Journal of Solution-Focused Brief Therapy · Entrevista

Da psicologia escolar à recuperação pós-desastre: entrevista com Cynthia Hansen

Vinte e cinco anos de prática focada nas soluções, do consultório onde se atendem crianças, adolescentes e famílias ao trabalho de campo depois de um desastre. Michael Durrant convidou Cynthia K. Hansen a rever esse percurso: a descoberta da abordagem em 1988, os anos ao lado de Insoo Kim Berg e Steve de Shazer, e os dez essenciais que ela leva hoje para o campo.

Entrevista realizada por Michael Durrant, University of SydneyPrimeira publicação Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 1, 2016Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial para o português. Esta entrevista é a tradução de From school psychology to disaster recovery: A journey of encountering resilience and continually being surprised by peoples’ own solutions. An interview with Cynthia K. Hansen, de Michael Durrant, publicada em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 1 (2016), doi: 10.59874/001c.75116, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido, rediagramado e recebeu subtítulos para a leitura on-line, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Meus encontros com as pessoas sempre começaram por um profundo respeito pelo que elas tinham conseguido fazer em meio ao terror.

Cynthia K. Hansen

Michael Durrant apresenta Cynthia Hansen

Cynthia Hansen, doutora em psicologia clínica, tem mais de 25 anos de experiência como praticante focada nas soluções em contextos muito variados — do atendimento de crianças, adolescentes e famílias num enquadre terapêutico “típico” ao trabalho de campo em resposta a desastres como o tufão Pongsona, o 11 de setembro e o furacão Katrina. Atualmente trabalha no Office of the Assistant Secretary for Health, depois de oito anos no Office of the Assistant Secretary for Preparedness and Response do US Department of Health and Human Services; antes disso, foi assessora especial para a prevenção do suicídio junto à US Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Convidei Cynthia a refletir sobre o seu percurso focado nas soluções.

Nota que acompanha o título do artigo

Este artigo contém as reflexões pessoais de Cynthia Hansen; nenhum desses comentários deve ser interpretado como endosso oficial de qualquer produto, pessoa ou serviço, e eles não podem ser citados ou reproduzidos com o propósito de afirmar ou sugerir que o HHS ou o governo dos Estados Unidos endossa ou aprova qualquer produto, pessoa ou serviço.

Focada nas soluções por natureza

Há quanto tempo você trabalha terapeuticamente com pessoas… e quais foram as forças motrizes dos seus primeiros anos de prática?

Trabalho terapeuticamente com pessoas desde o início dos anos 1980. Durante muitos anos atuei como paraprofissional: conselheira entre pares na faculdade, educadora numa casa-lar terapêutica para crianças, auxiliar de psiquiatria numa unidade de internação. Comecei a pós-graduação em 1981 e fiz doutorado em psicologia clínica na Universidade do Arkansas. Nesses anos, minhas influências principais foram das teorias do desenvolvimento infantil anormal às abordagens sistêmicas do grupo do MRI, em Palo Alto. Lembro-me de ter me interessado sobretudo pela terapia familiar sistêmica, pelas abordagens sullivanianas do desenvolvimento e pelo livro de Paul Watzlawick sobre a mudança de segunda ordem. E, acima de tudo, eu era muito pragmática. As pessoas e as famílias que eu atendia no Arkansas muitas vezes não preenchiam nenhum dos critérios de tratamento que eu lia nos meus estudos, nem eu podia esperar que viessem toda semana; ainda assim, lá estavam elas, no meu consultório, pedindo ajuda. Tive ótimos supervisores, que me ensinaram a ajustar a teoria da mudança às pessoas que estavam na minha sala.

Yvonne Dolan me entrevistou certa vez sobre os sinais de que eu poderia ser uma terapeuta focada nas soluções — isso antes de eu conhecer a TBFS, a terapia breve focada nas soluções. Contei a ela duas situações clínicas que diziam bem da minha mentalidade. A primeira era uma família de várias gerações, que veio de carro até a clínica porque tinha ouvido dizer que o incesto poderia ser uma das razões de um bebê ter nascido com problemas de desenvolvimento. Eles queriam ajuda para resolver esse problema na família. Como havia tanta gente, e tantas gerações, na sala, os terapeutas decidiram dividir a família em pequenos subgrupos para elaborar um plano. Lembro que a decisão mais importante com que avós, pais e filhos concordaram foi como reorganizar quem dormia em qual cama. Fiquei impressionada por ser uma ação tão prática, gerada pelos próprios clientes e essencial para mudar a dinâmica familiar — e, no fim das contas, muito mais prática do que aquilo que os profissionais tinham bolado. Para o leitor preocupado: sim, o serviço de proteção à infância estava envolvido.

