Journal of Solution Focused Practices · Pesquisa empírica
Nos Estados Unidos, as mulheres que vivem com HIV se saem pior do que os homens, e as mulheres negras pior ainda. Os programas destinados a elas falam sobretudo de não transmitir o vírus, aos parceiros, aos filhos: Helen Yates vê nisso, com Foucault, uma forma de disciplinar as mulheres em vez de ajudá-las. Ela constrói então um grupo de sete sessões em que cada uma define por si mesma o que “estar bem” significa, em cinco dimensões, física, espiritual, cognitiva, emocional, social. Quatorze mulheres, todas afro-americanas, numa organização da Geórgia que fornece moradia e alimentação. Resultado: o bem-estar medido sobe um pouco, os CD4 não se movem, a carga viral falta para metade das participantes, e as mulheres compareceram em média a apenas três sessões de sete, por falta de transporte e de creche. Um artigo que diz os seus resultados modestos e os seus obstáculos reais com a mesma franqueza.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Evaluating the Solution Focused Wellness for HIV Intervention for Women: A Pilot Study, de Helen Taylor Yates e Orion Mowbray, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2020), doi: 10.59874/001c.75030, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com as duas tabelas apresentadas em fichas, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As figuras 1 (fluxo das participantes) e 2 (evolução dos escores), mencionadas no texto, não constam do PDF publicado pela revista. “Wellness” é traduzido por “bem-estar”. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Nota dos autores. Helen T. Yates, MSW, PhD, ORCID 0000-0001-8460-1070; Orion Mowbray, MSW, PhD, ORCID 0000-0002-9029-9602. Helen é professora assistente na University of North Carolina Wilmington, College of Health and Human Services, School of Social Work. Orion é professor associado e vice-decano de pesquisa na University of Georgia, School of Social Work. Esta pesquisa foi financiada por uma bolsa da Solution Focused Brief Therapy Association. Correspondência: Helen Taylor Yates, School of Social Work, Veteran’s Hall, 601 South College Road, Wilmington, NC 28403-5979.
Resumo. As mulheres que vivem com HIV experimentam, nos EUA, uma disparidade de gênero nos desfechos de bem-estar, e as mulheres de cor são particularmente vulneráveis a essa disparidade. Para enfrentá-la, foi criada a intervenção “Bem-estar focado nas soluções para o HIV” (SFWH) para mulheres. Neste artigo, relatamos os resultados quantitativos do estudo piloto mais recente do SFWH. A intervenção de grupo em sete sessões foi oferecida a 14 mulheres que vivem com HIV para avaliar a sua eficácia. Os resultados mostraram que a intervenção estava associada a melhorias significativas do bem-estar multidimensional entre a linha de base e o acompanhamento de cinco semanas. As contagens de CD4 e a carga viral das participantes não mudaram significativamente. Para melhorar o acesso à intervenção e aumentar a retenção nos cuidados de HIV na comunidade, novas adaptações do SFWH estão planejadas.
Palavras-chave: HIV; mulheres; focado nas soluções; bem-estar; pesquisa de intervenção
O bem-estar pode ser conceituado como um construto multidimensional que inclui não só o bem-estar físico, mas também cognitivo, emocional, espiritual e social (Myers et al., 2004). Na pesquisa sobre HIV, essa conceituação multidimensional permite um foco mais amplo do que o modelo médico tradicional, que examina estreitamente morbidade, mortalidade e biomarcadores. Uma abordagem multidimensional do bem-estar também permite aos pesquisadores avaliar melhor as intervenções de saúde comportamental do ponto de vista da pessoa que vive com HIV. Isso fornece uma abordagem mais individualizada, adaptada às circunstâncias de vida únicas de cada participante. É coerente com a mentalidade da terapia breve focada nas soluções (TBFS), que adota uma “postura de não saber” e vê o cliente como o especialista na relação de ajuda (DeJong & Berg, 2002).
Existem múltiplas intervenções de bem-estar para mulheres que vivem com HIV. No entanto, a operacionalização do bem-estar varia. Por exemplo, o grupo WILLOW concentra-se na prevenção da transmissão do HIV e na redução do estresse parental (Dale et al., 2017), e o programa Making our Moms Stronger (MOMS) também se concentra na parentalidade e nas competências de autogestão da doença (Johnson et al., 2015). Outras intervenções adaptadas a mulheres que vivem com HIV visam problemas de saúde mental e abuso de substâncias, porque esses fatores estão associados a maus desfechos de bem-estar (Mitrani et al., 2011). Dado que nem todas as mulheres que vivem com HIV são mães nem enfrentam problemas de abuso de substâncias e saúde mental, é necessário desenvolver uma intervenção que adote uma perspectiva mais ampla e inclusiva do bem-estar das mulheres.
