The British Journal of Social Work · Proteção à infância

A teoria da complexidade na proteção à infância: uma ferramenta de análise retrospectiva e/ou uma ferramenta de apoio à decisão no trabalho de proteção e bem-estar da criança

Por que sistemas de proteção à infância, mesmo muito regulamentados, deixam situações se agravarem sem reagir? Aisling Gillen e John Canavan propõem um referencial de prática tirado da teoria da complexidade (auto-organização, dependência da trajetória, bifurcação) e o põem à prova no caso ficcionalizado de uma adolescente irlandesa, construído a partir de cinco revisões de casos reais.

Autores Aisling Gillen e John Canavan (UNESCO Child and Family Research Centre, School of Political Science and Sociology, Institute for Lifecourse and Society, Universidade de Galway, Irlanda)Primeira publicação The British Journal of Social Work, 3 de agosto de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A teoria da complexidade na proteção à infância: uma ferramenta de análise retrospectiva e/ou uma ferramenta de apoio à decisão no trabalho de proteção e bem-estar da criança, de Aisling Gillen e John Canavan, publicado na The British Journal of Social Work (Oxford University Press) (2024), doi: 10.1093/bjsw/bcad180, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os agradecimentos do fim do artigo foram reunidos nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Uma compreensão da teoria da complexidade não eliminará a incerteza nem a sensação de não saber.

Aisling Gillen e John Canavan

Resumo

Os maus-tratos e a negligência contra crianças são um “problema perverso” (wicked problem) (Devaney, J. e Spratt, T. (2009) “Child abuse as a complex and wicked problem: Reflecting on policy developments in the United Kingdom in working with children and families with multiple problems”, Children and Youth Services Review, 31(6), p. 635-41.). Os sistemas de proteção e bem-estar da criança (Child Protection and Welfare, CPW) são sistemas abertos, nos quais uma grande diversidade de profissionais e as próprias famílias contribuem para os resultados. Pequenas mudanças em interação numa parte de um sistema CPW podem produzir efeitos imprevisíveis e sistêmicos; por isso, soluções lineares e tecnocráticas não bastam para enfrentar essa complexidade. Embora os sistemas CPW possam buscar papéis e responsabilidades claros, orientados pela legislação e pelas diretrizes regulatórias, os sistemas complexos não se comportam como seus projetistas esperam. A literatura recente mostra uma virada em direção à teoria da complexidade e aos conceitos da teoria dos sistemas para compreender o mundo da proteção à infância e trabalhar nele. Este artigo propõe um referencial de prática baseado em conceitos da teoria da complexidade: auto-organização/emergência/adaptação, dependência da trajetória e bifurcação. A utilidade do referencial é testada por sua aplicação a um estudo de caso ficcionalizado, construído a partir de uma análise temática de cinco revisões de caso publicadas pelo National Review Panel no contexto irlandês de proteção à infância (2019-2020). Argumentamos que a teoria da complexidade pode ser uma ferramenta útil tanto para a análise retrospectiva quanto como ferramenta proativa aplicada à prática, para apoiar a tomada de decisão em sistemas, serviços e organizações de CPW.

Introdução

A proteção e o bem-estar das crianças são uma questão complexa e um desafio significativo de políticas públicas, político e social (Canavan et al., 2022). A complexidade decorre da multiplicidade de fatores que colocam as crianças em risco; dos desafios da colaboração entre profissionais, muitas vezes de disciplinas diferentes; da incerteza do trabalho; da multiplicidade de tarefas a cumprir; da falta de pessoal e da falta de conhecimento, experiência e tempo das equipes (Hood, 2014; Jansen, 2018). Fish e Hardy (2015) reconhecem na proteção à infância uma complexidade, uma volatilidade e uma imprevisibilidade que não podem ser erradicadas. A crença equivocada de que podem levou a uma prática defensiva, a uma cultura da culpabilização, à aversão ao risco, a uma forte ênfase em procedimentos e registros e a uma tomada de decisão centralizada, de comando e controle (Munro, 2010). Para Weberg (2012), as abordagens lineares de padronização e controle impedem as organizações de evoluir na velocidade necessária para continuar relevantes, mitigar o risco e as técnicas defensivas e gerir a complexidade, inclusive o impacto psicológico do trabalho sobre as pessoas e os serviços.

Em circunstâncias de maior complexidade das tarefas ou da clínica, quando há incerteza sobre a melhor forma de avaliar o risco presente e futuro e de lidar com a situação, a teoria da complexidade pode oferecer uma compreensão maior dos processos envolvidos no CPW e melhores resultados e desempenho clínicos (Stevens e Cox, 2008). O desafio central é gerir uma realidade emergente agindo e navegando nas interações entre agentes, organizações e seus ecossistemas, num ambiente em constante mudança (Rhodes et al., 2010).

Neste artigo, propomos um referencial de prática para a possível aplicação da teoria da complexidade ao trabalho de proteção e bem-estar da criança (CPW). A primeira seção examina por que pode valer a pena dar atenção à teoria da complexidade. Nela, examinamos os fundamentos conceituais da teoria da complexidade e sintetizamos a literatura num referencial para interrogar casos e sistemas CPW complexos. Em seguida, exploramos sua aplicação a um estudo de caso ficcionalizado, para considerar como esse referencial poderia esclarecer as equipes de linha de frente sobre as dinâmicas da complexidade, o que poderia ajudar a apoiar a prática em tempo real e, retrospectivamente, nas revisões de caso e de sistema. Com isso, refletimos sobre os desafios de aplicar o pensamento complexo e sobre como mitigá-los.

