estava mais leve e ela se sentia capaz de voltar para casa e lidar melhor com a situação. Declarou não se sentir mais suicida e, nas sessões de acompanhamento, mostrou ter desenvolvido melhores padrões de enfrentamento e não ter mais ideação suicida.
Um princípio essencial da TBFS é o uso de elogios. A clientela ocidental tende a ficar razoavelmente à vontade com isso, mas a clientela chinesa ou de outras culturas orientais às vezes tem dificuldade com a ideia de receber elogios. As pessoas de origem cultural chinesa consideram a humildade uma virtude e não estão acostumadas a receber elogios diretos (Yeung, 1999). Frequentemente respondem aos elogios com autodepreciação. Uma das pessoas estagiárias teve grande dificuldade em aceitar um elogio e explorou isso conosco em aula. Além disso, constatou que parte da clientela também respondia com constrangimento, parecia desconfortável e até rejeitava o elogio. Ela começou a se perguntar se era uma técnica eficaz. Na discussão, o grupo decidiu que era importante manter as máximas de modéstia, o que significa que a clientela evitaria expressar sentimentos de orgulho ou de não humildade. O grupo concordou por unanimidade que estabelecer um vínculo forte com a pessoa atendida era essencial antes de usar elogios. As palavras e expressões precisavam ser culturalmente apropriadas, e o grupo concluiu que a clientela se beneficiaria de:
Se a pessoa atendida rejeitasse repetidamente o elogio, o grupo sentia que poderia então abordar isso com ela e falar das razões.
Outra técnica comum da TBFS é a pergunta do milagre, que também colocou dificuldades para parte da clientela chinesa. Um milagre era algo impossível e não pragmático, ou estava associado à religião. Segundo Yeung (1999), há duas traduções chinesas da palavra milagre, qi ji e shen ji. Como as palavras chinesas são pictogramas, é preciso compreender a composição dos caracteres do pictograma e o que conotam. Yeung observa:
O caractere qi é um ideograma composto de duas palavras, da, que significa “grande”, e ke, que significa possível ou aceitar. Na cultura chinesa, qi significa, pela sua forma escrita, “algo grande é possível”. Assim, a ideia central de qi ji é que tudo pode acontecer a quem acredita na sua possibilidade.
Yeung, 1999, p. 7
Ao explicar isso a um cliente e depois dar o exemplo de como a mãe do cliente havia acreditado ser possível que o filho se tornasse médico, Yeung conseguiu ajudar o seu cliente a entrar na pergunta do milagre.
O grupo de estágio em psicologia do aconselhamento considerava que muitas pessoas chinesas de Hong Kong tinham um forte sentido de um poder superior e acreditavam no céu (天), em deuses, em imortais (por exemplo 黃大仙, 關公), que podem protegê-los. Um dos seus exemplos de pergunta do milagre incorporou então essa crença:
Imagine… você visita hoje o templo de Wong Tai Sin e reza a Wong Tai Sin. O seu esforço impressiona o imortal. À noite, enquanto você dorme, ele remove todos os seus problemas e fontes de estresse com o seu superpoder. Na manhã seguinte, em que o seu mundo está diferente; como ele é, e que mudanças você descobre?
Pergunta do milagre reformulada pelo grupo de estágio
Outro exemplo, usado pelo grupo de estágio com adolescentes, consistia em levar cada jovem a se ver na direção do seu próprio filme, com esta formulação da pergunta do milagre:
Vou lhe dar uma tarefa. Nessa tarefa, é você quem dirige e atua num filme. O nome do filme é “O seu futuro”. Tudo o que diz respeito ao filme está nas suas mãos. Você tem liberdade para editá-lo e decidir tudo sobre como quer se ver no seu filme do futuro… Agora você terminou de fazer o filme e está assistindo. O que você se vê fazendo no filme? Como é esse mundo do filme?
