Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Adoption & Fostering · Família
Antes de 1989, na Inglaterra, adotavam-se sobretudo bebês entregues para adoção em sigilo. Quatro pessoas adotadas nessa época, duas mães e dois pais, contam o que o nascimento dos filhos despertou: a mãe de origem de repente imaginada, a raiva, o medo de perder, mas também um pertencimento enfim encontrado. Um fio atravessa os relatos: o silêncio da família adotiva reaparece na dificuldade de falar da adoção com os próprios filhos.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Compreender como pessoas adotadas na Inglaterra antes de 1989 vivem a parentalidade, de Tamryn Stevens e Mark C. Moss, publicado na Adoption & Fostering (SAGE) (2026), doi: 10.1177/03085759261421601, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas; o endereço de correspondência, o identificador ORCID e as notas biográficas não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Um resultado central é o efeito duradouro da abertura dos pais adotivos.
Tamryn Stevens e Mark C. Moss
Resumo
A adoção tem um impacto que dura a vida toda, e acontecimentos como tornar-se mãe ou pai reativam pensamentos e sentimentos ligados à adoção. Na Inglaterra, a adoção se divide em geral em duas épocas: antes dos anos 1980, adoções geralmente sigilosas de bebês entregues para adoção por causa da visão social sobre filhos nascidos fora do casamento e sobre relações inter-raciais; depois dos anos 1980, adoções de crianças mais velhas, muitas vezes retiradas da família por maus-tratos ou negligência. Este estudo explora como pessoas adotadas antes de 1989, que podem ter crescido com abertura biográfica e comunicativa limitada e com menos apoio pós-adoção, vivem a parentalidade, uma etapa da vida que afeta a identidade, a saúde mental e as relações, áreas particularmente complexas para pessoas adotadas. Quatro pessoas adotadas na Inglaterra (dois homens e duas mulheres, com idades entre 40 e 50 anos), adotadas no próprio país antes dos 18 meses (três ao nascer) e com dois ou mais filhos, em sua maioria adolescentes ou na casa dos 20 anos, participaram de entrevistas semiestruturadas sobre seu percurso na parentalidade. A análise fenomenológica interpretativa revelou três temas: “A parentalidade é um despertar”, “A adoção continua ecoando” e “Seguir em frente”. A abertura comunicativa na família adotiva teve efeitos duradouros na comunicação das pessoas adotadas com os próprios filhos. Entre as recomendações estão a formação das famílias adotivas sobre o impacto da adoção ao longo da vida e a promoção de uma comunicação aberta e acolhedora com as pessoas adotadas. Recomenda-se também um apoio psicossocial específico para pessoas adotadas que se tornam mães ou pais.
Palavras-chave: parentalidade adotiva, parentalidade de pessoas adotadas, abertura comunicativa, análise fenomenológica interpretativa, comunicação familiar, desenvolvimento da identidade, identidade parental, abertura biográfica, desfechos de pessoas adotadas, entrevistas qualitativas
A adoção tem um impacto que dura a vida toda e leva a reavaliações periódicas da identidade, das dinâmicas familiares e da narrativa da adoção (Brodzinsky et al., 1992; Howe et al., 2000; Penny et al., 2007). A parentalidade pode reativar questões ligadas à adoção, despertando novas perguntas sobre a família de origem, a identidade e a adoção (Brodzinsky et al., 1992; Gatzke, 2015; Pérez et al., 2016; Pinkerton, 2011; Sherr et al., 2019).
As pessoas adotadas na Inglaterra se dividem em duas grandes populações: as adotadas antes e as adotadas depois de 1989. As mais velhas muitas vezes foram entregues para adoção ainda bebês, por causa do estigma em torno do nascimento fora do casamento ou das relações inter-raciais, com conhecimento mínimo dos pais de origem e pouco ou nenhum contato com eles (Clapton e Clifton, 2016; Parker, 2010). Hoje, ao contrário, as crianças costumam ser adotadas a partir do acolhimento, depois da primeira infância, por negligência ou maus-tratos, o que reflete uma mudança das atitudes sociais em relação à monoparentalidade e às relações inter-raciais e um aumento da proteção à criança (Neil et al., 2023; Parker, 2010). Ao se concentrar na experiência de pessoas adotadas antes de 1989, este estudo chama a atenção para o impacto da falta de abertura, tanto comunicativa quanto biográfica, e do apoio pós-adoção mínimo que caracterizavam as adoções desse período sobre a elaboração da própria adoção, a gestão dos reencontros com a família de origem e a experiência de parentalidade das pessoas adotadas.
O ano de 1989 é significativo porque o Children Act 1989 colocou o bem-estar da criança no centro da adoção, ampliou os direitos ao contato com a família de origem e deu início a uma ênfase maior na preparação e no apoio antes e depois da adoção (Parker, 2010; Welbourne, 2002). Essas mudanças nas atitudes sociais e na legislação abriram caminho para experiências de adoção mais acolhedoras e abertas (Jones, 2016; Neil et al., 2023).
A abertura na adoção abrange a abertura comunicativa e a abertura biográfica, ambas situadas em um contínuo. A abertura biográfica se refere à revelação precoce da condição de pessoa adotada, ao compartilhamento de informações identificadoras entre as partes da adoção e ao grau de contato entre elas; já a abertura comunicativa se refere à medida em que a família adotiva permite que a pessoa adotada fale de sua adoção, apoia o duplo vínculo com a família de origem e com a família adotiva e demonstra empatia pela pessoa adotada e por sua família de origem (Brodzinsky, 2006). A abertura foi associada ao bem-estar e à adaptação (Brodzinsky, 2006; Hawkins et al., 2007), a um senso positivo de identidade (Feast e Howe, 2003; Hawkins et al., 2007) e a maior satisfação com a adoção na vida adulta (Hawkins et al., 2007).
As pessoas adotadas podem enfrentar desafios identitários ligados à perda da família de origem e dos laços biológicos, à perda de status percebida (Brodzinsky, 2011; Grotevant et al., 2000), a possíveis traumas anteriores à adoção (Grotevant, 1997), às dinâmicas da família adotiva (Grotevant et al., 2000) e aos reencontros com a família de origem (Grotevant et al., 2000). Mesmo as pessoas adotadas ao nascer precisam superar possíveis dificuldades de apego, devidas a fatores como complicações pré-natais ou no parto, a incerteza da família adotiva sobre seu papel (Edens e Cavell, 1999) e, sobretudo, a idade e a forma como a adoção é revelada, sendo que a revelação na adolescência prejudica a confiança e a segurança do apego (Baden et al., 2019; Kenny et al., 2012). Essas dificuldades de identidade e de apego podem contribuir para uma saúde mental fragilizada, embora uma parentalidade sensível e acolhedora possa atenuar o impacto (Simmel, 2007). A revisão sistemática de Melero e Sánchez-Sandoval (2017) constatou que pessoas adotadas adultas são mais propensas a ansiedade, transtornos de personalidade e de comportamento, depressão e neuroticismo do que as não adotadas.
