Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Pesquisa empírica
O “Donut da resiliência” de Lyn Worsley coloca no centro as forças da criança (eu tenho, eu sou, eu posso) e ao redor sete fatores protetores: pais, competência, família e identidade, escola, pares, comunidade, dinheiro. Bastam três sólidos para que a resiliência se firme. Dois programas de grupo de seis semanas nasceram dele, Connect-3 para os 8-12 anos e Linked-Up para os 13-16, e uma clínica de Sydney os avaliou antes e depois em 70 jovens. Os mais novos ganharam em competência pessoal e reduziram as dificuldades totais; os adolescentes não se moveram. Um estudo modesto, sem grupo de controle, com 41% dos dados de saída ausentes – e que o diz –, mas que mostra um modelo ecológico de resiliência próximo do pensamento sistêmico: a resiliência não é uma qualidade da criança, é uma qualidade dos seus vínculos.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Evaluating the effectiveness of a resilience program for children and young people in a private Australian psychology clinic, de Kaitlyn Miller, Lyn Worsley, Tanya Hanstock e Megan Valentine, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016), hoje Journal of Solution Focused Practices, doi: 10.59874/001c.75093, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, com as oito tabelas apresentadas em fichas, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. O PDF de origem é um documento digitalizado; as tabelas e as referências foram transcritas a partir da renderização das páginas, e a figura 1 (o Donut) é descrita em palavras: é uma reconstituição, não uma reprodução. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
A pesquisa sobre programas de intervenção para fortalecer a resiliência dos jovens está crescendo. Existem vários programas de grupo internacionais baseados na resiliência; no entanto, poucos na Austrália. Dois programas australianos de resiliência são o Linked-Up (13-16 anos) e o Connect-3 (8-12 anos). São programas focados nas soluções, baseados no modelo do Donut da resiliência. O presente estudo avaliou a eficácia desses dois programas comparando medidas de resiliência e de adversidades antes e depois da intervenção. Os participantes tinham entre 8 e 17 anos. Havia 70 participantes no total, 40 meninos (57%) e 30 meninas (43%). Os resultados mostram que o programa Connect-3 desenvolveu a competência pessoal e reduziu as dificuldades totais numa população não clínica. O grupo Linked-Up não mostrou mudança significativa nas pontuações entre antes e depois da intervenção. A pesquisa futura deveria explorar a eficácia dos programas de resiliência em populações clínicas ou com jovens expostos a maior risco de adversidade. Deveria também considerar como a resiliência poderia ser fortalecida em populações de adolescentes mais velhos.
A resiliência é uma área de estudo importante, porque lidar com o estresse, a mudança e a adversidade é uma faceta da vida cotidiana. Isso é particularmente verdadeiro para crianças e adolescentes, que vivem múltiplas mudanças biológicas, sociais e psicológicas nessa fase do desenvolvimento (Barrett et al., 2014). É geralmente aceito que a resiliência é a capacidade de um indivíduo de se recuperar da adversidade (Ungar, 2015; Prince-Embury, 2014; Werner & Smith, 2001). Essa capacidade é influenciada pela interação complexa entre fatores protetores, como relações sociais positivas, estabilidade econômica ou competências adaptativas de enfrentamento, e fatores de risco, como a vulnerabilidade a problemas de saúde mental, um apego frágil ou outras adversidades (Ungar et al., 2015; Werner & Smith, 1992; 2001). Ungar et al. (2015) enfatizam que os fatores protetores não são apenas características ou qualidades pessoais do indivíduo, mas incluem também a disponibilidade de recursos comunitários (por exemplo, apoios sociais e prestadores de serviços formais), bem como a capacidade do indivíduo de acessar e utilizar esses recursos.
Nota dos autores. A pesquisa relatada neste artigo foi realizada pela primeira autora como parte dos requisitos do mestrado em psicologia clínica da University of Newcastle. Uma versão deste artigo foi apresentada na conferência Pathways to Resilience em Halifax, Canadá, em junho de 2015.
Ainda não há uma definição única e consensual de resiliência, apesar do consenso de que ela se desenvolve tanto por recursos internos quanto por fatores externos. As primeiras definições concentravam-se sobretudo na superação da adversidade, como a de Grotberg (1995): “a resiliência é a capacidade universal que permite a uma pessoa, grupo ou comunidade prevenir, minimizar ou superar os efeitos danosos da adversidade” (p. 3). Masten e Powell (2003) escrevem: “a resiliência refere-se a padrões de adaptação positiva no contexto de risco e adversidade significativos” (p. 4).
Com o tempo, as definições tornaram-se mais abrangentes e complexas, para incluir não só o indivíduo, mas também a comunidade em que ele vive. Ungar, Brown, Liebenberg, Cheung e Levine (2008) definem a resiliência como “a capacidade dos indivíduos de navegar nas suas ecologias físicas e sociais para obter recursos, bem como o seu acesso a famílias e comunidades capazes de navegar culturalmente por eles” (p. 168). Nessa definição, Ungar et al. (2008) estabelecem que a resiliência é mais do que ter ou não recursos: é também a capacidade de saber como usá-los para ser resiliente. Essa definição estabelece ainda que os indivíduos precisam do apoio das suas famílias e comunidades para compreender e usar esses recursos.
Ungar (2015) descreve o desenvolvimento da resiliência como um processo complexo e multidimensional, em que a capacidade de resistir à adversidade não depende simplesmente de os fatores protetores superarem os fatores de risco, mas em que “a resiliência é predita tanto pela capacidade dos indivíduos quanto pela capacidade das suas ecologias sociais e físicas de facilitar o seu enfrentamento de maneiras culturalmente significativas” (p. 4).
No geral, é evidente que há na pesquisa um consenso de que a resiliência se desenvolve tanto por recursos internos, como características e competências pessoais, quanto por fatores externos, como fatores ambientais, sociais e educacionais. Luthar, Cicchetti e Becker (2000) esclareceram esse ponto ao afirmar que as qualidades pessoais podem ser chamadas de “resiliency”, enquanto a “resiliência” é o processo de desenvolvimento que ocorre pela interação das qualidades internas com os fatores externos.
