Child & Family Social Work · Serviço social

De fora, por dentro: as práticas agênticas de coordenação das Conferências de Grupo Familiar junto a famílias com crianças em risco

Em Israel, a Conferência de Grupo Familiar confia à família e ao seu entorno a tarefa de construir um plano para proteger uma criança. Jordan Shaibe e Orna Shemer entrevistaram quase todas as pessoas que coordenam essas conferências. Três princípios guiam esse trabalho: deixar a decisão com a família, destacar suas capacidades e orientá-la para o futuro, a partir de uma posição singular, nem totalmente dentro nem totalmente fora.

Autores Jordan Shaibe e Orna Shemer (Escola de Serviço Social e Bem-Estar Social Paul Baerwald, Universidade Hebraica de Jerusalém, Israel)Primeira publicação Child & Family Social Work, 1º de dezembro de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de De fora, por dentro: as práticas agênticas de coordenação das Conferências de Grupo Familiar junto a famílias com crianças em risco, de Jordan Shaibe e Orna Shemer, publicado na Child & Family Social Work (Wiley) (2024), doi: 10.1111/cfs.13114, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura é reproduzida em sua versão original em inglês, com legenda traduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

O propósito que viam na FGC não era necessariamente concluir a conferência, mas percorrer com a família um processo que a incentive a dar passos ativos rumo a um futuro de sua escolha.

Jordan Shaibe e Orna Shemer

Resumo

A Conferência de Grupo Familiar (Family Group Conference, FGC) é um processo participativo de tomada de decisão voltado para famílias com crianças em risco, em relação às quais preocupações foram reconhecidas pela família, por profissionais e/ou pela comunidade. Em suas etapas iniciais, a FGC é organizada, e as famílias são acompanhadas, por uma coordenação independente. O estudo usou uma metodologia qualitativa orientada para a ação para explorar as práticas que as pessoas coordenadoras utilizam para favorecer a dinâmica da FGC conduzida pela família. A coleta de dados incluiu 13 entrevistas semiestruturadas em profundidade e duas discussões de grupo de pesquisa com quem exerce a coordenação, a fim de conhecer suas perspectivas e práticas. O estudo constatou que essas práticas eram guiadas por três grandes princípios de ação: afirmar o controle e a responsabilidade da família, destacar a capacidade da família e orientar a família para o futuro. O artigo explora como essas práticas contribuem para a dinâmica da FGC conduzida pela família e as situa no contexto do sistema de proteção social e da posição da coordenação como “de fora, por dentro” (outsiders-within), tanto em relação à família quanto aos serviços sociais. Este estudo contribui para o corpo de conhecimento sobre modelos participativos de proteção à infância e sobre práticas agênticas, e oferece implicações para as políticas públicas e para a implementação da FGC de uma forma que reconheça e respeite a agência das famílias.

1. Introdução

O presente artigo compartilha os resultados de um estudo que examinou práticas agênticas no contexto da proteção à infância e do conjunto de serviços destinados a garantir a segurança das crianças e a oferecer às famílias a assistência essencial para cuidar de seus filhos (Child Welfare Information Gateway, 2018). O estudo se concentra no modelo da Conferência de Grupo Familiar (FGC) no contexto da proteção à infância, tal como ele existe em Israel. Na proteção à infância, a FGC busca reforçar a segurança da criança e diminuir a necessidade de intervenção profissional, ao mesmo tempo que envolve as famílias e as crianças de maneira participativa nas decisões tomadas sobre o bem-estar das crianças (Mitchell, 2020). Os resultados detalham as ações específicas que a coordenação da FGC realiza para facilitar a agência das famílias, a fim de alcançar o propósito do modelo: uma dinâmica de tomada de decisão conduzida pela família (Merkel-Holguin et al., 2020). Essas práticas são exploradas pelo contexto do sistema de proteção social e pela posição particular da coordenação.

2. Revisão da literatura

2.1 A FGC em Israel

Em Israel, um dos procedimentos convencionais atuais de proteção social para o cuidado de famílias com crianças em risco envolve os Comitês de Planejamento, Intervenção e Avaliação. Em certas circunstâncias, como a persistência das preocupações com a criança após uma intervenção, esse comitê decisório é convocado com o objetivo de determinar o risco a que a criança está exposta, a capacidade da família de oferecer a proteção de que a criança precisa e o futuro plano de cuidado da criança (Alfandari, 2019). O estudo qualitativo de Alfandari (2017) constatou que esses comitês formais se caracterizam com frequência por baixos níveis de parceria com os pais. Isso se assemelha à situação do sistema de proteção social da Nova Zelândia nos anos 1980, acusado de desvalorizar a família e a estrutura social maori ao retirar as crianças de seus lares e de sua cultura (Ministerial Advisory Committee on a Māori Perspective, 1986).

Essas críticas levaram ao desenvolvimento do modelo da FGC na Nova Zelândia, que também foi adotado em Israel. Embora o governo israelense tenha adotado o modelo da FGC na justiça juvenil em 2000 (Rivkin e Shmaia Yadgar, 2007), sua adoção no campo da proteção à infância é mais recente. Em 2016, o Ministério do Bem-Estar e dos Assuntos Sociais, em parceria com o Ministério da Imigração, a organização Joint Ashalim e a organização Mosaica, lançou um programa piloto baseado no modelo da FGC para a proteção à infância. O programa foi lançado em cinco regiões de Israel para examinar seu lugar como alternativa aos comitês de avaliação convencionais (Shemer et al., 2022). Assim, no modelo israelense, há uma distribuição de responsabilidades: a identificação das preocupações e o encaminhamento das famílias para o modelo cabem ao ministério do bem-estar social, enquanto a formação e o acompanhamento da coordenação ficam a cargo da organização Mosaica, especializada em mediação de processos e justiça restaurativa. O espírito dessa responsabilidade compartilhada é deixar com a família a titularidade da tomada de decisão, enquanto o ministério do bem-estar social continua acompanhando a família (Shemer et al., 2022).

2.2 O modelo da FGC

No âmbito da FGC, a coordenação tem a tarefa de organizar o modelo e de fazer sua mediação (Frost et al., 2012). Seu papel se define, portanto, por características e responsabilidades específicas, que entram em jogo nas três etapas do modelo: a preparação, a conferência e a pós-conferência.