Duas revisões sistemáticas sobre a parentalidade de pessoas adotadas (Despax e Bouteyre, 2019; Field e Pond, 2018) mostraram que a pesquisa se concentrou em mulheres adotadas, na relação coparental e em populações específicas de pessoas adotadas, como as de adoção internacional. Até hoje, o único estudo a examinar a experiência de parentalidade de homens e mulheres adotados na Inglaterra, o de Neil e equipe (2023), concentra-se na população adotada depois de 1989. Este estudo, portanto, acrescenta algo à literatura, em vez de repeti-la, ao se concentrar na população adotada antes de 1989.
A parentalidade muitas vezes leva a pessoa adotada a iniciar a busca pelas origens (Field e Pond, 2018; Greco et al., 2015). Pessoas adotadas também podem ter medo de perder os filhos ou de estarem predispostas a abandoná-los, o que gera ansiedade e hipervigilância (Hampton, 1997; Horowitz, 2011; Pinkerton, 2011). Ter um filho dá à pessoa adotada sua primeira experiência de compartilhar a vida com alguém de sua família biológica, o que reforça o senso de pertencimento e de vínculo (Conrick, 2020; Hampton, 1997). Mas a parentalidade também pode despertar ansiedade sobre históricos médicos desconhecidos (Moyer e Juang, 2011; Pinkerton, 2011) ou sobre traços herdados que possam aparecer na própria maneira de criar os filhos (Sherr et al., 2019).
A parentalidade pode alterar as relações das pessoas adotadas com a família adotiva, diminuindo seu senso de pertencimento (Brodzinsky et al., 1992) e criando conflitos sobre estilos de criação (Horowitz, 2011; Moyer e Juang, 2011). Pode transformar a visão que têm da mãe de origem (Despax e Bouteyre, 2019) e tornar difícil lidar com a dualidade de ter uma família de origem e uma família adotiva; por exemplo, pode gerar tensão se os pais adotivos passaram por infertilidade (Field e Pond, 2018). Ainda assim, para muitas pessoas, a parentalidade traz um senso renovado de identidade e de cura (Gatzke, 2015; Pinkerton, 2011).
À luz dos estudos descritos acima, fica evidente que a experiência de parentalidade de pessoas adotadas na Inglaterra continua pouco explorada. O presente estudo se concentra na experiência de parentalidade de pessoas adotadas antes de 1989, quando a entrega de bebês para adoção era mais comum e o apoio pós-adoção era limitado. A abertura não era a norma nas famílias adotivas: o contato com a família de origem era mínimo, e as famílias adotivas recebiam pouco apoio ou formação, especialmente em relação à abertura (Neil et al., 2023; Parker, 2010). O estudo examina como esse contexto moldou sua experiência de parentalidade, em particular diante da possível ausência de apoio pós-adoção, de abertura biográfica na família e de abertura comunicativa.
Este estudo qualitativo utilizou a análise fenomenológica interpretativa (AFI) (Smith et al., 2021). A AFI foi escolhida por permitir uma exploração aprofundada de como as pessoas interpretam suas experiências vividas e lhes dão sentido. Ela é particularmente adequada ao objetivo desta pesquisa, que buscava compreender o percurso na parentalidade de pessoas adotadas na Inglaterra antes de 1989.
A decisão de usar a AFI se baseou em duas considerações. Primeiro, há pouquíssima literatura sobre como as experiências de adoção anteriores a 1989 moldam a parentalidade posterior. Segundo, o compromisso da AFI com a idiografia e com a análise detalhada de casos permitiu explorar as formas complexas e muitas vezes sutis como as pessoas participantes viveram a parentalidade.
Como a AFI privilegia a profundidade em vez da amplitude, o estudo se baseou em uma amostra pequena e intencional de quatro pessoas adotadas. Isso permitiu uma análise detalhada, caso a caso, das narrativas individuais, além da identificação de temas convergentes e divergentes entre os casos. O desenho do estudo, portanto, priorizou a produção de compreensões ricas e interpretativas em vez da generalização, em coerência com os princípios da AFI.
As pessoas participantes fizeram entrevistas semiestruturadas sobre sua parentalidade, da gestação até o presente, sobre a comunicação ligada à adoção na família adotiva, sobre como percebiam a visão dos filhos a respeito de sua adoção e sobre seus sentimentos em relação à família de origem e à família adotiva.
Dada a escassez de pesquisas nessa área, a pergunta de pesquisa foi intencionalmente ampla: “Como pessoas adotadas adultas vivem a parentalidade?”.
As pessoas participantes foram recrutadas pelo Facebook e pelo Post-Adoption Centre UK, uma organização de apoio à adoção. A aprovação ética foi obtida junto ao Comitê de Ética em Saúde e Ciências da Vida da Universidade de Northumbria (número de aprovação 52968). A participação foi voluntária, com consentimento livre e esclarecido por escrito após uma ligação inicial de informação.
Participaram quatro pessoas (duas mães e dois pais), na faixa dos 40 e dos 50 anos. Todas eram mães ou pais biológicos de dois ou mais filhos, adolescentes ou mais velhos. Todas só tinham conhecido parentes de origem na vida adulta.
Embora relativamente homogêneas, as trajetórias das pessoas participantes variavam nos seguintes aspectos (ver a Tabela 1 para todos os detalhes):
Tabela 1 — Dados das pessoas participantes
Depois de dar o consentimento e preencher um questionário sociodemográfico, as pessoas participantes fizeram entrevistas individuais com a pesquisadora principal (TS), que duraram de uma a duas horas e ocorreram on-line, pelo Zoom ou pelo Microsoft Teams. As entrevistas exploraram o percurso na parentalidade, da gestação até o presente, a forma como a adoção era tratada na família nuclear e as relações com a família de origem e a família adotiva no contexto da parentalidade. O roteiro de entrevista era flexível, permitindo que novos temas surgissem. O rigor foi mantido aprofundando os novos temas quando se relacionavam com a pergunta de pesquisa. As entrevistas foram gravadas em áudio, transcritas na íntegra e anonimizadas. Todos os dados do estudo, exceto as transcrições anonimizadas, foram destruídos. As transcrições estão guardadas em uma pasta protegida por senha. Elas incluem todas as palavras faladas e as manifestações não verbais significativas (O'Connell e Kowal, 1995). As pessoas participantes foram identificadas por pseudônimos.
A pesquisadora principal e autora, TS, é uma doutoranda com mestrado em psicologia. Ela é mãe e disse isso quando pertinente. Ela acredita que, sendo a adoção uma intervenção do Estado na vida familiar, seus impactos de longo prazo justificam uma pesquisa contínua. Uma declaração de reflexividade pode ser obtida mediante solicitação razoável à autora. O estudo foi supervisionado por MM, professor de psicologia.