Teoria da complexidade e prática do CPW

Para estabelecer uma base conceitual para a teoria da complexidade, fizemos uma busca bibliográfica pela biblioteca de nossa instituição, abrangendo todas as bases de dados pertinentes de ciências sociais e áreas afins, entre elas, por exemplo, Scopus, Social Science Citation Index, PsycINFO, CINAHL, Pubmed, ERIC, JSTOR e Google Scholar. Foram usados diversos termos de busca, por exemplo: complexity theory + child protection + application; complexity theory + social care + application. A busca resultou em 958 publicações no total. Foram excluídas as publicações que não discutiam uma base conceitual clara para a teoria da complexidade. Ao todo, foram examinados cinquenta e seis artigos de periódicos, treze livros ou capítulos de livros, dois conjuntos de trabalhos de congresso, quarenta e quatro estudos de caso na área da saúde e quatro estudos de caso em proteção à infância que utilizavam a teoria da complexidade. Nossa análise teve duas etapas principais. Primeiro, identificamos os conceitos-chave da teoria da complexidade tal como apareciam na literatura, entre eles auto-organização, adaptação, retroalimentação, interações não lineares, agência, paisagem adaptativa (fitness landscape), emergência, dependência da trajetória e bifurcação. Esses eram os conceitos que apareciam de forma consistente nas várias sínteses e definições da literatura. Na segunda etapa, identificamos os conceitos com maior utilidade e aplicabilidade potenciais para compreender a complexidade num contexto específico de CPW. Nosso ponto de partida para identificar esses conceitos foram artigos centrados especificamente no CPW (por exemplo, Stevens e Hassett, 2007; Hood, 2014; Kettle, 2017; Colvin e Miller, 2020). Mas também recorremos à nossa experiência conjunta em CPW, uma vinda da direção de um serviço, a outra da docência e da pesquisa. Essa parte da análise envolveu redigir e discutir cenários para testar o valor dos conceitos na compreensão da complexidade de um caso de proteção à infância. Aqui, em consonância com a intenção do artigo, um filtro essencial foi a facilidade de compreensão no nível da prática. Disso resultaram conceitos da teoria da complexidade que, a nosso ver, permitem caracterizar o desenrolar dinâmico de um caso de proteção à infância: auto-organização/emergência; dependência da trajetória e bifurcação (Stevens e Cox, 2008; Hood, 2018). Em seguida, desenvolvemos um referencial de avaliação da prática, discutido em detalhe mais adiante, na seção do estudo de caso.

Não existe uma teoria única da complexidade ou da ciência da complexidade, mas múltiplas conceituações que compartilham alguns conceitos e ferramentas. Pinheiro e Young (2017, p. 121) consideram que um sistema é “complexo” quando “não pode ser totalmente descrito por meio de seus componentes individuais, devido à natureza não linear das interações entre eles”. Nos sistemas complexos, os elementos são dinâmicos e coevolutivos, caracterizados pela auto-organização, pela emergência e pela adaptação (Mitleton-Kelly, 2003). Boulton et al. (2015, p. 29) descrevem a teoria da complexidade como a interconexão e a interação de atores, ação e ambiente que “fornecem o combustível para a inovação, a evolução e a aprendizagem”. As interações criam contingência e incerteza sobre o que será o futuro e geram mais do que a soma das partes, por meio da auto-organização e da evolução rumo à ordem (Anderson, 1999). As organizações voltadas para a complexidade cultivam a comunicação e a troca de informações entre agentes, o que gera novos comportamentos nos sistemas como um todo (Horvat e Filipovic, 2018). Morçöl (2012) considera que a teoria da complexidade descende da teoria dos sistemas e lhe acrescenta novos métodos de investigação dos sistemas. Rhodes et al. (2010) defendem uma análise sistêmica dos sistemas complexos como etapa prévia à análise de suas dinâmicas. Mitleton-Kelly (2003) vê a teoria da complexidade como um enriquecimento e um desdobramento da teoria dos sistemas, que articula características dinâmicas adicionais dos sistemas complexos e enfatiza sua inter-relação e interdependência.

Uma mensagem constante da literatura é a necessidade de mais estudos sobre a aplicação dos conceitos da teoria da complexidade, em particular no contexto dinâmico e em desdobramento dos sistemas e casos de proteção à infância, para perceber plenamente o valor da complexidade na tentativa de gerir o risco, a volatilidade e as relações nos sistemas CPW (Hood, 2014). Três conceitos dinâmicos surgiram da literatura como consistentemente pertinentes para o CPW: auto-organização/emergência, dependência da trajetória e bifurcação. Examinamos cada um deles a seguir.

Auto-organização/emergência

A auto-organização/emergência refere-se à situação em que a interação iterativa entre todos os agentes dos sistemas envolvidos faz surgir novas estruturas, comportamentos e/ou arranjos, ou ainda mais instabilidade. Refere-se à forma como os sistemas se mantêm coesos graças aos componentes e às relações que existem dentro deles, em vez de terem uma ordem imposta por alguma força externa (Cilliers, 2005). Os elementos-chave da auto-organização/emergência incluem o impulso espontâneo de criar ordem a partir da borda do caos, ou zona de adaptabilidade criativa (Kaufmann, 2017). A ênfase está na auto-organização de baixo para cima num todo complexo. A emergência é o processo que cria uma ordem nova, irreversível e imprevisível. As novas estruturas, ideias, relações, práticas e/ou formas organizacionais passam a fazer parte da história de indivíduos e instituições e, por sua vez, afetam a evolução dessas entidades. A adaptação é apontada como consequência da compulsão à auto-organização. A propensão de organizações e sistemas a se auto-organizar e a se adaptar é ampliada por fatores como variedade e reatividade. Glor (2007) enfatiza que, quanto maior a variedade de agentes, redes e ambientes externos nos sistemas, suas interações e sua disposição para aprender e agir com base em novas ideias, maior a propensão à adaptação. A reatividade é definida como sensibilidade e abertura à mudança e atinge seu ponto mais agudo nos pontos de bifurcação do sistema, detalhados mais adiante.

