Confidências de terapeuta · Entrevista
Médico psiquiatra e um dos pioneiros da terapia sistêmica na França, que ensina há mais de trinta anos, François Balta compartilha aqui reflexões profundas sobre seu percurso, sua filosofia da terapia e as chaves que descobriu para acompanhar melhor as pessoas em dificuldade.
Perguntado sobre as razões que o levaram a esse ofício, François Balta evoca de imediato um fracasso original.
“A gente se torna terapeuta porque fracassou com a própria família.”
François Balta
Muitas vocações nasceriam de uma incapacidade de salvar os próprios familiares de suas dificuldades, o que dá o impulso para ajudar depois outras pessoas. Essa reflexão sincera coloca de saída a humildade no centro de sua abordagem.
Adolescente, ele encontra respostas para suas próprias questões íntimas ao descobrir Sigmund Freud. Os textos do pai da psicanálise o ajudam a esclarecer os abalos da adolescência e da sexualidade, e lhe aparecem como uma “palavra de verdade” diante dos tabus dos adultos. Ao mesmo tempo, a leitura de Louis-Ferdinand Céline, em especial Voyage au bout de la nuit (Viagem ao fim da noite), o impressiona pela descrição crua do mundo moderno. Ele fica tomado pela semelhança de tom entre os dois: “eles descreviam o mundo tal como eu o sentia, e não como os adultos o pintavam, embelezando as coisas”.
Uma palavra desencorajadora vai, porém, desviar momentaneamente esse percurso. Na aula de filosofia, seu professor o coloca secamente em seu lugar: “a psicanálise é para os ricos, não para você!” A medicina lhe oferecerá, no entanto, novos encontros decisivos. Em um estágio de psiquiatria infantil no hospital des Enfants-Malades, ele conhece uma psicanalista que reabre a porta fechada anos antes. Essa formadora o encoraja a iniciar ele próprio uma análise e a retomar sua paixão primeira. “Há pessoas que fecham portas para você, e outras que as abrem: é uma questão de encontros”, resume. Munido dessa permissão reencontrada, ele mergulha de corpo inteiro na psicanálise freudiana e lacaniana.
Tornado um lacaniano em seus começos, François Balta vai pouco a pouco temperar sua abordagem. Ele evoca uma frase de Lacan — “não há acaso, tudo faz sentido” — que na época tomou ao pé da letra demais. Jovem terapeuta, buscava o sentido oculto de cada contratempo da vida no inconsciente, “como se vasculha uma lixeira” para ali encontrar com que justificar tudo. A vida se encarrega de abalar essas certezas: ele atravessa um drama pessoal, e atribuir tal tragédia a uma manifestação do inconsciente — do seu ou do de sua companheira — lhe parece então insuportável e absurdo. Esse acontecimento o leva a questionar a ideia de que tudo possa ser explicado a posteriori.
Começa então um longo percurso de busca para reencontrar uma escuta analítica aberta e acolhedora sem recair nos vícios anteriores. Ele se forma em diversas abordagens ao longo dos anos: a Gestalt-terapia primeiro, cujas ferramentas experimenta, como a famosa técnica das duas cadeiras. Depois se interessa pelas abordagens centradas na emoção — diante de pacientes com emoções violentas, os jogos de palavras lacanianos já não bastavam. Explora também a análise transacional, apreciando o lado concreto de um modelo que oferece um vocabulário compartilhado com os pacientes; mas seu espírito livre não se acomoda ao aspecto normativo demais dessa abordagem.
O encontro com a sistêmica lhe traz enfim a síntese que procurava. Inicialmente interpelado pelos escritos de Mara Selvini, cujo estilo só lhe convinha pela metade, ele encontra realmente sua orientação ao integrar a primeira turma de formação em terapia familiar sistêmica conduzida por Mony Elkaïm em Paris. Foi para ele uma revelação: “uma verdadeira descoberta, pensar o sistema”. Essa abordagem relacional lhe permite reencontrar uma abertura de espírito e uma humildade na escuta, levando em conta o contexto social e familiar do sofrimento.
