Journal of Child and Family Studies · Família
Crianças que crescem com violência doméstica costumam ser descritas como testemunhas passivas e silenciosas. Com base em 107 entrevistas realizadas na Grécia, na Itália, na Espanha e no Reino Unido, a equipe de Jane Callaghan mostra, ao contrário, crianças e jovens que pesam cada confidência: calar para se proteger, escolher uma única pessoa de confiança, tomar emprestada a voz dos adultos para dizer o que é difícil de dizer.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A gestão da revelação nos relatos de crianças sobre a violência doméstica: práticas de contar e de não contar, de Jane E. M. Callaghan, Lisa C. Fellin, Stavroula Mavrou, Joanne Alexander e Judith Sixsmith, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2017), doi: 10.1007/s10826-017-0832-3, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
São hábeis em contar suas histórias e em evitar contá-las.
Jane E. M. Callaghan, Lisa C. Fellin, Stavroula Mavrou, Joanne Alexander e Judith Sixsmith
Resumo
Crianças e jovens que vivem violência doméstica costumam ser representados como testemunhas passivas, vulneráveis demais para contar as histórias de sua própria vida. Este artigo relata os resultados de um projeto de pesquisa europeu de dois anos (Understanding Agency and Resistance Strategies, UNARS) realizado na Grécia, na Itália, na Espanha e no Reino Unido com crianças e jovens que viveram violência doméstica. Ele explora como essas crianças e esses jovens compreendem sua própria capacidade de refletir sobre suas experiências e de revelá-las. Foram analisados trechos de entrevistas individuais com 107 crianças e jovens (de 8 a 18 anos). São apresentados três temas que ilustram as estratégias de crianças e jovens para gerir a revelação: (1) “Silêncio imposto ou silêncio escolhido?” explora suas práticas de autossilenciamento; (2) “Gerir a revelação: encontrar maneiras de contar” descreve o valor que dão à expressão de si e as estratégias que usam para revelar com segurança; e (3) “Falar com muitas vozes” examina como seus relatos se constituem de modo relacional e são muitas vezes polifônicos. O artigo conclui que crianças e jovens podem se comunicar de forma articulada, estratégica e reflexiva, e que um bom apoio às famílias às voltas com a violência doméstica precisa abrir espaço para que a voz de crianças e jovens seja ouvida. Isso só é possível em um marco integrado, capaz de abarcar múltiplos níveis e perspectivas, em vez de privilegiar o ponto de vista adulto. Profissionais que trabalham com famílias afetadas pela violência doméstica precisam reconhecer que crianças e jovens são capazes de refletir sobre suas experiências e de falar delas. Isso exige atenção à complexidade de suas práticas de comunicação e ao contexto relacional dessas comunicações.
Palavras-chave: violência doméstica, crianças e jovens, revelação, agência
O impacto da violência doméstica sobre as crianças tem sido estudado sobretudo por meio de medidas quantitativas dos desfechos infantis, com questionários (em geral pontuados pela equipe clínica, pelos pais ou por quem cuida da criança) ou com a observação das interações entre pais e filhos (Callaghan 2015; Øverlien 2009). Esse tipo de pesquisa documentou os danos que as crianças sofrem, entre eles o risco de dano físico direto (Devaney 2008; Jaffe et al. 2012; Sousa et al. 2011), dificuldades emocionais, comportamentais e de saúde (ver, por exemplo, DeJonghe et al. 2011; Griffing et al. 2006; Holt et al. 2008; Peltonen et al. 2010), problemas de relacionamento (Ehrensaft et al. 2003a; Siegel 2013) e dificuldades escolares (Byrne e Taylor 2007; Carrell e Hoekstra 2010).
Essa literatura teve um papel importante ao evidenciar o impacto da violência doméstica sobre as crianças. No entanto, por causa de sua abordagem metodológica, também foi criticada por ocultar a voz própria de crianças e jovens (Øverlien 2009). Argumenta-se que não conversar com crianças e jovens sobre sua experiência vivida da violência doméstica subestima sua capacidade de agência (Callaghan e Alexander 2015; Callaghan et al. 2016b, c; Haselschwerdt et al. 2016; Katz 2015; Mullender et al. 2003; Øverlien 2009) e reproduz uma representação dominante das crianças que vivem violência doméstica como “testemunhas” silenciosas, danificadas e capazes de causar dano por causa de sua “exposição” à violência (Callaghan 2015; Eriksson e Näsman 2012; Mullender et al. 2003; Øverlien 2009).
A representação de crianças e jovens como silenciosos e passivos também se destaca no campo das políticas públicas (Callaghan et al. 2016b, c). A definição de violência doméstica da Convenção de Istambul orienta a maior parte da legislação e das políticas europeias e inclui “todos os atos de violência física, sexual, psicológica ou econômica que ocorrem no seio da família ou do lar, ou entre os atuais ou ex-cônjuges ou parceiros, quer o agressor coabite ou tenha coabitado, ou não, com a vítima” (Conselho da Europa 2011). A convenção enfoca a violência doméstica tal como ocorre na díade íntima adulta. Essa posição já foi criticada por situar as crianças como testemunhas passivas da violência adulta e por subestimar os danos que elas sofrem (Callaghan et al. 2016b, c). Mesmo quando crianças e jovens não são agredidos fisicamente de forma direta, o contexto familiar da violência doméstica é marcado pelo controle coercitivo e por interações familiares difíceis, que lhes causam dano e violam seu direito à segurança (Callaghan et al. 2016b, c). Para compreender as experiências das crianças com a violência doméstica, é importante ir além do modelo do incidente físico (Katz 2016) e reconhecer o papel do controle coercitivo nas famílias, isto é, os padrões de abuso caracterizados não só pela violência, mas pela dominação, pelo medo, pelo controle, pelo isolamento e pela degradação (Stark 2007). Definir como “vítima” apenas o adulto da díade íntima e reduzir a violência doméstica à violência física oculta o contexto interacional que afeta todos os membros da família, bem como os danos que crianças e jovens sofrem tanto pela violência física quanto pelo controle coercitivo. Essa definição centrada no adulto também faz com que os relatos de crianças e jovens sobre suas próprias experiências sejam muitas vezes negligenciados nos serviços para vítimas de violência doméstica (Callaghan et al. 2016b, c; Katz 2016).
A virada qualitativa na pesquisa em ciências sociais sobre crianças e jovens levou a um reconhecimento maior da importância de ouvi-los e de respeitar sua capacidade de refletir sobre as próprias experiências (Einarsdottir et al. 2009; Skelton 2008). A pesquisa sobre violência, porém, ainda depende demais de relatos de adultos (McGee 2000; Øverlien 2009). Eriksson e Näsman (2012) sugeriram que isso decorre de uma tensão, na pesquisa e na prática profissional, entre a ideia de que crianças e jovens têm o direito de expressar as próprias experiências e a ênfase em sua vulnerabilidade e em seu direito à proteção.
Pais e equipes profissionais muitas vezes dão a entender que crianças e jovens que vivem violência doméstica têm dificuldade de falar de suas experiências. No entanto, como observou Weiss (2014), a dificuldade de comunicar a violência muitas vezes não se deve à incapacidade da pessoa de expressar sua experiência; a dificuldade está na capacidade ou na disposição de quem escuta para ouvir a experiência comunicada. Embora esteja bem documentado que vítimas adultas têm dificuldade de revelar a violência doméstica, tanto pelo impacto emocional da experiência quanto pelo estigma social associado a esse abuso (Liebschutz et al. 2008; Sylaska e Edwards 2013), para crianças e jovens isso é agravado pelas inquietações de profissionais quanto à sua capacidade de revelar e à sua aparente vulnerabilidade quando são questionados sobre suas experiências (Callaghan e Alexander 2015; Eriksson 2012; Eriksson e Näsman 2012). As preocupações dos adultos com a vulnerabilidade de crianças e jovens e com sua incapacidade de refletir com segurança sobre suas experiências (muitas vezes expressas como o receio de “abrir a caixa de Pandora”, Hester e Westmarland 2005; Lombard 2015) podem produzir filtros impostos pelas instituições, obstruções e barreiras que resultam no silenciamento de crianças e jovens (Alexander et al. 2016; Skelton 2008) ou numa participação meramente simbólica (Dexter et al. 2012).
Abrir espaço para que crianças e jovens expressem suas experiências é particularmente importante no contexto da violência doméstica, em que não ouvir seus relatos acarreta riscos adicionais: vozes já silenciadas pela violência e pela coerção na família podem ser ainda mais silenciadas por uma incapacidade mais ampla de ouvir o que crianças e jovens têm a dizer (Vetere e Cooper 2005). Não escutar os relatos de crianças e jovens sobre sua própria experiência de violência doméstica pode aumentar o risco emocional e físico associado a ela. Seus relatos podem, por exemplo, não ser ouvidos por pais concentrados em dar conta da própria situação (Borrego et al. 2008; Katz 2015), ou por profissionais que privilegiam a “história” adulta ou oficial da violência (Eriksson 2012). Assim, oportunidades valiosas de proteção da criança podem ser perdidas, assim como oportunidades de prevenir a continuidade da violência familiar (Buckley et al. 2007). O risco de dano também fica evidente nas disputas sobre convivência após a separação, em que decisões judiciais podem se sobrepor às manifestações de inquietação de crianças e jovens quanto ao contato com pais abusivos (Buckley et al. 2007; Eriksson 2008; Eriksson e Näsman 2012; Featherstone et al. 2013; Hester 2011; Morrison 2015). Além desses riscos físicos, a incapacidade de profissionais e de pais de ouvir a perspectiva de crianças e jovens pode fazer perder oportunidades de apoiá-los e de intervir em seu mundo emocional e psicossocial (Cooper e Vetere 2008).
