Journal of Family Violence · Violência
As avaliações dos serviços de enfrentamento da violência doméstica raramente dão voz a crianças com menos de 12 anos. A equipe de Christine Barter fez isso, no Reino Unido, com seis famílias acompanhadas por um programa que atende separadamente mães e crianças. As crianças falam da timidez no começo, de “preocupações” confiadas a um bichinho de pelúcia ou a um pote, de uma pessoa de referência que volta toda semana e de mudanças reais, mas às vezes limitadas.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Do que as crianças mais novas precisam para se recuperar da violência doméstica? Resultados de estudos de caso familiares qualitativos aprofundados, de Christine Barter, Emma Howarth, Helen Richardson Foster e Nicky Stanley, publicado na Journal of Family Violence (Springer) (2026), doi: 10.1007/s10896-025-00873-6, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; nas citações, os estudos de caso (Case Study, CS) são indicados como EC, e as falas de quem conduz a entrevista são atribuídas à “equipe de pesquisa”. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Os benefícios de uma intervenção precisam ser vividos pelas próprias crianças.
Christine Barter, Emma Howarth, Helen Richardson Foster e Nicky Stanley
Resumo
Objetivo. Apesar de evidências consistentes sobre o impacto que a violência doméstica pode ter sobre crianças e jovens, ainda sabemos relativamente pouco sobre a experiência das crianças com os serviços que buscam apoiar sua recuperação. Nossa pesquisa buscou explorar, com crianças mais novas e suas mães, o que apoiou o engajamento das crianças nos serviços e que mudanças foram alcançadas.
Método. Seis estudos de caso qualitativos aprofundados, que incluíram sete crianças com menos de 12 anos e entrevistas com suas mães, além de informações extraídas dos prontuários de acompanhamento de cada família.
Resultados. Os dados das crianças fizeram surgir quatro temas principais: apoiar a “prontidão” inicial das crianças para se engajar; o apoio às “preocupações” das crianças; as experiências relacionais; e as atividades e ferramentas envolventes. As crianças identificaram quatro grandes áreas de mudança positiva em sua vida: bem-estar e autoconfiança; mudança de comportamento e estratégias positivas de enfrentamento; situação em casa; e escola e colegas. As crianças também identificaram áreas em que não houve melhora. As entrevistas com as mães enfatizaram a necessidade de um leque de intervenções complementares e ajustadas, que permitam às mães compreender melhor o impacto da violência doméstica sobre os filhos e apoiar o engajamento deles nos serviços.
Conclusão. A abordagem por estudos de caso ofereceu um retrato detalhado do que facilitou o engajamento das crianças no apoio à violência doméstica, assim como das mudanças que elas identificaram. Nosso estudo oferece fortes evidências da necessidade de incluir, e de priorizar, as opiniões e experiências das crianças, inclusive das mais novas, nos estudos sobre serviços de enfrentamento da violência doméstica que buscam apoiar sua recuperação.
Palavras-chave: crianças, violência doméstica, recuperação, intervenção, avaliação
Estima-se que, no mundo, até 275 milhões de crianças (uma em cada sete) vivenciem violência doméstica em casa (OMS-UNICEF, 2020). Além das altas taxas de prevalência, a pesquisa tem mostrado de forma consistente que a violência doméstica está associada a um risco maior de desfechos negativos, a curto e a longo prazo, para as crianças, como problemas de saúde mental e de bem-estar mais amplo, dificuldades de comportamento, incluindo agressividade, e possível vitimização futura em relações adultas (Doroudchi et al., 2023). Nem todas as crianças, porém, terão esses desfechos negativos (Kitzmann et al., 2003).
Na Inglaterra e no País de Gales, a Lei sobre Violência Doméstica (Domestic Abuse Act, 2021) passou a reconhecer que as crianças que veem, ouvem ou sofrem os efeitos da violência doméstica são vítimas por direito próprio, o que reforça seu direito a apoio para superar esses efeitos. A oferta, no entanto, é insuficiente: um relatório recente da comissária para a violência doméstica da Inglaterra e do País de Gales (Domestic Abuse Commissioner, 2021) constatou que 75% das pessoas sobreviventes consultadas que tinham filhos relataram não ter conseguido apoio especializado para eles, embora o quisessem. Além disso, sabe-se pouco sobre as opiniões e experiências das crianças, especialmente das mais novas, quanto ao engajamento nos serviços de enfrentamento da violência doméstica. Como observam Beetham et al. (2019), as avaliações se concentram com demasiada frequência na eficácia desses serviços para as crianças, tal como relatada por terceiros, e não nos relatos das próprias crianças sobre o apoio que desejam, como é receber esse apoio e os resultados (positivos ou negativos) que podem ter com ele.
Ainda assim, um pequeno número de estudos oferece contribuições importantes sobre o que as crianças esperam do apoio diante da violência doméstica. Dois estudos de pequena escala trazem resultados sobre a visão de crianças mais novas a respeito do apoio em grupo. Pernebo e Almqvist (2016) entrevistaram na Suécia nove crianças de 4 a 6 anos e constataram que o que mais as entusiasmava eram as relações criadas com outras crianças que frequentavam a intervenção. Beetham et al. (2019) entrevistaram quatro crianças de 7 a 10 anos que frequentavam o mesmo programa em grupo no Reino Unido, destacando os aspectos experienciais e relacionais dos espaços terapêuticos que permitem às crianças criar relações e construir identidades significativas. A equipe conclui que as crianças, inclusive as mais novas, precisam ser consultadas de forma inclusiva para que o apoio a elas destinado reflita suas necessidades e não dependa apenas da interpretação dos adultos sobre essas necessidades.
A importância das intervenções em grupo, sobretudo para ajudar as crianças a perceber que não estão sozinhas, reduzir o estigma e formar amizades positivas e de apoio, é um tema saliente em vários estudos. Por diversas razões, porém, nem todas as crianças vão querer ou poder participar de atividades em grupo. Isso pode se dever a preferências pessoais, a uma falta de “prontidão” para reconhecer a violência, a dificuldades de se engajar em contextos de grupo ou à demora para “completar” os grupos, que são destinados a faixas etárias específicas (Sharpe et al., 2011).
O estudo retrospectivo de Onsjö et al. (2023) explorou como crianças expostas à violência doméstica vivenciaram o atendimento em um serviço de saúde mental da infância e da adolescência. Entrevistas com 17 crianças e jovens, 4 a 5 anos após o atendimento, mostraram a importância da relação terapêutica e o papel decisivo da confiança, do interesse autêntico e da reciprocidade para que as crianças se engajem no apoio. Não se devem subestimar, porém, os obstáculos, entre eles a própria agência da criança e os obstáculos externos, sobretudo a exposição contínua à violência.
A revisão sistemática e a síntese qualitativa de Howarth et al. (2018) sobre intervenções para crianças expostas à violência doméstica identificaram sete artigos que incluíam as opiniões das crianças, representando ao todo 125 crianças. Todos os artigos analisados destacaram a importância da prontidão pessoal para o engajamento das crianças nos serviços terapêuticos. Muitas crianças disseram querer ajudar a mãe (o genitor não agressor em todos os casos) ou outras crianças, e essa era a razão de seu engajamento (ver Humphreys et al., 2011). Por outro lado, algumas crianças tiveram pouca escolha, pois a decisão de participar foi tomada por um genitor ou outro adulto; essa falta de motivação pessoal e a sensação de que suas necessidades se baseavam em suposições de adultos muitas vezes eram um obstáculo ao engajamento (Cater, 2014). As crianças também falavam com frequência de suas reservas ou medos de romper o “silêncio” em torno de sua experiência de violência doméstica, sobretudo no início da intervenção. Seus relatos destacavam a importância de a mãe lhes “dar permissão” para falar e de se sentirem seguras para fazê-lo. Compartilhar, porém, ajudava as crianças a perceber que não estavam sozinhas, o que por sua vez aliviava a vergonha e a culpa (Thompson, 2011).