Há muitas teorias sobre o que constitui os fatores protetores da resiliência. Grotberg (1995) classificou-os em três áreas principais: “EU TENHO, EU SOU, EU POSSO”. EU TENHO são os apoios externos que promovem a resiliência (por exemplo, eu tenho relações de confiança); os fatores EU TENHO são a base das categorias seguintes. EU SOU são as forças e características pessoais da criança (por exemplo, eu sou amável). EU POSSO são as suas competências interpessoais e sociais (por exemplo, eu posso comunicar e resolver problemas).
Outros pesquisadores propuseram categorias mais específicas, como comunidade, escola, família e indivíduo/pares (Fuller, 1998), ou competência social, resolução de problemas, autonomia e senso de propósito (Benard, 2004). Ungar (2008) redefiniu os fatores protetores e as qualidades pessoais como “tensões”. Ele levantou a hipótese de que as pessoas precisam equilibrar essas tensões para fortalecer a sua resiliência, e de que ter demais ou de menos desses recursos elimina as tensões importantes para o seu desenvolvimento. No geral, parece haver consenso na pesquisa de que a resiliência se desenvolve tanto por recursos internos, como características e competências pessoais, quanto por fatores externos, como fatores ambientais, sociais e educacionais.
Compreendendo que a resiliência é um processo influenciado por fatores de risco e de proteção, a pesquisa mais recente interessou-se por como a resiliência pode ser desenvolvida ou fortalecida. Seligman (2002) sugere que a resiliência pode ser fortalecida pela psicologia positiva, usando uma abordagem baseada nas forças para desenvolver as capacidades das pessoas, em vez de corrigir as suas dificuldades. Há uma pesquisa considerável sobre programas de tratamento que visam fortalecer a resiliência, e as evidências sugerem que os programas de prevenção são importantes para ajudar as pessoas a superar circunstâncias difíceis e prevenir problemas de saúde mental (Barrett et al., 2014). Há vários programas internacionais baseados na resiliência, como o Penn Resiliency Program (Gillham et al., 2007); no entanto, apenas dois programas de resiliência foram avaliados na Austrália. O programa FRIENDS (Barrett, 2012) e o modelo do Donut da resiliência (Worsley, 2006) visam fortalecer a resiliência em populações não clínicas de crianças e adolescentes.
O programa FRIENDS (Barrett, 2012) é o programa de fortalecimento da resiliência mais pesquisado na Austrália, e foi desenvolvido e avaliado pela primeira vez por Barrett e Turner (2001). O seu objetivo é desenvolver competências sociais e emocionais em crianças e adolescentes, para promover a resiliência e prevenir a ansiedade e a depressão (Barrett et al., 2014). O programa baseia-se no quadro teórico da terapia cognitivo-comportamental (TCC) e da psicologia positiva (Barrett et al., 2014). Usa o acrônimo FRIENDS como base: por exemplo, o F significa feelings (sentimentos) e concentra-se no desenvolvimento de competências sociais e emocionais.
O programa FRIENDS (Barrett, 2012) foi avaliado várias vezes como programa universal, com dados antes, depois e de seguimento (Lock & Barrett, 2003; Barrett, Lock & Farrell, 2005). Os resultados demonstraram que o programa reduziu a ansiedade e aumentou as competências de enfrentamento, com os efeitos mais fortes no grupo de crianças de 9 a 10 anos, em comparação com o grupo de adolescentes de 14 a 16 anos. Lock e Barrett (2003) usaram esses achados para sugerir que uma intervenção mais precoce poderia ser mais benéfica do que uma intervenção mais tardia.
Um estudo de seguimento dos achados de Lock e Barrett (2003) avaliou os efeitos do programa aos 24 e 36 meses (Barrett, Farrell, Ollendick & Dadds, 2006). Constatou que as reduções de ansiedade se mantinham para o grupo mais novo (9-10 anos) dos alunos na condição de tratamento, e não no grupo de controle pareado por idade. Relataram também um efeito de gênero: as meninas do grupo de intervenção tinham pontuações de ansiedade mais baixas após a intervenção do que as do grupo de controle, embora essa diferença não se mantivesse no seguimento aos 36 meses. Os autores sugerem que esse achado apoia a hipótese do estudo anterior de que uma intervenção mais precoce, especificamente entre 9 e 10 anos, é ideal para benefícios de longo prazo.
Embora esses achados sejam positivos, uma consideração importante sobre o programa FRIENDS é se ele se concentra realmente no desenvolvimento da resiliência ou mais na gestão da ansiedade. Os estudos discutidos definem-se principalmente como intervenções de TCC para reduzir a ansiedade, e não como um programa concebido para desenvolver a resiliência. Isso é evidenciado sobretudo pelo fato de os autores não usarem nenhuma medida conhecida de resiliência, como a Resilience Scale for Adolescents (READ; Hjemdal, Friborg, Stiles, Martinussen & Rosenvinge, 2006), para medir o efeito da intervenção FRIENDS no desenvolvimento dos fatores que constroem a resiliência.
O programa do Donut da resiliência foi desenvolvido por Worsley (2006) e baseia-se no quadro teórico da teoria focada nas soluções e da psicologia positiva. Como o nome sugere, o programa organiza-se em torno do conceito de um donut, em que o interior representa as forças internas do indivíduo, e o exterior sete fatores protetores que ele pode ter, como fatores sociais e ambientais (ver a figura 1). As forças internas baseiam-se no trabalho de Grotberg (1995), enquanto os fatores protetores se enraízam na pesquisa teórica de Werner e Smith (2001), Fuller (1998) e Ungar (2008), e são “Pais”, “Competência”, “Família e identidade”, “Escola”, “Pares”, “Comunidade” e “Dinheiro”. Worsley (2014) sugere que o processo de resiliência se constrói quando os fatores externos alimentam as forças internas da criança. Ela afirma que o Donut da resiliência não consiste em ensinar as crianças a ser resilientes, mas em ensinar às famílias e comunidades competências relacionais que constroem a resiliência das crianças. Esse processo ocorre ajudando as crianças e as suas famílias a ganhar mais autoconsciência e competências sociais, e a desenvolver maneiras criativas de fortalecer os seus fatores protetores externos (Worsley, 2008).
Figura 1. O modelo do Donut da resiliência (Worsley, 2006), descrito
Um anel dividido em sete fatias, cada uma com um furo, dispostas em torno de um centro com as palavras “Eu tenho · Eu sou · Eu posso”. As sete fatias, no sentido horário a partir do topo: o fator Pais, o fator Competência, o fator Família e identidade, o fator Escola, o fator Pares, o fator Comunidade, o fator Dinheiro.
