Esta versão foi traduzida do inglês pelo Complexe Systémique com a ajuda da inteligência artificial. Em caso de dúvida, prevalece a versão original.
Journal of Family Violence · Violência
Quando uma criança se torna violenta com a mãe, onde ela vai buscar ajuda? Cruzando os relatos de onze mães e dezenove profissionais da Austrália, Chye Toole-Anstey, Michelle Townsend e Lynne Keevers, da Universidade de Wollongong, desenham cinco percursos de busca de ajuda. Quase todos passam por relações já existentes e esbarram na vergonha, no julgamento, no isolamento rural e na sombra da violência por parceiro íntimo.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Eu não ia desistir, mas de um jeito ou de outro ia encontrar uma saída pelas crianças”: uma investigação narrativa, com mães e profissionais, sobre a busca de ajuda de mães que vivenciam violência filioparental, de Chye Toole-Anstey, Michelle Townsend e Lynne Keevers, publicado na Journal of Family Violence (Springer) (2024), doi: 10.1007/s10896-023-00511-z, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura permanece em inglês, com legenda traduzida; as siglas do original (CPV, IPV) foram escritas por extenso. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Este estudo parte da ideia de que a busca de ajuda é um ato de resistência.
Chye Toole-Anstey, Michelle Townsend e Lynne Keevers
Resumo
Objetivo. A violência de filhos contra os pais é uma preocupação importante, pesquisada ao longo dos últimos sessenta anos. Ainda assim, pouco se sabe sobre os percursos de busca de ajuda dos pais que vivenciam violência filioparental. Os obstáculos e os facilitadores da revelação dessa violência já foram explorados, e as respostas a ela foram pouco pesquisadas. O caminho que vai da revelação à escolha de onde buscar ajuda ainda não foi mapeado. Este estudo busca mapear os percursos de busca de ajuda das mães e os examina à luz das relações dentro das famílias e das condições sociomateriais.
Método. Esta investigação narrativa recorre à prática baseada em respostas e ao conceito de “intra-ação” de Barad para examinar entrevistas com mães (n = 11) que vivenciam violência filioparental e com profissionais (n = 19) que trabalham com famílias que vivenciam essa violência.
Resultados. O estudo identifica cinco percursos de busca de ajuda das mães. São explorados três temas presentes em todos os percursos: (1) a busca de ajuda dentro de relações preexistentes; (2) os sentimentos de medo, vergonha e julgamento das mães, emaranhados com a busca de ajuda; e (3) as condições que favorecem ou dificultam a busca de ajuda junto à família.
Conclusões. Este estudo constata que condições sociomateriais como a maternidade solo e o julgamento limitam as possibilidades de busca de ajuda. Constata ainda que a busca de ajuda ocorre dentro de relações preexistentes e que a violência filioparental se emaranha com outras questões, como a violência por parceiro íntimo e a falta de moradia. O estudo mostra os benefícios de combinar uma abordagem baseada em respostas com a “intra-ação” num contexto de pesquisa e de prática.
Palavras-chave: violência filioparental, busca de ajuda, intra-ação, relações familiares, feminismo, prática baseada em respostas
A violência de uma criança ou adolescente contra a figura parental é um fenômeno complexo. Também chamada de violência familiar adolescente, a violência filioparental recebe definições diversas, que vão de um ato específico a padrões de comportamento, e na maioria das vezes se refere à violência física (Burck et al., 2019). Este artigo adota a definição de abuso de adolescentes contra os pais proposta por Holt (2013) para definir a violência filioparental como “… um padrão de comportamento que usa meios verbais, financeiros, físicos ou emocionais para exercer poder e controle sobre um dos pais” (p. 2). O termo criança é usado em vez de adolescente para abarcar complexidades associadas a essa violência, como atos de crianças mais novas que nem sempre são definidos como violência (ver O’Toole et al., 2020). A violência filioparental também engloba a violência contra famílias acolhedoras e outros arranjos de cuidado, como o cuidado por avós e o acolhimento por parentes (Selwyn e Meakings, 2016; Williams et al., 2017). Os efeitos da violência filioparental sobre as mães podem incluir estresse, depressão e ansiedade (Fitz-Gibbon et al., 2021). Podem incluir ainda isolamento e faltas ao trabalho por causa da violência, o que também pode ter repercussões financeiras (Fitz-Gibbon et al., 2021). Mães que vivenciam violência filioparental também podem se afastar da família extensa e das amizades (Fitz-Gibbon et al., 2021; Holt, 2011).
Pesquisas anteriores relatam taxas de prevalência da violência filioparental. A revisão de Simmons et al. (2018) estimou que a violência física de jovens contra os pais na população geral se situa entre 5% e 21%. De forma preocupante, quando se incluem a violência emocional, verbal e psicológica, Simmons et al. (2018) encontraram uma taxa de prevalência entre 33% e 93%. É importante observar, porém, que os dados de prevalência são limitados pelas amostras utilizadas (Jiménez-García et al., 2020) e pela falta de uma definição universalmente aceita (Simmons et al., 2018). Outras dificuldades ligadas aos dados de prevalência são: os pais nem sempre buscam ajuda para a violência (Peck et al., 2021a); há percepções de diferenças entre os sexos, e a violência de meninos pode ser vista como mais grave do que a de meninas (Selwyn e Meakings, 2016); e são poucas as grandes amostras populacionais (Papamichail e Bates, 2019).
A busca de ajuda é definida como a revelação da violência filioparental para obter assistência. Trata-se de um processo em três etapas: (1) reconhecer um problema; (2) tomar a decisão de buscar ajuda; e (3) decidir de quem ou onde buscar assistência (Liang et al., 2005). A busca de ajuda inclui apoios informais, como família e amizades. Inclui também apoios formais, por exemplo organizações como a proteção à infância ou os serviços de saúde mental, os serviços de emergência e a atuação profissional pública e privada, incluindo o serviço social.
Os pais podem relutar em buscar ajuda para a violência filioparental (Coogan, 2014). Entre os obstáculos à revelação dessa violência está o medo: de consequências para a criança, como criminalizá-la ou causar-lhe dano (Douglas e Walsh, 2018); de violência da criança após a revelação (Pagani et al., 2003); do rótulo de “mau pai ou má mãe” (O’Toole et al., 2020, p. 12); da dúvida ou da descrença alheia (Clarke et al., 2017); ou da culpabilização por outras pessoas (Moulds et al., 2016). O risco de retirada de outras crianças da casa (Coogan, 2014) ou da criança que exerce a violência (Clarke et al., 2017), com a entrada da proteção à infância, é outra preocupação dos pais ao revelar essa violência. Os sentimentos de impotência e desesperança dos pais (Cottrell e Monk, 2004), assim como a vergonha e a culpa que um pai ou uma mãe sente pela violência do filho ou da filha, são apontados como obstáculos ao acesso ao apoio (Omer e Lebowitz, 2016). A sensação de ser incapaz de controlar a criança pode inibir a revelação da violência filioparental (Williams et al., 2017), assim como a sensação de incapacidade parental (Paterson et al., 2002).
Uma revisão sistemática recente (Toole-Anstey et al., 2021) das intervenções para a violência filioparental constatou que as respostas voltadas a essa violência tendiam a se situar no sistema de justiça criminal. Alguns estudos exploraram respostas em outros contextos, como a proteção à infância (Holt e Retford, 2013) e os serviços sociais (O’Toole et al., 2020). Os pais podem chegar aos serviços de saúde mental por questões como comportamentos desafiadores, pois o medo e o constrangimento impedem que nomeiem o comportamento como violência (Coogan, 2014). Em contextos de acolhimento por parentes, esse mesmo comportamento é entendido como violência, e os avós precisam apresentá-lo de modo que exija intervenção, ao mesmo tempo que tranquilizam as equipes de que a criança pode continuar sob seus cuidados (Holt e Birchall, 2021). Messiah e Johnson (2017) constataram que os pais de seu estudo relataram ter revelado a violência filioparental a familiares e amizades antes de recorrer a serviços formais. Uma primeira resposta da família ou da comunidade que minimize e desvalorize a violência pode impedir novas buscas de ajuda (Edenborough et al., 2008).