Outra pessoa que veio me ver relatava ouvir vozes, mas nenhum outro sintoma de psicose. Fiz algumas perguntas sobre o que, na opinião dele, seria mais útil em relação às vozes, e ele disse que provavelmente ajudaria conseguir uma boa noite de sono no hospital. Descobriu-se que ele estava em situação de rua e sabia que seria internado se dissesse que ouvia vozes. Em vez de um diagnóstico psiquiátrico, trabalhamos juntos num plano para que ele tivesse boas noites de sono com mais frequência do que conseguiria por meio de uma internação.

“Ter uma boa noite de sono” me parece de imediato uma formulação de objetivo bem ao modo de de Shazer, já que torna de saída completamente irrelevante a questão de o cliente ser ou não psicótico.

Exatamente… e, mais uma vez, prático. Durante anos esse rapaz apareceu para falar comigo sem hora marcada, para conversar sobre como estava se virando com abrigo, dinheiro e relacionamentos, e aprendi muito sobre resiliência e independência. Olho para trás hoje e vejo o quanto eu era focada nas soluções por natureza.

1988: o encontro com Insoo e Steve

Quando você teve o primeiro contato com a abordagem focada nas soluções?

Em 1988, eu trabalhava como psicóloga escolar e vi um folheto de um workshop sobre tratamento de dependência química. O momento era bom para cumprir minhas exigências de educação continuada, e eu buscava justamente mais formação em tratamento de dependência química; então me inscrevi. Insoo e Steve eram os formadores. Já no intervalo do meio da manhã do primeiro dia, eu retornava ligações para colegas com enorme entusiasmo pelo que estava aprendendo. Foi como se alguém tivesse levantado a cortina que fazia dos meus encontros com clientes eventos ad hoc, movidos por uma mistura de teorias acadêmicas da mudança e realidades práticas, para mostrar o padrão subjacente que podia levar a uma mudança real. Penso naquele dia hoje e ainda me lembro da emoção de finalmente ressoar com uma abordagem terapêutica que combinava comigo. Por sorte, conheci naquele dia pessoas que se tornaram colegas queridos e, com o tempo, sócios num negócio de formação e consultoria focadas nas soluções: Phil Trautmann (que passou a frequentar o BFTC no início dos anos 1980), Stuart Levy e JoAnna Henry. Com a entrada de Carol Nelson e Karen Scott, nascia a Incorporated Solutions. Viajávamos juntos para aprender com Insoo, Steve, Yvonne e outros, atendíamos clientes em equipe e organizamos workshops de TBFS em Portland, no Oregon. Sei que aprender TBFS com essa equipe teve um impacto profundo sobre a criatividade, a flexibilidade e a filosofia que sustentam a minha prática.

Como isso se encaixou com o que já era importante para você?

  • A abordagem trabalhava com o que o cliente realmente tinha — e não com o que ele deveria ter —, e assim reconciliava o meu conflito de querer ajudar pessoas que supostamente não podiam ser ajudadas por uma terapia pela palavra.
  • Era prática.
  • Compreendia de modo realista o poder que um terapeuta tem, aquilo a que ele ou ela presta atenção, mesmo em poucos minutos ou numa única sessão.
  • Dava a uma equipe uma linguagem comum para aprender junto a melhor maneira de ajudar as pessoas.

E então, que diferença isso fez?

Deu-me um padrão para praticar deliberadamente estratégias terapêuticas e para acreditar nos recursos do cliente. Ajudou-me também a pensar quais deslocamentos poderiam fazer diferença quando a terapia não estava indo bem. Por exemplo, as escalas ajudavam a focar no objetivo e nos pequenos passos. Dominar a pergunta do milagre deu disciplina e propósito às teorias dos sistemas e das interações. A mudança pré-sessão ajudava a construir sobre o que já funcionava. E todas essas estratégias interagiam com os dons próprios do terapeuta. Assim como Insoo, Steve, Yvonne e Peter DeJong usavam as mesmas estratégias com “toques” diferentes, o mesmo valia para Phil, JoAnna, Carol, Stuart e eu.

