Nem sempre. A morfogênese, ou como um sistema humano produz formas que nenhum plano previu.
A sessão de terapia familiar mal começou quando uma adolescente faz uma revelação explosiva. Em poucos instantes, toda a dinâmica da casa se inverte. Por que algumas famílias parecem condenadas a repetir os mesmos roteiros geração após geração, enquanto outras se reinventam a partir de um único acontecimento marcante?
Por trás dessas situações esconde-se um conceito vindo da biologia: a morfogênese.
Neste artigo exploramos o que é a morfogênese, em que medida ela ilumina a evolução dos sistemas humanos — indivíduos, famílias, organizações — e como essa noção dialoga com o paradoxo “quanto mais muda, mais fica na mesma”, enriquecendo nossa prática clínica ou de acompanhamento.
Em biologia, a morfogênese designa o conjunto de processos que determinam a forma e a estrutura de um organismo em desenvolvimento. O termo vem do grego morphê (forma) e génesis (criação): literalmente, a criação das formas. É por morfogênese que uma célula fecundada se torna um embrião e depois um organismo complexo, ou que uma semente dá origem a uma árvore inteira.
Fritjof Capra, físico e pensador da sistêmica, ilustra o fenômeno: a forma de uma folha ou a estrutura de um osso não emerge de um plano preestabelecido, mas da interação complexa entre os genes, as células e o ambiente. Em outras palavras, a forma nasce da relação. Não se trata de uma simples montagem de peças, mas de um processo dinâmico em que cada componente influencia os outros até fazer surgir novas propriedades.
Por extensão, fala-se também de morfogênese fora da biologia, por exemplo para descrever a formação das cidades ou o desenvolvimento dos conhecimentos. Em psicologia e nas ciências humanas, a morfogênese designa mais amplamente o processo pelo qual novas estruturas, novos esquemas ou novas formas de organização emergem no seio dos sistemas humanos.
Todo sistema, biológico ou social, procura manter certo equilíbrio. Em sistêmica, fala-se de morfostase para descrever as forças que mantêm a estabilidade de um sistema, seu status quo, e de morfogênese para descrever, ao contrário, as forças de mudança que o levam a novas formas.
As forças de conservação. Protegem a identidade e a coerência do sistema. Sem elas, ele se desintegra.
As forças de transformação. Fazem surgir novas formas. Sem elas, o sistema se cristaliza e já não consegue adaptar-se.
As duas dinâmicas coexistem permanentemente. Os terapeutas familiares logo constataram que as famílias em dificuldade oscilam entre esses dois polos. Diante da crise provocada pela adolescência de um filho, uma família pode tentar voltar ao equilíbrio anterior reforçando as regras existentes, ou, ao contrário, aproveitar o caos para fazer emergir novas regras e novos papéis mais adaptados.
Humberto Maturana mostrou como os sistemas vivos, ao afastarem-se de seu ponto de equilíbrio, criam novas estruturas, inspirando os terapeutas a ver a crise não como um perigo, mas como uma oportunidade de mudança.
“Se diferentes regimes são possíveis com moléculas, regimes muito mais variados e numerosos são possíveis nas comunidades humanas.” O potencial de transformação de um sistema humano é imenso assim que ele sai de sua zona de conforto.
No acompanhamento da mudança, essa ideia leva a revalorizar o papel da instabilidade. Em vez de evitar a crise a todo custo, o terapeuta ou interventor sistêmico pode utilizá-la de maneira construtiva. Um paradoxo conhecido na terapia breve estratégica consiste mesmo em prescrever o sintoma, isto é, amplificar provisoriamente o desequilíbrio, para provocar uma reorganização salutar do sistema.
Longe de um caos destrutivo, a morfogênese é aqui um caos construtor: uma fase de transição em que a antiga ordem se desagrega em vista de uma nova ordem.
A morfogênese anda de mãos dadas com a noção de emergência. Uma propriedade é dita emergente quando aparece no nível global de um sistema sem estar diretamente inscrita em seus elementos de base. Nenhum membro de uma equipe detém sozinho a cultura da organização e, no entanto, uma cultura comum emerge das interações entre todos.
