Red Sistémica · Violência
Numa praia deserta de Cancún, um amigo vindo de um país submetido ao terror de Estado se recusa a falar dos esquadrões da morte: ninguém pode ouvi-los, mas o medo é portátil. Dessa cena Carlos Sluzki extrai a pergunta que atravessa todo este texto: o que acontece com a prática de um terapeuta cujo vocabulário foi amputado por anos de ditadura? Ele conta aqui a oficina — um “exorcismo” semântico — que conduziu com cerca de setenta terapeutas latino-americanos que saíam de regimes repressivos, para devolver às palavras proscritas o seu direito de cidade.
“Os fatos que não podem ser descritos estão fadados a desaparecer do nosso campo conceitual.”
Carlos E. Sluzki
Há quase quinze anos, enquanto caminhava fora de temporada por uma longa praia vazia de Cancún, no México, encontrei por acaso um amigo e colega que também passava suas férias naquele país. Foi um encontro inteiramente fortuito, um acaso que nos surpreendeu e nos alegrou muito: embora tivéssemos sido muito bons amigos, não nos víamos havia anos. Ele vivia — como fizera a vida inteira — num país que, havia cinco anos, estava sob um regime de terror de Estado, submetido a um sistema extremamente violento e repressivo feito de controle total dos meios de comunicação, de prisões arbitrárias, de tortura e de desaparecimentos.
Pusemo-nos a caminhar juntos por aquela praia deserta, recapitulando nossas vidas e nossos milagres respectivos. A certa altura, perguntei-lhe:
“— De que maneira você sente presentes em sua vida a violência política, os esquadrões da morte?” Lançando um rápido olhar por cima do ombro direito, depois por cima do esquerdo, meu amigo dirigiu-me um olhar misto de surpresa e reprovação, e disse-me em voz baixa:
“— Seria melhor que não falássemos disso agora.”
Surpreso com seu modo de agir, eu lhe disse:
“— Vamos, olhe à sua volta, olhe onde estamos!”
Incomodado, ele respondeu: “Mais tarde, agora não.”
Para mim, era claro que o contexto em que se dava aquela conversa não era em nada perigoso — não havia testemunhas, estávamos longe de qualquer ouvido, e nosso encontro acontecia, ainda por cima, num país democrático. Era-me igualmente claro que as respostas do meu amigo eram a evidência de uma “realidade portátil” (feliz termo cunhado pelo terapeuta familiar Donald A. Bloch). Uma realidade que contradizia tudo o que eu tinha por certo, e na qual os assuntos sensíveis que eu havia abordado eram percebidos por ele como perigosos demais para serem discutidos.
Alguns anos mais tarde, num congresso profissional realizado na Argentina poucos meses depois da eleição do primeiro governo civil a suceder dez anos de ditadura militar, apresentei uma conferência plenária que incluía trechos de uma entrevista gravada com uma família cujos membros haviam desaparecido (1).
Durante o período de perguntas e respostas que se seguiu à exposição, os comentários concentraram-se de maneira esmagadora no que parece ter sido uma reação coletiva ao meu material. Essa reação assumiu primeiro a forma de um alarme extremo (“Isso é perigoso! A polícia vai chegar a qualquer momento!”). A essa resposta inicial sucedeu a descoberta de que as coisas eram diferentes, um despertar da experiência da liberdade, e um profundo júbilo misturado de tristeza.
Fora, segundo a voz coletiva, uma experiência libertadora e corretiva.
Vários anos depois desse episódio, em 1990, tive o privilégio de proferir o discurso inaugural de um congresso de terapia familiar no Chile, congresso que coincidia com o retorno do país à democracia.
No curso desse discurso, empreguei palavras duras para falar do regime militar repressivo anterior (designei-os, creio, como “gorilas armados de metralhadoras”). Durante o intervalo que se seguiu à cerimônia de abertura, dois membros do público vieram procurar-me e, depois de elogiarem amavelmente meu discurso, queixaram-se de que eu tivesse usado esses epítetos: era importante, diziam eles, que eu me dirigisse a todos os membros do público, inclusive àqueles que haviam apoiado o regime militar anterior. “Os dirigentes do regime anterior também são seres humanos”, sustentavam, “e estamos neste momento num período de ‘reconciliação nacional’.”
Os regimes políticos repressivos — e, em menor grau, todos os regimes políticos — recorrem de forma preferencial a certos termos oficiais e a certos códigos para reforçar sua ideologia. Ao mesmo tempo, esses regimes desencorajam, ou proscrevem pura e simplesmente, o uso público de certas fórmulas.