Os percursos de busca de ajuda para a violência filioparental foram muito pouco pesquisados. A pesquisa até agora tende a se dividir em duas vertentes. Uma explora os obstáculos à busca de ajuda; a outra examina a utilidade das respostas. Entre as duas há uma lacuna: compreender os percursos de busca de ajuda, por exemplo, como um pai ou uma mãe acaba chegando a um serviço de saúde mental por causa da violência filioparental. Até onde a equipe de pesquisa sabe, não há estudos que mapeiem o caminho percorrido por quem busca ajuda nem estudos que considerem a influência das condições sociomateriais ou das relações dentro das famílias. A sociomaterialidade conecta o humano ao material, isto é, aos objetos e contextos, situando-os como coemergentes, com a agência se formando e se reformando nessa conexão (Hultin, 2019). Este estudo procura preencher essa lacuna examinando as seguintes perguntas: (1) quais são os percursos de busca de ajuda das mães que buscam ajuda diante da violência filioparental? (2) como a intra-ação dentro da família e as condições sociomateriais influenciam a busca de ajuda? O artigo começa explorando o referencial teórico e os métodos do estudo. Em seguida, apresenta os resultados e, depois, a discussão, que incorpora as limitações e as implicações para a pesquisa, a formação e as políticas públicas.
Esta pesquisa se situa num paradigma emancipatório (Lather, 2006) e se apoia na prática baseada em respostas (Richardson et al., 2017) e no neologismo “intra-ação” de Barad (2007). Barad (2007) propõe que os objetos não são entidades independentes e enfatiza, em vez disso, as “intra-ações” entre humanos e relações mais-que-humanas. O mais-que-humano inclui espécies não humanas, como os animais de estimação da família. Esse emaranhamento sugere que as pessoas “se tornam com” (Haraway, 2008) relações mais-que-humanas e se materializam por meio das intra-ações emaranhadas. A intra-ação desloca o pensamento: em vez de culpar um ser humano por um ato intencional, volta-se para as práticas, relações e condições sociomateriais que criam para uma pessoa a possibilidade de ser e agir (Webb, 2021), o que altera o olhar sobre a violência filioparental. Em vez de ver a figura parental e a criança como independentes nessa violência, este estudo usa a intra-ação para ver a violência filioparental como feita de um emaranhado de agências em intra-ação (Barad, 2007; Webb, 2021). A intra-ação também desloca a consideração dos fatores que dificultam ou facilitam a busca de ajuda para a dos emaranhamentos que tornam a busca de ajuda para essa violência possível ou impossível.
A prática baseada em respostas é uma abordagem usada em profissões como o serviço social e faz parte do referencial teórico desta pesquisa. É uma forma de olhar a violência na qual a resistência é vista como sempre já presente. Este estudo parte da ideia de que a busca de ajuda é um ato de resistência. A prática baseada em respostas altera os binarismos vítima/agressor ao evidenciar as condições sociomateriais (como o contexto das políticas públicas, o ambiente e o contexto) em que a interação social ocorre (Richardson et al., 2017). A prática baseada em respostas se alinha com a “intra-ação”, pois ambas deslocam as dicotomias “vítima” e “agressor” ao evidenciar outros elementos, entre eles o contexto, o mais-que-humano e as condições sociomateriais em que a violência ocorre (Barad, 2007; Richardson et al., 2017). Incorporar a intra-ação leva a ideia de condições sociais da prática baseada em respostas para o sociomaterial: esses “fatores” passam a ser considerados emaranhados com as ações, a agência e o poder (Fomiatti et al., 2022). O referencial teórico inovador que orienta esta pesquisa permite realizar o objetivo de mapear os percursos de busca de ajuda e de identificar as intra-ações dentro das famílias e o sociomaterial.
Este estudo usou uma metodologia de investigação narrativa (Wells, 2011) que incorpora abordagens participativas (Reason e Bradbury, 2006). Por meio desse referencial teórico e dessa metodologia, a pesquisa situa quem pesquisa como parte do mundo que busca compreender (Lather, 2006). A pessoa que assina em primeiro lugar é mãe e assistente social, e escolheu estudar a violência filioparental depois de trabalhar com famílias que viviam esse tipo de violência. Esta pesquisa faz parte de um estudo mais amplo que examina as histórias de pais e mães, bem como as respostas à violência filioparental.
As pessoas participantes, tanto mães quanto profissionais, foram contatadas por meio de organizações que trabalham com a violência filioparental, entre elas redes de enfrentamento da violência, serviços de saúde mental e consultórios particulares de serviço social. O recrutamento das mães por meio dessas organizações buscava apoiá-las: se surgisse algum problema na entrevista, a pessoa responsável pela pesquisa se oferecia para pôr a mãe em contato com a pessoa que lhe havia passado as informações sobre o estudo ou com outros serviços, conforme o caso. Os critérios de seleção das mães eram: (1) a criança tinha menos de 18 anos na época da violência e (2) a violência era definida pela própria mãe como violência filioparental, e essa definição era explorada na entrevista. O critério para profissionais era ter experiência de trabalho com violência filioparental, com pais, crianças ou ambos. As mães podiam escolher um pseudônimo para a pesquisa, e atribuiu-se um pseudônimo a cada profissional. O local, o dia e o horário da entrevista eram escolhidos pelas pessoas participantes (Organização Mundial da Saúde, 2016), e as mães recebiam um vale-compras pela participação. Para favorecer a segurança, faziam-se às mães perguntas por telefone ou Zoom como “agora é um bom momento para conversar?” (Organização Mundial da Saúde, 2016). Em consonância com a prática baseada em respostas, as mães eram reconhecidas como capazes de tomar decisões sobre a própria segurança, incluindo a escolha de seguir com a entrevista a distância e de falar sobre a violência. Todas as mães recrutadas já haviam recorrido a serviços de apoio para si e para a criança em relação à violência; falar sobre a violência, portanto, não era novidade. As mães recebiam uma ligação no dia seguinte para verificar se precisavam de apoio adicional após a entrevista, como em outras pesquisas sobre violência filioparental (Oliver e Fenge, 2020). O estudo tem aprovação ética do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade de Wollongong.
A coleta de dados recorreu a entrevistas semiestruturadas (Serry e Liamputtong, 2017) e a discussões em grupo de coanálise voltadas à construção de sentido. As entrevistas serviram para coletar dados de pais e mães que vivenciaram ou vivenciam violência filioparental e de profissionais que já trabalharam com essa violência. As entrevistas narrativas semiestruturadas (Anderson e Kirkpatrick, 2016) com as mães ocorreram presencialmente, por telefone e pelo Zoom. As entrevistas com as mães duraram de 40 a 65 minutos, com média de 63 minutos. As entrevistas semiestruturadas com profissionais foram realizadas presencialmente, por telefone e pelo Zoom e duraram de 53 a 72 minutos, com média de 61 minutos. As entrevistas com mães e profissionais ocorreram entre dezembro de 2020 e outubro de 2021.
Foram oferecidas a mães e profissionais duas discussões em grupo de coanálise voltadas à construção de sentido, aqui chamadas de discussões de coanálise. Elas incorporaram a narração coletiva da investigação narrativa participativa (Kurtz, 2014), métodos de grupo focal interpretativo (Dodson et al., 2007) e entrevistas sequenciais (Lather, 2001). Essas discussões foram facilitadas pela pessoa que assina em primeiro lugar, com o objetivo de construir o sentido dos dados (Lather, 2001), interpretá-los mais a fundo (Dodson et al., 2007), aumentar a colaboração com as pessoas participantes (Lather, 2001) e apoiar os objetivos emancipatórios do projeto (Lather, 2001). Em consonância com a narração coletiva (Kurtz, 2014), as discussões de coanálise foram realizadas com pessoas que já haviam participado das entrevistas. Elas ocorreram em abril de 2022.
