O equilíbrio de um sistema protege sua integridade. Esse mesmo equilíbrio pode tornar-se o principal obstáculo à mudança.
A homeostase designa a capacidade de um sistema de manter seu equilíbrio interno apesar das perturbações exteriores.
Vindo da biologia, o conceito foi primeiro evocado pelo fisiologista francês Claude Bernard no século xix, que falava da “estabilidade do meio interior”, e depois formalizado por Walter B. Cannon em 1932, que cunhou o termo homeostasis. Etimologicamente, do grego hómoios (semelhante) e stásis (posição estável): trata-se de permanecer semelhante num mundo em mudança.
Concretamente, um organismo homeotérmico mantém sua temperatura corporal constante, e nosso corpo regula permanentemente a taxa de açúcar no sangue. Essa estabilidade é possibilitada por laços de retroação negativa: como um termostato, um sensor detecta a variação de um parâmetro e desencadeia ações corretivas para voltar ao valor de referência.
A homeostase é um equilíbrio vivo e flutuante. Pense na sua respiração: ela oscila entre inspiração e expiração, ajustando-se constantemente ao esforço, mantendo ao mesmo tempo um aporte suficiente de oxigênio. Um sistema homeostático parece-se muito mais com um rio vivo do que com uma lagoa estagnada.
Em sistêmica, a homeostase descreve a tendência de um grupo humano a preservar seus hábitos e seu modo de funcionamento. Cada família, casal, equipe ou instituição possui um equilíbrio implícito feito de regras, papéis e rotinas. Numa família, cada um pode ocupar um papel bem definido — o mediador, o rebelde, o protetor — e interagir segundo regras tácitas que mantêm a coerência do grupo. Essa coerência é tranquilizadora: oferece a seus membros um sentimento de segurança e de previsibilidade.
Um adolescente apresenta comportamentos de rebeldia na escola e em casa. Por mais problemático que seja, esse sintoma pode desempenhar um papel homeostático: focaliza a atenção dos pais na conduta do jovem, evitando talvez que se confrontem com seus conflitos conjugais latentes. Enquanto “o problema” do adolescente ocupa todo o espaço, o edifício familiar se sustenta.
Se, por intervenção terapêutica, esse jovem se acalmasse bruscamente, a tensão parental subjacente correria o risco de vir à tona. O sistema familiar procura então restabelecer seu antigo equilíbrio. É assim que se observa por vezes uma recaída do comportamento do jovem, ou o surgimento de um novo sintoma: outro filho somatiza, um dos pais deprime. Como se a família inventasse um meio de reencontrar o status quo.
Nas organizações a homeostase também existe. Diante de uma mudança de procedimento ou da chegada de um novo gestor, a empresa pode mostrar resistências informais. Os funcionários continuam a aplicar os antigos hábitos em segredo, ou esperam que passe, até que a organização volte a seu modo de funcionamento familiar.
O mesmo vale para o indivíduo: nossos hábitos psicológicos, mesmo pouco saudáveis, têm uma função de equilíbrio interno. Mantêm uma zona de conforto conhecida. É por isso que mudar um comportamento enraizado pode provocar um mal-estar difuso, como se algo de anormal se passasse em nós. O sistema que é nossa mente procura voltar a seu ponto de equilíbrio conhecido, por vezes em detrimento de nosso bem-estar consciente. Podemos assim sabotar um projeto que nos é caro, simplesmente porque sair de nosso quadro habitual gera ansiedade demais.
A homeostase é ao mesmo tempo uma aliada preciosa e uma adversária tenaz da mudança.
Sem mecanismos homeostáticos, os sistemas vivos descarrilariam ao menor imprevisto. Nossos sistemas sociais precisam de um mínimo de estabilidade — valores compartilhados, leis, rotinas — para não mergulharem no caos à primeira crise.
Quando um sistema se organizou em torno de um status quo, toda tentativa de mudança maior desencadeia forças de retorno em sentido inverso. O sistema trata a mudança como um erro a corrigir.
Ela permite a perenidade. Pense num equilibrista que ajusta sem cessar seu centro de gravidade para permanecer no fio: cada microcorreção evita a queda.
Mas uma família que sempre se comunicou de maneira evitante — não falar dos problemas — reagirá com desconforto se um membro começar a exprimir honestamente suas emoções. De imediato, outros minimizarão, farão humor, ou mudarão de assunto. Reações que visam restabelecer o clima inicial de evitação.
A homeostase age portanto como um freio à mudança assim que esta é percebida como uma ameaça ao equilíbrio existente. É paradoxal: cada membro do sistema pode dizer que quer que as coisas melhorem, ao mesmo tempo que contribui involuntariamente para manter a situação problemática, simplesmente porque é o funcionamento que conhece.
Esse fenômeno é identificado pelos terapeutas familiares desde os trabalhos de Don Jackson em 1957, que descrevia a homeostase familiar como aquilo que dá conta da resistência à mudança nas famílias. Quanto mais um sistema se sente ameaçado, mais se agarra ao que conhece: melhor o diabo conhecido do que o diabo por conhecer.
Diante da homeostase de um sistema, o instinto poderia ser querer quebrá-la a todo custo. Se ela mantém um problema, por que não sacudi-la frontalmente? A experiência mostra que uma abordagem brutal corre o risco de reforçar o medo, levando o sistema a crispar-se ainda mais em seu antigo modo de funcionamento. Equivale a puxar demais um elástico: ele volta na sua cara.
Um terapeuta que confrontasse violentamente uma família apontando de saída todas as suas disfunções corre o risco de vê-la fechar-se e interromper a terapia, submersa pela ameaça sentida.
Legitimar a parte de cada membro que teme perder algo no processo de mudança.
“Se sua família deixasse completamente de brigar, do que você teria receio?” A pergunta pode revelar que uma mãe teme que, ao parar de se preocupar com os conflitos dos filhos, tenha enfim de encarar seu próprio vazio.
Os terapeutas da escola de Palo Alto elaboraram técnicas paradoxais em que se pede ao paciente que sobretudo não mude, ou mesmo que exagere seu sintoma.
Uma vez apaziguados os receios, acompanhar o sistema rumo a ajustes progressivos. Cada pequena mudança aceita desloca suavemente o ponto de equilíbrio.
A abordagem paradoxal desarma a luta de poder com a homeostase: em vez de um braço de ferro perde-perde, oferece-se ao sistema a permissão de permanecer estável, o que pode levá-lo a modificar espontaneamente seu funcionamento.
O objetivo, evidentemente, não é deixar o sistema cristalizado num status quo problemático. Trata-se de coconstruir um novo equilíbrio mais satisfatório.
Ser ao mesmo tempo o parapeito que protege e o catalisador que inspira o movimento.
Mudar com a homeostase em vez de contra ela exige do interventor uma postura de humildade e de paciência. Ele torna-se um elemento do sistema em transição, um parceiro que sustenta tanto a estabilidade quanto a transformação.
Doumit, Y. (2025). A homeostase: o que nos mantém… e por vezes nos retém. Complexe Systémique. https://www.complexe-systemique.com
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