De modo geral, encontramos muito poucos estudos que buscassem explorar as opiniões e experiências de crianças mais novas que acessam apoio diante da violência doméstica. Isso apesar de uma mudança, nas duas últimas décadas, em direção a um maior reconhecimento dos direitos da criança, sustentado pela concepção das crianças como agentes sociais ativos (James & Prout, 2003), o que levou a uma ênfase na participação direta e plena das crianças na pesquisa (Dockett & Perry, 2011; Leeson, 2014). Essa ênfase, no entanto, tem sido menos visível quando se trata de incluir crianças mais novas em pesquisas sobre temas sensíveis (Alderson & Morrow, 2020; Powell et al., 2020), e em especial em pesquisas sobre abuso e trauma (Barter et al., 2024).
Essa exclusão pode ser atribuída a visões tradicionais das crianças, sobretudo das mais novas, como uma população vulnerável, por seu status jurídico de menores, seu reduzido poder social e os riscos potenciais de sua participação (Martins et al., 2018). Uma das consequências foi enfraquecer o direito das crianças de participar de processos que afetam sua vida (Collings et al., 2016). Além disso, a pesquisa mostrou que mães que sofreram violência doméstica, embora não se opusessem em princípio à participação das crianças em pesquisas, tinham dúvidas sobre a capacidade das equipes de pesquisa de envolvê-las com segurança e destacavam a necessidade de uma pesquisa sensível ao trauma, adequada às crianças e no interesse delas (Mackey et al., 2024).
Pesquisas têm mostrado (Radford et al., 2017; Barter et al., 2024) que, com atenção cuidadosa aos procedimentos éticos, para garantir que as informações, os processos e os conteúdos sejam adequados e acessíveis e que nenhum dano seja causado (Malloy & Stolzenberg, 2019), as opiniões das crianças mais novas podem ocupar um lugar central na pesquisa. A ausência da voz das crianças mais novas nas avaliações dos serviços de enfrentamento da violência doméstica representa uma lacuna significativa em nosso conhecimento. Essa omissão se agrava com uma mudança relativamente recente no apoio, em direção a uma oferta mais integral, que busca apoiar tanto as crianças quanto os genitores não agressores e, em alguns casos, os autores da violência (ver Stanley & Humphreys, 2017; Spratt et al., 2022). Em geral, essas intervenções atribuem os diferentes membros da família a profissionais de referência diferentes (ver Stanley & Humphreys, 2017; Spratt et al., 2022).
Embora as avaliações desses serviços estejam crescendo, até onde sabemos nenhuma incluiu as opiniões de crianças mais novas. Este artigo busca preencher essa lacuna com base em seis estudos de caso qualitativos, cada um incluindo as opiniões e experiências de crianças mais novas e de suas mães sobre um serviço integral de enfrentamento da violência doméstica. Eles foram desenvolvidos no âmbito de uma avaliação independente mais ampla, de métodos mistos, de um programa de atenção à família inteira contra a violência doméstica. Todos esses estudos de caso se situam num marco ecológico mais amplo, que reconhece a importância central da voz das próprias crianças, ao mesmo tempo que reconhece os mecanismos de apoio mais amplos que sustentam as abordagens integrais ou voltadas à família inteira. Nesse marco, porém, é essencial reconhecer que as diferentes vozes representadas (das crianças, das vítimas-sobreviventes adultas, das pessoas usuárias dos serviços, das equipes profissionais) ocupam posições de poder desiguais, e os significados de alguns atores são apresentados como mais “dominantes” e “confiáveis” do que outros. É, portanto, especialmente importante reconhecer, como advertem Eriksson e Appel Nissen (2017), que a “expertise” adulta, dos pais ou das equipes profissionais, corre o risco de absorver os significados, as identidades e a compreensão que as crianças têm da própria vida, reproduzindo um controle social que constrói e reforça maneiras normativas de “ser”.
Nossas perguntas de pesquisa giraram em torno de dois temas inter-relacionados, sobre os quais crianças e mães deram sua perspectiva: o que funcionou para apoiar o engajamento das crianças mais novas nos serviços de enfrentamento da violência doméstica? E que mudanças foram alcançadas para as crianças? Ao formular essas perguntas, o engajamento não foi concebido como um construto binário (engajado/não engajado), mas como um processo complexo, interativo, multifacetado e contínuo (Yatchmenoff, 2005). Reconhecemos também que o engajamento é muitas vezes formulado e vivido de forma diferente por quem usa e por quem oferece os serviços, e que pode variar em intensidade e qualidade ao longo do uso do serviço e depois dele.
O programa SafeLives Co-Designed Pilot Site (SLCDPS) foi concebido pela organização SafeLives com suas pessoas “pioneiras” (sobreviventes e especialistas por experiência) e compreendia um conjunto integrado de cinco intervenções que ofereciam apoio a crianças e jovens que tinham vivido violência doméstica, assim como a vítimas-sobreviventes adultas e, quando apropriado, aos autores da violência. Os cinco componentes centrais do programa SLCDPS eram:
O programa, implementado em dois locais, foi concebido como um serviço integral, com a ambição de oferecer intervenções separadas, mas coordenadas, a todos os membros da família. Essas intervenções eram ajustadas às necessidades dos diferentes grupos, para que as pessoas sobreviventes e suas famílias pudessem transitar entre elas e ao longo delas. O trabalho com crianças e jovens era feito por meio de intervenções individuais e/ou em grupo, que variavam conforme a idade. O kit de ferramentas “Monkey Bob” era usado com as crianças mais novas (até sete anos) para promover a alfabetização emocional e conversar sobre segurança. As crianças de oito anos ou mais recebiam apoio personalizado, que podia incluir sessões individuais com o kit Recovery e/ou os grupos paralelos “Side by Side”. A intervenção “Tandem” oferecia apoio às crianças que apresentavam comportamentos abusivos. Em todo o programa, as vítimas-sobreviventes adultas podiam acessar apoio individual e em grupo, incluindo trabalho de conscientização sobre a violência doméstica e de recuperação, apoio à parentalidade (Grow Together) e grupos paralelos para mães e crianças (“Side by Side”). Também estavam disponíveis aconselhamento individual (para crianças e adultos) e sessões de apoio entre pares voltadas à recuperação. Oferecia-se apoio aos autores da violência, mas nenhum dos estudos de caso o incluiu.
A avaliação independente do SLCDPS foi realizada entre 2018 e 2021 e buscou identificar mudanças para as pessoas usuárias, incluindo a compreensão dos mecanismos e das condições que favoreciam mudanças positivas, bem como dos obstáculos. Seguindo o modelo de Skivington et al. (2021) para avaliações de intervenções complexas, incorporamos perspectivas de diversas partes interessadas: crianças e adultos que usavam os serviços, equipe do SLCDPS, gestão do programa e outros serviços (Stanley et al., 2021). Um grupo consultivo de pessoas sobreviventes orientou o desenho dos instrumentos de pesquisa, a interpretação dos resultados e sua divulgação.