As entrevistas e as discussões de coanálise foram transcritas literalmente, e as transcrições foram conferidas com as gravações em áudio. Mães e profissionais receberam suas transcrições para validação pelas pessoas participantes, com perguntas adicionais (Lather, 2001). As respostas a essas perguntas vieram por e-mail e telefone, e esses contatos foram gravados e transcritos.
A análise contextual baseada em respostas (Richardson et al., 2017) e a intra-ação (Barad, 2007) foram usadas como conceitos sensibilizadores na análise dos dados. A análise contextual baseada em respostas inclui perguntas como “o que está acontecendo, e em que condições essas interações poderiam ocorrer?… Quem está fazendo o quê a quem? E como a vítima está respondendo?” (Richardson et al., 2017, p. 242). Embora este estudo evite a palavra vítima, essas perguntas sustentam a investigação das condições sociomateriais. Da mesma forma, a intra-ação (Barad, 2007) foi usada como conceito sensibilizador para chamar a atenção para os emaranhamentos, para compreender o que se passa entre as pessoas, em vez de concentrar a atenção analítica nos indivíduos. A intra-ação convida a olhar a violência filioparental em contexto e nas relações, e não como uma “coisa” em si.
A primeira etapa da análise foi mapear os percursos de busca de ajuda. A transcrição de cada mãe foi examinada para esquematizar os percursos, tendo como referência o processo em três etapas da busca de ajuda (Liang et al., 2005). Em seguida, fez-se uma análise temática reflexiva (Braun e Clarke, 2020). A pessoa que assina em primeiro lugar primeiro se familiarizou com os dados das mães e os codificou usando as palavras dos próprios textos (Hesse-Biber, 2010). O mesmo processo de codificação foi então feito com as transcrições das entrevistas com profissionais. Os dois conjuntos de códigos foram depois desenvolvidos em temas de forma conjunta. Esses temas preliminares e os percursos das mães foram discutidos com as demais pessoas que assinam o artigo e refinados. Essa análise inicial foi examinada quanto à coerência com as histórias das mães, em consonância com a metodologia da investigação narrativa (Wells, 2011). A análise preliminar, com perguntas adicionais, foi então apresentada às discussões de coanálise para interpretação adicional. Os temas e os percursos foram refinados e retrabalhados a partir das contribuições das discussões de coanálise. Ao longo de todo o processo, recorreu-se à reflexividade da equipe de pesquisa (Braun e Clarke, 2020; Wells, 2011).
Foram entrevistadas mães (n = 11) e profissionais (n = 19) de áreas rurais (n = 14) e metropolitanas (n = 16) da Austrália. Entre profissionais, 15 pessoas se identificaram como mulheres e 4 como homens. Embora o convite tenha sido feito a pais e mães, todas as pessoas participantes do lado parental se identificaram como mães; por isso, os percursos são explorados como percursos de mães. Os campos de atuação representados pelas pessoas profissionais incluem a falta de moradia, família e infância, saúde mental, clínica particular e serviços para mulheres. Suas formações incluem serviço social, psicologia, aconselhamento familiar e trabalho comunitário. Segundo as mães, as crianças que exerciam a violência eram meninos (n = 8) e meninas (n = 6), de oito a dezoito anos. Oito das mães relataram ter sofrido violência por parceiro íntimo de um ex-parceiro. Dentre as pessoas participantes, oito profissionais participaram de duas discussões de coanálise (n = 2; n = 6).
As mães relatam ter recorrido a entre dois e dez apoios informais e formais, com média de seis apoios por mãe. Os apoios formais foram os mais comuns: 54 apoios formais foram mencionados no conjunto das entrevistas com as mães. Nem toda a assistência se relacionava diretamente à violência filioparental, mas 36 apoios foram mencionados em relação a ela. Não se encontraram diferenças no número de apoios buscados entre mães de áreas rurais e metropolitanas.
Os resultados se dividem em duas seções. Primeiro, os cinco percursos de busca de ajuda para a violência filioparental encontrados neste estudo são apresentados (ver figura 1) e explicados. Depois, discutem-se os temas comuns aos percursos. Os temas são: (1) a busca de ajuda ocorre dentro de relações preexistentes; (2) os sentimentos de medo, vergonha e julgamento das mães estão emaranhados com a busca de ajuda; e (3) há condições que favorecem e que dificultam a busca de ajuda junto à família.

Profissionais indicam que a busca de ajuda para a violência filioparental é mais frequente entre mães do que entre pais homens. Na discussão de coanálise, as pessoas profissionais concordam que os percursos apresentados (ver figura 1) descrevem a forma como os pais chegam aos seus serviços por causa dessa violência. Profissionais de diferentes campos consideram alguns percursos mais representativos da própria experiência do que outros. Os percursos um, dois e cinco foram apontados na discussão de coanálise como os mais comuns. Os percursos não são tão lineares quanto o mapeamento sugere. Algumas mães percorrem vários percursos, e outras recebem encaminhamentos para serviços adicionais depois de atendidas por um serviço formal ao buscar ajuda, o que esses percursos não captam.
As três etapas da busca de ajuda (Liang et al., 2005) são discutidas para cada percurso. Primeiro, discute-se a etapa um, o reconhecimento do problema, comum a todos os percursos. Depois, cada percurso é analisado, incluindo as intra-ações dentro da família, as condições sociomateriais e os lugares onde a ajuda é buscada.
As mães indicam que reconhecer o problema (Liang et al., 2005) da violência filioparental é um processo em dois tempos. Primeiro, envolve explorar as opções e os recursos que elas têm em si mesmas. Depois, esgotados esses recursos internos e se a violência continua, o problema exige ajuda externa (formal e informal). Wendy, uma mãe, descreve esse reconhecimento em duas etapas: “Eu sentia que tinha ficado sem opções e sem recursos, e senti de verdade, por bastante tempo, que não sabia o que fazer.” Profissionais também indicam que os pais esgotam os próprios recursos internos antes de buscar ajuda e destacam que, às vezes, isso explica por que podem ser necessárias várias tentativas até que uma mãe aceite ajuda. Stephanie, profissional, conta como algumas mães esgotam as opções internas e fazem contato várias vezes antes de aceitar assistência: “Quando falei com ela no episódio mais recente… ela me disse que estava muito exausta e que normalmente recusa ajuda de qualquer pessoa e não precisa de apoio, mas disse que estava no limite e que não sabia mais o que fazer.”
Reconhecer o problema nos percursos um, dois, três e quatro envolve “a repetição dos comportamentos”, como descreve Linda, uma mãe. Essa repetição inclui também o agravamento das dificuldades com a violência. Wendy, uma mãe, descreveu esse agravamento: “chegou a um ponto em que a ameaça de violência estava meio que aumentando”. Para algumas mães, os comportamentos violentos reconhecidos como problema incluíam a violência que ocorria fora de casa. Stephanie, profissional, detalha essa escalada: “Então, tenho muitos pais que… me dizem que não conseguem sair com a criança… porque morrem de vergonha só de pensar que a criança possa ser fisicamente violenta com eles onde outras pessoas possam ver.”