É importante compreender a auto-organização, a emergência e a adaptação num contexto de CPW, em que as abordagens “técnico-racionais”, baseadas no pressuposto da causalidade linear e do reducionismo e em procedimentos e diretrizes de prática detalhados, tendem a permear a prática. Mas, como afirma Hood (2018, p. 12), isso ignora que “múltiplos elementos interagem e se combinam para produzir eventos no sistema que não poderiam necessariamente ter sido previstos”. Sistemas e interações humanas complexos mudam e se adaptam de maneira imprevisível em resposta a processos e situações interacionais e transacionais (Stacey, 2004). Surgem padrões ou comportamentos diferentes, que atuam como atratores, rumo aos quais um sistema dinâmico tende a evoluir. Esses atratores podem afetar os resultados.

Não existem, nos sistemas CPW, avaliações de risco, estratégias ou previsões infalíveis. Proteger crianças exige compreender processos interacionais complexos dentro dos limites da instabilidade. A resposta clínica normativa ao risco consiste principalmente em avaliações qualitativas e em algumas avaliações quantitativas de risco destinadas a prever probabilidade e gravidade (Hood, 2014). Essas abordagens pressupõem uma via linear de redução da incerteza. Tornaram-se cada vez mais prescritivas à medida que a necessidade de prestação de contas foi enfatizada. Enquadram o risco como uma questão que pode ser identificada e gerida por meio de uma atividade técnica racional (Hood, 2014). A assistência social passa a ser “menos uma questão de ‘decisão certa’ e mais de uma decisão defensável” (Pollack, 2010, p. 12). Stevens e Hassett (2007) e Richardson (2014) defenderam que a avaliação de risco seja considerada pela lente da complexidade, com foco em processos e sistemas, e não em procedimentos e tarefas, exigindo atenção aos detalhes, identificação de fronteiras e de comportamentos e resultados interconectados e uma compreensão não linear das situações, para promover flexibilidade e verdadeira resolução de problemas. Para permitir a auto-organização e a emergência na busca de soluções, Beresford (1991), por exemplo, fala de um julgamento profissional aplicado a questões de risco complexas, que visa uma espécie de “certeza prática”, mas também deixa espaço para “escolha e ação” dentro dos limites da instabilidade. Taylor (2017) também enfatiza o papel do julgamento profissional para garantir decisões embasadas em evidências na prática do serviço social.

Dependência da trajetória

Garud et al. (2010) e Vergne e Durand (2010) definem a dependência da trajetória como a situação em que agentes ou atores ficam “aprisionados” (locked in), por mecanismos autorreforçadores, em trajetórias cuja evolução é determinada por contingências (eventos fortuitos). Uma das dimensões-chave da dependência da trajetória é que, “uma vez aprisionados, os atores não conseguem escapar, a menos que ocorram choques exógenos (externos)” (Oakden et al., 2021). A capacidade de fazer certas coisas e não outras depende da história dos sistemas, de seus pontos de partida e de seus circuitos de retroalimentação. Citando Sydow et al. (2009), Jorg et al. (2020) propõem que a dependência da trajetória tem três fases distintas. A fase I, a pré-formação, caracteriza-se por escolhas que põem em marcha processos autorreforçadores. Na fase II, a formação, a dinâmica desencadeada pela escolha inicial torna cada vez mais difícil reverter o curso de ação; por exemplo, o aumento de uma variável por retroalimentação positiva leva a um aumento ainda maior. Pierson (2000, p. 252) afirma que “a probabilidade de novos passos no mesmo caminho aumenta a cada avanço nesse caminho”. Surge uma solução organizacional dominante, uma “trajetória”, um “atrator”, o que torna mais vantajoso para outras pessoas adotar e seguir essa instituição. De fato, pode ficar difícil para os agentes se desprenderem da trajetória traçada à medida que as alternativas escasseiam. Na fase III, o aprisionamento (lock-in), o padrão dominante assume um caráter quase determinista e pode ficar inteiramente preso a uma trajetória. Na gestão de sistemas complexos, o foco da dependência da trajetória está em sua contribuição para a mudança, e não para a continuidade.

É importante compreender a dependência da trajetória no contexto dos sistemas CPW, pois as equipes de linha de frente e a gestão precisam ser capazes de reconhecer pontos de partida e escolhas históricas que podem estar afetando sua tomada de decisão nesses sistemas, e de refletir sobre eles. Os pontos de partida institucionais podem influenciar, negativa ou positivamente, as capacidades futuras de resposta das equipes e das instituições; por exemplo, a forma como as organizações alocam recursos e equilibram as necessidades de prevenção, intervenção precoce, proteção e intervenção judicial (McGregor e Devaney, 2020) pode influenciar os comportamentos de prática. Também no nível do caso, as equipes de linha de frente e a gestão precisam ter consciência da dependência da trajetória, para reconhecer as histórias de sistema e os circuitos de retroalimentação que influenciam sua tomada de decisão e seu apego a determinadas linhas de ação.

A dependência da trajetória pode levar ao aprisionamento em certas trajetórias ou atividades, o que pode gerar inércia, mas a agência humana, interna ou externa, ainda pode questionar e transformar as soluções organizacionais dominantes. Para manter e criar flexibilidade no sistema, Schoon (2013) defende que as equipes e a gestão adotem formas policêntricas de governança organizacional que promovam a diversidade institucional e a troca de ideias e conhecimentos, construam confiança e capital social por meio de interações repetidas, aprendam pela experimentação e aproveitem abordagens de prática em vários níveis.