Além disso, percebi que praticar a partir de uma perspectiva focada nas soluções reduzia o esgotamento profissional, porque eu conseguia ver como ajustar os recursos do cliente ao resultado que ele esperava.

Insoo contou uma vez uma história que ficou comigo por muito tempo. Ela disse que, quando eu perguntava aos clientes o que eles queriam sem compreender o que já tinham, eu agia como uma garçonete anotando um pedido que a cozinha se encarregaria de preparar. Ao contrário, se eu ouvisse o que eles queriam compreendendo o que tinham na própria cozinha, então poderíamos começar a juntar ingredientes que combinassem com o que já estava disponível. Então — e hoje acho isso um pouco engraçado —, eu tinha uma estratégia estranha para me exercitar a ser curiosa sobre o que o cliente podia fazer para conseguir o que queria. Quando ouvia o cliente dizer o que ele ou ela queria, eu traduzia aquilo internamente num pedido de comida na minha cabeça (por exemplo, um sanduíche de carne no pão de centeio), para me lembrar de perguntar ao cliente quando uma pequena parte das suas esperanças já se realizara, ou quando as coisas já tinham estado um pouco melhores. Isso me mantinha centrada em fazer o que era possível na “cozinha” do cliente, em vez de pensar “como posso fazer isso acontecer para o cliente?”.

O que a TBFS mudou na minha postura

Que diferença a TBFS fez no modo como a sua prática de terapeuta se desenvolveu?

A prática da TBFS deslocou profundamente a minha posição como terapeuta. Passei a me interessar pelo saber de especialista do cliente, a vê-lo ou vê-la como um parceiro no desenho das soluções para os problemas que o traziam até mim. Muitas vezes ensinei essa mudança de paradigma como a passagem a partir das três perguntas básicas que aprendi na pós-graduação:

  • Qual é o problema do cliente?
  • O que eu acho que o cliente deveria fazer a respeito do problema dele?
  • O que eu preciso fazer para motivar, educar ou convencer o cliente a fazer o que eu acho que ele deveria fazer a respeito do problema dele?

Com a TBFS, aprendi a fazer estas três perguntas a cada encontro:

  • O que o cliente quer?
  • O que o cliente pode fazer a respeito do que quer (e, de fato, o que ele JÁ está fazendo)?
  • O que precisa acontecer para que o cliente faça o que pode fazer a respeito do que quer?

Quais foram os desafios específicos que o seu compromisso com a TBFS trouxe para a sua prática de terapeuta?

Provavelmente o primeiro desafio foi conter o zelo de uma “convertida” ao foco nas soluções. A TBFS não serve para todo mundo — nem para clientes, nem para terapeutas. Steve disse uma vez: “Às vezes você quer sushi, às vezes espaguete”, lembrando-me de que não existe um “jeito certo”, mas que precisamos compreender as preferências do cliente.

Dito isso, a TBFS combinava mesmo comigo, e fiquei profundamente tocada pelas mudanças que meus clientes fizeram em suas vidas. Tive a sorte de ter consultório próprio, o que me permitiu me dedicar a aprender maneiras focadas nas soluções de destacar e encorajar meus clientes a esclarecer suas esperanças e a agir conforme o seu saber interior. Do ponto de vista da gestão do consultório, eu tinha muito mais clientes e muito mais primeiros atendimentos do que meus colegas que trabalhavam de modo mais tradicional; tive então de montar procedimentos enxutos, para que cada sessão pudesse ser a última.

Alguns anos atrás, você produziu com Insoo uma fita de áudio (hoje um CD) chamada Making a Difference with Adolescents.

Ah, sim, foi um dos pontos altos da minha vida. Durante anos Insoo vinha me incentivando a escrever um livro sobre o meu trabalho com crianças, adolescentes e famílias. Eu repetia a ela que não tinha tempo para escrever e que o que eu estava aprendendo e praticando não era informação suficiente para um livro. Então Insoo me convidou a passar um fim de semana em Milwaukee, fazer longas caminhadas, conversar e trabalhar em vídeos juntas — mas ela também queria me entrevistar para uma fita de áudio. Sem pressão; era só uma conversa. Sempre poderíamos apagar se quiséssemos.