Está estabelecido que a saúde global e a longevidade com HIV dependem da terapia antirretroviral (TARV) (Aschengrau & Seage, 2014), mas há outros fatores que afetam o uso da medicação pelas mulheres e que uma intervenção poderia tratar em contextos comunitários. Entre eles, o cuidado dos filhos, a segurança alimentar, o transporte, além de alguns dos fatores mencionados acima, como parentalidade, saúde mental e abuso de substâncias (Yates, 2019). Os programas de bem-estar existentes para mulheres que vivem com HIV concentram-se principalmente na prevenção da transmissão a outros, incluindo parceiros sexuais e filhos. Esse foco estreito dos programas existentes, numa perspectiva foucaultiana, pode ser visto como um processo de disciplinar as mulheres em vez de ajudá-las, e pode contribuir para o estigma negativo associado a viver com HIV (Foucault, 2004).
A terapia breve focada nas soluções foi escolhida como componente principal da intervenção atual devido à sua capacidade de incorporar amplamente as necessidades das mulheres sem imposição, pelos profissionais, de uma conceituação especializada do bem-estar. Isso permite que os fatores únicos que afetam o bem-estar de cada mulher que recebe a intervenção sejam tratados por ela, à medida que define as suas próprias necessidades de bem-estar e cria objetivos específicos para alcançar a melhor solução. As intervenções apresentadas como promotoras do bem-estar das mulheres que vivem com HIV deveriam concentrar-se em conceituações amplas e centradas na cliente. Devido às suas raízes no construcionismo social (Gergen, 2009), a intervenção TBFS é singularmente capaz de fazê-lo.
As intervenções baseadas em evidências precisam ser criadas e testadas quanto à eficácia em contextos reais, com resultados sustentados ao longo do tempo. Mais ensaios clínicos deveriam ser realizados, combinados com contribuições qualitativas das participantes, para melhorar a adoção dos programas eficazes. Além disso, esses programas deveriam constar de registros de práticas baseadas em evidências, para que médicos, assistentes sociais, enfermeiros e gestores de caso possam localizá-los. Deveria também ser oferecida formação para melhorar a implementação na comunidade. Do ponto de vista das políticas, o financiamento deve continuar a apoiar a pesquisa e os programas que visam melhorar os desfechos das mulheres que vivem com HIV.
A terapia breve focada nas soluções (TBFS) é um modelo de tratamento por terapia de conversa que se oferece em formatos individual, familiar e de grupo, bem como por processos de gestão de casos. O método compõe-se de três componentes de mentalidade (foco no futuro, orientação para as forças, cliente como especialista) e oito técnicas terapêuticas (perguntas de escala, definição de objetivos, pergunta do milagre, busca de exceções ao problema, pausas terapêuticas, elogios genuínos, perguntas relacionais e perguntas sobre as melhores esperanças do cliente; Trepper et al., 2012).
Uma meta-análise recente de ensaios controlados randomizados envolvendo a TBFS em contextos de saúde indicou que se trata de uma abordagem promissora para desfechos comportamentais (Zhang et al., 2017). Os métodos terapêuticos foram desenvolvidos originalmente por Insoo Kim Berg, Steve de Shazer e colegas no Brief Family Therapy Center de Milwaukee, Wisconsin, nos anos 1980. Eles desenvolveram a TBFS como uma abordagem baseada nas forças, e não orientada para o problema, focada no futuro, orientada por objetivos e guiada principalmente pelas experiências individualizadas do cliente, e não pela imposição do profissional (De Jong & Berg, 2002). Privilegiar as experiências dos clientes e confiar na sua capacidade inerente de desenvolver o próprio conhecimento sobre a melhor forma de tratar os seus problemas tornou a abordagem compatível com métodos de pesquisa centrados no cliente (Froerer et al., 2009; Szlyk, 2018).
A TBFS é um método popular de gestão de casos e de aconselhamento, adotado pelo serviço social, pela terapia de casal e família, pelo aconselhamento e pela saúde pública devido à sua base emergente de estudos de resultados (Kim, 2008; Kim et al., 2019). A TBFS adota uma abordagem culturalmente competente, que valoriza as experiências e origens únicas de pessoas e comunidades diversas (Kim, 2013).