Apesar das limitações profissionais, parentais e sociais impostas a crianças e jovens, que tornam difícil expressar suas experiências, uma literatura pequena, mas crescente, tem ressaltado a importância de escutar as experiências de crianças e jovens e de favorecer sua voz (Cater e Øverlien 2014; Katz 2015; Mullender et al. 2003; Øverlien 2011). Essa literatura enfatiza que crianças e jovens que atravessaram a violência têm capacidade de agência e podem refletir sobre suas experiências de maneiras que questionam seu lugar de testemunhas passivas (Alexander et al. 2016; Callaghan e Alexander 2015; Callaghan et al. 2016a, b, c, d; Cater 2007; Fusco e Fantuzzo 2009; Houghton 2015; Katz 2015; Överlien 2017; Øverlien 2014; Øverlien e Hydén 2009; Swanston et al. 2014). Eriksson e Näsman (2012) sugeriram que crianças e jovens podiam refletir sobre suas próprias experiências de violência, mas que conversar com eles sobre essas experiências exigia que os adultos respeitassem seu direito à participação e o equilibrassem com as preocupações adultas quanto à sua aparente vulnerabilidade. Trabalhando com jovens de 12 a 15 anos, Øverlien e Hydén (2009) constataram que eram capazes de refletir sobre a própria capacidade de enfrentamento e de descrever suas estratégias, narrando sua experiência vivida do trauma e da gestão do trauma. Segundo esse estudo, as experiências pessoais de violência formavam para essas crianças e esses jovens uma narrativa significativa, importante para a construção de sua identidade. Em seu estudo com crianças bem menores (de 4 a 7 anos), Evang e Øverlien (2014) constataram que elas eram capazes não só de descrever suas experiências, mas também de ter um papel ativo na forma e no rumo das entrevistas de pesquisa. Isso permitia às crianças tanto conduzir a entrevista por conta própria quanto regular seu nível de envolvimento emocional ao fazer revelações difíceis. Essa pesquisa mostra que, embora crianças e jovens tenham capacidades de desenvolvimento variadas para se expressar verbalmente (Brooks e Kempe 2012), são capazes, em idades muito diversas, de expressar suas experiências e de gerir espaços de interação.
O trabalho de Evang e Øverlien ressalta que ouvir as revelações de violência doméstica feitas por crianças e jovens implica escutar não só o que dizem, mas como se comunicam (Trevarthen 1998): a forma de sua revelação, o modo como a encenam de maneira diferente em contextos diferentes e o modo como gerem seus silêncios (Callaghan et al. 2015). Não compreender a dimensão performativa das revelações de crianças e jovens pode levar a subestimar sua capacidade de revelar de modo consciente e refletido. Além disso, é importante reconhecer que a voz de crianças e jovens não surge isoladamente e não é um reflexo direto de experiências interiores: ela é interativa, relacional e constituída espacialmente (Kraftl 2013). Teóricos do desenvolvimento como Vygotsky (1978) e filósofos como Bakhtin (1981) sugeriram que os seres humanos não usam a linguagem apenas como instrumento de comunicação, mas constituem seu senso de si de modo intersubjetivo, em diálogo com os outros. Por isso, as narrativas de crianças e jovens são polifônicas (Bakhtin 1981): ao narrar suas experiências, crianças e jovens falam para outras pessoas e com outras pessoas, “reais” e imaginadas. Esse é um elemento do caráter agentivo de suas comunicações: contam suas histórias com um propósito, de determinada maneira, para determinado público e por determinada razão. Atentar para o caráter intersubjetivo e intencional das revelações de crianças e jovens é um aspecto importante, mas amplamente negligenciado, da pesquisa sobre violência doméstica. Embora Evang e Øverlien (2014) tenham considerado isso no contexto da própria entrevista de pesquisa, esse estudo não explorou como crianças e jovens descreviam a encenação e a gestão de suas revelações em um contexto relacional mais amplo. Quando as crianças falam de suas experiências, trata-se de um processo interacional (Hermans 2015). Crianças e jovens não se limitam a recitar suas histórias: contam-nas numa interação que envolve quem conduz a pesquisa, bem como a história relacional de cada criança (Evang e Øverlien 2014).
Neste artigo, examinamos as reflexões de crianças e jovens sobre suas experiências de revelar a violência doméstica. Nosso objetivo é explorar como crianças e jovens falam da revelação e como refletem sobre suas experiências e sua gestão da revelação a respeito de suas relações familiares. Destacamos sua capacidade de agência (por mais limitada que seja por seus contextos sociais e interpessoais) e sua gestão cuidadosa do contar e do não contar, do falar e do ficar em silêncio. Isso nos permite contribuir para uma literatura crescente que se volta para a capacidade de agência das crianças na violência doméstica e enfatiza sua capacidade de refletir sobre suas revelações e de geri-las, como seres humanos conscientes que produzem sentido, e não como testemunhas passivas da violência adulta.
As crianças foram recrutadas para as entrevistas por meio de serviços especializados em violência doméstica e de abrigos, ou por meio de organizações e profissionais que trabalhavam com famílias afetadas pela violência doméstica, como agentes de ligação entre escola e família, serviços de aconselhamento ou casas de acolhimento para crianças e jovens. Crianças e jovens eram convidados a participar se tivessem de 8 a 18 anos, tivessem vivido violência doméstica e não estivessem, no momento, em situações de violência doméstica, ou se as equipes profissionais que acompanhavam as famílias considerassem seguro trabalhar com eles. Embora filhos de vítimas do sexo masculino não tenham sido excluídos, todas as crianças, exceto duas, vinham de famílias em que a mãe havia sido identificada pelo serviço de encaminhamento como a principal vítima da violência doméstica. Cento e sete crianças e jovens dos quatro países participaram de entrevistas semiestruturadas (ver a Tabela 1 para uma síntese de todas as crianças e jovens que participaram das entrevistas do UNARS, e a Tabela 2 para os detalhes das crianças e jovens cujas vozes estão representadas neste artigo).
Tabela 1 — Crianças e jovens que participaram do projeto UNARS
Tabela 2 — Participantes com trechos incluídos neste artigo
Faixa etária: 8 a 18 anos. Idade média: 13,7 anos. Os nomes são pseudônimos.
O processo de recrutamento esteve sujeito a padrões complexos de acesso e de filtragem, o que torna difícil relatar com precisão as taxas de recrutamento. Na maioria dos países, a pesquisa foi realizada em organizações que apoiavam famílias afetadas pelo abuso doméstico, e o recrutamento sempre passou por terceiros: profissionais de apoio a vítimas de violência doméstica ou equivalentes. A principal dificuldade enfrentada pela equipe de pesquisa girava em torno das práticas de filtragem desses profissionais. As práticas de filtragem de cada profissional e das organizações em geral tornam difícil saber com certeza quantas das pessoas atendidas foram de fato abordadas e informadas sobre a pesquisa. A filtragem também significava que a equipe de pesquisa só tinha a oportunidade de informar diretamente, pessoalmente ou por telefone, as pessoas atendidas selecionadas pelas organizações e consideradas “participantes de pesquisa adequadas”. Por essas razões, relatar aqui as taxas de resposta seria descontextualizar e simplificar demais o panorama e a cultura dos serviços de violência doméstica, produzindo uma representação possivelmente falsa do desejo das famílias de compartilhar (ou não) suas experiências.
“Compreender as estratégias de agência e resistência” (Understanding Agency and Resistance Strategies, UNARS) foi um projeto de pesquisa de dois anos voltado para crianças e jovens em situação de violência doméstica. Crianças, jovens, cuidadores e profissionais de quatro países europeus (Reino Unido, Grécia, Itália e Espanha) participaram do projeto UNARS. O objetivo do projeto era explorar a capacidade de crianças e jovens de ter um senso de agência, de resistência e de resiliência na gestão de sua experiência de violência doméstica. Os dados apresentados neste artigo se concentram em um dos grandes temas que emergiram: a gestão da revelação.
As organizações parceiras do UNARS compartilhavam o interesse em apoiar crianças e jovens que viveram violência doméstica e incluíam universidades, órgãos de governos regionais, empresas sociais e organizações beneficentes. Foram escolhidas por sua expertise no campo da violência doméstica e por suas ligações com os órgãos locais pertinentes. Os quatro países são signatários da Convenção de Istambul (2011) sobre a violência contra mulheres e meninas, embora a Grécia e o Reino Unido ainda estejam em processo de ratificação. As exigências da Convenção fizeram com que os quatro países implementassem recentemente políticas e leis específicas e destinassem recursos para combater a violência doméstica e a violência de gênero, em nível regional e nacional. Apesar de suas diferenças socioculturais, políticas e econômicas, os quatro países apresentam taxas de prevalência relatada de violência doméstica contra mulheres semelhantes, de cerca de 12 a 15% (Conselho da Europa 2008). Por causa dos padrões de notificação, é difícil estimar o número de crianças e jovens que testemunham violência doméstica. Contudo, dados da Grécia, da Itália e da Espanha indicam que 63 a 73% das mulheres que sofreram violência doméstica tinham filhos que haviam testemunhado ou ouvido a violência (Delegación del Gobierno para la Violencia de Género 2015; Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia 2014; Istituto Nazionale di Statistica 2015). Cada um desses estudos enfoca principalmente a violência doméstica com um agressor identificado do sexo masculino e uma vítima do sexo feminino, e é provável que isso resulte numa subestimação das taxas de prevalência descritas. Um estudo de prevalência britânico indica que 21,9% dos jovens de 11 a 17 anos e 24,5% dos jovens adultos haviam vivido violência doméstica em algum momento da infância (Radford et al. 2013).