Bifurcação

Dawkins e Barker (2020) definem a bifurcação como a situação em que um sistema que passa por turbulência ou instabilidade (a borda do caos) oscila entre dois ou mais pontos de equilíbrio. O comportamento do sistema se torna cada vez mais errático à medida que ele se afasta do equilíbrio, até atingir o limiar de estabilidade, marcado por um ponto de bifurcação. As bifurcações são marcadas por transições, grandes saltos ou mudanças, pontos de virada e mudanças em degraus, eventos de quebra de simetria, incrementalismo dinâmico (Rhodes et al., 2010). Uma das dimensões-chave da bifurcação é que os sistemas complexos se reorganizam para processar novas informações que lhes permitiriam sobreviver num ambiente de níveis crescentes de turbulência. Atratores (padrões ou comportamentos) surgem como fonte de ordem rumo à qual um sistema bifurcado evolui ao longo do tempo, como momentos de escolha na evolução de um caso ou de um sistema. Surge um novo equilíbrio quando o sistema se alinha com atratores e se auto-reorganiza. A ordem emerge em torno da nova estrutura.

Outra dimensão da auto-reorganização por bifurcação é que, como os sistemas pairam continuamente na borda do caos, mudanças e ações muito pequenas num sistema podem se reproduzir e ter impactos enormes, muito acima da norma esperada, sobre o sistema inteiro, de forma complexa. É o chamado “efeito borboleta”, pois aponta para uma situação em que “pequenas ações podem se multiplicar muitas vezes e criar grandes efeitos” (Overman, 1996, p. 81).

Compreender a bifurcação é importante para as equipes de linha de frente e a gestão, pois há muitas condições, nos casos e sistemas CPW, que as desafiam. Fatores como áreas de trabalho tecnicamente delicadas e/ou lacunas entre o desempenho dos serviços e as expectativas das partes interessadas podem desencadear instabilidade no caso ou no sistema. A quebra de simetria ocorre quando um modo de funcionamento anterior cede rápida e dramaticamente lugar a outro. Ela é marcada por descontinuidade e por mudanças no padrão, na estrutura ou no tom predominantes da atividade e do discurso. Os atratores também têm um papel no apoio à auto-organização e à estabilidade. Segundo Dawkins e Barker (2020), na descontinuidade que sinaliza a bifurcação, as equipes de linha de frente e a gestão precisam considerar várias opções para enfrentar a turbulência e as condições sensíveis, além de um exame minucioso da prática atual ou em seu lugar. Huneault e Otomo (2022) defendem, nesses momentos, um modelo de parceria que ajude os agentes envolvidos a serem adaptativos e resilientes, e não rígidos. O efeito das ações nesses momentos pode ser difícil de determinar, mas elas podem contribuir para o surgimento de atratores que mudam a resposta a uma questão. No entanto, se houver contrapressão suficiente de organizações e partes interessadas que apoiam a prática atual, as questões podem recuar para uma fonte de ordem anterior ou estagnar, por tempo indeterminado, num estado bifurcado de turbulência e instabilidade.

Aplicando a teoria da complexidade: um estudo de caso irlandês (ficcionalizado)

Para explorar como uma compreensão das dinâmicas da complexidade pode ajudar as equipes de linha de frente e a gestão a responder com eficácia a situações complexas de proteção à infância, criamos um estudo de caso ficcionalizado, baseado na análise temática documental de cinco revisões de caso publicadas no contexto irlandês [relatórios do National Review Panel da Tusla (2019-2020): Ava (2020); Declan (2020); Mary (2020); Simon (2019); e David (2019)]. Interrogamos o estudo de caso com base num conjunto de perguntas sobre dinâmicas complexas identificadas na literatura. Essas perguntas não estão incluídas neste artigo, mas uma cópia pode ser obtida mediante solicitação à equipe de pesquisa.

A metodologia do estudo de caso foi utilizada porque sua força “reside em sua capacidade de explorar processos sociais à medida que se desenrolam nas organizações” (Hartley, 1994, p. 212). Nossa abordagem geral da pesquisa com estudo de caso segue Ragin (2015, p. 187) e sua ênfase na escolha de um pequeno número de casos por sua relevância teórica ou empírica. Embora reconheçamos e registremos a subnotificação do enorme número de intervenções bem-sucedidas do serviço social em proteção à infância e seu valor para gerar aprendizados para a teoria e a prática, nosso foco está em casos de falha do sistema, o que também é uma estratégia comum na pesquisa com estudo de caso. Assim, os casos são frequentemente escolhidos por seu caráter extremo (por exemplo, por exemplificarem níveis altos de sucesso ou de fracasso) ou por seu caráter típico ou comum (Ragin, 2015, p. 187).

O uso de estudos de caso e vinhetas ficcionalizados é uma característica de muitas disciplinas [por exemplo, avaliação e planejamento de programas (Walker et al., 2008); parcerias entre universidades e empresas (Edmunds e Boettcher, 2021); geografia cultural (Rabbioso e Vanolo, 2017) e terapia sexual e de relacionamento (Riggs e Bartholomaeus, 2018)]. A escolha de criar um estudo de caso ficcionalizado foi motivada sobretudo por preocupações éticas. Em vez de usar um único caso real, já de domínio público e repleto de dados que serviriam ao propósito ilustrativo deste artigo, consideramos eticamente mais sólido criar um estudo de caso que reflita um amálgama das experiências reais de cinco casos. Nossa intenção no estudo de caso é captar a causalidade complexa que costuma caracterizar os casos de proteção à infância e sua gestão. Expomos o que aconteceu no estudo de caso e como a prática poderia ter mudado se as características dinâmicas da complexidade (auto-organização/emergência/adaptação, dependência da trajetória e bifurcação) tivessem sido aplicadas à gestão do caso nesse cenário.