O reconhecimento do problema no percurso cinco é diferente dos quatro primeiros. Nesse percurso, a violência filioparental não está separada de outras questões para as quais a mãe já busca ajuda. Experiências como a violência por parceiro íntimo e a falta de moradia fazem parte da busca de ajuda para a violência filioparental nesse percurso. Há aqui uma tendência a fazer um corte artificial na busca de ajuda, a separar a busca de ajuda para essa violência como um processo à parte. Nas histórias das mães, porém, essa busca de ajuda não é separada: é a intra-ação da violência filioparental com outras questões que torna possível que a busca de ajuda para essa violência aconteça junto com as outras questões. Na discussão de coanálise, as pessoas profissionais destacam que outras organizações podem desencadear o percurso cinco, como escolas que identificam comportamentos problemáticos em sala de aula, processo no qual se identifica a violência da criança em casa.
O percurso um enquadra a busca de ajuda como uma decisão da mãe. Nesse percurso, é a parentalidade que deve dar conta da violência filioparental, o que implica que as mães se culpam pela violência e se consideram responsáveis por resolvê-la. Clare, uma mãe, explica essa responsabilidade: “bom, eu estava convencida de que era a pior mãe do mundo porque não consigo controlar meus filhos. Não consigo mudar o comportamento deles.” Vê-se aqui a agência das mães emaranhada com as ações dos filhos: a mãe assume a responsabilidade pelas ações da criança e, por consequência, a responsabilidade de mudá-las.
Nesse percurso, as mães escolheram apoios informais e formais, entre eles amizades, irmãos e irmãs da mãe, serviços de família e órgãos públicos de proteção à infância. As mães relatam que os apoios informais as conectaram a apoios formais. Donna, uma mãe, conta como uma amiga a conectou a um serviço: “o negócio é que ela entende como eu me sinto e o que eu penso, e ela é muito rápida para tentar conseguir… ela trabalhava no [órgão de proteção à infância], então é muito rápida para tentar trazer serviços, tipo foi ela que providenciou a Susan [profissional] e tudo isso.”
O percurso dois situa a violência filioparental como uma questão de patologia, com um dualismo entre a criança ser responsável pela violência e a patologia ser responsável. Nesse percurso, o meio de lidar com a violência filioparental é um diagnóstico. O diagnóstico não é apresentado como uma etapa: ele explica a violência, e isso em si resolve o problema. Rachael, do campo da saúde mental, explica esse dualismo: “é, muita projeção do tipo: ‘Será que essa criança vai virar um monstro? Tem alguma coisa profundamente errada com essa criança para ela fazer isso comigo? Por que nenhuma empatia, nenhuma bússola moral?’, e não muita capacidade de reconhecer a dinâmica que acontece entre os dois.” Essa citação representativa mostra que a violência não é vista de forma relacional, mas como responsabilidade da patologia.
Todos os apoios buscados nesse percurso são da área médica. Donna, uma mãe, afirma: “Então é por isso que a gente está, sabe, a gente está tentando fazer todas as avaliações para ver o que realmente está acontecendo.” Essa citação mostra que os serviços desse percurso são escolhidos pela possibilidade de avaliações que levem a um diagnóstico, que então vai resolver a violência.
O percurso três é menos representado nas entrevistas com as mães do que os dois primeiros. Nas discussões de coanálise, as pessoas profissionais também indicam que poucos pais chegam aos seus serviços por esse percurso. Esse percurso enquadra a violência filioparental como entrelaçada na relação mãe-criança, e mãe e criança fazem parte da resposta à violência. Uma mãe, Clare, apresenta esse percurso como aquele em que a ajuda que ela recebe vai, por sua vez, ajudar os filhos: “me ajudar a ajudá-los”. Wendy, outra mãe, conta que formulou deliberadamente a busca de ajuda como “a gente” para não pôr a culpa no filho: “A gente pode conseguir alguma ajuda? A gente, eu nunca disse: ‘Você, você é o problema e precisa ser consertado’, nem nada disso… porque sei que isso nunca vai funcionar.” Os apoios nesse percurso incluem os formais e os informais, a saber, amizades e serviços de aconselhamento.
O percurso quatro é usado quando é necessária ajuda imediata durante um episódio de violência. Todos os percursos são acionados após o acúmulo de comportamentos, mas o percurso quatro exige ajuda durante o episódio de violência. É um percurso que envolve risco imediato para a segurança da mãe. A forma como as relações familiares são enquadradas nesse percurso situa a mãe como alguém que precisa estar no controle. Por esse percurso, as mães indicam que os apoios são necessários como “reforço” de seu papel parental, o que posiciona as mães como agentes da resposta à violência.
Nas discussões de coanálise, as pessoas profissionais apontam que os pais que chegam pelo percurso quatro tendem a ter mais relutância ou obstáculos adicionais para acessar ajuda. Profissionais também atribuem o risco maior desse percurso, em parte, ao tamanho físico maior da criança. Karen, profissional, fala desse tamanho maior da criança: “Eu ia dizer que muitas vezes, quando eles também ficaram maiores que os pais, sempre houve violência, mesmo quando pequenos, e é aí que fica assustador.” Rachel, também profissional, comenta como o tamanho físico da criança aumenta o risco:
É, isso mesmo. Eles estão ficando assustadores e o pai já não consegue contê-los fisicamente porque agora eles assustam até o pai, e já faz tempo que assustam a mãe, mas agora assustam o pai, o pessoal da escola e outras pessoas.
Essa citação mostra como o tamanho maior da criança aumenta a percepção de risco à segurança dos pais, o que leva a buscar ajuda por esse percurso. O risco à segurança está aqui emaranhado com a condição sociomaterial de uma criança maior.
Nesse percurso, buscam-se apoios informais como irmãos e irmãs da mãe e amizades. Laura, uma mãe, afirma: “Eu me sentia segura por poder falar com ele sobre isso…”, ao falar da segurança que sente ao ligar para os irmãos pedindo ajuda durante um episódio de violência.
O percurso quatro é o único que envolve o sistema de justiça criminal, com a polícia chamada em momentos de crise. Wendy, uma mãe, fala dessa opção de chamar a polícia:
Eu precisava mesmo que alguém me ajudasse porque eu era uma mulher sozinha e meu filho estava fora de controle e eu tinha medo dele. Eu precisava daquela ajuda, mas não tinha ninguém a quem recorrer. A polícia era o último recurso, quando você sabe… quando você é mulher e está com tanto medo e não tem mais nada que possa fazer. Bom, eu sabia que existia a polícia.
As intra-ações familiares desse percurso situam a mãe como alguém que precisa estar no controle, como mostra a citação de Wendy. As intra-ações familiares também entram em jogo quando a polícia é chamada por membros da comunidade que testemunham a violência. Stephanie, profissional, descreve como uma mãe percebeu o fato de a vizinhança ter chamado a polícia:
… alguém da vizinhança chamou a polícia. E a mãe está fora de si porque está com muita vergonha. Ela fica: “Ah, em vez de se oferecer para me ajudar com essa criança que eu não consigo controlar, alguém chamou a polícia como se eu estivesse batendo nela, como se eu estivesse fazendo algo errado”… Então, ela levou… a intervenção da polícia a mal e ficou muito na defensiva.
Nesse relato, a mãe não vê a ligação da vizinhança para a polícia como apoio; ela a sente como sinal de que a vizinhança julga sua parentalidade ineficaz.
O percurso cinco é um percurso de busca de ajuda emaranhado. A busca de ajuda para a violência filioparental não está separada da busca de ajuda para outras questões. Às vezes, os pais buscam ajuda para outras questões, como violência por parceiro íntimo ou falta de moradia, e a questão da violência filioparental surge depois que se estabelecem confiança e vínculo com a pessoa profissional. Outros contextos em que essa questão pode surgir, nesse percurso, são a recusa escolar, os problemas de saúde mental ou, como indica Karen, profissional, “famílias ameaçadas de despejo por causa de danos ao imóvel ou reclamações de barulho…” decorrentes das (atu)ações violentas de uma criança.