Aplicar a TBFS à vida das pessoas que vivem com HIV envolve ajudar os clientes a explorar as suas próprias ideias sobre como superar os problemas sociais e psicológicos vividos no seu ambiente. É, portanto, plausível que o método tenha um efeito positivo nos fatores associados ao bem-estar com HIV. Essas necessidades podem incluir uso de substâncias, saúde mental, moradia, segurança alimentar e necessidades parentais (Blashill et al., 2015). A TBFS permite aos profissionais fazer parceria com os clientes para coconstruir mudanças significativas e duradouras (Blundo & Simon, 2015). A importância desse processo de coconstrução na TBFS foi destacada como uma das chaves mais importantes do seu sucesso por Franklin et al. (2017) na sua meta-análise da pesquisa sobre processos de mudança em TBFS.
Para tratar de forma mais abrangente as necessidades de bem-estar das mulheres que vivem com HIV, foi criada a intervenção “Bem-estar focado nas soluções para o HIV” (Solution Focused Wellness for HIV, SFWH) para mulheres. Ela foi desenvolvida adaptando o manual de tratamento atual da TBFS e a pesquisa de Beauchemin (2018) sobre intervenções de bem-estar focadas nas soluções. Após a combinação desses elementos, a intervenção foi redigida como um manual de aconselhamento de grupo sessão por sessão e adaptada às necessidades das mulheres que vivem com HIV segundo a literatura anterior. Na fase inicial de desenvolvimento, a pesquisadora buscou o retorno de especialistas em TBFS e em HIV; esse trabalho está descrito na publicação dos resultados qualitativos usados na adaptação do manual (Yates et al., 2019). O especialista em TBFS que deu retorno publicou várias meta-análises de métodos focados nas soluções, bem como múltiplos ensaios clínicos de grande escala sobre abuso de substâncias e proteção da infância. O especialista em HIV publicou estudos de intervenção com mulheres que vivem com HIV e sobre outros programas de serviços sociais. Ambos são professores associados e diretores de programa em escolas de serviço social nos Estados Unidos. Após incorporar os seus retornos ao manual, a pesquisadora aplicou a intervenção a um pequeno grupo de mulheres (n = 4) que vivem com HIV (Yates et al., 2019). Essas mulheres participaram de um grupo focal para dar retorno de clientes especialistas, em coerência com a mentalidade da TBFS de honrar o cliente como especialista (Blundo & Simon, 2015). Essa intervenção TBFS manualizada, chamada Solution Focused Wellness for HIV (SFWH), foi implementada e avaliada no presente estudo.
O objetivo deste estudo é (a) determinar se a intervenção SFWH para mulheres melhora significativamente o bem-estar das mulheres que vivem com HIV, (b) determinar se a intervenção é segura e bem tolerada pelas participantes e (c) contribuir para o desenvolvimento contínuo do manual de tratamento. Os resultados dos componentes qualitativos do estudo serão detalhados num artigo separado. Este artigo relata apenas os resultados quantitativos.
Neste estudo piloto, as participantes foram comparadas na linha de base e num acompanhamento cinco semanas após a intervenção. Todas as participantes receberam a intervenção, e uma abordagem por intenção de tratar foi usada na análise. Os estudos piloto “são tipicamente pequenos estudos prospectivos que avaliam o potencial de um tratamento e podem ou não ser randomizados” (Cook & DeMets, 2008, p. 76). O objetivo das fases de ensaio clínico é avaliar a segurança e a viabilidade e determinar se um estudo mais aprofundado se justifica. O desfecho desejado dos estudos de fase inicial é que a maioria dos participantes melhore (Cook & DeMets, 2008).
A variável dependente deste estudo foi o bem-estar, construto multidimensional que pode incluir o bem-estar espiritual, físico, cognitivo/emocional e relacional/social (Myers et al., 2004). Uma abordagem multidimensional também permite avaliar as intervenções de saúde do ponto de vista da pessoa que vive com HIV, em vez de se concentrar estreitamente apenas em CD4 e carga viral. Ela leva a uma intervenção individualizada, adaptada ao estilo de vida único de cada participante.