Pesquisar com crianças e jovens que viveram violência doméstica é delicado e eticamente complexo. A equipe de pesquisa, cuidadores e serviços de encaminhamento temiam que a revelação pudesse de algum modo pôr as crianças em perigo, expondo-as a uma possível traumatização secundária (ver Eriksson e Näsman 2012; Morris et al. 2012) e talvez colocando-as, junto com suas famílias, em risco de represálias ligadas à revelação da violência. Ainda assim, crianças e jovens relatam valorizar a oportunidade de expressar suas experiências e de dar voz à própria capacidade de agência (Cater e Øverlien 2014; Houghton 2015). Diante disso, era importante encontrar maneiras seguras de facilitar a expressão de suas experiências (Alderson e Morrow 2011; Skansvors 2009; Skelton 2008; Valentine et al. 2001).
A equipe de pesquisa garantiu que as pessoas que poderiam participar estivessem plenamente informadas sobre o objetivo da pesquisa. Crianças e jovens só eram recrutados se tivessem saído das situações de abuso doméstico, ou se profissionais avaliassem que era seguro trabalhar com eles (Morris et al. 2012). A equipe informava às pessoas que poderiam participar que o projeto tratava da violência doméstica e explicava em detalhe o procedimento e os direitos e proteções éticos de quem participasse. Essas informações eram dadas oralmente e por escrito, antes de se solicitar o consentimento. Quem ia participar tinha tempo para refletir sobre essas informações antes da entrevista (em geral 7 dias, nunca menos de 1 dia). As fichas informativas eram redigidas em linguagem clara, compreensível e sem jargão, e levava-se em conta a idade dos jovens ao apresentar essas informações, para garantir que entendessem plenamente o que sua participação no estudo implicaria. Era especialmente importante que as crianças entendessem que o foco era a violência doméstica, e tomava-se o cuidado de garantir que compreendessem o significado desse termo (por exemplo, explicando que violência doméstica queria dizer famílias em que os adultos brigavam muito e em que um dos adultos, ou os dois, machucavam fisicamente o outro). O consentimento informado por escrito era obtido quando os jovens tinham capacidade legal para dá-lo. Caso contrário, buscava-se o assentimento das crianças e o consentimento dos pais ou responsáveis legais. Como parte do processo de consentimento, explicávamos às crianças e aos jovens como os dados de sua entrevista seriam usados e explorávamos com eles as proteções oferecidas pela confidencialidade, bem como as circunstâncias em que ela teria de ser quebrada.
Várias medidas foram tomadas para garantir a segurança de crianças e jovens. O anonimato foi preservado com o uso de pseudônimos e a retirada de detalhes identificadores das transcrições das entrevistas e do material visual. A equipe de pesquisa garantiu que as informações sobre o estudo não fossem levadas para casa por crianças e jovens, e foi fornecido um cartão de contato anônimo para reduzir qualquer risco de que o agressor descobrisse por acaso sua participação. Depois da entrevista, a equipe verificava com crianças e jovens como tinham vivido a entrevista. Se houvesse preocupações com a criança, a equipe tinha acesso a profissionais de saúde mental ou de atendimento em violência doméstica, caso fosse necessária uma consulta ou um encaminhamento.
Foram usadas entrevistas semiestruturadas para facilitar a exploração das experiências de crianças e jovens com a violência doméstica. Pessoas de todos os países parceiros (dez pessoas entrevistadoras no total) participaram de uma formação para elaborar o material das entrevistas e desenvolver ainda mais suas competências na condução de entrevistas com crianças e jovens, garantindo uma abordagem comum à pesquisa. Toda a equipe tinha ao menos formação de nível superior e experiência em entrevistas qualitativas. As entrevistas foram realizadas na língua principal da região em que a pessoa participante vivia (inglês, castelhano, italiano ou grego) e traduzidas por um membro bilíngue da equipe de pesquisa. As traduções eram conferidas com a gravação por um segundo membro da equipe.
O roteiro de entrevista (ver o Apêndice 1) foi pensado para ser usado com flexibilidade, permitindo certa padronização em toda a parceria e, ao mesmo tempo, que cada país o adaptasse a suas necessidades e a seu contexto. Alguns exemplos das perguntas usadas nas entrevistas podem ser encontrados no Apêndice 1. As entrevistas duraram entre 24 e 83 minutos e foram estruturadas com flexibilidade para se ajustar ao nível de desenvolvimento e ao estilo de interação de cada criança (Pascal e Bertram 2009). Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra.
As entrevistas foram analisadas segundo o interacionismo interpretativo de Denzin (2001), um método que permitiu explorar as interseções entre o pessoal e o social nas narrativas de crianças e jovens sobre a violência doméstica. Quem conduzia cada entrevista produzia um resumo descritivo e reflexivo, usando um modelo de registro que formava a folha de rosto de cada transcrição.
A equipe de pesquisa passou dois dias em uma oficina de análise, para garantir uma compreensão comum do processo analítico e uma abordagem sistemática dele. Nessa oficina, a equipe percorreu em conjunto todo o processo analítico, usando transcrições das primeiras entrevistas realizadas por cada equipe em cada país. Cada entrevista foi codificada de forma independente, e as variações e os padrões de codificação foram discutidos e resolvidos. Reuniões virtuais da equipe também foram realizadas ao longo do projeto (a cada dois meses), com o compartilhamento e a discussão da análise em construção. Uma oficina final foi realizada no fim do projeto para chegar a um acordo sobre os grandes temas que emergiram. Com base em extensas notas de campo e em discussões de equipe, manteve-se um processo reflexivo para acompanhar a coconstrução da análise ao longo de todo o projeto (Lincoln e Guba 2005).
Em cada país, as entrevistas foram codificadas de forma independente por dois membros da equipe. Denzin descreve esse processo como “colocar o fenômeno entre parênteses”, concentrando-se nas palavras e expressões de quem participou tal como aparecem no texto da entrevista, “soltas” (Denzin 2001, p. 154) do mundo, para identificar as características e estruturas essenciais das experiências narradas por crianças e jovens. A dupla comparava sua codificação inicial de cada transcrição, explorando as variações. Depois de discutir essas discrepâncias, chegava-se a um conjunto comum de códigos para cada entrevista. Na segunda etapa analítica, a “construção” (Denzin 2001), esses códigos colocados entre parênteses são refinados por comparação dentro de cada transcrição e depois entre transcrições, buscando padrões e estruturas nas entrevistas, que são então classificados e ordenados para produzir temas. A construção dos temas foi concluída pela coordenação científica do projeto (JC) e pela pessoa principal associada à pesquisa (JA), em consulta com toda a equipe de pesquisa. Os temas foram construídos de modo a considerar a variação individual e a explorar como significados e experiências se constituíam nas narrativas das diferentes crianças e jovens, em seu contexto interpessoal e social (o que Denzin chama de “contextualização”).
Esta análise explora como crianças e jovens refletiam sobre as tensões que viviam em torno das revelações e como as geriam. Crianças e jovens expressavam cautela, desconfiança e descrédito em relação à revelação, o que se evidenciava na maneira como falavam de revelar suas experiências a amizades, à família e a profissionais. Sua cautela muitas vezes ia além da revelação da violência propriamente dita e se estendia a outros aspectos da vida, aparentemente mais cotidianos. Nesse sentido, falar abertamente, ou mesmo simplesmente falar, passava a ser apresentado como arriscado e perigoso. Ainda assim, crianças e jovens conseguiam encontrar uma série de maneiras de gerir sua comunicação com os outros e de expressar o que estava acontecendo em suas famílias. Nossa análise se concentrou na gestão ativa da revelação por crianças e jovens, por meio de estratégias deliberadas de contar e de não contar. As crianças falavam de revelações feitas a uma série de pessoas: amizades, família, profissionais. Essa revelação é gerida de forma consciente e agentiva por crianças e jovens e é vivida como um meio de proteger a si e aos outros. Três temas são desenvolvidos. “Silêncio imposto ou silêncio escolhido?” explora as práticas de autossilenciamento de crianças e jovens. “Gerir a revelação: encontrar maneiras de contar” examina o valor que dão à expressão de si e as estratégias que usam para revelar com segurança. “Falar com muitas vozes: relatos autorizados, ventriloquia e fala terapêutica” detalha como os relatos de crianças e jovens sobre suas experiências são muitas vezes polifônicos e se constituem de modo relacional.
Os temas são ilustrados com citações literais das transcrições das entrevistas, nas quais o nome, a idade, o gênero e o país da criança são indicados para contextualizar os pontos analíticos. Todas as crianças e jovens cujas vozes estão representadas nesta análise vêm de situações em que o pai (ou, em um caso, o de Kostas, o avô paterno que morava na casa) era o autor da violência na família.