Worsley (2014) sugere que nem todos os sete fatores precisam estar presentes para construir a resiliência, mas levanta a hipótese de que três fatores bastam para fortalecer o bem-estar. Ao fortalecer três fatores, Worsley (2014) supõe que os demais também serão fortalecidos. Isso baseia-se nos princípios da teoria focada nas soluções, que sugerem que concentrar-se nas forças, e não nos problemas, produzirá mudança positiva e promoverá a resiliência (Seligman, 2002). Como o programa FRIENDS, o quadro do Donut ensina aos alunos o pensamento otimista e oferece também aos pais sessões de educação sobre o modelo.
O Donut da resiliência (Worsley, 2006) não foi pesquisado com tanta frequência quanto o programa FRIENDS; no entanto, três estudos de caso conduzidos por Worsley (2014) demonstram vários resultados positivos do modelo. Três escolas foram selecionadas para usar o modelo do Donut. O primeiro e o segundo estudos de caso implementaram o programa com alunos de 13 a 15 anos, e o terceiro com alunos de 12 a 17 anos. Membros específicos do pessoal foram formados no modelo, que implementaram com os seus alunos por meio de uma ferramenta on-line. A ferramenta ajudava os alunos a identificar os seus três fatores protetores mais fortes. Os alunos tinham então de desenvolver um projeto ligando essas três forças. Por exemplo, as forças de um aluno poderiam ser o fator Pais, o fator Competência (o futebol) e o fator Comunidade. O seu projeto poderia consistir em organizar uma partida de futebol no parque local e convidar os pais a participar.
Medidas de ansiedade, depressão e resiliência antes e depois foram tomadas para cada estudo de caso, com seguimento longitudinal aos 12 e 24 meses. As medidas diferiam entre os estudos, mas incluíam a Multidimensional Anxiety Scale for Children (MASC-10; March, 1997), o Child Depression Index (CDI-10; Kovacs, 2003), o Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ; Goodman, 1997), a Child, Youth Resilience Measure (CYRM; Ungar, 2008), a Resilience Scale (RS-14; Wagnild & Young, 1993) e a Resilience Scale for Adolescents (READ; Hjemdal et al., 2006). Os resultados pós-intervenção mostraram que as crianças com ansiedade alta e média, segundo a MASC-10, aumentaram as suas pontuações de resiliência ao longo do tempo. Worsley (2014) sugere que esses resultados demonstram que o Donut pode ser usado com sucesso para construir a resiliência dos adolescentes.
São necessárias mais pesquisas para desenvolver as evidências empíricas do modelo. Em particular, implementar o programa em várias sessões, e não numa só, para dar aos participantes mais tempo para tirar proveito dos recursos específicos à sua volta (Luthar & Cicchetti, 2000); e implementá-lo tanto com alunos do ensino fundamental quanto do ensino médio, comparando as suas pontuações de resiliência. Isso poderia prolongar a sugestão de Barrett et al. (2006) de que os programas implementados mais cedo são mais eficazes para reduzir os sintomas de ansiedade e/ou depressão e melhorar a resiliência.
O presente estudo prolonga a pesquisa de Worsley (2014) ao avaliar dois programas baseados no modelo do Donut da resiliência (2006). Os programas Connect-3 (8-12 anos) e Linked-Up (13-16 anos) são programas de grupo interativos de seis semanas, concebidos para ajudar os jovens a desenvolver a sua competência pessoal, melhorar as suas interações sociais e desenvolver competências de pensamento resiliente (Worsley, 2012a e 2012b). Esta pesquisa visa avaliar a eficácia dos dois programas medindo a mudança entre antes e depois da intervenção nos participantes, com a Resilience Scale for Adolescents (READ; Hjemdal et al., 2006) e o Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ; Goodman, 1997).
A hipótese era uma melhoria significativa das pontuações de resiliência e uma diminuição das pontuações de dificuldades após a intervenção. Especificamente, os participantes aumentariam as suas pontuações em todas as subescalas do READ e diminuiriam as suas pontuações nas subescalas do SDQ, com exceção da escala pró-social, que aumentaria. Em segundo lugar, o grupo Connect-3 teria uma diminuição das pontuações de dificuldades e um aumento das pontuações de resiliência maiores do que o grupo Linked-Up, com base nos achados de Barrett et al. (2006). Por fim, as meninas teriam uma redução das dificuldades e um aumento da resiliência maiores do que os meninos, de novo com base em Barrett et al. (2006).
Nota dos autores. A aprovação ética deste estudo foi obtida junto ao comitê de ética em pesquisa com seres humanos da University of Newcastle (referência H-2015-0152).
Os participantes eram crianças e adolescentes de 8 a 17 anos inscritos no programa Connect-3 ou Linked-Up. Havia 70 participantes no total: 40 meninos (57%) e 30 meninas (43%), com idade média de 10,43 anos (DP = 2,74). Havia 48 participantes (69%) no grupo Connect-3 (60% meninos, 40% meninas) e 22 (31%) no grupo Linked-Up (50% meninos e meninas).
Os pais dos participantes preencheram com o filho um formulário de consentimento que autorizava a coleta, a anonimização e o uso das informações da criança para o projeto de pesquisa. Os participantes que não consentiram em participar da pesquisa puderam mesmo assim completar o programa de resiliência.
Os programas foram realizados no Resilience Centre, em Sydney, num subúrbio de nível socioeconômico alto segundo os índices socioeconômicos por área (SEIFA). O SEIFA é um conjunto de índices criados pelo Escritório Australiano de Estatística (ABS) para analisar o status socioeconômico de uma população. A área estatística de Epping-North Epping classifica-se no decil mais alto para três das quatro medidas SEIFA, o que indica uma população muito favorecida e muito escolarizada (ABS, 2013). Dados demográficos mais específicos não estavam disponíveis, mas os participantes vinham em geral de famílias com recursos financeiros, já que precisavam pagar 350 dólares para participar do programa. Além disso, como parte do programa, os pais eram convidados a sessões de informação para incentivá-los a se envolver com o que o filho estava aprendendo. Não há dados disponíveis sobre a presença dos pais nessas sessões.