Para fortalecer o desenho, o bem-estar foi também avaliado com biomarcadores tipicamente associados à progressão da doença. Isso permitiu uma triangulação da coleta de dados e mediu o efeito da intervenção sobre o bem-estar do ponto de vista da progressão da doença. Usamos dados dos prontuários de gestão de casos existentes, abordagem menos invasiva do que pedir às participantes que se submetessem a exames adicionais.
A variável independente foi a intervenção SFWH para mulheres, uma intervenção de aconselhamento de grupo sobre bem-estar adaptada a mulheres que vivem com HIV. A intervenção foi manualizada, com instruções sessão por sessão e materiais que incorporam os componentes de mentalidade e as técnicas da TBFS para melhorar a fidelidade ao tratamento. O manual inclui sete sessões, cinco centradas em áreas específicas do bem-estar e uma sessão introdutória e uma de encerramento no início e no fim.
O estudo foi conduzido numa organização sem fins lucrativos que presta serviços de gestão de casos a pessoas que vivem com HIV no norte da Geórgia. A organização fornece serviços de moradia e segurança alimentar, e pode ajudar com transporte, coordenação dos cuidados médicos, aconselhamento para adesão à medicação e apoio à parentalidade. Os clientes atendidos viviam em 10 condados que abrangiam comunidades urbanas, rurais e suburbanas.
Ao todo, 14 mulheres participaram do estudo; as suas características estão na tabela 1. Para serem incluídas, as participantes deviam (1) identificar-se como mulheres, (2) viver com HIV e (3) ter mais de 18 anos. A intenção de tratar foi usada para decidir se as participantes que só compareceram a algumas sessões deviam ser incluídas ou excluídas da análise. Assim, todas as participantes foram incluídas, independentemente do nível de participação. Houve alguma perda, e o número de sessões recebidas variou entre as participantes. O número médio de sessões recebidas foi de três (das sete recomendadas), com desvio-padrão de 2,60. O fluxo das participantes é mostrado na figura 1.
O recrutamento foi feito no local da pesquisa, pelos gestores de caso das participantes, por meio de um folheto. Três grupos de apoio existentes para mulheres que vivem com HIV funcionavam na comunidade, e as participantes compartilharam entre si a informação sobre o estudo, o que resultou numa amostra de conveniência. O grupo foi oferecido nos três locais operados pela organização, mas apenas dois foram usados, devido ao pequeno número de recrutadas no terceiro. O consentimento informado foi obtido antes da coleta de dados e do início da primeira sessão.
A fidelidade à TBFS foi encorajada e monitorada de várias formas. A formação da facilitadora em TBFS, o desenvolvimento de um manual de tratamento sessão por sessão, uma lista de verificação de fidelidade e um desenho rigoroso foram as técnicas de melhoria e monitoramento da fidelidade utilizadas. A lista de verificação foi preenchida pela facilitadora para monitorar, numa sessão escolhida ao acaso, a adesão aos componentes da TBFS e medir em que medida cada componente foi usado. A lista ajuda a monitorar a quantidade de intervenção recebida pelas participantes.
O uso de um manual visava melhorar a fidelidade. Todos os componentes identificados pelos pesquisadores da TBFS no manual de tratamento publicado pela Solution Focused Brief Therapy Association (Trepper et al., 2012) foram incorporados em roteiros e instruções no manual sessão por sessão. O uso de um manual é recomendado pelos pesquisadores de intervenções comportamentais para melhorar a fidelidade (Gitlin & Czaja, 2015).
O comitê de ética do Human Subjects Office do University of Georgia Human Research Protection Program aprovou o estudo. A permissão para conduzir a pesquisa com as clientes da organização foi obtida da diretora executiva antes da submissão ao comitê. As participantes receberam cartões-presente de supermercado de US$ 20 para encorajar a participação, além de vales-transporte, lanches e vales-creche para melhorar o acesso à intervenção. Nenhum nome ou outra informação identificável foi associado aos dados. Números de participantes foram usados para preservar a privacidade durante a análise.
Para medir o bem-estar multidimensional, foi usado o Five Factor Wellness Inventory (5F-Wel). É uma escala de 92 itens, válida e confiável, com alfa de Cronbach de 0,89 (Myers et al., 2004). Há 74 itens pontuados, com perguntas como “Estou satisfeita com a forma como lido com o estresse” e “Como diariamente uma quantidade saudável de frutas, legumes e fibras”. A análise fatorial confirmatória indica que os cinco fatores de bem-estar cobertos são o bem-estar físico, espiritual, cognitivo/intelectual, emocional e social/relacional. O instrumento consiste em respostas autorrelatadas do tipo Likert, de 1 = concordo totalmente a 5 = discordo totalmente. Escores mais altos refletem maior bem-estar. O alfa de Cronbach para o estudo SFWH foi aceitável (α = 0,67), indicando confiabilidade na medição do bem-estar multidimensional das participantes.