A AFI foi usada para explorar como as pessoas participantes davam sentido às suas experiências de parentalidade no contexto de sua adoção (Eatough e Smith, 2017; Smith et al., 2021). Foram adotadas uma ontologia e uma epistemologia realistas críticas, que reconhecem que, embora uma realidade objetiva esteja por trás dos fatos e acontecimentos vividos por uma pessoa participante, o acesso a essas experiências é mediado por suas crenças, atitudes, percepções e experiências anteriores e é ainda interpretado por quem pesquisa (Cuthbertson et al., 2020; Roberts, 2014).
Seguindo Smith e equipe (2021), cada caso foi analisado de forma idiográfica antes de começar a análise entre casos. A análise envolveu:
Cada caso foi inteiramente processado antes de passar ao seguinte, preservando o foco idiográfico. Quando todos os casos tinham temas superordenados e subtemas, os padrões entre casos, inclusive as contradições, foram examinados. O conjunto final de temas superordenados e subtemas comuns aos casos foi então reunido.
Foram identificados três temas superordenados: “A parentalidade é um despertar”, “A adoção continua ecoando” e “Seguir em frente” (ver Figura 1). Eles evidenciam a complexa interação entre a história da adoção e a parentalidade.

A parentalidade remodelou de forma dinâmica a compreensão que as pessoas participantes tinham de sua adoção, entrelaçando-se com sua história de adoção e sua identidade. Ver os pais de origem e os pais adotivos pelas lentes dos próprios filhos ofereceu novas perspectivas, dissipando uma espécie de névoa.
A parentalidade levou todas as pessoas participantes a reviver aspectos de sua adoção. Marcos como o parto, ou os filhos chegarem a certas idades, desencadearam reflexões sobre suas próprias primeiras experiências, assim como sobre os atos intrínsecos à adoção. Elas tomaram consciência do impacto que esses atos podem ter tido sobre elas na infância e sobre sua identidade.
O parto despertou emoções intensas na maioria das pessoas participantes: elas imaginavam tanto a própria primeira infância quanto o que a mãe de origem viveu ao entregá-las para adoção. Isso tornou a adoção mais “real”: “saber como é dar à luz de repente e ter… uma criança na sua frente fez parecer muito mais real aquilo de que eles tinham aberto mão” (Jenny). Cuidar de um recém-nascido aprofundou a percepção da perda: “ela dependia completamente de mim para tudo… passávamos cada momento acordadas juntas. Ela conhecia as batidas do meu coração, conhecia a minha voz… o meu cheiro” (Lisa).
Para a maioria das pessoas participantes, o momento em que o filho chegou à idade em que elas próprias tinham sido entregues para adoção desencadeou sentimentos fortes. Elas conseguiam visualizar o próprio filho sendo levado: “Imagina se eu tivesse de entregá-la agora… nada no mundo teria tirado aquele bebê dos meus braços” (Lisa). O impacto emocional foi profundo: Lisa “desmoronou”, enquanto Jenny sentiu que “bateu muito forte… cheguei a ficar abalada”.
Os atos da parentalidade davam a medida do tempo e do esforço envolvidos, dando mais peso à sua própria entrega para adoção:
Vocês ficaram juntos muito tempo, passaram por muitos marcos, passaram por noites sem dormir, passaram por risadas, você os viu crescer… quando você vê o quanto eles avançaram desde recém-nascidos até ali. (Jenny)
As pessoas participantes às vezes tinham dificuldade em ver os filhos viverem infâncias não afetadas pela adoção, o que acentuava a sensação de ruptura no desenvolvimento da própria identidade. Sam, por exemplo, disse: “[Fui] simplesmente pego e dado para outra pessoa, e esperavam que eu… me encaixasse”, tornando-se “essa coisa moldável”. Ele sentiu “choque” ao ver os filhos “se tornarem pessoinhas com identidade própria”.
Para Tom, os atos da parentalidade levaram a uma “raiva deles [dos pais de origem]”, alimentando sua determinação de assumir “total responsabilidade” pelos próprios filhos. Jenny, que tinha sofrido negligência, sentiu tristeza quando a parentalidade a fez “se perguntar como é que alguém pode deixar uma criança chegar àquele ponto”, o que amplificou o trauma que tinha vivido.
Compreender melhor o que as mães de origem viveram favoreceu a empatia e a compreensão. As pessoas participantes passaram a ver como a adoção também tinha afetado suas mães de origem, o que às vezes as ajudou a construir uma narrativa coerente sobre a entrega para adoção.
A maioria tinha se apoiado em documentos e relatos de segunda mão para construir a narrativa de sua adoção. Para algumas, a parentalidade despertou compaixão, gerando um olhar “parental” sobre a mãe de origem. As pessoas participantes muitas vezes se referiam à mãe de origem como “uma menina” (Lisa) ou como alguém “infantil” (Sam), às vezes imaginando “como aquilo [perder o bebê] deve tê-la feito se sentir e como foi… terrivelmente doloroso para ela” (Lisa). Sam, cuja mãe de origem estava viva, buscou o reencontro para “garantir que ela estava bem”.
O custo emocional da entrega para adoção as impressionava: “esperar que [alguém] entregue uma criança depois de ter passado pela gravidez, pelos hormônios, pelo vínculo e por todo o resto” (Sam). A parentalidade muitas vezes desencadeou a busca pela família de origem, pois dava uma noção do que é ser mãe ou pai: “Acho que não dá para entender como um pai ou uma mãe se sente da mesma maneira até ter os próprios filhos” (Sam).
Entender o motivo da entrega para adoção era importante para as pessoas participantes. Sam encontrou conforto em saber que “ela não tinha absolutamente nenhuma escolha”. Jenny, por sua vez, percebeu que conhecer a história da mãe de origem a ajudou a entender a negligência que sofreu: “sabendo o que sei sobre ela, entendo completamente por que ela fez o que fez, por causa do que tinha acontecido e da falta de apoio. E tenho 100% de empatia com isso.” Essa compreensão a ajudou a construir uma narrativa coerente e a tranquilizou de que não repetiria o ciclo: “Eu não estava no estado mental dela, então sei que meus filhos nunca, nunca estariam assim.” Mas reconhecer o trauma da mãe de origem também desencadeou pensamentos intrusivos quando os filhos chegaram à idade que a mãe de origem tinha quando sofreu os maus-tratos: “Quando eles chegam naquela idade de seis anos, é… difícil também, porque você tem pensamentos horríveis na cabeça.” Isso evidencia o trauma vicário com que as pessoas adotadas que sofreram maus-tratos ou negligência também podem precisar lidar.
A parentalidade levou todas as pessoas participantes a reavaliar os pais adotivos, examinando a criação que receberam e o papel dos pais adotivos na adoção. Muitas tinham dificuldade em transitar entre dois sistemas familiares (adotivo e de origem), sobretudo em relação aos próprios filhos.
