Child Care in Practice · Proteção à infância
No norte do País de Gales, pais e mães que passaram pela proteção à infância acompanham, como voluntários, outras famílias atendidas pelos serviços. Shane Powell e colegas entrevistaram famílias, mentores e equipes: com uma mentora ao lado, as famílias se sentem mais escutadas nas reuniões, mais informadas sobre seus direitos, menos sozinhas. Restam questões de limites, formação e financiamento.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Avaliando o programa POPS (People Offering Parents Support): um estudo qualitativo da defesa dos pais por pares nos serviços galeses de proteção à infância, de Shane Powell, Emilia Preter, Samantha Fitz-Symonds, Clive Diaz e Vicky Hansly, publicado na Child Care in Practice (Taylor & Francis) (2026), doi: 10.1080/13575279.2026.2648980, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Ela sabe como eu me sinto porque ela sabe como ela se sentiu.
Uma pessoa responsável acompanhada pelo POPS, citada por Shane Powell et al.
Resumo
Este estudo qualitativo avalia o programa People Offering Parents Support (POPS), uma iniciativa de defesa dos pais por pares nos serviços de proteção à infância do País de Gales. Com o objetivo de fortalecer pais e mães que enfrentam sistemas complexos de proteção à infância, o POPS recruta mentores com experiência vivida de dificuldades semelhantes para oferecer orientação e defesa de direitos. Por meio de entrevistas semiestruturadas com pais e mães, mentores pares e profissionais, o estudo examina o impacto do programa no engajamento parental, na capacidade de se orientar no sistema e no apoio emocional. Os resultados revelam que a mentoria por pares fortalece a confiança, o conhecimento e a resiliência emocional dos pais, permitindo uma participação mais efetiva nos processos de proteção à infância. No entanto, foram identificados desafios relacionados aos limites dos papéis, à integração profissional e à sustentabilidade. Este estudo contribui para o crescente conjunto de pesquisas sobre a defesa dos pais por pares e traz contribuições sobre o potencial desses modelos para transformar os serviços de proteção à infância, promovendo ambientes mais inclusivos, acolhedores e emancipadores para as famílias.
Palavras-chave: defesa dos pais por pares; proteção à infância; engajamento parental; País de Gales; avaliação qualitativa
Os sistemas de proteção à infância do Reino Unido têm reconhecido cada vez mais a importância do engajamento dos pais, mas as pesquisas indicam de forma consistente que muitos pais e mães vivem as interações com esses sistemas como desempoderadoras, marginalizadoras e opressivas (Bekaert et al., 2021; Diaz, 2020). O contexto dos procedimentos legais de proteção à infância impõe desafios consideráveis às famílias, muitas vezes gerando estresse significativo e limitando a participação real nos processos de decisão (Appleton, 2016; Cossar et al., 2011; Corby et al., 1996). Essas experiências frequentemente criam barreiras a um engajamento efetivo e podem minar as relações de colaboração essenciais para bons resultados. Em resposta a esses desafios, a defesa dos pais por pares (peer parental advocacy, PPA) surgiu como uma abordagem promissora para enfrentar problemas antigos de engajamento parental nos sistemas de proteção à infância. A PPA envolve pais e mães com experiência vivida nesses sistemas que oferecem apoio e defesa de direitos para fortalecer outras famílias que enfrentam atualmente circunstâncias semelhantes (Tobis et al., 2020). Apesar do crescente interesse internacional, as evidências empíricas sobre a implementação e o impacto dos modelos de PPA no contexto do Reino Unido continuam limitadas.
Revisões recentes começaram a mapear o panorama internacional dos modelos de apoio parental por pares. Em uma revisão de escopo abrangente, cobrindo 25 anos de literatura empírica, Saar-Heiman et al. (2024) identificaram 24 programas de defesa e apoio parental por pares ligados à proteção à infância, revelando grande variação de contextos, populações-alvo, objetivos, papéis dos pares e referenciais teóricos subjacentes. Da mesma forma, Acri et al. (2023) realizaram uma revisão sistemática de modelos de pares para famílias acompanhadas pelo sistema de proteção à infância e constataram que a maioria das intervenções se dirigia aos pais de origem, para facilitar a reunificação e apoiar a família, com resultados majoritariamente favoráveis, sobretudo quanto ao engajamento no tratamento e à reunificação. Saeteurn et al. (2022) mostraram ainda que os pais que participaram de programas de mentoria por pares tinham mais probabilidade de se reunir com os filhos do que os que não participaram. Em conjunto, essas revisões ressaltam que, embora os programas de pares para pais sejam uma intervenção promissora na proteção à infância, a base de evidências ainda é incipiente e poucos estudos usaram delineamentos de pesquisa rigorosos.
É importante esclarecer a terminologia usada nesse campo, pois os termos “defesa por pares” (peer advocacy), “mentoria por pares” (peer mentoring) e “apoio por pares” (peer support) costumam ser usados de forma intercambiável, na prática e na literatura, embora reflitam papéis e funções distintos, ainda que sobrepostos (Saar-Heiman et al., 2024). Em uma revisão de escopo dos programas de defesa parental que apoiam a participação nas decisões de proteção à infância, Powell et al. (2024) identificaram quatro grandes modelos: a defesa por pares, feita por pais e mães com experiência vivida; a defesa profissional, feita pelo serviço social ou por serviços de defesa independentes; a defesa jurídica, feita por profissionais do direito; e modelos híbridos que combinam elementos das categorias anteriores. Nessa tipologia, a mentoria por pares, tal como praticada em programas como o POPS, é mais bem compreendida como uma forma de defesa por pares, em que a experiência vivida do sistema de proteção à infância constitui a principal qualificação de quem atua como mentor e a base relacional do seu apoio. Essa distinção é importante porque situa a mentoria no panorama mais amplo da defesa de direitos, reconhecendo ao mesmo tempo que ela se apoia especificamente no saber experiencial, e não em credenciais profissionais.