Os dados de monitoramento do serviço foram analisados para fornecer informações sobre os fluxos de encaminhamento, o perfil demográfico das pessoas usuárias e o uso do serviço, e são brevemente descritos mais adiante neste artigo, para oferecer um contexto mais amplo aos estudos de caso. Para este artigo, foram construídos seis estudos de caso familiares, de modo a representar a gama de trabalho familiar realizado com crianças e mães. Por causa das restrições da covid, as entrevistas foram feitas por telefone ou on-line, conforme a preferência e a disponibilidade. As entrevistas foram adaptadas à idade e à compreensão das crianças e, com as mais novas, foram usados métodos visuais, como cartões de emoções. Seis crianças foram entrevistadas e uma criança forneceu anotações escritas. As crianças participantes tinham de 7 a 11 anos. Algumas famílias tinham crianças mais velhas ou mais novas que também haviam recebido apoio do serviço, mas nem todas consentiram em participar (ver Tabela 1). Seis mães foram entrevistadas. As informações extraídas dos prontuários de cada família contribuíram para um retrato completo do trabalho realizado.
Tabela 1 — Narrativas dos estudos de caso
Todas as entrevistas dos estudos de caso foram gravadas (com o consentimento das pessoas participantes) e integralmente transcritas. Usou-se a análise temática (Braun & Clarke, 2012) para desenvolver e refinar conjuntos de temas entre os casos, de forma indutiva e dedutiva, codificados no software NVivo. A análise se apoiou na abordagem de Crowe et al. (2011) para estudos de caso coletivos, que permite explorações aprofundadas e multifacetadas de questões complexas em contextos reais. Partindo da análise temática anterior, a análise coletiva dos estudos de caso atentou primeiro às variações dentro de cada caso, antes de fazer comparações sucessivas entre os casos, considerando as diferentes perspectivas presentes em cada um, mas dando prioridade à voz das próprias crianças. A partir daí, desenvolveu-se um quadro de análise dos estudos de caso para examinar essas semelhanças e diferenças, tanto dentro dos temas e dos estudos de caso quanto dentro dos diferentes grupos e entre eles, para garantir que as diferentes perspectivas estivessem representadas e que as diferenças de poder fossem explicitamente reconhecidas.
O estudo recebeu aprovação ética do comitê de ética da Universidade de Central Lancashire. Em consonância com as orientações de pesquisa (Women’s Aid, 2020), a segurança e o bem-estar de todas as pessoas participantes foram priorizados ao longo da avaliação. As famílias dos estudos de caso foram identificadas em consulta com os serviços. O consentimento das crianças foi pedido primeiro por intermédio do genitor com quem moravam. Todas as pessoas participantes receberam informações sobre a avaliação em formato adequado e deram consentimento informado antes da entrevista e no início dela. Foram informadas de que os dados eram confidenciais e anonimizados. Foram lembradas de que podiam optar por não responder às perguntas e interromper a entrevista a qualquer momento sem dar explicações, e isso foi encenado com as crianças no início das entrevistas. As crianças podiam decidir como queriam participar. Uma criança preferiu não aparecer na tela, afastando-se do notebook, outra desligou a câmera, e uma pessoa jovem decidiu responder por escrito. Vales-compras foram dados a todas as mães e crianças entrevistadas como agradecimento pelo seu tempo. Foram atribuídos identificadores numéricos para garantir o anonimato, e as entrevistas foram planejadas para acontecer com segurança, sem que ninguém ouvisse. As pessoas entrevistadas foram encaminhadas a fontes de apoio quando necessário. Durante a pandemia, a segurança foi garantida por uma cuidadosa articulação entre a equipe de avaliação e a equipe do SLCDPS.
As restrições da pandemia de covid-19 tiveram um impacto considerável sobre o recrutamento para o programa, sua execução e a prática de pesquisa. O programa SLCDPS continuou funcionando durante os lockdowns nacionais, embora algumas intervenções só tenham sido parcialmente implementadas. A equipe tinha menos disponibilidade para apoiar o recrutamento do estudo. As crianças se mostraram especialmente difíceis de recrutar depois que a opção de frequentar grupos nas escolas deixou de existir. A maioria das entrevistas teve de ser feita on-line ou por telefone. Também não conseguimos incluir famílias de grupos minorizados (ver dados de monitoramento abaixo), cujas opiniões e experiências podem não refletir os estudos de caso apresentados. Houve, porém, oportunidades de estudar como crianças e mães vivenciaram a passagem para serviços a distância, e esses resultados foram publicados em outro lugar (Richardson Foster et al. 2022).
Ao longo dos dois anos de avaliação, os dados de monitoramento do serviço mostraram que 270 crianças e jovens usaram o apoio do SLCDPS, com uma divisão aproximadamente igual entre meninas e meninos. A maioria (41%) tinha de 8 a 11 anos, 27% tinham de 5 a 7 anos e 28% tinham mais de 12 anos. A maior parte era branca (83%) e 12% pertenciam a grupos racializados minorizados. No total, 42% das crianças estavam expostas à violência doméstica em casa naquele momento, e um quarto tinha vivido situações em que autores de violência usavam as visitas como oportunidade para continuar a violência.
No mesmo período, 481 mulheres sobreviventes adultas usaram o serviço; mais de quatro quintos tinham um filho ou filha envolvido em sua situação, embora nem todas as crianças tenham se engajado nos serviços do SLCDPS. Três quartos tinham de 26 a 45 anos e a maioria (83%) se descrevia como branca, o que reflete a composição étnica das áreas atendidas. Os serviços sociais da infância (Children’s social care, CSC) eram um dos principais órgãos de encaminhamento, e um quarto das sobreviventes tinha algum tipo de envolvimento com esses serviços.
As famílias dos estudos de caso apresentavam uma série de questões ligadas à sua experiência de violência doméstica; na maioria dos casos, porém, as mães buscavam apoio específico diante de possíveis processos de proteção à criança e de questões de contato ainda em curso. A Tabela 1 oferece uma visão geral narrativa dos 6 estudos de caso, incluindo os motivos do encaminhamento e o apoio do SLCDPS utilizado.
Esta seção apresenta primeiro os resultados da análise dos dados das crianças para a pergunta de pesquisa: o que funcionou para apoiar o engajamento das crianças mais novas nos serviços de enfrentamento da violência doméstica? A partir dos dados das crianças, identificamos quatro temas principais sobre o que apoiou seu engajamento nos serviços: apoiar a prontidão pessoal das crianças para se engajar; apoio em torno de preocupações e inquietações; experiências relacionais; e atividades e ferramentas envolventes.
Em seguida, exploramos a perspectiva das mães sobre o que funcionou para apoiar o engajamento das crianças. São identificadas três áreas: o trabalho com as mães centrado na criança; a defesa dos interesses da criança; e o trabalho em grupo e o apoio entre pares para as mães.
Por fim, nos voltamos para a segunda pergunta de pesquisa: que mudanças foram alcançadas para as crianças?
Perguntamos às crianças o que, se houve algo, tinha apoiado seu engajamento no serviço CYP no início. Em resposta, muitas crianças falaram de suas reservas iniciais em se engajar com a pessoa de referência CYP, muitas vezes por timidez e por não saber o que esperar:
Equipe de pesquisa: Que carinha você acha que teria feito no começo (a equipe de pesquisa mostra à criança um cartão com várias expressões diferentes)?
Criança (EC1): A número dois, aquela que é meio em zigue-zague. Tipo um pouquinho preocupada.
Equipe de pesquisa: Tá, um pouco preocupada… E como você achava que ia ser?
Criança (EC1): Hmmm. Não sei.
Criança (EC6): Acho que eu não sabia (o que esperar), eu fiquei meio tipo, ah.