Pois bem, na primeira manhã, depois do café e de uma caminhada, Insoo e eu descemos ao escritório de casa, no porão, e preparamos o gravador. Ela simplesmente começou a me fazer perguntas e eu respondi. Gravamos a fita numa única tomada, e ela descartou qualquer ideia de que pudéssemos melhorá-la refazendo. Fico muito feliz que a minha descrição de como eu trabalhava com adolescentes tenha sido útil a clínicos, mas acho sinceramente que o aspecto mais notável da fita é o talento de Insoo para fazer emergir o melhor de qualquer pessoa. E agora que Insoo se foi, guardo com carinho essa lembrança e o respeito que ela mostrou pela minha vontade de ensinar, aliada à minha relutância em escrever. Ei, Michael, acho que você talvez esteja fazendo a mesma coisa com esta entrevista! Estou sendo insooada?!!

Eu nunca tinha pensado em “Insoo” como um verbo (e não creio ter essa energia)! Já disseram que Insoo foi sua “mentora”. Como era isso?

Ai, meu Deus — eu tive tanta sorte! Insoo respondia a qualquer ligação ou e-mail meu, me acolhia de braços abertos em salas de aula e workshops formais e também na casa dela. Eu podia dormir no sofá-cama dela durante congressos, sair de carro com Steve para buscar o frozen custard preferido de Insoo, e caminhávamos e conversávamos por horas. Sentávamos para ver videoteipes, discutir ideias que minha equipe de Portland tinha para ensino e consultoria, examinar dificuldades que eu estava tendo com meus clientes, revisar rascunhos de manuscritos e esquentar as sobras que Steve (o cozinheiro) tinha congelado para Insoo comer quando ele estivesse viajando. Ela me ensinou com histórias, curiosidade, generosidade, experiência, confiança, amor e, às vezes, impaciência. Insoo me recomendou como palestrante de TBFS a colegas em lugares tão variados quanto a Europa, a Coreia do Sul, Okinawa e Taiwan; assim pude rodar o mundo e aprender com tantos praticantes da TBFS. Tenho de dizer que Steve era tão gentil e generoso quanto Insoo, ainda que de outras maneiras. Steve sentava — ou caminhava — e conversava de um jeito meio errante. Mas, ao fim da cerveja, ou da visita, eu tinha aquele momento de “ah, é isso” que eu mal podia esperar para compartilhar com meus colegas.

Fui verdadeiramente abençoada por ter feito parte da vida deles, e minha prática se tornou mais intencional por causa da influência e da sabedoria dos dois. Ainda me lembro de Insoo me dizendo que sabedoria é escolher o que ignorar! Eu acrescentaria que é também o que nunca esquecer.

Do consultório ao campo dos desastres

Como você passou do trabalho com crianças, adolescentes e famílias para o trabalho de recuperação pós-desastre?

Eu nunca planejei trabalhar com pessoas atingidas por desastres, mas minha prática incluía gente de todas as idades tentando lidar com as consequências negativas de um evento traumático. Esse evento ia de maus-tratos agudos ou crônicos a ter presenciado um assassinato, passando pela violência no trabalho ou por qualquer outro acontecimento de vida em que a pessoa temeu pela própria segurança. Meu trabalho era fortemente focado nas soluções e influenciado por Insoo, Steve e Yvonne Dolan. Fiquei mais habilidosa, calei a minha “diagnosticadora interior” e me concentrei mais na essência da pessoa que havia sobrevivido ao evento e no modo como ele afetou o sentido que ela deu à própria vida.

Eu estava de férias em Nairóbi, em 1998, quando uma bomba explodiu na embaixada dos Estados Unidos. Desorientada, procurei o que me era familiar. Encontrei o escritório onde eu havia organizado minhas viagens internas algumas semanas antes e perguntei se poderia usar uma linha telefônica para falar com a minha mãe. Serei sempre grata aos quenianos que me ajudaram a falar com a minha família e a me sentir segura num dia tão terrível.