Outra consideração importante diz respeito à posição estrutural dos serviços de defesa em relação aos sistemas legais de proteção à infância. A defesa dos pais na proteção à infância pode ser organizada de várias formas: de modo independente, por serviços estruturalmente separados dos órgãos públicos que tomam decisões sobre as famílias; ou em formas integradas, em que as pessoas encarregadas da defesa atuam dentro dos sistemas públicos ou ao lado deles (Saar-Heiman et al., 2024). Em sua revisão descritiva da defesa independente não jurídica na proteção à infância, Fitt et al. (2023) encontraram evidências crescentes de que essa oferta traz benefícios significativos para as famílias, os sistemas de serviços e os governos, embora continue sendo uma área pouco pesquisada. A independência da oferta de defesa importa, porque pessoas que não são empregadas pelos serviços de proteção à infância nem respondem a eles podem estar em melhor posição para representar os interesses dos pais sem conflitos de obrigação. Os modelos integrados, porém, podem oferecer vantagens em termos de articulação com os fluxos de serviço existentes e com as relações profissionais. O programa POPS ocupa uma posição intermediária nesse aspecto: embora funcione em conjunto com as Integrated Family Support Teams (equipes integradas de apoio à família) e seja financiado com recursos públicos, seus mentores pares são voluntários da comunidade cuja lealdade se volta primeiro às famílias acompanhadas, e não ao sistema público. Essa independência percebida foi apontada pelas pessoas participantes como uma característica particularmente valorizada do programa, como se verá nos resultados abaixo.
O programa People Offering Parents Support (POPS) representa a primeira integração formal da mentoria por pares nos serviços públicos de atenção à criança no País de Gales. Criado em 2015, o POPS recruta mentores voluntários com experiência vivida pertinente em sistemas de proteção à juventude, uso de substâncias e justiça, que oferecem defesa a pais e mães encaminhados pelas Integrated Family Support Teams (IFST).
Berrick et al. (2011) propõem uma distinção conceitual útil entre objetivos proximais e distais nos programas de defesa por pares, que ajuda a enquadrar os resultados pretendidos pelo POPS. Quanto aos objetivos proximais, o programa busca atenuar o isolamento, defendendo e cultivando a motivação e a capacidade das pessoas de se engajar positivamente com os serviços de apoio disponíveis. Os objetivos distais incluem a reunificação familiar e a redução, ao longo do tempo, das taxas de retirada de crianças, enfrentando o estigma generalizado que cerca o contato com a proteção à infância.
O momento deste estudo é particularmente significativo, pois coincide com mudanças recentes nas políticas após a Independent Review of Children’s Social Care na Inglaterra (MacAlister, 2022), que recomendou expressamente a ampliação dos serviços de defesa parental. A revisão constatou que a defesa independente frequentemente oferece uma “ajuda transformadora”, que permite às famílias enfrentar suas dificuldades sem se separar. Embora centradas na Inglaterra, essas constatações são relevantes para todo o Reino Unido, inclusive o País de Gales, onde o POPS atua. Esse contexto de políticas cria uma oportunidade crucial de construir uma base de evidências sobre as iniciativas de defesa dos pais por pares que possa orientar o desenvolvimento futuro dos serviços.
Ao reunir percepções sobre as influências percebidas na tomada de decisão, nas relações e no engajamento parental, este estudo traz evidências empíricas oportunas para um campo em crescimento. Os resultados permitem compreender a experiência das pessoas participantes e os fatores de implementação, para orientar o desenvolvimento contínuo do POPS e de iniciativas emergentes semelhantes. De modo mais amplo, esta pesquisa é uma oportunidade de construir no Reino Unido uma primeira base de evidências sobre as iniciativas de defesa dos pais por pares e de amplificar a voz dos pais nos serviços de proteção à infância, contribuindo, em última instância, para formas mais responsivas e emancipadoras de apoiar famílias vulneráveis.
O estudo foi realizado no norte do País de Gales, onde o POPS funciona em conjunto com as Integrated Family Support Teams (IFST) dos conselhos de condado de Gwynedd e Ynys Môn (Anglesey). A região enfrenta desafios significativos ligados ao uso de substâncias e à saúde mental, agravados por ciclos geracionais de trauma e por uma infraestrutura de serviços limitada (Gwynedd Council, 2018). A língua galesa e a identidade cultural próprias da região também moldam as necessidades da população e seus padrões de engajamento com os serviços. Nesse contexto, o POPS recruta mentores voluntários com experiência vivida que inclui acompanhamento pelos serviços de atenção à criança, transtornos por uso de substâncias e marginalização. Esses mentores são pareados com pais e mães encaminhados pelas IFST por preocupações de proteção à infância como violência doméstica, dependência química e negligência ligada à pobreza.
O estudo adotou uma metodologia qualitativa transversal para explorar a experiência das pessoas participantes no programa POPS. Como descrito acima, o POPS oferece defesa dos pais por pares por meio de um modelo de mentoria em que mentores voluntários com experiência vivida oferecem orientação, apoio emocional e representação a famílias acompanhadas pelos serviços públicos de proteção à infância. Embora o programa seja descrito operacionalmente como “mentoria por pares”, o apoio oferecido abrange funções de defesa (acompanhar os pais a reuniões, ajudá-los a compreender seus direitos e representar seus interesses junto aos profissionais), em consonância com a tipologia mais ampla da defesa por pares identificada na literatura (Powell et al., 2024; Saar-Heiman et al., 2024). Uma abordagem qualitativa foi escolhida como a mais adequada para captar percepções matizadas e contextualizadas sobre como a mentoria e a defesa por pares influenciam famílias que atravessam sistemas complexos de proteção à infância (Patton, 1990), permitindo reunir dados ricos e experienciais que refletem múltiplas perspectivas sobre a implementação e os impactos percebidos do programa.
A pesquisa foi guiada por uma pergunta avaliativa geral: “Relações saudáveis conduzidas pela comunidade podem favorecer experiências positivas para famílias vulneráveis?” Embora deliberadamente ampla, para refletir a natureza exploratória da avaliação encomendada da qual este artigo se origina, a análise aqui apresentada se concentra especificamente em como a defesa dos pais por pares no programa POPS apoiou o engajamento e a participação dos pais nos processos legais de proteção à infância. Subperguntas adicionais exploraram:
Tabela
Essa abordagem exploratória permitiu o surgimento de temas inesperados, sem perder o foco nas principais áreas de interesse quanto à implementação e ao impacto.
A aprovação ética foi obtida por meio dos procedimentos de ética em pesquisa da School of Social Sciences da Universidade de Cardiff antes do início da coleta de dados (aprovação n.º 4058). Atenção especial foi dada às possíveis dinâmicas de poder, sobretudo nas entrevistas com pais e mães acompanhados pelos serviços públicos, e à proteção das pessoas participantes vulneráveis, garantindo que a participação na pesquisa não agravasse o estresse já vivido pelas famílias em processos de proteção à infância. O caráter voluntário da participação foi enfatizado ao longo do recrutamento e da coleta de dados, com a explicação clara de que as decisões sobre participar não afetariam os serviços recebidos. A confidencialidade foi mantida por meio de cuidadosa anonimização dos dados e de armazenamento seguro dos materiais de pesquisa, em conformidade com a legislação de proteção de dados.