Os participantes foram recrutados de várias maneiras, mais comumente por autoencaminhamento. Os programas de resiliência têm uma forte reputação na área geográfica local, e muitos encaminhamentos vêm de recomendações de participantes anteriores. Outras fontes de encaminhamento incluem clínicos gerais, orientadores escolares ou psicólogos que conhecem o programa, e que geralmente encaminham porque o jovem tem dificuldades de ansiedade. Detalhes sobre o número de participantes encaminhados por cada fonte não estavam disponíveis.
Os grupos funcionavam com cerca de 6 a 10 participantes. Se um participante não pudesse comparecer a alguma das seis sessões, era-lhe oferecida uma sessão individual de reposição com o psicólogo em formação que cofacilitava o programa.
Os programas Linked-Up e Connect-3 decorreram cada um ao longo de seis semanas, com sessões semanais de uma hora e meia. Tinham estrutura idêntica, com exemplos e fichas de trabalho diferentes para adaptar os conceitos do Donut às duas faixas etárias. Foram conduzidos por uma psicóloga e um psicólogo em formação que tinham completado a formação credenciada no Donut da resiliência (Worsley, 2008). Os facilitadores seguiam a estrutura dos manuais do programa, resumida na tabela 1. Além disso, uma sessão de informação aos pais era realizada após a primeira sessão, para que os pais e outros membros da família ou da comunidade pudessem se envolver com o que a criança fazia no programa. Após cada uma das outras sessões, uma carta aos pais detalhava o conteúdo e como as estratégias discutidas poderiam ser implementadas e desenvolvidas em casa ou na escola. Não há dados disponíveis sobre a frequência geral dos alunos às seis sessões nem sobre a presença dos pais na primeira semana.
Tabela 1. Visão geral dos programas Connect-3 e Linked-Up
Semana 1 — Apresentação do Donut da resiliência. Semana 2 — Identificação das forças do jovem. Semana 3 — Aprendizagem do pensamento otimista. Semana 4 — Aprendizagem da empatia e das competências sociais. Semana 5 — Relato do seu projeto de gentileza. Semana 6 — Notar a mudança.
O Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ; Goodman, 1997) e a Resilience Scale for Adolescents (READ; Hjemdal et al., 2006) foram aplicados aos alunos uma semana antes do início do programa e repetidos após a conclusão da sexta sessão. A maioria dos participantes preencheu os questionários no computador, mas, devido a complicações técnicas, seis participantes tiveram de preenchê-los em papel, e os resultados foram inseridos manualmente na base de dados.
O Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ; Goodman, 1997). O SDQ é um breve questionário de rastreamento comportamental para pessoas de 3 a 16 anos. Contém 25 itens, divididos em cinco subescalas: sintomas emocionais, problemas de conduta, hiperatividade/desatenção, problemas de relacionamento com os pares e comportamento pró-social.
Neste estudo, o SDQ foi usado como medida dos fatores de risco ou adversidades dos participantes. Pontuações mais altas em cada subescala indicam um nível mais alto de sintomas emocionais, problemas de conduta, hiperatividade, problemas com os pares e dificuldades totais, com exceção da escala pró-social. Como esta mede a competência social, pontuações mais altas indicam um nível mais alto de resiliência social. As pontuações das subescalas do SDQ dividem-se em quatro categorias descritivas, baseadas nos pontos de corte clínicos. Vão de “próximo da média”, indicando uma pontuação de dificuldades ou pró-social dentro da norma, a “muito alto” (ou “muito baixo”), indicando uma pontuação de dificuldades muito acima da média (ou uma pontuação pró-social muito abaixo). O SDQ demonstrou anteriormente boa consistência interna, com um alfa de Cronbach de 0,93 (Goodman, 2001). No presente estudo, teve consistência interna moderada a fraca, com coeficientes alfa de 0,43 a 0,65 antes da intervenção e de 0,43 a 0,82 depois (ver a tabela 2). A validade do SDQ está bem estabelecida (Goodman, Ford, Simmons, Gatward & Meltzer, 2000).
Tabela 2. Fidedignidade das subescalas do READ e do SDQ antes e depois (alfa de Cronbach, antes / depois)
READ — Competência pessoal 0,78 / 0,83; Competência social 0,75 / 0,74; Estilo estruturado 0,58 / 0,43; Recursos sociais 0,78 / 0,69; Coesão familiar 0,83 / 0,82.
SDQ — Problemas emocionais 0,61 / 0,82; Problemas de conduta 0,50 / 0,51; Hiperatividade 0,58 / 0,50; Problemas com os pares 0,43 / 0,43; Comportamento pró-social 0,65 / 0,65; Dificuldades totais 0,49 / 0,64.
A Resilience Scale for Adolescents (READ; Hjemdal et al., 2006). O READ (Hjemdal et al., 2006) é um questionário de 28 itens, também composto de cinco subescalas: competência pessoal, competência social, estilo estruturado, consciência dos recursos sociais e coesão familiar. O READ foi usado como medida de resiliência neste estudo. Não tem pontos de corte clínicos recomendados, mas pontuações mais altas em cada subescala indicam níveis mais altos de resiliência. O READ demonstrou anteriormente consistência interna muito forte, com um alfa de Cronbach de 0,94 (Hjemdal et al., 2006). No presente estudo, demonstrou consistência interna adequada, com coeficientes alfa de 0,58 a 0,83 antes da intervenção e de 0,43 a 0,83 depois (ver a tabela 2). O READ é considerado uma medida válida de resiliência (von Soest, Mossige, Stefansen & Hjemdal, 2009).
As análises estatísticas foram realizadas com o IBM SPSS Statistics para Windows (versão 21.0; SPSS, Chicago, IL, EUA), e todos os testes usaram um erro de tipo I de α = 0,05. Os coeficientes alfa de Cronbach foram calculados para o READ e o SDQ nos dois momentos, para determinar a consistência interna das subescalas nesses alunos.
Foram criados modelos lineares mistos para todas as subescalas do SDQ (dificuldades totais, sintomas emocionais, problemas de conduta, hiperatividade/desatenção, problemas de relacionamento com os pares e comportamento pró-social) e do READ (competência pessoal, competência social, estilo estruturado, consciência dos recursos e coesão familiar), para comparar a linha de base com o pós-tratamento nos alunos de cada um dos grupos Connect-3 e Linked-Up separadamente.