Antes da conferência, em Israel, a pessoa de referência do serviço social fornece à coordenação as informações iniciais sobre a família e sobre as preocupações com a criança. Em seguida, a coordenação compartilha com a família as informações essenciais, como a estrutura do modelo e as responsabilidades que ele lhe atribui. Nessa etapa, a família identifica as preocupações com a criança que serão tratadas durante a conferência. Por fim, a família é convidada a escolher quais pessoas de apoio, membros de sua rede social, deseja incluir no processo da FGC (Connolly, 2006a; Sundell et al., 2001). No modelo israelense, as crianças são incentivadas a participar da escolha e do convite das pessoas que vão apoiar a família (Shemer et al., 2022).

A conferência, moderada pela coordenação, divide-se em três fases. A primeira é a etapa de compartilhamento de informações, na qual estão presentes todos os membros da conferência, incluindo a família, suas pessoas de apoio, a pessoa de referência do serviço social e outras equipes profissionais pertinentes. Nessa fase, a pessoa de referência do serviço social cuida de revelar todas as informações essenciais sobre as preocupações que motivaram o encaminhamento e que são necessárias para que a família conduza a tomada de decisão (American Humane Association, 2010). Em seguida, cada pessoa presente compartilha o que considera serem as forças e as preocupações da família, e depois os recursos possíveis e ideias de ajuda para responder às preocupações específicas levantadas (Connolly e Masson, 2014; Sundell et al., 2001). A segunda fase da conferência é a deliberação privada da família, durante a qual a coordenação e toda a equipe profissional se retiram. Nesse momento, a família decide quais recursos escolher para responder às preocupações identificadas (Sampson, 2020; Sundell et al., 2001). Por fim, na fase do acordo, a coordenação e a pessoa de referência do serviço social voltam à sala. Os membros da família apresentam seu plano para responder às preocupações, e esse plano é discutido até que se chegue a um acordo. Cabe à coordenação conduzir essa negociação. Em Israel, faz-se todo o possível para chegar ao pleno acordo de todas as pessoas presentes, respondendo ao mesmo tempo às preocupações com as crianças, e a pessoa de referência do serviço social pode concordar ou discordar do plano levando em conta o risco para a criança e a urgência do cuidado (Shemer et al., 2022). Durante essa discussão, a família também decide sobre um método de avaliação de seu plano (Connolly, 2006a; Huntsman, 2006; Meijer et al., 2019).

A terceira etapa do modelo da FGC é a de implementação e avaliação, durante a qual o plano familiar é executado, e sua eficácia e seu êxito em responder às preocupações levantadas na conferência são avaliados (Sampson, 2020). Em Israel, cabe à pessoa de referência do serviço social fazer o acompanhamento da família. Por isso, a coordenação é orientada a explicar à família que seu papel termina ao fim da conferência e que o contato seguirá com o serviço social. Em Israel, cerca de seis semanas após a conferência, um segundo encontro é marcado com a pessoa de referência do serviço social para garantir que o plano foi iniciado. Além disso, como particularidade do modelo israelense, a família recebe a oferta de um orçamento e a possibilidade de escolher um recurso de acompanhamento familiar, cujo papel é ajudar a família na execução do plano, por exemplo auxiliando no contato com órgãos públicos (Shemer et al., 2022).

2.3 O papel da coordenação na FGC

A coordenação é independente de qualquer serviço que atue junto à família (de Jong et al., 2015; Macgowan e Pennell, 2002). Pesquisas constataram que as pessoas coordenadoras acreditam na importância de sua natureza independente, “de fora”, pois ela lhes permite garantir que as decisões da família não sejam desconsideradas (Connolly, 2006a; Natland e Malmberg-Heimonen, 2014). Ao mesmo tempo, as etapas iniciais do modelo da FGC são organizadas pela coordenação, e esse papel formal que lhe é confiado lhe dá, portanto, também uma posição “de dentro” do sistema de proteção social.

A dinâmica da FGC impõe muitos desafios à coordenação, entre eles relações tensas entre a família e os serviços sociais, resistência por parte de profissionais da proteção social e conflitos entre membros da família. Quando se perguntou às pessoas coordenadoras como lidam com esses desafios, elas enfatizaram a importância de conversar com a família sobre as preocupações e os recursos de maneira prática. Também destacaram a importância de preparar adequadamente a família para a conferência para reduzir sua ansiedade (Connolly, 2006a, 2006b). Além disso, Schout e de Jong (2017) constataram que a coordenação incentiva as famílias a se manifestarem e a fazerem ouvir sua voz, fazendo perguntas e compartilhando retornos. Por fim, em um ensaio controlado randomizado realizado sobre a FGC na Inglaterra, que concluiu que o modelo tinha boa relação custo-efetividade e reduzia a probabilidade de as crianças serem acolhidas institucionalmente em comparação com o grupo controle, as pessoas coordenadoras que participaram descreveram resultados positivos da FGC, entre eles a ampliação do apoio familiar e o sentimento das famílias de serem ouvidas e fortalecidas (Taylor et al., 2023).

Em Israel, a coordenação recebe da Mosaica formação em diversas áreas, entre elas crianças em risco, proteção à infância, habilidades de mediação e competência cultural. É preciso passar por um programa de estágio prático e participar de acompanhamento em grupo e individual. Por fim, o recrutamento dá ênfase à diversidade.

Assim, a coordenação da FGC tem a tarefa de reconhecer e ampliar o controle das famílias sobre o processo de tomada de decisão. A revisão acima mostra como o papel da coordenação é essencial para o modelo da FGC. Além disso, a ideia de que “quem coordena deve ser uma pessoa da sociedade civil com aptidões naturais para mobilizar grupos” (Schout e de Jong, 2017, p. 1198) fica evidente nas práticas ecléticas que as pessoas coordenadoras adotam. O presente artigo propõe o referencial da agência para compreender o que são essas práticas e como elas podem ajudar a coordenação a lidar com os desafios inerentes à dinâmica da FGC.

2.4 A agência no contexto da proteção à infância

A definição de agência usada neste artigo é a proposta por Amitay e Rahav (2020): “a crença de que se pode direcionar a própria vida para metas e aspirações desejadas apesar de circunstâncias e trajetórias de vida severas, o que engloba a sensação de ter controle sobre as próprias escolhas e decisões e de ser responsável por seus resultados” (p. 136). Assim, as práticas agênticas de profissionais incluem ações que reconhecem e sustentam a agência das pessoas, contrapõem-se ao sentimento de alienação de quem utiliza os serviços e ampliam seu senso de capacidade. Amitay e Rahav (2020) constataram que essas práticas têm uma influência positiva significativa no contexto das crianças em risco.