As pessoas participantes foram selecionadas por meio de estratégias de amostragem intencional adequadas a uma investigação qualitativa aprofundada (Patton, 1990). Essa abordagem envolve um recrutamento estratégico baseado na avaliação subjetiva da relevância experiencial, privilegiando casos ricos em informação em vez da representatividade estatística. Os conselhos de condado e as IFST ajudaram no recrutamento como intermediários iniciais junto às famílias e aos mentores engajados no POPS, sem crises em andamento nem preocupações agudas de segurança. Para situar a base amostral, o POPS atuava em duas áreas de autoridade local, Gwynedd e Ynys Môn, com um pequeno grupo de mentores voluntários em atividade. No momento da coleta de dados, o programa contava com cerca de cinco mentores pares formados, dos quais três participaram deste estudo. Dada a pequena escala do programa, baseado em voluntariado e situado num contexto rural, o número de famílias encaminhadas e ativamente engajadas a cada momento era modesto, em geral com um número limitado de duplas responsável-mentor simultâneas. As duas pessoas responsáveis (pai ou mãe) do estudo foram escolhidas entre as famílias que tinham recebido ou estavam recebendo mentoria por pares durante o período de coleta. Embora o número exato de encaminhamentos em todo o período de coleta não seja informado, a pequena escala do programa é um fator de contexto importante. Ela reflete tanto o caráter rural da região quanto os desafios de recursos discutidos nos resultados.
Os mentores pares foram recrutados na comunidade por meio da estrutura de voluntariado já existente no programa. Cada mentor tinha experiência pessoal com o sistema de proteção à infância ou sistemas relacionados, incluindo serviços de atenção à criança, uso de substâncias e justiça criminal. Os mentores recebiam uma formação inicial ao entrar no programa, mas, como mostram os resultados abaixo, os três mentores do estudo manifestaram o desejo de uma formação adicional e mais especializada, sobretudo em proteção (safeguarding) e no manejo de situações complexas. A natureza e o alcance da formação inicial são discutidos como um resultado-chave desta avaliação.
No total, 11 pessoas foram entrevistadas:
Tabela
Esse tamanho de amostra, embora não tivesse por objetivo atingir a saturação temática, ofereceu múltiplas perspectivas abrangendo as principais partes interessadas do programa, ilustrando um leque de experiências para esta primeira avaliação exploratória. O número de pessoas participantes permitiu uma análise significativa e, ao mesmo tempo, evitou a identificação por dedução, preservando o anonimato.
As entrevistas individuais foram realizadas entre janeiro de 2023 e janeiro de 2024. Todas as pessoas participantes receberam fichas informativas detalhadas que explicavam o objetivo da pesquisa, o caráter voluntário da participação, os benefícios e riscos e as salvaguardas éticas quanto à confidencialidade. Obteve-se consentimento informado assinado antes de cada entrevista, com reconfirmação contínua da disposição de participar ao longo do processo. Os roteiros de entrevista eram semiestruturados, garantindo consistência nos temas centrais e flexibilidade para explorar experiências individuais. Foram elaborados roteiros diferentes para cada grupo de partes interessadas, para captar suas perspectivas próprias, mantendo o alinhamento nas áreas de interesse comuns, com temas como expectativas, impactos percebidos sobre as famílias, visões sobre o programa e lições gerais aprendidas. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio com a permissão das pessoas participantes e depois transcritas de forma anônima.
Foi realizada uma análise temática das entrevistas transcritas com o software NVivo20, para facilitar a gestão e a codificação dos dados. A análise seguiu a abordagem de seis etapas de Braun e Clarke (2006), escolhida por seu caráter sistemático e flexível na identificação de padrões de sentido em dados qualitativos. Aplicou-se uma codificação indutiva às transcrições, identificando conceitos, experiências e perspectivas recorrentes nos relatos, de forma consistente dentro de cada transcrição e em toda a amostra, para facilitar o reconhecimento de motivos comuns no conjunto de dados. Esses códigos preliminares foram depois agrupados em temas potenciais, revisados quanto à coerência interna e à distinção externa. Os temas foram refinados por um processo iterativo de comparação dos dados codificados dentro dos temas e entre eles, o que levou à elaboração de um referencial temático que capta as dimensões-chave da experiência das pessoas participantes.
Os resultados desta avaliação qualitativa revelam experiências multifacetadas do programa POPS entre os diferentes grupos de partes interessadas. A análise das entrevistas produziu várias áreas temáticas-chave que iluminam como a defesa dos pais por pares funciona na prática, seus impactos percebidos e os desafios de implementação. Esta seção apresenta esses resultados organizados segundo a perspectiva das partes interessadas (pais e mães, mentores pares e profissionais), identificando ao mesmo tempo temas transversais que respondem às perguntas de pesquisa sobre a influência das relações de mentoria por pares sobre famílias vulneráveis.
Os pais e mães descreveram sua entrada no programa POPS por encaminhamento dos serviços sociais ou das Integrated Family Support Teams (IFST). Seus relatos revelaram durações variadas de acompanhamento pelos mentores pares, refletindo ora um apoio contínuo, ora, em alguns casos, a passagem de um mentor a outro.
Foi a minha técnica de referência da equipe independente… foi ela que organizou tudo… ela só disse: “Acho que você vai achar isso muito útil.” E aí só me indicou isso e tem sido incrível desde então, de verdade. (Responsável 1)
As duas pessoas responsáveis buscavam fontes de apoio confiáveis, em que suas dificuldades pessoais fossem tratadas junto com as necessidades dos filhos. A presença de alguém compassivo e sem julgamentos para defendê-las trazia um sentimento de solidariedade e de compreensão diferente de sua experiência com os serviços públicos.
Um tema dominante nos relatos das famílias foi o impacto transformador de ter alguém para defendê-las durante interações difíceis com profissionais. Os pais e mães descreveram sentir-se ignorados, interrompidos ou ofuscados nas reuniões quando a pessoa mentora não estava presente. A presença dos mentores pares alterava essa dinâmica, garantindo que a voz das famílias fosse reconhecida e respeitada. Responsável 1 relatou que “me escutam mais quando ela está por perto”, o que sugere que a presença da mentora tinha um efeito legitimador que aumentava a disposição das equipes profissionais para escutar.
Responsável 2 relatou ter recebido uma representação valiosa em reuniões na escola, observando que a mentora “realmente tomou a minha defesa”, o que mostra que o papel de defesa ia além do âmbito da proteção à infância e chegava ao contexto escolar, refletindo as dificuldades interligadas que as famílias enfrentam.