A maioria, porém, também estava animada com o encontro e com o início do apoio: “um pouco tímida e nervosa e um pouco feliz” (criança 2, EC3). O fato de os pais explicarem o que esperar ajudava a preparar as crianças para se engajar nas primeiras sessões:
Criança (EC4): Ela (a mãe) disse que ela ia vir e que a gente ia para um barracãozinho, um cantinho no nosso quintal, e eu fiquei tipo, OK... legal, e um pouco animado. É, acho que minha mãe disse, seja sincero sobre as coisas, tipo seja sincero. Então, é, eu fiquei bem calmo.
A prontidão pessoal das crianças para se engajar também era apoiada pelas pessoas de referência nas primeiras sessões, em que a ansiedade diminuía graças à construção de vínculo e ao respeito ao ritmo de cada criança:
Criança (2, EC3): Quando eu estive lá pela primeira vez, eu não sabia o que estava acontecendo e me senti muito tímida, nervosa e com medo. Mas depois achei muito divertido e fiquei muito feliz.
As crianças comentaram que o engajamento era apoiado por pessoas de referência que dedicavam tempo a conhecê-las, explicavam claramente o que fariam nas sessões, se esforçavam para entender o que era importante para elas e com quem era fácil se identificar: “Bom, eu descreveria [a pessoa de referência CYP] como legal, compreensiva…” (criança, EC2).
A maioria das crianças disse que queria apoio para as “preocupações” que vivia em razão de sua experiência de violência doméstica. Criança (EC2): “Acho que um dos principais motivos para eu ver (nome da pessoa de referência) era meio que por causa das minhas preocupações.”
Algumas crianças tinham preocupações com sua capacidade de regular as emoções:
Criança (EC4): Falar das nossas coisas de família… então tipo às vezes ela pegava um livrinho, e era tipo se você se sente com raiva ou se você se sente calmo ou alguma coisa assim… Quando você sente medo, quando você sente raiva… Uma vez ela disse, como você se sente quando acorda? E nessa época eu estava doente, e eu me sentia mal toda vez que acordava.
Pelos relatos das crianças, ficava claro que a pessoa de referência muitas vezes as ajudava a identificar as preocupações ou inquietações específicas em que queriam se concentrar. As crianças também participavam ativamente das decisões sobre quais preocupações seriam abordadas nas sessões. Criança (EC4): “Uma vez minha mãe estava muito, muito chata… a gente conversou sobre isso… então foi bem legal.”
A partir das primeiras impressões sobre as pessoas de referência, as crianças em geral falaram de forma muito positiva do apoio recebido, relatando que a relação positiva e de confiança com a pessoa de referência era fundamental. Criança (EC5): “Sinto falta de falar com ela, não para ter mais ajuda, mas só sinto falta: ela foi uma pessoa querida e gentil comigo.” O humor era muitas vezes apontado como um componente importante da construção desse vínculo. Criança 2 (EC3): “Ela é engraçada, ela sempre me faz rir.”
As crianças e as próprias equipes relataram como as pessoas de referência buscavam garantir ambientes propícios ao desenvolvimento de relações de apoio; no exemplo abaixo, as sessões foram transferidas da escola da criança, onde ela se sentia desconfortável, para um local externo:
Criança (EC2): Nas primeiras semanas, [a minha pessoa de referência] me encontrava na escola e eu saía da aula para vê-la. E depois de algumas semanas a gente fazia depois da aula no Starbucks… (e) eu podia pegar uma bebida.
No entanto, embora todas as crianças tenham manifestado opiniões favoráveis sobre o apoio recebido, algumas também identificaram obstáculos, como a inconstância de pessoas de referência e a passagem do contato presencial para as sessões virtuais por causa das restrições da covid:
Criança (EC6): É bom, mas tipo ela nem sempre aparece quando diz que vai vir… ela disse que ia fazer tipo aquele joguinho da mente, e aí ela não veio na semana seguinte nem na outra. E na semana em que ela veio, ela não trouxe.
Criança (EC5): …a única coisa é que eu queria ter visto ela [a pessoa de referência] aqui. Mas por causa do corona ela não podia mais vir ver a gente.
Um facilitador central do engajamento na sessão, muitas vezes apontado espontaneamente pelas crianças, era o uso de atividades divertidas, envolventes e criativas. As crianças indicaram que essas atividades e materiais facilitavam a expressão dos sentimentos, ao apoiar um diálogo aberto e confortável entre a criança e a pessoa de referência, e ajudavam na regulação emocional:
Criança 2 (EC3): Um pote das preocupações, e eu tinha todas as minhas coisas numa pasta, todos os meus papéis numa pasta, e uma folha dos sentimentos. Aí a gente podia pôr, a gente podia escolher o que está sentindo hoje, e eu gosto. E também a gente tinha uma coisa para mandar, tipo eles mandavam para a gente.
Criança (EC6): Ela (a pessoa de referência) trouxe tipo um caderno, uma coisa assim, e a gente pôde decorar a capa, e ela pôs umas coisas para eu tipo escrever. Foi divertido... Eu punha minhas preocupações nele. Se eu estou tipo triste, eu desenhava tipo coisas felizes.
Os materiais usados nas sessões, como o “pote das preocupações” ou o “Monkey Bob”, ofereciam um canal seguro por meio do qual as crianças podiam compartilhar sentimentos e inquietações. A importância desses materiais no apoio às crianças aparece claramente na fala abaixo, em que a criança tinha dado o material a uma amiga que, na visão dela, precisava dele:
Criança (EC2): Ela (a pessoa de referência CYP) me recomendou esse tal monstro das preocupações, é tipo um bichinho de pelúcia e a boca dele abre, aí eu podia escrever uma coisa que está me preocupando e pôr dentro… então eu fazia isso sempre que ficava preocupada, eu só escrevia e punha dentro… A gente deu o monstro das preocupações para a minha amiga, que também começou a ficar preocupada, já que agora eu não fico.
Como se vê acima, muitas dessas atividades tinham como eixo ajudar a criança a escrever suas preocupações, oferecendo uma representação concreta delas que podia ser retomada em sessões posteriores ou repassada a outras pessoas, com o acordo da criança. Por exemplo, em alguns casos, as crianças contaram como essas atividades lhes permitiram compartilhar as preocupações com a mãe, aliviando a ansiedade de chateá-la ou de aumentar suas preocupações:
Criança (EC1): (Monkey Bob) Ele é um arco-íris (o bichinho de pelúcia). Ele tinha umas coisas costuradas, tipo figuras nele… Ele é para as preocupações! Eu conto as preocupações para ele e aí a mamãe vai até ele e ele conta as preocupações para ela.
Essas “preocupações” registradas por escrito serviam de base para o trabalho com as mães, para ajudá-las a entender melhor as necessidades dos filhos e como poderiam ajudar a atendê-las, como se verá mais adiante no artigo. Em vários estudos de caso, um aspecto-chave desse apoio criativo era permitir que as crianças identificassem e falassem de suas experiências de trauma passado ou, em alguns casos, atual, muitas vezes associado à continuidade das visitas. No exemplo abaixo, uma atividade foi pensada especificamente para apoiar uma das crianças, que tinha pesadelos recorrentes com “ele”, o pai violento (a criança se referiu ao pai dessa forma durante toda a entrevista), com quem as visitas continuavam (mas ver a seção de resultados abaixo):
Criança (EC5): O que eu mais gostei foi de fazer o filtro dos sonhos para levar embora meus sonhos ruins com “ele”. A gente fez isso juntos pelo FaceTime. Quando eu conheci (a pessoa de referência), me acostumei a falar com ela sobre como eu me sentia, e fazer as atividades deixava mais fácil conversar.