Uma abordagem por modelos mistos para a análise de medidas repetidas foi usada porque analisa por intenção de tratar e porque havia dados incompletos dos participantes entre antes e depois da intervenção. O presente estudo tinha apenas 29 pontos de dados disponíveis para a análise pós-intervenção. A análise por modelos mistos garantiu que todos os participantes fossem incluídos e permitiu ajustes inerentes às pontuações de base. Outra vantagem é que a matriz de covariância ótima é selecionada, resultando “em estimativas mais apropriadas do efeito do tratamento e dos seus erros-padrão” (Brown & Prescott, 2006, p. 3). A escolha do modelo baseou-se na comparação de duas estruturas de covariância (simetria composta e não estruturada/geral), sendo a matriz mais bem ajustada indicada pelos valores mais baixos do critério de informação de Akaike (AIC) e do critério bayesiano de Schwartz (BIC). A matriz de simetria composta foi o modelo mais apropriado para todas as subescalas. O tamanho de efeito d de Cohen foi calculado para cada variável a partir do desvio-padrão agrupado da matriz de covariância residual (Dunst & Hamby, 2012).
Outros modelos foram usados para examinar diferenças de gênero em cada um dos dois grupos etários (Connect-3 e Linked-Up). A correlação entre as subescalas do READ e do SDQ foi examinada com o rô de Spearman, devido ao número relativamente pequeno de alunos e à não normalidade das distribuições.
Os resultados do grupo Connect-3 (N = 50) no SDQ mostraram uma redução significativa das pontuações médias de 2,11 pontos entre antes e depois da intervenção para as dificuldades totais, F(1,32) = 4,60, p = 0,04, d = 0,37 (ver a tabela 3).
Tabela 3. Médias marginais estimadas (M) do modelo linear misto, significância (p) e tamanho de efeito (d) para o grupo Connect-3 (n = 48) no SDQ
Para cada linha: antes M (EP); depois M (EP); diferença; p; IC 95%; d de Cohen.
Dificuldades totais — 17,71 (0,81); 15,60 (1,05); −2,11; 0,04*; 0,11 a 4,11; 0,37.
Problemas emocionais — 4,90 (0,36); 4,05 (0,46); −0,84; 0,06; −0,02 a 1,71; 0,33.
Problemas de conduta — 3,37 (0,26); 3,20 (0,35); −0,17; 0,63; −0,87 a 0,53; 0,09.
Hiperatividade — 5,85 (0,29); 5,04 (0,40); −0,82; 0,06; −1,68 a 0,04; 0,40.
Problemas com os pares — 3,59 (0,32); 3,35 (0,41); −0,24; 0,52; −1,00 a 0,52; 0,11.
Comportamento pró-social — 7,74 (0,25); 8,02 (0,33); 0,28; 0,40; −0,39 a 0,95; 0,16.
Tabela 4. Médias marginais estimadas (M), significância (p) e tamanho de efeito (d) para o grupo Connect-3 (n = 44) no READ
Competência pessoal — 19,79 (0,81); 22,44 (1,01); 2,65; 0,01*; 0,66 a 4,64; 0,49.
Competência social — 14,47 (0,54); 15,10 (0,65); 0,63; 0,29; −0,56 a 1,82; 0,17.
Estilo estruturado — 10,40 (0,43); 10,84 (0,56); 0,44; 0,45; −0,74 a 1,62; 0,15.
Recursos sociais — 16,47 (0,49); 16,49 (0,58); 0,02; 0,97; −0,96 a 1,00; 0,01.
Coesão familiar — 19,29 (0,58); 19,44 (0,73); 0,15; 0,84; −1,34 a 1,64; 0,04.
Além disso, as diferenças de pontuação nas subescalas Problemas emocionais e Hiperatividade aproximavam-se da significância, F(1,33) = 3,92, p = 0,06, d = 0,33 e F(1,37) = 3,70, p = 0,06, d = 0,40, respectivamente. Nenhuma outra subescala do SDQ mostrou mudança significativa entre antes e depois para o grupo Connect-3. No READ, o grupo Connect-3 mostrou um aumento significativo das pontuações médias de 2,65 pontos na subescala Competência pessoal, F(1,36) = 7,31, p = 0,01, d = 0,49 (ver a tabela 4). Nenhuma outra subescala do READ foi significativa para esse grupo.
Os resultados do grupo Linked-Up (N = 22) não mostraram mudança significativa das pontuações entre antes e depois da intervenção, nem no SDQ nem no READ (ver as tabelas 5 e 6). No entanto, a subescala Comportamento pró-social do SDQ aproximava-se da significância, F(1,34) = 3,62, p = 0,07, d = 0,62. Houve um aumento aparente das pontuações médias de 1,09 ponto entre antes e depois (ver a tabela 5).
Tabela 5. Médias marginais estimadas (M), significância (p) e tamanho de efeito (d) para o grupo Linked-Up (n = 22) no SDQ
Dificuldades totais — 18,59 (1,21); 15,60 (1,05); −2,11; 0,04*; 0,11 a 4,11; 0,37.
Problemas emocionais — 5,59 (0,54); 4,05 (0,46); −0,84; 0,06; −0,02 a 1,71; 0,33.
Problemas de conduta — 3,32 (0,39); 3,20 (0,35); −0,17; 0,63; −0,87 a 0,53; 0,09.
Hiperatividade — 5,27 (0,43); 5,04 (0,40); −0,82; 0,06; −1,68 a 0,04; 0,40.
Problemas com os pares — 4,41 (0,48); 3,35 (0,41); −0,24; 0,52; −1,00 a 0,52; 0,11.
Comportamento pró-social — 7,23 (0,37); 8,02 (0,33); 0,28; 0,40; −0,39 a 0,95; 0,16.
Complexe Systémique: na versão publicada, as colunas “depois”, “diferença”, “p”, “IC” e “d” desta tabela são idênticas às da tabela 3 (grupo Connect-3), o que contradiz o texto dos autores (nenhuma mudança significativa para o Linked-Up; comportamento pró-social +1,09, p = 0,07, d = 0,62). Trata-se, com toda a probabilidade, de um erro de diagramação do original. Reproduzimos a tabela tal como impressa; apenas as colunas “antes” são próprias do grupo Linked-Up.