De modo mais geral, a pesquisa sobre agência destacou sua importância para o bem-estar (Kahana et al., 2012; Kotan, 2010; Tuason et al., 2021), a satisfação com a vida (Veronese et al., 2019) e o pensamento positivo sobre o futuro (Bryant e Ellard, 2015), bem como sua qualidade protetora, de resiliência, em situações de risco (Karam et al., 2021; Okech et al., 2012; Veronese et al., 2018). Por isso, o referencial da agência é particularmente pertinente no contexto da FGC, em que famílias com crianças em risco trabalham com sua rede social em direção a um plano de sua própria escolha. Além disso, a perspectiva da FGC baseada nas forças, que enfatiza o poder, a autonomia, a autossuficiência e a resiliência das famílias (Bredewold e Tonkens, 2021; Connolly e Masson, 2014; Meijer et al., 2019), é emblemática da abordagem agêntica.

A revisão aqui apresentada mostra como o papel da coordenação é essencial para o modelo da FGC, sobretudo quando compreendido pela perspectiva da agência. No entanto, até onde sabemos, o tema das práticas da coordenação, e em particular de como ela implementa na prática o modelo participativo da FGC conduzido pela família, permaneceu em grande parte sem estudo. Isso levou a equipe de pesquisa a olhar por baixo da superfície do modelo, para revelar os princípios orientadores e as práticas que a coordenação utiliza para facilitar a dinâmica da FGC.

3. Metodologia

Para responder à necessidade de mais pesquisas sobre as práticas da coordenação da FGC, usamos uma metodologia qualitativa orientada para a ação. Essa metodologia busca as ações que as pessoas participantes realizam para produzir um “conhecimento acionável”, isto é, um conhecimento que se traduz facilmente de volta em ações (Schön, 1984; Schön, 1987; Yang, 2012, p. 262). Diante da falta de literatura sobre a coordenação, essa metodologia foi escolhida para preencher a lacuna de conhecimento sobre suas práticas, e ela se mostrou eficaz para revelar conhecimentos significativos sobre princípios de ação. Além disso, o estudo se baseou na metodologia de aprendizagem a partir dos sucessos. Trata-se de uma metodologia orientada para a ação que busca revelar as práticas das pessoas participantes pedindo que compartilhem suas histórias de sucesso, os custos que atribuem a esse sucesso e as questões que ficaram sem solução. Essa metodologia reúne as práticas das pessoas participantes a fim de revelar princípios de ação (Schechter et al., 2008).

3.1 Participantes da pesquisa e método de amostragem

As pessoas participantes da pesquisa eram coordenadoras de FGC com experiência na condução do processo. O estudo estava aberto a toda a coordenação de FGC em atividade em Israel, que, no momento da coleta de dados, reunia 15 pessoas.

Entrevistamos 13 pessoas coordenadoras, e duas que não participaram das entrevistas se juntaram às discussões do grupo de pesquisa. As pessoas participantes estavam facilmente acessíveis por meio de nossos contatos com a organização Mosaica. A amostra incluiu 10 mulheres e cinco homens com trajetórias profissionais variadas, além de pessoas com experiência de trabalho com famílias de diferentes origens culturais.

3.2 Método de coleta de dados

A coleta de dados usou entrevistas semiestruturadas em profundidade com duração de cerca de uma hora cada. As entrevistas foram gravadas em áudio e depois transcritas para dar conta com autenticidade dos sentidos e das histórias das pessoas participantes (Lietz e Zayas, 2010). As perguntas da entrevista foram escolhidas com base nas lacunas de conhecimento sobre a coordenação na literatura sobre FGC e com referência às tarefas da coordenação ao longo das etapas da FGC, tal como surgem da revisão da literatura e do processo de formação da coordenação. Por fim, as perguntas foram selecionadas com o propósito de extrair um modelo de ação. Elas pediam às pessoas participantes que descrevessem experiências de FGC que tinham achado difíceis, assim como outras que consideravam bem-sucedidas, as estratégias de enfrentamento que adotaram e quais de suas ações consideravam ter contribuído para o sucesso. Além disso, pediu-se às pessoas coordenadoras que compartilhassem sua compreensão das teorias abstratas que fundamentam a FGC, como “conduzida pela família” e “escolha da família”, termos que usavam com frequência para descrever o processo. Por fim, a entrevistadora pedia às pessoas participantes que compartilhassem suas experiências como se ela estivesse na sala com elas. Em resposta, as pessoas participantes contavam histórias em uma sequência do tipo “eu fiz isto, e a família reagiu assim, então eu fiz aquilo”, e assim por diante.

Além das entrevistas, realizamos duas discussões de grupo de pesquisa com a coordenação. Uma aconteceu antes do processo de entrevistas, para discutir o tema da pesquisa e definir as perguntas de pesquisa e de entrevista, e a outra após a análise dos dados, para discutir os resultados, receber retornos e integrar ainda mais suas perspectivas à coleta de dados (Chiu, 2003; Linhorst, 2002).

3.3 Análise dos dados

As entrevistas e as discussões de grupo transcritas foram analisadas por meio de uma análise orientada para a ação, a fim de explorar os sentidos, os pontos em comum e as singularidades que se podiam encontrar nas ações relatadas pelas pessoas participantes (Braun e Clarke, 2012; Carey, 2017). O método de análise se concentrou especificamente nos trechos em que as pessoas participantes compartilhavam lembranças em forma de relato, para descobrir quais práticas usavam. Analisamos esses trechos como se fossem uma observação e, assim, identificamos ações específicas como códigos e grupos de ações baseadas no mesmo princípio como temas (Ngulube, 2015). Esses princípios de ação descrevem como as pessoas participantes punham em prática seus valores e princípios orientadores (Schechter et al., 2008).

Decidimos combinar uma análise ascendente e uma análise descendente. Em particular, usamos uma análise ascendente, indutiva, durante a qual descobrimos como as práticas e as ações das pessoas participantes se articulam para contar uma história coesa de agência (Braun e Clark, 2012). Depois, concluída a análise ascendente, usamos a definição de agência de Amitay e Rahav (2020) como lente teórica para conduzir uma análise descendente, a fim de identificar especificamente se as ações da coordenação eram agênticas, e quais eram (Braun e Clarke, 2006; Leeming, 2018). Essa análise descendente minuciosa nos permitiu verificar que as ações descritas pela coordenação de fato reconheciam, facilitavam e fortaleciam a agência das famílias.