Para algumas crianças, o apoio ao manejo da raiva e a oferta de mecanismos positivos de enfrentamento eram favorecidos por atividades criativas marcantes; neste caso, um refrigerante foi usado como material:
Criança 1 (EC3): Era toda a raiva se acumulando e no fim ela explode (fazendo o gesto de um refrigerante sacudido)… (então) em vez disso, deixar sair um pouquinho de cada vez.
Outras atividades, como “Helping Hands” (mãos que ajudam), buscavam identificar os adultos de apoio na vida da criança, tanto na família próxima quanto fora dela:
Criança (EC1): O que você tem que fazer é pegar tinta, passar na mão, aí você põe numa folha de papel e depois pega uma caneta preta e escreve com quem você falaria das suas preocupações.
Criança (EC5): Eu sei que posso falar com meus professores se eu estiver preocupado ou se eu tiver tido sonhos ruins. Eles são as minhas “mãos que ajudam”.
Criança 2 (EC3): Eu pude fazer essa mão sobre com quem você falaria se um dia sentisse medo, cinco coisas, o nosso polegar e os nossos quatro dedos.
No início da entrevista, a criança citada acima (EC3) não conseguia lembrar quais adultos tinha incluído na mão que ajuda; no fim da conversa, a criança voltou a esse ponto e lembrou que o corpo docente estava incluído na mão.
Por fim, as crianças falaram do prazer de participar de atividades sem relação com suas experiências passadas de violência, embora seja preciso notar que, na fala abaixo, a criança expressa obediência, com “eu tive que ir”, e não sua própria agência.
Criança 1 (EC3): Eu tive que ir a um lugar com ela e fazer umas atividades, tipo desenhar ou pintar, e eu pude ler uns livros e brincar mais um pouco se sobrava um tempinho.
Na seção anterior, o foco esteve nas opiniões e experiências das crianças mais novas sobre o que apoiou seu engajamento nos serviços de enfrentamento da violência doméstica. É importante reconhecer, porém, que isso não aconteceu de forma isolada: as mães dos estudos de caso também receberam serviços associados, que buscavam trabalhar de forma integral com os genitores não agressores, e as equipes descreveram o engajamento das mães no serviço como um facilitador do apoio que podiam oferecer às crianças. O apoio permitiu às mães facilitar indiretamente o engajamento dos filhos no serviço, graças a uma compreensão maior de suas necessidades. As mães contaram como os serviços do SLCDPS lhes deram uma compreensão melhor do impacto da violência doméstica sobre elas mesmas e sobre os filhos, ofereceram estratégias para responder às preocupações e inquietações das crianças e, em alguns casos, para refletir sobre sua parentalidade e as dinâmicas familiares. As mães também relataram diretamente como o engajamento dos filhos foi facilitado, o que exploramos agora em três áreas: o trabalho com as mães centrado na criança; a defesa dos interesses da criança; e o trabalho em grupo e o apoio entre pares para as mães. É importante notar que, embora várias formas de apoio estivessem disponíveis, cabia à mãe decidir de quais participar, se de alguma.
O trabalho com as mães centrado na criança acontecia paralelamente ao trabalho direto com as crianças, cada uma com sua própria pessoa de referência:
Mãe (EC3): Foi muito bom, ter isso separado e depois se juntar. E aí, no caminho de volta para casa, depois dessas sessões, a gente conversava sobre um monte de coisas juntos, e ele gostou muito de ter aquele momento e tal.
As mães reconheciam os benefícios de as crianças lhes fazerem chegar suas preocupações por meio da pessoa de referência CYP: as mães podiam então tratar dessas preocupações com sua própria pessoa de referência. Da mesma forma, as mães podiam comunicar à pessoa de referência CYP, diretamente ou por meio de sua própria pessoa de referência, qualquer preocupação ou mudança na família que achassem que devia ser abordada no trabalho com a criança:
Mãe (EC1): Eu entrava em contato com (a pessoa de referência) só para dizer que [minha filha] estava meio para baixo ou que havia alguma coisa me preocupando, e ela ligava só para ver se estava tudo bem. Ela imprimia umas atividadezinhas que a gente podia fazer juntas, como Helping Hands.
Graças a esse modelo de apoio recíproco, que oferecia espaços separados para as crianças e para os genitores não agressores, as mães e as equipes identificaram que o engajamento das crianças era facilitado por um serviço que era “só delas” e por um espaço para falar das preocupações sem a presença da mãe:
Mãe (EC4): Era só… ele achar [a pessoa de referência CYP] alguém com quem é fácil conversar, sabe, ele pode falar o que quiser e não é a mãe, se é que você me entende.
Mãe (EC6): Não tenho certeza de que [minha filha] sempre queira conversar comigo sobre tudo. E então… se ela tivesse só um desabafo, onde pudesse simplesmente dizer: “Estou tão chateada com isso e não quero falar com a mamãe porque não quero deixá-la triste. Não posso falar com o papai porque ele vai ficar bravo comigo.”
Foram identificados, porém, obstáculos ao engajamento das crianças. A mãe citada acima também falou de sua decepção por uma relação sólida não ter conseguido se desenvolver, por causa da falta de regularidade nas visitas da pessoa de referência CYP:
Mãe (EC6): Elas (as crianças) só precisam de alguém constante… de ter essa pessoa a mais, só para a gente pensar, ufa, sei que [minha filha] está segura com essa pessoa, ela pode conversar com ela sobre qualquer coisa e elas podem construir uma relação… Isso simplesmente não aconteceu.
As mães e as equipes descreveram como as pessoas de referência apoiavam o engajamento das crianças garantindo que sua voz fosse ouvida e representada nas decisões sobre seus planos de segurança, o contato e os processos de proteção à criança. Em um caso, uma mãe tinha contado à pessoa de referência que a criança estava muito ansiosa por começar numa escola nova. A pessoa de referência CYP pôde então explorar com a criança suas preocupações, centradas em questões de segurança em relação ao pai. Ela ajudou a criança a escrever, com suas próprias palavras, um plano de segurança sobre o que queria que as escolas fizessem se o pai aparecesse em eventos escolares públicos, afirmando que ele não estava autorizado, em hipótese nenhuma, a tirar a criança das dependências da escola. A criança e a mãe levaram então o plano à nova escola, e foram estabelecidos procedimentos para garantir seu cumprimento.
Outra mãe (EC5) contou como os filhos foram apoiados para contribuir com sua opinião para um relatório no âmbito do processo judicial em curso, o que permitiu que as duas crianças participassem ativamente do processo: “encontrar uma voz e perceber que o que tinha acontecido com eles não era culpa deles”.
As mães também descreveram como o trabalho em grupo as ajudou a perceber que “não estavam sozinhas” e que os problemas e preocupações que enfrentavam em relação ao bem-estar dos filhos não eram culpa delas:
Mãe (EC6): Fazia pensar, às vezes, e pode ser bem perturbador também… E você está ali com pessoas que pensam parecido, que passaram por situações semelhantes.
Mãe (EC3): Porque tem tanta gente (no grupo) que a gente percebe também que passou por isso, e os filhos delas, acho que é só, sabe, querer garantir que todo mundo receba a ajuda que puder, porque ela existe.
Depois de explorar as experiências e opiniões das crianças e das mães sobre o que apoiou o engajamento das crianças, examinamos agora que mudanças isso produziu para as crianças. As crianças identificaram uma série de resultados positivos atribuídos ao serviço, centrados em quatro grandes áreas: bem-estar e autoconfiança; mudança de comportamento e estratégias positivas de enfrentamento; situação em casa; escola e colegas. As mães também relataram resultados positivos para as crianças nessas áreas.