O caso: Cata

Na Irlanda, o serviço de CPW é prestado pela Tusla, a Agência para a Criança e a Família (Child and Family Agency), que inclui serviços de enfrentamento da violência doméstica, sexual e de gênero e serviços de apoio escolar. A Tusla emprega profissionais de serviço social (Social Workers), de assistência social (Social Care Workers), de apoio às famílias (Family Support Workers) e de apoio escolar. O Health Service Executive (HSE) da Irlanda oferece separadamente um conjunto de serviços de atenção primária e terapêuticos para crianças e famílias, incluindo psicologia, psiquiatria infantil, fonoaudiologia e serviços hospitalares terciários. A Tusla e o HSE financiam uma série de organizações voluntárias, comunitárias e privadas que oferecem serviços de apoio à parentalidade, de apoio às famílias e de acolhimento. O caso de Cata descrito aqui se situa nesse contexto.

Estudo de caso de Cata

Cata (14 anos), filha única, morava com a mãe, Mary, que tinha problemas de abuso de substâncias e de saúde mental. Mary teve uma overdose e foi atendida pelo hospital e pelos serviços de saúde mental e de dependência química para adultos (HSE). Nesse momento, Cata foi encaminhada ao serviço social da Tusla, especializado em proteção à infância e em acolhimento. O pai, John, não fazia parte da vida de Cata. Na época, Cata tinha sido expulsa da escola, apresentava dificuldades de comportamento e aguardava uma avaliação dos serviços de saúde mental da criança e do adolescente (CAMHS) (HSE). O caso foi classificado como de “bem-estar” (welfare) pela equipe de serviço social responsável. Uma avaliação inicial foi recomendada pela pessoa responsável pelo acompanhamento, mas não foi concluída. O caso de Cata foi encerrado. O Tusla Education Support Service (TESS), que visa apoiar e monitorar a frequência escolar na Irlanda, interveio após um encaminhamento da escola de Cata e ofereceu aulas em casa. Não havia nenhum vínculo entre o serviço social e o TESS. Um ano depois, Mary morreu de overdose. A família encaminhou Cata novamente ao serviço social. Nessa fase, Cata tinha problemas de abuso de substâncias e de comportamento. Como Cata frequentava um serviço Youthreach (serviço de apoio a jovens na Irlanda) e seu caso teria sido colocado numa longa lista de espera, a equipe de serviço social envolvida decidiu encerrar o caso, já que Cata já recebia apoio. O serviço social não teve contato com Cata nem com o Youthreach ou com os serviços de apoio à família. O serviço Youthreach havia manifestado preocupação com sua capacidade de atender às necessidades de Cata. Cata vivia ora com uma tia, ora com colegas. Um serviço de apoio à família deveria ser implantado. Cata morreu em consequência de uma agressão três semanas após a morte da mãe.

Análise do caso de Cata

A equipe de pesquisa vai concentrar a análise do estudo de caso ficcionalizado na lente da complexidade, para explorar como as dinâmicas de auto-organização/emergência/adaptação, dependência da trajetória e bifurcação afetaram, e poderiam ter afetado, a prática nesse caso. Também vamos examinar o que torna difícil para as equipes de linha de frente criar as condições para uma atenção às características dinâmicas da complexidade e pô-la em prática, e o que poderia ajudar a apoiar a prática.

Auto-organização/emergência/adaptação no caso de Cata

A característica dinâmica de auto-organização/emergência/adaptação ocorre em consequência dos padrões de engajamento entre os agentes-chave de um sistema. É evidente que as interações nesse caso foram marcadas pela linearidade, pois se observou falta de troca de informações e de interconexão entre a criança e a família e os agentes-chave do sistema, em resposta aos dois encaminhamentos ao serviço social. A equipe de serviço social não contatou a criança nem a mãe ou o pai em resposta a nenhum dos encaminhamentos. A decisão de não realizar as avaliações iniciais fez com que as pessoas-chave, internas e externas, não se reunissem para discutir as necessidades de Cata de forma integral. Isso resultou numa falta de diversidade cognitiva, de variedade e de reatividade mobilizadas para lidar com a complexidade crescente das necessidades de Cata em momentos críticos. Hood (2014) discute uma abordagem, adotada pelas equipes, que vê necessidades complexas como passíveis de resposta por categorias distintas de oferta de serviços. Nesse contexto, o trabalho integrado consiste principalmente em agentes que coordenam respostas individuais de serviço. Foi o que aconteceu no caso de Cata, mas aqui teria sido mais valioso cultivar uma narrativa comum entre organismos e entre setores, para estimular a aprendizagem, a experimentação distribuída, a auto-organização e a adaptação em resposta às necessidades integrais de Cata. A falta de interconexão e de processos interacionais fez com que os serviços não trabalhassem em colaboração para apoiar Cata e sua mãe.