Enquanto eu ouvia o rádio no escritório da agência de viagens, conheci alguns estudantes de medicina que tinham ido renovar seus vistos na embaixada e que também tentavam entrar em contato com suas famílias nos Estados Unidos. Conversamos e tentamos dar sentido ao que estava acontecendo naquele dia e a quais deveriam ser os nossos próximos passos. Depois de um tempo, o agente de viagens fechou o escritório e cada um seguiu seu caminho, trocando e-mails para manter contato.

Olhando para trás, percebo que — embora eu claramente não estivesse fazendo terapia — falei com eles quase instintivamente sobre como estavam lidando e conseguindo seguir em frente, e também sobre planejar pequenos passos para um futuro em que todos nós tivéssemos sobrevivido a esse acontecimento terrível.

Várias semanas depois, recebi um e-mail do médico que supervisionava esses estudantes. Ele queria me dizer que os estudantes que haviam conversado comigo estavam de volta ao vilarejo, funcionando e aprendendo, mas que outros, que estavam nas imediações da embaixada no dia do atentado, ficavam olhando para o vazio, sem conseguir dormir nem se concentrar, contando os dias para voltar para casa. Ele fez perguntas sobre o que havíamos conversado no escritório da agência de viagens e me incentivou a procurar oportunidades de ajudar outras pessoas logo após um desastre. Sou eternamente grata pelo tempo que ele tomou para me contatar. É uma lição profunda sobre o poder de um elogio.

Ainda que a TBFS seja mais do que um foco na resiliência, parece que a sua lente focada nas soluções a deixou naturalmente atenta à resiliência das pessoas.

Sim, acho que sim — e isso certamente fez com que, à medida que eu me envolvia cada vez mais no trabalho de resposta a desastres, meus encontros com as pessoas sempre começassem por um profundo respeito pelo que elas tinham conseguido fazer em meio ao terror, e não por alguma reação imediata e automática de diagnosticar um transtorno ou de procurar como outra pessoa poderia atender às suas necessidades. Muitas vezes descobri que os recursos naturais delas podiam ser prontamente sustentados por umas poucas doações ou ofertas.

Para onde foi o seu percurso depois da sua experiência pessoal de desastre no Quênia?

A partir dali, comecei a trabalhar pro bono como respondente de saúde mental em desastres junto à Cruz Vermelha americana, e aprendi a linguagem da assistência a desastres e do comando de incidentes. As pessoas que eu encontrava ressoavam com as perguntas focadas nas soluções, porque eram práticas, centradas em pequenos passos e reforçavam suas estratégias naturais de enfrentamento e suas esperanças pessoais. Algumas das intervenções que desenvolvi visavam fazer a organização da assistência funcionar de modo mais fluido. Por exemplo, eu dizia brincando que criar intervenções com e para as centenas de pessoas que ficavam horas em pé numa fila era tratar da “doença da fila”. Trabalhei também com os gestores para organizar o espaço e o processo dos centros de assistência a desastres, de modo a melhorar o fluxo para quem vinha pedir ajuda.

Outras vezes, as intervenções eram muito individualizadas. Por exemplo, houve um menino que havia sobrevivido a uma tempestade horrível e que não parava de gritar num centro de assistência a desastres. Depois de entrevistar quem cuidava dele, descobri que havia uma ótima razão para os gritos: ele tinha gritado durante a tempestade, e a tempestade finalmente foi embora. Então, como o centro de assistência era tão barulhento e confuso, ele gritava para aquilo parar. Descobri também que, no passado, ele havia usado fones e música para abafar ruídos altos, mas que o aparelho tinha sido destruído na tempestade. Um sistema de som doado fez toda a diferença na recuperação desse menino.

Os dez essenciais do trabalho de campo

Um tema recorrente em você é a preocupação com os respondentes de desastre tanto quanto com as famílias e as comunidades.

Com certeza! Lembro-me de um jantar com amigos em Long Island, numa noite de setembro de 2001. Eles me falaram de um vizinho que vinha trabalhando sem parar havia semanas no local do World Trade Center, até que uma “moça da Cruz Vermelha, do Oregon” conversou com ele sobre o que ele havia realizado, sobre o preço que aquilo cobrara dele e da família, e sobre quando ele saberia que já tinha feito o bastante. Depois dessa conversa, ele disse que sentia que finalmente podia ir para casa. Meus amigos disseram a ele que estavam felizes por ele estar bem e perguntaram o que poderiam fazer para ajudar; então acabaram perguntando o nome da moça da Cruz Vermelha. Ele disse o meu nome! Além de o mundo ser inacreditavelmente pequeno, isso mostra também o impacto de uma simples conversa focada nas soluções.