Nesse percurso, a violência da criança está muitas vezes ligada à violência por parceiro íntimo sofrida pela mãe por parte de um parceiro homem. Kathryn conta que queria responder à violência do filho de um modo diferente do que fizera diante da violência do parceiro, e foi por isso que buscou ajuda: “Eu simplesmente não conseguia conceber fazer o mesmo com o meu filho.” Esse emaranhamento com a experiência da mãe de violência por parceiro íntimo também foi explorado nas discussões de coanálise, em que Richard, profissional, explica:
É, uma das coisas mais difíceis de testemunhar é a mãe chorando, que diz: “Lá vamos nós de novo. Aguentei toda essa porcaria do pai deles, e agora meu filho está fazendo o mesmo”, e esse é o ciclo intergeracional, e o desamparo e a desesperança que elas expressam são bem tocantes, bem pesados.
Esse percurso é o único em que são profissionais que identificam a violência filioparental. Profissionais podem testemunhar a violência, por exemplo durante atendimentos. Leanne, uma mãe, fala das (atu)ações violentas da filha enquanto moravam num abrigo e de como a profissional presenciou e interveio: “e na verdade a Erica [profissional] estava lá e conversou com a Gabrielle e acabou fazendo ela sair, tudo com calma e tranquilidade, isso ajudou muito.”
Os resultados sobre o papel das escolas na identificação da violência filioparental foram divergentes. Algumas pessoas profissionais sentiam que a escola estava ausente desse percurso, como explica Richard, profissional:
Então, praticamente toda criança frequenta, em algum momento, uma escola. E com certeza, na minha experiência, é muitas vezes lá que os comportamentos violentos são vistos pela primeira vez, ou começam a ser vistos, o que depois é comunicado à família, e isso pode levar os pais a começar a se fazer essas perguntas e a buscar ajuda em algum lugar.
Outras pessoas profissionais, como Rachael, sentem, ao contrário, que a violência filioparental fica restrita à casa: “Acho que muitas vezes esses são comportamentos que acontecem só em casa, e que na escola seriam comportamentos totalmente diferentes.” Nenhuma mãe relata a escola como um percurso de ajuda para a violência filioparental.
Esse percurso inclui apenas apoios formais. As famílias podem continuar trabalhando com serviços já acionados por outras questões ou, em alguns casos, foram encaminhadas a novos serviços para responder à violência filioparental.
Esta seção explora os temas comuns aos cinco percursos de busca de ajuda. Esses temas mostram condições sociomateriais que emergem com e na busca de ajuda para a violência filioparental.
Uma relação preexistente com a pessoa procurada é intrínseca a todos os percursos de busca de ajuda deste estudo. Amy, uma mãe, afirma: “Liguei para a Susan [de um serviço para famílias e jovens] porque eu… eu a conheço.” Toda a ajuda foi buscada junto a pessoas com quem algum membro da família já tinha tido contato ou mantinha uma relação. Laura, uma mãe, ao percorrer o percurso dois em busca de um diagnóstico que explicasse a violência do filho, evidencia o valor da relação preexistente para justificar a escolha do clínico geral:
Então, eu sempre… meu médico é incrível. Ele tem uma ótima conexão com o Matthew. É o médico dele desde que ele nasceu. Ele me diz que, se o Matthew precisar vir conversar, só para dar uma checada, ele é mais do que bem-vindo, é só marcar uma consulta e vir ter uma conversa geral sobre as coisas. Mas ele vê o comportamento dele às vezes, sabe como às vezes é difícil para mim. Então é um médico que apoia muito, o que é bom.
Profissionais identificam a noção de busca de ajuda tardia. April, profissional, afirma:
Então, eu sempre acho que, quando as pessoas chegam até mim, a situação está bem intensa e bem ruim. Tipo, já passaram por todos os outros lugares, e quando me encontram, ou encontram outros terapeutas, está completa e totalmente fora de controle… Então, em geral, estão aguentando isso há muito tempo.
Essa citação é representativa de profissionais que sentem que as famílias chegam a seus serviços depois que a violência já está enraizada. A constatação de que a busca de ajuda ocorre dentro de relações preexistentes esclarece essa ideia de busca tardia. Primeiro, as mães falaram das opções internas que elas mesmas usaram para tentar lidar com a violência antes de buscar apoios externos. Assim, embora pareça que a ajuda é buscada tarde, na verdade elas vinham tentando ativamente resolver a questão por conta própria. Segundo, os pais podem ter buscado ajuda junto a outros apoios dentro de suas relações preexistentes. Essas relações podem tê-los conectado ou encaminhado às pessoas profissionais que participaram da pesquisa, o que faz essas pessoas sentirem que a ajuda é buscada tarde.
A pesquisa também identifica obstáculos à busca de ajuda fora das relações preexistentes. O uso da tecnologia para procurar serviços limita as possibilidades de busca de ajuda para a violência filioparental. Profissionais indicam que os pais podem não saber quais palavras-chave usar ao procurar serviços na internet. Rachael, profissional da saúde mental, explica outro problema da busca on-line: “a quantidade de profissionais de psicologia e de serviços que aparece é esmagadora, são números demais e as pessoas não sabem aonde ir nem qual é o certo”. April, profissional numa área rural, comenta:
… é tanto uma questão de estar numa área rural remota, que ou as pessoas acham que o serviço não existe, ou quem é especialista em ajudar a desembaraçar isso tem tanta demanda que a espera é tão longa que, quando chegam até nós, está bem difícil. Ninguém jamais me acharia pelo Google numa cidadezinha rural remota, por causa do nosso anonimato…
Essa citação é sintomática das complexidades que as pessoas profissionais destacam no uso da busca on-line para encontrar serviços para a violência filioparental. As mães não relatam usar a tecnologia para encontrar serviços; em vez disso, apoiam-se nas relações preexistentes para a maioria dos serviços dos percursos.
Os sentimentos de medo e vergonha das mães estão entrelaçados com a decisão de revelar a violência do filho ou da filha. Louise, uma mãe, conta que, ao revelar a violência filioparental a uma pessoa profissional, pediu: “… por favor, não denuncie isso. Por favor, não escreva isso nas suas anotações clínicas.” Aqui, o medo é uma preocupação com as consequências para a criança que exerce a violência e limita a capacidade da mãe de falar sobre a violência que sofre. Esse sentimento de medo também é relatado por profissionais. Karen, profissional, explica alguns medos que mães lhe confiaram, como “Não quero que a criança arrume problema”, ou “iam me achar um lixo se eu dedurasse a criança”, e “a família vai ficar com raiva de mim”. Rachael, profissional da saúde mental, também disse que o medo das repercussões inclui o que aconteceria se as mães revelassem a violência: “… muitas vezes [a mãe] fica nervosa de contar para qualquer pessoa porque não sabe o que vai acontecer.” Rachael desenvolve, falando dos sentimentos de medo e vergonha e indicando que todas as famílias com que trabalhou vivem esse sentimento:
Acho que nunca conheci uma única família em que não houvesse medo e vergonha, quando há violência filioparental… Em geral há, no início, uma atitude defensiva muito forte e, às vezes, agressividade aberta porque outros serviços estão sugerindo que existe um problema. Mas por baixo disso, e quando você passa a conhecer essas famílias, há muitas lágrimas, muito medo e muita vergonha, e isso funciona mesmo como obstáculo à busca de ajuda, e os pais muitas vezes têm muito medo do que vai acontecer com eles como pais e do que vai acontecer com a criança.