Uma resposta mais integrada, transacional e não linear teria envolvido o uso de processos de trabalho mais explícitos, por exemplo a avaliação inicial e abordagens de rede, para ampliar a troca de informações e conhecimentos e estimular uma prática mais colaborativa (Storch, 2002). A teoria da complexidade proporia que padrões interacionais dinâmicos, uma atenção à construção de sentido e um diálogo construtivo, interno e externo, contribuiriam para a geração de ideias e para a auto-organização, permitindo que novas soluções emergissem. Se as equipes envolvidas no caso de Cata tivessem adotado desde o início uma abordagem mais dinâmica para compreender e promover a interconexão dos agentes e a troca de informações, reunindo todos os serviços envolvidos com Cata e sua família, isso poderia ter alterado seus padrões de organização interna e colaborativa e sua adaptação diante desse caso complexo. Uma ênfase na prática participativa entre equipes, crianças e famílias teria ampliado as interações e a troca de informações nos momentos decisivos de mudança na vida de Cata.

Mas por que foi difícil, nesse caso, pôr em prática um pensamento não linear interna e externamente, e como isso poderia ser mitigado? Para entender, é importante examinar como as organizações de assistência social interagem e criam, transferem e sintetizam conhecimento internamente e entre si. Os principais organismos envolvidos nesse caso foram a Tusla, Agência para a Criança e a Família, o HSE, organizações voluntárias ou comunitárias, como o Youthreach, e apoios educacionais. Podemos supor que esse caso talvez tenha trazido ao Departamento de Serviço Social o desafio de gerir a complexidade adicional decorrente do fato de parte da oferta de serviços se originar e ser prestada fora do ambiente da Tusla. Também havia uma evidente falta de conexão entre os serviços internos, cujo padrão era responder isoladamente às necessidades de Cata. Um passo prático para ajudar a examinar onde estava a complexidade poderia ter sido o serviço social mapear a rede dos agentes pertinentes, internos e externos, e de Cata e sua família, destacando suas interconexões e suas diferenças (Hood, 2018) e os pontos em que os serviços precisavam ampliar suas interações, sua auto-organização e sua adaptabilidade (Colvin e Miller, 2020). A teoria bioecológica de Bronfenbrenner e Morris (2006), que enfatiza contextos, relações, características pessoais e processos proximais, é pertinente aqui, assim como, potencialmente, o mapeamento da complexidade vertical, horizontal, geográfica e ambiental (Anderson, 1999). Os sistemas operacionais da assistência social precisam ter uma gama suficiente de respostas integradas para lidar com a complexidade (Hood, 2018). Precisam ser capazes de adaptar criativamente estruturas, rotinas e processos internos e de se concentrar em estabelecer alianças ou parcerias para aumentar sua capacidade de resposta (Schneider et al., 2017). Processos de trabalho padronizados na assistência social e redes formais e informais podem atuar como mecanismos estabilizadores do fluxo e da troca de informações, interna e externamente. A falta de interações nesse caso prejudicou a definição de quem tinha melhores condições de cuidar dessa menina. Uma orientação mais colaborativa teria permitido explorar coletivamente os limites da instabilidade, o espaço das possibilidades ou a zona de adaptabilidade criativa, o que poderia ter levado a melhores resultados.

Dependência da trajetória no caso de Cata

No caso de Cata, o ponto de partida ou a trajetória seguida, com o primeiro encaminhamento ao serviço social da Tusla, consistiu, na análise retrospectiva, em classificar o caso como de “bem-estar”. As decisões que se seguiram (não realizar as avaliações iniciais) foram apontadas como possivelmente ligadas a recursos, mas podem ter resultado de respostas históricas próprias da região e de um aprisionamento na forma de gerir os casos classificados como de “bem-estar”, isto é, nas decisões sobre o limiar de intervenção. Apesar de indícios de escalada da complexidade entre o primeiro e o segundo encaminhamento, a resposta da região foi igualmente fraca nos dois. A equipe de serviço social da Tusla seguiu a mesma trajetória nos dois encaminhamentos. Não entrevistou a criança nem realizou uma avaliação inicial, que teria sido a prática de trabalho padronizada exigida. Essa falta de prática centrada na criança afetou negativamente o trabalho integrado, a troca de informações e a construção coletiva de sentido nesse caso.

No mínimo, se a equipe de serviço social da Tusla tivesse seguido a trajetória de seus processos de trabalho padronizados, por exemplo concluindo a avaliação inicial, isso poderia ter funcionado como um mecanismo estabilizador e como um atrator capaz de reunir os agentes para colaborar diante da complexidade do caso. É possível que a resposta histórica dos serviços sociais aos casos de “bem-estar” estivesse aprisionando as equipes numa reatividade linear e limitando sua atenção a um exame aberto dos riscos, perigos e possíveis desfechos de vida para Cata. Se a equipe de serviço social tivesse questionado, nos momentos dos encaminhamentos iniciais, o que orientava as decisões-chave, pela lente da complexidade que é a dependência da trajetória, por exemplo examinando a história do caso e do sistema, os pontos de partida, os pontos de reforço e de questionamento, isso poderia ter permitido que novas trajetórias e reflexões colaborativas emergissem.

É importante considerar o que torna difícil pôr em prática uma abordagem de dependência da trajetória na gestão de casos e sistemas, e o que poderia apoiar a prática. Uma dificuldade central dessa abordagem é identificar as condições históricas e iniciais e os eventos contingentes (ou fortuitos) que influenciam a trajetória seguida, os mecanismos que diminuem a atratividade relativa das alternativas e os choques exógenos que potencialmente libertam o sistema de sua história (Vergne e Durand, 2010). Por exemplo, talvez os recursos limitados no caso de Cata tenham bastado para impedir que outras trajetórias fossem seguidas. Talvez a complexidade, já assinalada, da resposta a esse caso no ambiente externo tenha desorientado a complexidade da resposta interna do organismo. Os agentes envolvidos precisam ter capacidade, apoio e disposição para se engajar proativamente em discussões e debates sobre sua história e sobre como ela pode estar afetando seu estado presente e seu desempenho futuro. Mobilizar uma agência ativa, entre setores, na construção da trajetória é fundamental, sem deixar de trabalhar com as contingências próprias dos casos e sistemas complexos.

