Profissão · Postura

Os 4 pilares do interventor

Autoridade, responsabilidade, poder, legitimidade: quatro qualidades que sustentam a postura de quem intervém, como os quatro pés de uma mesa. Elas se encaixam umas nas outras — e, quando uma falta, o edifício pende sempre para o mesmo lado.

Podemos ver esses quatro pilares como qualidades humanas encarnadas pelo interventor junto às pessoas que ele acompanha. Quando alguém está solidamente centrado em cada uma delas, isso já produz, por si só, efeitos terapêuticos: a postura fala antes das técnicas.

E seu interesse não se limita ao enquadre da terapia. São referências preciosas para compreender uma família, uma instituição, uma empresa: em todo lugar onde alguém exerce uma função junto a outras pessoas.

1

Autoridade

A credibilidade que a pessoa concede a si mesma.

2

Responsabilidade

A capacidade de assumir as consequências dos próprios atos.

3

Poder

A capacidade de produzir um efeito, uma diferença entre o antes e o depois.

4

Legitimidade

O lugar reconhecido e concedido pela coletividade.

A autoridade: uma credibilidade que concedemos a nós mesmos

A autoridade, aqui, nada tem a ver com dar ordens. É a credibilidade que o interventor concede a si mesmo: uma forma de autovalidação. Vem de si, é autogerada; ninguém pode transmiti-la de fora, e ela se conquista ou se perde conforme as validações que nos concedemos. Duas fontes a alimentam: o conhecimento e a experiência.

O conhecimento

São todas as aprendizagens realizadas por uma pessoa, graças às oportunidades que se apresentaram a ela e através das quais um ensinamento pôde ser recebido. Estar exposto a um saber não basta: é preciso também ter condições de assimilá-lo e integrá-lo. Transtornos de aprendizagem podem se interpor. Mas o contexto de vida também: uma criança que precisa ajudar a colocar comida na mesa da família à noite não está disponível da mesma maneira para adquirir conhecimentos teóricos.

Esse conhecimento é um verdadeiro patrimônio, mas um patrimônio a ser manejado com filosofia: depende eminentemente do contexto. O que confere autoridade em um momento do ciclo de vida pode não valer nada em outro. Posso saber como educar uma criança pequena e me ver totalmente desamparado na adolescência. E se meu mundo muda bruscamente — alguém que passa de uma noite para outra de um meio popular a uma fortuna considerável, ou o contrário —, parte dos conhecimentos acumulados deixa de servir; no pior dos casos, torna-me inadequado ao novo contexto.

A experiência

A experiência é o conhecimento provado na prática. Refere-se a todas as aprendizagens realizadas por meio de tentativas, erros e fracassos: um conhecimento empírico, que só se adquire no exercício. Pense em Náufrago, em que Tom Hanks, sozinho numa ilha, acaba desenhando um rosto numa bola que batiza de Wilson: dia após dia, ele aprende com seus erros, atravessa raivas e frustrações, e é isso — e não um saber teórico — que lhe ensina a sobreviver. Ou pense nos participantes de programas de sobrevivência: alguns treinaram meses para fazer fogo em casa, no sul da França, e descobrem ao chegar a uma ilha tropical que a umidade, a madeira disponível e o cansaço mudam completamente a equação.

As duas fontes são indispensáveis: o conhecimento sozinho, sem a prática, não dá autoridade, e a experiência sozinha, sem o conhecimento, permanece um pouco cega. Daí a importância de continuar se formando, lendo, mantendo-se em estado de alerta intelectual. A experiência de vida do interventor é sempre uma aliada poderosa: vem reforçar sua autoridade ao lado de seus conhecimentos. O mesmo vale nas instituições: um diretor que permite que suas equipes se formem aumenta a autoridade delas.

A responsabilidade: assumir, sem confundir com culpa

A responsabilidade é a capacidade de assumir as consequências dos próprios atos: cumprir seus compromissos, responder por si mesmo ou por outros. Um pai assume a responsabilidade pelos atos cometidos por seus filhos; um dirigente, pelos atos das pessoas que trabalham com ele. É uma posição, e uma postura de maturidade.

Jamais se deve confundir responsabilidade com culpa. Dizer de alguém que é responsável é reconhecer-lhe uma qualidade, não designá-lo como culpado. Quem é dotado dessa qualidade antecipa as consequências de seus atos, de suas palavras e de seus comportamentos sobre os outros.