O bem-estar relacionado ao HIV foi medido com os biomarcadores tipicamente obtidos junto aos médicos das pessoas que vivem com HIV: a carga viral (RNA-HIV) e a contagem de linfócitos T CD4. Esses biomarcadores indicam a presença do HIV no organismo (replicação viral) e a resposta imunitária ao vírus. Também medem indiretamente o uso da terapia antirretroviral. A carga viral pode ir de 0 (indetectável) a milhões, com valores mais baixos associados a melhor estado. A contagem de CD4 determina a resposta do sistema imunitário ao vírus. Contagens de CD4 mais altas estão associadas ao bem-estar, pois essas células combatem infecções oportunistas e secundárias (Aschengrau & Seage, 2014). Uma contagem de CD4 abaixo de 200 indica a progressão para o estágio final, a aids.
Para analisar os resultados quantitativos, o SPSS versão 25.0 (IBM, 2017) e o software R foram usados para realizar testes t para amostras pareadas e testes de qui-quadrado. Os tamanhos de efeito foram calculados com o d de Cohen. Devido à natureza exploratória deste estudo piloto, realizado nas fases iniciais do processo de pesquisa, usamos um valor de p < 0,10 para determinar a significância estatística. Como se hipotetizava uma melhoria do bem-estar, foi usado um teste unilateral. As questões de pesquisa foram:
Para responder às questões um e dois, os escores do Five Factor Wellness Inventory, as contagens de CD4 e as cargas virais das participantes foram analisados com um teste t para amostras pareadas. Esse teste serve para verificar diferenças entre os escores de linha de base e de acompanhamento. Segundo Randolph e Myers (2013), o teste t serve para “determinar se há uma diferença estatisticamente significativa entre os escores de duas amostras cujos valores ou casos individuais estão pareados por alguma razão ligada à questão de pesquisa” (p. 89). Aqui, uma mesma amostra foi medida em dois momentos (antes da intervenção e no acompanhamento de 5 semanas).
Para responder à questão três, os dados foram primeiro limpos para levar em conta os resultados de carga viral relatados como “inferior a 20” ou “inferior a 40”. Cargas virais inferiores a 20 ou 40 são consideradas “indetectáveis”. É um ponto de corte clinicamente importante, porque indica a adesão à terapia antirretroviral e a ausência de progressão da doença (Panel on Antiretroviral Guidelines for Adults and Adolescents, 2018). Essas categorias são tipicamente usadas nos cuidados de HIV para determinar a progressão da doença segundo o número de cópias de RNA-HIV presentes. Vão de 0-40 (indetectável) a 41 e acima (detectável). Um teste de qui-quadrado foi usado para detectar diferenças entre os valores categóricos de carga viral das participantes na linha de base e no acompanhamento. O qui-quadrado é um teste não paramétrico que mede a diferença entre resultados observados e esperados (McHugh, 2013).
As características demográficas e clínicas de base das mulheres que participaram estão na tabela 1. A idade média era de 48,21 anos (DP = 11,86, amplitude 21-63). Quanto à raça e etnia, todas as participantes se identificaram como afro-americanas, e uma se identificou com múltiplas raças. Depressão foi indicada em 53,33% das participantes e ansiedade em 60%. Nenhuma participante relatou problemas de abuso de substâncias no momento do estudo. Cerca de 87% das mulheres relataram alguma forma de responsabilidade de cuidado, de filhos menores de 18 anos ou de outro adulto.
Tabela 1. Características demográficas e clínicas de base das participantes (frequência, porcentagem)
Gênero: mulher biológica 14 (93,33%); mulher transgênero 1 (6,67%). Raça: branca 0; afro-americana 15 (93,33%); múltiplas raças 1 (0,67%). Cuidado de filhos menores de 18 anos: sim 9 (60%); não 6 (40%). Cuidado de adultos: sim 4 (26,67%); não 11 (73,33%). Situação de rua atual: sim 1 (6,67%); não 14 (93,33%). Depressão atual: sim 8 (53,33%); não 7 (46,67%). Ansiedade atual: sim 9 (60%); não 6 (40%). Outro problema de saúde mental atual: sim 3 (20%); não 12 (80%). Abuso de substâncias atual: sim 0; não 15 (100%).
