Do simples ajuste à revolução paradigmática: uma hierarquia lógica dos níveis de mudança.
O célebre aforismo de Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”, ilustra o quanto a transformação está no cerne de nossa experiência. No entanto, compreender a natureza da mudança continua a ser um desafio teórico.
A mudança pode assumir formas muito variadas, de um simples ajuste superficial a uma verdadeira metamorfose do sistema. Este artigo propõe uma reflexão conceitual sobre os níveis lógicos da mudança.
A mudança de primeira ordem designa as modificações que ocorrem sem alterar o quadro de referência do sistema. É o nível mais frequente e o mais fácil de gerar no cotidiano. Poderia resumir-se assim: fazer mais ou menos a mesma coisa, mas melhor.
O sistema faz ajustes previsíveis e coerentes em reação a um problema, sem questionar seus princípios fundamentais. Enriquece-se o repertório de respostas existentes, ou intensificam-se os esforços na mesma direção.
Esses ajustes podem ser úteis e mesmo indispensáveis para manter o equilíbrio do sistema e adaptar-se às circunstâncias correntes. Costumam decorrer do bom senso e permitem perpetuar o funcionamento estabelecido.
“Quanto mais muda, mais fica na mesma.” Enquanto se permanece na primeira ordem, o sistema não muda realmente em profundidade.
Isso pode bastar por um tempo. Uma família com filhos pequenos pode manter uma harmonia aparente graças a regras autoritárias estáveis impostas pelos pais. Esse repertório existente de soluções sustenta um status quo funcional.
Mas quando o contexto evolui, essas soluções mostram seus limites. Quando os filhos chegam à adolescência, as mesmas regras antes eficazes começam a provocar conflitos e oposição. O sistema familiar entra em crise, pois as antigas respostas já não funcionam na nova realidade. Torna-se necessário mudar de lógica em vez de intensificar as velhas receitas.
A passagem à mudança de segunda ordem ocorre quando o sistema opera uma ruptura em seu quadro de pensamento e adota uma nova maneira de estruturar-se. Mais rara e mais difícil de gerar, surge geralmente quando os ajustes de primeira ordem fracassam.
Em vez de acrescentar uma nova camada de tinta ao mesmo edifício, trata-se de modificar a própria arquitetura do sistema: mudar as regras do jogo.
Mudam-se as respostas. O quadro permanece intacto. A mudança é previsível, reversível, coerente com o bom senso do sistema.
Muda-se o quadro. A mudança parece frequentemente ilógica vista da antiga lógica. É em geral irreversível.
Paul Watzlawick e seus colegas descreviam esse fenômeno como um salto rumo a uma nova ordem de realidade, implicando uma descontinuidade por vezes paradoxal na maneira de abordar a situação. O que parecia ilógico ou contraintuitivo no antigo quadro pode tornar-se a solução salvadora no novo.
Um adágio da terapia breve ilustra-o: para resolver certos problemas, é preciso deixar de querer resolvê-los a todo custo com o bom senso habitual. A mudança de segunda ordem parece muitas vezes incompreensível enquanto se raciocina na antiga lógica. Exige uma criatividade que sai do quadro inicial.
Retomemos a família autoritária confrontada com a adolescência dos filhos. Uma intervenção eficaz consistirá talvez em flexibilizar as regras e instaurar novas formas de troca, em vez de reforçar a autoridade ou a disciplina. A família elabora um novo modo de funcionamento, mais flexível, para superar o conflito. O quadro referencial — princípios educativos, distribuição do poder parental — é transformado para restaurar o equilíbrio sobre novas bases.
No nível individual, fala-se de segunda ordem quando uma pessoa muda de perspectiva sobre si mesma e sobre o mundo, provocando uma mudança espontânea de comportamento. A realidade do problema foi redefinida, mais do que o problema resolvido em si.
Esse nível não é automaticamente melhor nem pior do que o anterior: é diferente por natureza, e pode gerar efeitos imprevisíveis, por vezes benéficos, por vezes desestabilizadores.
Para além da segunda ordem, a mudança de segunda ordem superior designa as transformações mais radicais. São casos particulares de segunda ordem em que o próprio quadro de referência — sistema de crenças, ideologia subjacente, identidade do sistema — é abandonado em favor de um quadro inteiramente novo.
É uma mudança de paradigma no sentido forte: uma refundição dos conceitos e dos critérios de verdade admitidos até então. Não uma melhoria do antigo modelo, mas uma nova grade de leitura que torna com frequência incomensurável a comparação com o quadro anterior. As perguntas feitas, os métodos empregados e a própria definição dos fatos pertinentes ficam transformados.
Uma pessoa que viveu toda a vida numa fé religiosa tradicional torna-se, após um longo percurso, ateia convicta. Não é uma mudança de opinião isolada: é uma transformação identitária. Ela abandona um quadro explicativo do mundo — seus dogmas, ritos, sua visão da vida e da morte — e substitui-o por outro quadro de sentido.
Uma vez cruzado esse limiar, é impossível voltar ao estado anterior: o paradigma precedente sobrevive quando muito como referência histórica.
Essas mudanças são raras e preciosas. Acompanham-se muitas vezes de um período caótico, pois o antigo e o novo paradigma coexistem por um tempo no mesmo sistema, gerando tensões. Só com o recuo se pode avaliar a coerência e a superioridade explicativa do novo paradigma.
Os níveis descritos formam uma hierarquia lógica do mais simples ao mais complexo. O princípio de variabilidade estipula que toda mudança particular se situa necessariamente num desses níveis.
Na prática, a maior parte das mudanças correntes é de primeira ordem, as transformações de segunda ordem são mais raras, e as reviravoltas de paradigma inteiramente excepcionais.
Compreender em que nível sopram os ventos da mudança, para melhor acompanhar a navegação do sistema.
A mudança não é um fenômeno uniforme. Vai da simples mudança sem mudança — em que se mexe na superfície para manter o equilíbrio — até a transformação profunda que faz emergir uma ordem nova.
Como escrevia Paul Valéry: “O vento se levanta!… É preciso tentar viver.”
Doumit, Y. (2025). Mudar… mas em que nível? Complexe Systémique. https://www.complexe-systemique.com
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