Aprendi a conceber o trabalho em desastres como o uso de uma bolsa muito pequena de habilidades (como uma “mochila de um dia” para o campo), e não do grande leque de recursos disponíveis num consultório. Tomando como modelo a minha experiência de caminhadas no Oregon, quando cada um levava um kit com dez itens essenciais — um acendedor de fogo, água, uma bússola —, identifiquei “dez essenciais” para o trabalho em desastres focado nas soluções. Lembro-me de ter apresentado essas dez estratégias essenciais, que uso nas minhas interações de campo, no congresso da European Brief Therapy Association, em 2004.

  1. Curiosidade sobre o que aconteceu.
  2. Perguntas de enfrentamento (por exemplo: o que faz você seguir em frente, como você se virou, como conseguiu…).
  3. “Uau, como você fez isso?”
  4. “O que os outros notaram você fazendo?”
  5. “O que mais?”
  6. Conhecimento prático sobre recursos (por exemplo: água, fraldas, café, pontos de recarga).
  7. “Deve haver uma ótima razão…” (ver acima a história do menino que gritava).
  8. Perguntas de escala (para dar perspectiva às dificuldades, identificar alguma mudança pré-sessão, um pequeno passo).
  9. Lembrar que a relação cliente-terapeuta é como uma faixa de Möbius numa zona de desastre: um tremor, uma doença infecciosa, um artefato explosivo, e “nós somos eles”.
  10. Elogios — devolver aos clientes as suas próprias palavras e os seus próprios valores.

Continuei a trabalhar de forma intermitente em locais de desastre entre 1999 e 2004, entre os atendimentos do consultório, o ensino e a consultoria. Em 2004, ofereceram-me a oportunidade de passar um ano em Washington como Fellow da American Academy for the Advancement of Science, trabalhando sobre a organização e o financiamento dos serviços de saúde mental nos Estados Unidos. Isso tocava a minha paixão por fazer diferença; então, com a bênção de Steve e Insoo, em janeiro de 2015 [sic: 2005 na cronologia da entrevista — nota do Complexe Systémique] dei esse passo seguinte rumo a um mundo diferente.

Em agosto, o furacão Katrina atingiu a costa do Golfo e me pediram que atuasse como comandante adjunta de incidente (Deputy Incident Commander) do centro de resposta a emergências da Substance Abuse and Mental Health Services Administration. Todo o meu trabalho foi informado pela terapia breve focada nas soluções; parte disso está descrita neste artigo: https://www.hsdl.org/?view&did=747354

Katrina, as políticas públicas e o que permanece

Sei que você não estava “fazendo terapia”. Então, pode nos dar um exemplo de como as ideias focadas nas soluções fizeram diferença no seu trabalho nesse contexto?

Um exemplo em particular é o “Returning Home Questionnaire”, destinado a servidores federais que haviam sido enviados à linha de frente na costa do Golfo. Havia a necessidade de que pudessem fazer um debriefing; mas eu era clara quanto a querer que essas entrevistas fossem uma ocasião para celebrar realizações e êxitos, tanto quanto para identificar a necessidade de serviços adicionais. Os materiais que criamos podem ser encontrados neste endereço: https://www.osha.gov/SLTC/emergencypreparedness/resilience_resources/support_documents/supervisorhome/returninghome_questionnaire_supervisors.html

Foi empolgante descobrir o quanto as abordagens focadas nas soluções podiam ser aplicadas à elaboração de materiais de pré e pós-deslocamento, à intervenção junto a pessoas atingidas pelo desastre, à formulação de políticas e procedimentos com colegas e ao enfrentamento dos desafios cotidianos no campo e na sede. A extensão da catástrofe era estarrecedora e o alcance das intervenções, avassalador. Pequenos passos que fazem uma grande diferença ao longo do tempo, a busca de exceções, objetivos que fazem sentido, as escalas, os elogios e o realce das estratégias de enfrentamento: essas eram as competências essenciais que eu aplicava a cada situação.