Pergunta do milagre para adolescentes, formulada pelo grupo de estágio
Os exemplos precedentes do trabalho realizado em TBFS por um grupo de mestrado em psicologia do aconselhamento em apenas um semestre em Hong Kong mostram como esse grupo tinha consciência do contexto cultural e cuidado para não simplesmente sobrepor uma terapia ocidental a uma clientela chinesa. O grupo vê o valor da TBFS com a população chinesa de Hong Kong, tipicamente muito pragmática e desejosa de alcançar soluções rapidamente. Os mesmos princípios que aplicou, a atenção aos valores culturais da sua clientela, podem também ser aplicados na Austrália multicultural.
Tendo trabalhado vários anos com populações indígenas, constato que muito do que o grupo chinês realizou pode ser adaptado a essas populações. Os povos indígenas também são muito voltados para o outro e para a família: são também uma cultura do eu-em-relação, e as relações familiares são cruciais. Podemos nos apoiar nesse valor para ajudá-los a encontrar as soluções e o futuro preferido que desejam. Podemos mobilizar e ligar a sua forte relação com a terra para que criem o seu futuro preferido. O mesmo vale para os outros grupos multiculturais: a atenção ao seu contexto, aos seus valores e às suas bases filosóficas é crucial para o uso bem-sucedido da TBFS no aconselhamento.
Complexe Systémique: o que reter
Um artigo modesto no tamanho, precioso pelo que mostra: um método não viaja tal como é. O elogio, gesto básico da TBFS, esbarra na virtude da humildade e precisa visar o esforço em vez do sucesso, a qualidade em vez da realização, a contribuição aos outros em vez do mérito próprio. O milagre, suspeito de magia ou de religião, é reescrito com as crenças da pessoa atendida, templo de Wong Tai Sin ou filme de que se é o diretor. É exatamente o que Gale Miller chama de abordagem intercultural da consultoria, e o que Hsu e Chen reencontram em Taiwan do lado da supervisão. Três casos, nenhuma medida, uma autora que fala também pelo seu país de origem: para ler como um caderno de campo, não como uma prova. Sobre a entrevista com uma pessoa suicida, ver também a ideação suicida nos jovens e o clima familiar.
Referências
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Sobre a autora
Ann Moir-Bussy é responsável de programa e professora sênior de aconselhamento na University of the Sunshine Coast. Tem longa experiência como conselheira e formadora de conselheiros; foi professora e coordenadora dos programas de aconselhamento na University of New England de 2002 a meados de 2007, depois professora sênior e professora assistente na Universidade Shue Yan de Hong Kong até o seu regresso à Austrália em setembro de 2012. Tem também ampla experiência de ensino no fundamental e no secundário em várias regiões da Austrália, incluindo estações indígenas remotas do Território do Norte. Conselheira e supervisora registrada de nível 4 na Australian Counselling Association (ACA), de que é vice-presidente, publicou numerosos artigos revisados por pares sobre a formação em aconselhamento e outros temas, apresentou trabalhos em muitas conferências nacionais e internacionais, e supervisionou estudantes de mestrado em aconselhamento e doutorandos. E-mail: AMoirbussy@usc.edu.au
Tradução não oficial para o português de Using SFBT in Hong Kong: Initiatives from Hong Kong Master of Counselling psychology students and implications for cultural contexts in Australia, de Ann Moir-Bussy, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n.º 1 (2014), artigo 5, p. 30-45, doi: 10.59874/001c.75124, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, com as nove figuras descritas e não reproduzidas. Nem a autora nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Using SFBT in Hong Kong: Initiatives from Hong Kong Master of Counselling psychology students and implications for cultural contexts in Australia”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2014) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Moir-Bussy, A. (2014). Usar a TBFS em Hong Kong: iniciativas de estudantes de mestrado em psicologia do aconselhamento e implicações para os contextos culturais na Austrália (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/usar-a-tbfs-em-hong-kong-iniciativas-de-estudantes-de-mestrado-em-psicologia-do-aconselhamento-e-implicacoes-para-a-australia (Obra original publicada em 2014 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 1, n° 1 (2014), article 5, p. 30-45; republicada em 2014 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75124)
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