Essa análise destaca a necessidade de as equipes de linha de frente enquadrarem sua prática numa consciência profunda dos fatores dinâmicos que podem estar contribuindo para sua tomada de decisão e para seu aprisionamento em certas trajetórias ou formas de trabalhar e responder. Como enfatiza Richardson (2014), é importante mapear, nos casos complexos, as variáveis importantes, os dados históricos, as dinâmicas previstas e as dinâmicas desejadas. Uma compreensão da dependência da trajetória e de como ela pode influenciar a ação poderia ter estimulado uma atenção mais profunda à prática reflexiva e à supervisão, como forma de questionar a inércia e favorecer a abertura na gestão de casos e sistemas complexos (Ruch, 2007).

Bifurcação no caso de Cata

No caso de Cata, houve pontos de virada ou de bifurcação importantes que foram perdidos, como o reconhecimento do impacto dos problemas de saúde da mãe e da morte da mãe sobre o bem-estar de Cata. Condorelli (2016) aponta a importância de conhecer e reconhecer os pontos críticos em que um caso entra numa situação caótica, para compreender o que acontece na descontinuidade. Havia no caso de Cata a sensação de que o serviço social não identificava os gatilhos nem as consequências dos pontos de virada alcançados, e não reagia de outra forma ou com mais flexibilidade aos momentos decisivos de mudança e transição na família. Cata parecia pairar num espaço ambíguo entre os serviços. Tanto a tentativa de suicídio da mãe de Cata quanto sua morte, um ano depois, foram situações de alto risco, capazes de desestabilizar o equilíbrio na vida de qualquer criança. Hood (2014) discute a dicotomia entre a volatilidade, associada ao alto risco, e a deriva. No caso ficcionalizado de Cata, as equipes persistiram em responder ao desequilíbrio com respostas de serviço individualizadas e desconectadas. Se a equipe de serviço social tivesse visto a situação de Cata pela lente da complexidade, com um quadro de referência voltado para a compreensão da incerteza, da turbulência, do desequilíbrio e do efeito da retroalimentação, positiva e negativa, sobre a vida de uma criança, isso poderia ter estimulado mais criatividade e uma gestão de risco mais focada na resposta a Cata (Hood, 2014).

Precisamos considerar o que torna difícil pôr em prática uma atenção à bifurcação e o que poderia apoiar a prática. Laming (2003, parág. 17.106) observou, no relatório sobre Victoria Climbié, que “os casos de proteção à infância nem sempre chegam rotulados como tais”. As organizações de proteção à infância podem depender excessivamente de limiares (com alguma orientação clínica) para identificar níveis de risco em situações de crianças e famílias, sobretudo nos casos de “bem-estar”. Essa abordagem foi criticada (Klein, 2008, 2011) por desviar a atenção do papel dos processos de pensamento profissional na tomada de decisões sobre negligência ou bem-estar. Há complexidade, para as equipes, em fazer julgamentos sobre pontos de virada no trabalho de proteção à infância. Kettle (2017) constatou que as equipes raramente se preocupam com a resposta a incidentes preocupantes isolados, percebidos como circunscritos e, por isso, relativamente fáceis de compreender, que foi como o caso de Cata foi tratado. É quando há um acúmulo crescente de preocupações que os julgamentos e a tomada de decisão se tornam mais complexos. As dificuldades de reconhecer um ponto de virada no trabalho de proteção à infância decorrem da complexidade envolvida quando as preocupações começam a se acumular. Pontos de virada identificados externamente e comunicados ao serviço social também podem chegar carregados de uma ansiedade que o serviço passa a carregar, o que também pode afetar a tomada de decisão.

Entre o que poderia apoiar a prática está evitar a síndrome do “começar do zero” a cada novo encaminhamento e garantir, ao contrário, que a complexidade de um caso seja analisada em sua temporalidade e cronologia, com apoio da supervisão e da prática reflexiva (Kettle, 2017). Isso envolveria aumentar o nível de exame e a busca de evidências, e/ou tentar envolver outros serviços, ou ainda recorrer a instâncias formais de decisão, por exemplo as conferências de caso em proteção à infância, para ajudar a reunir as informações e as pessoas que atuam junto à família nos momentos decisivos de mudança e transição. O desafio de trabalhar com o desequilíbrio exige atenção aos dados históricos e preditivos. Implica manter a firmeza, em circunstâncias voláteis, para construir respostas racionais e adequadas a situações complexas na vida de crianças e famílias. Dawkins e Barker (2020) descrevem a importância de construir padrões, explorar ou antever a evolução das questões e concentrar-se na construção de sentido. Na gestão de casos complexos de proteção à infância, há um equilíbrio a encontrar entre a busca de evidências decisivas e a ação em resposta aos pontos de bifurcação-chave (Skotte, 2018).

Limitações metodológicas

Uma limitação metodológica deste artigo é que a análise apresentada se baseia num estudo de caso ficcionalizado. Um próximo passo, para pôr à prova de fato esse referencial de avaliação da prática baseado na teoria da complexidade, seria estudá-lo em contextos reais, por exemplo por meio de uma pesquisa-ação (Seymour e Davies, 2002). Só então seria possível determinar de fato sua aplicabilidade, sua operacionalidade e sua utilidade diante da complexidade inerente ao trabalho de proteção à infância.