Um dos elementos-chave da experiência da violência doméstica para crianças e jovens é que eles aprendem a gerir a maneira como revelam suas experiências. Aprendem quando falar e quando ficar em silêncio, e atenuam suas reações para evitar chamar a atenção para si e para os problemas da família. Muitos expressavam a sensação de que deviam guardar silêncio sobre suas experiências e avaliar os riscos das revelações.
Crianças e jovens eram cautelosos na maneira de falar da própria violência. Pouquíssimas das crianças e jovens entrevistados nomeavam diretamente a violência como violência, preferindo recorrer a uma série de eufemismos ou atenuações para descrever o que acontecia em suas famílias:
Sophia (15 anos, F, Reino Unido): …Aconteceu uma coisa com a minha mãe…
Nancy (8 anos, F, Reino Unido): o acidente assustou a minha mãe, e ela não gostou
Martina (11 anos, Grécia): … em toda essa aventura que eu te contei…
Em cada um desses exemplos, revelações anteriores feitas pelos pais e pelas equipes que trabalhavam com a criança indicam que o “acidente”, a “aventura”, a “coisa” que “aconteceu” se referem a episódios de violência familiar graves, deliberados e explícitos. Muitas das pessoas participantes falavam de “discussões” ou “brigas”. As entrevistas foram cuidadosamente preparadas para que crianças e jovens soubessem que estavam consentindo em falar de suas experiências de violência doméstica, e a violência doméstica era nomeada explicitamente pela equipe de pesquisa. Isso torna a evitação do termo ainda mais notável, já que quem entrevistava e a criança sabiam que tinha havido violência doméstica, que esse conhecimento era compartilhado e que, nesse sentido, não havia nada a esconder.
O que se realiza, então, com essa maneira eufemística e evasiva de se referir justamente àquilo de que estavam ali para falar? Ao atentar para a função relacional e interacional das revelações das crianças, fica claro que elas não estavam simplesmente recitando suas histórias, mas as estavam “contando” para quem conduzia a pesquisa, narrando suas experiências de modo intersubjetivo. Parece que evitar o rótulo “violência” cumpre uma série de funções: apresenta a experiência em termos menos “crus” para quem entrevista; cumpre uma tarefa talvez mais adequada à criança, permitindo-lhe falar da violência sem nomeá-la explicitamente; e talvez reitere o modo como a família fala da violência (“ter um gênio meio difícil”, “brigar muito” etc. sendo termos mais comuns para descrever a discórdia familiar do que a violência propriamente dita). Nesta análise, damos sentido aos relatos de crianças e jovens sobre suas experiências de revelar ou não revelar afastando-nos de uma leitura patologizante (por exemplo, interpretar o fato de não chamarem sua experiência de violência doméstica como “negação”) para compreender a função de dizer ou não dizer do ponto de vista de crianças e jovens.
Este tema explora como crianças e jovens descrevem as dificuldades de falar da violência doméstica. Todas as pessoas participantes disseram sentir que não podiam falar abertamente de assuntos de família e que, se falassem, não seriam escutadas nem acreditadas. A sensação de serem silenciadas estava em certa tensão com a sensação de escolher ativamente o silêncio como forma de gerir a complexidade das relações familiares.
Crianças e jovens relatavam uma atenuação da própria fala, a sensação de se fazerem mais discretos, para evitar chamar a atenção para si dentro da família. Rachel, por exemplo, explica como o irmão se apagava, tornando sua presença menos perceptível diante da violência familiar:
Rachel (11 anos, F, Reino Unido): O Marcus, tipo, cochichava comigo e tudo porque tinha medo de gritar alto demais ou algo assim
Rachel sugere aqui que o irmão adaptou sua maneira de falar ao ambiente familiar violento, ficando em silêncio, evitando fazer barulho demais. Ela vê o silêncio dele como uma forma de se manter em segurança numa casa arriscada.
Em outro trabalho, exploramos como o monitoramento constante que crianças e jovens exercem sobre a própria expressão funciona como uma adaptação à experiência do controle coercitivo no lar: vigiar o ambiente da casa, acompanhar o humor dos adultos e adaptar o que se diz e como se fala faz parte de um padrão mais amplo de autogestão numa casa em que chamar atenção demais para si pode pôr em perigo (Callaghan et al. 2016b, c). Algumas crianças e jovens também relataram represálias, reais ou temidas, por parte do agressor quando a violência era revelada:
Marios (14 anos, Grécia): O que quer que acontecesse na família, ficava ali. Quer dizer, se escapasse, eles ((a família dele)) diziam, sei lá, “por que você contou?” e coisas assim, e depois te batiam de novo. E é por isso que não dava para falar disso fora de casa.
Aqui, Marios apresenta sua revelação não como deliberada, mas como acidental: ela “escapou”. Isso parece refletir uma proibição familiar de falar da violência; por isso ele precisa defender sua revelação como acidental, como um “deslize”. Ele também apresenta sua não revelação posterior como uma ausência de escolha: “não dava” para falar disso fora da família. Dessa forma, tanto a revelação quanto a não revelação aparecem como desprovidas de agência: falar é um “deslize”, ficar em silêncio é coagido, nenhum dos dois é escolhido deliberadamente. Marios narra uma espécie de duplo vínculo da agência; seu contexto torna difícil escolher ativamente falar ou não falar. Esse posicionamento ressalta uma das tensões fundamentais que crianças e jovens precisam gerir ao decidir com quem falar e como. A violência e a coerção que caracterizam a cultura familiar são onipresentes, e isso tem implicações para o modo como ele consegue dar sentido à própria capacidade de revelar. A falta de segurança faz com que ele precise apresentar qualquer revelação como “acidental” e com que, em geral, sinta sua fala censurada. Ele foi silenciado. Isso é bem diferente do relato de Rachel sobre Marcos, que escolhe se fazer discreto.
Os riscos associados a falar podem tornar mais provável que crianças e jovens mantenham um silêncio que protege os segredos de família e que torna a revelação e a expressão de si mais difíceis. Quando lhe perguntaram como tinha reagido a um episódio muito violento em casa, Anna (18 anos, F, Itália) respondeu:
Fui para a escola como se nada tivesse acontecido.
Na descrição, fica claro que Anna reconhece ter feito uma escolha (ainda que muito limitada) de encobrir o que tinha acontecido em casa. Ela, Marcus e Marios recorrem, cada um, a uma espécie de autossilenciamento protetor, que por um lado protege a si mesmos e à família das consequências arriscadas da revelação, mas que também cria o risco de não receberem o apoio e a intervenção de que podem precisar.
As pessoas jovens que participaram também pareciam carecer de uma confiança epistêmica de que seriam ouvidas pelos adultos, e mostravam maior consciência de que sua voz era muitas vezes desconsiderada no mundo adulto. Algumas crianças e jovens relataram ter tomado a decisão explícita de não revelar por medo de não serem levados a sério, ou por experiências anteriores de não terem sido acreditados ou de terem sido ignorados. Sugeriam que ser “só crianças” diminuía seu status social, e que por isso os adultos não os levariam a sério:
Elda (17 anos, F, Itália): Eu me sentia impotente, passiva e frágil
Ent.: O que fazia você se sentir assim?
Elda: A minha idade
Ent.: Por quê?
Elda: É uma limitação. Ninguém te escuta se você é uma menininha
Nesse trecho, a experiência de impotência de Elda não parece ligada a suas qualidades pessoais, a dificuldades pessoais de expressão ou a algum estado interior de passividade. Elda se descreve, antes, como limitada pela maneira como é vista enquanto criança. Suas palavras não sugerem que ela se veja incapaz de falar, mas que está limitada pelo fato de que não se “escuta menininhas”. Sua sensação de que “ninguém te escuta se você é uma menininha” a coloca numa posição de impotência, fragilidade e passividade. Isso sugere que o posicionamento de crianças e jovens como passivos e impotentes é produzido relacionalmente; ele apareceu no relato de Anna como resultado de se sentir não ouvida. A incapacidade dos adultos de ouvir os relatos de crianças e jovens tem consequências para eles: tira-lhes o poder e os isola (Buckley et al. 2007). Essa sensação de impotência encontrou eco em Nacho, quando ele tentou intervir falando com a mãe sobre a violência que estavam vivendo:
Nacho (13 anos, M, Espanha): Eu disse a ela “Mãe, você precisa de ajuda, você precisa de alguma coisa…” Mas ela me disse: “Acho que não, não preciso de mais nada…” Eu disse a ela “Mãe, por que você não larga esse cara? Por que você não se divorcia? Mãe, mãe, mãe…”
A intervenção de Nacho foi ao mesmo tempo corajosa e madura: ele reconheceu a necessidade de mudança e agiu, expressando à mãe sua própria interpretação da situação e sua convicção de que ela precisava de ajuda. A mãe desconsiderou seu ponto de vista. Suas palavras no trecho mostram o efeito disso, à medida que a voz que ele relata muda. Sua voz passa de um registro maduro e adulto, “Mãe, você precisa de ajuda” e “mãe, por que você não se divorcia”, para uma súplica mais infantil, “mãe, mãe, mãe”. O fato de suas preocupações não serem ouvidas o recolocou na posição de uma criança pequena, assim como Elda, a quem “ninguém escuta”.