A análise combinada nos pareceu a forma mais franca e autêntica de apresentar os dados, pois a teoria da agência elucidava as ações das pessoas participantes, e suas práticas, por sua vez, enriqueciam e ampliavam a compreensão da agência (Bradbury-Jones et al., 2022; Leeming, 2018; Tai e Ajjawi, 2016).

3.4 Confiabilidade

Para manter a reflexividade, registramos em um diário de campo nossas experiências e refletimos sobre nossa posição e nossa influência como equipe de pesquisa. Além disso, a triangulação entre integrantes da pesquisa foi obtida por meio de discussões com membros da equipe de pesquisa no âmbito da qual o presente estudo foi realizado (Koch et al., 2014; Lietz e Zayas, 2010). A descrição densa reunida durante as entrevistas e os grupos de discussão permitiu que as práticas das pessoas participantes fossem apresentadas da forma mais autêntica possível. Por fim, após a análise dos dados, reunimo-nos com as pessoas participantes para discutir os resultados e verificar se estavam retratadas com precisão no estudo (Connelly, 2016; Davies e Dodd, 2002; Lietz e Zayas, 2010).

Embora o estudo seja publicado em inglês, a coleta de dados foi feita em hebraico. Para garantir que as narrativas da coordenação fossem apresentadas com autenticidade, os dados foram traduzidos durante e após a análise, a fim de preservar a integridade das vozes das pessoas participantes (Nurjannah et al., 2014). Durante a tradução, procuramos captar o sentido pragmático da mensagem transmitida pelas pessoas participantes, e as citações traduzidas, os princípios de ação e as práticas foram depois retraduzidos para o hebraico, para garantir a exatidão da tradução.

3.5 Considerações éticas

O estudo foi aprovado pelo comitê de ética da universidade à qual a equipe de pesquisa é vinculada. Antes da coleta de dados, as pessoas participantes receberam um termo de consentimento livre e esclarecido. As gravações em áudio foram transcritas sem marcadores identificáveis e depois apagadas. Foram atribuídos pseudônimos às pessoas coordenadoras para garantir o anonimato e a segurança. Além disso, no início das entrevistas, pediu-se que evitassem compartilhar detalhes identificáveis sobre as famílias com as quais trabalhavam, e qualquer detalhe mencionado foi removido durante a transcrição para proteger a privacidade das famílias (Cary, 2017; Shaw, 2003). Por fim, considerando o pequeno porte do programa de FGC em Israel, com apenas 15 pessoas na coordenação no momento da coleta de dados, decidiu-se não fornecer nenhum dado demográfico sobre as pessoas participantes, como idade, origem étnica ou experiência profissional, para proteger seu anonimato.

4. Resultados

Este estudo perguntou quais práticas as pessoas coordenadoras de FGC que participaram usavam para facilitar a agência das famílias. Constatamos que suas ações eram guiadas por três grandes princípios de ação, como ilustra a figura 1. A figura mostra que todos os princípios e ações tinham a mesma importância nas narrativas da coordenação. Além disso, na sessão de discussão final, as pessoas coordenadoras enfatizaram que essas práticas são todas interdependentes e que procuram personalizar suas ações de acordo com a pessoa e a situação com que e em que estão trabalhando. É importante notar que as práticas reveladas neste estudo eram percebidas pelas pessoas participantes como bem-sucedidas e eficazes, e não coincidiam necessariamente com as diretrizes padrão da FGC em Israel ou no plano internacional.

Esquema em três colunas. Afirmar o controle e a responsabilidade da família: explicar e informar, reenquadrar a dinâmica de poder, seguir a condução da família, defender o direito da família de escolher. Destacar a capacidade da família: preservar a crença na capacidade da família, buscar as forças, refletir uma admiração sincera. Orientar-se com a família para um futuro positivo: transmitir uma mensagem otimista, mostrar à família que a vida pode ser diferente, manter o foco na meta e continuar com esperança
Figura 1. Os princípios de ação e as práticas agênticas da coordenação (esquema original em inglês)

4.1 Afirmar o controle e a responsabilidade da família

Ao longo das entrevistas, as pessoas participantes enfatizaram a importância de reconhecer o autoconhecimento das famílias como válido e valioso para tomar decisões sobre a própria vida. Com base nesse princípio, a coordenação relatou o cuidado de explicar às famílias a posição de cada membro da família e de cada profissional, e cada passo que dava. Por exemplo, Odi esclareceu que explicava: “Por que [o processo] precisa acontecer desta forma. O que há de especial neste processo? De onde veio o processo e o que acontece depois?” Ao dar explicações tão detalhadas, Odi e outras pessoas coordenadoras assumiam a responsabilidade de revelar toda informação pertinente, respeitando o poder da família de escolher se queria prosseguir com o modelo da FGC.

A coordenação também se esforçava para reenquadrar a dinâmica de poder entre as famílias e as equipes profissionais envolvidas, por meio de quatro práticas diferentes. Primeiro, procurava manter consciência de seus próprios preconceitos internalizados. Essa reflexividade apareceu na conversa aberta das entrevistas, de tal modo que, quando as pessoas participantes usavam uma formulação que aludia a relações de poder desiguais, muitas vezes se apressavam a reformular a frase e a reafirmar o poder da família. Por exemplo, Miriam lembrou como explicou a uma família a conferência da FGC, dizendo:

Na conferência tem a parte em que vocês ficam sozinhos, em que vocês precisam fazer coisas para o serviço social aprovar o plano […] Não! Eles não precisam, eu não formulei essa frase direito, eu sempre explico assim para a família: “É isso que vocês querem?… Então escrevam isso, mas expliquem a preocupação que está por trás, por que vocês precisam disso…”

A afirmação inicial de Miriam implica uma dinâmica de poder que coloca a família em posição de impotência e sugere que, mesmo sendo independente do sistema de proteção social, ela havia assumido uma posição “de dentro” desse sistema e adotado sua linguagem. No entanto, seu esforço para reformular a explicação ressalta como Miriam se esforça para corrigir essa dinâmica e voltar a uma posição “de fora”. Além disso, ao minimizar o controle do serviço social, as palavras de Miriam apontam para a tensão sempre presente entre o desejo da coordenação de facilitar a agência da família e o poder existente do serviço social no contexto da FGC.