Os governos repressivos põem esse processo em marcha punindo aqueles que empregam as fórmulas ou os temas proibidos, e usando seletivamente essas mesmas palavras e esses mesmos temas, mas mergulhados em contextos semânticos ameaçadores. Os que detêm o poder empregam além disso ativamente uma série de fórmulas oficiais que não apenas lembram a proscrição mencionada acima, mas estabelecem uma versão dos fatos aprovada pela autoridade.
Assim, nos documentos e decretos de um governo autocrático, o uso oficial do termo “custo social”, que remete ao impacto negativo de uma política sobre o bem-estar das pessoas, não cria apenas um contexto de justificação para essa medida: serve também para lembrar que o governo não aceitará descrições alternativas. Por exemplo, congelar os salários e aumentar em cinquenta por cento o preço da cesta básica terá um “custo social” que o governo julga aceitável, sem levar em conta o sofrimento que esses atos infligem à maioria da população. Uma descrição alternativa, que reconhecesse que milhares de crianças correm o risco de morrer de desnutrição por causa dessas medidas, não seria reconhecida como válida, e faria além disso correr sérios riscos a quem a apresentasse.
A expressão “a solução final para a questão judaica”, de sinistra origem nazista, pertence a essa classe de terminologia. As pessoas que vivem em ambientes políticos repressivos aprendem a não discutir certos conceitos e a não pronunciar certas palavras em público. Em muitos casos, essa proscrição estende-se à sua vida privada: essas pessoas escolhem não empregar tais palavras nem mesmo em casa. Essa repressão das palavras e dos temas politicamente sensíveis tem consequências complexas.
Ela exclui do domínio do discurso — e, por extensão, do domínio da percepção pessoal — os conceitos ou os fatos que essas palavras nomeiam, gerando assim zonas cegas que, embora restrinjam de fato a vida, podem também servir para torná-la mais tolerável (2). O argumento do pós-guerra dos “bons alemães” que diziam “não saber” da tortura ou do genocídio, ainda que eles e suas famílias tivessem podido viver anos a bem pouca distância de um campo de concentração, constitui um exemplo nítido do processo pelo qual os fatos que não podem ser descritos estão fadados a desaparecer do nosso campo conceitual.
Vale a pena sublinhar que, mesmo nos países dotados de governos muito repressivos, existe sempre um conjunto “subterrâneo” de “guardiões das palavras proibidas” — aqueles que, desafiando a proscrição na companhia de seus amigos mais seguros, na intimidade do próprio lar ou no segredo da própria alma, mantêm vivas tanto as palavras quanto os conceitos a que elas remetem. Essas pessoas corajosas são, no entanto, a exceção. A adoção de uma política pessoal de evitação das palavras proibidas, com a produção correlata de zonas cegas que apagam os conceitos subjacentes a essas palavras, constitui a regra para quem vive em circunstâncias políticas repressivas — inclusive para muitos profissionais da saúde mental que precisam conduzir seu trabalho cotidiano nessas condições políticas.
Para lembrar
A proscrição de uma palavra não empobrece apenas o discurso público: ela acaba por retirar da própria percepção aquilo que essa palavra nomeava. O estreitamento do léxico produz zonas cegas que tornam a vida mais suportável ao mesmo tempo que a restringem — e que seguem o terapeuta até o seu consultório.
Do mesmo modo, nos países com governo repressivo, uma parte daquilo que é tido por “subversivo” mantém-se viva pelo deslocamento das palavras proibidas para outros emblemas ou símbolos de desafio à autoridade.
Sob o regime militar argentino, por exemplo, o público — majoritariamente jovem e de classe média — que fora ao recital de uma cantora popular aclamou-a com aplausos e gritos de entusiasmo quando ela entoou a versão em castelhano da balada francesa “Je te chante, liberté”. Na mesma época, no Chile, uma canção tornou-se ícone de protesto e de desafio porque continha um verso que evocava luzes que se apagavam no mês de setembro, alusão aparente ao golpe de Estado de Pinochet contra Allende, ocorrido naquele mês.
E no Brasil, um cantor célebre deu uma série de recitais no curso dos quais se limitou a tocar várias de suas canções ao violão sem cantá-las, porque suas letras — que falavam de pobreza e de opressão — haviam sido proscritas pelo governo militar, enquanto seus espectadores, cheios de fervor, cantavam as palavras em coro em seu lugar. Todos esses exemplos são comoventes porque mostram a flexibilidade do espírito coletivo, e patéticos porque dão a medida de até onde vão os tiranos para suprimir as palavras que julgam perigosas.
Neste momento da história, mesmo que certas nações permaneçam sob regimes totalitários e que outras passem de uma forma de autoritarismo a outra, ainda existem motivos para manter o otimismo. Os governos repressivos e politicamente opressivos vêm sendo substituídos em muitos lugares por dirigentes mais abertos e mais democráticos. É o que ocorre na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, no Brasil e em outros países da América Latina.