Este tema explorou as práticas de autossilenciamento de crianças e jovens, práticas que podem parecer evidência do impacto psicossocial negativo da violência doméstica. Contudo, elas também parecem funcionar como estratégias de enfrentamento complexas e adaptativas, que crianças e jovens usam para manter a si e aos outros física e psicologicamente seguros. As crianças parecem gerir sua expressão de maneira bastante consciente, gerindo sua expressão de si e sua revelação. Crianças e jovens mostravam consciência dos riscos potenciais de revelar a violência doméstica e pareciam tomar decisões ativas e conscientes de se calar. Seu autossilenciamento, porém, também se produzia de modo intersubjetivo, pelo posicionamento, aparentemente por parte dos adultos, como “frágeis e impotentes”. Crianças e jovens expressavam uma aparente falta de confiança na resposta dos adultos a suas revelações, o que funcionava como uma barreira importante: diziam que, em geral, era mais seguro ficar em silêncio sobre suas experiências.
Uma das maneiras pelas quais crianças e jovens geriam a revelação era encontrar formas seguras de se expressar e tomar decisões claras e conscientes sobre em quem podiam ou não confiar os detalhes de sua vida. Apesar de verem a revelação como arriscada e ineficaz, muitos ainda pareciam querer falar de suas experiências com outras pessoas. A maioria descrevia o silêncio como pesado ou difícil e encontrava pessoas, lugares e maneiras seguras de revelar.
No trecho abaixo, Natalia sugere que não podia revelar suas experiências a ninguém, que essas experiências eram incomunicáveis:
Natalia (15 anos, F, Grécia): Não falo disso com mais ninguém. Para quem eu posso dizer essas coisas?
A forma retórica da frase apresenta isso como uma verdade óbvia, evidente: é inevitável que ela não possa falar de suas experiências com os outros, que suas experiências não sejam ouvidas nem compreendidas. Do mesmo modo, Amaya observa:
Amaya (17 anos, F, Espanha): Eu me sentia, eu me sentia sozinha, eu sempre me senti sozinha, eu sempre me senti sozinha, mesmo estando aqui eu me sentia sozinha
A fala de Amaya ressalta a sensação de isolamento que essa impossibilidade de se comunicar impôs. Essa sensação de estar inevitavelmente “sozinha” se constitui em padrões familiares que produzem o autossilenciamento e que constroem as experiências dessas crianças e desses jovens como incomunicáveis e inexplicáveis.
Apesar dessa sensação de isolamento, muitas crianças e jovens relataram ter uma amizade de confiança a quem podiam se confiar. Anna, por exemplo, diz: amiga:
Anna (12 anos, F, Grécia): Então desde aquele dia ela sabe, a minha amiga, e eu falo com ela, mas ela não contaria nada para ninguém
Anna descreve uma gestão cautelosa da revelação. Depois de pesar os riscos potenciais de revelar, conclui que pode falar com segurança com essa pessoa, que, segundo sente, não trairia sua confiança. Para muitas crianças e jovens, essa percepção de que outras pessoas eram confiáveis se apoiava em experiências compartilhadas de violência:
Angelo (15 anos, M, Itália): Não me lembro, talvez eu conversasse com um colega de classe que tinha a mesma situação. Eu conversava com ele porque às vezes a gente estava na casa dele ou na minha e a gente falava dessas coisas.
Nesse trecho, Angelo reflete que crianças com histórias parecidas de violência em casa tinham mais chance de compreender suas experiências.
A maioria das pessoas participantes disse ter uma ou duas pessoas de confiança, e eram as únicas a quem revelavam.
Lina (15 anos, F, Grécia): De qualquer forma, e é isso, elas estavam entre as únicas pessoas em quem eu podia confiar ((.)) mas eu não contava tudo para elas, como contava para a Rika, porque a Rika sabia tudo de mim, enquanto as outras não sabiam tudo de mim…. Eu não falava dos problemas de família, mas de outras coisas com elas. Elas eram importantes, tá, porque às vezes eu conseguia encontrar gente para conversar, além da Rika… Mas não tem por que falar disso com todo mundo, então ((risinho))
Lina descreve uma gestão altamente estratégica da revelação, escolhendo conscientemente as amigas a quem conta os “problemas de família” e outras com quem fala de outros assuntos. Descreve uma estratégia relacional sofisticada, reconhecendo que há diferentes maneiras de compartilhar com amizades e que ela precisa se expressar de outras formas e em outros contextos. Atribui papéis específicos a determinadas amigas para ajudá-la a gerir a expressão de suas experiências e, ao mesmo tempo, gerir os riscos de que gente demais saiba de suas dificuldades familiares.
Emma também demonstra cautela quanto às pessoas a quem revela suas experiências, com base numa experiência negativa de compartilhar com as pessoas erradas:
Emma (16 anos, F, Reino Unido): É, e eles ((outras crianças da escola)) simplesmente descobriram porque, uma das, a amiga para quem eu contei não era a amiga com quem eu costumava falar desse tipo de coisa, e eu achei que podia confiar nela mesmo assim. Então agora eu não tenho mais nada a ver com ela, mas eu falei com ela sobre isso e aí ela começou a contar para outras pessoas e foi assim que se espalhou entre a molecada da escola e eu tive um monte de problemas por causa disso. Eles ficavam tipo: “Rá-rá, teu padrasto te odeia”, ((tom de deboche maldoso)) e todas essas coisas.
A decisão de Emma de revelar para a amiga “errada” teve consequências terríveis para ela, resultando em bullying contínuo na escola. Ela vê o falar como arriscado: pode ser mal interpretado, sua experiência pode ser banalizada e suas revelações podem ser afastadas de sua própria “verdade”. Ela apresenta sua revelação como um erro de julgamento, já que confiar na pessoa errada a deixou potencialmente vulnerável a nova vitimização. Esse tipo de experiência (ou o medo dela) pode explicar as decisões muito conscientes que muitas crianças e jovens relataram sobre em quem podiam ou não confiar; a gestão estratégica da revelação era uma das formas de se manterem psicológica e fisicamente seguros. Rachel descreveu preocupações semelhantes em relação à família extensa, que contou ao pai dela para onde ela e a mãe tinham fugido quando procuraram abrigo:
Rachel (11 anos, F, Reino Unido): A gente vê eles, só que a gente não, tipo ((hum)), não vê eles faz um tempo, e foram eles que ((é)), eles meio que contaram para o meu pai que a gente tinha se mudado e tal, então a gente não podia contar muito com eles ((.)) Então eles sabiam e contaram para o meu pai que a gente tinha ido embora…. É, a gente via eles bastante, a gente contava bastante coisa para eles, mas desde então a gente não fala muito com eles.
Ela e Emma pareciam concluir que algumas pessoas não são confiáveis e não sabem guardar segredo. Também refletiam que guardar segredos era uma das coisas que ajudam a manter a si mesma (e a quem se ama) em segurança. Em certo sentido, é uma lição preocupante, pois enraíza as narrativas familiares de manter a violência em segredo, podendo reforçar as dinâmicas coercitivas e controladoras na família. Ao se silenciarem para proteger a si mesmas e às pessoas queridas, também se submetiam (ainda que sem querer) às condições relacionais que ajudavam a manter a violência. É importante reconhecer, porém, que esse segredo não é simplesmente imposto a crianças e jovens: o segredo não é produzido apenas por dinâmicas familiares coercitivas que silenciariam passivamente crianças e jovens. Essas “lições” são aprendidas, antes, em processos relacionais complexos, dentro e fora de casa, e crianças e jovens participam ativamente da construção da narrativa familiar da qual fazem parte.
Além de terem consciência dos riscos físicos e psicológicos da revelação, crianças e jovens sabiam que quebrar deliberadamente os segredos de família também era um ato poderoso, um gesto de desafio:
Matina (11 anos, F, Grécia): Mas ninguém da minha família sabia que eu e minha irmã a gente confiava numa amiga que a gente tinha em comum.
Ent.: Você não queria que eles descobrissem.
Matina: ((hum-hum))
Matina descreveu aqui uma revelação da violência familiar, confiando numa amiga de cuja existência a família nem sequer sabia. Ela resistiu ao segredo e ao silenciamento da família com uma relação secreta toda sua. A revelação lhe permite aqui expressar com segurança uma resistência às dinâmicas de controle da família.
Ao longo das entrevistas, crianças e jovens mostraram ter consciência de que gerir suas revelações era uma forma de afirmar controle e poder, tanto em famílias afetadas pela violência doméstica quanto na recuperação após a violência. Apesar dos riscos que percebem, crianças e jovens falam de suas experiências, mas esse é um processo complexo e tenso. Os exemplos acima mostram com que cuidado pesam, medem e regulam suas decisões de revelar. Essa experiência pode ser exaustiva e tomar muito tempo. Contudo, gerir suas revelações é um meio de afirmar sua capacidade de agência e uma forma de resistência: eles têm controle sobre a própria história e sobre a maneira de contá-la.
Quando crianças e jovens contam suas histórias, seus relatos são muitas vezes polifônicos, alternando vozes adultas, profissionais e infantis à medida que constroem suas narrativas. Este tema explora o caráter polifônico dos relatos das crianças, para considerar suas implicações tanto para a maneira como as crianças expressam suas experiências de violência quanto para nossa compreensão de como constituem um senso de si no contexto intersubjetivo da violência doméstica.