Tempo desde o diagnóstico de HIV: menos de 1 ano 0; 1-5 anos 3 (20%); 6-10 anos 3 (20%); 11-15 anos 3 (20%); 16-20 anos 1 (6,67%); 21 anos ou mais 3 (20%); ausente 2 (13,33%). Tempo desde a última consulta médica de HIV: 0-3 meses 7 (46,67%); 4-6 meses 3 (20%); 7-10 meses 2 (13,33%); 11 meses ou mais 0; ausente 3 (20%).
Complexe Systémique: a tabela original conta 15 linhas (porcentagens calculadas sobre 15), enquanto o texto anuncia N = 14 participantes; reproduzimos os números tal como impressos.
Os escores de bem-estar na linha de base estão na tabela 2. A análise indica que a intervenção aumentou favoravelmente as contagens médias de CD4 e os escores médios do Five Factor Wellness Inventory entre a linha de base e o acompanhamento de cinco semanas. No entanto, a carga viral média aumentou, o que não é um resultado desejado nem positivo.
Para responder à primeira questão de pesquisa, a intervenção SFWH para mulheres (VI) melhora significativamente o bem-estar (VD), medido pelo Five Factor Wellness Inventory, entre a linha de base e cinco semanas após a intervenção?, foi realizado um teste t adicional. Os escores do Five Factor Wellness Inventory foram obtidos antes do início da intervenção e no acompanhamento de cinco semanas, e analisados com um teste t para amostras pareadas. O resultado foi t = −1,56 (gl = 13), indicando que os escores no acompanhamento (M = 63,03, DP = 5,75) foram mais altos do que antes da intervenção (M = 60,84, DP = 6,71). O resultado foi estatisticamente significativo no nível p < 0,10 (p = 0,07). Segundo a interpretação dos tamanhos de efeito de Cohen (1992), o efeito foi médio (d = 0,42). A figura 2 apresenta a evolução dos escores médios ao longo do tempo.
Para considerar o efeito da dose (medida pelo número de sessões frequentadas) no bem-estar medido pelo Five Factor Wellness Inventory, foi realizada uma análise de regressão. Os escores de pré-teste e a dose foram usados como variáveis independentes, com os escores de pós-teste como variável dependente. Os resultados indicam que o número de sessões de TBFS, ou dose, não foi um preditor significativo do bem-estar multidimensional nesta amostra (β = 0,061, p = 0,82). O ajuste global do modelo foi R² = 0,14, indicando que 14% da variância dos escores de bem-estar foi explicada pelos preditores.
Para responder à segunda questão, o SFWH aumenta significativamente as contagens de CD4 das mulheres que vivem com HIV entre a linha de base e o acompanhamento?, foi realizado um teste t para amostras pareadas. As contagens de CD4 foram obtidas antes do início da intervenção e no acompanhamento de cinco semanas. O teste revelou que os valores no acompanhamento (M = 739,13, DP = 579,19) foram mais altos do que antes da intervenção (M = 684,25, DP = 411,24). É um aumento favorável. No entanto, os resultados não foram significativos no nível predeterminado de p < 0,10.
Para responder à terceira questão, o SFWH diminui significativamente a carga viral RNA-HIV das mulheres que vivem com HIV entre a linha de base e o acompanhamento?, um teste de qui-quadrado era indicado. As cargas virais médias coletadas no acompanhamento (M = 81.616,46, DP = 183.258,1) foram mais altas do que os níveis pré-intervenção (M = 794,8, DP = 1.889). Um qui-quadrado de Pearson foi usado para identificar uma diferença entre os dados de linha de base e de acompanhamento segundo a detectabilidade da carga viral. Os resultados mostram uma diferença significativa entre os grupos (χ²(1, 13) = 4,8, p < 0,10). No acompanhamento, 50% das participantes tinham HIV indetectável, contra 62,5% na linha de base. A significância provém do teste exato de Fisher (p = 0,07).
Tabela 2. Resultados dos testes t pareados para as medidas de bem-estar ao longo do tempo
Para cada medida: linha de base M (DP); acompanhamento M (DP); estatística do teste; tamanho de efeito; significância (unilateral).