As pessoas participantes muitas vezes impunham limites aos pais adotivos para proteger sua autonomia: “ela [a mãe adotiva] queria controlar… a gente e, sabe, os netos” (Tom). Algumas indicaram sentir que os pais adotivos se atribuíam direitos sobre seus filhos, talvez até os vendo como “sua segunda chance” (Jenny). Muitas vezes descreviam embates com os pais adotivos para evitar a repetição de comportamentos ou valores de que não tinham gostado na infância. Por exemplo, confrontos sobre religião: “[ir à igreja] não era bom para os meninos” (Sam).
A maioria das pessoas participantes tinha pais adotivos que também tiveram filhos biológicos. Jenny, porém, cujos pais adotivos não tinham tido, sentiu que isso limitava a capacidade deles de apoiá-la como mãe de primeira viagem e lhe gerava culpa: “Eu me sentia culpada por estar podendo passar por aquilo e ela não ter podido.”
A parentalidade também levou a visões mais críticas sobre a adoção:
... quando você passa por esse processo de perceber… o impacto que ela [a adoção] teve em você, o quanto você é diferente e como você pensa… eu não entendo por que a tutela legal, a não ser que haja… circunstâncias em que exista um perigo… por que qualquer parte disso deveria acontecer do jeito que acontece. (Sam)
Quando os pais adotivos tinham tido filhos biológicos, algumas pessoas participantes se frustravam por isso não os ter levado também a uma visão crítica da adoção: “Depois de ter tido um filho seu… Como você pode pegar o filho de outra pessoa? Sabendo como isso seria [referindo-se aos pais adotivos que voltaram a adotar depois de ter um filho biológico]” (Lisa).
As pessoas participantes se sentiram sem apoio para lidar com o impacto de longo prazo da adoção. Ela influenciou sua forma de exercer a parentalidade e teve ramificações por várias gerações.
A adoção moldou profundamente a parentalidade das pessoas participantes. Todas viveram ansiedade, dúvidas sobre si mesmas, problemas de saúde mental e dificuldades de identidade, agravados pela falta de apoio. Sentiam que teriam sido mães e pais melhores se tivessem recebido ajuda para elaborar sua adoção.
Muitas se perguntavam se sua parentalidade era “boa o bastante”: “Sou bom o bastante para criar esta criança?… essa interação com essa criança vai ser boa o bastante?… Vou ser um pai bom o bastante?” (Tom). Havia também ansiedade quanto à capacidade de criar vínculo: “Acho que eu estava mais preocupada com o… emocionalmente… Será que a gente vai conseguir… [criar vínculo]?” (Lisa).
Algumas pessoas participantes tiveram dificuldade em construir sua identidade parental, divididas entre o instinto e o que tinham aprendido com os pais adotivos: “Estou tendo de aprender tudo como se não tivesse nenhum [modelo]” (Sam).
Traumas passados coloriam as respostas parentais. A sensação de ter sido indesejada podia levar as pessoas participantes a interpretar comportamentos infantis normais (por exemplo, preferir um dos pais ou fazer travessuras) como “culpa” sua ou como rejeição, o que levava a um retraimento emocional. Às vezes faltava confiança: Sam descreveu sentir-se “péssimo por dias” e às vezes “nem conseguir dormir” por culpa de erros percebidos na parentalidade. Outras pessoas acreditavam que o trauma moldava sua parentalidade: “Tenho um cérebro traumatizado. Entro em luta, fuga, congelamento, colapso e… meus filhos não estão imunes a isso” (Lisa). Algumas descreveram instabilidade emocional: “talvez eu tenha explodido e gritado com as crianças às vezes porque estou para baixo… E provavelmente é só por eu estar me sentindo um lixo, e não por qualquer coisa que elas tenham feito de verdade” (Jenny).
Surgiram angústias de perda, às vezes como medos intensos relacionados à saúde: “Se eles ficavam doentes… eu não conseguia dormir. Acordava quatro, cinco, seis vezes à noite só para, para levantar e ver como eles estavam” (Sam). Algumas pessoas participantes lidavam com o medo da perda mantendo os filhos fisicamente perto: “eles são as únicas pessoas no mundo inteiro que têm laço de sangue com você… que você conhece. E você já perdeu tudo isso antes e não quer perder tudo de novo” (Lisa). Havia também o medo de uma intervenção do serviço social: “tudo tinha de ser simplesmente… como se não fosse… não sei… é, como se pudesse ser tirado a qualquer momento” (Jenny).
Apesar dos desafios, as pessoas participantes acreditavam que a adoção as tornara mais conscienciosas no exercício da parentalidade, por causa da “percepção de como ter um filho é importante” (Jenny). Elas se cobravam para exercer uma parentalidade perfeita, “fazendo as coisas do jeito que eu achava que tinha de fazer” (Sam) ou sendo “obcecada por fazer tudo direitinho” (Jenny).
As pessoas participantes sentiam que uma compreensão e um apoio mais precoces poderiam ter melhorado sua parentalidade: “[o apoio teria] mudado a forma como me comportei como pai. Fiz o meu melhor, mas acho que poderia ter sido melhor” (Tom). Algumas sentiam que uma maior consciência emocional, por meio de apoio, as teria ajudado a fazer “um trabalho melhor” (Lisa), ressaltando a necessidade de apoio em saúde mental durante a gestação: “mexe com tudo” (Lisa). Todas sentiam que um acompanhamento terapêutico teria tido um impacto positivo em sua parentalidade: “se eu tivesse feito terapia… quando realmente precisava, provavelmente teria ajudado muito na minha parentalidade e na vida em casa” (Jenny).
Muitas se sentiam sem apoio das pessoas à sua volta e notavam que ninguém perguntava sobre suas experiências: “Não, ninguém, isso não passa pela cabeça das pessoas. O pressuposto com que as pessoas adotadas em geral convivem é que todo mundo acha que você teve sorte, ou então… simplesmente se espera que você esteja bem com isso, e que diferença faz?” (Sam). Outras pessoas participantes ecoaram isso: “ninguém me perguntou ‘Como você se sente com isso? Como você está lidando? Isso é algo enorme para você’” (Lisa).
O rompimento legal dos laços de sangue pela adoção cria desafios parentais imediatos, pois a ausência de registros médicos desperta preocupações com doenças genéticas e riscos à saúde na infância. Também complica a vida familiar, pela necessidade de revelar a adoção, de lidar com o impacto dos reencontros e com a perda da identidade genética, cultural e étnica.
As pessoas participantes se frustravam com a falta de registros médicos, sobretudo quando os filhos eram afetados: “ninguém parecia sequer considerar que a adoção ou a falta de histórico médico pudesse ter algo a ver com aquilo” (Sam). Elas atravessaram a gestação e o parto “às cegas”, sem nenhum apoio do NHS diante da falta de histórico médico: “Não sabemos se temos histórico de diabetes gestacional, de pré-eclâmpsia” (Lisa).
A adoção e o reencontro moldaram sua identidade familiar. As pessoas participantes tiveram de decidir quando e como revelar a adoção aos filhos e como equilibrar os laços com a família adotiva e a família de origem: “a gente queria, sim, deixá-los a par, porque… sabe, eles têm laço biológico com outra pessoa” (Tom). O reencontro exige que a pessoa adotada lide com vários sistemas familiares: “Tenho um sistema familiar, tenho outro sistema familiar e agora tenho o meu sistema familiar com os meus filhos” (Lisa).