A posição não estatutária dos mentores pares era particularmente valorizada pelas famílias, que distinguiam essa relação de outros envolvimentos profissionais: “Porque ela não é… ela não é dos serviços sociais, ela não é de ninguém, ela está lá só para você e para as crianças” (Responsável 1).
Essa percepção de independência favorecia a confiança e a abertura, criando um espaço em que as famílias podiam expressar frustrações e pedir orientação sem medo de julgamentos ou de consequências.
As famílias identificaram várias dimensões de empoderamento favorecidas pelos mentores pares. Responsável 1 destacou como a mentora ampliou sua capacidade de se defender e de compreender os sistemas pelos quais precisava navegar: “Ela sempre me aponta coisas e diz: ‘Não, olha, tem pesquisa sobre isso aqui, e lembre-se dos seus direitos.’”
O apoio emocional oferecido era igualmente significativo; Responsável 1 observou: “Ela me ajudou muito a manter a calma”, e descreveu a relação como “incrível”.
As duas pessoas responsáveis valorizavam a experiência vivida das mentoras como base de uma compreensão autêntica: esse saber experiencial compartilhado criava uma conexão única, que as famílias distinguiam do apoio profissional, por mais empático que fosse. Saber que a mentora tinha passado por desafios semelhantes trazia esperança e reduzia o isolamento.
Porque eu acho que isso… isso é o mais importante, sabe, tipo o apoio de par que eu tenho agora, tá, a gente não tem a mesma história, mas ela já passou pelo tribunal, sabe… os filhos dela foram para acolhimento familiar, a minha menininha foi para acolhimento familiar, mas ela conhece o caminho que eu percorri. Ela sabe como eu me sinto porque ela sabe como ela se sentiu. (Responsável 2)
Os mentores pares descreveram motivações profundamente pessoais para assumir esse papel de defesa, enraizadas na própria experiência com os sistemas e no desejo de oferecer o apoio de que um dia precisaram. PM 1 disse simplesmente: “Porque as minhas experiências de vida podem ajudar outras pessoas… E é bom retribuir.” PM 3 explicou de modo semelhante: “Porque eu tinha passado mais ou menos pelas mesmas coisas… Acho que as famílias conseguem se identificar comigo.”
Essas motivações refletem o desejo de transformar histórias pessoais difíceis em recursos para outras pessoas, dando sentido a experiências dolorosas. Os mentores concebiam seu papel como multifacetado, abrangendo apoio emocional, ajuda prática e orientação no sistema. Os relatos revelaram um compromisso de se integrar à vida das famílias e de oferecer um apoio descontraído e integral, adaptado a cada percurso, em vez de seguir caminhos ou metas predeterminados.
Os mentores pares descreveram como lidavam com questões delicadas de limites, mantendo ao mesmo tempo relações profissionais tanto com as famílias quanto com os serviços públicos. PM 1 refletiu sobre ter presenciado dinâmicas familiares difíceis e ter de lidar com as próprias reações emocionais: “Eu vi maus-tratos entre filha e mãe… E a mãe só riu daquilo, e eu achei isso bem difícil.” Essa pessoa também reconheceu os próprios limites: “E além disso eu estava com problemas meus, então tive de recuar e dizer que não dava.” Essas reflexões mostram o terreno emocional complexo em que os mentores se movem e a importância da consciência sobre a própria capacidade.
Os mentores descreveram experiências variadas com as equipes de serviço social, o que reflete diferenças na forma como seu papel era compreendido e valorizado no sistema mais amplo. PM 1 relatou interações positivas: “Nunca tive nenhum problema com ninguém do serviço social… Achei todo mundo muito simpático e fácil de lidar.” Já PM 2 viveu uma ambiguidade de papel que gerou tensões: “De novo, o incidente dos serviços sociais, em que exigiram que eu me reportasse a eles, isso não era na verdade… bom, eu não acredito que reportar a eles fizesse parte da minha função.”
PM 3 fez uma avaliação matizada das dinâmicas profissionais, destacando uma variação considerável nas abordagens do serviço social: “Vejo que algumas pessoas punem os pais em vez de ajudá-los… É, isso… isso depende de quem do serviço social te cabe, eu acho.” Essa inconsistência percebida na prática profissional criava desafios para os mentores, que tentavam manter relações de confiança com as famílias e, ao mesmo tempo, colaborar de forma eficaz com os serviços públicos.
Os três mentores identificaram necessidades de formação reforçada e de infraestrutura organizacional para exercer seu papel com eficácia. PM 1 expressou o desejo de “mais formação sobre o que fazer em situações difíceis” e “mais formação em proteção”, sugerindo que a preparação atual deixava lacunas no manejo de cenários complexos. PM 3 afirmou de forma semelhante: “Eu gostaria de um pouco mais de formação, é”, ao mesmo tempo em que apreciava os desafios inerentes ao papel: “Ah, os desafios, é, eu gosto dos desafios.”
Os mentores também identificaram a necessidade de melhor comunicação e de oportunidades de troca em rede entre pares, bem como de documentação e procedimentos mais claros, o que indica o desejo de abordagens mais estruturadas para registrar e validar seu trabalho.
Essas perspectivas sugerem que, embora os mentores valorizassem a flexibilidade e os aspectos relacionais de seu papel, também buscavam referenciais mais sólidos para lidar melhor com situações complexas, e revelam uma tensão entre manter a natureza autêntica e não burocrática do apoio por pares e ter acesso a estrutura e recursos suficientes para atuar com segurança.
As equipes profissionais expressaram compreensões variadas do papel de mentor par, revelando ao mesmo tempo apreço por sua contribuição singular e certa ambiguidade conceitual. A pessoa gestora do projeto enfatizou a natureza responsiva do papel, guiada pelas famílias: “Tudo aquilo de que os pais acham que precisam”, destacando sua orientação fundamental para as prioridades definidas pelos próprios pais, e não para metas impostas de fora.
A pessoa gestora do serviço expressou uma compreensão clara da importância do papel de defesa para guiar as famílias em sistemas complexos:
Bom, sempre achei importante que os pais tenham alguém que os defenda. É um mundo muito complexo quando os pais entram em contato com os serviços sociais… Então ter alguém para guiá-los nesse processo é bastante importante.
Tive de ajustar a minha linguagem, usar termos precisos e fazer essas perguntas: isso é mentoria por pares ou é defesa parental? … Suponho que os mentores também poderiam atuar na defesa, mas acho que a defesa é um papel bem específico, que exige formação, não é?
Profissional 5 entendia os mentores como focados especificamente nas necessidades dos pais, em contraste com papéis profissionais centrados na criança: “O papel era os… pais… defendê-los, na verdade.”