Uma segunda prática da coordenação era enfatizar que cabe à família tomar as decisões. Essa estratégia surgia especialmente em casos em que as famílias expressavam sentimentos de insegurança ou de desamparo. As pessoas coordenadoras descreveram como repetiam, como um lema, que é a família que escolhe e decide. Por exemplo, Tamar descreveu como repetia a uma mãe que acompanhava: “Queremos encontrar um caminho que seja bom para você e para [seu filho], você vai decidir qual, mas precisa encontrar o caminho que será o melhor, tanto para você quanto para seus filhos.”

A terceira prática de reenquadramento da dinâmica de poder relatada pela coordenação era perguntar o ponto de vista e a escolha da família a cada passo do processo. Essa foi uma das estratégias que mais apareceram nas entrevistas, tanto no contexto da etapa de preparação para a conferência quanto na própria conferência, e incluía onde realizar os encontros, quais eram as preocupações da família, quais pessoas de apoio ela queria convidar para a conferência e assim por diante.

Por fim, depois que a família chegava a uma decisão, a importância de ouvir e de destacar a escolha da família apareceu repetidamente nas entrevistas e nas discussões de grupo. No trecho a seguir, Rachel conta como o serviço social tende a ditar os planos de atendimento, e como ela muitas vezes precisava ajudar a reenquadrar as decisões conduzidas pela família, explicando ao serviço social a importância de ouvir a família e sua escolha, sobretudo quando havia desacordo com a família.

A assistente social dizia: “[A família] tem que escolher orientação parental, e o centro de atendimento a pais e filhos, e eles têm que ir a…” Eu disse a ela: “Escute, se você os encaminhou para cá, e eles estão aqui, então eles não têm obrigação nenhuma, com ninguém, só com eles mesmos. E o que eles decidirem? É isso que vai ser. E pronto.”

A paixão de Rachel ao defender a escolha da família fica clara no trecho acima. Ele exemplifica o que várias pessoas coordenadoras descreveram como tomar o partido da família. Assim, a coordenação se posicionava “por dentro” em relação à família. É importante notar que Rachel teve o cuidado de não discordar da avaliação do serviço social sobre quais recursos seriam benéficos para a família, e enfatizou que foi a decisão da assistente social que levou a família à FGC. Assim, ela continua valorizando o conhecimento profissional do serviço social.

Durante o grupo de discussão, as pessoas participantes enfatizaram a importância dessa prática para garantir que o controle da família seja mantido depois da conferência e após o término do processo da FGC. Essa prática também influencia a natureza e a titularidade da responsabilidade no contexto da proteção à infância, pois transmite a convicção de que a responsabilidade do serviço social é compartilhar sua expertise, mas ouvir a decisão da família, e de que a responsabilidade da família é tomar as decisões que forem melhores para as crianças.

Assim, as pessoas participantes expressaram a importância da escolha e da responsabilidade da família como princípio orientador de seu trabalho e implementaram práticas que reenquadravam a dinâmica de poder e defendiam a decisão da família.

4.2 Destacar a capacidade da família

Durante as entrevistas, a coordenação enfatizou a importância que dava a reconhecer a capacidade inerente das famílias e a acreditar nela, e a importância que via em refletir essa crença para as famílias. A primeira prática baseada nesse princípio consistia em fortalecer a própria crença na capacidade da família, tanto mantendo uma perspectiva objetiva quanto demonstrando empatia pela família. Essa prática foi encontrada nas histórias da coordenação, sobretudo nos relatos de preocupações com as crianças que punham à prova a própria crença na capacidade da família. As pessoas coordenadoras descreveram como recorriam ao diálogo interno, à reflexão e à consulta com quem as acompanhava na formação para compreender a perspectiva da família.

Por exemplo, quando Gali se encontrou pela primeira vez com a assistente social, sua crença no que ela chamava de “potencial da família” foi abalada pela longa lista de preocupações que a assistente social compartilhou: “Ela te descreve a família e parece… tipo, uau! Tipo, uau, uau.” Apesar das dúvidas, Gali tentou deixá-las de lado e encontrar a família sem ideias preconcebidas:

Mas aí você conhece a família, conhece a mãe, conhece o companheiro dela, com toda a história deles, e você vê que são seres humanos. Antes de tudo, uma mãe. E que forças ela tinha! Que sobrevivência! Que batalha ela travou pelos filhos!

Assim, essa prática permitiu que Gali enxergasse além do prontuário da família, chegando à sua humanidade, depois do que desenvolveu por ela uma verdadeira admiração. Além disso, ajudou Gali a passar de uma posição “de fora” da família para uma posição de familiaridade e proximidade.

Diferentemente da história acima, às vezes a coordenação tinha dificuldade de descobrir as forças dos membros da família, mesmo depois dos primeiros encontros, e então buscava métodos individualizados para revelá-las. Por exemplo, Natan usou mensagens de WhatsApp para se conectar com um adolescente que, no início, era reservado e ficava concentrado no celular durante os encontros:

Eu disse: “Me diz, vem, vem aqui; me mostra, o que você está fazendo?” E quando vi o que ele estava fazendo, pensei: “Uau, esse menino é um gênio!” E todo esse tempo todo mundo o via como… [sic]. Então eu peguei isso e disse a ele: “Escuta, me manda uma mensagem sobre o que você sabe dizer de algum cantor.” E aí eu vi as coisas que ele escreveu, e aquilo saía da cabeça dele! E eu pensei: “Uau, isso é impossível!”

Natan, como outras pessoas coordenadoras, era guiado pela convicção fundamental de que se pode encontrar força em toda pessoa. Essa convicção o levou a encontrar uma forma de se comunicar com o menino apesar da dificuldade inicial, o que acabou transformando sua percepção do adolescente.

Isso leva a outra prática significativa, encontrada em todas as entrevistas: refletir para a própria família a admiração sincera que a coordenação havia cultivado por ela, assim como para a rede social da família e para as demais equipes profissionais envolvidas. Por exemplo, na história acima, Natan contou como expressou sua admiração à rede social do adolescente. Essa prática também apareceu no contexto das conferências, para incentivar os membros a falar positivamente com a família e sobre ela. Rachel descreveu a importância que via em destacar as forças durante a conferência:

Ali você realmente vê acontecer. Você faz a roda das forças, cada pessoa diz alguma coisa, e de repente vocês [a família] não estão mais ali sozinhos diante do sistema de proteção social. Vocês estão com pessoas que realmente se importam com vocês […] Lembro que, durante a conferência, a mãe se levantou e disse […] “Eu nunca pensei que eu interessasse, que minha família interessasse, a tanta gente… Eu tinha certeza de que estava sozinha. E estando aqui, eu entendo que não estou sozinha neste mundo.”