Assim, inúmeros cidadãos, entre os quais muitos profissionais do campo da saúde mental, saem ou saíram de um longo período de sua vida infestado de palavras proscritas e de conceitos proibidos, prontos a abrir-se a conceitos e a significados que haviam sido eliminados de sua construção da realidade depois de anos passados a viver e a trabalhar sob o terrorismo de Estado de um governo repressivo.
No curso de uma oficina que animei durante o congresso chileno de terapia familiar a que me referi acima, e com a vantagem de não ter sido exposto às experiências políticas e culturais dos participantes do país anfitrião, conduzi um exercício experiencial que os participantes acharam extremamente esclarecedor e que foi, com certeza, muito revelador para mim. Comecei a oficina como comecei este ensaio: contando a história do meu encontro na praia e da minha apresentação naquele congresso na Argentina. Prossegui trocando com os participantes sobre as palavras e os temas que não podem ser expressos, e sobre as palavras e os temas que constituem, em contrapartida, a “história oficial”.
Depois dessa introdução, convidei os participantes — cerca de setenta terapeutas latino-americanos, alguns ainda submetidos a governos repressivos, outros em vias de sair deles — a tomar parte numa experiência. Descrevi-a como um exorcismo destinado a ampliar seu território semântico e a estender sua liberdade. Pedi-lhes então que nomeassem palavras que eram ou que haviam sido proibidas em seu país de origem.
Comecei a escrever no quadro uma lista com as palavras pronunciadas pelos poucos que quiseram abrir o fogo. Mas, à medida que a lista se alongava, as palavras começaram a surgir, lançadas em alto e bom som dos quatro cantos da sala, numa atmosfera de excitação crescente, de reconhecimento e de hilaridade, interrompida por momentos de recolhimento sombrio. Constituí assim uma lista de palavras proibidas que incluía, entre muitas outras: tortura, desaparecido (pessoa desaparecida), repressão, intelectual, barbudo (homem de barba), esquerdista, milico (termo de gíria e depreciativo para designar um militar) e terricos (contribuição de um terapeuta peruano, que o descreveu como um derivado de “terroristas”, em referência aos guerrilheiros do Sendero Luminoso de seu país). Em seguida elaborei uma segunda lista de termos, correspondente à “história oficial”, tais como custo social, reconciliação nacional e unidade nacional.
Concluídas as duas listas, convidei os participantes da oficina a formar grupos de discussão de quatro ou cinco pessoas, com a tarefa de conversar entre si utilizando ativamente as palavras da primeira lista. Essa atividade foi descrita como uma espécie de festival destinado a libertar essas palavras da proscrição. A tarefa cumpriu-se com uma alegria e um entusiasmo evidentes, em grupos cheios de risos, de gestos enfáticos e de tons inflamados.
Vinte minutos depois, consegui recuperar a atenção dos participantes. Pedi-lhes que comentassem sua experiência do exercício. Sem exceção, expressaram um entusiasmo quase militante. Alguns disseram que empregar essas palavras tinha sido para eles como dizer “palavrões”, e que haviam sentido muito prazer em pronunciá-las. E as listas do quadro enriqueceram-se de palavras novas.
O que aconteceu em um dos grupos
Um dos participantes, um gastroenterologista lúcido formado em terapia familiar, relatou um acontecimento ocorrido em seu grupo, que ilustra o peso ideológico e o poder simbólico dessas palavras. Uma pessoa que chegara atrasada à oficina, quando os grupos já estavam formados e haviam começado a conversar, juntara-se ao seu no último momento. O recém-chegado pediu em voz baixa ao gastroenterologista que lhe explicasse a tarefa. Este, decidindo na hora despistar o retardatário, disse-lhe que o grupo devia conversar empregando o máximo possível as palavras da segunda lista, a da “história oficial”, ao passo que o grupo estava na realidade bem ocupado em utilizar os termos da lista das “palavras proscritas”.
Cinco minutos depois, o grupo inteiro estava confrontando o recém-chegado.
Por causa das palavras que empregava, os membros do grupo o perceberam como um fascista, enquanto o pobre homem, desnorteado, sentia-se cercado por uma multidão hostil e radical. O grupo prosseguiu essa confrontação até que o gastroenterologista revelou a natureza de sua experiência privada; nesse momento, todos os membros do grupo puderam compartilhar um vocabulário comum.