Essas interpretações variadas sugerem que, embora as equipes valorizassem a contribuição específica dos mentores pares, a clareza operacional quanto aos limites do papel e às relações com outros serviços ainda estava em construção.
As equipes profissionais identificaram vários benefícios da mentoria por pares, sobretudo no fortalecimento do engajamento dos pais, de sua confiança e de sua capacidade de se orientar no sistema.
Para a “minha” mãe, se eu tivesse dito há um ano que ela ia vir até os escritórios do conselho e falar com a direção dos serviços sociais e com os membros do conselho de Anglesey, ela teria fugido e não teria falado comigo por semanas. Então vê-la fazer esse trabalho de mentoria por pares durante umas seis, sete semanas e ser capaz de vir aos escritórios muito orgulhosa do serviço que recebeu… a confiança que essa mentoria deu a ela é… acho que isso nunca mais vai embora. (Profissional 2)
Profissional 1 destacou o valor particular da postura sem julgamentos dos mentores pares:
Consigo ver que os mentores têm um papel muito valioso para pais que talvez precisem de alguém mais ou menos da mesma idade, que querem alguém talvez imparcial, que não seja da própria família nem do círculo de amizades, que não seja a pessoa profissional que talvez vá escrever um relatório sobre tudo.
As pessoas são… elas podem ter voz, mas podem parecer estar com raiva, e as pessoas não levam em conta que é aquele instinto animal: você está levando o meu filho. Vou gritar e xingar você porque não consigo expressar o que está acontecendo comigo emocionalmente.
Profissional 1 observou da mesma forma que a defesa “empodera o pai ou a mãe, de modo que sintam de fato que têm mais poder e controle”, o que sugere que os mentores pares favoreciam não apenas uma participação superficial, mas um empoderamento real.
As equipes profissionais identificaram vários desafios que afetavam a implementação do programa, entre eles problemas de pessoal e restrições operacionais agravados pela pandemia de covid-19 e pela limitação de recursos. Fatores geográficos criavam barreiras adicionais, sobretudo na região rural do norte do País de Gales:
Simplesmente não dá para construir as mesmas relações on-line que se constroem pessoalmente… Já participei de reuniões que eles fizeram no norte do País de Gales, eu vou ao norte do País de Gales para as reuniões, mas ainda assim faço a re… ainda assim vou para uma sala separada e faço a reunião pelo Teams… trata-se mesmo de construir essas relações. (Pessoa gestora do projeto)
Eu me pergunto o que eles usam como medida para saber quando é preocupante, quando não é… Não acho que nós, como equipe profissional, tenhamos entendido o suficiente sobre que medidas a pessoa mentora poderia usar para avaliar o risco, o que era aceitável, o que não era.
Profissional 3 enfatizou as dificuldades de recrutar mentores pares adequados:
Acho que… conseguir mais mentores pares, acho que essa é a questão agora, na verdade… a gente não quer virar… ter mentores demais e só… recrutar um monte de gente que talvez não seja adequada… precisa ser um processo de recrutamento realmente… rigoroso.
Essas perspectivas profissionais destacaram restrições operacionais que limitavam o alcance e a sustentabilidade do programa, apesar do reconhecimento de seu valor. Elas sugeriam a necessidade de infraestrutura reforçada, protocolos mais claros e abordagens estratégicas para recrutar e reter mentores com experiência vivida e competências adequadas.
Um tema recorrente em todos os grupos de partes interessadas foi o potencial da defesa por pares para alterar os desequilíbrios de poder tradicionais entre pais e mães em situação de vulnerabilidade e os sistemas profissionais. A experiência das famílias de serem “atropeladas” na fala ou ignoradas quando estavam sem acompanhamento contrastava fortemente com o sentimento de serem “mais escutadas” com o apoio dos mentores. A pessoa gestora do projeto descreveu como as conferências de proteção à infância deixam os pais “com muito medo” e com a sensação de “julgamento” quando enfrentam o processo sem apoio, enquanto quem faz a defesa os ajuda a “se sentir confiantes” e oferece uma “conexão” que traz mais segurança do ponto de vista emocional.
A pessoa gestora do serviço reconheceu que pessoas formadas em defesa “podem… impactar as dinâmicas de poder entre pais e profissionais”, apesar dos possíveis desafios de implementação. Esses deslocamentos de poder se manifestavam no ganho de confiança dos pais para expressar opiniões, fazer perguntas e contribuir de maneira significativa para as decisões que afetavam suas famílias.
Todos os grupos de participantes enfatizaram a contribuição específica da experiência compartilhada para criar conexões e compreensão autênticas. Responsável 2 valorizava especialmente o percurso semelhante da mentora pelo tribunal e pelos processos de retirada dos filhos: “Ela sabe como eu me sinto porque ela sabe como ela se sentiu.”
Esse saber experiencial permitia aos mentores oferecer uma empatia e percepções que as equipes profissionais, independentemente da formação ou da intenção, não podiam oferecer a partir da mesma perspectiva. “Não acho que devam ser pessoas com qualificação profissional, tipo do serviço social, da terapia ou da enfermagem. Acho que é bom para as famílias saber que, tipo, são gente como eu” (Profissional 4).
Isso sugere que preservar a especificidade dos papéis de pares, em vez de profissionalizá-los para que se pareçam com os serviços existentes, preserva suas qualidades mais valorizadas.
A tensão entre manter relações autênticas entre pares e atuar com eficácia dentro dos sistemas formais surgiu como um desafio importante nos relatos das partes interessadas. Os mentores pares descreveram uma dupla lealdade: manter relações de confiança com as famílias e, ao mesmo tempo, colaborar adequadamente com as equipes profissionais. Estas, por sua vez, identificavam a complexidade dos limites, perguntando-se onde traçar a linha entre uma mentoria de apoio e a amizade. Profissional 1 perguntou: “Onde fica a linha entre um acompanhamento voluntário profissional e, depois, virar amizade e ser conivente com qualquer coisa… Há diretrizes claras sobre não manter amizades depois, ou não há?”
O termo “conivente” (colluding) usado por essa pessoa sugere preocupação com uma possível superidentificação com os pais, ao passo que os relatos das famílias enfatizavam o valor de um apoio sem julgamentos. Essa tensão reflete debates mais amplos sobre se formalizar os papéis de pares dentro das hierarquias profissionais fortalece ou enfraquece seus valores centrais.