Elas se preocupavam com o efeito do reencontro sobre os filhos: “nos últimos dois ou três anos, joguei uma família inteira em cima deles” (Sam). Algumas priorizavam a família adotiva em relação à família de origem, temendo que o reencontro atrapalhasse o papel de avós dos pais adotivos. Jenny só contou sobre sua adoção a dois de seus quatro filhos: “Não quero… que se ponha na cabeça das crianças, ainda pequenas, que minha mãe e meu pai não são do mesmo sangue.” Sam contou que o filho a princípio teve medo de que ele “fosse tirar os avós dele” quando começou a procurar a mãe de origem.
Lisa, adotada inter-racialmente, enfrentou desafios específicos, já que os filhos se depararam diretamente com sua identidade rompida. Um exercício escolar de árvore genealógica obrigou os filhos a “explicar para todo mundo por que todo mundo na árvore inteira é branco, menos a mamãe”. O reencontro com irmãos de origem ajudou a restaurar o vínculo cultural, permitindo que os filhos tivessem acesso a partes de sua herança:
Eu aprendo um pouco sobre a Jamaica, contam para as crianças como é de verdade na Jamaica, o que… eu não posso fazer por elas porque eu não, sabe, é, é, minha identidade cultural foi cortada, mas a dos meus filhos também. (Lisa)
Sam sentia tristeza por não poder oferecer o mesmo senso de herança que sua esposa: “Por que você tem essa aparência? De onde vem a cor dos seus olhos?… é difícil ver isso quando você não tem como contribuir.”
As pessoas participantes encontraram realização e pertencimento na parentalidade, mas enfrentaram dificuldades, muitas vezes ligadas às dinâmicas da família adotiva.
As pessoas participantes muitas vezes se sentiam isoladas e tinham dificuldade com a intimidade física e emocional na relação com os filhos. Precisaram superar a vergonha e o segredo em torno da adoção, desafios agravados pela falta de abertura da família adotiva, ela mesma sem apoio para criar filhos adotivos.
As pessoas participantes descreviam com frequência uma abertura mínima na família adotiva: “Parece que eu tinha perguntado aos 13 anos se podiam me ajudar a encontrar minha mãe, e isso foi… ignorado, varrido para debaixo do tapete” (Sam). Todas tinham procurado a família de origem sem o apoio da família adotiva. As buscas eram feitas em segredo; Tom, por exemplo, chamou sua busca de “uma operação clandestina”, na qual escondia a correspondência para que os pais adotivos não ficassem sabendo. As pessoas participantes descreveram a dificuldade de falar do reencontro com os pais adotivos: “Eu ia… descobrir… o que pudesse e de fato encontrá-la, e ficou bem claro que não era uma conversa que eles tinham condições emocionais de encarar” (Sam).
As conversas sobre adoção raramente eram conduzidas com sensibilidade pela família adotiva. Jenny, por exemplo, conta que soube de sua adoção aos 18 anos: “Me deram um post-it para eu ir conhecer minha irmã.” Grávida na época, ela digeriu a notícia sozinha: “não havia nenhum apoio. Nunca houve nenhum apoio. Então eu nunca esperei nenhum. Eu tinha vergonha de parecer digna de pena se tocasse no assunto.” Embora houvesse abertura biográfica na família adotiva de algumas pessoas participantes, o apoio era mínimo: “Só me lembro de crescer tendo de lidar com tudo e dar conta de tudo sozinha, essa era a questão principal. E isso não é fácil quando você tem todas as questões da adoção para lidar.”
A falta de apoio e de abertura em torno da adoção às vezes levava as pessoas participantes, quando jovens, a ver sua condição de pessoa adotada como vergonhosa: “uma fonte de constrangimento. Era algo para ficar quieto… Eu não tinha orgulho disso. Era algo de que eu tinha vergonha” (Tom). Muitas vezes evitavam contar aos outros: “Eu realmente não contava a ninguém, a não ser que precisasse” (Lisa).
Algumas pessoas participantes expressaram frustração por os pais adotivos não terem recebido apoio para compreender o impacto da adoção:
Lembro que meu pai se virou e disse: “Bom, sabe, a gente nunca te tratou como se você fosse adotado”… É tipo: “Não, não trataram”, o que, por um lado, foi bom, e eu entendo por que vocês fizeram isso. Por outro lado, eu era, eu sou. E vocês deviam ter recebido apoio, talvez, para me criar como uma pessoa adotada. Isso é intrínseco a tudo. (Sam)
Essa falta de apoio era especialmente difícil na adoção inter-racial:
Eles nunca deveriam ter tido crianças negras em casa, e quanto mais consciente eu fico da minha herança cultural e quanto mais orgulho tenho de ser uma mulher negra, menos vontade tenho de estar na companhia deles. (Lisa)
As limitações dos pais adotivos deixaram algumas pessoas participantes sem modelo para tratar de temas sensíveis, o que tornava difícil uma comunicação aberta sobre a adoção: “Meu instinto, logo de cara, quando me perguntam essas coisas [sobre reencontro e adoção], é simplesmente encerrar o assunto, ignorar, empurrar para longe. Eu me pego fazendo isso e tento não fazer, mas… está tão entranhado” (Sam). Jenny sentia que compartilhar seus sentimentos sobre a adoção seria um “fardo” para os filhos e falava de seu trauma “como uma terceira pessoa contando”. Às vezes, a dificuldade de se abrir com os filhos levava ao medo de que isso afetasse a relação: “Vejo que ele fica quase um pouco magoado por eu não conseguir simplesmente… responder na hora ou sei lá, é bem difícil. Acho que ele fica muito frustrado” (Sam).
O afeto físico também era difícil. Sam tinha “aprendido a se forçar” a abraçar os filhos, enquanto Lisa, que dizia não gostar de “ser tocada”, fazia “esforços conscientes”. Jenny se descreveu como não sendo “uma pessoa de contato físico”, e a proximidade foi diminuindo à medida que os filhos cresciam: “pareceu ir sumindo quando todos foram ficando mais velhos. Não sei se é porque eu não, eu não sou muito de abraçar as pessoas, em geral.”
Embora parecessem próximos da família nuclear, os dois pais descreveram um distanciamento persistente: “Você pode estar no meio da família, de amigos, seja o que for, e ainda assim se sentir tão à parte, tão sozinho” (Sam). Tom ecoou isso: “Eu me sinto parte de um grupo e parte de uma… de uma unidade… mas de vez em quando, ainda, também me sinto tão sozinho.” As mães não se sentiam isoladas com os filhos, mas descreveram uma solidão mais geral.