Uma das maneiras pelas quais crianças e jovens geriam suas revelações era a produção de “relatos autorizados”. Trata-se de relatos que se tornaram de algum modo oficiais, por serem repetidos muitas vezes ou por terem sido aprovados e ratificados por adultos ou por outras pessoas com autoridade (como as equipes profissionais que trabalham com a família). O relato autorizado é tipicamente uma versão enxuta, e às vezes mais higienizada, das experiências de crianças e jovens. Alison (15 anos, F, Reino Unido) se referiu diretamente a uma versão disso:
Alison: Se você quer saber a minha história, vai se foder e lê o meu prontuário… Porque está tudo escrito ((.)) e é uma história só e as pessoas podem ler a mesma história. E se está escrito, você não tem como errar.
“O prontuário” representa a produção de uma versão da história familiar autorizada e estável. A variabilidade da história familiar é descrita como necessariamente pouco confiável, e Alison é clara: a vantagem de produzir uma única versão escrita e estável é eliminar o risco de “errar”. Numa família marcada por segredos e por frequentes comparecimentos ao tribunal, Alison aprendeu que, se for preciso falar da família, é melhor se ater à versão autorizada dos fatos, e que “errar” é perigoso para ela e para a família. Aprendeu a gerir sua fala com muito cuidado e parece sentir que falar da família e de suas experiências de violência é arriscado. A força de sua preocupação em acertar a versão “certa” dos fatos é compreensível em famílias com alto nível de conflito, em que a verdade é muito disputada.
A gestão da revelação por crianças e jovens pode se dar de formas mais ou menos sutis, recorrendo a múltiplas vozes para expressar suas experiências. Assim como “o prontuário”, a história familiar oferecia a crianças e jovens o recurso a uma “versão combinada” dos fatos, construída dentro da família. Isso às vezes podia ser rastreado no uso da linguagem por crianças e jovens: uma formulação da experiência incomumente adulta, por exemplo, como se ventriloquassem uma fala adulta.
Ent.: Quem temos aqui? ((referindo-se ao desenho da família feito por Ben))
Ben (8 anos, M, Reino Unido): A pessoa que estragou a minha vida, que se chama Ian ((.)) como eu disse, ele machucou a minha mãe empurrando ela escada abaixo, e é muito, e isso simplesmente despedaçou a minha família.
O relato de Ben parece aqui apoiar-se em histórias que ele ouviu na família, como sugere a linguagem adulta que usa para expressar como o agressor “estragou a vida dele”. Ele parece recorrer a uma linguagem compartilhada para expressar uma experiência familiar compartilhada, que enquadra a violência e seu impacto. Isso ilustra o caráter relacional e intersubjetivo da fala de crianças e jovens. Eles não constroem suas narrativas de vida, nem seus relatos da violência, de forma isolada: estes se realizam num contexto e se compõem de relatos familiares, oficiais e pessoais do que aconteceu. Por isso, suas histórias de violência doméstica são polifônicas, refletindo o caráter coletivamente constituído de suas experiências. Não se tratava simplesmente de crianças e jovens imitando ou repetindo relatos adultos: histórias adultas foram incorporadas às suas próprias narrativas de suas experiências.
Embora crianças e jovens considerassem e pesassem com muito cuidado as decisões sobre o que revelar, como e a quem, eles reconhecem o valor de se expressar e de elaborar suas experiências; percebem, em especial, o valor das revelações terapêuticas e de apoio. No entanto, ao descrever a importância de falar de suas experiências, crianças e jovens recorriam, mais uma vez, a formulações bastante adultas de suas experiências:
Kostas (14 anos, M, Grécia): Cada dia eu contava mais e mais, eu botava para fora… Eu me sentia culpado por dentro, eu me sentia culpado, como é que eu posso dizer? E quanto mais eu falava, mais eu me sentia aliviado…. Eu guardava isso dentro de mim, depois fazia coisas que não devia fazer e ficava pensando nisso o tempo todo, e desde então parei de pensar nisso e comecei a falar disso. Com alguém.
Essa ideia de “ser aberto” e “pôr as coisas para fora” era uma construção comum nos relatos de recuperação das pessoas participantes. Falar de coisas difíceis era apresentado por muitos jovens como um caminho de cura e de recuperação, que lhes permitia deixar para trás histórias difíceis. Marta (17 anos, F, Espanha), por exemplo, disse:
Naquele momento eu teria gostado de ter uma só pessoa que tivesse acreditado em mim (nem em tudo o que eu dizia, não dá para pedir tanto), mas pelo menos alguém que me apoiasse. Alguém que fizesse daquele momento do dia um momento feliz… que… que por um segundo eu não tivesse tudo na cabeça
O peso do autossilenciamento, e, em consequência, de guardar tudo dentro de si e de gerir sozinha pensamentos e sentimentos, foi expresso de forma comovente no relato de Marta. O desejo expresso por Marta não era apenas ter alguém que acreditasse nela, mas também alguém que a “apoiasse” e lhe oferecesse continência, para que não precisasse mais carregar “na cabeça” o peso e a complexidade de sua história familiar. Como Kostas, Marta recorria a uma linguagem terapêutica para descrever e compreender a si mesma e suas emoções.
Uma expressão bastante controlada da experiência e dos sentimentos também é usada por Nancy, no trecho a seguir.
Nancy (8 anos, Reino Unido): Eu falo com essa boneca, ela também se chama Nancy! E ela parece uma pessoa de verdade
Ent.: Ela é como uma pessoa de verdade?
Nancy: De certo jeito, ela fala umas coisas. Ela é tipo uma boneca corajosa
Ent.: Ela é corajosa?
Nancy: Ela é tipo ((faz uma voz de adulto, com sotaque americano)) “Você consegue, cara!”
Ent.: Ela fala de verdade?
Nancy: De certo jeito, sim. Ela tem um negócio de gravar voz
Ent.: Ah! ((ri)) Tá, então você fala no gravador?
Nancy: ((Hum)) é, e ela responde. Toda vez que eu chego perto dela e digo alguma coisa, ela responde com o que eu gravei
Ent.: E o que você gravou?
Nancy: Eu gravei coisas sobre ser corajosa, capaz, capaz de sobreviver, coisas assim
Ent.: e como isso te ajuda?
Nancy: Me ajuda a sentir que eu consigo, que eu vou ficar bem ((.))
Ent.: O que você quer dizer com “conseguir”?
Nancy: Tipo, chegar no fim da estrada
Ent.: O que é o fim da estrada?
Nancy: ((hum)) tipo, a felicidade
Nancy descreveu como usa sua boneca de várias maneiras: por exemplo, como representação de um eu possível encorajador, competente e corajoso. Ela grava a própria voz, afirmando a própria coragem, que depois pode ouvir através da boneca. Assim, conseguia falar com a boneca e parecia obter apoio e encorajamento por meio dela, como um eu substituto. É importante, porém, olhar também para o tipo de voz que ela colocou na boneca: a voz de um adulto, que lhe diz que ela pode ser corajosa, que vai conseguir, que vai ficar bem. Nesse sentido, a boneca se torna ao mesmo tempo um projeto de si e a projeção de um adulto cuidadoso, que usa a tranquilização e o encorajamento para permitir que Nancy enfrente a situação. Nancy está ao mesmo tempo treinando a si mesma para gerir melhor suas emoções e usando a boneca para apoiar a introjeção de um adulto cuidadoso e positivo, compensando a relativa ausência desse cuidado em suas próprias relações familiares. (O uso de objetos materiais, aqui exemplificado, é discutido mais amplamente em Alexander et al. (2016).)
Esse tipo de uso de uma fala muito terapêutica pode indicar um grande envolvimento com os serviços, com as crianças reproduzindo formas psicologizadas de ver e compreender suas experiências. Embora a maioria das pessoas participantes não tivesse feito terapia formal, muitas tinham participado de grupos psicoeducativos, e vestígios de seus encontros nesses grupos aparecem em sua fala. Usavam termos como estresse, alívio, apoio, autoestima, reproduzindo, ao que parece, a linguagem de profissionais e dos vários programas de apoio pelos quais tinham passado. Esse tipo de linguagem sugere a incorporação do diálogo terapêutico ao senso de si e a construção de um eu terapêutico mais controlado. Isso pode permitir expressar a experiência de uma maneira que pareça segura e delimitada para as crianças, e que talvez não arrisque uma exposição excessiva de si. Ao reproduzir a linguagem do grupo, conseguem ao mesmo tempo se expressar e produzir um relato de si que faz parte de uma narrativa comunitária compartilhada, autorizada por uma voz profissional.
Ao considerar o caráter por vezes muito elaborado dos relatos de crianças e jovens descritos neste tema, é importante não se ater simplesmente à ideia de que crianças e jovens imitam ou arremedam vozes adultas. Eles parecem, antes, recorrer aos recursos culturais de que dispõem na família e nos serviços de apoio para dar sentido às experiências que viveram.
Quando as experiências de crianças e jovens são compreendidas em seus próprios termos, e não a partir de uma perspectiva adulta, fica claro que a imagem dominante de crianças e jovens como testemunhas silenciosas da violência doméstica é insustentável (Callaghan et al. 2016a; Katz 2016; Överlien 2017). O que surge em seu lugar é alguém que decide de forma ativa, reflexiva e estratégica: uma criança que pesa todos os riscos antes de decidir com quem vai falar e como. As crianças e jovens entrevistados se comunicavam de forma muito articulada, estratégica e reflexiva. Os quatro temas descritos acima mostram como sua gestão do que vão ou não dizer, e de com quem vão falar, é uma poderosa estratégia de enfrentamento, que lhes permite estabelecer uma sensação de controle sobre a própria história de vida (e a de sua família). Nosso estudo também ilumina as restrições à capacidade de expressão de crianças e jovens e as maneiras criativas com que eles lidam com essas restrições. Longe de serem testemunhas passivas da violência, as crianças e jovens entrevistados compreendiam claramente as restrições interpessoais e sociais à sua capacidade de falar de suas experiências, conseguiam refletir sobre o impacto dessas restrições e encontravam maneiras criativas de contorná-las.