As mães percebem que serão julgadas, e já foram, ao revelar a violência filioparental, o que limita a capacidade de revelá-la. Essa preocupação é agravada pela condição sociomaterial de ser mãe solo. Laura, uma mãe, explica: “Acho que, como mãe solo, sinto que as pessoas vão me julgar e dizer: bom, o comportamento dele é por sua causa, o que provavelmente é bobagem pensar, mas é assim que eu vejo.” Essa citação é representativa do julgamento que as mães sentem e que limita a possibilidade de buscar ajuda. O medo e o julgamento se intensificam nas áreas rurais, como explica Louise, uma mãe: “não tinham… nenhuma política rigorosa de privacidade para uma cidade pequena, nem de segurança”, o que limita as opções de busca de ajuda. Tanya, profissional que atua numa comunidade pequena, fala dessa mesma preocupação na discussão de coanálise:
Quando há comportamento violento e tudo mais, há quase um elemento de segredo que eu vejo, então uma parte muito grande de “por que a criança está agindo assim”, mas isso nem sempre passaria por uma consulta de psicologia ou de pediatria, seria só conversar mesmo com amizades e família, por causa do estigma associado a isso.
A condição sociomaterial das áreas rurais e das comunidades pequenas coproduz aqui limites à busca de ajuda para a violência filioparental. Os apoios da rede de uma pessoa ficam limitados por essa comunidade pequena. Os elementos materiais do contexto sociomaterial, como os apoios formais, limitam os meios pelos quais as mães podem buscar assistência para a violência filioparental.
As entrevistas com as mães abordaram o que pesa na escolha de revelar a violência filioparental a outros membros da família, como os próprios pais e irmãos. Mães como Kathryn sentem que os pais não vão entender seus problemas ou não vão saber como reagir: “Sinto que, se eu falasse com minha mãe e meu pai sobre isso, o que eu de qualquer forma não faria, eles simplesmente não saberiam lidar.” Outras mães falaram dos possíveis problemas que isso criaria na relação dos pais delas com a criança, como explica Linda: “Não conto nada para minha mãe porque depois ela desconta na Morgan.” Karen, profissional, falou de uma dificuldade que os pais podem enfrentar ao revelar a violência a outros membros da família: “Mas percebi com bastante frequência que membros da família podem… meio que reforçar o status quo nas dinâmicas familiares. Então, às vezes eles minam a mãe culpando a mãe também, como um avô ou uma avó.” A percepção e a experiência de uma resposta social negativa da família das mães estão aqui emaranhadas com a busca de ajuda. Essa resposta social limita as opções consideradas e interfere na experiência de buscar ajuda.
Mães como Laura indicam que a família é um bom apoio diante da violência filioparental e apontam a proximidade familiar como razão: “Ela é uma bênção, a minha mãe. Eu estaria perdida sem ela. E a gente [irmãos] cuida uns dos outros, foi assim que a gente foi criado.” As condições sociomateriais da família nesse exemplo, o sentimento de proximidade, coproduzem a possibilidade de buscar ajuda num contexto familiar. A percepção de uma resposta social positiva torna possível pedir ajuda para a violência filioparental.
Uma ausência notável nos percursos de busca de ajuda é a opção de recorrer ao pai da criança. Muitas das mães (n = 8) sofreram violência por parceiro íntimo no passado, em parte pelo próprio pai das crianças. Os efeitos da ausência do pai se amplificam nas experiências de violência das mães: essa ausência continua a influenciar a relação da mãe com a criança e suas percepções de gênero e de segurança. Richard, profissional, oferece na discussão de coanálise uma citação sintomática das visões profissionais sobre o pai ausente: “Eu pergunto: ‘Onde está o pai em tudo isso?’ Se estamos olhando para questões de apego e para os primeiros 2.000 dias: ‘Onde está o pai, ou o outro genitor, aliás?’ É preciso dois para dançar o tango e fazer um bebê: onde estão os dois pais, ou os modelos adultos?” A condição sociomaterial de pais homens que usam violência torna difícil para a mãe recorrer ao pai como apoio diante da violência filioparental. Nessa perspectiva, a maternidade solo limita as relações preexistentes nas quais buscar apoio. Embora outros homens da família possam estar disponíveis, apenas três mães relatam ter recorrido a homens para pedir ajuda: um irmão, num caso, e o parceiro atual, em dois.
Este estudo traz contribuições inéditas ao campo da violência filioparental. Primeiro, identifica as condições sociomateriais e as intra-ações ligadas à busca de ajuda para essa violência, incluindo os contextos da busca de ajuda e a questão de a quais relações familiares cabe responder à violência. Segundo, uma contribuição deste estudo é mostrar o papel da busca de ajuda para outras questões, como a falta de moradia, na identificação da violência filioparental. Esta seção resume os novos conhecimentos do estudo à luz das três etapas da busca de ajuda (Liang et al., 2005). A discussão incorpora a pesquisa sobre violência filioparental e sobre busca de ajuda no campo vizinho da violência por parceiro íntimo. Seguem-se as considerações metodológicas, as limitações e as implicações do estudo.
O “limiar” de violência das mães, isto é, o reconhecimento de que as (atu)ações violentas de uma criança são tais que exigem ajuda externa, é um desafio na violência filioparental. Existe um nível aceito de violência de adolescentes contra os pais, como afirma Holt (2013) ao definir a violência filioparental: “o abuso contra os pais vai além das experiências cotidianas de crianças que ‘partem para cima’ dos pais, o que pode acontecer por todo tipo de razões médicas, desenvolvimentais e situacionais e, portanto, fica fora dos parâmetros do ‘comportamento abusivo’” (p. 2). Essa distinção é complicada e implica uma aceitação social da violência de crianças como parte “normal” do desenvolvimento. O ponto em que uma mãe percebe as (atu)ações da criança como violentas, e não como parte da “experiência cotidiana”, ainda não foi identificado. No campo vizinho da violência por parceiro íntimo, mulheres descreveram o limiar da violência como o ponto do “basta” (Randell et al., 2011), mas não há consenso sobre esse limiar na violência filioparental. Este estudo concorda com Holt (2013): a falta de compreensão do “limiar” da violência impede de reconhecer o problema e de saber quando buscar ajuda.
A literatura identificou que mães vivenciam tanto a violência por parceiro íntimo quanto a violência filioparental, e uma revisão recente chamou isso de “natureza intergeracional da violência doméstica” (Peck et al., 2021b, p. 7). Ao usar o referencial conceitual da intra-ação (Barad, 2007), este estudo amplia as conexões entre essas duas formas de violência. A intra-ação transforma o vínculo “causal” entre sofrer ou presenciar violência por parceiro íntimo em casa e a violência filioparental num emaranhamento. Esse emaranhamento situa a experiência da violência por parceiro íntimo não apenas como um fator correlacionado, mas como uma condição que torna possível o uso da violência filioparental. A agência da criança ao exercer violência está ligada à sua experiência da violência por parceiro íntimo. Isso não anula a responsabilidade; Barad (2007) afirma, ao contrário, que uma lente intra-ativa cria mais responsabilidade e prestação de contas. Além disso, para algumas crianças, a exposição à violência por parceiro íntimo é uma condição que torna menos possíveis relações respeitosas e não violentas com a mãe. Isso não significa que toda violência filioparental esteja ligada à violência por parceiro íntimo, mas que, para algumas crianças, a exposição a ela é uma condição que torna possíveis as (atu)ações de violência.
A busca de ajuda das mães que haviam sofrido violência por parceiro íntimo estava por vezes emaranhada, impossível de separar da experiência da violência da criança. Esse emaranhamento coproduziu as condições de possibilidade e de impossibilidade da busca de ajuda, ao mesmo tempo limitando e permitindo o acesso das mães a apoios para a violência filioparental. As experiências das duas formas de violência se materializaram juntas na busca de ajuda. Holt (2013) identificou que mães que sofreram violência por parceiro íntimo podem ser mais vulneráveis à violência filioparental. Este estudo amplia essa afirmação: a experiência da violência por parceiro íntimo pode oferecer uma linguagem para enquadrar a violência de uma criança, ao mesmo tempo que esse emaranhamento produz outros caminhos de busca de ajuda.