Ao compartilhar essa história durante a entrevista, Rachel chegou às lágrimas. Ela descreveu como via essa transformação na percepção de mundo da mãe como o verdadeiro propósito da FGC.

Assim, destacar a capacidade da família era um princípio orientador essencial no trabalho da coordenação. Para preservar a crença na capacidade da família, as pessoas coordenadoras se esforçavam para manter a neutralidade ou para ter empatia com a situação da família. Observando a família e conversando com ela, procuravam identificar traços de personalidade admiráveis, talentos, conquistas passadas e ações positivas. Por fim, depois de buscar as forças da família, as pessoas participantes cuidavam de compartilhá-las com a família e com as pessoas ao seu redor.

4.3 Orientar-se com a família para um futuro positivo

O último princípio que guiava as práticas da coordenação era a importância de um pensamento otimista sobre o futuro para o senso de agência da família. As pessoas coordenadoras contaram como transmitiam à família uma mensagem de esperança, dando um enquadre positivo às conversas, encontrando motivos para se alegrar e buscando uma meta junto com a família.

Por exemplo, Alona descreve como uma mãe compartilhou com ela expectativas negativas para o futuro. Em resposta, Alona tentou identificar com a mãe momentos passados de felicidade, o que ela chamava de “florescimento”:

Eu procuro esse florescimento… Eu o lembro a ela. Ela também me contou que queria trabalhar em [certa área]. Eu não procuro esse recurso por ela. Quando ela me disse isso, eu simplesmente disse: “Vamos procurar juntas, onde você pode estudar [isso]?” E durante o encontro, achamos um lugar, ali, perto da casa dela. Sabe, é algo assim, que dá esperança.

Assim, Alona ancora na realidade sua mensagem de visão otimista do futuro, encontrando com a mãe passos concretos pelos quais ela pode alcançar suas metas.

A segunda prática que a coordenação descreveu nas entrevistas era mostrar à família que ela tem o poder de influenciar e mudar sua vida. Uma das formas de alcançar esse objetivo era oferecer às famílias uma ajuda pertinente, sobretudo quando elas buscavam ajuda. Por exemplo, Gali descreveu como o procedimento da FGC determina que o orçamento da FGC seja reservado a recursos para as crianças. No entanto, quando uma família que ela acompanhava enfrentou uma situação de moradia emergencial, o orçamento foi redirecionado para ajudar a família a pagar o aluguel. As pessoas coordenadoras descreveram essa prática como transformadora, pois acreditavam que ela “provava” às famílias que a relação que têm com profissionais pode ser positiva, e que, ao se aproximar e pedir ajuda, elas têm o poder de influenciar essas relações para melhor.

A segunda prática usada pela coordenação era buscar oportunidades para que a família vivesse experiências de sucesso. Por exemplo, Natan contou como descobriu que um adolescente que ele acompanhava queria visitar parentes em uma cidade próxima. Em resposta, Natan disse:

Sem problema! Vou te ensinar a pegar o ônibus. Vamos até o ponto. Este é o ponto onde você desce [Natan imitou o gesto de apontar um mapa no celular]. Este é o número do ônibus. Você vai para lá agora. Eu vou de carro e te encontro lá.

Esse trecho mostra como a coordenação desenvolvia relações próximas com os membros da família para descobrir seus sonhos e suas metas. Encontrada uma meta assim, buscava-se então como torná-la realidade, para que a família pudesse experimentar o poder de influenciar positivamente sua vida antes mesmo do fim do processo da FGC. Além disso, a história de Natan mostra o papel ativo que a coordenação assumia no apoio à criação dessa nova realidade.

Por fim, uma prática que apareceu com destaque nas entrevistas foi a importância de a coordenação preservar sua própria esperança realista em benefício das famílias. As pessoas coordenadoras enfatizaram que acreditar genuinamente em um futuro melhor era essencial para que sua mensagem otimista às famílias fosse autêntica e, portanto, eficaz. Assim, as pessoas participantes relataram ações da família que haviam testemunhado e que as ajudaram a acreditar em um futuro otimista. Essas ações incluíam membros da família entrando em contato com os serviços sociais, começando um novo emprego, voltando a estudar e reatando com parentes de quem estavam afastados. Por exemplo, Tamar descreveu como soube que havia alcançado sua própria meta pessoal como coordenadora, que para ela era a mãe fazer uma mudança ativa em sua vida, quando, no dia da conferência, percebeu que:

A mãe já tinha chegado antes [de todo mundo], e tinha mudado as mesas de lugar! Aí eu vi o cabelo dela arrumado, ela estava tão bem vestida, e eu… eu… fiquei de queixo caído! De queixo caído! Ela arrumou a mesa como se fosse para a realeza! Simplesmente, são as coisas físicas, que a gente vê.

As palavras de Tamar mostram que, para a maior parte da coordenação, o propósito que via na FGC não era necessariamente concluir a conferência, mas percorrer com a família um processo que a incentive a dar passos ativos rumo a um futuro de sua escolha. De fato, algumas pessoas coordenadoras sugeriram que, para elas, o processo da FGC era bem-sucedido quando viam essa transformação ativa, mesmo quando a família escolhia não seguir até a conferência. Tamar, como outras pessoas coordenadoras, mantinha em vista seu propósito e sua crença otimista no futuro buscando mudanças de comportamento observáveis que lhe indicassem que a mãe estava se tornando proativa para além da participação na FGC.

Em conclusão, os resultados detalhados acima exploraram os três princípios de ação que se mostraram guiar as práticas da coordenação nas etapas de preparação e de conferência da FGC. Esses princípios incluíam afirmar o controle e a responsabilidade da família sobre a própria vida, destacar a capacidade da família e orientar-se com a família para o futuro. Os resultados deixam claro que a coordenação implementa essas práticas deslocando sua posição de fora para dentro e de volta, tanto no trabalho com o serviço social quanto com as famílias. A seção seguinte examina esses resultados à luz da literatura existente sobre a FGC e sobre a agência, para determinar o que eles sugerem sobre o papel da coordenação no processo da FGC.

5. Discussão

Este artigo compartilha os resultados de um estudo que examinou práticas agênticas no contexto do modelo da FGC. Os resultados detalham as ações específicas que a coordenação usava para facilitar a agência das famílias e apontam para a importância do tema, apesar da pouca atenção que recebeu até agora na literatura. A discussão a seguir examina como, por meio dessas práticas, a coordenação se esforçava para transformar o processo de tomada de decisão da proteção à infância, muitas vezes percebido pelas famílias como coercitivo e alienante, em um processo conduzido pela família. Esse processo é situado no contexto do sistema de proteção social, para perguntar que complexidades existem nessas práticas e como a figura singular da coordenação, caracterizada por qualidades “de fora” e “de dentro”, as torna possíveis.