Os trabalhos da psicóloga Esther Thelen sobre o desenvolvimento infantil oferecem um exemplo eloquente. Thelen mostrou que competências como andar resultam da interação de múltiplos fatores — maturação neurológica, experiências vividas, ambiente social — sem que haja um plano diretor único. O desenvolvimento de um bebê é assim “o produto emergente de numerosas interações locais e descentralizadas em tempo real”. A criança constrói suas novas habilidades a partir do conjunto de suas interações, em vez de seguir um programa predefinido etapa por etapa.
Cada elemento do sistema age em seu nível, sem visão de conjunto nem plano diretor.
Essas ações respondem umas às outras, repetem-se, e certas configurações se estabilizam.
Uma propriedade aparece no nível do todo: uma cultura, uma competência, um modo de relação.
Em sistêmica, compreende-se portanto que uma mudança duradoura não pode ser simplesmente imposta de fora, peça por peça: ela deve emergir do interior do sistema, ao longo dos laços de interação entre seus elementos. É igualmente impossível prever exatamente que forma um sistema humano assumirá ao evoluir, assim como não se pode adivinhar a silhueta exata de uma folha apenas a partir do DNA. Para o praticante, isso convida à humildade e à curiosidade: a transformação de uma pessoa ou de um grupo reserva com frequência surpresas que nenhum plano poderia antecipar por completo.
Se a mudança é necessária, como pode um sistema evoluir sem perder sua identidade profunda? Maturana e Varela introduziram o conceito de autopoiese para descrever a capacidade dos sistemas vivos de produzir-se e manter-se a si mesmos. Um sistema autopoiético — uma pessoa, uma família — auto-organiza-se permanentemente para conservar sua integridade, ao mesmo tempo que troca com seu ambiente. Como dizem Maturana e Varela, esses sistemas “produzem sua identidade; distinguem-se a si mesmos de seu ambiente”.
Isso não implica imobilidade, muito pelo contrário. Maturana distingue a organização de um sistema, as relações essenciais que definem sua natureza, de sua estrutura, seus componentes concretos e seus arranjos. A descoberta central é que a estrutura pode mudar conservando a organização.
Um indivíduo pode transformar muitos de seus comportamentos e crenças mantendo o sentimento de ser “si mesmo”. Uma empresa pode modificar seu funcionamento permanecendo fiel à sua missão fundamental. Enquanto a organização de base for preservada, a forma pode variar.
Em contrapartida, se as mudanças estruturais ultrapassam certos limites e alteram a organização de base, o sistema pode perder sua identidade: é a transformação identitária radical, por vezes até a desintegração. Pensa-se numa pessoa que já não se reconhece após uma reviravolta de vida extrema demais, ou numa organização cuja cultura se tornou irreconhecível após uma reformulação total.
Na prática, acompanhar a morfogênese consiste portanto em encontrar o equilíbrio entre novidade e continuidade: o que se pode mudar sem alterar a base identitária que permite ao cliente, ou ao sistema, sentir-se coerente?
Acompanhar um sistema não é corrigir um sintoma isolado. É criar as condições de uma reorganização de conjunto.
A noção de morfogênese convida a encarar a mudança como um processo orgânico de emergência, e não como uma transformação imposta. Na prática, isso significa acompanhar os sistemas humanos — famílias, equipes, indivíduos — não corrigindo um sintoma isolado, mas criando as condições de uma reorganização global: introduzir uma perturbação construtiva, favorecer a auto-organização, sustentar a instabilidade transitória e ancorar-se nos recursos identitários estáveis.
Essa abordagem, iluminada pelas ciências do vivo e pela sistêmica, compromete-nos com uma postura de acompanhante humilde, facilitador de metamorfoses duradouras em vez de técnico da mudança.
Doumit, Y. (2025). Quanto mais muda, mais fica na mesma? Nem sempre. Complexe Systémique. https://www.complexe-systemique.com
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