Olhando para os anos desde 1998, vejo como a TBFS me dá uma lente para compreender a trajetória natural pela qual um desastre afeta as pessoas. Sim, algumas pessoas lutam por mais tempo do que outras para dar sentido ou para lidar com as consequências adversas sobre a saúde e a vida. Fiquei impressionada com a força dessa luta para esclarecer prioridades e criar um futuro inimaginável antes do desastre, e também com a rede de sobreviventes que estende a mão a outros, atingidos em outro momento. Por exemplo, nos Estados Unidos, as lideranças de comunidades atingidas por tiroteios procuram regularmente as lideranças envolvidas num tiroteio posterior. É uma rede nascida da tragédia, mas também do conhecimento e da compaixão de quem passou por isso antes.

Tive a sorte de trabalhar com líderes extraordinários na elaboração de políticas e procedimentos que destacam as forças, o sentido e o enfrentamento que podem emergir das operações de resposta. Muitos dos meus colegas ressoam profundamente com uma orientação focada nas soluções e buscam oportunidades de criar materiais que se apoiem em práticas focadas nas soluções, como a busca de exceções, as escalas, a identificação de uma pequena mudança e um futuro preferido.

Quais foram os desafios específicos que o seu compromisso com a TBFS trouxe para o seu trabalho em desastres?

Acho que foi importante manter a mente aberta e sempre considerar o “e” em vez de se limitar ao “ou”. Há momentos em que um foco no problema, ou uma “análise de causa raiz”, é muito útil para as pessoas. Como a TBFS, porém, isso é um meio para um fim que foi definido de antemão. No mundo dos respondentes, dizemos: “Comece com o fim em mente.” Portanto, ainda que isso não seja propriamente um desafio, é uma aplicação importante da TBFS. Eu acrescentaria a expressão “deve haver uma ótima razão”, que ouvi pela primeira vez de Insoo, e que me guia para a curiosidade quando comportamentos, reações, políticas ou procedimentos não fazem sentido de imediato. Uma vez que compreendo a intenção, a TBFS oferece o enquadre para abrir escolhas e experiências negligenciadas que podem melhorar o resultado.

Conheço você há quase vinte anos, dividimos um palco de congresso e inúmeras mesas de restaurante, mas não creio que jamais tenhamos falado tanto sobre você. Obrigado por esta conversa tão diferente. Alguma palavra final?

A terapia breve focada nas soluções, como modelo, está inextricavelmente entrelaçada com a curiosidade, a inteligência vibrante, o respeito profundo e a integridade fenomenal de Insoo e Steve. Vejo o modelo crescer e se construir sobre o que funciona, em resposta às mudanças do mundo à nossa volta, por meio dos meus colegas da comunidade da terapia breve focada nas soluções e do modo como escutamos nossos clientes. Sou grata por ter estado em lugares onde posso aprender e compartilhar a TBFS para favorecer a cura, o vínculo e a criatividade.

Sobre os autores

Cynthia Hansen pode ser contatada no endereço: drcynthiahansen@gmail.com

Michael Durrant é membro associado da Faculty of Education and Social Work da Universidade de Sydney, diretor do Brief Therapy Institute of Sydney e editor desta revista.

E-mail: michael@briefsolutions.com.au

Tradução não oficial para o português de From school psychology to disaster recovery: A journey of encountering resilience and continually being surprised by peoples’ own solutions. An interview with Cynthia K. Hansen, de Michael Durrant, publicada em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n. 1 (2016), doi: 10.59874/001c.75116, sob licença CC BY 4.0. Tradução, diagramação e subtítulos: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “From school psychology to disaster recovery: A journey of encountering resilience and continually being surprised by peoples’ own solutions. An interview with Cynthia K. Hansen”, publicado em Journal of Solution-Focused Brief Therapy (2016) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Durrant, M. (2016). Da psicologia escolar à recuperação pós-desastre: entrevista com Cynthia Hansen (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/da-psicologia-escolar-a-recuperacao-pos-desastre-entrevista-com-cynthia-hansen (Obra original publicada em 2016 em Journal of Solution-Focused Brief Therapy, vol. 2, n° 1; republicada em 2023 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75116)

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