Todas as pessoas participantes se sentiam sozinhas em sua experiência como pessoas adotadas. Só a conexão com outras pessoas adotadas, por meio de grupos de apoio e da partilha de histórias, ajudava: “[ao] ouvir as pessoas contarem suas histórias, [eu consigo] pensar: não estou sozinha” (Lisa). Isso deixava entrever uma parte de sua identidade que ela não podia compartilhar plenamente com os filhos. Infelizmente, para algumas pessoas participantes, essas experiências deixaram um sentimento duradouro de desvalia e isolamento: “é uma experiência muito solitária. Faz você se sentir muito sem valor… Não me sinto digna e não sinto que pertenço” (Jenny).
A parentalidade foi reparadora para as pessoas participantes. Ter alguém de sua família genética lhes deu um senso de pertencimento, orgulho e a oportunidade de criar novos valores familiares. Elas valorizavam o vínculo recíproco com os filhos e as conquistas que a parentalidade trouxe.
Esse laço genético trouxe a alegria do reconhecimento: “finalmente ver alguém que tem alguns dos meus traços… alguns dos meus comportamentos… que eu nunca tinha visto em mais ninguém” (Sam). Também criou um poderoso senso de vínculo: “Quando ela nasceu. É imediato. Foi imediato. É a única pessoa no mundo com laço biológico comigo que eu conheço” (Lisa). A experiência era muitas vezes visceral: “Minha. Meu sangue. Eu. Minha família” (Jenny). Para cada uma das pessoas participantes, a parentalidade trouxe um senso de pertencimento longamente buscado: “Pertencimento. Senti que eu pertencia a algum lugar” (Jenny).
A parentalidade também alimentou o orgulho, trazendo “confiança, valor próprio e autoestima” (Tom), e foi “uma conquista” (Tom). Conseguir romper ciclos geracionais de trauma trouxe um senso de realização: “Lembro de ter ficado muito orgulhosa de mim… Também fiquei muito orgulhosa por eles não terem passado por nenhum tipo de trauma ou problema. Era orgulho, orgulho e felicidade por eles” (Jenny).
Os filhos ofereciam apoio emocional, reforçando a natureza recíproca da relação. A filha de Tom apoiou seu reencontro: “Ela foi compreensiva, ela fez perguntas.” O filho de Jenny a defendeu durante um conflito com o pai adotivo dela: “Ele chegou a gritar com o avô, coisa que nunca tinha feito antes.”
A parentalidade foi reparadora para muitas pessoas participantes:
… as pessoas adotadas não têm a chance de corregular quando são bebês, porque somos tiradas das nossas mães. E acho que, quando você está corregulando o seu bebê, existe uma parte que é benéfica para você também, porque você está aprendendo a corregular, já que tem de ensinar isso ao seu filho. (Lisa)
Elas valorizavam a chance de criar os filhos de outro jeito. Lisa “tomou decisões conscientes” de rejeitar a abordagem dos pais adotivos e “muitas vezes os ignorava quando tentavam [lhe] dar conselhos sobre criação”, enquanto Jenny fazia questão de expressar amor todos os dias porque “nunca ouviu muito ‘eu te amo’ enquanto crescia”.
Este estudo explorou a experiência de pessoas adotadas ao atravessarem a parentalidade. Em consonância com pesquisas anteriores, as pessoas participantes descreveram como a parentalidade reativou questões ligadas à adoção, remodelou as relações familiares e suscitou reflexões sobre identidade, pertencimento e perda. Os resultados ampliam o conhecimento existente ao evidenciar o impacto intergeracional da adoção, em particular como a abertura nas famílias adotivas influenciou as práticas parentais das pessoas participantes e sua capacidade de apoiar os filhos nas conversas relacionadas à adoção.
As pessoas participantes relataram desafios parentais ligados à condição de pessoa adotada, em eco a pesquisas anteriores. Perguntavam-se se sua parentalidade era “boa o bastante” (Despax et al., 2021a), preocupavam-se com dificuldades de vínculo (Masso e Whitfield, 2003; Neil et al., 2023) e sentiam pressão para exercer a parentalidade “do jeito certo” (Conrick, 2020; Masso e Whitfield, 2003; Neil et al., 2023; Pérez et al., 2016). As perdas precoces contribuíram para um medo maior de perder os filhos (Phillips, 2009; Pinkerton, 2011), para ansiedades quanto à sua segurança (Conrick, 2020; Phillips, 2009) e para a necessidade de proximidade física (Conrick, 2020; Phillips, 2009).
A parentalidade também trouxe orgulho, propósito e pertencimento (Conrick, 2020; Despax et al., 2021b; Edwards et al., 2023; Egan et al., 2022; Hampton, 1997; Moyer e Juang, 2011; Phillips, 2009; Pinkerton, 2011; Sherr et al., 2019), ajudando as pessoas participantes a se curar de suas perdas (Chase et al., 2006; Gatzke, 2015; Hampton, 1997; Pinkerton, 2011).
As pessoas participantes rejeitaram os estilos de criação dos pais adotivos, desenvolvendo os próprios valores (Brodzinsky et al., 1992; Despax et al., 2021b; Gatzke, 2015; Greco et al., 2015). Esses valores muitas vezes surgiam de um período de dúvida e de crise de identidade, em que era preciso conciliar modelos adotivos internalizados, modelos imaginados da família de origem e ideais pessoais. A confiança parecia crescer à medida que integravam as duas famílias em sua identidade. Embora o desejo de criar os filhos de forma diferente dos próprios pais não seja exclusivo das pessoas adotadas (Szymańska, 2024), a adoção amplificava seu significado.
Em consonância com resultados anteriores, as pessoas participantes valorizavam ter um laço biológico com alguém (Brodzinsky et al., 1992; Edwards et al., 2023; Field e Pond, 2018; Horowitz, 2011; Moyer e Juang, 2011). Um resultado novo deste estudo foi o parentesco intensificado criado pelo apoio emocional e prático dos filhos.
Embora a maioria das pessoas participantes tenha sido entregue para adoção ainda bebê, elas descreveram um trauma ligado à adoção que afetava sua saúde mental e sua parentalidade. Se a separação precoce é provavelmente traumática em si (Verrier, 1991), as pessoas que não sofreram negligência ou maus-tratos podem, ainda assim, ter vivido a adoção como traumática por causa de uma avaliação negativa do fato de terem sido adotadas, algo comum em pessoas adotadas que receberam pouca empatia ou apoio de pessoas significativas (Brodzinsky et al., 2022). Além disso, a revelação da adoção não parece ter ocorrido com sensibilidade nem na primeira infância, o que pode ter feito da própria revelação uma fonte de trauma, prejudicando a segurança do apego existente (Baden et al., 2019; Kenny et al., 2012).
A perda da herança e da continuidade familiar também foi central. A participante adotada inter-racialmente descobriu sua cultura étnica junto com os filhos e precisou lidar com o racismo sem ter se beneficiado de nenhuma socialização racial. Embora o impacto da perda da herança étnica já tenha sido demonstrado em pessoas adotadas inter-racialmente (Ferrari et al., 2015; Wu et al., 2020; Zhou et al., 2021), um participante que não pertencia a uma minoria étnica também lamentava não poder compartilhar traços culturais ou familiares com os filhos, o que mostra que a perda de herança vai além dos contextos inter-raciais.