A análise explorou os relatos de revelação de crianças e jovens por meio de três temas interligados. O tema “Silêncio imposto ou silêncio escolhido” ilustrou as práticas de autossilenciamento de crianças e jovens, práticas que poderiam parecer evidência do impacto psicossocial negativo da violência doméstica. Contudo, crianças e jovens geriam sua expressão de si e sua revelação de maneiras que pareciam bastante conscientes (ver também Evang e Øverlien 2014). Mostravam consciência dos riscos potenciais de revelar a violência doméstica e pareciam tomar decisões ativas e conscientes de se calar. O autossilenciamento e a gestão da revelação, porém, também pareciam funcionar como estratégias de enfrentamento complexas e adaptativas, que crianças e jovens usavam para manter a si e aos outros física e psicologicamente seguros. Esse autossilenciamento se produzia de modo interacional. As pessoas participantes descreveram como monitoravam, pesavam e geriam os riscos potenciais da revelação na violência doméstica, tomando decisões relacionais sobre quando falar e quando se submeter ao comportamento abertamente opressivo e coercitivo do adulto agressor. O posicionamento de crianças e jovens pelos adultos como “frágeis e impotentes” também contribuía para produzir intersubjetivamente o silenciamento. Crianças e jovens expressavam uma aparente falta de confiança na resposta dos adultos a suas revelações, o que funcionava como uma barreira importante: diziam que, em geral, era mais seguro ficar em silêncio sobre suas experiências.
Nem testemunhas passivas nem silenciosas, crianças e jovens valorizavam as oportunidades de falar de suas experiências, mas eram cautelosos, estratégicos e atentos aos riscos em suas decisões sobre revelar (como descrito no tema “Gerir a revelação: encontrar maneiras de contar”). Um grande trabalho cognitivo, emocional e relacional está envolvido nas decisões de crianças e jovens sobre revelação e expressão de si, já que cada interação em que uma revelação é possível é cuidadosamente pesada. Embora a revelação seja arriscada (física, relacional e psicologicamente) para crianças, jovens e suas famílias, as crianças também reconhecem que ela é um recurso potencial, que lhes permite tanto obter apoio quanto encontrar um alívio catártico.
Essa gestão da revelação reforça a importância da constatação de Evang e Øverlien (2014) de que mesmo crianças bem pequenas eram capazes de gerir intersubjetivamente o encontro da entrevista. Esta análise mostra que essa gestão ativa da revelação nos encontros relacionais não é um mero artefato das interações da entrevista, mas reflete uma estratégia relacional mais ampla que crianças e jovens usam para gerir como contam e para quem contam. São hábeis em contar suas histórias e em evitar contá-las.
Estudos qualitativos anteriores mostraram que crianças e jovens têm capacidade de expressar suas experiências (Eriksson e Näsman 2012; Houghton 2015). Esta análise mostrou que crianças e jovens exercem grande agência na gestão dessa revelação, mas que sua facilidade de interagir com os outros é limitada por suas experiências de violência e ameaça, por seu autossilenciamento e por sua gestão estratégica da revelação. Aprenderam a ser cautelosos quanto ao que revelam e à maneira de fazê-lo. Além disso, a falta de confiança de crianças e jovens na resposta dos adultos a suas revelações funcionava como obstáculo à revelação: muitas pessoas participantes disseram não falar com adultos porque não seriam acreditadas ou porque sentiam que fazê-lo era arriscar novos danos a si mesmas e aos outros.
Para experiências tensas e difíceis como a violência doméstica, a linguagem de que crianças e jovens dispõem para expressar suas experiências pode ser muito limitada: os recursos culturais disponíveis para falar dessas experiências difíceis da vida familiar são muito restritos. As experiências de crianças e jovens com a violência doméstica são muitas vezes vistas como extranormativas, como algo que excede o que nossa cultura espera das experiências de uma “infância normal” (Burman 2016). Nesses contextos, a voz de crianças e jovens pode ser limitada pelos recursos simbólicos e culturais disponíveis para contarem suas histórias, e nesse sentido sua expressão é restringida pelo contexto em que se manifesta (Callaghan et al. 2015; Unterhalter 2012).
A fala adulta sobre a violência e a recuperação é um dos recursos disponíveis para crianças e jovens. Seus relatos são, portanto, polifônicos, com vestígios de ventriloquia de falas adultas e terapêuticas em suas descrições. Ao explorar essa polifonia, a análise tornou visível o caráter intersubjetivo das experiências de crianças e jovens com a violência doméstica e da construção de uma resposta a essa violência. Isso dá continuidade a trabalhos que ressaltam a importância do contexto relacional em que crianças e jovens vivem a violência doméstica (Callaghan et al. 2016b, c; Cooper e Vetere 2008; Katz 2015; Swanston et al. 2014), estendendo-os à consideração de como discursos familiares e profissionais servem de recursos para que crianças e jovens construam suas próprias narrativas. As narrativas de crianças e jovens não se constroem isoladamente, mas recorrem aos recursos culturais e discursivos a que têm acesso, assim como as narrativas dos adultos.
Reconhecer que os relatos de crianças e jovens sobre suas experiências são polifônicos e que às vezes podem ser formulados em termos muito adultos não significa que esses relatos sejam pouco confiáveis ou inautênticos. Todas as narrativas humanas são, por natureza, intersubjetivas e polifônicas (Bakhtin 1981). A gestão consciente da revelação significa, antes, que crianças e jovens, como todos os seres humanos reflexivos, são ativos e reflexivos na produção de seus próprios relatos e gerem suas revelações de forma consciente e agentiva. É importante considerar os discursos que nós, profissionais, colocamos à disposição de crianças, jovens e cuidadores, a linguagem que usamos para descrever suas experiências, porque essa linguagem ganha importância para crianças e jovens na compreensão de si mesmos e pode favorecer ou bloquear sua capacidade de construir um senso de si mais resiliente, resistente e agentivo.
Embora crianças e jovens sejam incrivelmente engenhosos e estratégicos, os recursos discursivos de que dispõem na cultura popular e no apoio profissional para compreender e dar sentido a suas experiências de violência os descrevem com demasiada frequência como passivos e danificados (Callaghan 2015; Øverlien 2009), posicionando-os de formas que podem incapacitá-los, tirar-lhes o poder e marginalizá-los, em vez de fortalecê-los para enfrentar a situação. Por exemplo, as compreensões profissionais da violência doméstica se tornam um recurso importante para crianças e jovens em contato com os serviços e podem ajudá-los a enquadrar suas experiências. No entanto, se essas compreensões forem moldadas por visões normativas da infância e do desenvolvimento infantil e incluírem ideias arraigadas sobre como a violência afeta crianças e jovens, isso pode ter um impacto mais problemático para a criança que tenta construir uma imagem positiva de si na recuperação (Callaghan e Alexander 2015). Ao apoiar crianças e jovens, é importante encontrar formas de que falem de suas experiências em seus próprios termos e promover maneiras menos patologizantes de pensar sua vida. Crianças e jovens são cautelosos ao falar de suas experiências e, por isso, só as discutirão em condições bastante específicas e restritivas. Isso oferece um leque relativamente limitado de recursos culturais, muitas vezes bastante dominados pelos adultos, para situar suas experiências e dar-lhes sentido. Reconhecer como essas vozes se constituem não impede ver a voz de crianças e jovens como expressão de sua experiência. Ao contrário, permite compreender como essa experiência se constitui.
Considere-se, por exemplo, a maneira como grande parte do trabalho sobre violência doméstica se concentra no construto da transmissão intergeracional ou, como se costuma dizer, no “ciclo intergeracional do abuso” (Ehrensaft et al. 2003b; Siegel 2013), um modelo que, na prática, apresenta crianças e jovens como condenados a repetir ciclos de violência e abuso. Essa construção de crianças e jovens que sobrevivem à violência doméstica lhes oferece duas posições de sujeito com as quais se identificar: futura vítima ou futuro agressor. Esse tipo de discurso não lhes dá um registro de linguagem no qual constituir um senso de si positivo como sobreviventes, nem oferece a crianças e jovens uma narrativa alternativa à narrativa familiar de abuso e vitimização.
As narrativas adultas e familiares e os discursos profissionais sobre a violência doméstica podem ajudar (e atrapalhar) crianças e jovens a expressar uma experiência muitas vezes difícil de dizer, tanto pela falta de linguagem para falar de relações familiares violentas quanto pela censura e autocensura de sua expressão. Isso significa que a linguagem adulta e profissional pode facilitar ou dificultar a fala de crianças e jovens sobre suas experiências de violência doméstica e, pela influência que exerce sobre suas narrativas, pode afetar o modo como imaginam seu senso de si presente e futuro. Por isso, precisamos, como profissionais, pensar com cuidado na maneira como escutamos crianças e jovens e falamos sobre eles (e com eles), garantindo que usemos a linguagem de modo a apoiar sua capacidade de agência e a respeitar como enfrentaram, até aqui, a violência que viveram. Isso exige que profissionais que trabalham com crianças, jovens e famílias interrompam e reformulem falas que posicionam crianças e jovens como testemunhas impotentes, ou que desconsideram ou descartam seus relatos.