Ele constata, no entanto, que muitos terapeutas familiares param no meio do caminho: aplicam estratégias no nível do sistema — família, casal — sem se implicar. Ora, para realmente pensar sistemicamente, ele considera que é preciso incluir-se no sistema. O terapeuta não é um observador externo neutro: faz parte integrante da equação. Essa tomada de consciência o leva a modificar radicalmente sua postura profissional.
Em outras palavras: em vez de procurar mudar seus pacientes, ele busca resolver seu problema de terapeuta — como suportar ou compreender melhor determinada situação — sem que o paciente precise mudar. Paradoxalmente, é ao renunciar a querer corrigir o outro que ele melhor consegue acompanhá-lo.
Há quase trinta anos ele prossegue esse trabalho de articular o individual e o coletivo na compreensão dos problemas humanos. Cita Edgar Morin: “pensar o e, não o ou”. O indivíduo só existe em um contexto relacional e social, e este só existe através dos indivíduos que o compõem, em uma circularidade permanente. A postura sistêmica cooperativa consiste em encontrar um equilíbrio entre essas tensões: estar ao mesmo tempo dentro e fora, nem onipotente nem impotente, mas coautor da mudança.
Quando lhe pedem conselhos essenciais para jovens terapeutas, François Balta surpreende: insiste na importância da ignorância. É claro que é preciso se formar e acumular conhecimentos — isso pode nos tranquilizar —, mas “é preciso saber que nosso principal recurso em relação às pessoas que vamos receber é a nossa ignorância”.
Cada pessoa ou família que vem consultar é como um mundo desconhecido: “somos como etnólogos lançados de paraquedas em uma tribo distante”, que não conhecem nem a língua, nem os ritos, nem os mitos fundadores. Diante do desconhecido do outro, o terapeuta deve antes de tudo demonstrar curiosidade e abertura, deixando de lado suas certezas.
Esse não saber assumido é uma postura fecunda: “nosso saber nos tranquiliza, mas nos atravanca e nos limita, enquanto a ignorância é uma porta que se abre”. Trata-se de se deixar impregnar e tocar pelo que os pacientes vivem, eventualmente de se chocar ou se incomodar, mas sem julgamento: acolher essas surpresas como ocasiões de compreender. Essa curiosidade acolhedora permite perguntar em tom de espanto autêntico, e não do alto de um saber professoral: “olha, vocês fazem assim… é interessante, eu achava que…”
Nessa perspectiva, não se trata de limitar a terapia ao único indivíduo presente no consultório. François Balta afirma nunca ter “feito terapia individual”: mesmo frente a frente, ele considera que cada pessoa chega com todo o seu mundo. O entorno está sempre implicado, seja a família, os amigos, os “inimigos” ou qualquer figura importante. O terapeuta deve, portanto, pensar além dos que estão fisicamente presentes, e respeitar tanto os ausentes quanto a pessoa à sua frente.
Ele adverte contra o fato de “se aliar ao presente às custas dos ausentes”: seria tentador validar a narrativa de quem está ali fazendo dos ausentes os culpados, mas isso seria perder a lógica própria de cada um. Ao contrário, ele se empenha em compreender a lógica de cada ator do sistema. Cada um tem seus automatismos e suas razões: em geral, cada um faz o seu melhor, defendendo valores que lhe são caros. Ele gosta de repetir que “aquilo a que nos apegamos nos prende”: nossos valores nos estruturam tanto quanto os carregamos. Um comportamento problemático é muitas vezes a expressão desajeitada de um valor ou de uma necessidade legítima — simplesmente, “não se tomou o tempo de afinar os instrumentos”.
A metáfora do cruzamento congestionado
Imaginemos um cruzamento cujos semáforos estão quebrados. Todo mundo está com pressa e acha ter boas razões para passar primeiro, de modo que todos avançam… e ninguém mais anda. O problema é um verdadeiro congestionamento de boas soluções: cada motorista tem individualmente razão, mas coletivamente todos se bloqueiam. Quanto mais cada um insiste na sua faixa, mais o impasse se reforça.
A partir daí, o terapeuta procura tomar alguma altura para desatar a situação: desacelerar o jogo, ajudar a priorizar de outro modo, introduzir uma nova maneira de agir ou de ver as coisas.