Depois que a grande maioria dos grupos entregou seus comentários pessoais e que cada um teve a ocasião de partilhar suas observações, encerrei a sessão, felicitando os participantes por sua participação ativa na experiência e exortando-os a manter erguida a bandeira da luta pela liberdade de pensamento e de palavra. Nos dias seguintes, durante o resto do congresso de que essa sessão fazia parte, muitos participantes da oficina me pararam num corredor ou em outros lugares informais para me dizer seu reconhecimento e me contar o sentimento de libertação que haviam experimentado.
A propósito dessa experiência, importa ter em mente que não fui eu quem forneceu as palavras: as duas listas foram construídas a partir da terminologia trazida pelos participantes. É preciso notar igualmente que nem a experiência em seu conjunto nem as palavras das listas eram próprias do uso dos países de origem dos participantes. Ao contrário, pessoas de países diferentes propuseram palavras tanto para a lista da “história proscrita” quanto para a da “história oficial”.
Tendo caracterizado essa experiência como uma tarefa de fim aberto para os participantes, como parte de um processo que nunca se conclui, é claro que a concebi como uma experiência de “deutero-aprendizagem”, isto é, de “aprendizagem da aprendizagem”. A experiência visava tornar os participantes mais sensíveis não apenas aos modos pelos quais os ambientes políticos repressivos haviam restringido seus recursos semânticos, mas também mostrar como podia cumprir-se o processo de recuperação progressiva de sua linguagem e, de fato, de seus processos de pensamento.
O efeito dessa experiência sobre o experimentador merece ser notado: ela revelou-se não apenas extremamente enriquecedora para mim, mas também mais potente do que eu previa. Interessou-me o bastante para que eu a repetisse, com pequenas variantes, em grupos de profissionais de vários países que saíam da ditadura.
Mas o que foi feito do amigo que encontrei na praia, do colega que me fez refletir sobre os efeitos persistentes da supressão das palavras e dos pensamentos, e sobre a necessidade de recuperar nosso vocabulário?
Desde aquele encontro, há agora quinze anos, muitos pensamentos e perguntas sem resposta surgiram em mim.
De que maneira essa escotomização, essas zonas cegas semânticas, se refletiam na prática clínica do meu colega? Essa severa restrição, talvez elemento essencial de sobrevivência para muitos numa sociedade repressiva e violenta, não solapa um dos imperativos categóricos da nossa profissão — o de enriquecer o número e a qualidade das opções de nossos pacientes?
A experiência, a oficina que descrevi acima, foi concebida como um antídoto, como o exemplo de um tipo de atividade que se pode desenvolver para neutralizar os efeitos desse esvaziamento linguístico e conceitual que resulta das ditaduras.
Pode ser um passo rumo à restituição — no mundo dos terapeutas e também na vida de seus pacientes — da legitimidade de conceitos e de práticas vitais cujo banimento poderia, de outro modo, tornar-se a sombria herança dos regimes repressivos. Se a psicoterapia é uma prática que visa enriquecer a linguagem e os processos de pensamento de nossos pacientes para ajudá-los a estender o número e a qualidade de suas opções de vida, então é crucial que aqueles dentre nós que exercem essa prática preguem pelo exemplo.
Notas do original
(*) Este artigo foi publicado no n° 34 de Perspectivas Sistémicas (novembro-fevereiro de 1994-1995) e foi reeditado para sua publicação on-line.
(1) Detalhado em Sluzki, C. E. (1990). Desaparecido: Efectos semánticos y somáticos de la represión política en una familia que busca terapia. Family Process, 29 (2), 131-144.
(2) Esses conceitos são discutidos em detalhe em Sluzki, C. E. (1994). “Violencia familiar y violencia política. Implicaciones terapéuticas de un modelo general”. En D. Fried Schnitman (comp.), Nuevos Paradigmas, Cultura y Subjetividad. Buenos Aires, Paidós.
Quem é Carlos Sluzki
(**) O Dr. Sluzki é decano de ciências da saúde no College of Nursing and Health Science e professor pesquisador no Institute for Conflict Analysis and Resolution, ambos na Universidade George Mason; professor clínico de psiquiatria na escola de medicina da Universidade George Washington; editor-chefe do American Journal of Orthopsychiatry; consultor da Organização Mundial da Saúde e do Tribunal Penal Internacional de Haia. Foi editor-chefe da revista Family Process e diretor do Mental Research Institute (fundador do curso).
Este artigo é a tradução para o português de “Palabras Recuperadas, Mundos Recuperados”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Perspectivas Sistémicas, n° 34, novembre 1994 – février 1995). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Sluzki, C. E. (2022). Palavras recuperadas, mundos recuperados (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/palavras-recuperadas-mundos-recuperados (Obra original publicada em 1994 em Perspectivas Sistémicas, n° 34, novembre 1994 – février 1995; republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/06/24/palabras-recuperadas-mundos-recuperados/)
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