Tabela 6. Médias marginais estimadas (M), significância (p) e tamanho de efeito (d) para o grupo Linked-Up (n = 22) no READ
Competência pessoal — 17,72 (1,15); 17,14 (1,79); −0,59; 0,74; −2,91 a 4,09; 0,11.
Competência social — 12,50 (0,77); 12,49 (1,13); −0,15; 0,99; −2,09 a 2,12; 0,04.
Estilo estruturado — 8,96 (0,61); 9,19 (1,00); 0,23; 0,82; −1,83 a 2,30; 0,08.
Recursos sociais — 14,91 (0,70); 14,36 (0,98); −0,55; 0,52; −2,28 a 1,18; 0,17.
Coesão familiar — 16,36 (0,82); 15,17 (1,30); −1,19; 0,36; −3,81 a 1,42; 0,31.
Uma análise complementar foi realizada para determinar se os resultados globais eram significativos tanto para os meninos quanto para as meninas. Houve pouca diferença de gênero entre a linha de base e o pós-intervenção, tanto no grupo Connect-3 quanto no Linked-Up. A única diferença significativa foi encontrada no grupo Connect-3, na subescala Competência pessoal: os meninos aumentaram significativamente (p = 0,01) as suas pontuações entre antes (M = 19,54) e depois da intervenção (M = 23,02).
Como previsto, a maioria das subescalas do READ estava negativamente correlacionada com as subescalas do SDQ, com exceção da escala pró-social, cuja correlação era significativamente positiva (ver a tabela 7). Especificamente, a escala pró-social estava positivamente correlacionada com a Competência pessoal (0,31, p = 0,01), a Competência social (0,39, p < 0,01), os Recursos sociais (0,40, p < 0,01), a Coesão familiar (0,26, p = 0,04), e aproximava-se da significância para o Estilo estruturado (0,24, p = 0,06). A Competência social estava positivamente correlacionada com a Hiperatividade (0,30, p = 0,02).
Tabela 7. Matriz de correlação (rô de Spearman) entre as subescalas do READ e do SDQ (N = 64 para cada coeficiente)
Para cada subescala do READ, os coeficientes (e o seu p bilateral) com, na ordem: Problemas emocionais; Problemas de conduta; Hiperatividade; Problemas com os pares; Comportamento pró-social; Dificuldades totais.
Competência pessoal — −0,476** (0,000); −0,182 (0,150); −0,005 (0,968); −0,198 (0,116); 0,307** (0,014); −0,354** (0,004).
Competência social — −0,197 (0,118); −0,139 (0,275); 0,301* (0,016); −0,326** (0,009); 0,393** (0,001); −0,146 (0,251).
Estilo estruturado — −0,327** (0,008); −0,316* (0,011); −0,208 (0,099); −0,124 (0,330); 0,238 (0,059); −0,361** (0,003).
Recursos sociais — −0,144 (0,256); −0,154 (0,224); 0,120 (0,347); −0,149 (0,239); 0,398** (0,001); −0,155 (0,222).
Coesão familiar — −0,204 (0,106); −0,223 (0,076); −0,014 (0,914); −0,068 (0,594); −0,263* (0,036); −0,218 (0,083).
Complexe Systémique: a tabela original imprime “−4,76**” na primeira célula, gralha evidente para −0,476; e o coeficiente entre Coesão familiar e Comportamento pró-social está impresso negativo (−0,263), enquanto o texto o dá como positivo (0,26, p = 0,04). Reproduzimos os valores impressos.
Dos 70 participantes para os quais havia dados pré-intervenção do SDQ e do READ, 29 (41%) tinham dados pós-intervenção. Dois participantes do grupo Connect-3 tinham dados pós-intervenção, mas não dados pré-intervenção. Dada essa baixa taxa de retenção, testes t para amostras independentes foram realizados em cada subescala e nos dados demográficos disponíveis do READ e do SDQ, para comparar as pontuações de base dos alunos para os quais nenhuma medida pós-intervenção estava disponível. Os dois grupos eram semelhantes em todos os aspectos, exceto na Coesão familiar (p = 0,04) do READ, e nos Problemas com os pares (p = 0,01) e nas Dificuldades totais (p = 0,02) do SDQ (ver a tabela 8).
Tabela 8. Medidas de base dos 41 alunos sem dados no tempo 2, comparados aos 29 alunos que completaram os dois momentos de medida
Para cada linha: dados pós não disponíveis (n = 41); dados pós disponíveis (n = 29); p.
Idade 11,14; 10,5; 0,33. Gênero (meninos) 26 (61%); 16 (55%); 0,66. Competência pessoal 18,70; 19,55; 0,54. Competência social 13,62; 13,90; 0,77. Estilo estruturado 9,38; 10,59; 0,10. Recursos sociais 15,27; 16,69; 0,08. Coesão familiar 17,35; 19,45; 0,04*. Problemas emocionais 4,88; 5,54; 0,26. Problemas de conduta 3,24; 3,50; 0,54. Hiperatividade 5,40; 6,07; 0,16. Problemas com os pares 3,31; 4,57; 0,01*. Comportamento pró-social 7,50; 7,71; 0,62. Dificuldades totais 16,83; 19,68; 0,02*.
O objetivo do presente estudo era prolongar a pesquisa de Worsley (2014) sobre o modelo do Donut da resiliência e, mais precisamente, avaliar a eficácia de dois programas baseados nesse modelo. Os programas Connect-3 e Linked-Up são intervenções de grupo que visam ajudar os jovens a encontrar as suas forças, melhorar as suas interações sociais e desenvolver competências de pensamento resiliente. A sua eficácia foi avaliada examinando medidas antes e depois da intervenção de resiliência, com o READ (Hjemdal et al., 2006), e de adversidades, com o SDQ (Goodman, 1997). O estudo examinou também as diferenças de idade e de gênero entre antes e depois.
Os resultados do grupo Connect-3 mostram que houve mudanças significativas nas pontuações entre antes e depois da intervenção. Especificamente, os participantes reduziram significativamente a sua pontuação de dificuldades totais após a intervenção. Tiveram também um aumento significativo nas pontuações da subescala Competência pessoal do READ. Além disso, houve uma diminuição aparente nas subescalas Problemas emocionais e Hiperatividade, tendendo à significância. Embora esses resultados forneçam boas evidências a favor do programa Connect-3 para reduzir as adversidades, é importante considerar a relevância clínica das pontuações. Em todas as subescalas do SDQ, as pontuações médias dos participantes situavam-se nas categorias descritivas “média” a “ligeiramente elevada”, sugerindo que os participantes não tinham uma taxa clinicamente alta de dificuldades, mesmo antes do tratamento. Isso não surpreende, dado que o estudo foi realizado com uma população não clínica.