5.1 Tomar a decisão: de um evento a um processo

As práticas das pessoas participantes que afirmam as escolhas das famílias são emblemáticas de duas percepções essenciais: a importância de reconhecer o autoconhecimento da família e a necessidade vital de fornecer à família as informações pertinentes sobre os recursos pessoais e sociais disponíveis, para que ela possa tomar decisões informadas. Os resultados indicam que a coordenação assume a responsabilidade por esses princípios. Essas práticas podem ser vistas como pré-requisitos para a expressão da agência, pois visam facilitar a livre escolha das famílias e seu controle sobre o processo, explicando o processo, perguntando a perspectiva da família e dando à família tempo para tomar suas decisões (Cauce e Gordon, 2012; Stoljar, 2011). Assim, a coordenação trabalha ativamente para que o processo da FGC não seja coercitivo, mas aberto às decisões da família.

No entanto, mesmo com um consentimento informado inicial, o processo de proteção social que se segue ainda pode limitar a agência das famílias. Isso vale especialmente quando muitas famílias entram no processo da FGC com um sentimento internalizado de impotência (Shaibe, 2022) e desconfiança em relação ao sistema de proteção social (Shemer et al., 2022), o que pode influenciar seu senso de agência (Ferguson e Lavalette, 2004; Hornsby, 2004). Para enfrentar isso, as pessoas coordenadoras que participaram descreveram como transformavam a dinâmica de tomada de decisão, passando do evento único da conferência a um processo contínuo, que se estende por toda a etapa de preparação e envolve verificações e incentivos repetidos junto à família.

Isso aponta para uma distância entre a definição do papel da coordenação na literatura e nas diretrizes e o modo como a coordenação exerce esse papel na prática. Por exemplo, a teoria da FGC prevê uma coordenação independente (Macgowan e Pennell, 2002), mas as pessoas participantes descreveram como se esforçavam para defender, diante do serviço social, o direito da família de decidir. Nessas dinâmicas, revela-se a estrutura limitadora do sistema de proteção social, já que o serviço social expressava percepções sobre o que as famílias são obrigadas a fazer. Talvez a posição “de fora” da coordenação em relação ao sistema de proteção social a tenha ajudado a detectar essa estrutura e a resistir a ela. Assim, sua neutralidade pode ter ajudado a garantir que as decisões das famílias não fossem comprometidas (Connolly, 2006a). Além disso, é possível que a percepção de não ter obrigações para com o sistema tenha permitido à coordenação experimentar mais agência para mudá-lo. Ainda assim, a coordenação não está completamente separada da estrutura social e cultural das dinâmicas da proteção social, e também precisou usar a reflexividade para deixar de lado seus próprios preconceitos paternalistas.

5.2 A família: capaz e reconhecida

As pessoas coordenadoras que participaram do estudo se esforçavam para transformar ainda mais o processo de tomada de decisão da proteção social, atuando sobre a percepção que os membros da família tinham de si e sobre as percepções de sua rede social e das equipes profissionais envolvidas. As pessoas participantes descreveram como suspendiam o próprio julgamento, demonstravam empatia pela família e buscavam as forças dos membros da família para cultivar e preservar sua crença na capacidade das famílias.

Uma vez identificadas as forças da família, a coordenação descreveu como as enfatizava tanto para as famílias quanto para sua rede social. Amitay e Rahav (2020), que estudaram práticas agênticas no contexto de jovens em risco, constataram que essa prática se contrapõe à alienação. Constatou-se também que essa prática ajuda a coordenação e o serviço social a desenvolver uma percepção positiva das famílias encaminhadas à FGC (Mitchell, 2020). Por fim, verificou-se que uma autopercepção positiva, em particular quanto à capacidade de influenciar a própria vida, influencia o comportamento e a motivação (Contento et al., 2007; Kawano et al., 2021).

Talvez, estando “de fora” da estrutura de proteção social, a coordenação tenha conseguido tomar menos coisas como dadas (Staples, 2001) e se abrir mais para descobrir novas perspectivas sobre a família, que podia depois compartilhar com o serviço social. Além disso, a coordenação muitas vezes tem poucas ou nenhuma ideia preconcebida sobre a família específica, além do que a pessoa de referência do serviço social lhe transmite antes do primeiro encontro (Natland e Malmberg-Heimonen, 2014). Este estudo constatou que, por estar “de fora” do sistema de proteção social, a coordenação tinha espaço para circular em espaços informais, como casas, parques e passeios pela cidade. Esses espaços informais, muitas vezes inacessíveis ao serviço social, são onde as pessoas coordenadoras disseram ver as forças das famílias e adquirir uma perspectiva “de dentro” da família. Ainda assim, os resultados apontam para uma tensão na negociação da posição dentro-fora vivida pela coordenação, já que as pessoas participantes podiam defender a família e tomar seu partido ou passar a ter preconceitos contra a família por influência da perspectiva do serviço social.

5.3 Senso de agência: olhar para o futuro

A coordenação do estudo também enfatizou a importância de olhar para o futuro para fortalecer o senso de agência da família. Por isso, procurava transmitir uma mensagem de otimismo e de propósito. Pesquisas sobre intervenções centradas em concepções positivas de “eus possíveis” mostraram que elas podem de fato ter influência positiva sobre o senso de agência das pessoas (Grishutina e Kostenko, 2021; Midtgaard et al., 2007).

As pessoas coordenadoras contaram como davam passos ativos para apoiar a percepção de um futuro positivo pela família, oferecendo às famílias uma ajuda pertinente na esperança de que ela se contrapusesse ao sentimento de desconfiança e alienação em relação a profissionais. Do mesmo modo, num esforço para fortalecer a crença das famílias em sua capacidade futura, a coordenação buscava oportunidades para que as famílias vivessem sucessos já durante o processo da FGC. Ambas as ações são práticas agênticas baseadas na esperança, que, segundo a literatura, se contrapõem à alienação (Amitay e Rahav, 2020).