Contagem de CD4: 684,25 (411,24); 739,13 (579,19); −0,66; 0,23; 0,53.
Escore 5F-Wel: 60,84 (6,71); 63,03 (5,75); −1,56; −0,42; 0,071.
Quanto à fidelidade da intervenção, o manual do SFWH para mulheres foi usado como previsto em cada sessão, e cada sessão do manual foi aplicada tal como escrita. Cada sessão do manual foi oferecida às participantes. No entanto, algumas não compareceram a todas as sessões. O número de sessões frequentadas variou de 0 (nenhuma) a 7 (todas). O número médio de sessões recebidas foi de 3,07 (DP = 2,60).
Além do número de sessões, a fidelidade foi monitorada por uma lista de verificação TBFS que detalhava as técnicas e as mentalidades da TBFS. O escore foi de 70% de fidelidade numa sessão monitorada ao acaso. Isso é considerado adequado, dada a natureza flexível desse método de aconselhamento (nem todas as técnicas são aplicadas em cada sessão). A pergunta do milagre e a pausa terapêutica não foram usadas na sessão pontuada. A fidelidade foi também assegurada pela formação em TBFS. A intervenção foi aplicada por uma terapeuta licenciada que participou de três formações de vários dias antes de aplicá-la.
Uma disparidade de gênero nos desfechos de bem-estar com HIV existe nos EUA, segundo uma revisão dos CDC que indica que as mulheres que vivem com HIV têm mais dificuldade em se engajar nos cuidados (Beer & Skarbinski, 2014). Num artigo de 2008, Eyakuze, Jones, Starrs e Sorkin imploravam aos profissionais de HIV que deslocassem o foco da prevenção para as necessidades diretas das mulheres que vivem com HIV, para corrigir essa disparidade. No entanto, as intervenções comportamentais destinadas a ajudar essas mulheres nos seus esforços de bem-estar continuaram a se concentrar principalmente na prevenção da transmissão a outros, sobretudo para as mães (Yates, 2019).
A intervenção SFWH atual foi desenvolvida para enfrentar essa disparidade com uma intervenção comportamental culturalmente competente, que aproveita as forças e as competências das mulheres (Yates et al., 2019). Usar a TBFS permitiu à líder do grupo empregar uma abordagem centrada na cliente e adotar uma postura de não saber, em que as mulheres são as especialistas do seu bem-estar com HIV. O componente de bem-estar da intervenção baseia-se na pesquisa de Myers et al. (2004) sobre uma abordagem multidimensional do bem-estar, que leva em conta os fatores físicos, espirituais, cognitivos/emocionais e sociais/relacionais do ponto de vista da pessoa. O bem-estar focado nas soluções foi inicialmente desenvolvido para estudantes universitários, com efeitos positivos (Beauchemin, 2018), e é aplicado pela primeira vez a pessoas que vivem com HIV nesta intervenção.
No presente estudo, aplicamos a intervenção SFWH para mulheres a 14 participantes afro-americanas que aceitaram seguir o programa de aconselhamento em sete sessões, orientado para as forças. Este artigo tratou das variáveis, dos procedimentos, das medidas, do plano de análise e do plano de medição da fidelidade para a avaliação da intervenção. A experiência das participantes e as mudanças nas competências de construção de soluções também foram registradas, mas são relatadas num artigo separado.
O bem-estar foi medido com um instrumento psicométrico válido e com dois biomarcadores tradicionais do HIV retirados dos prontuários de gestão de casos. Métodos quantitativos, teste t e qui-quadrado, foram usados para analisar uma medida psicométrica do bem-estar multidimensional e os biomarcadores da doença. A fidelidade também foi medida e relatada como favorável. Em suma, a intervenção foi eficaz para aumentar o bem-estar multidimensional das participantes, segundo o teste t do Five Factor Wellness Inventory (p < 0,10). No entanto, o teste t das contagens de CD4 não mostrou resultados significativos. Embora a análise da carga viral tenha mostrado resultados significativos, ela deve ser interpretada com extrema cautela devido aos dados ausentes. Como os dados vinham dos prontuários existentes, 50% das participantes não tinham resultado de carga viral utilizável no momento do acompanhamento de cinco semanas.