Ao contrário do grupo Connect-3 (alunos em idade de ensino fundamental), o grupo Linked-Up (alunos em idade de ensino médio) não mostrou mudança significativa entre a linha de base e o pós-intervenção. Esses resultados apoiam os achados de Lock e Barrett (2003) e de Barrett et al. (2006), segundo os quais implementar programas com crianças em idade de ensino fundamental parece mais eficaz para reduzir as adversidades do que com jovens em idade de ensino médio. O pequeno número de participantes do grupo Linked-Up pode ter influenciado esses achados, já que havia apenas 22 participantes antes da intervenção e sete depois. Houve um aumento não significativo das pontuações de dificuldades totais para o grupo Linked-Up, que parece mais provavelmente devido a variação aleatória do que a um erro de tipo II. Embora essas pontuações se baseiem em apenas sete participantes disponíveis, não parece haver tendência de queda das médias marginais estimadas entre antes e depois, ao contrário do que era aparente no grupo Connect-3.
No entanto, ao contrário dos achados de Barrett et al. (2006), este estudo não encontrou diferença significativa entre meninos e meninas nas mudanças entre a linha de base e o pós-intervenção para a maioria das subescalas. A única exceção foi no grupo Connect-3, em que as pontuações dos meninos aumentaram significativamente na subescala Competência pessoal. Esse achado sem relevo sugere que meninos e meninas geralmente não respondem de forma diferente aos programas do Donut da resiliência.
Como previsto, houve um aumento significativo das pontuações de resiliência (READ) e uma diminuição das pontuações de dificuldades (SDQ) após a intervenção, como mostra a matriz de correlação das duas medidas (tabela 7), o que é consistente com os achados de Worsley (2014). No entanto, ao contrário do estudo de Worsley (2014), um pequeno número de subescalas do SDQ não teve correlações significativas com as subescalas do READ, como a escala de Hiperatividade. Isso deve-se provavelmente ao tipo de participantes do grupo, mais comumente encaminhados por dificuldades de ansiedade do que por problemas de hiperatividade. Ao contrário do estudo de Worsley (2014) (em particular o terceiro estudo de caso), esta pesquisa incluía participantes de meios socioeconomicamente favorecidos.
Inesperadamente, a Competência social estava positivamente correlacionada com a Hiperatividade. Isso é de novo, provavelmente, o resultado de uma população tímida e ansiosa. A escala de Hiperatividade pode indicar participantes mais extrovertidos e não hiperativos, como evidenciam pontuações de hiperatividade dentro da norma clínica.
O presente estudo é o primeiro a examinar a eficácia dos programas de grupo Connect-3 e Linked-Up baseados no modelo do Donut da resiliência. Os dados recolhidos fornecem mais percepções sobre os fatores que constroem a resiliência dos jovens numa população bem dotada de recursos. Esses achados fornecem a base para estudar esses programas em populações mais diversas e menos abastadas.
Outra força deste estudo é que os programas Connect-3 e Linked-Up são programas inovadores, baseados nas forças, que visam construir a resiliência em vários domínios, como os fatores comunitários e os pares. Ao contrário de outros programas que podem se concentrar unicamente no desenvolvimento das características do indivíduo (por exemplo, competências de enfrentamento), os programas do Donut são concebidos para envolver os jovens na conexão com a família, a comunidade e os outros recursos externos à sua volta. As subescalas do READ dão alguma medida desses recursos; a pesquisa futura poderia, no entanto, concentrar-se mais especificamente em como essa visão mais ampla da resiliência influencia a eficácia dos programas.
Por fim, a dificuldade em obter as pontuações pós-intervenção do READ e do SDQ destaca a importância de uma boa garantia de qualidade na clínica privada. Este estudo foi o catalisador de uma melhoria do sistema de coleta de dados, incluindo a identificação de problemas técnicos do programa informático. Procedimentos mais rigorosos de coleta e registro de dados ajudarão a clínica a realizar outras pesquisas rigorosas sobre os programas que oferece, e lhe permitirão continuar a contribuir para o campo crescente da pesquisa sobre resiliência.
Esta pesquisa teve várias limitações. Primeiro, havia apenas um pequeno número de participantes no grupo Linked-Up. Esses números reduzidos podem ter afetado a capacidade de encontrar mudanças significativas nas pontuações do READ e do SDQ ao longo do tempo. Mais pesquisas na população adolescente são necessárias para avaliar isso com mais profundidade.
Outra limitação foi a pequena quantidade de dados pós-intervenção disponíveis. Havia apenas 29 pontos de dados disponíveis para a análise pós-intervenção; no entanto, isso não é uma indicação direta das taxas de abandono, já que a maioria dos participantes completou o programa por inteiro. Esse número baixo pode dever-se antes a problemas técnicos, com a falha do sistema informático em salvar os dados corretamente. Pode também dever-se ao fato de alguns participantes não terem comparecido à sessão de seguimento, onde a maior parte dos dados pós-intervenção foi recolhida. Foram feitas tentativas para que os participantes preenchessem os questionários mais tarde, mas nem sempre foi possível. Os resultados dos testes t para amostras independentes mostraram que apenas as subescalas Coesão familiar, Problemas com os pares e Dificuldades totais eram significativas para os participantes sem dados pós-intervenção. Não está claro o que pode ter contribuído para isso; pode ser que os participantes com apoio familiar mais limitado não tenham conseguido comparecer à sessão de seguimento para a coleta de dados, já que tinham pontuações de base de Coesão familiar significativamente mais baixas. Alternativamente, pode ser que esses participantes não tenham comparecido à sessão de seguimento porque não precisavam da intervenção, já que tinham pontuações significativamente mais baixas de Problemas com os pares e de Dificuldades totais.