De fato, a esperança e a desesperança são cada vez mais vistas como fundamentais para as profissões do serviço social e do cuidado (Collins, 2015; Flesaker e Larsen, 2012; Krumer-Nevo, 2020). As pessoas coordenadoras do estudo descreveram como manter a própria esperança no futuro lhes permitia oferecer esperança às famílias. É possível que o grande senso de controle que a coordenação experimenta por estar “de fora” da estrutura de proteção social lhe permita sentir mais esperança e, portanto, mais agência (Lipschitz-Elhawi, 2009).

Esta discussão sugere que as características da coordenação lhe conferem uma qualidade de “outsider within”, alguém que é de fora, mas está por dentro. O termo outsider-within é usado em referência a pessoas que pertencem a posições tradicionais de poder, como a pesquisa, a academia e as profissões, e que ao mesmo tempo pertencem a comunidades marginalizadas. Essa dinâmica permite a essas pessoas ter mais consciência das relações de poder entre quem está dentro e quem está fora (Gold, 2016). Quando o termo é aplicado à coordenação, ele mostra como sua posição singular lhe permite um acesso “por dentro” ao serviço social, mas uma perspectiva “de fora”, mais próxima das famílias. Em essência, as pessoas coordenadoras do estudo descrevem como navegam conscientemente e se movem pela fronteira dentro-fora do sistema de proteção social. Isso tem implicações significativas para o papel da coordenação quanto a como encontrar o equilíbrio certo entre a posição de dentro e a posição de fora em relação ao sistema de proteção social. Também contribui para o serviço social em geral, ao sugerir que práticas poderiam se tornar possíveis com um senso maior de controle e de flexibilidade para as equipes de serviço social dentro de sua estrutura.

Em conclusão, este estudo buscou as práticas agênticas da coordenação da FGC em seu trabalho com famílias com crianças em risco. Usando uma metodologia orientada para a ação, o estudo reuniu resultados que trazem contribuições significativas não só para o corpo de conhecimento sobre a FGC e outros processos participativos de proteção social, mas também para as equipes profissionais e as pessoas que facilitam esses modelos em campo. Por meio das práticas encontradas neste estudo, possibilitadas pela perspectiva singular da coordenação, de fora e por dentro, as pessoas coordenadoras se esforçavam para transformar o processo de tomada de decisão da proteção social de maneira significativa e duradoura, passando de um processo de alienação a um processo que reconhece e respeita a agência das famílias.

5.4 Limitações da pesquisa

A pesquisa teve um tamanho de amostra limitado, já que a FGC ainda está em seus primórdios em Israel. Isso também significou que o número de pessoas com experiência na coordenação do programa era pequeno. É importante observar que o presente estudo é de natureza qualitativa e, portanto, não busca a generalização. Em vez disso, o pequeno tamanho da amostra permitiu um contato mais próximo e contínuo entre a equipe de pesquisa e as pessoas participantes, o que possibilitou um conhecimento mais aprofundado (Crouch e McKenzie, 2006). Contudo, o pequeno número de pessoas coordenadoras limitou a possibilidade de fornecer informações de contexto sobre quem participou. Assim, a influência da experiência pessoal e profissional sobre as percepções e as práticas da coordenação não pôde ser examinada.

Por fim, a maioria das histórias que as pessoas participantes compartilharam dizia respeito ao trabalho com mães. Poucas pessoas coordenadoras compartilharam histórias que envolvessem o trabalho com pais homens ou o trabalho direto com crianças. Isso limitou a possibilidade de analisar se práticas diferentes são mais bem-sucedidas conforme o membro da família com quem se trabalha e, em particular, quais práticas a coordenação usa para incentivar a participação das crianças. Recomenda-se, portanto, que estudos futuros examinem práticas específicas voltadas às crianças e aos pais homens.

Complexe Systémique: a reter

O estudo ilumina um elo muitas vezes deixado na sombra dos dispositivos participativos: a pessoa que prepara e conduz a Conferência de Grupo Familiar. O que ela descreve se parece muito com uma postura sistêmica: explicar cada etapa, perguntar a opinião da família a cada escolha, buscar as forças fora do prontuário, nos lugares informais da vida, e cultivar a própria esperança para poder transmiti-la. A ideia mais fecunda é a de uma posição móvel, externa ao serviço social mas aceita dentro dele, que permite perceber a estrutura limitadora da instituição e afrouxá-la, sem com isso escapar de seus preconceitos. A decisão se torna um processo, e não um evento. É preciso ter em mente os limites: apenas quinze pessoas, nenhum dado sobre seu perfil, relatos escolhidos entre os sucessos, quase todos centrados em mães, e nenhuma voz das famílias. O deslizamento para a defesa da família também levanta uma questão de terceiro: quem guarda o lugar da proteção da criança? Para ler junto com o artigo sobre o trabalho sistêmico com pais cujos filhos estão em acolhimento e com o artigo sobre os maus-tratos institucionais na proteção da infância.

Notas do original

Agradecimentos. O estudo foi realizado como parte dos requisitos do mestrado (M.A.) da Escola de Serviço Social e Bem-Estar Social Paul Baerwald da Universidade Hebraica de Jerusalém. A pesquisa foi conduzida no âmbito de uma equipe de pesquisa do Nevet Greenhouse of Context-Informed Research and Training da Universidade Hebraica de Jerusalém, como continuação de um estudo avaliativo mais amplo do programa piloto israelense de FGC. A equipe de pesquisa expressa sua profunda gratidão às pessoas coordenadoras que compartilharam seus conhecimentos e experiências e à equipe de FGC “Kedem - Olim LaDerech”, cujo apoio, orientação e facilitação tornaram esta pesquisa possível.

Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.

Disponibilidade dos dados. Os dados da pesquisa não são compartilhados.

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Tradução não oficial em português de De fora, por dentro: as práticas agênticas de coordenação das Conferências de Grupo Familiar junto a famílias com crianças em risco, de Jordan Shaibe e Orna Shemer, Child & Family Social Work, vol. 29, no 2 (2024), doi: 10.1111/cfs.13114, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The outsider within: The agentic practices of Family Group Conference coordinators in the context of families with children at risk”, publicado em Child & Family Social Work (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Shaibe, J., et Shemer, O. (2024). De fora, por dentro: as práticas agênticas de coordenação das Conferências de Grupo Familiar junto a famílias com crianças em risco (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/de-fora-por-dentro-as-praticas-agenticas-de-coordenacao-das-conferencias-de-grupo-familiar (Obra original publicada em 2023 em Child & Family Social Work, 29(2), 560-570 (2024); republicada em 2024 por Child & Family Social Work, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/cfs.13114)

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