Todas as crianças conseguiram identificar melhoras no seu bem-estar graças ao apoio recebido. Descreveram níveis menores de ansiedade, “Eu me preocupo muito menos agora” (EC2), mais sentimentos de felicidade, “Carinha bem sorridente agora” (criança, EC1), “Eu não era tipo feliz o tempo todo e tal, e agora eu sou” (criança, EC6), e confiança:
Criança (EC5): Eu me sinto mais seguro e sei que as pessoas vão me ouvir mais, a mim e ao que eu quero. Acho que estou mais confiante. Entendo melhor meus sentimentos e sei que está tudo bem sentir o que quer que eu esteja sentindo.
As crianças (assim como os pais) perceberam melhoras no comportamento e relataram usar estratégias construtivas de enfrentamento para lidar com situações estressantes:
Criança (EC4): Eu fico com raiva, mas estou um pouquinho melhor. É, estou um pouquinho melhor. É mais quando tipo alguém me xinga. Na minha escola antiga eu normalmente dava um soco.
Algumas crianças identificaram resultados positivos em relação à situação em casa:
Criança 1 (EC3): Está muito melhor em casa e eu estou sempre feliz agora. Antes eu vivia com raiva e triste, mas agora estou muito mais feliz.
Em contraste, a irmã mais nova dessa criança disse que em casa estava só “um pouco melhor”, o que mostra que irmãos e irmãs podem viver de modo diferente o mesmo contexto familiar. Outras crianças também tinham opiniões mais ambivalentes sobre as melhoras na situação em casa, o que mostra a necessidade de apoio a longo prazo para lidar com dinâmicas familiares enraizadas pelo trauma vivido, sobretudo em situações com processos judiciais em curso:
Ela (a mãe) não fala tanto palavrão, essa é mesmo a única coisa. (Criança, EC4.)
Acho que não mudou nada de verdade na família. (Criança, EC2.)
Uma criança, no entanto, relatou que o apoio recebido pela família tinha permitido à mãe reconhecer o impacto do contato com o pai violento:
Criança (EC5): A mamãe agora consegue entender que a gente não quer mais ver nem falar com “ele”, e [a pessoa de referência] ajudou a mamãe a ver que a gente não é obrigado. Ela parou de obrigar a gente a atender as ligações dele e a gente está mais feliz. Eu consigo falar sobre como me sinto e a mamãe vai me entender mais.
Outra área de melhora relatada pelas crianças dizia respeito à escola e aos colegas. No exemplo abaixo, estratégias positivas de manejo da raiva levaram a melhoras significativas na escola e nas amizades, como mostra a resposta da criança quando perguntada sobre a escola e as amizades:
Criança 1 (EC3): É, está tudo bem agora, não me preocupo mais com isso. Está ótimo, mudou mesmo, eu tenho um monte de amigos.
Do mesmo modo, as mães relataram resultados positivos equivalentes, embora mais amplos, para as crianças.
Em vários casos, os pais descreveram crianças que passaram a compreender melhor seus sentimentos e a ter capacidade e confiança para expressar o que pensam:
Mãe (EC4): Então, ele está bem em contato com o que sente e diz tipo, sim, vou fazer, ou não, não vou. Porque a gente também era muito controlado, então não tinha muita voz, nenhum de nós. Então, agora, [nome da criança] tipo, eu estou me soltando um pouquinho.
Nesse relato, a mãe descreve o filho, que tinha dito (ver seção anterior) que o único aspecto da situação em casa que tinha melhorado era a mãe falar menos palavrão (o que por si só pode refletir métodos de parentalidade e de disciplina mais positivos). Ainda assim, o comentário mostra que todas as perspectivas dentro de uma família precisam ser consideradas.
As mães relataram que os filhos também tiveram melhora no humor, no sono e na saúde física, e redução do medo e da raiva.
Mãe (EC5): Antes, ele era só tipo, não, eu quero dormir com você, mamãe, estou com medo. Agora é só tipo (quando ele pede para dormir com ela) sinto mais que é uma escolha e que ele gosta, não porque está com medo… antes, se ele via um carro parecido com o do pai ou um homem parecido com o pai, ele entrava em pânico, ou se ele vê uma viatura da polícia ele entra em pânico. Agora ele está mais tranquilo.
Também houve sinais de crianças atravessando com sucesso transições-chave na escola:
Mãe (EC2): Ela está (a filha) muito mais feliz, começou o ensino médio e… tudo isso foi positivo… enquanto antes ela era tipo, ela quase não tinha amigos e não estava feliz, e vivia doente. Mas agora não tem mais nada disso e ela está fazendo amigos novos e ficando um pouco atrevida também.
Os pais relataram que o apoio recebido abriu espaço para autorreflexão e descobertas, o que por sua vez levou a uma consciência maior de como a violência e seus próprios sentimentos podem ter afetado os filhos:
Mãe (EC3): Por causa do apoio que eu recebi e do apoio que as crianças receberam… tenho mais conhecimento agora, antes eu não entendia… aí eu fiz o curso… que o impacto também era nas crianças. Então consigo ver isso com mais clareza... e fica simplesmente mais fácil lidar com isso também.
As mães relataram impactos positivos na quantidade e no estilo da comunicação entre mães e filhos, especialmente para falar da violência vivida. Essa comunicação melhor teve um efeito positivo na capacidade das mães de lidar com o comportamento das crianças e permitiu que as crianças desenvolvessem empatia pela mãe:
Mãe (EC4): Depois de… algumas sessões com ele, não sei exatamente o que ela (a pessoa de referência) fez, mas ele ficou tipo, tá, entendi. Então ele meio que escuta o meu lado também, em vez de tipo, não, você está errada... aí a gente meio que consegue conversar.
A continuidade no uso das ferramentas ficou evidente em algumas famílias, que continuaram a usá-las depois de concluir o programa.
No fim das entrevistas, pediu-se às crianças que dissessem como seria o seu melhor futuro. Para algumas, ele ainda girava, em maior ou menor grau, em torno do desejo de uma vida livre de trauma: “Quando eu nunca estiver com raiva nem triste”; “Ficar com a mamãe e [minha irmã] e ter um gato. Ver [meus avós] bastante, ser feliz e estar em segurança e nunca mais ver ‘ele’… trabalhar com animais”.
Já outras crianças conseguiam descrever aspirações que pareciam menos ancoradas em suas experiências anteriores de trauma e violência: “Eu queria ter um haras, uma piscina e cabelo comprido… e uma casa bem grande”; (se) “eu tivesse uma livraria, e ela fosse relativamente popular”; “Quero ser atriz, mais precisamente na Disneylândia…. Eu meio que quero formar uma família.”