Este estudo constatou, como mostra o percurso cinco, que a violência filioparental nem sempre é a queixa apresentada. Da mesma forma, Fitz-Gibbon et al. (2021) afirmam que essa violência pode não ser o problema que motiva a procura. Complicações no acesso à ajuda, como a escassez de serviços específicos de intervenção precoce para a violência filioparental, foram apontadas como fatores que contribuem para sua não notificação (Fitz-Gibbon et al., 2021). Neste estudo, a violência filioparental surge dentro das condições sociomateriais de outras queixas apresentadas. As condições sociomateriais de poucos serviços específicos, assim como o desconhecimento do “limiar” da violência de crianças, limitam a capacidade das mães de buscar ajuda para essa violência.
O percurso cinco capta uma condição sociomaterial, morar num abrigo, que torna possível a experiência de busca de ajuda para a violência filioparental. Morar num abrigo permite que profissionais presenciem as (atu)ações violentas de uma criança contra a mãe. A “vigilância parental” é um fenômeno vivido nos abrigos: mães que deixam uma relação violenta e moram temporariamente num abrigo relatam escrutínio e regulação aplicados à sua parentalidade (Fauci e Goodman, 2020, p. 242). Um estudo com mães que moravam em abrigos para vítimas de violência doméstica nos Estados Unidos constatou que elas sentiam sua autonomia restringida e que a equipe do abrigo se envolvia na parentalidade (Fauci e Goodman, 2020). No presente estudo, ao contrário de Fauci e Goodman (2020), a condição sociomaterial de morar num abrigo tornou possível que uma mãe obtivesse apoio diante das (atu)ações violentas da criança.
Este estudo constatou que as mães relataram sentimentos de medo, vergonha e julgamento ligados às experiências e às percepções das respostas sociais na busca de ajuda para a violência filioparental. Esse resultado é corroborado pela pesquisa sobre essa violência (por exemplo, Coogan, 2014). No entanto, ao aplicar uma lente intra-ativa e baseada em respostas, este estudo transforma esses fatores que dificultam a busca de ajuda em emaranhamentos que coemergem com a experiência da violência filioparental. Esses sentimentos, associados às respostas sociais percebidas e reais, são inseparáveis da experiência dessa violência e estão implicados nos processos de busca de ajuda. Isso limita os lugares onde os pais podem buscar ajuda. Da mesma forma, os sentimentos vividos pelas mães podem estar limitando a responsabilidade da criança de mudar suas (atu)ações. Analisar os sentimentos vividos à luz da intra-ação desloca o olhar: eles deixam de ser vistos como obstáculos e passam a ser vistos como coprodutores dos limites da busca de ajuda. A agência de uma mãe para buscar ajuda é limitada por esses sentimentos e está estreitamente ligada à percepção de uma resposta social de julgamento. Situar os sentimentos das mães numa lente baseada em respostas evidencia as condições que tornam possível que as mães sintam culpa e vergonha pela violência da criança (por exemplo, Williams et al., 2017) e aquelas que pouco fazem para preservar a dignidade ou propiciar a recuperação das famílias (Richardson et al., 2017).
As intra-ações dentro da família estão ligadas à decisão de buscar ajuda. Os percursos um e quatro atribuíam aos pais a responsabilidade de lidar com a violência. O percurso dois indicava uma responsabilidade da violência dividida entre a criança e uma patologia. A noção de culpa, atribuída à criança ou aos pais, e sua conexão com a busca de ajuda foram pouco investigadas (ver Holt, 2013). Uma lente intra-ativa, porém, vê essas relações familiares como portadoras de agências emaranhadas. Essas agências emaranhadas incluem a responsabilidade de lidar com a violência e influenciaram os lugares onde as mães buscaram ajuda. Também está implicada nesse emaranhamento a atribuição de quanto a mãe e a criança eram “culpáveis” (Holt, 2013). Essas intra-ações familiares são condições sociais que tornam possíveis alguns percursos de busca de ajuda e impossíveis outros.
A pesquisa sobre busca de ajuda diante da violência por parceiro íntimo indica que os apoios informais são acionados antes dos serviços formais; um estudo constatou que 86,2% das mães buscavam ajuda com a família, com amizades ou com ambos (Meyer, 2011). O presente estudo está alinhado com esse resultado e com Messiah e Johnson (2017), que indicam o mesmo para a violência filioparental. Este estudo amplia esse resultado ao afirmar que as mães que buscam ajuda pessoal e profissional para a violência filioparental o fazem dentro de relações preexistentes.
A condição sociomaterial de uma relação preexistente cria a possibilidade da busca de ajuda. Ampliando o levantamento da Parentline (2010) (citado em Holt, 2013), que apontava clínicos gerais e escolas como as principais fontes de apoio procuradas pelos pais, este estudo constatou que a condição de uma relação preexistente é fundamental para a própria possibilidade de buscar ajuda. Neste estudo, porém, as mães não apontaram a escola como uma das relações preexistentes a que recorrer para obter ajuda diante da violência filioparental. A familiaridade e a confiança no recurso ao apoio formal (Holt, 2013) podem ser fatores adicionais necessários dentro da relação preexistente. O isolamento dos pais causado pela violência filioparental, assim como experiências passadas ou atuais de violência por parceiro íntimo, pode restringir os lugares onde os pais escolhem buscar ajuda. Esta pesquisa constatou que as dificuldades de disponibilidade de serviços e de procedimentos de confidencialidade se agravam nas áreas rurais, o que limita as relações preexistentes às quais recorrer. Já se havia constatado que a localização rural inibe a busca de ajuda para a violência filioparental (Fitz-Gibbon et al., 2021); este estudo amplia essa constatação ao indicar que a condição sociomaterial da localização rural restringe essa busca de ajuda.
Meyer (2011) constatou que algumas mães, ao buscar ajuda diante da violência por parceiro íntimo, podem optar por “ficar em silêncio” (p. 441) para proteger os filhos, por medo da entrada do sistema de proteção à infância. Da mesma forma, o silêncio das mães é documentado na violência filioparental (por exemplo, Burck et al., 2019). O presente estudo constatou que o medo de repercussões para a criança, inclusive as ligadas ao sistema de proteção à infância, restringia a decisão de revelar a violência filioparental e, assim, silenciava as mães.
A relutância em acionar a polícia diante da violência filioparental foi observada em outras pesquisas (por exemplo, Fitz-Gibbon et al., 2021). Em estudos anteriores, essa relutância foi atribuída ao medo de criminalizar a criança (Douglas e Walsh, 2018), ao receio de que a situação não seja levada a sério (Edenborough et al., 2008) e ao fato de a polícia não ser um meio dissuasório eficaz (Holt, 2011). Este estudo parte desses resultados para considerar as relações dentro da família na busca de ajuda e as intra-ações quando se aciona a polícia. As intra-ações das relações familiares influenciaram os percursos seguidos pelas mães para buscar ajuda diante da violência. O presente estudo amplia estudos anteriores ao constatar que uma condição para acionar a polícia é que a mãe se perceba como responsável pelas ações da criança. Da mesma forma, quando as mães atrelavam a agência da violência da criança a uma patologia, criava-se uma condição de impossibilidade de acionar a polícia.
A figura paterna esteve ausente dos percursos de busca de ajuda neste estudo. Embora o estudo seja limitado pelo fato de só mães terem sido entrevistadas, as complicações de segurança de criar filhos com um pai que usa violência contra a mãe estão presentes neste estudo. O conflito entre a necessidade percebida de que ambos os pais desempenhem um papel igual na criação dos filhos e a necessidade de proteger as crianças de danos (Simmons, 2018) está presente aqui nas histórias dessas mães e também é indicado nas entrevistas com profissionais. O isolamento das mães como condição sociomaterial da violência por parceiro íntimo (Barnett et al., 2011), como quando mulheres deixam sua comunidade para escapar da violência, é observado nesta pesquisa. Esse isolamento limita as opções de busca de ajuda dentro de relações preexistentes, inclusive junto ao pai da criança.