A falta de histórico médico, já bem documentada (Conrick, 2020; Green, 2016; Moyer e Juang, 2011), gerava raiva diante de sistemas de acesso precários e dos protocolos inadequados usados pela equipe médica, apontando a necessidade de reforma.
Em consonância com pesquisas anteriores, a parentalidade suscitou uma reflexão renovada sobre a adoção (Conrick, 2020; Pinkerton, 2011), sobretudo nas etapas da vida dos filhos que espelhavam momentos significativos da própria história. Pessoas adotadas depois de 1989, especialmente as adotadas por maus-tratos ou negligência ou as que entraram e saíram do sistema de acolhimento, podem viver mais gatilhos por causa do maior número de acontecimentos marcantes em sua história de adoção.
Os aspectos físicos da parentalidade realçaram a perda do vínculo com a mãe de origem e revelaram os atos corporificados da adoção. Esses momentos aprofundaram a compreensão das pessoas participantes sobre os mecanismos por trás da perda de identidade que percebiam, muitas vezes levando a críticas ao papel dos pais adotivos. As pessoas cujos pais adotivos tinham filhos biológicos tinham dificuldade com a falta de uma reflexão semelhante dos pais adotivos sobre a adoção. Os pais foram tão afetados quanto as mães, muitas vezes por terem testemunhado a maternidade da parceira. Embora a amostra seja pequena, esse é um resultado pouco relatado, que enriquece a literatura sobre homens adotados.
A parentalidade muitas vezes mudou a visão das pessoas participantes sobre a adoção, suscitando perspectivas mais críticas sobre as políticas históricas e as normas sociais que levaram às entregas para adoção e depois restringiram o acesso às informações biográficas. Embora esses resultados possam parecer menos aplicáveis a pessoas adotadas depois de 1989, a desigualdade sistêmica continua presente na adoção: Bywaters e equipe (2018) constataram que as crianças dos bairros mais carentes do Reino Unido tinham 11 vezes mais probabilidade de estar “em acolhimento” do que as dos bairros menos carentes, o que indica que esses temas podem ressoar também entre as pessoas adotadas hoje.
Em consonância com pesquisas anteriores, a parentalidade levou as pessoas participantes a sentir empatia pela mãe de origem (Conrick, 2020; Egan et al., 2022; Pinkerton, 2011), a reavaliar os pais adotivos (Brodzinsky et al., 1992; Conrick, 2020; Hampton, 1997; Neil et al., 2023; Sherr et al., 2019) e a se solidarizar com a infertilidade dos pais adotivos (Conrick, 2020; Masso e Whitfield, 2003; Moyer e Juang, 2011; Pinkerton, 2011). O estudo também reforçou a centralidade das mães nas narrativas das pessoas adotadas, com os pais, tanto adotivos quanto de origem, em grande parte ausentes (Sherr et al., 2019).
A parentalidade muitas vezes intensificou os sentimentos negativos em relação aos pais adotivos, levando a um distanciamento emocional, em consonância com achados anteriores (Brodzinsky et al., 1992; Conrick, 2020; Hampton, 1997; Horowitz, 2011; Phillips, 2009). Em contrapartida, outros estudos relataram vínculos fortalecidos depois da chegada dos filhos (Neil et al., 2023; Sherr et al., 2019); isso estava associado a pais adotivos comunicativamente abertos e promotores de pertencimento, qualidades talvez ausentes nas famílias adotivas das pessoas participantes deste estudo, o que tornava o distanciamento previsível. Ainda assim, as pessoas participantes mantiveram os pais adotivos no papel de avós, o que sugere que o distanciamento emocional não apagou as estruturas familiares.
Para a participante adotada inter-racialmente deste estudo, os irmãos de origem ajudaram os filhos dela a se conectar com sua herança étnica, o que aponta a importância da preparação e do apoio nas adoções inter-raciais, bem como o papel do contato com a família de origem nesses casos.
Os resultados evidenciam a necessidade de formação das famílias adotivas sobre o impacto da adoção ao longo da vida. As pessoas participantes descreveram desconforto ao falar de adoção com os filhos, má gestão das informações sobre a família de origem, reencontros feitos em segredo e socialização racial inadequada em contextos inter-raciais. Embora a formação para a adoção tenha melhorado muito, muitas famílias adotivas ainda deixam a desejar em termos de abertura (Jones, 2016; Neil et al., 2023). Isso ressalta a importância de formação e apoio abrangentes antes e depois da adoção.
As pessoas participantes acreditavam que uma maior compreensão de si mesmas poderia ter melhorado sua parentalidade, mas nenhuma recebeu apoio específico para os desafios próprios das pessoas adotadas. Seria preciso incentivar profissionais de saúde a encaminhar as pessoas adotadas para apoio quando elas se tornam mães ou pais.
As pessoas participantes também notaram a falta de interesse dos outros por sua identidade de pessoa adotada, o que talvez reflita o desconhecimento da adoção por parte de quem as cerca. É necessário um maior reconhecimento público do impacto de longo prazo associado à adoção. Todas as pessoas participantes se queixaram do luto não reconhecido de se esperar delas “gratidão” pelo que viveram como uma perda enorme.
Um resultado próprio deste estudo foi a sensação de isolamento das pessoas participantes, mesmo na parentalidade, decorrente de sua identidade específica de pessoa adotada, que as distinguia das pessoas não adotadas, inclusive dos filhos.
O resultado mais significativo é o impacto intergeracional da abertura. A abertura moldou a compreensão das pessoas participantes sobre sua adoção, sobre as motivações da mãe de origem e sobre sua capacidade de falar da adoção com os próprios filhos. Compreender a adoção, especialmente por que tinham sido entregues, era vital para as pessoas participantes e moldava seu autoconceito e sua confiança na parentalidade.
No único estudo comparável sobre pessoas adotadas na Inglaterra que se tornaram mães ou pais (centrado nas adoções posteriores a 1989), de Neil e equipe (2023), as pessoas participantes foram agrupadas por categorias narrativas. As que tinham um tom positivo, descrevendo infâncias em geral felizes até uma parentalidade bem-sucedida, tinham sido entregues para adoção antes dos dois anos e viveram em famílias adotivas abertas e acolhedoras. Já as que descreviam ter superado adversidades para se tornar boas mães e bons pais, enfatizando questões parentais ligadas à adoção, tinham sido adotadas a partir do acolhimento depois dos dois anos e relataram barreiras de comunicação e baixo senso de pertencimento na família adotiva. As pessoas participantes do presente estudo, embora adotadas antes dos dois anos, tiveram experiências de parentalidade parecidas com as desse segundo grupo. Isso sugere que, nos dois estudos, apesar de tratarem de duas épocas diferentes da adoção, a falta de abertura e de pertencimento na família adotiva contribuiu para as dificuldades na parentalidade, independentemente da idade na adoção.