Para isso, François Balta não hesita em entrar ele próprio na disputa. “Eu me deixo pegar por dentro, me deixo maltratar”, diz ele, pois quanto mais sente a dificuldade, mais isso o informa sobre a vivência das pessoas: “quanto mais sou maltratado, mais informações tenho sobre como eles se maltratam entre si”. Em vez de se refugiar na imagem do “terapeuta neutro, benevolente, sereno, uma espécie de sábio saído de seu eremitério”, ele aceita ser desestabilizado ao lado de seus clientes. Acolhe as emoções incômodas que surgem na sessão, mesmo à custa do próprio conforto — mas não se compraz nelas: sua arte consiste em recolocar essas emoções em circulação dentro do sistema, de maneira útil. Devolve às pessoas, com certo deslocamento, o que está acontecendo, para que todos possam reconhecê-lo e daí tirar algo novo. Ele busca sempre estar “com eles” na dificuldade, nem acima nem fora, ao mesmo tempo que traz uma abertura para outras perspectivas: “e se experimentássemos tal coisa, o que isso mudaria? Quem isso incomodaria?”
Ao escolher se deixar afetar pelo que acontece, François Balta faz um uso sutil de sua sensibilidade. Ele distingue o que chama de ressonância da tradicional contratransferência. A contratransferência remete ao que o terapeuta sente em eco à sua história pessoal — suas próprias feridas, medos ou expectativas — diante da situação do paciente. Já a ressonância consiste em usar esse sentir não para falar de si, mas para iluminar a vivência do outro. O terapeuta se pergunta: “o que eu sinto, o que isso me diz dos meus clientes?” Mesmo uma reação aparentemente muito subjetiva pode conter uma informação compartilhada: se me surpreendo ficando na defensiva, talvez seja sinal de que o medo está presente em todos nesse sistema, inclusive em mim.
Trata-se, portanto, de colocar a própria sensibilidade a serviço das pessoas acompanhadas. O terapeuta de certo modo “empresta” suas emoções, sua empatia, sua capacidade de reflexão e de imaginação a quem o procurou, para ajudá-los a compreender melhor a situação e a experimentar outras formas de fazer. A empreitada é exigente: obriga o profissional a ampliar a própria tolerância a emoções por vezes penosas ou a pensamentos incômodos. Mas é justamente aceitando explorar essas zonas de desconforto que se pode “compreender melhor a complexidade do mundo do outro”.
Esse trabalho é, no fundo, mutuamente enriquecedor: o terapeuta também cresce no contato com seus pacientes. “A gente não se desenvolve sozinho no seu canto… é por ocasião de um encontro que descobrimos outros aspectos do mundo que não teríamos encontrado sozinhos”, afirma ele, evocando o aporte da literatura tanto quanto o dos encontros humanos. Cada terapia é assim uma aventura única que faz evoluir todas as pessoas envolvidas, terapeuta incluído.
Nas entrelinhas, François Balta lembra que a própria existência é um desafio permanente. “Existir não é fácil”, afirma, sublinhando que a vida é uma sucessão de perdas e de mudanças contínuas — construímo-nos a partir de nossos lutos. Daí que a essência da terapia seria “procurar com as pessoas como se virar com as dificuldades de existir”. Em vez de prometer soluções milagrosas, trata-se de acompanhar cada um na travessia das transições inevitáveis da vida, no enfrentamento da impermanência e na construção de sentido apesar da incerteza.
Essa conversa foi de uma riqueza excepcional. Seu percurso, marcado por provações e questionamentos, e sua prática, fundada na humildade, na curiosidade e no respeito ao vínculo, oferecem uma fonte preciosa de inspiração para qualquer terapeuta. Muitas outras pérolas se escondem em suas palavras, e este texto só pôde tocar algumas delas: a entrevista completa, na qual sua voz e sua presença encarnam com generosidade as ideias aqui relatadas, está no vídeo abaixo — em francês.
Como citar este artigo
Besse, J. (2025, 22 de junho). Confidências de terapeuta: François Balta. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/confidencias-de-terapeuta-francois-balta
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