Na terapia, trabalha-se sempre para tornar as pessoas o mais responsáveis possível, conforme as capacidades de cada uma: essa qualidade está diretamente ligada à capacidade de se questionar e, portanto, de agir. Para agir, para mudar, é preciso sentir-se responsável. Se atribuo incessantemente aos outros a responsabilidade pelos meus comportamentos, minhas atitudes, meu modo de falar ou minha agressividade, torna-se impossível me questionar — e, portanto, mudar qualquer coisa.

O poder: produzir uma diferença

O poder é a capacidade de produzir um efeito, de criar uma diferença entre o antes e o depois da intervenção. Um influenciador tem poder: o que ele diz ou mostra tem impacto sobre as pessoas. E é possível dizer, sem que isso choque, que o terapeuta deve ter um certo poder: caso contrário, o que ele faz ou diz não teria efeito algum sobre as pessoas que vêm se consultar.

Esse poder implica evidentemente grandes responsabilidades e é rigorosamente enquadrado pela ética e pela deontologia. O poder exercido pelo interventor tem sempre a vocação de melhorar as coisas: é justamente porque nossos atos têm consequências que ele deve ser sustentado.

A legitimidade: o que a coletividade concede

Enquanto a autoridade é autogerada, a legitimidade é concedida pela sociedade. Remete à posição legal, ao estatuto, ao lugar reconhecido pela coletividade e que atribui uma função social. A legitimidade profissional pode ser sancionada por um diploma, um certificado, o reconhecimento de um centro de formação ou o dos colegas.

Ela se lê igualmente bem em outras esferas, e a família recomposta oferece a ilustração mais límpida: uma madrasta pode ter autoridade, responsabilidade e poder sem ter legitimidade. As crianças em geral exploram admiravelmente bem essa falha, com o famoso “você não é meu pai”, “você não é minha mãe”. O padrasto ou a madrasta, na verdade, extrai sua legitimidade da validação dos pais. Para tomar uma metáfora britânica: se os pais são os reis, o padrasto é o primeiro-ministro. Ele pode ter muito poder, responsabilidade e autoridade, mas são os detentores da Coroa que decidem que legitimidade lhe conceder. Algumas pessoas vêm se consultar justamente porque atravessam uma crise de legitimidade, ou uma crise de autoridade — e as duas costumam estar ligadas.

Quando falta um pilar

Os quatro pilares não valem separadamente: são suas combinações que fazem a postura. E os desequilíbrios têm nomes muito precisos.

  • Responsabilidade sem poder: a alienação. Confia-se a alguém uma responsabilidade sem lhe dar os meios de agir sobre aquilo que se lhe pede corrigir. Isso é frequente no mundo do trabalho e coloca a pessoa na posição de bode expiatório. Muitas vezes ela acaba até se sentindo culpada por não estar bem: essa responsabilidade também lhe é devolvida, mandando-a se tratar ou receber coaching, como se a dificuldade lhe pertencesse, quando na verdade ela sofre de uma situação sistêmica. Só o fato de colocar palavras sobre isso tem, com frequência, um efeito apaziguador imediato.
  • Poder sem responsabilidade: o despotismo. Imagine uma família na qual é a criança que detém o poder sem a responsabilidade: são seus comportamentos que produzem mais efeitos, é ela que decide; mas, como não é considerada responsável nem se sente responsável por seus atos, pode agir sem jamais se questionar. Esse tipo de impasse leva regularmente as famílias a procurar ajuda.
  • Poder sem legitimidade: a usurpação. O poder passa então a ser exercido a partir de um lugar que ninguém reconheceu.

Daí um princípio simples e muito útil de guardar: jamais aceitar uma responsabilidade cujo poder associado não se tem.

Qualidades a encarnar e depois a transmitir

Esses quatro pilares não são exclusividade do interventor: fazem parte do material transmitido às pessoas acompanhadas. Toda a intervenção visa permitir, a cada um dos protagonistas envolvidos, o pleno exercício da autoridade, da responsabilidade, do poder e da legitimidade.

Para guardar

A autoridade para agir. A responsabilidade para assumir. O poder para transformar e produzir efeitos. A legitimidade para reivindicar o direito de realizar as ações úteis, para si ou para os seus.

Se se trata de uma família, pais e filhos devem poder assumir plenamente sua posição, cada um em seu papel e na medida de suas possibilidades. Se se trata de uma instituição, o princípio vale para o dirigente, o gestor, o funcionário e o usuário do sistema. E essa transmissão só funciona sob uma condição: que o interventor, antes de todos, encarne os quatro.

Como citar este artigo

Besse, J. (2022, 2 de janeiro). Os 4 pilares do interventor. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/os-4-pilares-do-interventor

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