A integração aos sistemas existentes também trazia desafios: “É difícil porque fica meio solto. Não há uma base, os mentores não têm um escritório, então a gente não vê muito as pessoas.” (Profissional 4)
Várias pessoas das equipes profissionais sugeriram melhorar a integração ao sistema incluindo os mentores pares de forma mais consistente nas formações, nas reuniões de equipe e nas estruturas de supervisão regular. A pessoa gestora do serviço refletiu:
Mas será que os vemos como parte da equipe? Talvez não. Talvez a gente devesse ter vínculos mais próximos com os mentores, na verdade, e incluí-los mais nas nossas formações, talvez nas reuniões de equipe, nos nossos dias de integração fora do escritório, esse tipo de coisa, sabe?
A tensão entre o valor de um apoio responsivo e individualizado e a necessidade de uma oferta de serviço consistente apareceu nos relatos. As famílias apreciavam a adaptabilidade dos mentores às suas necessidades específicas; Responsável 2 valorizava a forma como o apoio evoluiu à medida que a relação se desenvolvia. Os mentores pares também enfatizavam a adaptação às prioridades em mudança das famílias. No entanto, essa flexibilidade contribuía para uma variabilidade na experiência do serviço, e Responsável 2 observou diferenças importantes entre mentores: “Com a que tenho agora, muito positivo. Menos antes.”
As equipes profissionais reconheciam o desafio de manter a qualidade permitindo ao mesmo tempo a responsividade. Profissional 3 descreveu como as relações de mentoria costumavam evoluir: “O que se observa é que começa mais prática e depois, quando a… relação se constrói, talvez fique um pouco mais… não íntima, mas… há um pouco mais de apoio emocional.”
Esse desenvolvimento orgânico das relações de mentoria era valorizado, mas dificultava a definição de parâmetros de serviço consistentes e a garantia de um apoio equitativo entre as diferentes duplas responsável-mentor.
Todos os grupos de partes interessadas identificaram oportunidades de aprimorar a formação dos mentores e as estruturas de apoio. Responsável 1 reconheceu o valor de conhecimentos especializados, “É, aí tudo se encaixaria, né?”, quando lhe perguntaram sobre uma formação adicional para os mentores. Responsável 2 expressou o equilíbrio delicado necessário:
Que os mentores tenham formação, mas aí, sabe, a gente não quer que… porque tem a formação, a gente pensa “essa gente é melhor do que eu”, esse tipo de coisa, ao passo que agora, sabe, você… você sabe que percorreu o meu caminho, sabe para onde eu vou, já esteve no meu lugar.
Os mentores pares expressaram de forma consistente o desejo de formação adicional em áreas específicas, sobretudo o manejo de situações desafiadoras, com PM 1 pedindo especificamente “mais formação sobre o que fazer em situações difíceis” e “mais formação em proteção”.
As equipes profissionais tinham perspectivas variadas sobre as necessidades de formação: uma parte defendia qualificações formais para os mentores, enquanto outra enfatizava a manutenção da distinção entre saber experiencial e qualificações profissionais. Essas visões divergentes refletem questões mais amplas sobre profissionalização versus manutenção de identidades autênticas de pares, sugerindo a necessidade de abordagens de formação que ampliem as competências preservando as qualidades distintivas da experiência vivida.
Participantes de todos os grupos identificaram limitações de recursos que afetavam a sustentabilidade do programa; a pessoa gestora do serviço mencionou especificamente problemas de pessoal agravados pela pandemia e pela crise do custo de vida. Os mentores descreveram uma infraestrutura organizacional limitada para apoiar seu papel, com PM 1 pedindo reuniões mais regulares e melhores sistemas de documentação.
As famílias observaram variações na disponibilidade e na constância dos mentores, às vezes vivendo trocas de mentor que interrompiam relações de apoio. As perspectivas profissionais enfatizaram a necessidade de recursos dedicados de coordenação:
Acho que poderíamos com certeza melhorar isso para os mentores pares tendo aquela pessoa que eles saibam que é meio que a referência deles em Anglesey, que possam contatar, com quem possam se encontrar regularmente, a quem possam recorrer com qualquer preocupação ou dúvida, sobretudo no começo, quando acabaram de começar a apoiar uma família. (Profissional 4)
Essas reflexões destacam os desafios de sustentar um apoio por pares baseado no voluntariado e a necessidade de referenciais organizacionais estruturados e de recursos para apoiar os mentores com eficácia.
As pessoas participantes identificaram oportunidades de ampliar a influência do programa por meio de maior visibilidade, cobertura geográfica mais ampla e apoio especializado para populações específicas. Profissional 2 manifestou o desejo de desenvolver um apoio por pares voltado para jovens egressos do acolhimento. Responsável 1 sugeriu aumentar a visibilidade do programa, o que indica um conhecimento limitado do serviço entre quem poderia se beneficiar dele.
A pessoa gestora do projeto descreveu as barreiras para construir relações em áreas geograficamente dispersas como o norte do País de Gales: “Acho… não acho que poderiam ter feito nada diferente, acho que poderiam ser… ter mais… talvez… uma rede de apoio no norte do País de Gales, e essa é a maior barreira para mim, a distância, de verdade.”
Essas sugestões destacam o potencial de ampliar o alcance do programa preservando seus valores centrais de empoderamento pela experiência compartilhada e de apoio relacional.
As pessoas participantes tinham perspectivas divergentes sobre a influência da defesa por pares nos processos formais de decisão dos sistemas de proteção à infância. Enquanto pais, mães e mentores descreviam mais voz e mais confiança nas reuniões, Profissional 4 apontou limites quanto ao efeito sobre desfechos já decididos:
Sei que, no caso de uma família cujos filhos tinham sido retirados e estavam morando com outros parentes, sei que a pessoa mentora da família meio que escreveu uma carta ou um e-mail para a pessoa responsável no serviço social, para meio que lutar pela mãe, defendê-la… Mas sei que essa carta não terá feito diferença, porque já tinham decidido, as crianças já estavam indo.
Ainda assim, o conjunto das evidências entre as partes interessadas indica que a defesa por pares pode modificar a forma como as decisões são tomadas, mesmo quando não altera o desfecho final. Uma compreensão maior por parte das famílias, uma melhor regulação emocional e uma expressão mais clara de seus pontos de vista contribuem para processos mais informados e inclusivos, podendo melhorar ao longo do tempo tanto a justiça procedimental quanto a qualidade da tomada de decisão.