Outra limitação foi a pequena quantidade de dados demográficos e descritivos disponíveis para analisar a população de participantes. Especificamente, não havia dados para examinar quantos participantes tinham completado intervenções anteriores, ou quantos recebiam outra intervenção psicológica em paralelo ao programa, sobretudo dado que muitos encaminhamentos vinham de psicólogos. Da mesma forma, há uma limitação para os participantes que se autoencaminharam, pois os autoencaminhamentos muitas vezes captam apenas uma população propensa a estar interessada e mais engajada no programa, o que pode enviesar os resultados para uma resposta positiva.
Por fim, o desenho da presente pesquisa constitui uma limitação importante. Tratava-se de um desenho pré-pós, sem grupo de controle. Isso limita as conclusões que se podem tirar dos achados quanto à eficácia geral do programa.
O presente estudo examinou o efeito dos programas Connect-3 e Linked-Up na melhoria das pontuações de resiliência numa população pequena e homogênea, socioeconomicamente favorecida e, portanto, suficientemente dotada de recursos para já ser resiliente, como sugere Ungar (2008). A pesquisa futura poderia examinar a eficácia dos grupos Connect-3 e Linked-Up numa população exposta a mais adversidade, o que poderia dar resultados clinicamente mais significativos. Poderia também ser interessante examinar como esses programas se comparam a outros programas internacionais de resiliência, como o Penn Resiliency Program (Gillham et al., 2007).
Outra área de pesquisa futura poderia ser examinar como esses programas ajudam os jovens a se envolver com os recursos à sua volta, como a família e a comunidade, e como, por sua vez, esses recursos constroem a resiliência do jovem. Por exemplo, os programas foram concebidos para envolver a família do jovem por meio de sessões de informação aos pais. A família e a comunidade eram também envolvidas nas tarefas de casa, como o projeto de gentileza, em que os participantes tinham de desenvolver um projeto que os ligasse aos seus recursos sociais disponíveis (escola, clube esportivo, família, comunidade religiosa). A pesquisa futura poderia examinar o impacto dessas conexões na construção da resiliência. Isso é particularmente importante, já que a resiliência é cada vez mais definida como um processo de superação da adversidade pelo uso de recursos tanto individuais quanto ambientais (Ungar et al., 2008; Windle et al., 2011).
Por fim, os estudos futuros deveriam considerar mudar o desenho do estudo. Em vez de um desenho pré-pós, a pesquisa futura poderia considerar a atribuição aleatória a grupos de formação e de controle. Isso garantiria resultados estatisticamente mais robustos, que poderiam ampliar o alcance das implicações clínicas dos programas.
A presente pesquisa oferece uma perspectiva sobre a construção da resiliência em populações não clínicas de crianças e adolescentes, por meio dos programas Connect-3 e Linked-Up. Esses dois programas de seis semanas, baseados no modelo do Donut da resiliência, demonstraram a capacidade de desenvolver a competência pessoal e reduzir as dificuldades totais em jovens de 8 a 12 anos. No entanto, mais pesquisas são necessárias para examinar o impacto dos programas em amostras de populações não clínicas e clínicas.
Complexe Systémique: o que reter
O que vale a visita aqui, mais do que os números, é o modelo: um anel de sete fatores em torno da criança, dos quais basta solidificar três, e a ideia de Worsley de que não se ensina uma criança a ser resiliente, ensinam-se à sua família e à sua comunidade maneiras de estar em relação. É uma definição ecológica da resiliência, a de Ungar, que qualquer sistêmico reconhecerá. O estudo em si é frágil e o diz: sem grupo de controle, uma clínica privada de um bairro abastado, 41% dos dados de saída, e uma tabela 5 cujas colunas foram manifestamente duplicadas da tabela 3 na versão impressa (nós o assinalamos no lugar). Para ler com a revisão sistemática de Ghataorhe Johnson, Robinson e McCabe, que situa esse tipo de programa no conjunto da pesquisa, e com John Henden sobre a resiliência após o trauma.
Sobre os autores
Kaitlyn Miller é psicóloga clínica em formação pós-graduada no serviço de saúde mental da criança e do adolescente do John Hunter Children’s Hospital, em Newcastle, Austrália, e membro associada da Australian Psychological Society. Prossegue estudos em políticas públicas e pesquisa social aplicadas, com interesse na elaboração de políticas baseadas em quadros de resiliência. E-mail: Kaitlyn.Miller@hnehealth.nsw.gov.au
Lyn Worsley é psicóloga clínica e diretora do Resilience Centre, em Sydney, Austrália. É autora do Donut da resiliência, um modelo pioneiro que mostra os contextos fortes em que a resiliência se fortalece, tanto durante o desenvolvimento quanto na vida adulta. E-mail: lyn@theresiliencecentre.com.au
Tanya Hanstock é professora sênior e coordenadora do programa de psicologia clínica da University of Newcastle, Austrália. Leciona psicologia clínica da criança e da família. Conduziu vários projetos de pesquisa em saúde mental da criança e do adolescente e supervisionou vários trabalhos de estudantes nessa área. Psicóloga clínica sênior especializada na avaliação e no tratamento de crianças e adolescentes, interessa-se particularmente pela promoção da resiliência dos jovens. E-mail: Tanya.Hanstock@newcastle.edu.au
Megan Valentine é estatística de pesquisa no serviço de apoio estatístico da University of Newcastle; contribuiu para o desenho e a análise de estudos em várias disciplinas, principalmente em psicologia e educação especial. É também tutora de estatística para estudantes de ciências e de saúde pública para estudantes de medicina.
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Tradução não oficial para o português de Evaluating the effectiveness of a resilience program for children and young people in a private Australian psychology clinic, de Kaitlyn Miller, Lyn Worsley, Tanya Hanstock e Megan Valentine, publicado no Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n.º 2 (2016), p. 37-60, doi: 10.59874/001c.75093, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, com as tabelas em fichas e a figura descrita. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Evaluating the effectiveness of a resilience program for children and young people in a private Australian psychology clinic”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Miller, K., Worsley, L., Hanstock, T., & Valentine, M. (2016). Avaliar a eficácia de um programa de resiliência para crianças e jovens numa clínica de psicologia privada australiana (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/avaliar-a-eficacia-de-um-programa-de-resiliencia-para-criancas-e-jovens-numa-clinica-privada-australiana (Obra original publicada em 2016 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n° 2 (2016), p. 37-60; republicada em 2016 por Journal of Solution-Focused Brief Therapy, https://journalsfp.org/article/75093)
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