A intervenção não foi aplicada inteiramente como previsto, porque as participantes não receberam todas as sessões, devido a dificuldades de acesso. Apesar dos esforços para engajar as participantes, com incentivos e apoio ao transporte e à creche, o recrutamento foi limitado. Mais pesquisas são necessárias sobre os problemas de recrutamento e retenção em pesquisas em contextos comunitários com mulheres que vivem com HIV. Isso é tratado nos resultados qualitativos do estudo, que serão apresentados num artigo separado. Os problemas de recrutamento e retenção contribuíram para a principal limitação deste estudo, o tamanho da amostra. Os dados ausentes também foram uma limitação que afetou o tamanho da amostra. Os problemas de coleta estavam ligados à escolha de usar os prontuários de gestão de casos existentes para os biomarcadores, em vez de coletar esses dados, o que teria sido invasivo e oneroso demais para as participantes.
As intervenções comportamentais desenvolvidas em organizações comunitárias que atendem mulheres com HIV podem melhorar os seus desfechos de bem-estar. No entanto, a carga para as participantes deve ser considerada para que um estudo seja viável nesse contexto. Embora se tenha tentado melhorar o engajamento, inclusive conduzindo o estudo em contexto comunitário, oferecendo incentivos e fornecendo creche e transporte, mais esforços são necessários.
Ajustes que facilitem o engajamento e a retenção das mulheres afro-americanas nesta e em outras intervenções de cuidado do HIV também são necessários, se as necessidades dessa população vulnerável devem ser atendidas nas suas comunidades. É importante notar isso, pois, embora não fosse critério de inclusão, todas as mulheres se identificaram como afro-americanas. Embora isso se deva aos problemas de recrutamento que levaram a uma amostra de conveniência, reflete também a população de mulheres que vivem com HIV nos Estados Unidos. Como muitas outras doenças crônicas que afetam as mulheres, o HIV infelizmente torna os afro-americanos vulneráveis às disparidades de saúde (Beer & Skarbinsky, 2014).
As mulheres deste estudo tinham responsabilidades de cuidado e problemas de transporte que podem ter interferido nos seus esforços para cuidar do seu bem-estar. Esse resultado é coerente com outros estudos sobre os desfechos de bem-estar das mulheres com HIV (Yates, 2019). Uma adaptação adicional da intervenção SFWH para mulheres é necessária para tratar mais especificamente das responsabilidades de cuidado e do transporte. Embora esses fatores tenham sido considerados no financiamento da intervenção para melhorar o recrutamento, não foram tratados especificamente no manual de aconselhamento. Os estudos futuros sobre a intervenção SFWH para mulheres continuarão a se concentrar na melhoria do acesso aos serviços, para melhorar não só a retenção e o recrutamento, mas o bem-estar global, relacionado ao HIV e multidimensional, das mulheres.
Complexe Systémique: o que reter
Um estudo que vale primeiro pela sua pergunta: a quem servem os programas de bem-estar para mulheres soropositivas, quando só falam de não contaminar os outros? Yates responde deixando cada mulher definir o que estar bem significa, e esse é o gesto mais sistêmico do texto. Os resultados são magros e os autores o dizem: um limiar de significância em 0,10, quatorze mulheres, três sessões de sete em média, metade das cargas virais ausentes, e uma tabela 1 que conta quinze linhas para quatorze participantes. O que fica é o achado de fracasso mais instrutivo: sem transporte nem creche, a melhor intervenção não encontra aquelas a quem se destina. Para ler com Aids, vivência e emoções familiares, com a história de Maggie, em que a relação conta mais do que o protocolo, e com a avaliação australiana do Donut da resiliência, outro piloto com as mesmas cautelas.
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Contatos
Helen Taylor Yates: yatesh@uncw.edu · Orion Mowbray: omowbray@uga.edu
Tradução não oficial para o português de Evaluating the Solution Focused Wellness for HIV Intervention for Women: A Pilot Study, de Helen Taylor Yates e Orion Mowbray, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n.º 2 (2020), artigo 4, p. 34-46, doi: 10.59874/001c.75030, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, com as tabelas em fichas. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Evaluating the Solution Focused Wellness for HIV Intervention for Women: A Pilot Study”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Yates, H. T., & Mowbray, O. (2020). Avaliar a intervenção “Bem-estar focado nas soluções para o HIV” com mulheres: um estudo piloto (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/avaliar-a-intervencao-bem-estar-focado-nas-solucoes-para-o-hiv-com-mulheres-um-estudo-piloto (Obra original publicada em 2020 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 4, n° 2 (2020), article 4, p. 34-46; republicada em 2020 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75030)
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