Um ponto forte deste estudo é seu referencial teórico e sua metodologia. Em especial, a inclusão das discussões de coanálise trouxe profundidade à análise. O referencial conceitual da pesquisa, que recorre à prática baseada em respostas e à intra-ação, oferece uma estrutura para evidenciar novos conhecimentos. Alinhar-se a Barad (2007), que convida a não dar ênfase demais às “palavras”, usando abordagens baseadas em respostas com a investigação narrativa, favorece a consideração das condições sociomateriais. Tratar como condições o que antes era apresentado como fatores (Webb, 2021) situa essas condições como emaranhadas com a agência e o poder. Esse posicionamento traz novas compreensões sobre a busca de ajuda para a violência filioparental. Este artigo contribui para preencher a lacuna das “vozes silenciadas das mães” na pesquisa (por exemplo, Burck et al., 2019). A forma de recrutamento deste estudo responde a essa lacuna, e mães de populações de difícil acesso foram recrutadas para que suas vozes estivessem presentes.
Os resultados deste estudo devem ser considerados à luz de suas limitações. Primeiro, o tamanho da amostra foi modesto, e a covid-19 afetou o recrutamento. Segundo, embora o estudo seja limitado pela sobreposição entre pessoas participantes, já que profissionais ajudaram a recrutar as mães e essas mães, portanto, haviam frequentado seus serviços, houve diversidade de experiências de prática na pesquisa, e nem todas as pessoas profissionais conectaram mães à pesquisa. Terceiro, como o estudo incluiu coleta de dados a distância, por telefone e Zoom, as mães podem ter restringido seus relatos de violência pela presença de outros membros da família. Por fim, o estudo é limitado pelo fato de os percursos de busca de ajuda não terem sido mapeados no tempo.
Os resultados deste estudo sugerem um conjunto de implicações para a prática, a pesquisa e a formação. Primeiro, profissionais devem refletir sobre a forma como enquadram a violência em relação às relações familiares e à responsabilidade pela violência. Deve-se considerar também a forma como os pais enquadram a violência, tanto em relação às relações familiares quanto à responsabilidade. Profissionais devem considerar que a violência filioparental pode surgir no contexto de outras questões, pode não ser a queixa apresentada quando as famílias buscam ajuda, e que pode ser necessário tempo para construir uma relação antes que essa violência seja revelada. É preciso atenção às intra-ações com e na busca de ajuda para a violência filioparental. O risco maior de violência presente num percurso de busca de ajuda que passa pela polícia precisa ser levado em conta. Profissionais devem considerar as condições sociomateriais que tornam possível e impossível a busca de ajuda dos pais, especialmente: a localização rural ou uma comunidade pequena; a experiência de violência por parceiro íntimo; as percepções negativas das respostas sociais; e a necessidade de que a busca de ajuda ocorra dentro de uma relação preexistente. Profissionais devem levar em conta a vigilância adicional nos abrigos. Devem reconhecer que fazem parte da rede preexistente de uma mãe quando lhes pedem ajuda e que, mesmo sem condições de oferecer uma resposta dentro da capacidade do serviço, o apoio oferecido nesse momento pode favorecer ou dificultar a continuidade da busca de ajuda.
Segundo, são necessárias pesquisas para identificar o papel que as escolas podem ter na identificação da violência filioparental e na resposta a ela. São necessárias mais pesquisas para explorar a conexão entre a violência filioparental e outros comportamentos violentos. A lacuna sobre o “limiar” da violência identificada neste estudo exige mais pesquisas. As implicações da identificação da violência filioparental por profissionais merecem exame, assim como se, e como, isso influencia a aceitação e a disposição dos pais de se engajar em respostas a essa violência.
Terceiro, deve-se oferecer formação para alertar profissionais sobre as percepções e experiências de julgamento emaranhadas na busca de ajuda para a violência filioparental. Deve-se também oferecer formação para que profissionais construam relações no contexto dessa busca de ajuda. São necessárias mais pesquisas e formação para investigar respostas adequadas à violência filioparental, o que, por sua vez, pode aliviar os sentimentos de vergonha, medo e julgamento que limitam a busca de ajuda das mães.
Este estudo sugere que as mães percorrem cinco percursos ao buscar ajuda para a violência filioparental. A análise aponta a relevância das relações preexistentes na busca de ajuda para essa violência. O estudo também esclarece o emaranhamento da violência filioparental com outras questões, como a violência por parceiro íntimo, a falta de moradia e a recusa escolar, além das preocupações com o medo e o julgamento ao buscar ajuda. A incorporação de uma lente baseada em respostas e da “intra-ação” abre espaço, neste estudo, para novas compreensões. São necessárias mais pesquisas para identificar o “limiar” da busca de ajuda na violência filioparental, bem como a forma como profissionais enquadram suas respostas quando os pais as procuram em busca de ajuda para essa violência.
Complexe Systémique: a reter
O interesse desta investigação está em deslocar a pergunta: em vez de perguntar por que as mães demoram a falar da violência do filho ou da filha, ela olha por onde a ajuda se torna possível. A resposta é antes de tudo relacional: as pessoas se abrem com quem já conhecem (uma amiga, uma irmã, o médico da família), e cada profissional a quem se recorre faz parte dessa rede, queira ou não. A forma como a família lê a violência também define o percurso: sentir-se mau pai ou má mãe leva ao apoio parental, buscar uma doença leva ao diagnóstico, manter o controle leva à polícia. Para a clínica sistêmica, ficam duas lições: não isolar a violência filioparental da violência por parceiro íntimo, da moradia ou da escola, com as quais ela se emaranha; e pensar a vergonha e o medo do julgamento como produzidos nas relações e, portanto, modificáveis pela qualidade do acolhimento. Os limites estão numa amostra australiana pequena, sem nenhum pai. Para ler junto com o artigo sobre a violência filioparental como fenômeno emergente e com a entrevista com Allan Wade sobre a prática baseada em respostas.
Notas do original
Financiamento. Publicação em acesso aberto viabilizada e organizada pelo CAUL (Council of Australian University Librarians) e suas instituições-membro. A pessoa que assina em primeiro lugar recebe uma bolsa do Research Training Program do governo australiano.
Conflitos de interesse. Nenhum.
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Tradução não oficial em português de “Eu não ia desistir, mas de um jeito ou de outro ia encontrar uma saída pelas crianças”: uma investigação narrativa, com mães e profissionais, sobre a busca de ajuda de mães que vivenciam violência filioparental, de Chye Toole-Anstey, Michelle Townsend e Lynne Keevers, Journal of Family Violence, vol. 39, no 4 (2024), doi: 10.1007/s10896-023-00511-z, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““I Wasn’t Gonna Quit, but by Hook or by Crook I was Gonna Find a Way Through for the Kids”: A Narrative Inquiry, of Mothers and Practitioners, Exploring the Help-seeking of Mothers’ Experiencing Child to Parent Violence”, publicado em Journal of Family Violence (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Toole-Anstey, C., Townsend, M., et Keevers, L. (2024). “Eu não ia desistir, mas de um jeito ou de outro ia encontrar uma saída pelas crianças”: uma investigação narrativa, com mães e profissionais, sobre a busca de ajuda de mães que vivenciam violência filioparental (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/eu-nao-ia-desistir-a-busca-de-ajuda-de-maes-que-vivenciam-violencia-filioparental (Obra original publicada em 2023 em Journal of Family Violence, 39(4), 567-579 (2024); republicada em 2024 por Journal of Family Violence, https://link.springer.com/article/10.1007/s10896-023-00511-z)
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