Várias limitações metodológicas devem ser consideradas na interpretação dos resultados. O pequeno tamanho da amostra, adequado a um estudo qualitativo exploratório, limita a generalização para além do contexto específico do programa. Além disso, o delineamento transversal capta as perspectivas em um único momento, sem possibilidade de acompanhar mudanças longitudinalmente, o que limita a compreensão de como as relações de mentoria por pares e seus impactos evoluem ao longo do tempo. O processo de recrutamento, que dependeu de intermediários do programa, introduz um possível viés de seleção, pois pais, mães e mentores com experiências mais positivas podem ter se mostrado mais dispostos a participar ou ter sido mais indicados pela equipe do programa. O foco do estudo em um contexto geográfico e cultural específico, o norte rural do País de Gales, com sua língua e identidade cultural galesas próprias, pode limitar a transferibilidade para outros contextos com demografia, estruturas de serviço e fatores culturais diferentes. Os desafios de implementação ligados à ruralidade e à distância podem ser menos relevantes em contextos urbanos, enquanto compreensões culturais diferentes de família, comunidade e intervenção profissional podem influenciar a forma como a defesa por pares é vivida e valorizada.
Este estudo traz contribuições significativas sobre a implementação e o impacto da defesa dos pais por pares no programa POPS, no norte do País de Gales, oferecendo uma compreensão valiosa tanto de seu potencial quanto de seus desafios. Os resultados revelam um quadro complexo de como o apoio relacional pode influenciar a experiência das famílias com os sistemas de proteção à infância, com implicações para as políticas, a prática e a pesquisa futura.
As experiências documentadas neste estudo se alinham aos referenciais teóricos sobre o apoio por pares e suas aplicações em contextos legais, e os ampliam. Em consonância com os achados de Davidson et al. (2006) em saúde mental, o programa POPS mostra como a experiência compartilhada cria qualidades relacionais distintivas que favorecem a confiança, a compreensão e a esperança. Os relatos das pessoas participantes refletem a conceituação de Beresford (2013) do saber experiencial como uma forma singular de expertise que complementa o saber profissional, em vez de reproduzi-lo. O potencial transformador desse saber aparece sobretudo na forma como os mentores pares traduzem exigências complexas do sistema em linguagem acessível e, ao mesmo tempo, validam as reações emocionais, uma função de ponte identificada por Lalayants (2017) em contextos de defesa semelhantes. A relação de defesa por pares criou espaços em que as dinâmicas habituais podiam ser questionadas, o que corrobora a tese de Morris et al. (2018) de que a participação real exige atenção tanto à inclusão procedimental quanto à influência substantiva.
Um tema central desta avaliação diz respeito ao potencial da defesa por pares para alterar as dinâmicas de poder nas interações de proteção à infância. A experiência das famílias de serem “atropeladas” na fala ou ignoradas em contextos profissionais reflete os desequilíbrios de poder que Diaz (2020) identifica como endêmicos nos sistemas de proteção à infância. A constatação de que as famílias se sentiam “mais escutadas” quando acompanhadas pelos mentores sugere que a defesa favoreceu o que Arnstein (1969) caracterizaria como a passagem de uma consulta simbólica para uma parceria mais autêntica. No entanto, os resultados também revelam limites quanto à influência substantiva sobre os desfechos, sobretudo nos casos em que as decisões sobre o acolhimento das crianças já estavam de fato tomadas. Isso remete à distinção de Dickens et al. (2015) entre participação procedimental (estar presente e ter voz) e participação substantiva (influenciar de fato as decisões). Embora o POPS tenha claramente ampliado a participação procedimental, seu impacto na decisão substantiva pareceu mais variável e dependente da receptividade mais ampla do sistema. Ainda assim, como argumenta Thoburn (2010), os pais podem valorizar que sua palavra seja ouvida e respeitada, mesmo quando discordam das decisões finais.
Os resultados destacam uma ambiguidade significativa quanto à conceituação e aos limites dos papéis de defesa por pares. Enquanto Tobis et al. (2020) distinguem defesa de caso, defesa de programa e defesa de políticas, as pessoas participantes descreveram papéis fluidos e em evolução, que misturavam apoio prático, companhia emocional e representação formal. Essa fluidez trouxe tanto pontos fortes, ao permitir um apoio responsivo e individualizado, quanto desafios, ao gerar confusão sobre expectativas e responsabilidades. A tensão entre manter relações autênticas entre pares e atuar com eficácia dentro dos sistemas profissionais surgiu como um desafio de implementação significativo. As preocupações das equipes profissionais com a “conivência” e com a manutenção dos limites refletem debates mais amplos sobre se formalizar os papéis de pares nas estruturas de serviço aumenta sua eficácia ou enfraquece suas qualidades distintivas (Stratford et al., 2017). A experiência dos mentores, dividida entre a lealdade às famílias e ao sistema de proteção à infância mais amplo, ilustra o que Scott et al. (2018) descrevem como a posição de “zona de fronteira” (borderland) do trabalho de pares. São necessários referenciais operacionais mais claros para apoiar esses papéis complexos, preservando suas qualidades relacionais autênticas, em linha com os argumentos de Moran et al. (2017).
Os resultados devem ser compreendidos no contexto sistêmico mais amplo dos serviços de proteção à infância. O programa POPS funcionava em ambientes de recursos restritos, marcados pelo que Featherstone et al. (2018) descrevem como demanda crescente e capacidade decrescente. A pandemia e a subsequente crise do custo de vida, mencionadas pelas pessoas participantes, agravaram ainda mais essas pressões. Nesse contexto, as conquistas do programa na melhoria da experiência das famílias são particularmente notáveis. Além disso, o programa mostra o potencial do que Needham e Carr (2009) caracterizam como coprodução transformadora, em que a participação ativa das pessoas usuárias contribui para mudar o funcionamento dos serviços. O exemplo de uma mãe que, depois do apoio por pares, dialoga com segurança com dirigentes de alto escalão ilustra como o empoderamento individual pode contribuir, ao longo do tempo, para a aprendizagem organizacional e a mudança cultural.
Os resultados da avaliação apoiam o apelo de MacAlister (2022) pela ampliação dos serviços de defesa na proteção à infância, mostrando o potencial das abordagens por pares para fortalecer o engajamento e o bem-estar dos pais. No entanto, também destacam a necessidade de modelos de financiamento sustentáveis e de infraestruturas organizacionais para apoiar esses serviços com eficácia. Em segundo lugar, os resultados ressaltam a importância de definições claras de papéis e limites, mantendo a flexibilidade para responder às necessidades individuais. Como argumentam Diaz et al. (2023) em sua avaliação de iniciativas de defesa por pares, formalizar sem burocratizar representa um equilíbrio delicado, mas essencial, para uma implementação eficaz. Em terceiro lugar, o presente estudo revela a necessidade de abordagens integradas de formação e apoio aos pares que atuam na defesa, que ampliem as competências dos mentores em áreas específicas como a proteção, respeitando ao mesmo tempo o apreço das famílias por sua identidade não profissionalizada. Por fim, os resultados indicam que a defesa por pares é mais eficaz quando se insere em culturas organizacionais acolhedoras, que valorizam o saber experiencial e reconhecem a legitimidade das perspectivas dos pais, como sustentam Forrester et al. (2019).