Conclusão

Este artigo busca examinar por que e como adotar uma lente da complexidade e aplicar conceitos da complexidade ao trabalho de proteção à infância, tanto retrospectivamente quanto na prática. Adotar uma lente da complexidade no trabalho de proteção à infância, com estes três conceitos de auto-organização/emergência/adaptação, dependência da trajetória e bifurcação, pode ajudar as equipes de linha de frente e a gestão a adotar uma abordagem sociotécnica integral da prática de proteção à infância (Munro, 2010). Essa abordagem apoia as equipes, mobilizando sua expertise humana, na interpretação e na análise crítica de informações qualitativas, em vez de depender apenas de processos de trabalho padronizados e de limiares. Permite responder e agir com flexibilidade e capacidade de adaptação diante de situações voláteis, consequências inesperadas e estados de “crise” que muitas vezes acompanham os riscos para as crianças. As equipes de CPW enfrentam o desafio de gerir a volatilidade e a imprevisibilidade. A dicotomia desse trabalho está entre a necessidade de estabelecer estabilidade e a de estabelecer controle. Uma gestão do risco pela lente da complexidade pode ajudar as equipes a trabalhar plenamente a complexidade do risco na situação e a dar clareza a responsabilidades dispersas, o que pode ajudar a aliviar a pressão sobre o pessoal.

Os desafios para as equipes, ao adotar um foco na complexidade na prática, são maiores em sistemas operacionais lineares, burocráticos e avessos ao risco, mais preocupados com metas, padrões, especificações e com a rotinização dos papéis. Isso contrasta com abordagens mais voltadas a situar o trabalho de proteção à infância num quadro ecológico interpretativo mais amplo, com ênfase nas relações internas e externas e no apoio às famílias. Mesmo que adotar uma lente da complexidade no trabalho de CPW possa ser desafiador, é possível, com a lente proposta neste artigo, que as equipes de linha de frente e a gestão considerem de forma mais aberta o risco, a volatilidade e as relações no trabalho de proteção à infância, na prática e nas revisões de caso. Jansen (2018) enfatiza a importância de as equipes e a gestão estarem dispostas a trabalhar com o imprevisível. Uma compreensão da teoria da complexidade não eliminará a incerteza nem a sensação de não saber, mas ter consciência da complexidade e de como pensá-la pode tornar as situações menos esmagadoras.

No nível do caso, um foco na complexidade permite às equipes de linha de frente refletir, em primeiro lugar, sobre o sistema de que fazem parte e identificar as pessoas, as equipes e as redes-chave com que precisam interagir, e de que forma. Um foco na complexidade apoia uma prática integrada de apoio protetivo e de proteção apoiadora, inserida num quadro bioecológico, com ênfase no trabalho em rede formal e informal entre os micro e mesossistemas e os exo e macrossistemas (McGregor e Devaney, 2020). No nível do sistema, um foco na complexidade reforça a importância de abordagens interacionais, transacionais e colaborativas do trabalho de CPW. A teoria da complexidade permite às organizações dar forte ênfase ao trabalho em rede, possibilitando uma tomada de decisão distribuída e a criação de condições para que a organização se adapte de forma rápida e eficaz às pressões internas e externas, o que favorece a mudança e a inovação (Weberg, 2012; Klijn, 2008).

Complexe Systémique: a reter

Este texto fala à clínica sistêmica porque traz para a proteção à infância noções familiares aos terapeutas: circuitos de retroalimentação, atratores, pontos de virada, efeito borboleta. O caso ficcionalizado de Cata mostra um sistema que “responde” sem nunca se reunir: dois encaminhamentos classificados como de “bem-estar”, nenhuma avaliação inicial, serviços que agem cada um por si e uma adolescente que paira entre eles até a tragédia. A dependência da trajetória ilumina algo frequente na supervisão: uma primeira categorização que congela o que vem depois, e o reflexo de “começar do zero” a cada novo encaminhamento. Na prática, o artigo convida a mapear a rede de serviços e de pessoas em torno da criança, a reler a história do caso em vez do incidente isolado e a tratar as crises familiares como bifurcações que pedem uma resposta coletiva. Limites: um caso construído a partir de cinco revisões publicadas, um referencial ainda não testado em campo e um vocabulário da complexidade às vezes usado de forma metafórica. Para ler junto com o artigo sobre o pensamento complexo e com o artigo sobre os conflitos parentais de alta intensidade como problemas perversos.

Notas do original

Agradecimentos. A equipe de pesquisa agradece a seus colegas da Universidade de Galway, Caroline McGregor e Carmel Devaney, que gentilmente revisaram versões preliminares deste artigo.

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Tradução não oficial em português de A teoria da complexidade na proteção à infância: uma ferramenta de análise retrospectiva e/ou uma ferramenta de apoio à decisão no trabalho de proteção e bem-estar da criança, de Aisling Gillen e John Canavan, The British Journal of Social Work, vol. 54, no 1 (2024), doi: 10.1093/bjsw/bcad180, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (agradecimentos reunidos nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Complexity Theory and Child Protection and Welfare: A Tool of Hindsight and/or a Tool to Assist Improved Decision Making in Child Protection and Welfare Work”, publicado em The British Journal of Social Work (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Gillen, A., et Canavan, J. (2024). A teoria da complexidade na proteção à infância: uma ferramenta de análise retrospectiva e/ou uma ferramenta de apoio à decisão no trabalho de proteção e bem-estar da criança (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-teoria-da-complexidade-na-protecao-a-infancia-uma-ferramenta-de-analise-retrospectiva (Obra original publicada em 2023 em The British Journal of Social Work, 54(1), 59-76 (2024); republicada em 2024 por The British Journal of Social Work, https://academic.oup.com/bjsw/article/54/1/59/7236820)

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