A abordagem por estudos de caso (Crowe et al., 2011) permitiu um retrato detalhado do que apoiou o engajamento das crianças mais novas nos serviços CYP e das mudanças alcançadas. O artigo se concentra sobretudo nos relatos e experiências das crianças, complementados pelos de suas mães. Também buscamos identificar os pontos em que os relatos das mães e das crianças divergem. Para isso, concebemos as crianças, inclusive as mais novas, como agentes que sabem e que têm competência na própria recuperação (James & Prout, 2003; Richardson et al., 2022), rejeitando discursos infantilizantes e ideológicos sobre a passividade da infância (Rosen & Twamley, 2018), que servem para silenciar e enfraquecer a capacidade de agência das crianças. Nessa concepção, reconhecemos também que a agência das crianças deve ser vista como um espectro, em que as crianças são ao mesmo tempo dependentes e independentes em relação a diferentes aspectos da vida (Esser et al., 2016). Como argumenta Abebe (2019), precisamos compreender o contexto estrutural e as práticas relacionais intergeracionais que moldam a experiência de agência das crianças. Isso implica reconhecer que a agência das crianças é vivida e moldada por meio de suas relações com a família, as amizades e redes sociais mais amplas. Assim, nossos resultados buscaram iluminar como a experiência das crianças com o apoio à violência doméstica foi mediada e moldada pela experiência das mães, dos colegas e das equipes. Eles mostram o que Abebe chama de agência interdependente: o modo como as práticas relacionais intergeracionais entre crianças e adultos moldam a vida das crianças, suas “escolhas” e o tipo de futuro que podem ter.
Nossa análise dos dados das crianças produziu quatro temas principais em que elas falavam de práticas relacionais ligadas ao engajamento: apoiar a prontidão pessoal das crianças para se engajar; apoio em torno de preocupações e inquietações; experiências relacionais; e atividades e ferramentas envolventes. Nosso estudo identificou elementos-chave que podem servir de blocos de construção para apoiar o engajamento ativo das crianças em programas de enfrentamento da violência doméstica.
Nossos resultados sobre a prontidão pessoal das crianças para se engajar nos serviços exigem uma contextualização cuidadosa, pois as crianças, sobretudo as mais novas, têm pouca escolha quanto ao encaminhamento aos serviços ou à própria participação (Howarth et al., 2018). Isso ficou ainda mais evidente em nosso estudo nas expressões de obediência das crianças, “Eu tive que”, em vez de expressões de engajamento com agência. Também é importante reconhecer que as crianças do nosso estudo não falaram de estar “prontas” para se engajar no apoio, o que reflete resultados anteriores (Humphreys et al., 2011). Descreveram, porém, emoções coexistentes e muitas vezes conflitantes sobre o engajamento inicial, com relatos tanto de ansiedade quanto de entusiasmo com o apoio. Algumas dessas reservas refletiam traços mais amplos que as crianças identificavam em sua vida, sobretudo a timidez. Outras ansiedades, porém, se deviam à falta de compreensão do que esperar ou do que estava envolvido. Ao lado dessas preocupações, a maioria também destacou suas expectativas e seu entusiasmo com a oportunidade de receber apoio em torno das suas “preocupações”. Esse era um relato forte e positivo nas falas das crianças, em que o modo ativo de se posicionar diante de uma possível mudança e de um espaço para ter as preocupações reconhecidas era um motor importante de sua prontidão pessoal, contextualizada, para se engajar.
Embora algumas das preocupações iniciais das crianças, como a timidez, só possam ser atenuadas pelo trabalho relacional, oferecer materiais informativos adequados e envolventes (elaborados pela equipe autora) sobre o tipo de apoio disponível, reconhecendo a escolha e o consentimento como contínuos e passíveis de mudança, ajudaria a aliviar algumas dessas reservas iniciais e apoiaria um engajamento contextualizado. Argumentamos que a falta de informação adequada não só inibiu o engajamento inicial das crianças, como pode também refletir uma falta de reconhecimento das crianças, e talvez sobretudo das mais novas, como sujeitos com agência, cuja agência pessoal e cujas “escolhas” precisam de apoio intergeracional. É essencial, porém, reconhecer também que a prontidão pessoal de uma criança para se engajar ou não precisa ser vista num quadro contextual mais amplo, que inclui a influência da família extensa (inclusive o contato com o autor da violência) e de fatores sociais e culturais. Como argumenta Abebe (2019, p. 1), “é importante ir além do reconhecimento de que as crianças são atores sociais, para revelar os contextos sociais, culturais, materiais e políticos, assim como os processos relacionais, em que sua agência cotidiana se desenrola”.
As crianças dos estudos de caso não falaram abertamente de poder em relação ao seu engajamento no programa. Enfatizaram, porém, a importância de compartilhar suas experiências e as preocupações associadas num ambiente em que se sentiam ouvidas, seguras e no controle de quais “preocupações” queriam revelar e quando (ver Houghton, 2015; Cater, 2014). Esse engajamento era ainda facilitado por pessoas profissionais “com quem é fácil se identificar”, autênticas e constantes, que defendiam as opiniões delas. Isso amplia o trabalho de Beetham et al. (2019), que também descreveram a recuperação das crianças alcançada por meio do trabalho em grupo como relacional e com agência. O humor e a diversão também eram usados para construir um espaço relacional de engajamento em que revelações e raiva podiam ser compartilhadas (Vikander & Källström, 2024), reduzindo a intensidade das conversas e ajudando as crianças a contar suas histórias. Uma criança, porém, falou de ter se sentido decepcionada pela inconstância de uma pessoa de referência, o que ressalta a importância da reciprocidade na construção das relações terapêuticas. O uso do brincar criativo, de atividades e de materiais, ajustados à idade e às necessidades da criança, permitiu às crianças explorar suas preocupações e ansiedades num contexto imersivo de diversão e brincadeira (Burriss & Tsao, 2002). Como outros estudos também destacaram (Beetham et al., 2019; Pernebo e Almquist 2016), nossos resultados contrariam fortemente os discursos sociais segundo os quais crianças que vivem violência doméstica não podem também se divertir. As crianças falaram com força da “diversão” e das atividades criativas como blocos de construção que apoiam o engajamento, pelo desenvolvimento de relações significativas com as equipes, e como mecanismos para nomear preocupações, oferecer estratégias de mudança (por exemplo, a analogia do refrigerante) e explorar a recuperação. O ato concreto de confiar as preocupações a um canal seguro, como um bichinho de pelúcia ou um pote, apoiava o controle das crianças sobre quais preocupações compartilhar, concentrava a atenção nas próprias palavras e desenhos e permitia, quando elas concordavam, que as equipes defendessem seus interesses. Como destacam Beetham et al. (2019), para que essas atividades produzam mudança, os adultos (neste caso, as equipes que trabalham com as crianças) precisam usar suas “posições epistemológicas de ‘especialistas’ para facilitar as escolhas das crianças em contextos nos quais elas normalmente têm pouca escolha” (p. 573). Isso ficou claramente demonstrado nos relatos das crianças e das mães.
Nossos resultados mostram que as crianças mais novas, quando apoiadas de forma adequada por equipes qualificadas e experientes que reconhecem sua capacidade de agência, conseguem identificar o impacto de suas experiências de violência doméstica, compartilhar suas preocupações e trabalhá-las numa relação recíproca de confiança. Como outros também mostraram (Humphreys et al., 2011; Thompson, 2011), esse apoio permite romper o silêncio e o estigma que as crianças encontram em torno da violência doméstica.
Nosso estudo também identificou que o engajamento contextualizado das crianças era ainda mais apoiado quando as mães também se engajavam nos serviços, mostrando aos filhos que era aceitável e seguro falar. Embora reconheçamos a importância central de oferecer serviços diretos às crianças por direito próprio, o apoio que as mães receberam permitiu que reconhecessem melhor o impacto da violência sobre os filhos, apoiassem o engajamento e a agência deles por meio de práticas relacionais intergeracionais e participassem da recuperação dos filhos.