Quanto à prática futura, seria recomendável desenvolver padrões nacionais e referenciais de formação para os pares que atuam na defesa dos pais, em especial padrões que estabeleçam competências essenciais preservando o valor singular do saber experiencial, de preferência coproduzidos com pais, mães e pares da defesa parental, para garantir relevância e autenticidade. Além disso, seria útil investigar os fatores organizacionais que facilitam ou dificultam uma integração eficaz da defesa por pares nos serviços públicos. Isso deveria incluir o exame de como as culturas profissionais, os estilos de liderança e os arranjos estruturais influenciam o sucesso da implementação.
Esta avaliação destaca várias áreas que merecem mais pesquisa. Estudos longitudinais que acompanhem os desfechos das famílias que recebem defesa por pares trariam percepções valiosas sobre a manutenção dos impactos ao longo do tempo, examinando tanto os resultados proximais (engajamento, conhecimento, bem-estar emocional) quanto os distais (preservação da família, bem-estar da criança). Estudos comparativos de diferentes modelos de implementação do apoio por pares poderiam esclarecer quais abordagens operacionais apoiam com mais eficácia tanto os pais quanto os mentores. Além disso, pesquisas sobre as trajetórias e o desenvolvimento profissional dos próprios pares que atuam na defesa ampliariam a compreensão de como sustentar esses papéis. Investigar mais a fundo como a defesa por pares influencia os processos formais de decisão responderia a uma questão-chave levantada por esta avaliação. Embora os resultados sugiram maior participação parental nas reuniões, permanecem dúvidas sobre a influência substantiva nos desfechos, sobretudo em decisões de alto impacto sobre o acolhimento de crianças. Por fim, pesquisas sobre como a defesa por pares pode ser adaptada a populações ou contextos específicos ampliariam as contribuições deste estudo. Pais e mães que enfrentam desafios particulares, como violência doméstica, deficiência ou barreiras culturais e linguísticas, podem se beneficiar de abordagens de defesa sob medida, que atendam às suas necessidades específicas mantendo os princípios centrais do apoio por pares.
Esta avaliação do programa POPS traz contribuições importantes sobre a implementação e o impacto da defesa dos pais por pares nos serviços galeses de proteção à infância. Os resultados mostram o potencial de empoderar famílias que precisam de defesa e mentoria adicionais, aproveitando com eficácia a experiência compartilhada para promover agência pessoal, orientação no sistema, enfrentamento emocional e empoderamento educacional. O impacto do programa se deu em múltiplas dimensões: individual (as famílias relataram menos isolamento e mais confiança e conhecimento de seus direitos), interacional (a presença dos mentores pares alterava a dinâmica das reuniões com profissionais, permitindo que a voz das famílias fosse ouvida com mais eficácia) e sistêmica (primeiros indícios de que a defesa por pares poderia contribuir para mudanças de atitude entre profissionais). O programa mostrou como relações conduzidas pela comunidade podem criar espaços de dignidade e respeito dentro de sistemas que as famílias muitas vezes vivem como desumanizadores e desrespeitosos. No entanto, um financiamento pontual e irregular gerou instabilidade para esse programa voluntário, o que ressalta a necessidade de modelos de financiamento sustentáveis para que ele realize todo o seu potencial. Embora persistam desafios de implementação, os resultados da avaliação mostram o potencial significativo da defesa por pares para melhorar a experiência dos pais e contribuir para uma prática mais inclusiva. Realizar esse potencial exige um compromisso duradouro de dar visibilidade às vozes marginalizadas em todos os níveis das políticas e da prática, transformando não apenas as experiências individuais, mas também os sistemas mais amplos nos quais as famílias são apoiadas.
Complexe Systémique: a reter
Numa leitura sistêmica, o interesse do POPS está no lugar que a mentora ocupa: nem família, nem serviço, ela entra no sistema de proteção como um terceiro que muda a circulação da palavra. As famílias dizem que são menos interrompidas, que entendem melhor as regras do jogo, que sua raiva (“aquele instinto animal: você está levando o meu filho”) pode ser traduzida em vez de punida. O saber experiencial funciona aqui como ponte, no sentido das abordagens que valorizam as competências das famílias. Mas o artigo também mostra as tensões: dupla lealdade da mentora, receio de “conivência” por parte das equipes, decisões já tomadas que a defesa não desloca. Para a clínica e o serviço social, isso convida a pensar a defesa por pares como um recurso da rede, desde que se esclareçam os papéis, se forme sem profissionalizar e se integrem os mentores aos espaços de equipe. Limites: onze entrevistas, com apenas duas pessoas responsáveis, recrutamento feito pelo próprio programa e um contexto rural galês particular. Para ler junto com o artigo sobre o trabalho sistêmico com pais cujos filhos estão em acolhimento e com o artigo sobre a contribuição dos pares no Diálogo Aberto.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe de pesquisa expressa sua sincera gratidão aos pais e mães, aos mentores pares e às equipes profissionais que generosamente compartilharam suas experiências e reflexões nas entrevistas desta avaliação do programa People Offering Parents Support (POPS). A equipe é profundamente grata a Sian Erickson pelo apoio ao longo de toda a avaliação. Agradece também ao North Wales Area Planning Board, aos conselhos de condado de Ynys Môn e de Gwynedd e às Integrated Family Support Teams (IFST). Por fim, agradece ao centro de pesquisa CASCADE da Universidade de Cardiff pelo apoio na realização desta avaliação independente.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver potenciais conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de Avaliando o programa POPS (People Offering Parents Support): um estudo qualitativo da defesa dos pais por pares nos serviços galeses de proteção à infância, de Shane Powell, Emilia Preter, Samantha Fitz-Symonds, Clive Diaz e Vicky Hansly, Child Care in Practice, vol. 32, no 3 (2026), doi: 10.1080/13575279.2026.2648980, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Evaluating “People Offering Parents Support” (POPS): A Qualitative Study of Peer Parental Advocacy in Welsh Child Welfare Services”, publicado em Child Care in Practice (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Powell, S., Preter, E., Fitz-Symonds, S., Diaz, C., et Hansly, V. (2026). Avaliando o programa POPS (People Offering Parents Support): um estudo qualitativo da defesa dos pais por pares nos serviços galeses de proteção à infância (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/avaliando-o-programa-pops-people-offering-parents-support-um-estudo-qualitativo-da-defesa (Obra original publicada em 2026 em Child Care in Practice, 32(3), 312-331 (2026); republicada em 2026 por Child Care in Practice, https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/13575279.2026.2648980)
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