Red Sistémica · Violência
Resposta de Isabel Boschi a Irene Loyácono, autora do artigo “Terapia familiar conjunta e revinculação no abuso sexual infantil”, por seu comentário sobre “A resiliência na terapia familiar do agressor sexual”. Boschi esclarece sua posição: nunca a revinculação como objetivo terapêutico, mas sessões de terapia familiar conjunta para esclarecer as ambivalências, informar, prevenir e construir uma rede afetiva em torno do agressor.
Nota da redação
Extrato. Resposta a Irene Loyácono, autora do artigo “Terapia familiar conjunta e revinculação no abuso sexual infantil” (2), por seu comentário sobre “A resiliência na terapia familiar do agressor sexual” de Isabel Boschi (1). Embora este texto possa ser lido sem que se tenham lido antes os artigos mencionados, recomendamos sua leitura para apreciar a dimensão e a riqueza do debate que aprofunda a questão.
“Nunca falei de revinculação como objetivo terapêutico, se isso significa que o agressor sexual volta ao lar depois da terapia.”
Isabel Boschi
Agradeço à minha distinta colega pelo estudo exaustivo que dedicou ao meu artigo.
Ao relê-lo hoje (o artigo é de 1998, do Congresso Latino-Americano de Sexologia de Caracas), continuo a sustentar minha atitude terapêutica, mas devo esclarecer a maneira como trabalho hoje com o agressor sexual e sua família. Irene intitulou sua crítica: “Terapia familiar conjunta e revinculação no abuso sexual infantil” (2). Nunca falei de revinculação como objetivo terapêutico, se isso significa que o agressor sexual volta ao lar depois da terapia. Eu não poderia proceder assim, porque meu pensamento sistêmico traz a marca da incerteza, e não sei se isso seria melhor para a família ou para o agressor sexual, quaisquer que fossem as mudanças ocorridas.
Não a abordo como uma rotina. Proponho sessões de terapia familiar, em número necessário, para ajudar a:
1) Esclarecer as atitudes ambivalentes de vários membros da família, que podem pôr em risco a decisão de afastamento do lar.
Não é raro que a ex-companheira, mãe ou cuidadora das crianças agredidas, por diversas razões que vão do econômico à atração pelo agressor, do sentimento de abandono ao medo diante dessa mudança brutal em sua vida, que perde o provedor da família, se apegue a ele e tente reintroduzi-lo clandestinamente no lar. Às vezes invocando o pedido das crianças agredidas. Ou então é ele quem quer voltar.
O compromisso da sessão que os convoca estabelece, tanto para um quanto para o outro, a obrigação de trabalhar pela mudança e pela compreensão da nova situação. Uma vez, a ambiguidade parental me levou a prolongar as sessões até que a mãe pudesse assumir a educação das filhas, defendendo-as e sem abandoná-las a parentes, vizinhas ou amigas.
2) Convoco também para a sessão aqueles que considero capazes de compreender e que precisam conhecer a situação de agressão sexual, quando há afastamento do lar por decisão judicial, depois da denúncia e à espera do julgamento, e explico os termos “agressão sexual” e “agressor sexual”.
Esclareço que essa conduta imposta, que faz mal aos outros, não deve ser tolerada; que é uma doença, que deve ser tratada para não se agravar; e que eles também devem ser tratados e ajudados, porque foram lesados. Comprometo cada um a não fazer contato clandestinamente.
3) Dou aos cuidadores das crianças uma informação que previne as situações de risco para as crianças não abusadas, mas que podem vir a sê-lo por causa dos novos companheiros da mãe.
4) Crio um sistema de redes (o Estado só oferece a prisão ao agressor sexual): convoco um membro da família de origem do agressor sexual, um amigo ou um parente que sinta empatia por ele e o ajude a se engajar no trabalho de resiliência. Tento constituir um sistema de redes afetivas como alternativa, para estabelecer vínculos mais saudáveis. Muitos dos pacientes que acompanhei individualmente ou em sessão familiar participam de grupos de homens que cometeram agressões sexuais, nos quais falam de seus problemas, ou comentam filmes (La niña santa) ou livros (A arte de amar, de Erich Fromm). Às vezes, uma colega se junta a nós e intervém trocando opiniões com eles e comigo.
…Para cada agressor sexual contido em um vínculo terapêutico, quatorze situações abusivas são prevenidas, segundo dados recolhidos pela Scotland Yard no Centro de Apoio às Vítimas do condado de Gloucestershire, na Inglaterra…
Quem é Isabel Boschi
Isabel Boschi, terapeuta familiar e sexóloga de longa experiência, é presidente da Fundação Isabel Boschi, dedicada à sexualidade, à família e à educação, ex-primeira vice-presidente e membro da IATSO, a Associação Internacional para o Tratamento dos Agressores Sexuais. Apresentou trabalhos em numerosos congressos nacionais e internacionais.
Notas do original
(1) O artigo “La Resiliencia en la Terapia Familiar del Ofensor Sexual”, de Isabel Boschi, foi publicado no n.º 85 de Perspectivas Sistémicas, março-abril de 2005.
(2) O artigo “Terapia familiar conjunta y revinculación en abuso sexual infantil”, de Irene Loyácono, foi publicado no n.º 86 de Perspectivas Sistémicas, maio-junho de 2005.
O texto completo saiu no n.º 87 de Perspectivas Sistémicas.
Este artigo é a tradução para o português de “¿Por qué trabajar con ofensores sexuales?”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 87, 2005). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Boschi, I. (2022). Por que trabalhar com agressores sexuais? (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/por-que-trabalhar-com-agressores-sexuais (Obra original publicada em 2005 em Perspectivas Sistémicas, n° 87, 2005; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/07/19/porque-trabajar-con-ofensores-sexuales/)
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