Relatos de adultos que sobreviveram à violência doméstica na infância identificaram ter alguém fora de casa em quem confiar como um importante fator de resiliência (Anderson e Danis 2006; Gonzales et al. 2012). Embora o acesso ao apoio social seja um aspecto importante da resiliência de crianças e jovens na violência doméstica (Anderson e Danis 2006; Gonzales et al. 2012), o ato de revelar também funciona como resistência a um regime de silêncio imposto: um gesto de desafio que permite a crianças e jovens manter um fio de autodeterminação e um senso de si definido para além das experiências imediatas de violência e coerção. Num contexto em que manter o silêncio é um elemento do controle coercitivo, romper o silêncio é um poderoso ato de resistência (Callaghan e Clark 2007). Os relatos de crianças e jovens sugerem que reconhecem o potencial da revelação estratégica como forma de resistência ao controle coercitivo do genitor agressor. Ela também permite à criança exercer um papel ativo de proteção e cuidado em relação ao resto da família, resistindo à definição de família imposta pelo agressor (Callaghan et al. 2016a, b).
Isso abre potencialmente uma janela na qual a criança pode construir um senso de si para além dos padrões familiares de violência e abuso. Revelar num espaço seguro, encontrar caminhos de expressão segura de si pode permitir a crianças e jovens manter um ponto de apoio de autodeterminação e um senso de agência diante do comportamento abusivo do genitor agressor, contestando assim a aparente totalidade do controle do agressor (Callaghan et al. 2016a, b). Como sugere Hebdige (1979), pequenos gestos de desafio sinalizam uma recusa; têm um valor subversivo que vai além do ato imediato de desafio. No contexto da violência doméstica, esses gestos de desafio sinalizam uma recusa das práticas coercitivas e dos silêncios opressivos da família: são uma resistência explícita à ordem familiar caracterizada por regimes de silêncio. Para crianças e jovens, falar, ainda que baixinho, sinaliza o apego a um senso de “eu” que permite construir uma distância entre eles e os padrões familiares. Isso lhes permite sentir que podem proteger a si mesmos e a suas famílias, fazendo escolhas conscientes sobre a quem contar, como e quando contar.
Como grande parte da pesquisa sobre crianças e violência doméstica, este estudo foi limitado por se concentrar em crianças e jovens recrutados por meio de serviços de apoio em violência doméstica. Seria útil compreender como se constituem as narrativas de revelação de crianças e jovens quando não estão em famílias que tiveram contato com serviços, e se a formatação polifônica de suas revelações é diferente numa amostra da comunidade. Além disso, embora não tivéssemos a intenção de recrutar apenas famílias em que a principal vítima identificada fosse do sexo feminino, apenas um pequeno número de participantes vinha de famílias em que a principal vítima identificada era do sexo masculino, ou em que as equipes profissionais consideravam que as duas pessoas do casal eram violentas. Isso limita a pertinência destes resultados a famílias semelhantes. Outra ressalva na interpretação dos resultados desta pesquisa é que, presumivelmente, as crianças e os jovens que escolheram participar do estudo estavam mais inclinados a falar de suas experiências, o que pode ter enviesado os resultados em favor de crianças e jovens mais à vontade com a revelação.
Esta pesquisa ressalta a necessidade de que profissionais que trabalham com crianças e jovens afetados pela violência doméstica disponham de espaços em que eles possam revelar com segurança e trabalhar na produção de narrativas familiares alternativas. Uma das maneiras de possibilitar isso é garantir que todas as pessoas que trabalham com crianças e jovens afetados pela violência doméstica estabeleçam canais de comunicação claros, nos quais crianças e jovens conheçam os limites e compreendam as restrições e as possíveis consequências das revelações. É fundamental que crianças e jovens recebam apoio para se sentirem seguros em suas revelações, para que possam reconstruir sua confiança em adultos que ao mesmo tempo acreditam neles e são dignos de confiança. Ao tornar os limites claros e explícitos, profissionais e outros adultos podem abrir um espaço relacional em que crianças e jovens se libertam da necessidade de vigiar e monitorar constantemente a segurança de suas revelações. Ao mesmo tempo, esses profissionais precisam respeitar a forte necessidade de crianças e jovens de gerir suas revelações para manter a si mesmos e as pessoas queridas em segurança e, portanto, precisam respeitar sua capacidade (limitada) de agência.
Também é importante que profissionais escutem os relatos de crianças e jovens e que essas narrativas recebam o mesmo respeito e a mesma credibilidade concedidos às dos adultos. Também é importante que profissionais e outros adultos que apoiam crianças e jovens que vivem violência doméstica superem sua própria conivência com o silenciamento de crianças e jovens. Isso pode ser alcançado ao reconhecer que crianças e jovens são seres conscientes, que produzem sentido, que têm consciência da violência que viveram e que desenvolveram estratégias complexas para lidar com essas experiências (Vetere e Cooper 2005). Isso exige que quem apoia crianças e jovens suspenda a negação e a minimização adultas tanto do impacto da violência doméstica sobre crianças e jovens quanto de sua capacidade de agência para enfrentar e gerir essa violência e suas consequências. Ouvir a voz de crianças e jovens significa atentar não só para o que dizem, mas também para como o dizem; isso implica aprender a escutar não só com os ouvidos, mas prestando muita atenção às formas complexas de suas revelações, e compreender e contextualizar como elas são ao mesmo tempo restringidas e possibilitadas. Isso exige um apoio sólido às famílias às voltas com a violência doméstica, num marco integrado capaz de abarcar múltiplos níveis e perspectivas, em vez de privilegiar a perspectiva adulta.
Para oferecer um ambiente respeitoso e centrado na criança a quem sobreviveu à violência doméstica, profissionais e outros adultos precisam compreender o contexto relacional da vida de crianças e jovens, no qual se constituem suas narrativas polifônicas e de múltiplas texturas. Isso cria um ambiente em que a coconstrução da narrativa familiar e a gestão consciente e protetora da revelação pelas crianças são compreendidas em contexto, e não descartadas como “treinamento” ou como “papaguear” as perspectivas adultas. Isso exige um ambiente seguro, flexível, responsivo, mas claramente estruturado, capaz de abarcar múltiplas camadas de revelação e de compreender suas implicações. Contar suas histórias num contexto tão seguro e respeitoso permitirá que profissionais, crianças e jovens tomem decisões acertadas, que sustentem uma manutenção racional e realista da segurança na família, para além das relações coercitivas que até então caracterizaram sua vida familiar. Isso permitirá o surgimento de histórias alternativas de si e do outro, que poderão lançar as bases para que crianças e jovens vivam livres de abuso.
Amostra do roteiro de entrevista
Complexe Systémique: a reter
O artigo desloca o olhar: a criança que vive violência doméstica não é uma testemunha silenciosa, mas alguém que gere ativamente o que diz, a quem e como. O silêncio pode então ser lido como uma estratégia de proteção num sistema marcado pelo controle coercitivo, e a confidência escolhida como um gesto de resistência. Para a clínica sistêmica, destacam-se duas pistas. Primeiro, escutar a forma tanto quanto o conteúdo: eufemismos, relatos “autorizados” e vozes adultas retomadas tal como foram ouvidas dizem o lugar ocupado na narrativa familiar, sem tornar a fala menos autêntica. Depois, estabelecer um enquadre explícito sobre a confidencialidade e seus limites, para que a segurança da revelação não dependa mais só da criança. Convém ter em mente os limites: crianças recrutadas por serviços especializados, violências exercidas quase sempre por pais, e um artigo mais rico em trechos do que na descrição da análise. Para ler junto com o estudo norueguês sobre o lugar da criança na terapia familiar após a violência e com o artigo sobre a participação das crianças numa atmosfera de segredo.
Notas do original
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não ter conflitos de interesse.
Aprovação ética. Todos os procedimentos realizados nos estudos com participantes humanos estavam de acordo com os padrões éticos do comitê de pesquisa institucional e/ou nacional e com a Declaração de Helsinque de 1964 e suas emendas posteriores, ou com padrões éticos comparáveis.
Consentimento informado. O consentimento informado foi obtido de todas as pessoas que participaram do estudo.
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Tradução não oficial em português de A gestão da revelação nos relatos de crianças sobre a violência doméstica: práticas de contar e de não contar, de Jane E. M. Callaghan, Lisa C. Fellin, Stavroula Mavrou, Joanne Alexander e Judith Sixsmith, Journal of Child and Family Studies, vol. 26, no 12 (2017), doi: 10.1007/s10826-017-0832-3, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “The Management of Disclosure in Children’s Accounts of Domestic Violence: Practices of Telling and Not Telling”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2017) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Callaghan, J. E. M., Fellin, L. C., Mavrou, S., Alexander, J., et Sixsmith, J. (2017). A gestão da revelação nos relatos de crianças sobre a violência doméstica: práticas de contar e de não contar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-gestao-da-revelacao-nos-relatos-de-criancas-sobre-a-violencia-domestica (Obra original publicada em 2017 em Journal of Child and Family Studies, 26(12), 3370-3387 (2017); republicada em 2017 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-017-0832-3)
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