Prática · Duração da terapia
Existe uma evidência paradoxal no trabalho terapêutico: sabemos quando a terapia começa, mas raramente quando ela deve parar. Algumas abordagens são pensadas para durar — a psicanálise é um exemplo emblemático. Outras se reivindicam breves, orientadas para objetivos precisos. No entanto, mesmo nessas formas mais curtas, acontece de o atendimento se estender, se prolongar, se adensar… às vezes a ponto de perder o próprio horizonte.
Isso não é um tabu: a duração da terapia não é determinada apenas pela problemática do paciente ou pelo modelo utilizado. Ela também é moldada pela dinâmica relacional, isto é, pelo que se passa entre duas pessoas engajadas num trabalho de transformação.
E, às vezes, sem intenção de parte a parte, essa dinâmica pode acidentalmente favorecer… o prolongamento.
Na prática clínica, certos sinais reaparecem regularmente. Não são critérios de julgamento, mas elementos de vigilância que nos convidam a ajustar nossa postura, nossos métodos e a qualidade do vínculo.
Sem um rumo claro, a terapia se torna um espaço de exploração perpétua. Útil no início, arriscado quando prossegue sem estruturação.
Entra-se… mas não se sabe com base em quê se sai. Nem o que marcará o fim do processo, nem como esse fim será nomeado, ritualizado, preparado.
É um paradoxo frequente: a sessão vira um refúgio, um espaço em que se respira… mas cujos efeitos se dissipam do lado de fora.
O terapeuta se torna um terceiro necessário à ação — às vezes a ponto de impedi-la. A autonomia enrijece em vez de se ampliar.
Quando a relação se orienta assimetricamente para a aprovação, o trabalho perde potência. Já não é “eu me transformo”, e sim “eu me conformo”.
Acrescentam-se temas, prolonga-se a duração, abrem-se novos capítulos quando os objetivos iniciais já foram alcançados.
O medo de magoar o outro, mesmo quando esse outro é um profissional, é um sinal precioso. Diz algo sobre o lugar que o terapeuta ocupa no sistema.
Uma terapeuta faz, no início de cada atendimento, uma pergunta que considero profundamente justa.
“Como saberemos que o caminho que percorremos juntos chegou ao fim?”
Essa pergunta não é uma formalidade. É uma maneira de inscrever a autonomia no coração do processo, desde o primeiro encontro.
Nas abordagens sistêmicas e estratégicas, pensar a “saída” não é sinal de desengajamento: é o reconhecimento de que a relação terapêutica é um espaço transitório, e não uma estrutura permanente.
Nomear o fim é abrir uma passagem. É dizer ao paciente: “Não estamos construindo um lugar onde você vai morar, mas um lugar de onde você poderá partir de novo.”
O prolongamento involuntário de uma terapia não é uma falta profissional. Mas é um fenômeno sistêmico a levar a sério.
Uma terapia que se eterniza sem razão
Cria uma dependência sutil, alimenta dinâmicas relacionais tranquilizadoras, porém limitantes, dá ao terapeuta um papel central demais e retarda — ou até impede — a retomada da iniciativa.
Uma terapia que termina na hora certa
Reforça a agência, a capacidade de decisão, a confiança em si, o domínio emocional e a consciência dos recursos internos e externos.
Retomo essa questão da justa duração no vídeo abaixo — em francês.
Como citar este artigo
Besse, J. (2025, 23 de novembro). Quando a terapia se eterniza…. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/quando-a-terapia-se-eterniza
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