Embora o apoio às mães fosse oferecido em vários formatos, ajustados às etapas de sua recuperação, o trabalho com as crianças não dependia do envolvimento das mães e não seguia o formato de grupos paralelos do Modelo de Ontário, influente no Reino Unido (Morrison (2024; Barter et al., 2024). Isso permitiu flexibilidade nos padrões de engajamento: uma mãe aceitou o apoio depois de perceber os benefícios para os filhos, e outra o recusou por não se sentir pronta para se engajar. Como argumentaram Humphreys et al. (2011), a violência doméstica abala as relações entre mãe e filhos, e muitos dos benefícios descritos por crianças e mães neste estudo diziam respeito à maior capacidade de conversar juntas sobre questões dolorosas e difíceis e de reconhecer suas perspectivas diferentes. Pesquisas capazes de acompanhar as famílias por períodos mais longos ajudariam a descobrir se essas mudanças nos padrões de comunicação se mantêm.
Os resultados dos estudos de caso mostraram diversidade nas percepções de crianças e mães e nas experiências e opiniões de irmãos e irmãs, e essas variações refletem diferenças de poder e de posição dentro da família, assim como diferenças de desenvolvimento. Um estudo maior, com mais casos, talvez permitisse tirar conclusões sobre como apoiar melhor o engajamento de grupos diversos de crianças, assim como considerar diferentes etapas do desenvolvimento. Observamos que uma intervenção que inclua tanto trabalho individual quanto em grupo com as crianças e suas mães pode responder com mais facilidade a experiências e necessidades diferentes.
Por fim, grande parte do trabalho descrito aqui foi realizada no contexto da pandemia mundial, o que ofereceu a oportunidade de explorar os pontos fortes e fracos da oferta on-line dessas intervenções. Embora as intervenções presenciais possam ser as mais indicadas nas etapas iniciais da construção de uma relação terapêutica, especialmente com crianças, algumas crianças se sentiram à vontade nas sessões digitais, e modelos híbridos de intervenção merecem ser mais testados (Stanley et al., 2021).
Nosso estudo oferece fortes evidências, em apoio a pesquisas anteriores, da necessidade de incluir, e de priorizar, as opiniões e experiências das crianças, inclusive das mais novas, nos estudos sobre serviços de enfrentamento da violência doméstica que buscam apoiar o engajamento e a recuperação das crianças. Nossa abordagem por estudos de caso, porém, também permitiu que surgisse um retrato mais multifacetado, que mostra como serviços integrados, que buscam apoiar tanto as crianças quanto as mães, podem oferecer uma resposta integral que apoie o engajamento das crianças para superar o impacto da violência doméstica.
A introdução deste artigo destacou a insuficiência da oferta de programas voltados à recuperação de crianças e de mães que viveram violência doméstica. A disponibilidade restrita dessas intervenções e a amplitude da necessidade tornam essencial que os programas financiados e apoiados se baseiem em evidências sobre o que ajuda as crianças a se engajar nos serviços para alcançar resultados positivos. Hoje, muitas intervenções britânicas para famílias que vivem violência doméstica são oferecidas de forma fragmentada e de curto prazo, ao sabor do financiamento (Domestic Abuse Commissioner, 2021): o programa descrito aqui não é mais oferecido em um dos locais e assumiu outra forma no outro. Por isso, é especialmente importante que programas inovadores como este sejam manualizados, para que seus componentes centrais possam ser replicados em outros lugares. Nossa pesquisa contribui para a construção de conhecimento nessa área ao extrair, a partir de múltiplas perspectivas e dando destaque aos relatos das crianças, requisitos-chave para serviços que buscam apoiar o engajamento e a recuperação das crianças. Os benefícios de uma intervenção precisam ser vividos pelas próprias crianças, e este estudo mostra os limites de pesquisas que se baseiam apenas nos relatos das mães sobre a experiência das crianças com os serviços. Há o risco de que as experiências das crianças se percam ou sejam tratadas como secundárias por intervenções e avaliações voltadas para a “família inteira”. Há mais desafios para engajar as crianças mais novas, tanto nos serviços quanto na pesquisa, do que com jovens de mais idade e pessoas adultas (Eliffe et al., 2020). O serviço estudado aqui se beneficiou de uma disposição para ver as crianças como participantes ativas do processo terapêutico, e a pesquisa as abordou da mesma forma. Importante: também evidenciamos limites da mudança positiva, tal como identificados pelas crianças. Ainda assim, os estudos de caso mostram que o apoio especializado para crianças e mães, que reconhece suas diferenças e também suas experiências compartilhadas e que favorece a comunicação para (re)conectar as famílias, pode reduzir o silêncio em torno da violência doméstica e permitir que as famílias avancem juntas rumo a um futuro livre de violência.
Complexe Systémique: a reter
O estudo tem o mérito de suas escolhas: ouvir crianças de 7 a 11 anos em vez de deduzir sua experiência a partir do que dizem os adultos, e observar um dispositivo em que mãe e criança têm cada uma seu espaço e sua pessoa de referência, com pontes entre os dois. As “preocupações” escritas, colocadas num pote ou confiadas a um bichinho de pelúcia, tornam-se um objeto terceiro que circula da criança para a mãe com o acordo da criança: um modo concreto de reabrir a comunicação que a violência danificou, sem expor a criança. A leitura sistêmica encontra aí pontos de apoio precisos: a regularidade da pessoa de referência como condição de segurança, o apoio à mãe como alavanca indireta para a criança, irmãos e irmãs que não vivem a mesma história. O texto lembra também o que não muda quando o contato com o autor da violência continua, e que a criança diz com frequência “eu tive que ir”. Os limites são os de seis casos, sem famílias de grupos minorizados, em plena pandemia. Para ler junto com o artigo sobre o que as crianças expostas à violência doméstica valorizam no serviço social e com o artigo sobre as díades expostas em conjunto à violência doméstica.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece a todas as crianças, mães e equipes de campo que dedicaram seu tempo às entrevistas, sobretudo porque muitas delas aconteceram durante o lockdown. Agradece também às pessoas pesquisadoras especialistas por experiência, ao grupo consultivo e à SafeLives, que apoiaram a avaliação.
Financiamento. Big Lottery, Women and Girls Initiative.
Aprovação ética. O estudo foi aprovado pelo comitê de revisão ética BAHSS2 (Business, Arts, Humanities and Social Sciences) da Universidade de Central Lancashire. Seguiu-se o marco de integridade da pesquisa sobre violência doméstica da Women’s Aid (2020): https://www.womensaid.org.uk/wp-content/uploads/2020/11/Research-Integrity-Framework-RIF-on-Domestic-Violence-and-Abuse-DVA-November-2020.pdf
Consentimento. Todas as pessoas participantes deram consentimento por escrito para a participação e a publicação.
Conflitos de interesse. Nenhum conflito de interesse declarado.
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Tradução não oficial em português de Do que as crianças mais novas precisam para se recuperar da violência doméstica? Resultados de estudos de caso familiares qualitativos aprofundados, de Christine Barter, Emma Howarth, Helen Richardson Foster e Nicky Stanley, Journal of Family Violence, vol. 41, no 3 (2026), doi: 10.1007/s10896-025-00873-6, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “What do younger children need for recovery from domestic abuse? Findings from in-depth qualitative family case studies”, publicado em Journal of Family Violence (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Barter, C., Howarth, E., Richardson Foster, H., et Stanley, N. (2026). Do que as crianças mais novas precisam para se recuperar da violência doméstica? Resultados de estudos de caso familiares qualitativos aprofundados (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/do-que-as-criancas-mais-novas-precisam-para-se-recuperar-da-violencia-domestica (Obra original publicada em 2025 em Journal of Family Violence, 41(3), 465-478 (2026); republicada em 2026 por Journal of Family Violence, https://link.springer.com/article/10.1007/s10896-025-00873-6)
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