Um resultado próprio deste estudo foi que, por não terem visto os pais adotivos servirem de modelo de abertura comunicativa, as pessoas participantes passaram a ter dificuldade em oferecer intimidade emocional aos próprios filhos e enfrentaram desafios para conduzir as conversas relacionadas à adoção. Isso indica um impacto intergeracional da abertura familiar que, embora observado em todas as famílias (Kitamura et al., 2009; Van IJzendoorn, 1992), sugere que as famílias adotivas se beneficiariam especialmente de uma formação em abertura.
Em eco a Egan e equipe (2022), as pessoas participantes se beneficiaram de compreender a história da mãe de origem, e as que acreditavam que a mãe de origem não tivera escolha real sentiam mais empatia. Uma participante que sofreu negligência ficou tranquila quanto à capacidade de exercer a parentalidade de outro jeito ao compreender o trauma de infância da mãe de origem. Isso é especialmente relevante para as pessoas adotadas hoje, que têm maior probabilidade de ter sofrido maus-tratos ou negligência (Neil et al., 2023). Embora as famílias adotivas possam ter dificuldade em revelar histórias tão dolorosas, a compreensão decisiva dessa participante não veio dos maus-tratos em si, mas de entender “por que” eles aconteceram.
As pessoas participantes também tiveram dificuldade em apoiar os filhos durante o reencontro. Uma relação aberta e acolhedora com os pais adotivos poderia ter facilitado esse processo, com eles desempenhando um papel em tranquilizar os netos no turbilhão do reencontro.
Como intervenção do Estado que rompe uma linhagem familiar, a adoção convida a uma reflexão ao longo da vida. As pessoas adotadas podem reavaliar criticamente seu sentido com o passar do tempo. Famílias adotivas que promovem uma comunicação aberta e contínua, no plano pessoal e no plano sistêmico, estão mais bem posicionadas para manter relações sólidas à medida que a visão das pessoas adotadas sobre a adoção evolui.
Oferecer às pessoas adotadas histórias completas e contextualizadas, comunicadas com sensibilidade, seria muito benéfico e apoiaria o desenvolvimento da identidade. Embora pesquisas anteriores tenham mostrado a importância da abertura comunicativa e biográfica (Brodzinsky, 2006; Grotevant, 1997; Grotevant et al., 2000; Grotevant et al., 2017; Le Mare e Audet, 2011; Von Korff e Grotevant, 2011), este estudo evidencia seus efeitos de longo prazo e intergeracionais.
As pessoas adotadas formam sua identidade parental compreendendo sua entrega para adoção, sua criação adotiva e sua família de origem. Esses fatores moldam profundamente sua parentalidade e suas relações com os filhos. A parentalidade pode ser reparadora, oferecendo pertencimento e oportunidades de definir valores familiares, mas as pessoas adotadas podem ter dificuldade em oferecer a intimidade que desejam e sentir-se isoladas, compreendidas apenas por outras pessoas adotadas.
Um resultado central é o efeito duradouro da abertura dos pais adotivos. Ela influencia a forma como as pessoas adotadas compartilham a narrativa de sua adoção, lidam com a falta de informações genéticas, administram as relações dos filhos com os avós adotivos e atravessam o reencontro.
Embora baseados em pessoas adotadas antes de 1989, esses resultados têm relevância atual. As recomendações incluem formar as famílias adotivas sobre o impacto da adoção ao longo da vida, promover uma comunicação aberta e apoiar as pessoas adotadas na parentalidade. Profissionais da maternidade deveriam estabelecer protocolos para a falta de histórico médico e oferecer encaminhamentos para apoio psicossocial. As organizações de adoção deveriam considerar redes de apoio entre pares para pessoas adotadas que são mães ou pais.
Um ponto forte deste estudo é que pessoas dos dois gêneros compartilharam suas perspectivas ao longo de todo o percurso da parentalidade. O contexto das adoções anteriores a 1989 permitiu uma exploração aprofundada do impacto da abertura e do apoio na vida familiar.
O tamanho reduzido da amostra e o recrutamento por meio de grupos de apoio à adoção limitam a generalização, embora essa fosse uma característica conhecida do desenho de pesquisa, que priorizou dados fenomenológicos ricos.
Pesquisas futuras poderiam usar métodos mistos para comparar os desfechos parentais segundo diferentes níveis e estilos de abertura. Incluir os filhos das pessoas adotadas acrescentaria uma profundidade valiosa, assim como explorar a relação entre a idade em que a adoção foi revelada e os desfechos parentais posteriores. O papel limitado dos pais, tanto de origem quanto adotivos, merece mais estudo. Por fim, melhorar o acesso das pessoas adotadas a seus históricos médicos continua sendo uma área a desenvolver.
Complexe Systémique: a reter
Este pequeno estudo torna visível um mecanismo que a clínica transgeracional conhece bem: o que não pôde ser dito em uma família se transmite como dificuldade de dizer. Pessoas adotadas que não encontraram uma fala aberta com os pais adotivos têm, por sua vez, dificuldade de falar da adoção, e às vezes de tocar, com os próprios filhos. O nascimento de um filho aparece como um nó do ciclo de vida que reativa a história adotiva: a idade da criança encontra a idade da separação, a mãe de origem se torna pensável, os pais adotivos são reavaliados. Lisa fala de três sistemas familiares a sustentar juntos, adotivo, de origem e nuclear: uma indicação clara para um genograma que mostre os três. Para equipes perinatais e terapeutas, a lição é simples: perguntar, no momento de se tornar mãe ou pai, se a pessoa foi adotada, e ajudar a construir a narrativa do “porquê”. O estudo continua muito limitado (quatro pessoas, recrutadas por grupos de apoio, olhar retrospectivo) e não dá voz às crianças. Para ler junto com o artigo sobre a reconstrução da identidade adotiva por meio dos artefatos e com o artigo sobre as histórias de genealogia em famílias de adoção internacional.
Notas do original
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver nenhum potencial conflito de interesse em relação à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.
Financiamento. A equipe de pesquisa não recebeu nenhum apoio financeiro para a pesquisa, a autoria e/ou a publicação deste artigo.
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Tradução não oficial em português de Compreender como pessoas adotadas na Inglaterra antes de 1989 vivem a parentalidade, de Tamryn Stevens e Mark C. Moss, Adoption & Fostering, vol. 50, no 3, p. 304-322 (2026), doi: 10.1177/03085759261421601, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela em lista, declarações reunidas nas notas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Understanding how adults adopted in England pre-1989 experience parenthood”, publicado em Adoption & Fostering (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Stevens, T., et Moss, M. C. (2026). Compreender como pessoas adotadas na Inglaterra antes de 1989 vivem a parentalidade (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/compreender-como-pessoas-adotadas-na-inglaterra-antes-de-1989-vivem-a-parentalidade (Obra original publicada em 2026 em Adoption & Fostering, 50(3), 304-322 (2026); republicada em 2026 por Adoption & Fostering, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/03085759261421601)
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